segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Entrevista: Paulo André - O próximo lance é uma greve

Veja - 25/11/2013

O líder do Bom Senso F.C., o movimento de jogadores que pressiona a CBF por um calendário racional, diz que o "jeitinho brasileiro" foi o grande mal do futebol.

Paulo André Cren Benini é um jogador fora do padrão. Enquanto a maioria de seus colegas passa o tempo na concentração jogando videogame, ele lê Dostoievski e Voltaire, pinta e escreve. Nas horas de folga, os boieiros vão a um churrasco com pagode e Paulo André prefere os museus.

Aos 30 anos, o zagueiro campeão mundial pelo Corinthians (contratado do Le Mans da França, onde atuou durante quatro temporadas) resolveu aproveitar sua experiência na Europa e a capacidade de liderança para promover um inédito movimento de jogadores que enfrenta a sisuda e antiquada Confederação Brasileira de Futebol (CBF) na organização dos campeonatos e mesmo na gestão financeira dos clubes. Entre uma partida e uma reunião Paulo André falou a VEJA.

 O que quer o Bom Senso F.C.?

Há dois pontos principais. O primeiro é a redução do número de jogos dos clubes da elite e o aumento do calendário para os times das divisões inferiores. O segundo é a implementação do que chamamos defair play financeiro, com o objetivo de punir os clubes que gastarem mais do que arrecadarem.

Como começou esse movimento?

O Alex (meia do Coritiba) e o Juan (zagueiro do Internacional) tiveram uma primeira conversa depois de um jogo (em 1º de setembro). Soube da conversa, liguei para o Alex e em cinco minutos a gente decidiu começar um movimento. Daí, convidamos outros atletas. Vieram o Juninho Pernambucano, o Seedorf. o Rogério Ceni, o Edu Dracena, o Fred e o Elias. A queixa é geral. Há uma sensação unânime. Quem volta da Europa vê que o potencial humano no Brasil é gigantesco, mas que a estrutura está emperrada, enferrujada. A gente tem tudo neste país, por que não explorar melhor?

Nas mais recentes rodadas do Campeonato Brasileiro, os jogadores entraram em campo com faixas e ficaram parados por alguns segundos depois do apito inicial do juiz. Quais são os próximos protestos?
A ideia é aumentar gradativamente enquanto não houver uma resposta da CBF às nossas exigências. O jogo do Flamengo com o São Paulo (em 13 de novembro, quando os jogadores adversários ficaram trocando passes de um lado para o outro do campo por um minuto) foi marcante. O torcedor claramente entendeu e apoiou.

Os jogadores podem entrar em greve?

É uma possibilidade real. Não é um absurdo se resolvermos parar. A gente espera que a CBF apresente uma proposta que seja benéfica para o futebol. Senão, não há muito que fazer além da greve. As ameaças de punição não vão nos deter.

A greve pode ocorrer ainda neste campeonato?

A CBF não acredita na força do nosso movimento. Eles estão nos testando e vamos aumentar o tom. Nas próximas rodadas, os jogos começam no mesmo horário, o que aumenta a repercussão do que fizermos. O risco de greve é muito grande. Já nos deram a ideia até de cada time fazer um gol contra de propósito. Mas isso seria inaceitável pelo desrespeito com o torcedor. Aceito desafiar os poderosos, mas não desmoralizar o futebol.

Como vocês combinam as ações?

Há 150 jogadores que trocam mensagens pelo WhatsApp. Hoje mesmo (sexta-feira retrasada) trocamos mais de 200.

O jogador hoje é mais consciente?

No geral, o jogador tem mais acesso à informação. Ainda há medo de se posicionar e sofrer retaliação da torcida, da diretoria e das entidades, mas entre os jogadores há muita discussão sobre os problemas do futebol. Entretanto, pelo medo de retaliação e por historicamente a classe ser desunida, é difícil o jogador se expor em público.

Os líderes do Bom Senso F.C. são atletas em fim de carreira. Os novos estão com medo ou foram orientados a não protestar?

Os dois. Os jogadores que começaram a reclamar do calendário foram aqueles que passaram um tempo na Europa e voltaram para o Brasil. A pergunta que todos fazem é: "Como é possível eu ter saído daqui há tanto tempo e nada ter melhorado?". Começamos a conversar e perceber a evidente precariedade do futebol no nosso país. Por terem uma condição financeira melhor, os mais velhos são o carro-chefe do grupo. Os mais novos sempre estão mais expostos a retaliações.

A CBF atrapalha o futebol brasileiro?

A Fifa sabe que seu papel é vender futebol. Percebeu que para ganhar mais dinheiro é preciso qualificar o produto. Então, começou a cuidar do gramado, do estádio, da qualidade dos times. É o padrão Fifa. Na Uefa é a mesma coisa. É uma entidade que organiza a Champions League e a Euro e decidiu dar prioridade à capacitação de treinadores. Porque são eles os formadores dos atletas, que vão desenvolver o futebol-arte e, assim, atrair público para o espetáculo. Dessa forma, a Uefa ganha mais dinheiro. Já a CBF não faz nada para melhorar a qualidade do que vende. Nada. A CBF não entende que o ingresso está caro para o jogo que está sendo vendido. A CBF ganha milhões com a seleção, com os patrocínios e, segundo ela, não ganha nada com o Campeonato Brasileiro. Talvez seja por isso que ela não se interesse em fazer um calendário que propicie um futebol de qualidade. Os gramados são horríveis, os antigos estádios estão péssimos. Tem jogo todo dia na televisão sem o menor critério de qualidade. Só quantidade. Seria fundamental adotar o modelo inglês, em que a confederação cuida da seleção e a liga de clubes dos campeonatos.

A Rede Globo tem interesse nessa mudança?

A Globo tem diálogo total com o movimento. Eles estão sendo solícitos e são os mais preparados para a discussão do novo calendário. A Globo aceita que não haja mais futebol em janeiro. Como a audiência nesse mês é baixa, é melhor aumentar a pré-temporada. Eles estão no direito deles, de lucrar com o futebol. O problema é a CBF, que não defende o futebol.


Um caminho seria limitar o mandato dos dirigentes das entidades esportivas?

Sim. A democracia e a alternância de poder são fundamentais para qualquer instituição. A medida provisória que prevê o direito a apenas uma reeleição nas federações que usam dinheiro público é crucial. O direito a voto direto dos atletas também tem o apoio do Bom Senso F.C.

Como respondem à crítica de que vocês querem jogar menos e ganhar a mesma coisa?

Essa é a maior inverdade. Reduzindo o número de jogos, o espetáculo fica melhor e o interesse do público aumenta. A gente busca o bem do futebol. não nosso conforto. Queremos reduzir o limite anual máximo de jogos para 73. Hoje, o Campeonato Brasileiro tem 38 jogos, a Copa Libertadores catorze, ou dezesseis se a equipe tiver de disputar a pré-Libertadores. Ainda há a Sul-Americana e a Copa do Brasil. Antes de tudo isso, os times têm de disputar os campeonatos estaduais. Para fazer um estadual com um mínimo de charme, uma das propostas é a redução de dezenove para sete jogos, com as mesmas regras da Copa do Mundo. Nesse formato, mesmo um estadual com 32 times pode ter um campeão definido em apenas um mês. No caso de clubes menores, da terceira à quinta divisão do Brasileiro, o problema é o oposto. Eles precisam de mais jogos. É a única maneira de sobreviverem.

Os jogadores aceitam ganhar menos para que os clubes reorganizem suas finanças?

Sim. O movimento defende a implantação do fair play financeiro, que pode resultar na redução dos altos salários dos jogadores. O clube terá de apresentar a cada três meses uma comprovação do pagamento de todas as suas obrigações, correndo o risco de ser suspenso se estiver inadimplente. Para conseguirem isso, alguns times deverão contar com elencos mais baratos. O torcedor e os atletas terão de entender que esse é o preço a ser pago para que o futebol brasileiro se reorganize.

O que, nos serviços brasileiros, tem padrão Fifa?

De padrão Fifa não temos nada. A CBF é padrão "jeitinho brasileiro".

É bom para o Brasil sediar a Copa do Mundo?

Quando foi anunciada a Copa com dinheiro privado, eu comprei a ideia. Hoje, vejo que 90% dos estádios utilizaram dinheiro público. Percebi que não foi cumprido o combinado.A Copa mexe com o imaginário, desde 1950 o Brasil sonhava em sediar mais uma. Mas havia outras prioridades para o uso desse dinheiro. Era melhor investir em educação de qualidade, saúde pública decente, transporte melhor. Se fosse a Copa do dinheiro privado, não teria problema. Como não foi, lamento a gastança na construção dos estádios.

Existe corrupção no futebol?

Existe, assim como na sociedade. Se não houver regulação e fiscalização, haverá desvio.

O futebol brasileiro está decadente?

Está em crise desde 2002. As vitórias tapam os erros e as péssimas administrações. O Brasil corre o risco de ganhar a Copa, mascarar os problemas estruturais e só voltar a essa discussão em dois ou três anos. Mesmo assim, torço para que o Brasil erga a taça e o futebol melhore. As duas coisas juntas seriam o verdadeiro legado da Copa.

Como é a rotina de um jogador de primeira divisão?

Desde os 20 anos eu não vou nem a casamento de amigo. Toda sexta, sábado e domingo estou concentrado ou jogando. Desde que sou atleta, não viajo no fim de semana, não sei o que é feriado, não sei o que são dois dias de folga seguidos.

O torcedor, como só vê o time nos dias de jogos, na quarta e no domingo, acha que trabalhamos pouco. É ilusão pensar que todo jogador é milionário. Só 3% dos profissionais recebem bem a ponto de poder encerrar a carreira aos 35 anos e viver de renda. Para 97%, a vida é atribulada e não dá chance de poupar para o futuro.

A vontade de jogar uma partida de primeira fase no estadual é a mesma que se tem em um jogo de Libertadores?

Nem se compara. Tem dia que você vai para o jogo e o último lugar que queria estar é no gramado. É um sentimento inconsciente, claro, muito em razão da pressão psicológica sofrida o ano todo. Fizemos um levantamento que mostra que o jogador de um grande clube brasileiro tem vinte dias de folga no ano. Já o trabalhador comum tem 52 fins de semana. Ou seja, mais de 100 dias.E nossos vinte dias são afetados pela pressão que sofremos por resultados, pelas críticas, por caras que atiram rojões ou pedras contra nós.

A concentração é necessária?

Não, mas para mim acabou sendo útil. Uso o tempo da concentração em coisas produtivas, como escrever meu livro. Os caras achavam que eu estava ficando louco, não saía do quarto. Já pintei quadros, vi muito seriado. Agora gasto o tempo fazendo essa agitação do Bom Senso F.C.

Qual a diferença do cotidiano de um jogador no Brasil e na França?

Aqui  chego sexta-feira às 15h30 para treinar e só volto para casa no domingo à noite, depois do jogo. Mesmo que eu fique em um bom hotel, são dois dias e meio concentrado. Como jogo duas vezes por semana, são 160 dias do ano concentrado. Na Europa, eu me apresentava na hora do almoço, descansava e jogava à noite. Não tem concentração. Há ainda o exagero das viagens. Lá, a média de um time é viajar 8000 quilômetros por temporada. Aqui, os grandes clubes de São Paulo voam 35000 só nos campeonatos nacionais. A queda de rendimento é inevitável.

Você pinta e escreve. De onde veio essa motivação? 

Quando jovem, fui estudar porque achava que não seria jogador. Mas virei profissional no Guarani, ganhei meu dinheiro, fui para a França. Lá, machuquei o joelho e fiz três cirurgias. Fiquei um ano e meio parado. Aí decidi voltar a estudar, fui ler filosofia e psicologia, porque estava com depressão. Li tudo de Dostoievski, tudo de Voltaire. Fiz curso de educação financeira. Fui ao Louvre e achei tão incrível que resolvi pintar. Não entendo de arte. Aquilo começou como um hobby para acabar com a minha dor.

domingo, 24 de novembro de 2013

Poesia renovada

 O Globo 24/11/2013

AOS PÉS DE ANA C.



Nome de destaque entre os chamados poetas marginais, com uma obra que permanece ao longo dos anos, Ana Cristina Cesar tem seus vários livros reunidos no volume ‘Poética’, lançamento da Companhia das Letras que lembra os 30 anos de sua morte e que traz, ainda, alguns inéditos da autora

NANI RUBIN
nani@oglobo.com.br

Ana Cristina Cesar morreu há 30 anos, mas, como diz um de seus amigos mais próximos, o também poeta Armando Freitas Filho, está vivíssima, mais viva do que nunca. A poeta que teve apenas um livro publicado comercialmente (“A teus pés”, em 1981), antes de se jogar do apartamento de seus pais, em Copacabana, num ensolarado 29 de outubro de 1983, teve mais seis volumes publicados postumamente, virou objeto de procura em sebos, fio condutor de espetáculos de dança e de teatro tema de teses acadêmicas e documentário. Agora, sua obra volta a ficar disponível, com o lançamento, amanhã, de “Poética”, edição da Companhia das Letras, detentora dos direitos sobre os escritos de Ana C., como às vezes assinava.


“Poética” reúne, além de “A teus pés”, seus três livros lançados de modo independente — “Cenas de abril” (1979), “Correspondência completa” (1979) e “Luvas de pelica” (1980). Traz ainda dois dos títulos lançados após sua morte: “Inéditos e dispersos” (1985), organizado por Freitas Filho, e “Antigos e soltos” (2008) selecionados por Viviana Bosi.

Um apêndice com textos de Armando Freitas Filho, Clara Alvim e Silviano Santiago, entre outros, e uma cronologia assinada por Waldo Cesar, pai da autora, enriquecem o volume, que tem inéditos garimpados por Mariano Marovatto no acervo da poeta no Instituto Moreira Salles. O capítulo, chamado “Visitas à oficina”, inclui um poema escrito à máquina pela secundarista do Colégio Bennett, aos 16 anos (leia ao lado), sobre o qual o professor escreveu “Lindo!”. Outro, “Noite carioca II”, deveria ter entrado em “A teus pés”. Freitas Filho, curador editorial de “Poética”, a quem Ana Cristina pediu aos pais que entregassem todos os seus escrito caso lhe acontecesse algo, encara a publicação dos inéditos, desde 1985, como uma espécie de deslealdade permitida:

— Eu traí a Ana para nós termos a Ana. Pensei assim: se o Max Brod tivesse aceitado o pedido de Kafka de destruir seus manuscritos, a gente não teria Kafka — compara ele, que pensou (e pesou) cuidadosamente cada um dos textos. — Eu me fazia o tempo todo a pergunta: o que a Ana iria achar? Porque ela tinha uma autoexigência enorme, tudo tinha que ser perfeito — conta ele, que fala com conhecimento de causa: foi revisor final de “A teus pés”, leitor privilegiado e personagem da “Correspondência completa”, sob o nome de Gil (Mary, outra personagem, é Heloisa Buarque de Hollanda, que, em 1976, incluiu Ana Cristina, então sem nenhum livro publicado, na sua mítica antologia “26 poetas hoje”).

O amigo e confidente escolheu o que achou “que valesse a pena”, mesmo duvidando, como diz, “que ela aprovasse com grau dez, que era a nota dela, tudo isso”. A menina que ditava poemas para a mãe aos 5 anos de idade, que escreveu, aos 16, “Eu não sabia/ que virar pelo avesso/ era uma experiência mortal”, que se dizia “uma mulher do século XIX/ disfarçada em século XX”, e que, dois meses antes de morrer, declarou em versos “Estou vivendo de hora em hora, com muito temor”, era uma poeta sofisticada, leitora de Emily Dickinson, Katherine Mansfield (sua tese de mestrado em Essex, na Inglaterra, foi sobre “Bliss”, da autora), Jorge de Lima e Manuel Bandeira. Como seus colegas de geração, partiu de uma espécie de diário íntimo para alçar voos mais complexos, embebidos em feminilidade, com um texto trabalhado, “tudo muito bem feito entre o cálculo e o acaso”, define Freitas Filho:

— Enquanto a geração marginal fazia um poema do tipo polaroide, de revelação instantânea, a poesia da Ana sempre exigiu o contrário, uma segunda leitura para você apreender aquilo, para ir em frente com aquilo. Por isso ela durou.

Por isso, também, seus leitores se renovam. Hoje com 28 anos, a atriz Bianca Comparato conheceu sua poesia aos 19, na PUC, onde Ana Cristina cursou Letras, e agora, prepara-se para interpretála no cinema. Cooptou para o projeto o também poeta Michel Melamed, que escreverá o roteiro, e a cineasta Julia Murat.

— O sucesso do Paulo Leminski (“Toda poesia”, da mesma editora, vendeu 65 mil exemplares) mostra que existe um desejo por poesia — diz a atriz, que, enquanto trabalha no argumento, vai conquistando, no boca a boca, ou no poema a poema, novos fãs para Ana C.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A luta é dura, e não termina - Tarso Araujo

Valor Econômico - 22/11/2013

Eram três horas da tarde de 2 de dezembro de 1993. Sobre um telhado na cidade de Medellín, o grupo de homens armados posava para uma foto ao redor da caça recém-abatida. Jazia ali a presa mais poderosa que a guerra às drogas já conhecera: Pablo Escobar, o traficante que fez da cocaína um dos negócios mais lucrativos do mundo. Em pouco mais de duas décadas de atividade, o colombiano exportou centenas de toneladas de pó para os Estados Unidos e submeteu o governo de seu país a uma longa temporada de terror e humilhação. Assassinou dezenas de milhares de pessoas e tornou-se um exemplo seguido por legiões de criminosos no mercado que "el patrón" ajudou a ampliar e consolidar. Depois de longa caçada, ele estava morto. Uma batalha fora vencida, mas a guerra contra as drogas continuaria longe do fim.
Vinte anos após sua morte, o legado de Escobar se mantém vivo, com franca globalização do tráfico de cocaína. No México, hoje um dos polos do mercado internacional da droga em mais rápida expansão nos últimos anos, a violência veio crescendo em ritmo correspondente. As gangues não apenas matam, como assumem abertamente a autoria de homicídios - e, para intimidar os adversários, divulgam pela internet vídeos de decapitações e esquartejamentos. A produção de cocaína nos Andes (Colômbia, Peru e Bolívia), em 2011, é estimada pela ONU em, no mínimo, 776 toneladas, podendo ter chegado a 1.050 toneladas. Tudo isso, apesar de os Estados Unidos investirem cerca de US$ 15 bilhões por ano, em média, perseguindo traficantes, ao mesmo tempo que pressionam outros países a fazer o mesmo.

César Gaviria, presidente da Colômbia na época da caçada a Escobar, hoje roda o mundo defendendo a revisão das políticas de drogas. "Acreditávamos que o tratamento criminal do problema iria resolvê-lo. As convenções da ONU falam em um mundo livre de drogas, mas isso é utópico. O que há que fazer é administrar o problema", disse Gaviria em entrevista após palestra em Brasília, na qual criticou duramente o projeto de lei em discussão no Senado, que altera a lei de drogas e aumenta a repressão sobre usuários e traficantes. "É impressionante como o mundo inteiro vai em outra direção e o Brasil está dando um passo atrás."

Ao lado de Fernando Henrique Cardoso, Gaviria foi um dos ex-presidentes fundadores da Comissão Latino-Americana de Drogas e Democracia (hoje, Comissão Global de Políticas de Drogas), que, a partir de 2009, passou a pedir mudanças nas políticas de drogas. Eles abriram caminho para outros líderes da região expressarem sua insatisfação com a linha dura, que custa tanto dinheiro e tantas vidas, sem produzir os efeitos desejados de redução da demanda e da oferta - e ainda cria terreno para todo tipo de violações de direitos humanos. Depois de algumas manifestações a favor da descriminalização do uso de drogas, o debate sobre a legalização se intensificou, principalmente a partir de 2012. Em junho do ano passado, o presidente do Uruguai, José Mujica, anunciou seu plano de regulamentar a maconha no país, e em outubro dois Estados americanos aprovaram leis para legalizar o uso recreativo da droga. A ideia de discutir a legalização recebeu o apoio de mais dois ex-presidentes, os mexicanos Vicente Fox e Felipe Calderón, e dois presidentes em exercício: Otto Pérez Molina, da Guatemala, e Juan Manuel Santos, da Colômbia.
A luta que a Colômbia e os Estados Unidos empreenderam contra Escobar é um exemplo histórico de como a estratégia de guerra pode custar caro a um país. Enquanto as autoridades aumentavam seus investimentos no combate ao cartel de Medellín e fechavam o cerco a seu chefe, Escobar levava às últimas consequências sua política de "plata o plomo", oferecendo o dinheiro da propina ou o chumbo das balas de revólver a quem se colocasse em seu caminho. "Escobar se sobressaiu porque não tinha nenhum tipo de escrúpulo para praticar a violência", diz Eduardo Sáenz-Rovner, historiador especialista em narcotráfico da Universidad Nacional de Colombia. "E tinha a vantagem de que nessa época o país era um Afeganistão, onde se podia operar com total impunidade."

Quando a "guerra" destrói uma grande organização, seu lugar geralmente é ocupado não por uma, mas por várias outras, menores"


Com seu poder econômico e de fogo, Escobar inauguraria o narcoterrorismo e afundaria o país numa profunda crise institucional e de segurança. Comprando alianças e a simpatia popular com distribuição de dinheiro e casas, ele chegou a se eleger suplente de deputado em 1982, para evitar a extradição aos Estados Unidos. Denunciado como traficante em 1983, declarou guerra ao Estado. Executou dezenas de juízes e ministros da Suprema Corte e centenas de policiais e inocentes. Ordenou centenas de atentados a bomba, vários deles contra jornais, e sequestrou centenas de pessoas, incluindo o vice-presidente Francisco Santos Calderón, em 1990. Em 1989, no auge da guerra, mandou matar o líder da corrida presidencial, Luis Carlos Galán, que havia feito da extradição uma promessa de campanha. Três meses depois, explodiu um avião comercial com 107 passageiros, para tentar matar Cesar Gaviria, que assumira a candidatura no lugar de Galán. Morreram todos os passageiros e três pessoas atingidas no solo por partes do avião. Mas o canditato não havia embarcado e acabou sendo eleito.

Em 19 de junho de 1991, a assembleia que votava a nova Constituição tornou inconstitucional a extradição de cidadãos colombianos, possibilidade restaurada em 1997. Na tarde do mesmo dia, com a garantia do governo de que não seria enviado para os Estados Unidos, Escobar e seus principais guarda-costas enfim se renderam - e se mudaram para "La Catedral", prisão de luxo que ele mesmo construíra. Um ano depois, torturou e matou dois traficantes suspeitos de roubá-lo, dentro da "cadeia", para humilhação de Gaviria e de todo o governo colombiano perante a opinião pública e a comunidade internacional. Determinado a prendê-lo de verdade, o presidente ordenou a invasão de La Catedral. Mas, como não havia cercas, Escobar fugiu pelos fundos. Começou então a caçada - "uma operação militar extremamente complexa", segundo Gaviria -, que só terminaria com sua morte.

Apesar de todo o apoio de inteligência e tecnologia dos Estados Unidos, a perseguição durou 16 meses. "Era difícil, porque as pessoas, em Medellín, o amavam e o ajudavam. E quem não gostava dele tinha medo", diz Javier Peña, agente da Drug Enforcement Administration (DEA), que a partir de 1988 colaborou com a polícia colombiana na operação. Em 1º de dezembro de 1993, dia do seu aniversário de 44 anos, o traficante se descuidou e fez uma longa ligação telefônica para sua família. As escutas da DEA o rastrearam e no dia seguinte ele era morto a tiros numa emboscada. Fim da linha para Pablo Escobar. Para a guerra contra a cocaína, era apenas o desfecho de uma primeira temporada.

A notícia da morte do chefão de Medellín na TV colombiana já anunciava as cenas dos próximos capítulos, apresentando o Cartel de Cali, numa espécie de linha de sucessão, como "a maior empresa de exportação de cocaína do mundo". Em 1991, já preso, Escobar era o maior exportador da droga para os Estados Unidos. Mas o novo esquema sofreria um baque, em 1995, com a prisão de seis dos sete líderes da organização.

"Muita gente achou que, sem Escobar e o cartel de Cali, se resolveria o problema do tráfico de cocaína. Mas isso era uma falsa premissa, porque o negócio continuava muito lucrativo", diz Bruce Bagley, cientista político do Departamento de Assuntos Internacionais da Universidade de Miami, especialista em narcotráfico.

Além de não conter o tráfico, a queda dos dois grandes cartéis colombianos nos anos 1990 produziu uma série de "efeitos colaterais indesejados". Com a demanda americana por cocaína mantida, outros grupos preencheram o vácuo deixado por eles. "É o que eu chamo de efeito barata. Se você dedetiza uma cozinha suja, elas simplesmente aparecem em outro lugar", diz Bagley. A história tem mostrado que esse fenômeno sempre se repete: quando um traficante ou grupo é tirado de circulação, surge outro para ocupar seu lugar.

AP / AP 
 
Ex-presidente César Gaviria: "As convenções da ONU falam em um mundo livre de drogas, mas isso é utópico. O que há que fazer é administrar o problema"
 
Os primeiros a aproveitar a oportunidade foram os cartéis mexicanos do Golfo, de Tijuana e de Juárez - hoje famosos pela violência, que matou mais de 60 mil pessoas nos últimos seis anos no México, segundo a Procuradoria Geral daquele país. Na Colômbia, também surgiram diversos grupos menores disputando pequenas fatias do mercado, chamados de "cartelitos". "No fim de 1994, já havia centenas deles", diz Bagley.

Enquanto os mexicanos assumiam a distribuição para os Estados Unidos, outros grupos ocupavam o vazio deixado pelos grandes cartéis na etapa de produção - na Colômbia, em conluio com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs), grupo armado rebelde que até hoje se sustenta com a droga. "Se eles não tivessem a cocaína não haveria como pagar suas armas. É a cocaína que financia a guerra aqui", diz o dinamarquês Bo Mathiasen, representante do Departamento de Drogas e Crime da ONU (UNODC, na sigla em inglês) na Colômbia. Afora esses dois maiores grupos, surgiram também centenas de organizações menores.

O "efeito barata" tem pelo menos duas complicações. O primeiro é seu caráter exponencial. Quando a "guerra" destrói uma grande organização, seu lugar geralmente é ocupado não por uma, mas por várias outras, menores. Em 2006, o tráfico do México para os Estados Unidos já era dominado por pelo menos sete organizações independentes. Hoje, são pelo menos 13. Além disso, nos grupos menores não existem lideranças tão centralizadas. A hierarquia mais horizontal dificulta as investigações e o desmantelamento da organização quando algum chefe é preso. "Hoje, lidamos com um problema muito mais sério e difícil de controlar, que se espalhou por todo o continente, com consequências até para a África e a Europa", diz Bagley.

O "efeito balão" é outra consequência crônica da guerra às drogas. Do mesmo modo que aniquilar uma organização criminosa acaba levando ao surgimento de outra(s), interditar uma rota ou erradicar plantações só provoca mudanças de endereço. Quando a polícia aperta uma ponta do balão, a outra se enche, mas o volume total de droga que circula e é produzida permanece mais ou menos o mesmo.

As autoridades conhecem esse fenômeno desde os tempos de Pablo Escobar. Nos anos 1970, o grupo de Medellín transportava toneladas de cocaína usando as velhas rotas caribenhas de contrabando de maconha e esmeraldas. Quando os americanos fecharam o cerco na região, em meados dos anos 1980, as rotas da América Central e do Pacífico ganharam importância. Em 1985, 75% das apreensões de cocaína destinada aos Estados Unidos eram feitas no Caribe. Cinco anos depois, a rota representava apenas 25% das apreensões. A maior parte era feita agora no México.

Acontece o mesmo no caso das plantações. Na décadas de 1980, praticamente toda a cocaína consumida no mundo vinha do Peru e da Bolívia. Na segunda metade dos anos 1990, os colombianos do cartel do Vale do Norte e as Farcs trouxeram a produção de pasta para o país, para aumentar sua margem de lucro. Nessa época, a Colômbia tornou-se o maior produtor de folha de coca do mundo e fez a produção global atingir seu ponto máximo histórico No início da década de 2000, os Estados Unidos começam a financiar a fumigação de cultivos na zona rural do país, como uma das principais ações do Plano Colômbia. A produção local caiu e em 2012 o Peru voltou a ser o maior produtor mundial de folha de coca.



A busca de novas rotas e mercados não cessa, e deixa marcas incisivas em várias partes da América Latina. Em 2006, o presidente mexicano Felipe Calderón colocou o exército na luta contra o tráfico e recebeu apoio americano. Os cartéis locais começaram uma luta sangrenta pelo controle de rotas e começaram a buscar outras saídas. No comando da divisão da DEA em Houston, Texas, a 500 quilômetros da fronteira, Javier Peña já sente os efeitos. "Sabemos que a América Central está vindo por aí. Aqui na cidade, temos muitas células de tráfico trabalhando com essas conexões", diz. Desde 2009, tornaram-se comum as chacinas e as prisões por tráfico e crimes conexos na Guatemala e em Honduras, principalmente.

Como a produção mundial se manteve na mesma faixa das 800 toneladas por ano, apesar de toda a repressão aos cartéis e dos planos Colômbia e Mérida, os traficantes andinos também procuram novas rotas rumo à Europa. E aí entra o Brasil na história. Segundo o UNODC, as apreensões de cocaína no Cone Sul aumentaram quase cinco vezes na última década, de 10 para mais de 45 toneladas por ano. O país é considerado hoje um dos principais corredores da droga para a Europa, mercado cuja dimensão está prestes a superar o dos Estados Unidos. O fato de o Brasil estar a meio caminho também ajuda a explicar a tendência de aumento de consumo percebida na região, inclusive a chamada "epidemia" de crack. O Brasil, com sua grande população, já é o segundo mercado mundial de cocaína em termos absolutos. Na Argentina, a fração da população que consome já é maior que nos Estados Unidos, com 2,5% de uso no ano. O movimento fez até países da África Ocidental, como Benin e Guiné Bissau, entrarem para a categoria dos "narco-estados".

"Eles estão sempre explorando a vulnerabilidade institucional dos países para conseguir novas rotas", diz Mathiasen, do UNODC. "O narcotráfico vai para onde houver menos risco - onde o Estado não funciona bem, sem juízes fortes, sem promotores bem pagos. E onde se instala' acaba piorando a situação. Cria-se um círculo vicioso. É a última grande guerra do continente."

Enquanto isso, os Estados Unidos comemoram o sucesso da erradicação de cultivos na Colômbia e uma redução de cerca de 40% no consumo de cocaína em relação aos níveis de 2005, ano de elevação máxima do consumo. Mas, comparando a produção e a demanda atual com as de 1993, quando Escobar morreu, os níveis são os mesmos. Para os americanos, a guerra à cocaína também não adiantou de muita coisa, graças a uma espécie de "efeito balão" da dependência química.

No Oeste americano, especialmente nos anos 1990, a metanfetamina tornou-se o principal problema do uso de drogas. Mais recentemente, a tendência é o aumento do consumo de remédios vendidos sob prescrição - principalmente opiáceos -, com altas alarmantes no índice de overdose. Especialistas consideram que a demanda interna por cocaína pode ter caído simplesmente por que a droga saiu de moda, e não por causa de uma redução da oferta que se possa atribuir ao combate frontal ao tráfico.

Resumindo, a nova temporada da guerra às drogas pode não ter causado grande comoção nos Estados Unidos, mas tem custado caro para o resto do continente, com reflexos até do outro lado do Atlântico.

Reuters / Reuters 
 
"É a cocaína que financia a guerra aqui", diz Bo Mathiasen, da ONU, referindo-se à ligação das Farcs com o tráfico (na foto, guerrilheiros em região dominada)
 
A insatisfação com o resultado da guerra às drogas na América Latina e o debate provocado pela Comissão Global teve seu primeiro desdobramento diplomático deste ano. As políticas de drogas foram o tema central da última assembleia geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), realizada em junho na Guatemala. Um mês antes, a organização apresentou dois relatórios sobre o assunto. Um deles analisa a situação das drogas no continente, o outro examina cenários hipotéticos do que poderia acontecer na região em 2025. Em um deles, tratou-se objetivamente dos efeitos e desafios de se regulamentar o comércio das drogas proibidas por convenções internacionais.

"Isso não é uma conclusão, mas apenas o início de uma discussão longamente aguardada", disse o secretário-geral José Miguel Insulza no discurso de apresentação do documento. "Ninguém aqui está defendendo a legalização nem a guerra total, mas precisamos de estudos como esses para encontrar soluções melhores. Às vezes, divergimos sobre como chegaremos lá, e isso vai nos ajudar a alcançar um acordo."

Especialistas esperam que o documento influencie o debate regional e permita uma discussão mais pragmática. "Esperamos que, a partir de uma discussão honesta e baseada em evidências científicas, surja uma coalização na América Latina", diz Ilona Szabó, especialista em relações internacionais e colaboradora do Informe de Cenários da OEA. Diretora da rede Pense Livre, que promove o debate no Brasil, ela defende uma atuação em bloco dos países da região na Assembleia Geral das Nações Unidas Sobre Drogas, que acontecerá em 2016. "Para o Brasil, seria importante deixar de defender a abordagem americana e avaliar sua adesão aos países que buscam políticas mais eficientes."

Bagley é cético sobre uma ação conjunta. Ele lembra que os países da América Latina têm rivalidades históricas e que há 500 anos resolvem seus problemas de modo individual - muitas vezes, sob influência direta dos Estados Unidos. "Quando mataram Escobar, os colombianos queriam resolver seus próprios problemas e não estavam preocupados com os países vizinhos. Os mexicanos estão fazendo a mesma coisa agora, empurrando seus problemas para a América Central", diz. Para o acadêmico, o que se verá na região serão soluções individuais tomadas por países isolados, como tem feito o Uruguai. "É claro que seria melhor uma resposta única e coordenada, mas não acho que isso seja provável."

O fato é que até na ONU, responsável pelas convenções que proíbem as drogas e historicamente atua como uma das principais defensoras da linha dura no combate às drogas, já se admite a importância de discutir alternativas. "Esse debate é muito importante. É preciso discutir sobre porque nem tudo funciona", diz Mathiasen. "Creio que o resultado serão políticas mais voltadas à proteção das pessoas, porque muitas vezes há um desequilíbrio, com muito investimento em punição, sem cuidado com prevenção, saúde e bem-estar social."

O principal sintoma de que os ventos estão mudando vem dos Estados Unidos, centro de comando planetário da guerra às drogas. Em 1996, uma onda de leis que regulamentam o uso de maconha "medicinal" nasceu na Califórnia e chegou a outros 19 Estados. A rigor, os dispensários só podem fornecer a droga para doentes com receita médica. Na prática, as leis viraram uma forma de driblar convenções e legalizar o uso. Até o governo federal, em seu documento anual sobre o controle de drogas, usa aspas para falar da droga vendida nas farmácias de maconha. No ano passado, Colorado e Washington foram direto ao ponto e legalizaram a venda para usuários recreativos, sem indicação médica. As vendas começam no início de 2014.
Folhapress / Folhapress 
 
Brasil na rota da cocaína: policial federal acompanha dinamitação de pista utilizada por traficantes na fronteira com a Colômbia
 
 
"Certamente, já se pode falar no fim da guerra às drogas. Os Estados Unidos já mudaram sua política interna sobre drogas, quando o governo federal permitiu que os Estados de Colorado e Washington implementem a regulação da maconha. Precisamos agora cobrar que a política externa também mude", diz Szabó.

Para Gaviria, os avanços americanos são consequência de uma opinião pública mais esclarecida que a do resto da América Latina. "Eles já não acreditam que a maconha seja mais daninha que o álcool e sabem que essas políticas repressivas são um fracasso", diz o ex-presidente colombiano. De fato, pesquisas em diversos países mostram que os latino-americanos são geralmente contra a legalização. Nos Estados Unidos, uma pesquisa feita pelo Instituto Gallup em outubro mostrou que 51% da população americana apoiam a medida.

Isso não quer dizer que os Estados Unidos vão dar o braço a torcer tão cedo. Para Bagley, há pelo menos três razões para explicar a resistência americana. "A primeira, ideológica e religiosa, é que as drogas são simplesmente uma coisa má e devem ser combatidas por razões morais. Some-se a segunda, o medo das famílias de classe média de que seus filhos e comunidades sejam dominados pelo uso de drogas, e chegamos ao "x" da questão. Essas duas coisas converteram o problema das drogas em uma questão eleitoral. O medo de perder votos colocou o governo federal numa paralisia de mais de 20 anos que impediu qualquer discussão racional."

O que, afinal, permite que os Estados avancem, apesar dessa "paralisia", é a crise financeira. Os Estados Unidos são o país com a maior população carcerária do mundo e sua política de drogas está diretamente ligada a isso. Dados do Departamento de Justiça mostram que, em 2011, 1,5 milhão de pessoas foram detidas no país, 80% delas por simples posse de drogas. E cerca de 17% dos presos em penitenciárias estaduais são acusados de crimes relacionados a drogas. Só que correr atrás de usuários e mantê-los presos custa muito dinheiro. Profundamente endividados após a crise global de 2008, os Estados começaram a fazer as contas e viram que, em vez de gastar milhões prendendo usuários, podem lucrar com impostos sobre a venda da droga.

"Por causa da crise fiscal, os Estados estão em busca de alternativas para economizar e arrecadar e isso criou uma ruptura no consenso sobre as leis de drogas", diz Bagley. "Depois de Colorado e Washington, já se organizam iniciativas semelhantes em outros quatro Estados, que provavelmente vão legalizar em 2014. Em 2016, podemos esperar uma avalanche de outro Estados fazendo o mesmo porque, simplesmente, não podem mais continuar com a linha dura que tem saído tão caro para os contribuintes."
Com essa implosão do proibicionismo em seu próprio ninho, parece que a guerra às drogas tende mesmo a acabar, depois de ter feito milhões de vítimas e nenhum vencedor. Com tanto sangue derramado, o conflito provavelmente acabará por causa da "plata', e não do "plomo".

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Antologia negra

O Globo 19/11/2013

O afrobeat de Femi Kuti, a emoção dos Blind Boys of Alabama, a intensidade de Buika e o soul verdadeiro de Bobby Womack compensaram os problemas logísticos do Back2Black



SILVIO ESSINGER
silvio.essinger@oglobo.com.br

Vários foram os problemas — da falta de estacionament aos atrasos nos shows —, mas os momentos antológicos compensaram de sobra as dore de cabeça ao longo da quinta edição do festival Back2Black, que ocorreu de sexta-feira a domingo. Em seu primeiro ano na Cidade das Artes, na Barra (depois de toda uma existência na Estação Leopoldina), o evento em celebração à cultura negra começou à toda na sexta, reunindo seu maior público (3.800 pessoas) em noite que teve, no Palco Rio (localizado no aconchegante pilotis da Cidade, com paredes e teto decorados por projeções), quatro grandes shows: os do MC congolês Baloji (incendiado de vez com uma participação do MC Marechal), do violonista nigeriano Keziah Jones (de groove incessante), do rapper Criolo (aditivado ao fim pela bateria do mestre do afrobeat Tony Allen) e, mais do que todos, o de Femi Kuti.

Acompanhado por dançarinas-cantoras e por uma banda para lá de azeitada, o muito elétrico maestro (filho do criador do afrobeat, Fela Kuti) se revezou no sax, na clarineta, nos vocais e nos teclados, num baile dos mais quentes, com canções de alto teor político (“Africa 4 Africa”, “The world is changing”) e metais em brasa.

No sábado, o espetáculo mais aclamado foi o da Grande Sala (onde, na noite anterior, se apresentara Milton Nascimento), de acústica perfeita, à qual se chega subindo escadas rolantes. Patrimônio do gospel, blues e r&b com mais de 70 anos de existência, o grupo The Blind Boys of Alabama, com seus três cantores cegos, fez jorrar emoção com suas canções de alegria e de louvor que vieram, em boa parte, do seu álbum mais recente, “I’ll find a way”. Gritos, falsetes arrepiantes e harmonias celestiais não faltaram no contagiante show, que culminou com a ida do cantor Jimmy Carter para o meio do público e a aparição surpresa no palco do reverendo Jesse Jackson, ajudando a animar a sala.

Enquanto isso, no Palco Rio, o bem costurado pop da cantora Mayra Andrade (nova estrela de Cabo Verde) e a cumbia africanizada da senegalesa Orchestra Baobab prepararam os ânimos para o show em homenagem a Miriam Makeba, mito da música e do ativismo sul-africanos. Guiado pela neta de Makeba, Zenzi, o espetáculo teve atrasos e foi longo, seguindo morno até a entrada de Gilberto Gil, que acordou o povo por volta das 2h com “Oração pela libertação da África do Sul”.


No domingo, a chuva que caiu ao longo do dia obrigou o festival Back2Black a realizar mudanças logísticas. O cantor e mito do soul americano Bobby Womack, de 69 anos, que estava programado para se apresentar no Palco Rio, teve seu show transferido para a Grande Sala. E quem acabou pagando o preço da transferência foi a cantora Mart’nália, que entrou no palco ainda em meio aos ajustes técnicos e tentou, com bom humor (mas em vão), reverter o atraso e os problemas técnicos e fazer a estreia de seu show em homenagem a Vinicius de Moraes.


Já sem problemas de som (mas também com atraso), a cantora espanhola Buika fez um dos grandes shows do Back2Black. Intensa, afro-cigana, com uma voz tirada do útero, Buika arrebatou ao passar por canções como “Santa Lucía”, “Tu volverás”, “Siboney” e “Se me hizo fácil”.


Já Bobby Womack chegou disposto a provar que estava bem vivo. Voz em dia, ele releu seus hits e abriu espaço para o trio de vocalistas de apoio (entre elas, a sua própria filha, GinaRe). Ficou para a extasiada plateia a impressão de ter visto, em pleno voo, um dos últimos exemplares da espécie dos soulmen verdadeiros. Quem sobreviveu ainda pôde conferir, madrugada adentro, um tributo a James Brown com a Banda Black Rio e o saxofonista de Brown, Pee Wee Ellis. Um belo (mas tardio) espetáculo.


domingo, 17 de novembro de 2013

PRIMEIRA CERIMÔNIA COLETIVA DE CASAMENTO CIVIL HOMOAFETIVO DO BRASIL




Em todos os tons



JP Rufino é o destaque do início de ‘Além do horizonte’ como Nilson


Juliana Alves completa dez anos de carreira como atriz e revela: ‘Nunca quis ser uma referência’

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ENTREVISTA - Lázaro Ramos

Ao lamentar a falta de criadores negros na TV, Lázaro Ramos diz que deseja, cada vez mais, produzir e dirigir para imprimir o seu olhar

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Abrindo caminhos

Glória Maria, Heraldo Pereira e Zileide Silva sabem que são referências para a população negra e torcem por mais diversidade

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HISTÓRIAS CRUZADAS

Representantes de três gerações, Ruth de Souza, Zezé Motta e Taís Araújo refletem sobre a presença do negro na televisão nas últimas décadas

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Novela e negritude

As histórias das produções que marcaram a
representação afrodescendente na TV

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Ecos da História

Terceira temporada do ‘Heróis de todo mundo’, do Futura, apresenta 15 personalidades negras na interpretação de figuras contemporâneas

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REFLEXOS DO MITO

 CADERNO ALIÀS 

O Estado de São Paulo / 17/11/2013

Meio século depois, o que  ficou de John F. Kennedy, além das teorias de conspiração em torno de seu assassinato?





Lee Siegel alfineta:
 
"Ele governou com a incauta indulgência de um imperador romano"

O estranho mundo de Jack - Lee Siegel  

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Cláudia Trevisan lembra:
 
“Em 1963, a paciência de JFK com a segregação se esgotou – com algum atraso”
 
 'Silenciosa dignidade' - Cláudia Trevisan 

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Moniz Bandeira resgata: 

" O presidente americano preparou todas as condições para derrubar Goulart"

 Irmão Sam - Wilson Tosta

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José de Souza Martins registra:
 
“No Brasil, nasceu até uma Avenida João Kennedy, um Kennedy meio nosso, macunaimicamente digerido por nossa antropofagia crônica ” 
 
Soube do João? - José de Souza Martins

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Denise Chrispim  insinua:
 
“Tantas eram suas façanhas amorosas que a primeira-dama certamente viu rastros de pés femininos à beira da piscina”
 
Todas as mulheres do presidente - Denise Chrisoim Marin
 
 

Sérgio Augusto calcula:
“ Com mais de 40 mil obras e outras a caminho, o assassinato resistiu melhor que a encomenda”
 
 Kennedy, John Kennedy - Sérgio Augusto

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Steven L. Davis alerta:

“O ódio que explodiu em Dallas agora se espalha pelo país”

 Bem-vindos a Dallas - Juliana Sayuri

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A forja de Camelot -  Christian Carvalho Cruz

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Um rosto na mira -  Thomas Mallon

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VAMOS ENTRAR PRA HISTÓRIA - ADRIANA CALCANHOTTO

O Globo 17/11/2013

Sobre o que escrever enquanto nas Filipinas as pessoas estão enfileirando corpos de entes queridos à beira da estrada, sem água, sem comida, sem saber se os parentes estão mortos senão vendo-os mortos, a filha, o irmão, a avó. Sem eletricidade, os aparelhos médicos, as máquinas de diálise, para dar um exemplo, não funcionam, e as pessoas estão morrendo por isso. Sem eletricidade, às escuras, o pouco que restou é saqueado, há mortes nesses saques, a ajuda tem que combater os saques antes para poder ajudar. Mulheres são agredidas, estão famintas e mortas de medo do escuro da noite.

Façamos um domingo de silêncio, no mínimo, por essas pessoas.

Mas agora, ao trabalho, vamos continuar perfurando mais e mais o planeta, em prol do crescimento. Vamos entrar com sondas profundas em camadas que ainda não perfuramos. E daí que desloquemos as placas das regiões abissais? Progresso. Ordem a gente vê mais tarde. Que impacto ambiental coisa nenhuma. Vão querer nos dizer que uma desgraça natural nas Filipinas tem relação com o nosso crescimento? Pois vamos continuar crescendo, vendendo mais carros, para poluirmos mais o planeta com o resíduo tóxico daquilo que fomos lá cavucar. Vamos destruir a camada de ozônio. Daqui a pouco aparece outra tsunami na televisão, coitados. As desgraças naturais são naturais como o próprio nome diz, nada têm a ver com o nosso crescimento. Vamos investir em combustível fóssil para ficarmos ricos. O petróleo é nosso. Como assim “nosso”? É do Rio ou é do Brasil? É do PT, do PSDB ou do DEM? Quem sabe de uma aliança espúria, ou melhor, uma bem cara de pau com sorrisos para as fotos, é mais cínico, mais na moda. E os que jogam todas as fichas em privilégios de informação do governo e perdem o jogo?

Alguns investidores de perfil conservador perguntam-se “mas já houve um case de sucesso antes?”. Quem já se deu bem apostando em energia eólica? Energia gerada por moinhos de vento? Aquela que não é utilizada na França só porque os franceses acham os cataventos feios? Perfurar é não mexer em time que está ganhando. São gerações de extrativismo. Importante é crescer agora, antes do pleito, vamos inaugurar construções em ruínas, e rápido. Bobajada essa coisa de energias alternativas. A tal da Energia Cinética. Imagina, geração de energia elétrica através das correntes marítimas. A alta e a baixa das marés fazem com que o mar todo flua, e essa energia, gerada pelas correntes marítimas, equipara-se em números ao que
produzem os tais cataventos eólicos para os quais os franceses fizeram bãfh. Tudo bem que vivamos em um país com uma costa considerável e de constante brisa. Vamos continuar enfiando as ruas de carros. Derrubando os prédios antigos, as obras-primas da arquitetura, para construirmos monstrengos modernos. Maiores.

Vamos comemorar o corte de árvores da Amazônia. Crescemos do ano passado para cá 28% em relação ao mesmo período do ano anterior. Números impressionantes. Nunca antes na história deste país a Amazônia teve menos árvores. E não vamos parar, a meta é crescer ainda mais. Com esses números, imagine daqui a uns anos, que beleza, a quantidade de carros rodando onde antes existia uma floresta, a maior do mundo, o pulmão do mundo, como se dizia antigamente, foi motivo de orgulho da Nação.

Continuemos maltratando os animais em nome do crescimento da indústria, são só animais, não são uma pessoa como outra qualquer. Somos a maravilha da criação. Superiores a qualquer forma de vida no planeta. A única espécie de vida sobre a Terra que está conseguindo derrotá-lo, somos os picões das galáxias. Vamos crescer, aumentar ainda mais, poluir mais, falar muito mais por muito menos, falar mais, mais, quebrar todos os recordes, rebentar a boca do balão.
Vamos entrar pra História.

‘AGORA ESTOU PREPARADA’

 CL Gente Boa O Globo 17/11/2013

Doze anos depois da morte de Cássia Eller, Lan Lan trabalha em musical sobre a cantora e faz shows pelo país


sábado, 16 de novembro de 2013

‘NÓS AMAMOS AS MULHERES’ [DOMENICO DOLCE E STEFANO GABBANA]

O Globo 16/11/2013

ESTILISTAS DOMENICO DOLCE E STEFANO GABBANA FALAM DA LOJA QUE VÃO ABRIR EM DEZEMBRO NO RIO, DO NAMORO QUE TERMINOU E DE PROCESSOS NA JUSTIÇA ITALIANA



O CARINHO NÃO ACABOU’



GILBERTO JÚNIOR
gilberto.junior@oglobo.com.br

A Dolce & Gabbana tem planos ambiciosos para o Brasil. Depois de inaugurar lojas em São Paulo, a grife italiana abrirá as portas em dezembro no Rio, no Shopping Leblon, ao lado de Burberry, Red Valentino, Salvatore Ferragamo e Versace. A expansão territorial da marca por aqui — Brasília, Recife, Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte e Campinas também estão na mira — acontece em momento turbulento. Os estilistas Domenico Dolce e Stefano Gabbana travam uma batalha contra a Justiça italiana, que os acusa de sonegação de impostos.

Nada que atrapalhe a criatividade dos designers. A dupla apresentou uma das coleções mais elogiadas da última edição da semana de moda de Milão. Para o verão 2014, a Dolce & Gabbana mostrou, como faz desde 1985, peças femininas e sensuais. E sempre com a italianíssima combinação de religião e sexo que é marca da grife. Madonna não é fã à toa.



Como se conheceram, já que um nasceu na Sicília e o outro em Milão?
Domenico Dolce:
Eu me mudei da Sicília para Milão no final dos anos 1970. Queria escapar do mundo onde cresci. Tudo acontecia em Milão. Eu queria estar no centro de toda essa energia.Stefano Gabbana: Nos conhecemos nos anos 1980. Depois que eu terminei os estudos, comecei a trabalhar como designer gráfico. Mas percebi que não era o que eu gostaria de fazer. Naquela época, em Milão, todo mundo só falava de moda. E eu tinha paixão por roupas. Mas eu não sabia nada sobre o assunto. Por meio de um amigo, ouvi dizer que um designer estava à procura de um assistente. No dia da entrevista, o estilista não estava no escritório. A pessoa que veio abrir a porta foi...
Domenico: Eu... E o contratei para trabalhar no ateliê.
Stefano: Ele me ensinou tudo. Domenico era muito paciente comigo.


Como surgiu a ideia de criar a grife? Podem dizer como foram os primeiros anos do negócio?
Stefano: Tudo aconteceu por acaso. Nosso primeiro escritório ficava num prédio repleto de advogados. Quando chegou o momento de escolher o nome da empresa, bastou colocar uma placa na porta com os nossos sobrenomes, como se fosse um escritório de advocacia.
Domenico: No início, dávamos consultoria para muitas marcas. Certo dia, recebemos um telefonema da Camera della Moda nos convidando para participar dos desfiles de novos talentos. Era junho e o show aconteceria em setembro.


É verdade que vocês usaram suas amigas como modelos no primeiro desfile por falta de dinheiro?
Stefano: Conhecíamos muitas meninas diferentes, incluindo atrizes, artistas, dançarinas, arquitetas e até professoras universitárias.
Domenico: Mas se as mulheres eram “reais”, os tecidos e os volumes eram muito novos e pouco convencionais.


Como é uma mulher real?
Domenico: Não temos uma musa. Nossa mulher é uma mistura do que nós amamos em mulheres bem diferentes, como Sophia Loren, Anna Magnani, Monica Bellucci e Madonna.
Stefano: É uma mulher que sabe o que quer, mas não é agressiva. Ela é capaz de atingir seus objetivos com mansidão.


Scarlett Johansson, Madonna e Kylie Minogue sempre são vistas com suas criações. O que a marca tem que agrada tanto às celebridades?
Stefano: Você deveria perguntar para elas. Quero acreditar que temos um relacionamento próximo com as estrelas porque elas se sentem bem com nossas roupas.
Domenico: Nós amamos as mulheres. Tanto que nosso único objetivo é fazê-las se sentir bonitas. Provavelmente, essa é a razão pela qual elas gostam de usar nossas peças.
Stefano: Algumas celebridades viram nossas amigas após termos iniciado uma relação profissional.
  

Além de parceiros de negócios, vocês tiveram um longo relacionamento... Como era trabalhar ao lado do namorado?
Stefano: Fácil. Nossa forma de trabalhar não mudou. A maior parte do tempo só falávamos. Conversávamos sobre qualquer coisa, sobre nossas roupas antes de se tornar um esboço.
Domenico: Quando o nosso namoro terminou, foi um pouco complicado. Não só por termos que lidar com o fim de um relacionamento de 20 anos, mas também por termos de encontrar uma nova forma de continuar a trabalhar.
Stefano: Mas o nosso carinho não acabou. Só assumiu uma forma diferente, a da amizade. Eu não saberia o que fazer sem o Domenico. Ele é a primeira pessoa que eu chamo quando eu tenho uma dúvida. Eu preciso saber o que ele pensa.
Domenico: A marca é, ao mesmo tempo, a expressão do que eu gosto e do que ele gosta. Não seria o mesmo se metade desta equação desaparecesse. 

 Qual o papel de cada um na marca?
Domenico: Hoje, não há uma divisão de papéis. Nos envolvemos em tudo que está relacionado ao universo da etiqueta. No passado, eu ficava mais no ateliê, enquanto Stefano focava nas estratégias de comunicação.
Stefano: Quando não concordamos com algo, discutimos. Temos personalidades fortes. Na maioria das vezes, começamos com perspectivas muito diferentes, por isso que falamos bastante.
Domenico: Não para convencer o outro que a ideia de um é melhor. Mas para encontramos uma forma para expressar nossos mundos.

 Vocês estão sendo acusados pelo fisco italiano de sonegação de impostos.
Stefano: Pela segunda vez em que enfrentamos um processo legal por sonegação de imposto, o juiz, não obstante ter declarado a acusação como prescrita, decidiu expressar uma conclusão, confirmando nossa absoluta inocência, já que o fato não existe.
Domenico: Agora, vamos reivindicar junto às autoridades fiscais, pois fomos absolvidos e, paradoxalmente, a Receita Federal está nos pedindo para pagar uma fortuna.



MODELOS, ATLETAS E ALGUMAS POLÊMICAS

 Na história da Dolce & Gabbana, as campanhas merecem lugar de destaque. Na temporada de verão 2010, por exemplo, Domenico e Stefano convidaram Madonna para ocupar o posto de garotapropaganda. Nas imagens de Steven Klein, a cantora aparece lavando louça, comendo uma macarronada e descascando legumes — mais corriqueiro, impossível.

Marqueteira, a dupla ousou ao mostrar alguns jogadores da seleção de futebol italiana vestindo apenas cuecas, dentro de um vestiário numa campanha de 2006. Nos anos seguintes, a grife se superou ao abordar temas polêmicos, como violência contra a mulher (o anúncio acabou banido da Itália e da Espanha) e submissão masculina.

Os brasileiros também são figuras recorrentes nas publicidades da etiqueta. Gisele Bündchen, Isabeli Fontana, Izabel Goulart, Evandro Soldati e Alessandra Ambrósio já fotografaram para a marca. A seguir, os estilistas falam sobre esse importante meio de comunicação e sua relação com modelos e atletas.



 DE OLHO NO VESTIÁRIO MASCULINO

 No passado, a marca fez campanhas polêmicas e controversas. Como vocês lidam com esta parte importante do business?
Stefano: Como em tudo, as pessoas são livres para interpretar o que veem da maneira que preferirem. Mas nunca fizemos uma campanha só para provocar.
Domenico: Eu fotografei os três últimos anúncios. Portanto, o nosso compromisso é ainda maior do que no passado. Mesmo quando contratávamos fotógrafos, estávamos sempre envolvidos em cada detalhe.
Stefano: Houve sempre um interessante diálogo com todos os fotógrafos. No final do dia, era a nossa coleção, a nossa visão, o nosso mundo. E eles tinham um grande respeito por isso.
 

 A Dolce & Gabbana é mais do que roupas. Vocês já licenciarama marca para uma montadora de carro e outros produtos. Como funcionam essas parcerias?
Domenico: Estamos menos inclinados a trabalhar com esses projetos. Temos muito  que fazer na grife, como as linhas de relógios e a infantil.



 ‘JOGADORES APRENDEM COM BECKHAM’

 Como é a relação de vocês com as modelos?
Stefano:
Depende. Conhecemos Gisele Bündchen, Naomi Campbell, Eva Herzigova e Bianca Balti (estrela das últimas campanhas da marca, inclusive do perfume Light Blue, ao lado de David Gandy, o “muso” da etiqueta) há muitos anos. Com elas, há um vínculo que vai além do trabalho, porque foi construído com o tempo e com as experiências vividas juntos.
Domenico: Somos muito gratos a algumas modelos. No início, muitas aceitara participar de nossos desfiles de graça, porque acreditavam em nós.

 Na história da grife, atletas sempre tiveram um lugar de destaque, principalmente os jogadores de futebol. Como é trabalhar com eles?
Domenico: Engraçado Eles não são nada complicados. Na maioria das vezes, trabalhamos com jovens talentos, e fico surpreso ao ver que eles são humildes e disciplinados. E esses valores são importantes se eles quiserem chegar a um nível mais elevado. O talento por si só nunca é o suficiente.
Stefano: Esses caras aprenderam a lição que David Beckham ensinou ao mundo nos anos 1990. Não basta vencer no campo, você precisa ter uma imagem vencedora fora do estádio. As gerações mais jovens têm isso muito claro, por esta razão os atletas são muito cuidadosos com o que usam e com as fotos que fazem.
Domenico: Mesmo quando trabalhamos com um grande campeão, como o Lionel Messi, é tranquilo. O que queremos é que sejam eles mesmos. Eles não precisam desempenhar um papel ou usar uma máscara.

GOOGLEI - Ana Cristina Reis

O Globo 16/11/2013

Mao Tsé-Tung, Montesquieu, Cervantes e os mitos da sexualidade feminina numa tarde de calor

Tinha Prada, Miu Miu, Vuitton (até da edição
especial da Kusama), Chanel clássica de matelassê
nas cores amarela e vermelha, Saint Laurent
(com o Y dourado bem gritante). “Senti falta
da Hermès”, brincou Fernanda, tentando desanuviar
os ânimos (estávamos na missa
de sétimo dia de Sônia, que foi uma mulher
“dourada”: loura e vibrante) e distrair do calor
indecente que fez na terça-feira.

No altar, o sermão versava sobre a destruição da Biblioteca de
Alexandria, árabes, fogo e césares.
— É isso mesmo? A ordem é essa? — perguntou Renata.
Não deu para ponderar sobre o encadeamento da História
porque em seguida o padre soltou uma frase que nos paralisou:
“O terceiro livro mais lido do mundo é a Bíblia. O primeiro é ‘O
capital’, de Marx; o segundo, ‘Dom Quixote’, de Cervantes”.
Como assim? “Dom Quixote” é o segundo livro mais lido?
Como é que o mundo não está melhor? Ué, a Bíblia não é o
livro mais vendido do mundo? E Paulo Coelho não está na lista?
Que lista é essa?
Nossas cabecinhas fervilhavam incrédulas e em silêncio
quando Lívia sussurrou:
— Googlei. A lista dos livros mais vendidos no mundo é a
seguinte: “Bíblia sagrada”;“O peregrino”, obra de um pastor
batista publicado pela primeira vez na Inglaterra em 1678; “O
livro vermelho”, do comandante Mao Tsé-Tung; o “Alcorão”;
“Dom Quixote”, oba!, olha ele aqui de novo; e “Dicionário
Xinhua Zidian”, que deve ser o “Aurélio” da China.
— Mas, e os mais lidos? Deve ter uma lista também —
provoquei.
— Tem. Os dez livros mais lidos
nos últimos 50 anos. “Bíblia sagrada”,
“O livro vermelho”, “Harry Potter”, “O
senhor dos anéis”, “O alquimista”, “O
código Da Vinci”, a “Saga
Crepúsculo”, “E vento levou”, “Quem
pensa enriquece”...
— De quem?
—Um americano. Foi assessor dos
presidentes Wilson e Roosevelt. Ele
aponta características comuns em
gente como Henry Ford, King Gillette
e John Rockefeller.
— Ah...
— Em décimo lugar, “O Diário de Anne Frank”.
— “O Diário de Anne Frank”? Quem está relendo? — quis
saber Andrea, que chegou na hora dos cumprimentos. Antes
que pudéssemos esclarecer, ela acrescentou: — Fui deixar o
Enzo em casa antes. Enzo, o meu sobrinho destemido. Sabe
qual foi o papo no carro? Ele falou do “Leviatã”, de Hobbes. É
mole? Enzo tem 13 anos. Para não perder a pose, corrigi um
comentário que ele fez sobre Montesquieu.
Abrimos lugar na fila para a Jacqueline.
— Quem tá lendo Montesquieu?
— Ninguém — respondi. — Eu estou lendo “Vagina”, da
Naomi Wolf. Foi ela que escreveu “O mito da beleza”.
— Está gostando?
— É curioso...
— Tem algum ensinamento prático ou é tudo teoria? Queria
saber se faz diferença se a mulher for magra.
— Ainda estou na teoria.
— Teoria...
— Do lótus dourado da filosofia Tao ao sex shop de hoje. De
Freud a Ian McEwan. Mas a autora é fascinada pela ligação do
cérebro com a vagina. Sério! Ela acha que a vagina está
conectada com a criatividade, a confiança e o caráter.
— Então as putas devem estar entre os três tipos mais
interessantes de mulheres.
— Mulher interessante é muito subjetivo. Eu acho a Angelina
Jolie assustadora. Aquelas veias saltadas, aqueles lábios
descomunais... Prefiro a lista dos homens mais interessantes
hoje no Rio.
— Essa lista, querida, não está no Google

Miriam Makeba TRIBUTO A MAMA ÁFRICA

O Globo 16/11/2013

Obra da cantora morta em 2008 é celebrada no Back2Black, com artistas brasileiros, como Gilberto Gil, e africanos, como Aicha Koné


Chegada ao Rio. Em 1968, com o sucesso “Pata pata”, cantora veio ao Brasil, trazendo sua música política e espiritual


LEONARDO LICHOTE
llichote@oglobo.com.br

Em 1968, quando desembarcou no Rio, Miriam Makeba foi recebida pela bateria da Mangueira. Agora, 45 anos depois, a cantora sul-africana (morta em 2008, aos 76 anos) é novamente acolhida por batuques locais, filhos da diáspora. A artista é a grande homenageada hoje no Back2Black, às 22h30m, na Cidade das Artes, com um tributo que reunirá brasileiros (Gilberto Gil, Alcione, Ganhadeiras de Itapoã) e africanos (a neta de Miriam Zenzi Makeba Lee, Sayon Bamba, Sidiki Diabaté, Iyeoka, Ismael Lô, Aicha Koné, Ladysmith Black Mambazo, Salif Keita, Boncana Maiga e Papa Konaté), além de Buika (espanhola, de pais africanos), sob os tambores do candomblé.

— A ideia é criar uma ponte, uma conversa entre o universo dela e o brasileiro — explica Letieres Leite, responsável pelos arranjos do show. — É uma banda que tem na base atabaques de Salvador, de diferentes nações do candomblé. Junto deles, um naipe de sopros, a banda e um DJ. Queremos aproximar essa ancestralidade da música afro-brasileira com a música de toques mais contemporâneos produzida na África a partir de Makeba. Em última instância, tudo vem do mesmo lugar, da escravidão, esse holocausto que motivou a saída dos negros da África. A diáspora é a base da música popular ocidental, e é isso que veremos no palco.

Miriam Makeba sintetizou como poucos essa fusão entre o poder da música popular — não apenas por seu hit internacional “Pata pata”, mas pelos ouvidos abertos e pelo desejo de secomunicar com plateias do mundo inteiro — e a história de opressão e injustiça do povo africano.Não foi por acaso, portanto, que ela se tornou conhecida como Mama África. Nesse sentido, é emblemático vê-la interpretando “Khawuleza” (há um belo vídeo no YouTube gravado para a TV sueca em 1966). Antes de cantá-la, ela explica que a música vem das periferias da África do Sul do apartheid: “As crianças gritam das ruas quando veem os carros de polícia chegando para atacar suas casas por um motivo ou outro. Elas gritam ‘khawuleza, mama’, que simplesmente quer dizer, ‘corra, mamãe, por favor, não deixe eles pegarem você’”.

— É difícil responder como seu lado ativista e seu lado cantora se relacionavam — diz Nelson Lumumba Lee, neto da cantora. — Ela atendia a um chamado. Porque, quando foi para os Estados Unidos e começou a fazer sucesso, ela poderia simplesmente se esquecer de onde veio e cuidar de sua carreira. Mas ela atendeu a esse chamado e nunca se desligou de seu povo. Nunca foi algo que ela planejou, simplesmente veio.

Porque não era elegante dizer o que ela dizia. Era arriscado. Ela foi banida de seu país, sua música foi banida.

A trajetória de Miriam foi realmente tão intensa quanto acidentada. Ela começou a cantar nosanos 1950, em conjuntos vocais sul-africanos. Em 1959, uma participação no documentário “Come back, Africa”, exibido no Festival de Veneza, chamou a atenção para ela. A artista se mudou para a Europa e, em 1960, ao tentar voltar para casa para o enterro da mãe, descobriu que não podia entrar em seu país novamente. Em 1963, ela proferiu um discurso histórico no Comitê das Nações Unidas contra o apartheid. Mais tarde, já morando nos Estados Unidos — para onde foi levada por Harry Belafonte (com quem ganhou um Grammy em 1966 pelo álbum “An evening with Belafonte/Makeba”) —, ela sofreu novas sanções, dessa vez do mercado, ao se casar com o ativista político Stokely Carmichael, porta-voz dos Panteras Negras.

PROXIMIDADE COM A MÚSICA BRASILEIRA



Miriam não via sua obra como essencialmente política. “Eu só disse a verdade ao mundo, e se a verdade se tornou política, não posso fazer nada a respeito”, declarou em 2000.

— Ela era mais do que cantora e ativista — defende sua neta Zenzi Makeba Lee, que no tributo cantará “Khawuleza”, entre outras. — Sua mãe era uma sangoma, curava pessoas por meio da música. Ou seja, havia algo espiritual e ancestral na relação de Mama Makeba com a música. E ela deixou não só um legado musical, mas também um legado social, como o Makeba Centre for Girls (instituição que dá um lar e suporte a meninas abandonadas ou que sofreram abuso).

Ao longo de sua carreira, Miriam manteve uma relação com a música brasileira, fosse pela colaboração de Sivuca (com quem tocou e que escreveu arranjos para ela) ou gravando músicas como “Mas que nada” e “Xica da Silva”, ambas de Jorge Benjor.

— Ela sempre procurou se aproximar das plateias cantando músicas de seus países — lembra seu neto. — Cantou em francês, português, iídiche... Ela acreditava na unidade de culturas, na diversidade, na construção de um mundo de paz a partir do encontro. Ela fez isso em toda sua vida na música. E estaria bem feliz com a homenagem.

Zenzi concorda:
— Estou honrada de estar aqui com artistas brasileiros e outros africanos no tributo. Especialmente agora, quando se completam 50 anos de seu discurso no Comitê das Nações Unidas. Mais do que amar a música brasileira, Miriam Makeba se envolveu com ela. Essa é a beleza deste tributo.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Estímulo ao aprendizado‏ - Ana Regina Fonseca Araújo

Estímulo ao aprendizado

Ler e ouvir músicas em uma língua estrangeira facilita o domínio dela


Ana Regina Fonseca Araújo 
Gerente de Pesquisa e Desenvolvimento da rede de franquias Number One
 
Estado de Minas: 13/11/2013 
 
 
Aprender um novo idioma não é uma tarefa simples. O estudo de uma língua estrangeira exige dedicação, interesse e motivação. O papel do professor é fundamental no aprendizado, porém o estudante também é responsável pelo próprio rendimento. Estudar um idioma requer estímulo extraclasse para motivar e tornar mais fácil a aquisição do conhecimento. Por isso, é comum que as escolas usem livros, filmes, músicas e jogos para auxiliarem nos estudos e despertar o interesse do aluno.

Os incentivos acontecem, principalmente, nas escolas de inglês, uma vez que a maioria das pessoas prefere estudar esse idioma, ainda considerado o oficial no mundo dos negócios. Contudo, por mais que a procura aumente gradativamente, apenas 5% dos brasileiros falam inglês fluentemente, segundo pesquisa da EF Cursos no Exterior. O motivo dessa baixa estatística pode estar relacionado ao desempenho da pessoa nos estudos, à falta de incentivo e à condição socioeconômica.

A falta de motivação é a grande vilã do aprendizado. Quem realmente quer aprender inglês não pode ficar preso ao ensino em sala de aula. O contato com a língua deve ser diário, pois quanto mais frequente o contato, melhor será o desenvolvimento das habilidades linguísticas aprendidas. As pessoas que gostam de escutar músicas em inglês devem começar a prestar mais atenção às letras para entenderem o que estão ouvindo. Outra dica é escutar a música e depois transcrever a letra. O exercício promove consideravelmente a expansão do vocabulário, desenvolve a fluência e a entonação. É uma atitude simples, mas que terá grande influência no aprendizado e na percepção das palavras e frases da língua.

Outra opção para aprimorar o estudo é assistir a filmes, com ou sem legenda. Preferencialmente sem, revendo-o mais de uma vez, já que o ouvido vai se acostumando ao idioma. Mas se o aluno tem dificuldade em compreender as frases, pode optar pela legenda em inglês. Assistir a filmes ajuda no vocabulário, na pronúncia, na fluência e na compreensão auditiva. Os seriados também são um ótimo treinamento, principalmente porque têm uma linguagem do dia a dia. Os livros também auxiliam e, muito, no aprendizado do inglês. Os amantes da literatura têm um meio a mais para se aventurarem em suas histórias favoritas. Assim como acontece com os exemplares em português, ler em inglês é um excelente exercício para ampliar a capacidade de compreensão, melhorar a escrita, compreender as estruturas e expandir o vocabulário no idioma. Alguns livros apresentam, inclusive, o CD da história.

Recorrer ao áudio é uma solução plausível, caso o aluno não saiba pronunciar alguma palavra, pois sempre auxilia na memorização da grafia das palavras e da pronúncia. Estimular o aprendizado é dever de todas as escolas, independentemente da área de ensino. O meio de facilitar os estudos e torná-lo ainda mais prazeroso depende do desempenho do aluno. A escola apresenta alternativas extraclasse para desenvolver o aprendizado e o crescimento do estudante. Cabe a ele aproveitar as oportunidades para incrementar o vocabulário e a percepção dos sons. Aprender um segundo idioma é uma tarefa que exige aplicação e paixão. A fluência em uma língua estrangeira depende, em grande parte, do interessado.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

HORA DAS MERECIDAS FÉRIAS

 O GLOBO _ CL GENTE BOA

11/11/2013

Em um ano de personagens sofridos, Bianca Comparato faz uma pausa na Bahia antes de interpretar Ana Cristina Cesar



A entrega para interpretar na TV uma personagem com câncer foi tão intensa — ela até raspou a cabeça — que Bianca Comparato teve que dar um tempo na Bahia para tentar renovar as energias.

“O desgaste emocional foi grande, não só por ela ter câncer, mas pelo processo terapêutico pelo qual passou”, conta a atriz. “Normalmente, levamos meses para lidar com esses sentimentos e ela teve só sete sessões”, diz.

Ao mesmo tempo em que vai se livrando de Carol, Bianca vê os cabelos crescerem. Ela adotou vários turbantes para compor o novo visual. “Também estou adorando os brincões, fica chique”, diz.

Bianca anda numa fase mulherão, está feliz assim, e mostra isso num ensaio sensual feito para a Noo Magazine.

Na Bahia, ela comemorou 28 anos e um 2013 em que tudo deu certo. Este ano, a atriz também interpretou a protagonista de “A menina sem qualidades”, série dirigida por Felipe Hirsch para a antiga MTV. Foi superelogiada.

Já de volta ao Rio, ela se prepara agora para viver a poeta Ana Cristina Cesar num longa-metragem que será dirigido por Julia Murat.


sábado, 9 de novembro de 2013

A Espanha no trio elétrico - Antonio Risério

A Tarde/BA - 09/11/2013

Destaco a presença
da cultura espanhola
(e mesmo da política
ditatorial de Franco)
em nosso trio
elétrico, expressa
nas composições
Passo Doble e
Pombo Correio

Observei aqui, em mais de uma oportunidade, que quem melhor pode falar sobre a imigração espanhola para a Bahia é o antropólogo Jeferson Bacelar, que, aliás, já escreveu um livro sobre o assunto: Galegos no Paraíso Racial. Mas, como fiquei de dar uns pitacos sobre temas migratórios, mando mais uma azeitona nessa empada – ou passo algum vatapá no acarajé.

É verdade que espanhóis apareceram por aqui desde o início de nossa história. Não só gente de Castela, de Madri, mas também bascos – como, aliás, o jesuíta José de Anchieta, basco descendente de judeus que sabia escrever em tupi. Ele mesmo, por sinal, nunca se disse português, nem espanhol. Nasceu em Tenerife (o pai dele se viu obrigado a fugir da Espanha), nas Canárias. Mas, voltando ao assunto, não há uma continuidade entre os primeiros espanhóis que pisaram os pés aqui e a leva migratória que chegou no século 20.

Nessa época mais recente, a colônia espanhola chegou a representar o maior contingente de imigrantes aqui na Cidade da Bahia. Umgrupo que se concentrava principalmente, na primeira metade do século passado, no centro histórico da cidade. Como os imigrantes judeus e árabes, também eles sofreram discriminações, foram vítimas de leituras estereotipadas (espanhol = ladrão, furtando o povo em suas padarias de medidas e pesos viciados) e experimentaram, igualmente, a ascensão social e a integração.

Quando penso nessa migração, posso citar pessoas que marcaram e marcam a vida baiana. Pessoas tão diversas quanto o estudioso Valentín Calderón, examinando a pré-história da cidade, falando de nossos sambaquis milenares, como o da Pedra Oca, em Periperi. O sociólogo Gustavo Falcón, esquadrinhando a vida comercial baiana no século 19, escrevendo livros como Os Coronéis do Cacau e um recente e belo estudo sobre Mário Alves, cujo título não consigo me lembrar agora, acho que com as expressões “reformismo” e “luta armada”. Ou o empresário Carlos Suarez, antigo construtor de prédios e hoje investindo em gás, mas preocupado com a cidade e fazendo projetos para ela.

Mas há também o lance cotidiano que nem sempre é devidamente mapeado pelos historiadores – e daí o destaque que dou, aqui e ali, a esses temas do dia a dia. Como, por exemplo, o caso da presença da cultura espanhola (e mesmo da política ditatorial de Franco) em nosso trio elétrico, expressa, principalmente, nas
composições Passo Doble e Pombo Correio, sucesso fenomenal em nossos antigos e verdadeiros carnavais. A propósito, em seu livro O País do Carnaval Elétrico, Fred de Góes escreveu:

“Sendo Salvador um dos centros de maior concentração de imigrantes espanhóis no país, e sendo Dodô e Osmar frequentadores assíduos das festas e comemorações da colônia, onde tinham inúmeros amigos, a influência ibérica aparece muito forte no compositor [Osmar]. A presença do passo doble é marcante em algumas músicas executadas hoje [início da década de 1980] pelo trio elétrico, sobretudo em duas: Passo Doble Carnaval e Pombo Correio. A primeira, cujo nome já evidencia o estilo, intitulada primitivamente General Franco, para homenagear o caudilho espanhol, foi composta no início da década de 1940, de parceria com Solon Melo, mestre de bandolim de Osmar, e só gravada em 1980, no disco Vassourinha Elétrica”.

Sobre a segunda, Pombo Correio (música de Osmar com letra colocada posteriormente por Moraes Moreira), escreve o mesmo Fred de Góes: “Esta composição data de 1954 e intitulava-se originalmente Doble Morse, sendo somente instrumental. Como nesta música há uma sequência, na introdução, semelhante às batidas do código inventado por Morse, misturada com acordes de passo doble, o compositor resolveu fazer a junção e batizar a música homenageando, a umsó tempo, a colônia espanhola e o inventor do telégrafo”.

É isso aí. Foi uma surpresa, para mim, quando soube das relações de Osmar Macedo com o mundo espanhol, através dos imigrantes aqui domiciliados. Gosto de repassar informações assim. E verei se adiante trato também de árabes e judeus.