sábado, 11 de janeiro de 2014

O curral do capeta ou o enigma baiano - JC Teixeira Gomes

A Tarde/BA 11/01/2014

JC Teixeira Gomes
Jornalista, membro da
Academia de Letras da Bahia
jcteixeiragomes@hotmail.com

 A Bahia cedeu a liderança nordestina para Pernambuco e Salvador entrou em crescente declínio, sendo superada em organização e qualidade de vida pela pequenina Aracaju



A partir dos anos 50, tornou-se usual a expressão “enigma baiano” para definir curioso fenômeno: era preciso saber por que uma terra que tinha petróleo, Paulo Afonso e cacau ostentava índices tão alarmantes de atraso econômico. Pinto de Aguiar chegou a escrever um livro, Notas sobre o Enigma Baiano (Salvador, Progresso, 1958), para tentar entender o problema. Assinalou que a Bahia tinha uma economia parasitária, com lideranças empresariais sem iniciativa, mais preocupadas com comércio do que comindustrialização. Esse panorama alterou-se em parte, pois a Bahia continua apresentando alguns dos índices mais desfavoráveis do atraso brasileiro.

Progressivamente, o estado cedeu a liderança nordestina para Pernambuco, isto desde o tempo do domínio espalhafatoso de Antonio Carlos Magalhães. Instituições econômicas fundamentais deixaram terras baianas.

Salvador entrou em crescente declínio, sendo superada em organização e qualidade de vida pela pequenina Aracaju. Foi perdendo toda a riqueza do seu passado histórico. Não soube preservar sequer a reverência a suas datas magnas: o aeroporto da cidade deixou de honrar os heróis do Dois de Julho para homenagear um deputado que nem chegou a governar o estado e tampouco gostava de residir na capital. Essa anômala usurpação permanece intocada.

Recente reportagem de TV mostrou a extensão do atraso do nosso interior, exibindo as carências das populações por causa da falta de água. A calamidade agravou-se pela precariedade do abastecimento com caminhões-tanques, sujos, infectos, disseminando disenteria, vômitos, doenças várias.

Na capital, o último decênio foi de degradação absoluta. A política de liberação dos gabaritos pelo ex-prefeito João Henrique inchou a cidade, enchendo-a de espigões, e ajudando a fazer do trânsito a reedição baiana do inferno. As pessoas chegam hoje a seus locais de trabalho deprimidas e exaustas. O mal permanece inalterado pela ausência de obras.

Gostaria de convidar o prefeito e o governador para um passeio de carro pelas ruas de Salvador, notadamente, nas horas do rush, pelo Iguatemi, Pituba, rua Oswaldo Cruz, na Mariquita, avenida Tancredo Neves, Paralela, tantos outros lugares. Deixe Wagner o seu helicóptero e ACM Neto o seu transporte especial. Vamos de carro, saindo das 16h30 em diante do Salvador Shopping para, através das ruas Amoroso Lima e Almerindo Rehen, alcançarmos a rampa – eu disse rampa, a estreita e precária rampa (para um só automóvel de cada vez) que desemboca na congestionada Tancredo Neves.

Estava eu outro dia naquele local, amargurando uma enorme fila que não se movia, cerca das 18 horas, quando o taxista, irritado e suarento, virou-se para mim e exclamou: “Doutor, isto aqui é o curral do capeta! Todos os dias é este suplício, não consigo sair do lugar, a prefeitura não se mexe, não sei por que não abrem uma alternativa pela rua Frederico Simões, façam algumas coisa, construam um túnel, um elevado!”, vociferou. Concordei, arrasado pelo imobilismo.

Há um slogan oficial muito usado pelo poder em Salvador que diz: “Sorria, você está na Bahia!”. Lembrei-me então do que podem pensar dessas palavras os moradores dos guetos do Nordeste de Amaralina, Curuzu, Pernambués, Pau Miúdo, Calabar, Vale das Muriçocas, San Martin, Calabetão, Iapi, Baixa de Quintas, Nova Brasília, Beiru, Boca do Rio, Mata Escura, Saramandaia, Boiadeiro, Lobato, Massaranduba e tantos outros bolsões de pobreza e miséria, todos residentes em becos e ruas esburacadas, usando os piores ônibus do Brasil, amontoados e sem ar-condicionado. É claro que só podem achar que tal slogan foi criado por um publicitário ou marqueteiro debochado.

Enquanto isto, faltando pão, vamos ao circo! No cenário arrasado da praça Cayru e seu entorno sustentado por vigas de ferro, a prefeitura ampliou o ciclo das festas para quatro dias de Réveillon! Mas, enfim, o mal é nacional. O Brasil é o país do carnaval e este ano será o da copa. Resta saber quando será o da saúde, da educação e da segurança dos cidadãos. E, sobretudo, quando será também o país da decência política.

domingo, 5 de janeiro de 2014

A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR (NO CALOR)



O Globo 05/01/2014

Colunista Convidado DANIELA MERCURY Aos olhos de quem vê

O Globo 05/01/2014

 
“Ainda nos oferecem camas de
solteiro quando fazemos check-in
em hotéis, nos pedem para
preencher formulários como sr.
e sra., noivo e noiva, pai e mãe’’

Em abril deste ano escrevi no meu Instagram: “Malu agora é minha
esposa, minha família, minha inspiração para cantar.” O motivo?
Malu é uma mulher e se eu não a apresentasse como minha esposa,
ela seria tratada como minha empresária, produtora, amiga, ou
qualquer outra coisa, menos esposa. Infelizmente, mesmo depois
da repercussão do meu comunicado e do nosso casamento civil,
muitas pessoas ainda falam com Malu como se ela fosse minha produtora
ou assessora. Imagine se eu não tivesse falado nada?

Eu sou militante social há 18 anos, trabalhando como embaixadora
do Unicef, embaixadora do Instituto Ayrton Senna e no meu próprio
instituto, o Sol da Liberdade. Agora estou mais inserida na luta contra
a homofobia. Por isso, ao relembrar minhas leituras sobre a sexualidade
humana, pensei, obviamente, no tão popular Sigmund Freud.

Há cerca de cem anos, Freud lançou obras importantes que começaram
a desvendar a sexualidade humana. Em seguida, Lacan
reitera e amplia as descobertas, e o mundo começa a compreender
o ser humano. Freud afirmou que a nossa sexualidade é múltipla e
desordenada. Disse que a pulsão sexual humana é orientada pela
diversidade e parcialidade. Ainda afirmou que o que causa a homossexualidade
é o mesmo que causa a bissexualidade e a heterossexualidade:
a escolha inconsciente do objeto de desejo. E que nenhuma
escolha é mais natural que outra. É uma pena que, um século
depois, estejamos discutindo o preconceito contra homossexuais.

Hoje, eu e Malu estamos casadíssimas no civil, fomos capas das
revistas mais lidas do Brasil, participamos de programas de TV e
demos centenas de entrevistas. Mesmo assim, ainda passamos por
situações que demonstram o quanto estamos longe de tratar com
naturalidade um casal de mulheres ou de homens: tentam fingir
que não nos veem, que não somos um casal. Chamo isso de invisibilidade
social. Ainda nos oferecem camas de solteiro quando fazemos
o check-in em hotéis, nos pedem para preencher formulários
como sr. e sra., noivo e noiva, pai e mãe. Homens paqueram
uma ou outra, ou as duas, ignorando que somos casadas. Alguns
ficam nitidamente confusos e constrangidos e olham para o chão
ou desviam o olhar quando eu a apresento como minha esposa.
Mas por quê? Existe algum padrão para “gente”? Freud diz que
não! Por sabermos que há muito o que fazer para naturalizar a relação
homossexual no Brasil e no mundo, eu e Malu aceitamos o
convite pra escrever o livro “Daniela & Malu: Uma história de
amor” (LeYa), onde expomos nossa intimidade, nossos medos e
fragilidades para que desmistifiquem a relação entre duas pessoas
do mesmo sexo. Duas pessoas bem-sucedidas, inteligentes e bonitas,
que sempre quiseram mudar o mundo e descobriram que um
testemunho vale mais do que mil palavras
.


sábado, 4 de janeiro de 2014

Lúcia Rocha. Mãe do cineasta Glauber Rocha

O Globo 04/01/2014

Baiana, ela incentivou a carreira do filho, recebia artistas em sua casa e batalhou para o estabelecimento do Tempo Glauber



Musa. Desde a morte de Glauber, Dona Lúcia Rocha lutou para preservar sua memória


ANDRÉ MIRANDA
andre.miranda@oglobo.com.br

Da sabedoria de seus 85 anos
de vida, o produtor Luiz Carlos
Barreto resume bem o que
uma mãe pode representar
para um filho:

— Eu sempre brinquei com a Dona Lúcia
falando que, para entender o Glauber,
era preciso conhecê-la. Ela foi sua inspiração
para tudo.

“Dona Lúcia" é a maneira carinhosa
com que cineastas — e também escritores,
músicos, outros artistas ou apenas
amigos — se referiam a Lúcia Mendes de
Andrade Rocha, uma baiana nascida em
Vitória da Conquista em 16 de janeiro de
1919. Dona Lúcia teve quatro filhos, sendo
que um deles, muito por incentivo dela
própria, tornou-se simplesmente o
mais celebrado diretor do país, aquele
que ajudou a dar uma expressão brasileira
para o cinema. Mais do que mãe, Dona
Lúcia foi a musa e peça fundamental para
o desenvolvimento da carreira de
Glauber Rocha.

Filho mais velho do casamento de Dona
Lúcia com o caixeiro-viajante Adamastor
Rocha, Glauber foi batizado, por ideia da
mãe, em homenagem ao cientista alemão
Johann Rudolf Glauber, que descobriu o
sulfato de sódio, no século XVII. Mas seu
ofício seria bem diferente. Logo quando
passou para o curso de direito na Universidade
Federal da Bahia, ela deu a ele uma
quantia para que comprasse um carro, mas
Glauber resolveu utilizar o dinheiro para
adquirir uma câmera de cinema. Adamastor
teria ficado aborrecido, só que Dona Lúcia
compreendeu a opção. Era o que o filho
queria fazer desde muito cedo, quando os
amigos o chamavam para jogar bola e ele
preferia ficar em casa debruçado nos livros.

Pouco depois, em 1959, quando Glauber
tinha apenas 20 anos e começou a rodar
“Barravento” (1962), seu primeiro
longa-metragem, Dona Lúcia preparava
as marmitas diárias e levava a comida de
carro para alimentar equipe e elenco. No
longa-metragem seguinte, “Deus e o Diabo
na Terra do Sol”, que completa 50 anos
agora em 2014, Dona Lúcia ajudou a costurar
as roupas usadas pelos atores.
Quando a verba para terminar algum filme
ficava curta, ela remexia nas finanças
da família e ajudava o filho.

Numa entrevista ao GLOBO, há quatro
anos, ela explicou sua motivação em ajudar
o filho: “Eu gosto de todos os filmes do
Glauber. E em todos eu contribuí de alguma
forma. Ele me ligava, contava o que queria
fazer, e eu dava força. Quando a gente bota
um filho no mundo, tem que ajudar”.

Aos poucos, com a fama de Glauber se
espalhando, Dona Lúcia passou não a
cuidar apenas do filho famoso, mas também
de muitos outros artistas que frequentavam
os mesmos círculos e ficaram
amigos de Glauber. Em sua casa na Bahia,
foram recebidos nomes como João Ubaldo
Ribeiro, Sonia Braga, Caetano Veloso,
Jards Macalé e Zelito Viana.

— Ela sempre foi muito presente no cinema
e também nos assuntos brasileiros —
recorda o diretor Nelson Pereira dos Santos.
— E era uma mulher de um nível moral altíssimo,
extremamente correta e carinhosa.
Ela recebia todos nós na casa dela na Bahia,
que era chamada de pensão da Dona Lúcia.

Outro que esteve bem presente na casa
foi Cacá Diegues, para quem Dona Lúcia
foi “a segunda mãe de todos nós”:
— Isso desde a época em que ela morava
na Bahia, antes de vir para o Rio. A casa
dela era aberta para todos nós, quando
éramos muito jovens. Ela teve uma importância
muito grande no cinema.
Quando o Glauber morreu, não só protegeu
a memória do filho, mas também a
do cinema brasileiro.

A morte de Glauber foi um baque para
Dona Lúcia, mas também significou o
início de uma nova luta. Ela já havia perdido
dois outros filhos — Ana Marcelina,
ainda adolescente, de leucemia; e a atriz
Anecy Rocha, em 1977, que caiu no fosso
de um elevador aos 34 anos — quando
Glauber morreu em 22 de agosto de 1981,
vítima de septicemia. Quase que imediatamente
Dona Lúcia passou a reunir todo
o material que encontrava sobre o filho,
um movimento que resultou na fundação
do centro cultural Tempo Glauber, em
Botafogo, no Rio, e que hoje é tocado por
sua filha, Ana Lúcia, e por netos.

— O Tempo Glauber merece mais atenção
do poder público. É um centro espetacular
que recebe visitantes e pesquisadores
de todo o mundo, e que guarda não
só a memória do Glauber, mas muito da
memória do Cinema Novo — diz Luiz
Carlos Barreto.

Parte dessa memória se foi ontem, com
a morte de Dona Lúcia, aos 94 anos. Ela
estava em casa, em Copacabana, quando
teve uma parada cardíaca. O velório foi
realizado no Tempo Glauber, e o enterro
está marcado para hoje, às 14h, no Cemitério
São João Batista. l

sábado, 7 de dezembro de 2013

João Paulo - Eu já tenho candidato

Eu já tenho candidato
João Paulo
Estado de Minas: 07/12/2013

 
Jesus Apolonia e Angel Ronquilla durante o Mundial de Futebol de Rua no México: craques da vida real   (Tomas Munita/AP)
Jesus Apolonia e Angel Ronquilla durante o Mundial de Futebol de Rua no México: craques da vida real

A eleição é só no ano que vem, mas já tenho meu candidato: José Genoino. Não se trata apenas de um político sério e devotado ao Brasil, mas de um homem que teve coragem para enfrentar a ditadura com o risco da própria vida. Não é desses que, como muitos, hoje se multiplicam a cada ano a inventar um passado que não viveram e uma luta da qual não participaram. Ele não vai ser candidato, eu sei, mas votarei em alguém como ele.

Genoino teve que renunciar ao cargo. Está doente. Foi examinado por médicos para ver se poderia cumprir sua pena em casa. Havia uma torcida que vinha do Supremo Tribunal Federal para que ele voltasse para a cadeia. Quando a Justiça se torna vingança ou obsessão pelo castigo, alguma coisa anda errada. Não foi isso que a humanidade aprendeu com a história.

O presidente do STF, Joaquim Barbosa, parece determinado em seu empenho de fazer justiça, mesmo que para isso passe por cima da lei e afaste, por exemplo, o juiz natural de execuções penais para obter uma obediência mais cega e alinhada. Ver Genoino doente ser considerado um homem que foge às responsabilidades é no mínimo um erro de julgamento.

Não se trata sequer de voltar ao caso do mensalão. Já está julgado. O que chama a atenção é o rebaixamento do senso de justiça às conveniências de certa cobrança por punição que vem dos meios de comunicação de forma orquestrada e daí chega até as pessoas quase como histeria sem compaixão. Realizado o julgamento e determinadas as penas, o que deveria se esperar era a recuperação da institucionalidade, não a procrastinação dos efeitos da sentença como um opróbio.

Curiosamente, o destaque alcançado pelo presidente do STF acabou criando uma paradoxo. De um lado, impulsionado pelo estilo rígido e autoritário, o ministro Joaquim Barbosa passou a ocupar o lugar sempre reservado aos heróis construídos pela mídia: foi alçado a candidato à Presidência da República, sem passar pela via da política, nos moldes messiânicos típicos dos momentos de crise. No entanto, o mesmo homem que havia se tornado modelo de retidão foi sumariamente esnobado pelos partidos, que se apressaram em afastar qualquer possibilidade de aproximação.

É explicável: a recusa à política, típica dos comportamentos autocráticos, poderia corroer por dentro os partidos, que se tornariam em um ato muito menor que seu candidato ungido. Não cabe, no estilo de Joaquim Barbosa, a saudável capacidade de precisar dos outros ou conviver com a discordância. O Judiciário, sobretudo a câmara mais alta, padece por definição de um certo orgulho de origem: ela é instituída, mas no momento que passa a operar se torna defesa de qualquer controle.

Parece que vai ficando claro com o tempo que os mandatos vitalícios dos tribunais, sobretudo nas cortes mais elevadas, são um risco. O que a experiência possibilita em termos de conhecimento, a permanência na posição retira em favor de certa postulação de acerto por antonomásia. Os ministros do STF não são os mais preparados, tem ficado claro a cada dia, mas os mais bem relacionados. Com isso fica bamba a segurança jurídica e a independência política.

O STF não é apenas um órgão técnico, a forma de ingresso dos magistrados deixa clara sua vinculação política e a necessidade, portanto, de alternância. Além disso, um erro de origem teria como ser consertado sem que fosse necessária uma crise institucional. Com mandatos com prazos definidos, os julgadores estariam sujeitos às mesmas determinações dos outros mandatos. Melhor ainda se fossem eleitos, como é comum em alguns países com forte tradição judiciária. Por que, ao lado da reforma política para o Legislativo e o Executivo, não se pensa em estender o mecanismo democrático para o Judiciário?

• • •

No ano que vem, a Copa do Mundo vai consagrar uma trajetória de equívocos: submissão aos interesses de uma organização privada (Fifa) e corrupta de acordo com processos internacionais, gastos desnecessários em obras desnecessárias, gastos exorbitantes em obras necessárias, supressão de leis nacionais (beber em estádio e livre comércio) em favor de patrocinadores privados, e por aí vai. O hediondo teatro da briga de torcidas (do mesmo time, o Cruzeiro) no domingo passado, em Belo Horizonte, foi uma prova do que pode o álcool em território de emoções anabolizadas pela rivalidade.

É sempre bom lembrar que a Alemanha não mudou em nada suas regras internas e o que os EUA, quando sediaram o torneio, puseram traves em campos de beisebol e futebol americano e deixaram a bola rolar. Aqui se derrubam estádios e se constroem estádios, que caem e matam brasileiros antes de ficar prontos. Essa conversa é velha, ainda que necessária até que o bom senso das manifestações volte a ocupar as ruas.

O pior, para quem gosta de futebol, é que os jogos serão de um esporte que já foi futebol e hoje é outro tipo de peleja, mais bruto e rápido. Mas nem tudo está perdido. Em julho do ano que vem, ao lado do torneio da Fifa, o Brasil recebe outro campeonato muito mais interessante, o Mundial de Futebol de Rua 2014, que traz seleções de jovens das Américas Latina e do Norte, da África e da Ásia. A Europa, sede da Fifa, não manda seus times. Eles não devem conhecer o futebol de rua, ou “callejero”.

Não é um jogo qualquer. É na verdade uma prática sociopedagógica, que ao lado da diversão (pode acreditar, futebol é divertido, não é só guerra e comércio) se volta para ações comunitárias e para a inclusão social dos participantes. Entre os países que praticam o futebol “callejero” estão Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Costa Rica, Equador, Colômbia e Panamá.

Como toda experiência social, as regras são negociadas entre as equipes e existem para tornar o esporte mais rico de significação humana. Além dos gols, contam para o placar final o alcance das metas estabelecidas, que podem ser a paz, a alegria, a solidariedade, a inclusão. O jogo limpo é melhor que o jogo vitorioso. Curiosamente, não existe juiz no futebol de rua. As dúvidas são arbitradas coletivamente. Como na vida.

Qualquer semelhança com a antiga pelada que você jogava com os amigos não é coincidência, mas preservação do mínimo de humanidade que ainda existe em cada um de nós.

A espada e a paz - João Paulo

A espada e a paz

Livro sobre a dimensão histórica de Jesus, Zelota, do historiador iraniano Reza Aslan, defende a raiz política da mensagem do nazareno. Obra vem causando polêmica em todo o mundo

João Paulo

Estado de Minas: 07/12/2013
 
Cristo Redentor, no Rio de Janeiro: uma das imagens mais conhecidas do maior revolucionário de todos os tempos   (Yasuyoshi Chiba/AFP)
Cristo Redentor, no Rio de Janeiro: uma das imagens mais conhecidas do maior revolucionário de todos os tempos

Jesus não é um só. Há o Jesus de Nazaré, homem pobre, trabalhador braçal, com todas as marcas de seu tempo, identificado com correntes contestadoras do domínio romano na Palestina: um ser político, de tendências revolucionárias, defensor da fé judaica. E há também Jesus, o Cristo, que depois de sua morte foi chamado de o “filho de Deus”, que está na base de uma nova religiosidade e fundou uma linhagem espiritual. Um Jesus da espada; um Jesus da paz.

Passados mais de 2 mil anos, o primeiro Jesus, um entre muitos messias que lutaram contra Roma e morreram na cruz, se tornou apenas uma sombra, o grande mestre do cristianismo, que tem sua obra descolada das origens políticas para dar relevo à mensagem de natureza religiosa e universal. O Jesus histórico é principalmente um judeu, com as paixões e contradições de seu tempo. O Cristo que emerge dos evangelhos é um mestre espiritual pacífico, que foi afastado de seu nacionalismo judaico para ser identificado com questões que não são deste mundo. Um Jesus que os romanos podiam aceitar sem temor de vingança pelo massacre de Jerusalém.

Um Jesus da política e um Jesus da fé.

Essa é a tese central do livro Zelota – A vida e a época de Jesus de Nazaré, de Reza Aslan, livro que vem causando polêmica. A explicação do desconforto e reação iracunda de alguns leitores é, mais uma vez, política: Reza Aslan é iraniano e muçulmano. Depois de bate-bocas em programas de televisão nos Estados Unidos e rejeição por parte de críticos católicos, o autor se viu em meio a situações de preconceito que envolvem os temas ligados à sua origem e fé. Pareceu, a seus críticos, que Reza Aslan escreveu seu livro para atacar o cristianismo e enxergar nele uma matriz revolucionária que mistura política e religião, o que seria característica de sua interpretação da história. Afinal, com alguma honestidade, os muçulmanos sabem que história e religião não se separam.

Mas Reza, que foi cristão na juventude e mora em Nova York, é um especialista em história das religiões, formado em Harvard e autor de obras importantes sobre o tema. Seu livro não é um ataque a Jesus, muito menos sofre de excesso de interpretação baseado em poucos fatos. Ao contrário, trata-se de um livro de história, erudito e extremamente legível, sustentado por ampla bibliografia. Cada capítulo ganha, ao final do trabalho, um verdadeiro ensaio bibliográfico atualizado, que sustenta as afirmações e interpretações do autor.

A busca da pluralidade de fontes se justifica. Sabemos muito pouco sobre o Jesus histórico a partir de depoimentos de seus contemporâneos. Os primeiros testemunhos escritos sobre Jesus de Nazaré vêm das epístolas de Paulo, escritas pelo menos 20 anos depois da morte de Jesus. Em seguida vêm os evangelhos, que, com exceção de Lucas, nem sequer foram escritos pela pessoa que os nomeia (um caso típico de obras pseudoepigráficas, comuns no mundo antigo) e datam de décadas depois da morte de Jesus. Em outras palavras, os evangelhos não foram escritos por testemunhas oculares da palavras e ações de seu personagem central: são obras de uma comunidade de fé. Não são fato, são reconstruções teológicas. Ou seja, eles nos dizem sobre Jesus, o Cristo, mas nada esclarecem sobre Jesus, o homem.

Reza Aslan mostra como foram escritos os evangelhos canônicos (Marcos, Mateus, Lucas e João), expõe suas contradições, esclarece sobre as fontes (entre elas o Q), além de revelar a origem de uma verdadeira biblioteca de escritores não canônicos, sobretudo a partir do século 2, que apresentam novas perspectivas sobre a vida de Jesus de Nazaré. Mas é ao agregar outras fontes – sobre a história de Jerusalém, a religião judaica e o Império Romano – que o autor dá a dimensão de seu projeto. O que seu livro revela é uma história dos primeiros séculos, tendo Jesus como foco. De certa forma, pode-se ler Zelota como uma biografia política de Jesus e seu tempo. Mais ainda: uma investigação sobre os motivos que levaram com que o Jesus histórico fosse substituído pelo Cristo.

Quarta filosofia O título do livro já uma pista. Zelota vem de zelo, uma inspiração para movimentos típicos dos judeus contrários ao domínio romano na região. Espécie de quarta filosofia – ao lado dos filisteus, saduceus e essênios –, os zelotas compunham um partido que tinha com compromisso inabalável com a libertação de Israel do jugo romano e com a afirmação do Deus único dos judeus. Zelo: era isso que reivindicavam para si, um cumprimento rigoroso da Torá e a recusa a servir a qualquer outro mestre. Ser zeloso era, desta forma, seguir as pegadas dos heróis do passado.

No entanto, o que era heroísmo para os judeus era crime para os romanos. O autor vai mostrar como se dava essa difícil convivência, com o domínio político na mão de Roma e o comando religioso a cargo do sacerdote do templo. A descrição do Templo de Jerusalém é impressionante, com sua movimentação humana, superstições, jogos de poder, fé e até centro de negócios, como um verdadeiro banco a fazer circular o dinheiro de várias regiões. O templo era ainda espaço de negociação entre o ocupante e povo subjugado, preso ainda aos pesados impostos devidos a Roma.

Eram comuns os profetas que se insurgiam contra esta ordem. Considerados messias (a categoria abrangia centenas de pessoas dispostas a anunciar o fim do domínio romano e conclamar à revolta), esses homens eram heróis para seu povo, mas bandidos para Roma. Eram geralmente presos, torturados e mortos de forma violenta, decapitados ou crucificados. Jesus foi um desses messias. Como explica Aslan, a placa na cruz de Jesus, com os dizeres “Rei dos judeus”, não era um sarcasmo, mas uma sinalização do crime pelo qual estava sendo crucificado. O crime de Jesus foi buscar o poder político. Possivelmente, o mesmo crime do “bom” e do “mau” ladrão mortos a seu lado. Ladrão talvez seja uma tradução para a palavra grega lestai, que significa bandido, a mesma designação dada ao insurrecto Jesus.

Zelota é rico em informações. O autor leva para o contexto original situações que hoje fazem parte de uma rica mitologia, como a profissão de Jesus, suas origens familiares, o local de seu nascimento, os milagres, a relação com João Batista, o poder de Herodes, o nascimento virginal, a escolha dos apóstolos, as discípulas, o debate de Jesus com os rabinos, a expulsão dos comerciantes do templo etc. Algumas palavras atribuídas a Jesus, como as proferidas acerca do poder de César (“a César o que é de César, a Deus o que é de Deus’’) ganham novo significado: deixam de ser um reconhecimento da separação entre matéria e espírito para se afirmar como cobrança da devolução da terra ocupada aos judeus, seus legítimos donos por determinação de Deus a seus filhos diletos. O que soava como universal era na realidade uma defesa particular da herança de um povo em sua aliança com o criador.

Por que o Jesus que nos legou a tradição surge separado de seu povo e de suas reivindicações políticas, tão claras quando se examina a história separada das envoltórias da fé? Para Reza Aslan, depois de combater por décadas as insurreições, o governo central de Roma envia tropas que dizimam o templo e escravizam o povo, massacrando tudo que encontraram pelo caminho. Uma devastação completa, que destrói Jerusalém e expulsa seu povo da terra de seus antepassados. A partir do ano 70 d.C., exilados da terra prometida por seu Deus, os judeus passam a viver como párias e entre pagãos do Império Romano.

Uma operação levada adiante pelos rabinos, a partir do século 2, vai criar um divórcio entre o judaísmo nacionalista messiânico (que levou à destruição de Jerusalém) e a fé judaica, que se volta para dentro, na tradição do judaísmo rabínico. O livro substitui o templo. Outro movimento vai atingir os cristãos, que para também se separar da identificação revolucionária de sua origem, e com o objetivo de afastar a violência do poder romano, passam a transformar Jesus de um judeu revolucionário em um líder espiritual pacífico. O que era interesse político e terreno passa a ser causa espiritual e salvação para uma outra vida. Algumas décadas depois da morte de Jesus, os seguidores não judeus de Cristo eram muito mais numerosos que os seguidores judeus. Em um século, a ligação entre judaísmo e cristianismo desapareceu.

Zelota busca a recuperação do Jesus histórico. Para isso, com as armas da pesquisa e da interpretação, questiona superstições, limpa floreios literários, faz a genealogia de textos e dá a real dimensão ao que é fato histórico e o que é teologia e mito. Pode parecer uma empresa questionável, já que o Jesus da fé venceu e se tornou hoje a realidade para centenas de milhões de pessoas. Mas a história não precisa de outra justificativa que não a busca da verdade.

Jesus foi um líder revolucionário – talvez o maior de todos os tempos – e um líder espiritual, ao mesmo tempo. Os dois universos não se separavam. Que o Jesus histórico, judeu, zelota e revolucionário, em sua luta permanente contra as injustiças, surja rico de significação humana é um alento a mais para quem tem fé em Jesus, o Cristo. E um exemplo a ser seguido pelos que não creem, mas querem um mundo melhor ainda nesta vida.
 (Editora Record/Reprodução)

Zelota – A vida e a época de Jesus de Nazaré
• De Reza Aslan
• Editora Record
• 304 páginas, R$ 36,90

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

TODA FORMA DE AMOR

O Globo 28/11/2013 



Prêmio celebra a diversidade sexual na noite em que Maria Zilda apresentou a companheira: ‘Não tenho nada a esconder’


Foi cheio de orgulho o
Prêmio Rio Sem Preconceito,
organizado pela
Coordenadoria Especial da Diversidade
Sexual da prefeitura,
anteontem, no Teatro Carlos
Gomes, no Centro. Quando
chegou, Maria Zilda apresentou
assim a mulher que estava
ao seu lado: “Minha esposa,
Ana Kalil”. Sentiu o clima? Estava
todo mundo feliz da vida,
seguro, e muito à vontade.

Foi a primeira vez em que a atriz
falou sobre o assunto desde que
anunciou pelo Twitter a união
estável com a arquiteta. “Tenho
60 anos e nada a esconder. Não
vou deixar que os paparazzi
transformem isso em capa de revista”,
disse ela. “Também não
queria que meus filhos passassem
por algo do tipo ‘descobriram
que sua mãe...’ Descobriram,
não, eu contei antes!”

Puro amor era também o casal
Daniela Mercury e Malu Verçosa,
que beijou muuuito no palco.
“Ela não gosta de fazer isso
em público, mas ajuda a quebrar
o preconceito”, diz Daniela.

“Pego as duas!”, grita Preta Gil.
Quando Preta sobe ao palco, é
recebida aos gritos de “maaagra!!!”.
“Magra nunca, amor. É
que nem falar ‘brancaaa!’ Jamais!”,
responde Preta.

Outra que recebeu prêmio foi
Cissa Guimarães. “Por acaso
não sou gay, mas posso vir a
ser”, diz. Apresentador da noite
ao lado de Dira Paes, Aloísio de
Abreu protagoniza o momento
mais divertido da noite. “Agora,
até VIP sofre preconceito com
essa coisa de vipinho e vipão”,
zoa ele, antes de cantar versão
gaiata de “My way”.

“Ser gay, ser pobre, ser negão/
Nortista ou sapatão/ Aqui nesse
Brasil não é nada mole,
não...” Na plateia, Carlos Tufvesson,
criador do prêmio, está
emocionado. “Essa noite é um
sonho realizado”, diz.

CL. Gente Boa 
Cleo Guimarães
COM MARIA FORTUNA, ISABELA BASTOS E THAMINE LETA

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Meia tonelada de cocaína‏

Meia tonelada de cocaína

Polícia apreende no Espírito Santo helicóptero com 443 quilos da droga. Proprietária da empresa à qual pertence a aeronave, família Perrella diz que piloto agiu sem autorização

Estado de Minas: 26/11/2013

 
Helicóptero carregado com cocaína foi apreendido no domingo na comunidade rural de Afonso Cláudio (ES), divisa de Minas com Espírito Santo (FOTOS BERNARDO COUTINHO/A GAZETA)
Helicóptero carregado com cocaína foi apreendido no domingo na comunidade rural de Afonso Cláudio (ES), divisa de Minas com Espírito Santo
 Quase meia tonelada de cocaína com cerca de 95% de grau de pureza foi apreendida na noite de domingo em um helicóptero – Robson 66 – que pousou na comunidade rural de Afonso Cláudio (ES), divisa de Minas com o Espírito Santo. A aeronave é de propriedade da Limeira Agropecuária Ltda, que pertence à família do senador Zezé Perrella, ex-presidente do Cruzeiro Esporte Clube. Quatro homens foram presos durante o cerco policial montado pela Polícia Militar capixaba com apoio da Polícia Federal. Entre os presos estão o piloto da aeronave, Rogério Almeida Antunes, de 36 anos, funcionário da Limeira, o copiloto Alexandre José de Oliveira Júnior, de 26, Robson Ferreira Dias, de 56, e Everaldo Lopes de Souza, de 27. Os dois últimos deram apoio em terra para descarregar a droga acondicionada em papel colorido impermeabilizante e caixas de papelão.

A empresa proprietária da aeronave foi criada em maio de 1999, e o senador Zezé Perrella deixou de ser sócio em maio de 2008. Atualmente, a Limeira Agropecuária tem em seu quadro societário o deputado estadual Gustavo Perrella – que recentemente deixou o PDT e migrou para o novato Solidariedade, – a irmã dele, Carolina Perrella Amaral Costa, e um primo, André Almeida Costa. Todos negam envolvimento com o transporte da droga, apesar de confirmar a propriedade da aeronave.

A investigação sobre movimentação na cidade capixaba começou há 15 dias, depois que levantamento da 2ª Companhia Independente da PM identificou a compra de uma pequena fazenda por valor superfaturado. Segundo o major Flávio Santiago, comandante da unidade, o terreno avaliado em pouco mais de R$ 150 mil teria sido adquirido por R$ 500 mil, apesar de ser pedregoso, sem plantio de culturas e benfeitorias.

Outras suspeitas partiram de informações de moradores da pequena comunidade sobre movimentação estranha no local, inclusive com veículos com placa de outros estados. E ainda a chegada de uma picape com cerca de 30 galões de combustíveis para aeronaves.

A partir daí, segundo o major Santiago, a PM reforçou o efetivo com o Núcleo de Operações e Transporte Aéreo (Notaer) da corporação. E a Polícia Federal montou campana no local desde sábado. No fim da tarde de domingo, o avião pousou por volta das 17h com 443 quilos de cocaína. O oficial informou que estavam no helicóptero o piloto e o copiloto, e os outros dois davam apoio em terra sinalizando o local correto de aterrissagem com sacos plásticos pretos.

O major Santiago disse que, apesar da obrigatoriedade, o helicóptero não tinha plano de voo e o pouso foi feito apenas com base em coordenadas repassadas ao piloto. “O local é de difícil acesso e, por isso, foi necessária a ajuda dos homens em terra”, explicou o oficial.

Os quatro presos se recusaram a prestar depoimento aos federais, alegando o direito de falar apenas em juízo. Informalmente, o major Santiago informou que o piloto Rogério Antunes é natural de Campinas (SP) e teria dito que tinha autonomia para voar com a aeronave, mas quem o havia contratado foi o copiloto Alexandre, que nasceu em São Paulo.

A Polícia Federal do Espírito Santo, onde foi instaurado inquérito para apurar o caso, disse que ainda não tem informações sobre a origem da droga e o responsável por ela.




Deputado demite piloto e faz queixa de roubo

O deputado Gustavo Perrella afirmou que o piloto Rogério Almeida Antunes agiu sem autorização: “O piloto não tinha consentimento para fazer essa operação”. Ele disse que ficou sabendo pela imprensa da apreensão da cocaína no helicóptero da família e que acionou seus advogados. Além de ter demitido o piloto por justa causa, ele afirmou que fará queixa por roubo do helicóptero.

Perrella alegou que não voou no helicóptero no fim de semana porque o piloto disse que a aeronave estaria em manutenção. “Eu o tinha (o piloto) por uma pessoa de boa índole, mas agora vejo que não se pode confiar em todo mundo”, afirmou o deputado.

Rogério Antunes foi indicado por um amigo de Campinas do deputado. “Para contratar examinamos currículo e horas de voo, e o que pesou é que ele é experiente”, explicou Perrella. Ele afirmou também que não poderia ser mais criterioso na contratação do piloto nem em relação ao uso da aeronave. “Seria como um funcionário pegar um veículo de qualquer empresa e o dono ser o responsável pelo que acontecer”, comparou.

O advogado Antônio Carlos de Almeida Casto, o Kakay, que representa Gustavo Perrella, confirmou que o piloto usou o helicóptero sem autorização da família ou de representantes da empresa. "Ele usou fora do ambiente de trabalho, sem autorização, e ainda para fim absolutamente ilegal", afirmou.

De acordo com Kakay, Gustavo Perrella estava em Brasília no momento da operação e o helicóptero costuma ficar estacionado em um restaurante em Belo Horizonte. Ele informou ainda que a família procurou a Polícia Civil para registrar ocorrência por apropriação indébita. O defensor disse que o responsável pela operação afirmou que o piloto não foi coagido a transportar a droga e agiu intencionalmente.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Entrevista: Paulo André - O próximo lance é uma greve

Veja - 25/11/2013

O líder do Bom Senso F.C., o movimento de jogadores que pressiona a CBF por um calendário racional, diz que o "jeitinho brasileiro" foi o grande mal do futebol.

Paulo André Cren Benini é um jogador fora do padrão. Enquanto a maioria de seus colegas passa o tempo na concentração jogando videogame, ele lê Dostoievski e Voltaire, pinta e escreve. Nas horas de folga, os boieiros vão a um churrasco com pagode e Paulo André prefere os museus.

Aos 30 anos, o zagueiro campeão mundial pelo Corinthians (contratado do Le Mans da França, onde atuou durante quatro temporadas) resolveu aproveitar sua experiência na Europa e a capacidade de liderança para promover um inédito movimento de jogadores que enfrenta a sisuda e antiquada Confederação Brasileira de Futebol (CBF) na organização dos campeonatos e mesmo na gestão financeira dos clubes. Entre uma partida e uma reunião Paulo André falou a VEJA.

 O que quer o Bom Senso F.C.?

Há dois pontos principais. O primeiro é a redução do número de jogos dos clubes da elite e o aumento do calendário para os times das divisões inferiores. O segundo é a implementação do que chamamos defair play financeiro, com o objetivo de punir os clubes que gastarem mais do que arrecadarem.

Como começou esse movimento?

O Alex (meia do Coritiba) e o Juan (zagueiro do Internacional) tiveram uma primeira conversa depois de um jogo (em 1º de setembro). Soube da conversa, liguei para o Alex e em cinco minutos a gente decidiu começar um movimento. Daí, convidamos outros atletas. Vieram o Juninho Pernambucano, o Seedorf. o Rogério Ceni, o Edu Dracena, o Fred e o Elias. A queixa é geral. Há uma sensação unânime. Quem volta da Europa vê que o potencial humano no Brasil é gigantesco, mas que a estrutura está emperrada, enferrujada. A gente tem tudo neste país, por que não explorar melhor?

Nas mais recentes rodadas do Campeonato Brasileiro, os jogadores entraram em campo com faixas e ficaram parados por alguns segundos depois do apito inicial do juiz. Quais são os próximos protestos?
A ideia é aumentar gradativamente enquanto não houver uma resposta da CBF às nossas exigências. O jogo do Flamengo com o São Paulo (em 13 de novembro, quando os jogadores adversários ficaram trocando passes de um lado para o outro do campo por um minuto) foi marcante. O torcedor claramente entendeu e apoiou.

Os jogadores podem entrar em greve?

É uma possibilidade real. Não é um absurdo se resolvermos parar. A gente espera que a CBF apresente uma proposta que seja benéfica para o futebol. Senão, não há muito que fazer além da greve. As ameaças de punição não vão nos deter.

A greve pode ocorrer ainda neste campeonato?

A CBF não acredita na força do nosso movimento. Eles estão nos testando e vamos aumentar o tom. Nas próximas rodadas, os jogos começam no mesmo horário, o que aumenta a repercussão do que fizermos. O risco de greve é muito grande. Já nos deram a ideia até de cada time fazer um gol contra de propósito. Mas isso seria inaceitável pelo desrespeito com o torcedor. Aceito desafiar os poderosos, mas não desmoralizar o futebol.

Como vocês combinam as ações?

Há 150 jogadores que trocam mensagens pelo WhatsApp. Hoje mesmo (sexta-feira retrasada) trocamos mais de 200.

O jogador hoje é mais consciente?

No geral, o jogador tem mais acesso à informação. Ainda há medo de se posicionar e sofrer retaliação da torcida, da diretoria e das entidades, mas entre os jogadores há muita discussão sobre os problemas do futebol. Entretanto, pelo medo de retaliação e por historicamente a classe ser desunida, é difícil o jogador se expor em público.

Os líderes do Bom Senso F.C. são atletas em fim de carreira. Os novos estão com medo ou foram orientados a não protestar?

Os dois. Os jogadores que começaram a reclamar do calendário foram aqueles que passaram um tempo na Europa e voltaram para o Brasil. A pergunta que todos fazem é: "Como é possível eu ter saído daqui há tanto tempo e nada ter melhorado?". Começamos a conversar e perceber a evidente precariedade do futebol no nosso país. Por terem uma condição financeira melhor, os mais velhos são o carro-chefe do grupo. Os mais novos sempre estão mais expostos a retaliações.

A CBF atrapalha o futebol brasileiro?

A Fifa sabe que seu papel é vender futebol. Percebeu que para ganhar mais dinheiro é preciso qualificar o produto. Então, começou a cuidar do gramado, do estádio, da qualidade dos times. É o padrão Fifa. Na Uefa é a mesma coisa. É uma entidade que organiza a Champions League e a Euro e decidiu dar prioridade à capacitação de treinadores. Porque são eles os formadores dos atletas, que vão desenvolver o futebol-arte e, assim, atrair público para o espetáculo. Dessa forma, a Uefa ganha mais dinheiro. Já a CBF não faz nada para melhorar a qualidade do que vende. Nada. A CBF não entende que o ingresso está caro para o jogo que está sendo vendido. A CBF ganha milhões com a seleção, com os patrocínios e, segundo ela, não ganha nada com o Campeonato Brasileiro. Talvez seja por isso que ela não se interesse em fazer um calendário que propicie um futebol de qualidade. Os gramados são horríveis, os antigos estádios estão péssimos. Tem jogo todo dia na televisão sem o menor critério de qualidade. Só quantidade. Seria fundamental adotar o modelo inglês, em que a confederação cuida da seleção e a liga de clubes dos campeonatos.

A Rede Globo tem interesse nessa mudança?

A Globo tem diálogo total com o movimento. Eles estão sendo solícitos e são os mais preparados para a discussão do novo calendário. A Globo aceita que não haja mais futebol em janeiro. Como a audiência nesse mês é baixa, é melhor aumentar a pré-temporada. Eles estão no direito deles, de lucrar com o futebol. O problema é a CBF, que não defende o futebol.


Um caminho seria limitar o mandato dos dirigentes das entidades esportivas?

Sim. A democracia e a alternância de poder são fundamentais para qualquer instituição. A medida provisória que prevê o direito a apenas uma reeleição nas federações que usam dinheiro público é crucial. O direito a voto direto dos atletas também tem o apoio do Bom Senso F.C.

Como respondem à crítica de que vocês querem jogar menos e ganhar a mesma coisa?

Essa é a maior inverdade. Reduzindo o número de jogos, o espetáculo fica melhor e o interesse do público aumenta. A gente busca o bem do futebol. não nosso conforto. Queremos reduzir o limite anual máximo de jogos para 73. Hoje, o Campeonato Brasileiro tem 38 jogos, a Copa Libertadores catorze, ou dezesseis se a equipe tiver de disputar a pré-Libertadores. Ainda há a Sul-Americana e a Copa do Brasil. Antes de tudo isso, os times têm de disputar os campeonatos estaduais. Para fazer um estadual com um mínimo de charme, uma das propostas é a redução de dezenove para sete jogos, com as mesmas regras da Copa do Mundo. Nesse formato, mesmo um estadual com 32 times pode ter um campeão definido em apenas um mês. No caso de clubes menores, da terceira à quinta divisão do Brasileiro, o problema é o oposto. Eles precisam de mais jogos. É a única maneira de sobreviverem.

Os jogadores aceitam ganhar menos para que os clubes reorganizem suas finanças?

Sim. O movimento defende a implantação do fair play financeiro, que pode resultar na redução dos altos salários dos jogadores. O clube terá de apresentar a cada três meses uma comprovação do pagamento de todas as suas obrigações, correndo o risco de ser suspenso se estiver inadimplente. Para conseguirem isso, alguns times deverão contar com elencos mais baratos. O torcedor e os atletas terão de entender que esse é o preço a ser pago para que o futebol brasileiro se reorganize.

O que, nos serviços brasileiros, tem padrão Fifa?

De padrão Fifa não temos nada. A CBF é padrão "jeitinho brasileiro".

É bom para o Brasil sediar a Copa do Mundo?

Quando foi anunciada a Copa com dinheiro privado, eu comprei a ideia. Hoje, vejo que 90% dos estádios utilizaram dinheiro público. Percebi que não foi cumprido o combinado.A Copa mexe com o imaginário, desde 1950 o Brasil sonhava em sediar mais uma. Mas havia outras prioridades para o uso desse dinheiro. Era melhor investir em educação de qualidade, saúde pública decente, transporte melhor. Se fosse a Copa do dinheiro privado, não teria problema. Como não foi, lamento a gastança na construção dos estádios.

Existe corrupção no futebol?

Existe, assim como na sociedade. Se não houver regulação e fiscalização, haverá desvio.

O futebol brasileiro está decadente?

Está em crise desde 2002. As vitórias tapam os erros e as péssimas administrações. O Brasil corre o risco de ganhar a Copa, mascarar os problemas estruturais e só voltar a essa discussão em dois ou três anos. Mesmo assim, torço para que o Brasil erga a taça e o futebol melhore. As duas coisas juntas seriam o verdadeiro legado da Copa.

Como é a rotina de um jogador de primeira divisão?

Desde os 20 anos eu não vou nem a casamento de amigo. Toda sexta, sábado e domingo estou concentrado ou jogando. Desde que sou atleta, não viajo no fim de semana, não sei o que é feriado, não sei o que são dois dias de folga seguidos.

O torcedor, como só vê o time nos dias de jogos, na quarta e no domingo, acha que trabalhamos pouco. É ilusão pensar que todo jogador é milionário. Só 3% dos profissionais recebem bem a ponto de poder encerrar a carreira aos 35 anos e viver de renda. Para 97%, a vida é atribulada e não dá chance de poupar para o futuro.

A vontade de jogar uma partida de primeira fase no estadual é a mesma que se tem em um jogo de Libertadores?

Nem se compara. Tem dia que você vai para o jogo e o último lugar que queria estar é no gramado. É um sentimento inconsciente, claro, muito em razão da pressão psicológica sofrida o ano todo. Fizemos um levantamento que mostra que o jogador de um grande clube brasileiro tem vinte dias de folga no ano. Já o trabalhador comum tem 52 fins de semana. Ou seja, mais de 100 dias.E nossos vinte dias são afetados pela pressão que sofremos por resultados, pelas críticas, por caras que atiram rojões ou pedras contra nós.

A concentração é necessária?

Não, mas para mim acabou sendo útil. Uso o tempo da concentração em coisas produtivas, como escrever meu livro. Os caras achavam que eu estava ficando louco, não saía do quarto. Já pintei quadros, vi muito seriado. Agora gasto o tempo fazendo essa agitação do Bom Senso F.C.

Qual a diferença do cotidiano de um jogador no Brasil e na França?

Aqui  chego sexta-feira às 15h30 para treinar e só volto para casa no domingo à noite, depois do jogo. Mesmo que eu fique em um bom hotel, são dois dias e meio concentrado. Como jogo duas vezes por semana, são 160 dias do ano concentrado. Na Europa, eu me apresentava na hora do almoço, descansava e jogava à noite. Não tem concentração. Há ainda o exagero das viagens. Lá, a média de um time é viajar 8000 quilômetros por temporada. Aqui, os grandes clubes de São Paulo voam 35000 só nos campeonatos nacionais. A queda de rendimento é inevitável.

Você pinta e escreve. De onde veio essa motivação? 

Quando jovem, fui estudar porque achava que não seria jogador. Mas virei profissional no Guarani, ganhei meu dinheiro, fui para a França. Lá, machuquei o joelho e fiz três cirurgias. Fiquei um ano e meio parado. Aí decidi voltar a estudar, fui ler filosofia e psicologia, porque estava com depressão. Li tudo de Dostoievski, tudo de Voltaire. Fiz curso de educação financeira. Fui ao Louvre e achei tão incrível que resolvi pintar. Não entendo de arte. Aquilo começou como um hobby para acabar com a minha dor.

domingo, 24 de novembro de 2013

Poesia renovada

 O Globo 24/11/2013

AOS PÉS DE ANA C.



Nome de destaque entre os chamados poetas marginais, com uma obra que permanece ao longo dos anos, Ana Cristina Cesar tem seus vários livros reunidos no volume ‘Poética’, lançamento da Companhia das Letras que lembra os 30 anos de sua morte e que traz, ainda, alguns inéditos da autora

NANI RUBIN
nani@oglobo.com.br

Ana Cristina Cesar morreu há 30 anos, mas, como diz um de seus amigos mais próximos, o também poeta Armando Freitas Filho, está vivíssima, mais viva do que nunca. A poeta que teve apenas um livro publicado comercialmente (“A teus pés”, em 1981), antes de se jogar do apartamento de seus pais, em Copacabana, num ensolarado 29 de outubro de 1983, teve mais seis volumes publicados postumamente, virou objeto de procura em sebos, fio condutor de espetáculos de dança e de teatro tema de teses acadêmicas e documentário. Agora, sua obra volta a ficar disponível, com o lançamento, amanhã, de “Poética”, edição da Companhia das Letras, detentora dos direitos sobre os escritos de Ana C., como às vezes assinava.


“Poética” reúne, além de “A teus pés”, seus três livros lançados de modo independente — “Cenas de abril” (1979), “Correspondência completa” (1979) e “Luvas de pelica” (1980). Traz ainda dois dos títulos lançados após sua morte: “Inéditos e dispersos” (1985), organizado por Freitas Filho, e “Antigos e soltos” (2008) selecionados por Viviana Bosi.

Um apêndice com textos de Armando Freitas Filho, Clara Alvim e Silviano Santiago, entre outros, e uma cronologia assinada por Waldo Cesar, pai da autora, enriquecem o volume, que tem inéditos garimpados por Mariano Marovatto no acervo da poeta no Instituto Moreira Salles. O capítulo, chamado “Visitas à oficina”, inclui um poema escrito à máquina pela secundarista do Colégio Bennett, aos 16 anos (leia ao lado), sobre o qual o professor escreveu “Lindo!”. Outro, “Noite carioca II”, deveria ter entrado em “A teus pés”. Freitas Filho, curador editorial de “Poética”, a quem Ana Cristina pediu aos pais que entregassem todos os seus escrito caso lhe acontecesse algo, encara a publicação dos inéditos, desde 1985, como uma espécie de deslealdade permitida:

— Eu traí a Ana para nós termos a Ana. Pensei assim: se o Max Brod tivesse aceitado o pedido de Kafka de destruir seus manuscritos, a gente não teria Kafka — compara ele, que pensou (e pesou) cuidadosamente cada um dos textos. — Eu me fazia o tempo todo a pergunta: o que a Ana iria achar? Porque ela tinha uma autoexigência enorme, tudo tinha que ser perfeito — conta ele, que fala com conhecimento de causa: foi revisor final de “A teus pés”, leitor privilegiado e personagem da “Correspondência completa”, sob o nome de Gil (Mary, outra personagem, é Heloisa Buarque de Hollanda, que, em 1976, incluiu Ana Cristina, então sem nenhum livro publicado, na sua mítica antologia “26 poetas hoje”).

O amigo e confidente escolheu o que achou “que valesse a pena”, mesmo duvidando, como diz, “que ela aprovasse com grau dez, que era a nota dela, tudo isso”. A menina que ditava poemas para a mãe aos 5 anos de idade, que escreveu, aos 16, “Eu não sabia/ que virar pelo avesso/ era uma experiência mortal”, que se dizia “uma mulher do século XIX/ disfarçada em século XX”, e que, dois meses antes de morrer, declarou em versos “Estou vivendo de hora em hora, com muito temor”, era uma poeta sofisticada, leitora de Emily Dickinson, Katherine Mansfield (sua tese de mestrado em Essex, na Inglaterra, foi sobre “Bliss”, da autora), Jorge de Lima e Manuel Bandeira. Como seus colegas de geração, partiu de uma espécie de diário íntimo para alçar voos mais complexos, embebidos em feminilidade, com um texto trabalhado, “tudo muito bem feito entre o cálculo e o acaso”, define Freitas Filho:

— Enquanto a geração marginal fazia um poema do tipo polaroide, de revelação instantânea, a poesia da Ana sempre exigiu o contrário, uma segunda leitura para você apreender aquilo, para ir em frente com aquilo. Por isso ela durou.

Por isso, também, seus leitores se renovam. Hoje com 28 anos, a atriz Bianca Comparato conheceu sua poesia aos 19, na PUC, onde Ana Cristina cursou Letras, e agora, prepara-se para interpretála no cinema. Cooptou para o projeto o também poeta Michel Melamed, que escreverá o roteiro, e a cineasta Julia Murat.

— O sucesso do Paulo Leminski (“Toda poesia”, da mesma editora, vendeu 65 mil exemplares) mostra que existe um desejo por poesia — diz a atriz, que, enquanto trabalha no argumento, vai conquistando, no boca a boca, ou no poema a poema, novos fãs para Ana C.