sexta-feira, 7 de março de 2014

Eduardo Almeida Reis - Notas camelídeas‏

Notas camelídeas

O problema envolvia matemática e camelos, assuntos nos quais não me imiscuo



Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 07/03/2014 

Ruth e Fernando Henrique Cardoso, o senhor e a senhora Jorge Paulo Lemann (ele tem 22 bilhões de dólares), são dois casais que não podem ser acusados de camelice, qualidade, ato ou comportamento de pessoa sem inteligência ou bom senso; burrice, estupidez, idiotice.

No entanto, em 2006, quando FHC já tinha deixado a presidência da República, os dois casais fizeram camelice para ninguém botar defeito: enfrentaram, montados em imensos camelos, um passeio pelo Deserto de Gobi. Como sabe o leitor depois de consultar a Wikipédia, o Deserto de Gobi é um extenso areal situado na região norte da República Popular da China e região sul da Mongólia. A palavra gobi, em mongol, significa deserto, informação que carece de fonte.

Gobi tem 1.600km de leste a oeste e 800 km de sul a norte, regulando em área com o estado brasileiro do Pará. Em valores extremos, as temperaturas no deserto oscilam de 33,9ºC durante o dia a -47ºC durante a noite. É o lar de animais incomuns como o camelo-bactriano e do raríssimo cavalo-de-przewalski.

O Equus przewalskii é uma espécie de equídeo nativa da Mongólia, que se encontrava extinta na natureza e foi reintroduzida no seu hábitat graças a um projeto internacional. Espécie descrita pela primeira vez em 1881 pelo general e naturalista amador russo Nikolaï Mikhaïlovitch Prjevalski, que viajou à sua procura depois de ouvir relatos de sua existência. O último cavalo selvagem foi avistado em 1969, mas o projeto internacional, recorrendo a exemplares da raça existentes nos zoos, conseguiu reintroduzir a espécie.

Não conheço o casal Lemann, que não deve ser criança: Jorge Paulo nasceu em agosto de 1939. Fernando Henrique, em 2006, orçava pelos 76 aninhos e dona Ruth Vilaça Correia Leite Cardoso regulava com ele, daí o meu espanto: fazer turismo, tudo bem, mas conhecer o Deserto de Gobi montando camelos-bactrianos (de duas corcovas) com mais de 70 anos é, salvo melhor juízo, um exagero dos mais exagerados.


Matemática
O suelto que acaba de encantar o pacientíssimo leitor era para ser um simples nariz de cera, mas se espichou até alcançar 328 palavras, quando minha intenção era falar de um texto que circula na internet, que recebi e repassei sem ler, porque não manjo de matemática e não gosto de camelos. Até de Bangcoc, na Tailândia, fui criticado por leitor amigo, dizendo que o texto não é de um livro do Rajneesh (1931-1990), um picareta indiano que andou empulhando os bobos, mas do livro O homem que calculava, de Malba Tahan, pseudônimo do professor Júlio César de Melo e Sousa (1895-1974), um dos maiores divulgadores da matemática no Brasil.

O problema internético falava de um homem que morreu deixando três filhos e 17 camelos. Em seu testamento, estabelecera que a metade dos camelos ficaria para o primogênito, um terço para o segundo e um nono para o caçulo.

A partir daí, o problema envolvia matemática e camelos, assuntos nos quais não me imiscuo. Muito bom esse verbo pronominal imiscuir-se, né? Parece que entrou em nosso idioma no século passado. Imiscuamo-nos, caros e preclaros leitores, em todos os assuntos que não envolvam gramática, matemática e camelos. Pela atenção, muitíssimo obrigado.


Autorização da Justiça
Entre 1853 e 1856, na península da Crimeia, Mar Negro, ao sul da atual Ucrânia, o império russo envolveu-se na chamada Guerra da Crimeia contra o Reino Unido, a França e o Reino da Sardenha, coalizão que contou com o apoio do Império Austríaco.

Naquele tempo, inexistiam os telefones celulares, mas cabe a pergunta: se existissem, teria cabimento pedir autorização à Justiça para gravar os telefonemas das hostes? Hoste vem do latim hostisis, que significa inimigo, adversário, como também “força armada, exército, tropa, bando, multidão etc.”. Daí o fato de o philosopho não especificar “hostes inimigas”, considerando que as hostes podem ser de nosso próprio exército.

O resumo da ópera é o seguinte: vivemos neste 2014 em guerra contra o crime organizado, daí o exagero de pedir autorização judicial para ouvir e gravar os telefonemas dos criminosos.


O mundo é uma bola
7 de março de 321: Constantino I, imperador romano, decreta o Dies Solis (dia do Sol), domingo, como dia de descanso no Império. Mais recentemente, inventaram o sábado e devem atingir a perfeição no dia em que decretarem um dia da semana como dia de trabalhar, porque o pessoal gosta mesmo é de rede, cachaça e corrupção.

Em 1553, Luiz Vaz de Camões recebe carta de perdão, depois de andar preso por trocar espadadas com um certo Gonçalo Borges no dia 16 de junho de 1552.

Em 1557, chega à Baía da Guanabara um grupo de huguenotes liderados pelo católico Nicolas Durand de Villegagnon.

Em 1808, chega ao Rio de Janeiro a Família Real portuguesa. No mesmo dia, o príncipe-regente, futuro dom João VI, libera a instalação de estabelecimentos industriais em qualquer lugar do Brasil.

Em 1876, Alexander Graham Bell patenteia a invenção que chama de telefone.

Em 570, nasceu Childeberto II, rei merovíngio da Austrásia, que morreria, coitado, no ano de 595.

Hoje é o Dia do Fuzileiro Naval.


Ruminanças

“O homem não é feito para meditar, mas para agir” (Rousseau, 1712-1778).

quarta-feira, 5 de março de 2014

Uma ressaca de alegria - Mãe Stella

 A Tarde/BA 05/03/2014

Maria Stella de Azevedo Santos
Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá
opoafonja@gmail.com

 Pois é, até a alegria,
quando é excessiva,
deixa um gosto
amargo na boca
quando acaba. Um
gosto de saudade
que chega a causar
dor: “A saudade é
dor pungente”, é dor
que dói.

“Quarta-feira de Cinzas”, dia de ressaca. O mar fica de ressaca quando a onda arrebenta nas pedras e recua sobre si mesma. O ser humano fica de ressaca quando após ingestão de grande quantidade de bebida alcoólica termina por sentir um grande mal estar. Eu espero que a ressaca que os foliões do carnaval estejam sentindo hoje seja aquela causada apenas por excesso de alegria. Pois é, até a alegria, quando é excessiva, deixa um gosto amargo na boca quando acaba. Um gosto de saudade que chega a causar dor: “a saudade é dor pungente”, é dor que dói. Afinal, a palavra ressaca tem origem na palavra norueguesa kveis, que significa "mal-estar depois da orgia", acho que em nossa língua é melhor dizer: mal-estar depois da farra.

A bebida é um estimulante. É por isso que em um dos rituais do candomblé se canta: Oti wa ti xô fê rê, querendo dizer que a bebida nos anima, ela nos encoraja a encarar os dias difíceis de maneira renovada. Entretanto, “como tudo demais é sobra”, a bebida, a comida e até a alegria não deve ser vivida em excesso. Oti é a palavra yorubá que é usada para qualquer bebida que embriague a mente.

As religiões, em sua maioria, não são contra as bebidas, e sim ao uso excessiv delas. Nos rituais do candomblé, as bebidas que embriagam devem ser usadas de maneira comedida, com o intuito maior de despertar a alegria. Essa religião se utiliza de bebidas profanas e sagradas. O champagne e vinho do ritual de bori, a cachaça e vinho do ritual de axexe e a cachaça de Exu são consideradas profanas porque não foram preparadas em ambientes divinizados, nem foram preparadas por sacerdotes consagrados. A bebida sagrada do candomblé é o aluá, uma bebida fermentada que é oferecida aos deuses e homens com o objetivo de aumentar o axé de quem a ingere, seja de maneira concreta (humanos) ou simbólica (divindades).

O aluá é uma bebida fermentada tipicamente brasileira, uma vez que tem relação com os índios, os portugueses e os africanos. No Brasil do 1º Império era moda servir aluá na corte de D. Pedro I.

Em Portugal, era uma bebida feita do bagaço da uva, por isto conhecida como bagaceira. Os índios da Amazônia faziam uma bebida com abacaxi que ficava durante três noites fermentando ao luar, razão pela qual o folclorista Luís da Câmara Cascudo sugere ser o nome aluá uma corruptela de “ao luar”. Na verdade, aluá é uma palavra yorubá (lú, em yorubá, significa misturar) que é usada em um ritual onde se movimenta e mistura a água com a bebida aluá, visando agitar o que está parado, a fim de que a purificação seja favorecida e que o que está velho possa ser renovado através do movimento.

Esse ensinamento nos é transmitido através dos cânticos do Ritual das Folhas, mostrando para os sacerdotes do candomblé a importância de eles conhecerem a língua religiosa que fazem uso, assim como a simbologia dos elementos usados em todos os atos ritualísticos. O aluá que herdamos dos africanos, por exemplo, é feito de raspadura, milho branco e gengibre. O doce normalmente chamada de rapadura é um dos subprodutos da cana- de-açúcar (Ikesen), cujo nome correto é raspadura, pois esta espécie de doce é feita das raspas das crostas do açúcar da cana que ficam presas às paredes dos tachos. A palavra yorubá que designa o gengibre é atale, planta que tem o poder de aquecer e iluminar, dando-nos alegria.

O milho branco, relacionado aos orixá do branco, indica ainda paz, suavidade e proteção dos seres superiores. O aluá é uma bebida fermentada, por isto seus ingredientes aumentam o axé de doçura, através do açúcar feito de cana (raspadura); o axé de alegria, que é transmitido pelo gengibre; o axé de tranquilidade fornecido pelo milho branco. Boa “Quarta-feira de Cinzas”, boa ressaca, palavra que na língua yorubá é ìbilù-oti. Interessante entender que ìbi é infortúnio, mal estar; lù é mistura e ìbilù significa multidão, o que indica que muita gente junta pode causar ressaca e mal estar. É por isso que digo que três pessoas para mim já é multidão emuita alma junta se perde. Se essa ideia é necessária para qualquer pessoa, para os iniciados ela é ainda mais.

sábado, 1 de março de 2014

Remédio contra a maledicência - Antonio Risério

 A Tarde/BA  01/03/2014


Antonio Risério
Escritor
ariserio@terra.com.br

Em vez de
discutir conteúdos,
as pessoas
preferem assoprar
maledicências. São
incapazes de pensar
em leituras do país,
opções nacionais e
escolhas políticas

As pessoas andam muito venais de uns tempos para cá. A Lei de Gerson se mantém firme entre as principais posturas nacionais diante da vida e do mundo. Assim como o velho dito “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Como se não bastasse, a nossa Bahia, por exemplo, tem sido o reino da cara de pau, do cinismo absoluto. Na política, em especial, esta é a terra onde ladrão descarado vai para meios de comunicação de massa achando que pode dar “lição de moral” nos outros.


Em vez de discutir conteúdos, as pessoas preferem assoprar maledicências, tirando os outros por elas mesmas. Dou um exemplo pessoal. Diante de minha ruptura pública com tudo o que o PT representa hoje – do autoritarismo à corrupção, passando por incompetência administrativa, manipulação de massas e adesão integral ao que sempre houve de pior na política brasileira –, uns ilustres cafajestes locais perguntam: o que está por trás, quanto ele está ganhando para isso? São incapazes de pensar em leituras do país, opções nacionais e escolhas políticas. Querem acanalhar tudo, já que, apesar da hipocrisia retórica, pensam apenas do ponto de vista do próprio bolso.


Bem, a verdade é que não nasci com o PT, nem vou naufragar com ele. Na luta contra a ditadura, eu estava com o MDB. Vibrei com a vitória de Tancredo Neves e a Constituição de 1988 – e o PT foi contra uma coisa e outra. Anti-Collor, marchei com o “socialismo moreno” de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro. Adiante, votei em (e torci para) Fernando Henrique e o Plano Real, também duramente combatidos pelo PT. Quando votei pela reeleição de Fernando Henrique, eu dizia: é para que o próximo seja Lula. Os cappi do marketing nunca me convidariam para trabalhar para malufs-e-cia. e, por isso, só me chamaram para a campanha vitoriosa de Lula em 2002. Estive no mesmo barco em 2006 (reeleição de Lula), última oportunidade em que o marketing ainda politizou alguém, e eleição de Dilma em 2010, já pura prestidigitação.


Meu distanciamento começou aí. Em 2011, trabalhei na feitura de programas nacionais do PSB, sob a liderança de Eduardo Campos. Escrevi então alguns artigos sobre Pernambuco, com referências ao governador. Assim como tinha achado que Fernando Henrique e Lula significariam avanços para o Brasil, passei a dizer que a possibilidade do novo estava agora com Eduardo Campos. Cheguei a fazer a campanha do PT para a prefeitura de São Paulo em 2012, mas escrevi aqui neste jornal dizendo que Haddad não era o candidato dos meus sonhos: meu principal objetivo, naquela investida, era derrotar Serra, político que tinha optado pelo caminho da autodegradação. Naquela mesma eleição, votei em Neto para prefeito de Salvador, já que o PT não me oferecia uma opção sequer razoável para a cidade.


De lá para cá, através de artigos publicados aqui e emSão Paulo, venho marcando meu distanciamento do teatro petista de dilmas & papudas. E é o seguinte: mais quatro anos de Dilma seriam ótimos para o meu bolso, mas péssimos para o país. Não quero dar a menor contribuição para que ela permaneça no posto, produzindo estagnação e retrocesso no país, de mãos dadas com calheiros de calibre variado. E o importante para mim, com Eduardo Campos e Marina Silva, não é vencer (embora ache isso possível – e nem é por outro motivo que os petistas andam tão nervosos), mas, antes de tudo, como disse a meu amigo Eduardo Giannetti num almoço recente em São Paulo, criar um novo polo de pensamento e poder no país.


É a ruptura com o pacto político podre, a política econômica atabalhoada, a corrupção, etc., que deve ser discutida. Mas Sérgio Buarque está certo (Raízes do Brasil): entre nós, dissidências não são discutidas politicamente – reage-se com o velho espírito de clã dos ibéricos, agora de mistura com o stalinismo. Mas meu guru, aqui, é Catulo, na velha Roma imperial, dizendo: “Não faço o mínimo, César, para te agradar – nem quero saber se és branco ou negro”. Em próximos artigos, vou expor minhas críticas às falências e falácias que hoje regem a ação do governo no país.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Folia e hipocrisia - Walter Queiroz Jr.

A Tarde/BA 22/01/2014

Walter Queiroz Jr.
Advogado, poeta, compositor,
membro da Confraria dos Saberes
waljunior44@hotmail.com

A palavra folia vem de uma palavra francesa
(folie) para designar loucura e não
é à toa que dela nos apropriamos como
sinônimo do carnaval. Nossa festa maior, entretanto,
não merece incorporar esse galicismo
ao pé da letra. Nosso carnaval não deveria ser
um evento louco e, sim, um conjunto de momentos
mágicos a favor da comunidade, pedindo
uma trégua à caretice, em favor da espontaneidade
e da catarse pela alegria. A transformação
do carnaval-participação da década de
setenta, quando Brasil e o mundo vinham pra
cá confraternizar descontraidamente, no modelo
atual é um desserviço à causa social e aos
legítimos anseios da nossa cultura popular. Praticamos
hojeumcarnavalmovido por interesses
argentários, num conluio político-empresarial,
privilegiando artistas que, ensandecidos pela
fama e glória, venderam a alma ao diabo.

A fúria eletrônica liquidou com as manifestações
acústicas e um gigantismo irresponsável
tomou conta da avenida. O pioneiro
afoxé Filhos de Ghandy, emblema do nosso
carnaval, transformou-se numa entidade que
passeia mais que dança, até por que já não
ouve os seus próprios agogôs. As rádios compradas
pelo “jabá” marginalizam milhares de
artistas e fabricam sucessos medíocres e que
contribuem para empobrecer o imaginário
das novas gerações. Atitudes hipócritas de
alguns desses artistas, como sair, eventualmente,
sem cordas, tentam transformar em
concessão, uma obrigação que sonegaram durante
décadas, privatizando as avenidas e locupletando-
se com a venda de abadás, a segurança
embutida no preço.

Em todo o Brasil começa a retomada dos
valores dos eternos carnavais, com manifestações
mais leves, e a juventude volta o seu
olhar para a beleza das festas de outrora, mais
líricas, mais críticas e bem-humoradas. Começa
a renovação do cancioneiro carnavalesco,
a exemplo do ótimo Bailinho de Quinta,
novos festivais e as batalhas de confete,
como a que hoje faremos na Associação Atlética
da Bahia, a partir das 13 horas, homenageando
os blocos do Barão e do Jacu, que
estaria completando 50 carnavais.

Racismo, macacos e a imbecilidade - Luiz Mott

A Tarde/BA 22/02/2014

Luiz Mott
Professor titular de Antropologia da Ufba
luizmott@oi.com.br

Chamar negro de touro, gatão, é elogio.
Chamar um negro de macaco é crime
inafiançável no Brasil. Temos presenciado
nos últimos tempos deploráveis gestos de
racismo contra negroides vips, associando-os
aos nossos parentes antropoides mais semelhantes
na escala evolutiva: duas ministras negras,
na Itália e França, foram referidas de
orangotangas por colegas do governo. Nalguns
estádios da Europa, torcedores jogam banana
ou imitam macacos para insultar jogadores
negros. Há poucos dias, no Peru, um estádio
inteiro simulou o “guincho” de macaco quando
o futebolista afro-brasileiro de cabelo rastafári
pegava a bola. Racismo deprimente agravado
por serem os peruanos predominantemente
indígenas.

Essa associação de negros a macacos tem
como substrato ideológico a desumanização
dos cidadãos de pele escura, cabelos crespos e
narizes mais platirrínios do que os brancos e
amarelos. Como se os pretos não pertencessem
à nossa mesma classe homo sapiens, preconceituosamente
indissociáveis da desengonçada
natureza simiesca. Como diz racista provérbio
espanhol, “una mona, aún de seda, mona es y
mona se queda": uma macaca, ainda que vestida
de seda, é e continua sendo macaca.

Às vezes, contudo, somos obrigados a reconhecer
que esses nossos parentes próximos
pouco abaixo na escala evolutiva dão-nos sábias
lições de vida: “cada macaco no seu galho”,
“macaco velho não mete a mão embotija”. São,
contudo, desastrados: “comomacaco numa loja
de cristal”... ou mal sucedidos nalgum mister,
“fulano pagou um mico...”

Inédito episódio na história da Bahia retrata
essa associação simiesca: em 1645, “o
mulato Mateus Soares, pequeno de corpo,
acusado à Inquisição de ser sodomita,
acompanhava seu senhor em comédias fazendo
figura de bugio e dançando com um
pote na cabeça”. Creio ser essa primeira
referência a uma representação teatral nas
ruas da velha Salvador. Lastimavelmente, o
jovem mestiço afrodescendente prestando-
se à perpetuação do mesmo estereótipo
desumanizante da raça etíope.

Do racismo ao contrarracismo - JC Teixeira Gomes

A Tarde/BA 22/02/2014

JC Teixeira Gomes
Jornalista, membro da Academia de Letras da
Bahia
jcteixeiragomes@hotmail.com

Ninguém de bom
senso pode negar a
existência de racismo
no Brasil. Não vamos,
porém, acirrar tão
infame problema
praticando o racismo
ao contrário

Em meu último artigo, adverti que não gostava de escrever sobre racismo pelas paixões que o tema provoca, mas destaquei a “imensa dívida” que a sociedade brasileira tinha para coma população negra. Era uma referência ao legado desastroso da escravidão.

Dois artigos publicados em A TARDE me levaram a tratar do problema, ambos afirmando que pessoas brancas estavam dificultando o acesso aos shoppings de “jovens negros da periferia”, nos chamados “rolezinhos”. Rebati tais acusações, qualificando- as de “racismo ao contrário”. Entre o verdadeiro dilúvio de manifestações que meu artigo provocou, apenas duas eram contrárias, uma assinada por um cidadão que se qualificou com o pomposo título de “superintendente de Direitos Humanos da Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos da Bahia”.


Não vou aqui evocar minha biografia jornalística, marcada pelo combate a toda forma de opressão e discriminação racial, o que me levou, como autêntico gladiador da pena, a travar numerosas polêmicas. Em todas, jamais pedi condescendência aos adversários, mas apenas honestidade intelectual. Que jamais distorcessem minhas ideias para obter vantagens na argumentação. Pois bem: foi isto que precisamente fez o superintendente citado.

Disse ele ter eu afirmado que “quem combate o racismo faz racismo ao contrário”. Jamais escrevi tal absurdo. O que escrevi, sim, foi que “precisamos combater no Brasil o pensamento que discrimina a pretexto de combater a discriminação”. Isto está claro diante da acusação que os articulistas mencionados lançaram a supostas “pessoas brancas”, que estariam exibindo “a face perversa” da exclusão ao combater a presença de “jovens negros” nos shoppings.


Reafirmo que tais afirmações delirantes são racistas, pois contribuem para criar antagonismos conflituosos na sociedade. “Rolezinhos” são integrados não apenas por negros, mas por pessoas de raças variadas. Depois, são concentrações de massa que, como tal, podem provocar distúrbios onde quer que se instalem. Gostaria de saber dos acusadores de que forma seria possível, diante de uma invasão dos shoppings, pinçar no meio da turba os “jovens pacíficos” dos arruaceiros violentos que, nos próprios bailes “funks” e nos pagodes da periferia, distribuem pancadaria a torto e a direito e exigem presença policial.


Contenham seus delírios, temerários acusadores! O que desejam agora? Levar o clima de violência e intranquilidade social para dentro dos únicos espaços no país em que os velhos, os moços e as famílias podem andar com relativa segurança, em vez de ficarem expostos ao crime nas proibitivas ruas do Brasil de hoje, conflagradas pela guerra civil urbana que mata com rojão na cabeça ou ainda por balas perdidas e achadas? Só no último fim de semana em Salvador quatro crianças foram assassinadas. Em Guarulhos, um casal foi morto dentro de uma igreja, durante um batizado! No Rio, os traficantes sustentados pelos ricos drogados do Leblon fuzilaram a Rocinha e fecharam o túnel Zuzu Angel com pneus incendiados. É esse clima que desejam ver instalados nos shoppings invadidos?


Ninguém de bom senso pode negar a existência de racismo no Brasil, a deplorável prática iniciada quando os colonizadores começaram a predar não os negros, mas os índios. É prática tão antiga quanto a maldade do homem e uma das suas expressões mais danosas. Já li que Jesus Cristo era mulato de cabelos crespos, tipo comum na Palestina bíblica, mas a iconografia ocidental só o mostra como um belo homem louro de olhos azuis. Não vamos, porém, acirrar tão infame problema praticando o racismo ao contrário. Vamos, sim, praticar o contrarracismo.

A Bahia não é a Roma Negra, nem somos afrodescendentes ou eurodescendentes, expressões importadas que ofendem nossa brasilidade. Somos apenas cidadãos brasileiros, em sua maioria mestiços. Valeria terminar lembrando que a lei Afonso Arinos, de 1951, proíbe manifestações racistas partidas de brancos ou negros em qualquer espaço em que elas se manifestem. Inclusive nos shoppings, onde o que prevalece não é a cor da pele, mas o poder dos bolsos.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Bahia de todos os nós - Antonio Risério

A Tarde/BA 15/02/2014


Antonio Risério
Escritor
ariserio@terra.com.br

Quando ouço
a conversa fiada de
que a Bahia é “de
todos nós”, penso
comigo mesmo:
sim, é de todos nós,
mas continua sendo
mais de alguns
do que de outros

A realidade baiana nos entristece a
cada passo. O índice de desemprego
em Salvador é o maior entre
as capitais brasileiras. E os números do
Bolsa Família, na Bahia, são escandalosos.
Para o governo estadual, um atestado
de incompetência. Para os baianos, sinônimo
de atraso e motivo de vergonha.
Enquanto Dilma Rousseff e seus colegas
fazem farras com dinheiro público dentro
e fora do país, 43% da população
baiana estão cadastrados no famigerado
programa. Nada menos que 1.8 milhão de
famílias, somando cerca de 6.5 milhões
de pessoas. É gente demais na miséria.
Gente demais de pires na mão. E o número
aumenta a cada ano, sem que nossos
governantes demonstrem disposição
e capacidade para enfrentar a questão.

Entrevistados, alguns ilustres economistas
locais fazem
comentários sobre
esse quadro de subcidadania.
E, quando
não se limitam a
emitir banalidades,
eles apenas deliram.
Um deles, por exemplo,
diz que as coisas
vão mudar nas próximas
gerações,
quando os filhos dos
beneficiários atuais
do Bolsa Família,
tendo acesso à educação,
poderão ingressar
galhardamente
no mercado
de trabalho. Quem diz uma baboseira
dessas quer nos enganar – ou se autoenganar.
Acesso à educação? Qual? Só se for
à mesma que tiveram os preparadíssimos
sindicalistas que hoje mandam e
desmandam no governo local.

Porque é o seguinte. No pé em que as
coisas estão, nenhum desses filhos das
famílias penduradas no programa vai ter
educação (qualificação) para ingressar
em boas condições no mercado de trabalho.
Pelo simples motivo de que nosso
ensino público – em todo o estado, mas,
principalmente, nas regiões mais pobres
– não prepara ninguém para nada. É um
ensino de merda. Afora isso, minha vontade
é dizer o seguinte ao doutor que deu
a declaração: pegue os 60 ou 70 reais do
Bolsa Família e tente matricular sua filha
num bom curso de informática ou de
inglês, por exemplo. Não vamos pensar
que peneira foi feita para tapar o sol. Pelo
andar da carruagem, os pobres e miseráveis
da Bahia se encontramsem perspectiva
alguma. Estão aprisionados no
círculo de ferro da subcidadania, da existência
infra-humana.

Os que fazem parte do governo seguem
repetindo: é preciso capacitar as pessoas,
qualificar a mão de obra. Se é assim, por
que não fazem isso? Por que não metem
a mão na massa e apostam fundo na
inteligência popular? Por que não investem
de fato nas pessoas? Porque, até prova
em contrário, falam da boca para fora.
Mais fazem o teatro da inclusão do que
realmente a promovem. E não adianta
ficar fazendo campanha publicitária para
dizer o contrário. É propaganda enganosa.
Quando ouço a conversa fiada de
que a Bahia é “de todos nós”, penso comigo
mesmo: sim, é de todos nós, mas
continua sendo mais de alguns do que de
outros.

Nossos governantes são engraçados. E
parece que pensam que somos todos cegos
ou burros. Diante dos números do
Bolsa Família na Bahia, a titular de um
desses ministérios inúteis que hoje enfeitam
o governo se justifica dizendo que
nossos problemas são antigos. Quando
questionam Sérgio
Cabral sobre as enchentes
devastando
casas e vidas no Rio,
ele diz a mesma coisa.
Aqui na Bahia, o
papo não é outro.
Ora, sejamos sérios:
quem está no governo
há dez anos, não
pode mais usar essa
desculpa esfarrapada.
Se não fez o que
deveria ter feito (e
teve tempo de sobra
para fazer), não jogue
a culpa no passado,
em seus antecessores
no posto, que isso é indecente.
Se Wagner tem hoje alguma “herança
maldita”, a herança é dele mesmo.

E desconfio que, se for pelo governo, a
pobreza vai se perpetuar. Outro dia, o
economista Eduardo Giannetti foi ao
grão da questão. Disse que vai ser muito
difícil derrotar Dilma Rousseff eleitoralmente,
pelo simples fato de que ela está
montada em 40 milhões de contracheques.
A observação vale para a Bahia. A
pobreza interessa a quem está no governo
e quer se manter no poder, pelo
que significa de desinformação e dependência.
Hoje, o curral eleitoral não é mais
geográfico. Pulverizou-se, preso agora às
rédeas ou coleiras da mesada assistencialista.

Escrita de libertação - Jose Castello

 O Globo - 15/02/2014


BERNARDO
KUCINSKI NOS
MOSTRA OS
INTERIORES DA
DITADURA. NÃO
SÓ O GRANDE
SOFRIMENTO, MAS
AS PEQUENAS
DORES QUE QUASE
NINGUÉM VIU


A literatura como um exercício de libertação:
eis como a pratica o escritor
Bernardo Kucinski, de quem
a Cosac Naify lança a coletânea de
contos “Você vai voltar pra mim”,
além de relançar o premiado romance
“K”. Sua escrita é um exorcismo dos dolorosos
anos da ditadura militar originada pelo golpe
de 1964. Não é, porém — como se pode temer
em um primeiro instante —, uma “literatura engajada”,
ou panfletária. Kucinski não escreve panfletos,
mas ficção da mais alta qualidade. Nela incluída
improváveis histórias pessoais, pequenos
sentimentos, dores secretas e toda a miudeza
atroz de aflições que definem o humano.

É uma escrita objetiva, seca, substantiva, como
observamos no conto “O garoto de Liverpool”, história
de um rapaz “magro, de rosto chupado e miúdo,
do qual só se viam o nariz, a boca e parte dos
olhos”, que vem para o Brasil fazer uma reportagem
sobre os índios da Amazônia e a construção
da Transamazônica e acaba preso, confundido
com um guerrilheiro. Depois da tortura, é jogado
em um buraco de quatro metros onde passa longos
dias de horror. Só é salvo porque aparece um
oficial que morou na Inglaterra, lhe dá ouvidos e
consegue, assim, entendendo sua verdadeira história,
libertá-lo. A história é feita não só de grandes
atos, mas também de pequenos mal-entendidos.
A ação do acaso — a chegada inesperada do militar
— tem, tantas vezes, a mesma força que a mais
terrível barbaridade.

Kucinski nos mostra, em seus relatos, os interiores
da ditadura. Não só o grande sofrimento —
repressão, brutalidade, torturas, ódio — mas as
pequenas dores que quase ninguém viu. É o caso
do conto “A suspeita” no qual um grupo de amigos
discute, tempos depois, sua responsabilidade
ou não sobre a loucura de um homem considerado,
por engano, um informante da repressão.
Admitem o erro, carregam agora o peso de
um homem ter enlouquecido por causa deles.
Mas, para se salvarem, se apegam a uma explicação
racional: “É como diz o filósofo: o homem e
suas circunstâncias. O sorriso era do homem, o
DNA da loucura também já estava nele e as circunstâncias
foram da ditadura. E ponto final”. Kucinscki
não passa a mão nas cabeças, tampouco
nas consciências, daqueles que tiveram a coragem
de se engajar na luta clandestina contra o regime
ditatorial. Reconhece sua coragem e a grandeza de
seu esforço, mas os vê, antes de tudo, como homens
comuns, que cometem
enganos e deslizes também.

O livro traz alguns retratos
preciosos como em “Um homem
muito alto”, a história de
um bravo militante que não
precisou de delatores: sua própria
altura incomum o denunciou.
Pernalonga, King Kong,
Golias — teve muitos apelidos,
até passar a ser chamado de Jamanta,
codinome dado pelos
serviços secretos. Escreve Kucinski:
“Antes mesmo de cair
prisioneiro da repressão, tornou-
se prisioneiro do próprio
corpo”. No fim, ao sair para comprar cigarros, é
preso em um subúrbio do Rio de Janeiro. Condenado
a dezessete anos de cadeia, uma das penas
mais longas para casos como o dele. “Uma pena
tão descomunal quanto sua altura”, resume, sem
se negar uma dose de humor.

Alguns contos, como “Terapia de família”, passam
apenas nas bordas da história política. Depois da
Lei da Anistia, um pai anistiado é tratado como o
centro da família, enquanto o filho passa seus dias
trancado no quarto, em fuga do mundo. A família —
esgotada — decide submeter-se a uma terapia familiar.
Surge então o ressentimento
do rapaz, abatido porque a mãe só
dava atenção ao pai herói. Durante
os seis anos de cadeia, embora
enviasse cartas para a mulher e
para a filha, só lhe destinou o silêncio.
As sessões de terapia em
família se revezam com sessões
individuais. O rapaz diz que não
procura emprego porque precisa
“arrumar o quarto antes”. Mas, ao
terapeuta, admite: “A arrumação
do quarto é uma desculpa; eu passo
as vinte e quatro horas do dia
pensando em maneiras de destruir
meu pai”. A terapia fracassa, o
impasse afetivo — efeito secreto da ditadura — derrota
a família.

Outras vezes não, como constatamos na leitura de
“Pais e filhos”. Quando soube que o filho Augusto é
suspeito de ter participado de um atentado, o dr.
Nicolau Junqueira, médico-cirurgião, fica possesso.
Depois de muito buscá-lo, encontra o filho escondido
na casa de uma tia. O pai é um defensor
intransigente do regime militar. Um dia, o rapaz é
intimado a entrar para o comando da organização
clandestina a que pertence. Prefere fugir para o
Chile. Só um ano depois, através da mãe, entrega
ao pai seu endereço em Santiago. Os pais viajam
para visitá-lo. O encontro é tenso, parece desastroso,
até que o doutor convida o rapaz para uma caminhada
a dois pela cidade. O fecho do conto é especialmente
forte: “Já na rua, o velho médico colocou
o braço em torno do ombro do filho, e assim
caminharam, lado a lado, abraçados, por muitos e
muitos quarteirões”. Sem trocar uma única palavra.
O afeto mais profundo e difícil, muitas vezes,
não encontra palavras que a ele correspondam. Só
se diz em silêncio. Sentimentos paradoxais, como
a ironia, o desconcerto, o amor e o humor, Kucinski
nos mostra, também fazem parte da história
da ditadura militar.

O estilo intimista — embora escrito em um
tenso realismo — dá o tom também, como seus
leitores já sabem, do premiado romance “K.”, que
agora ressurge em nova edição. Inspirado no desaparecimento,
40 anos atrás, da irmã de Kucinski,
Ana Rosa, e de seu marido Wilson, o romance
guarda um forte caráter autobiográfico
que, no entanto, não o encarcera no mero testemunho.
Há uma recriação corajosa da história
pessoal, o que reafirma a posição da literatura
como lugar não só de transformação, mas de libertação.
Embora sua identificação com as vítimas
da ditadura seja indisfarçável, Kucinski faz,
todo o tempo, um esforço (bem-sucedido) para
ampliar seu olhar, colocando-os assim em seu
devido tempo e circunstâncias, arrancando-os
da simples mitologia política e devolvendo-os ao
terreno do humano. O que pode parecer que os
apequena, na verdade os engrandece. A História,
mesmo a mais heroica, é feita por homens frágeis
e cheios de contradições e isso só reafirma o valor
de sua luta.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Mais um passo para aperfeiçoar a democracia

O Globo 14/02/2014

Colunistas do GLOBO analisam impacto da cassação de Donadon pelo voto aberto e apontam necessidade de novos avanços




sábado, 8 de fevereiro de 2014

O desviante - José Castello

O Globo 08/02/2014

HISTÓRIAS E BREVES NOTAS - GONÇALO M. TAVARES

O Globo 08/02/2014

Sergipe e Bahia - Luiz Mott

A Tärde/BA 08/02/2014

Luiz Mott
Professor titular de Antropologia da Ufba
luizmott@oi.com.br

A história oficial de Sergipe começa
em 1591, quando luso-baianos fundam
a cidade de São Cristóvão no
estuário do Vaza-barris, após sangrentas batalhas
contra os tupinambás. Como já existia
no recôncavo da Bahia Sergipe do Conde,
chamaram a novel conquista de Sergipe o
Novo, depois, Sergipe del Rey. Muitos dos
soldados baianos que participaram desta
conquista obtiveram grandes sesmarias,
comprometendo-se a povoá-las. Também
alguns delinquentes sentenciados pelo visitador
do Santo Oficio em Salvador tiveramSergipe
como lugar de degredo. Ordens
religiosas originalmente instaladas na Bahia
fundaram missões e novos conventos
em São Cristóvão, Santo Amaro das Brotas,
Tomar do Geru e outras freguesias.

Por 230 anos Sergipe foi comarca da Bahia,
e mesmo tornando-se capitania independente
em 1820, nem por isso deixou de ser considerada
e tratada como uma espécie de “quintal
da Bahia”, apodo considerado ofensivo pelos
sergipenses. Gregório de Mattos consagrou
esse estigma ao assim descrever a capital sergipense
nos finais dos seiscentos: “três dúzias
de casebres remendados, seis becos de mentrastos
entupidos, quinze soldados rotos e despidos,
doze porcos na praça bem criados, de
Sergipe del Rey, esta é a cidade...”

Já publiquei artigo sobre as seletas filhas de
senhores de engenho da vizinha comarca que
tomaram hábito no Recolhimento da Soledade
e outros conventos soteropolitanos. Destacados
sergipanos aqui brilharam e brilham nas
ciências, artes, política e negócios: José Calasans,
Thomas Cruz, Bernardino de Souza,
Mário Cabral, Geraldo Sobral, Lourival Batista,
Marcelino do Tem Postal, Selma Fraga Costa,
Paes Mendonça, Lícia Fábio, Jenner Augusto,
entre outros. Incontáveis sergipenses dedicam-
se ao comércio nos mercados de Salvador
e interior, quase todos ostentando fenótipo
típico de descendentes de puros portugueses
do Minho, do tipo “galego”, de pequena estatura,
olhos e cabelos claros.

Aracaju propagandeia ser o melhor fim
de semana da Bahia... Vale conferir!

Dinâmica saudade - Walter Queiroz Jr.

A Tarde/ BA 08/02/2014

 Walter Queiroz Jr.
Advogado, poeta, compositor, membro da
Confraria dos Saberes
waljunior44@hotmail.com

Sentimento melancólico, acorrentado ao
passado, saudade assim não me interessa,
é saudosismo. Agora, uma dinâmica saudade
que celebre e atualize acontecimentos
felizes, paramentando novas esperanças, esta
me apraz. Ninguém poderá banhar-se duas
vezes nas mesmas águas de um rio, nos lembra
o grande Heráclito, assim como novos beijos de
amor jamais serão os mesmos de outrora, mas,
certamente, poderão tornar-se saudosas carícias
no... futuro.

Não advogo, como querem alguns dos meus
detratores, uma volta aos antigos carnavais. Propugno,
sim, pela reedição dos seus valores eternos
nos carnavais atuais, onde estão ausentes a
poesia e o humor. Minha geração vestiu lindas
fantasias, chorou de dor e alegria, dançou e
cantou marchas e sambas que se (éter)nizaram
no imaginário do Brasil. De ponta a ponta, um
país vivenciando um mágico carnaval feliz.
Uma folia ritualizada, com dia e hora para
começar e acabar, onde cada minuto era precioso
e inesquecível, e se alguém quiser mesmo
saber o que significa uma saudade, pergunte a
um pierrô apaixonado pela dor de silêncio
devastador de uma quarta-feira de cinzas.

“Pobres moços”, parafraseando o grande Lupiscínio,
quando entregues à aventura vazia e,
meramente, hedonista, de um carnaval sem
alma, preferindo o conforto tedioso dos camarotes,
enquanto corações sonhadores brincam
nas ruas, sonhando ardentes paixões.

Este ano, o legendário Bloco do Jacu faria
50 anos, não tivesse sido alijado das avenidas
pela estridência eletrônica e predadora
desse modelo de carnaval. Há um projeto
da Saltur em andamento no sentido de,
juntos com a turma do Barão, coirmão de
históricos carnavais, possamos nos reunir,
filhos e netos, na grande festa, em local e
data a serem anunciadas.

No dia 22 de fevereiro, na AAB (Associação
Atlética da Bahia), faremos a terceira edição da
batalha de confete “Recordar é viver”. Em nome
da dinâmica saudade que une gerações, também
a nossa renovará seus abraços e canções,
com o privilégio depoder rememorar... um
cheiro de lança no ar!

Racismo e rolezinho - JC Teixeira Gomes

A Tarde/BA 08/02/2014

JC Teixeira Gomes
Jornalista, membro da Academia de Letras da
Bahia
jcteixeiragomes@hotmail.com

Precisamos evitar
no Brasil o exercício
do pensamento
que discrimina a
pretexto de combater
a discriminação.
Precisamos combater
o racismo
ao contrário

Tenho evitado escrever sobre racismo pela delicadeza de um tema que traduz imensas dívidas da sociedade brasileira para com a população negra. Mas dois artigos recentes sobre rolezinhos me fizeram mudar de ideia, um do meu amigo Jorge Portugal, outro do deputado petista Luiz Alberto. O primeiro vê tais manifestações como “caso de política”. Há anos, diz ele, os garotos de bairro populares, sobretudo negros, sentiam-se discriminados no “pedaço dos barões” (!), incluindo shoppings. Hoje, resolveram ocupar tais espaços “com a linguagem de seus corpos jovens e mestiços”.

Já para o petista Luiz Alberto, radical e contundente, discriminações em shoppings paulistas contra “jovens da periferia, na maioria negros” (sic), “num lugar onde não são esperados”, causariam pânico. A denúncia acusa “uma reação das pessoas brancas” (!), incomodadas como donas do “espaço do poder”, revelando “a face perversa” da exclusão orquestrada por brancos ricos contra negros pobres. Só faltou dizer que a Ku Klux Klan invadiu shoppings brasileiros para expulsar negros, num texto agressivo, cuja ideologia rançosa expõe objetivo eleitoreiro.

Não é a cor da pele que define presenças em shoppings: é o seletivo e excludente consumismo capitalista. Empresários não vacilam diante de lucros: o megaempresário Odebrecht está construindo em Cuba um porto para o comunista Fidel, com o farto dinheiro enviado pelo PT de Luiz Alberto. Não me consta que Pelé tenha sido barrado em um único shopping do mundo.

Templos do consumismo, shoppings são também centros de convivência social. À comodidade da concentração de lojas, acrescentam o prazer dos passeios em segurança. Sendo espaços limitados, grandes massas em seu interior podem intimidar fregueses, dificultar vendas e ameaçar patrimônios. Não por causa específica da presença de jovens negros: rolezinhos são formações compósitas e incluem negros, brancos, mulatos, louros, índios etc., como o próprio Brasil. Multidões em áreas fechadas podem ser ordeiras ou ficar imprevisíveis como bois em curral, doidos para arrombar a cerca ante um simples estalo. Lembremos que arruaceiros desvirtuaram as manifestações pacíficas do povo nas ruas brasileiras em 2013.

Precisamos evitar no Brasil o exercício do pensamento que discrimina a pretexto de combater a discriminação. Simplificando: precisamos combater o racismo ao contrário. Desde alguns anos, generalizou- se a absurda ideia de que usar a palavra “negro” era ofensa racial e passaram a trocá-la por “afrodescendente”. Mas os linguistas que o professor Jorge Portugal tão bem conhece lembram que existe o vocábulo “polissemia”, para explicar os conteúdos múltiplos das palavras. “Negro” pode designar não apenas a cor da pele, mas também “escuridão”, “treva” ou “dificuldade”, como ocorre quando dizemos “a situação está negra”. A eficiente repórter de TV Glória Maria já afirmou, com orgulho: “Eu não sou afrodescendente, eu sou é negra!”

Qualquer exaltação de uma raça particular é racismo. Na década de 70, quando eu chefiava o Jornal da Bahia, fui procurado pelo emérito sociólogo Thales de Azevedo, que me advertiu, ao ler que o setor de promoção do jornal realizava o concurso “A Mais Bela Mulata da Bahia”. Thales disse: “Vocês estão fomentando o racismo!”. O mestre estava certo. Hoje, no entanto, tornaram-se comuns no Brasil designações como “Dia da Beleza Negra”, da “Cultura Negra”, conjunto “Raça Negra”, há uma revista, “Raça”, dedicada apenas a negros, etc. Imaginem Jorge Portugal e o deputado Alberto se alguém andasse elogiando um conjunto “Raça Branca”!

Enfim, preocupados ambos em denunciar o rolezinho como a revolta de negros pobres contra brancos opressores, andam esquecidos de fazer o que deveriam: enaltecer o mais aplaudido negro do Brasil atual, emergente da pobreza para tornar nossa Justiça respeitada: refiro-me ao magistrado Joaquim Barbosa, que, aliás, meteu o branquelo Dirceu e outros petistas corruptos na Papuda, resgatando a dignidade nacional. Garanto a meus articulistas que o negro Joaquim Barbosa frequenta shoppings sob aplausos.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

No jogo da sucessão - Antonio Risério

 A Tarde/BA 01/02/2014

Antonio Risério
Escritor
ariserio@terra.com.br

 Bobagem sonhar
um segundo turno
entre Lídice e Costa.
A esquerda não tem
eleitorado para
colocar os dois na
reta final. Se quer
ser governadora,
Lídice tem de chegar
ao segundo turno

Tem cantora de axé music que, quando ouve a palavra “sucessão”, pensa que a gente está falando de um sucesso enorme, um sucessão. Não é para ela que escrevo. Nem para aquela outra que abriu seu show em Minas Gerais gritando “boa noite, galera! – boa noite, BO!”, achando que BO era a sigla, o apelido carinhoso da capital mineira, Belo... Orizonte. Vamos falar, portanto, não do, mas da sucessão. E sem Minas ou o bobo do Aécio na jogada. Vamos falar da eleição do próximo governador baiano.

Entre as candidaturas que contam, duas estão definidas: a do PT e a do PSB. A de Costa e a de Lídice. É o chamado “campo da esquerda”, muito embora o PT tenha soterrado há tempos sua vocação de esquerda, inclusive com a adoção desinibida dos piores métodos e das piores práticas da política oligárquica. O
compromisso maior do PT, hoje, é com o mercado e o consumo – na base de migalhas para os pobres, tesouros para os ricos. Nunca a história de um partido político brasileiro foi tão decepcionante, do extremo mais ingênuo da pureza ao extremo mais calhorda da degradação. Um partido que começou com o discurso da ética e hoje  uma empresa como outra qualquer, atolado em tudo quanto é tipo de jogo sujo.

Lídice é, portanto, a única candidata da esquerda, embora o poste de Wagner vá fazer esse teatro. Bobagem sonhar um segundo turno entre Lídice e Costa. A esquerda não temeleitorado para colocar os dois na reta final. Se quer ser governadora, Lídice tem de chegar ao segundo turno. Para chegar lá, seu adversário é o poste. Ela tem de derrotar o candidato do governador. Sabendo que Wagner, em busca do “terceiro mandato”, vai tentar abatê-la de qualquer jeito, usando as armas que estiverem ao seu alcance. Nada de jogo leve, nada de civilidade. Aqui, discurso e postura têm de ser bem claros: Lídice pode vir a ser a chamada terceira via. Mas, para isso, não pode ficar elogiando Wagner. Tem de saber distinguir, o tempo todo, entre o que ela pensa que é e a percepção social do que ela significa. Tem de demarcar com clareza que terceira via não é linha auxiliar. Ou não irá a lugar algum.

No outro campo, os nomes não estão definidos. Há quem fale que o candidato é Paulo Souto, há quem diga que é Geddel. São, ambos, candidatos realmente fortes. E, seja um ou outro o nome lançado, vai estar presente no segundo turno. O problema é que aí a porca pode torcer o rabo. Aviso que não acho impossível que a eleição ganhe caráter plebiscitário e se resolva num turno só, mas, com Souto ou Geddel, a tendência é a gente ter mais um round, o decisivo. Acontece que ainda não estou convencido de que um dos dois será o candidato. Às vezes, quando penso cá com os meus botões, acho que, na hora H, quem vai sair candidato é Neto, nosso atual prefeito. Razões para tanto não faltam.

Quando digo isso, em rodas de conversa com gente soi-disant de esquerda, todos descartam a hipótese, dizendo que Neto não vai deixar a prefeitura, não vai querer se queimar com a população de Salvador, etc. Ou seja: o raciocínio nada tem de político – é, antes, uma reação de medo diante de uma possibilidade que, para mim, é real. Não seria difícil articular um “queremismo” hoje, aqui na Bahia. Pedidos de “queremos Neto” podem partir de todos os pontos do estado. E ele pode atender ao “clamor” sem abandonar a cidade (e neutralizand sua vice, que dizem ser a pedra no sapato dele). Basta dizer que a população de Salvador já viu o que ele é capaz de fazer e que ele vai continuar fazendo, só que muito mais – mantendo sua equipe na prefeitura e, além disso, assumindo o controle da máquina estadual.

É muito fácil armar esse lance, em matéria de formulação, discurso e marketing. E Neto não vai, de modo algum, precisar se incompatibilizar com Dilma. Basta não entrar de sola na campanha do bobo do Aécio. E penso que isso é provável por dois motivos, basicamente. Em primeiro lugar, com Neto na parada, Wagner pode tirar seu postezinho da chuva. Em segundo, aí sim: as pesquisas indicam que a fatura seria liquidada no primeiro turno.


sábado, 1 de fevereiro de 2014

Poesia e alegria - José Castello

O Globo 01/02/2014

Uma poesia que dança. Uma poesia
que coloca o jogo divertido
das palavras acima do protocolo
dos significados. Uma
poesia nômade, ambulante,
que passeia por vários mundos.
Eis a poesia de Luis Turiba, de quem leio
“Qtais” (7 Letras). Antes de tudo, o império dos
sons, como em “Ser minério é coisa sério”, poema
em homenagem a Minas e aos mineiros. Antes
de qualquer coisa, a busca do novo: “caminhar
é pisar chão/ sem pisá-lo de antemão”. O
poeta é um caminhante — é uma espécie de ambulante
que avança apoiado em seu cajado. Um
poeta libertário, cujo cajado (a língua?) dele
também se desvia. “Meu cajado é libertário/ temos
quase a mesma altura/ caminhando em paralelo/
olhando o mundo às avessas”.

Avançam os dois, “plugados à lei do impulso”,
em uma grande aventura zen. Vão aos tropeções,
mas deles, em vez de tirar dores, tiram lições.
O poeta caminha contra a lógica: “A lógica
dos lógicos já não me interessa/ (...)/ Meu tempo
está no vento peso q não pesa”. Avança sem
uma bússola, parece um sonâmbulo, Turiba nos
faz ver. “Sou cego e calado e escrevo ensimesmado”,
define-se. Ainda assim, cultiva uma intensa
luz interior. Diz a si mesmo: “Não apague a luz
interna e intensifique-se”. Sem direção, resta-lhe
a própria força para construir seu caminho: “levo-
me leve em voos sem lei/ meu fio terra é madeira
de fibra/ sou andarilho”. Carrega um cajado
“alado e desconfiado” e assim privilegia a leveza,
os voos e os grandes saltos. “Um fariseu
distraído/ afável & aviolado”.

Muitas vezes ligamos a poesia ao peso, à densidade,
ao sofrimento — mas é contra essas relações
difíceis que Luis Turiba escreve. É um poeta que
escreve, antes de tudo, para se divertir. A poesia
como brincadeira, como dança sem método e
sem partitura, como improviso. Assim Turiba
brinca enquanto faz poesia, e nós, seus leitores,
nos deliciamos. Vai buscar seus materiais nos cantos
mais remotos — como em “O que é o sol?”, segundo
ele escrito “a partir de um poema oral búlgaro
do século V”. Verdade? Mentira? E isso importa?
Interessa sim a distância que o poeta toma para desenrolar
seus versos. Para erguer-se em seu tapete
voador. Faz uma poesia que voa, mas que é também
uma poesia andante, que rasteja, que cheira o chão
e suas brechas. Seja como for, escreve uma poesia
que canta. Importante definir o
que faz? Não parece. “Ainda não
aprendi teu nome/ Mas já sei
(quase) tudo sobre”, ele diz, descortinando
uma resposta.

Busca um verso “arrítmico”, aos
soluços, aos impulsos. “Quisera
fazer um verso/ com a sublime
arritmia do amor/ um verso míssil/
neurastênico e febril/ ar do
dia anterior à criação do universo”.
Destino dos poetas, não só de
Turiba: estar às voltas com as origens.
“Um verso de trivela/ transverso e subversivo”,
prossegue em seu sonho. “Um verso de fogo e batom/
histórico, histérico e erudito”. Origem (fogo) e
beleza (batom) se misturam para anunciar uma estratégia
que o traz de muito longe e leva para mais
distante ainda. Matéria da poesia: o tempo, que nas
mãos de Turiba se converte em um material maleável
e perigosamente desdobrável.

Uma poesia na qual as identidades se misturam
e é assim que se aproximam, como está dito:
“quem manda em mim/ sou ela”. Poesia da mistura,
mas também da confluência e do diálogo feliz
entre as palavras. Nos versos elas encontram seu
lugar de honra, encontram provavelmente seu
berço. Por exemplo, quando Turiba
brinca assim: “caramba/ carambolas/
sou de jambo/ não
me amora”. Uma escrita contra o
senso, uma escrita de contrassensos:
“agnóstico/ benzo-me
ao olhar o Cristo Redentor”. Exatamente
como somos, seres de
contradição e de desmentidos,
seres instáveis, de pequenas demências,
dos quais a poesia é a
língua mais exemplar.

Há nela um gosto não só pelos
sons, mas pela desafinação. O poeta relata: “Mas
cuíca também falha/ Em plena Sapucaí/ Quebra a
vara, rompe o couro/ Desarma o circo e o estilo”. A
desafinação como uma nova maneira de os sons
se encontrarem e se desencontrarem. Como uma
outra arritmia, que perde o prumo, mas não deixa
de avançar. O poeta, precavido, multiplica seus
instrumentos. “Por isso, digo em sigilo:/ Tenho
duas cuícas/ Florença e Nikita”. Iguais, mas diferentes
— e é dessa diferença que vem a desafinação
inevitável e original. “Enquanto Florença
aflora/ Nikita quica/ E assim floreiam o mundo/
Desafinadas as cuícas”. Também a desarmonia
tem seu valor. Também o desajuste é promotor
de beleza, o poeta nos leva a ver. O mundo não é
uma orquestra afinada e impecável; ao contrário,
é um grande sopro de desencontros, e muita beleza
sai disso.

Um poeta, portanto, que desconfia das excessivas
habilidades. E que privilegia as diferenças.
Por exemplo, a estranheza que ele encontra nas
girafas. “ouvi dizer que elas dormem/ dez minutos
a cada hora/ também pudera, natureza mátria/
com aqueles pescoços quilométricos/ (que
um dia hei de beijá-los)/ um cochilo faz descansá-
los”. Girafas: exceções em um mundo de exceções,
e eis aí a origem da poesia. Nesses desencontros,
nesses desalinhamentos. Em um poema
como “Língua à brasileira”, Turiba evoca Caetano
Veloso, José Saramago, Guimarães Rosa, os irmãos
Campos, tornando difícil que o leitor vislumbre
uma ascendência nítida para sua poética.
Poeta da mistura, Turiba louva seus vários caminhos,
que volta a percorrer como um ermitão
em busca do próprio nascimento.

Aprecia o indecifrável, o vago, aquilo que causa
medo — tudo que os poetas de gabinete veriam
como obstáculo e atrito, ele enxerga como impulso
e leveza. Sabe que “dos signos, a linguagem é a
mais subversiva”. Por isso não se interessa em organizar
o desorganizado, ou em hierarquizar o
que não tem posição fixa. Não: Turiba é um poeta
em que a alegria de escrever (viver) serve de combustível
primeiro. Escreve “por escrever”, e por isso
é tão dono de sua escrita, ainda que ela lhe fuja a
cada verso, ainda que lhe dê rasteiras e subverta
sua própria palavra. As palavras se impõem, e Luis
Turiba sabe ouvi-las. Vê Exu (perigo, mas energia)
“até nas lesmas/ do mago Manoel de Barros”. Exu,
anjo das manhas, em torno de quem o poeta se
contorce para escrever.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Mestre Pinho Pedreira - Antonio Guerra Lima

A Tarde/BA 30/01/2014

Advogado e ex-procurador-geral
do Estado da Bahia






Pinho Pedreira, que faleceu, aos 97 anos, em 22 de janeiro último, deixou uma lacuna no Clube Inglês que jamais será preenchida. Na cerimônia de cremação, ao ver Fernando Santana, na tribuna, falando em nome de todos nós, seus amigos, fiquei a imaginar quantas alegrias vivi, ao lado dele, em mais de cinco décadas, no Clube, diariamente, e nas diversas viagens ao exterior, a exemplo de seus 80 anos, que comemoramos em Paris. Antes, Alcino Felizola, Eduardo Marques, Jorge Borba e eu viajamos a Paris a fim de escolher o restaurante, onde seria comemorado, no dia 20 de outubro de 1997, os 80 anos dele. O jantar realizou-se no restaurante La Coupole.

Na hora dos parabéns, o restaurante, repleto de amigos do Clube, apagou as luzes e, em fila, os garçons, o maître à frente, com o bolo nas mãos, encaminharam-se em direção a Pinho, cantando “happy birthday to you”, acompanhados de todos nós e por um grupo de americanos que ali se encontravam. Todos os anos ele comemorava a data com lauto almoço e excelentes vinhos. Mestre Pinho, como o chamávamos, era a memória viva da Bahia e da história do Brasil.

“Mestre, quem disse tal frase ou quem exerceu este ou aquele cargo em tal ano?”. A essas perguntas, ele respondia sem vacilar, imediatamente.

No Clube Inglês, ele determinava o cardápio, a hora em que o almoço das sextas- feiras deveria ser servido, enfim, tudo que se referisse à gastronomia, a orientação era dele, sem contestação, que ninguém se ousaria, uma vez que magister dixit. Sem preocupação com dinheiro, vivia para viver a vida com os prazeres que esta oferecia, porque “matamos o tempo, e o tempo nos enterra” (Machado de Assis).

Formado em Direito em 1938, em Salvador, deixa contribuições significativas na área do Direito do Trabalho, do qual foi um dos estudiosos pioneiros no país, numa trajetória que inclui os 26 anos passados no Ministério Público e que não se encerrou na presidência do Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região. Nonagenário, assumia as atribuições de professor e não deixava de dialogar com ex-alunos e estudantes da pós-graduação da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia.

Quero, porém, evocar o amigo. Foi um grande viajante, capaz de conquistar a amizade de donos de tabernas em Lisboa e um homem de líricas vivências na boêmia da Cidade da Bahia. Nunca se filiou ao Partido Comunista Brasileiro, mas, simpático à causa antifascista, conviveu com Jorge Amado, Giocondo Dias e Armênio Guedes. Durante a Segunda Guerra, participava das reuniões na casa de Giocondo, na Piedade, onde ajudava a organizar comícios e confabulava em defesa da declaração de guerra do Brasil contra o Eixo.

Nos anos 30, foragido da repressão da ditadura de Getúlio Vargas, o então jovem agitador comunista Carlos Lacerda encontrou nele um guia nas noites baianas, geralmente encerradas no mítico Tabaris, na praça Castro Alves.

Para os intelectuais e boêmios, tão meritória quanto a militância antifascista foi a batalha de Pinho Pedreira para salvar do fechamento o bar Anjo Azul, fundado em 1949 por José Pedreira e Carlos Bastos (em pouco tempo, o espaço virara um recanto de escritores, artistas, professores e jornalistas).

Uma tarde, na década de 50, caminhando pela rua do Cabeça, veio a surpresa: uma placa anunciava a venda do bar, que já não pertencia aos fundadores. Soube da falência e decidiu correr a cidade em busca de recursos para ressuscitar o “templo” do existencialismo baiano. Com a ajuda de Virgildal Senna, conseguiu enfim comprar o Anjo Azul e passá-lo a uma nova direção, sem qualquer proveito pessoal, salvo o de frequentador.

Na primeira vez que o vi, Pinho Pedreira possuía a pompa de examinador do vestibular. A partir de 1957, viria a ser meu professor na Faculdade de Direito e, um pouco mais adiante, o amigo permanente no Clube Inglês, sua segunda casa. No Clube, houve lágrimas e brindes em sua memória. Mestre Pinho viveu como se recomendasse apenas os brindes, e agora o relembro em sua cadeira, serenado pelos noturnos de Chopin.

domingo, 26 de janeiro de 2014

ALIVIA, CHEFIA? - Adriana Calcanhoto

O Globo 26/01/2014

Honorável editora deste Segundo Caderno, escrevo para dizer que acho que aquele momento, tão temido, pelo qual qualquer colunista terá sempre que uma hora ou outra passar, me é chegado. Simplesmente não sei o que dizer sobre os últimos 15 dias no Brasil. Desmatamento de madeira nativa para fazer carvão realizado com trabalho infantil escravo dói, parece que essa combinação de palavras machuca a língua portuguesa, só de ser escrita. Para produzir carvão, um veneno para o planeta. Uma praga da qual precisamos nos livrar. A espécie que se vê como a maravilha da criação e que está destruindo o único planeta onde por enquanto pode habitar e o está destruindo. É como se de alguma zona do meu cérebro eu conseguisse ouvir disparar um alarme “não tem registro”.

Investir em combustível fóssil e carvão pensando no futuro me dá a impressão de estar vivendo em tempos medievais, como é possível? Isso é pensar no final do mês, não no futuro dos nossos bisnetos. É um sinal tão inequívoco da natureza, humana, que dá um nó na garganta. Se a governadora do Estado, e do estado do Maranhão, não teve o que dizer sobre os últimos acontecimentos, sendo os últimos acontecimentos de acontecimentos começados em 1966, ou seja, sem qualquer possibilidade de a governadora repassar para o antecessor a responsabilidade, que teria eu, Venerável, a dizer? Sobre a menina que ia para a escola pela primeira vez e foi queimada viva, vítima de cruéis vítimas atiradas, amontoadas em jaulas como as de Pedrinhas ou Porto Alegre. Os detentos precisam fazer rodízio para dormir nas celas hipersuperlotadas, pegam sarna, doenças venéreas, perdem o senso, assistem ao estupro das próprias mulheres, mães de seus filhos, dentro das celas. Assistem à decapitações de outros detentos. Não tenho coragem de comentar, estou muda.


A produção de barris de petróleo só vai aumentar, celebram os números. Um estudo (“National contributions to observed global warming”) apontou que, por causa do desmatamento, o Brasil fica atrás apenas de Estados Unidos, China e Rússia em termos de responsabilidade pelo aumento das temperaturas no planeta, desde o início do século XX. Muito antes do que imaginamos, a Floresta Amazônica será apenas uma floresta de eucaliptos.


Seguimos comendo partículas plásticas que não se dissolvem porque, de tão pequenas, passam pelos filtros com as malhas mais finas. Usadas principalmente pela indústria cosmética, vão parar no mar, e nós comemos esse plástico dentro dos peixes, dos camarões, das lagostas nos salões.


Seedorf foi-se embora do Botafogo, o que posso dizer eu que modifique isso? A partir de agora só usarei aquele manjado e melancólico “já me deu muita alegria”. Alegria que não deu pra sentir nesta semana de imagens de feridos na Síria, de madeira nativa dizimada, de infâncias perdidas, de escravidão, de retrocesso, de jogadas para a plateia. O investimento em energia limpa caiu alarmantes 12% em 2013. Deixou o Ministério da Educação o ministro que no comando da pasta perguntou o que museu tem a ver com educação, não é má notícia, mas, Digníssima, uma vez isso acontecido, o que poderá estar por vir?



Queria, Impecável, poder dizer aos leitores, meus compadres queridos, “vamos até a praia, hoje é domingo, sol de maçarico ou talvez umas pancadas, as amorosas chuvas de verão, escutar a sinfonia das cigarras dando tudo de si, nossa, chega a doer o ouvido. O canto das cigarras não tem o intuito de ser belo, ele apenas é, o que é, é para o que serve. Natural, cheio de nuances, com intervalos e notas estranhos, às vezes metálicos e dissonantes, quando várias cigarras cantam juntas cada qual o seu próprio canto, esquisitos, inconcebíveis na música aprisionada em 12 notas que costumamos ouvir há centenas de anos. Uma maravilha sem igual. Vamos sentar em um banco de praça em Copacabana, vamos passear na Floresta da Tijuca enquanto seu lobo não vem. Mergulhar as retinas em flamboyants esplendorosos, roubar os jambos do vizinho, paquerar as jabuticabeiras carregadas. Vamos desenhar as paredes inteiras da casa da vovó. Vamos pingar sorvete no tapete da sala”, mas, Honorável, não estou mesmo conseguindo. Passo no departamento pessoal amanhã.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Batismo de fogo - José Castello

O Globo - 25/01/2014
 
O ROMANCE DE JAVIER CERCAS TRATA DA CONSTRUÇÃO DOS MITOS, QUE PODEM SER DE MATERIAIS IMPREVISÍVEIS

Contar uma vida, resumi-la, explicá-
la — será isso possível? É o esforço
que faz Ignácio Cañas, o
protagonista de “As leis da fronteira”,
livro do espanhol Javier
Cercas (Globo Livros/ Biblioteca
Azul, tradução de Josely Vianna Baptista). O romance
é narrado como uma série de entrevistas,
não apenas com Cañas, o principal informante.
Pedaços se costuram precariamente. Vozes buscam
um fio que as ligue. Tudo no esforço de dar
vida a Zarco, um marginal cheio de glamour a
quem Cañas conheceu, e de cuja luta insensata
se aproximou, em1978, três anos apenas após a
morte do general Franco.

As aventuras de Zarco, um mito da marginalidade,
se passam em Girona, na Catalunha. Ele é
um “charnego”, apelido dado aos emigrantes
vindos do interior do território. A essa altura, Girona
é uma cidade cercada por um mundo marginal.
Uma fronteira imaginária separa suas duas
partes. Quando conhece Zarco em um fliperama,
Cañas é só um adolescente de classe média,
tímido e inquieto, massacrado pela brutalidade
dos companheiros de escola. Procura um
esconderijo, encontra-o na figura do herói marginal
— repetindo um fascínio pela margem que
marcará parte importante da juventude da segunda
metade do século XX.

Trinta anos depois, um escritor colhe material
para um livro sobre o mito de Zarco. Cañas se
torna seu principal informante. No fliperama
em que ele e seu anti-herói se conheceram, a
máquina de pinball preferida de Cañas era dedicada
ao herói Rocky Balboa. Zarco e a garota, Tere,
o expulsam do jogo. Naquele primeiro gesto
brusco, contudo, surge uma aliança. Passa a frequentar
o Bairro Chinês, que não era exatamente
um reduto da comunidade de migrantes da
China, era mais uma espécie de “boca do lixo”.
Ainda tenta resistir trabalhando numa mercearia,
mas quando dá por si está totalmente envolvido
pelo mundo sujo de Zarco.

“A história que vou lhe contar não é a do Zarco,
mas a de minha relação com o Zarco”, ele adverte
seu entrevistador. Começa a se traçar, assim, um
retrato torto do herói marginal, uma espécie de retrato
lateral, marginal ele também. Javier Cercas, o
escritor real, sabe que também a literatura transcorre
numa oscilação entre o centro e a margem,
entre a verdade oficial e as verdades submersas, e
que é dessa inconstância que
ela tira sua riqueza. Quanto
mais paradoxal, mais inquieta
uma narrativa, mais rica ela será.
Cercas é mestre na arte da
quebra de fronteiras e este romance
é mais uma prova disso.

Conforme se aproxima de Zarco,
Cañas — que em sua entrada
na gangue será apelidado de
Quatro Olhos — passa a sentir
rancor profundo contra os pais.
Renega sua classe social para viver
um sonho — doloroso, mas intenso — de
transfiguração. Sua admiração por Zarco é uma
mistura explosiva de fascínio e dúvida. A gangue
rouba carros, assalta casas vazias, pratica pequenos
furtos. “Ali começou o perigo de verdade”,
Cañas resume. Quando participa pela primeira
vez do roubo de chalé, experimenta seu batismo
de fogo. Queima-se — com entusiasmo e medo,
espanto e excitação — no mundo da margem. Toca
o outro lado. Aquele que não é previsto pelo
script de sua vida de rapaz de classe média. Entende
que entrou em um caminho sem volta.

Os objetos furtados vão para receptadores. Uma
rede sombria passa a envolvê-los. Não usam drogas
pesadas, apenas maconha.
Conservam certos limites que,
no entanto, não servem para garantir
coisa alguma. A seu entrevistador,
30 anos depois, Cañas
nega que Zarco fosse idealizado
e assegura que aceitou dar um
depoimento só para destruir seu
mito. Mas admite que terminou
sendo o primeiro a idealizá-lo.
Quanto mais confessa, quanto
mais abre suas memórias, mais
se afunda nas próprias palavras.
Conhecida como Liang Shan Po — nome tomado
de empréstimo de um seriado de TV, uma versão
oriental de Robin Hood —, a gangue de Zarco está,
sim, desde o início, encoberta por lendas.
Cañas se torna, ele também, mais uma lenda.

Na versão policial, Zarco é não só um dos símbolos
da delinquência juvenil, mas o “viciado oficial”
da Espanha. Já Cañas seria apenas “um
adolescente de classe média dando um passeio
pelo lado selvagem”. Com o avançar das páginas,
o contraste de versões ao mesmo tempo clareia e
borra o retrato de Zarco. Quanto mais a verdade
se adensa, mais ela mostra, mas também mais
esconde. A polícia começou a perseguir a gangue
de Zarco ainda sem saber o que perseguia. A
margem é fluida e obscura, nelas os personagens
surgem de repente e desaparecem logo depois.
Mais complexo que seu anti-herói, Cañas
luta para sobreviver em uma vida dupla, entre a
marginalidade e o convencional, entre o crime e
a lei. Perdido, debatendo-se para cá e para lá,
torna-se um personagem tão rico quanto Zarco.

A gangue é guiada pelo improviso e pelos impulsos
de Zarco — e é isso que traça sua decadência.
Mais tarde, Zarco se tornará um herói da
mídia, assinará biografias e terá até filmes sobre
sua vida. O que nele tanto fascina? Não é a certeza,
mas a incerteza. Como seu anti-herói, também
Cañas é um personagem de alma dividida.
É esta divisão e o abismo que ela descerra que
torna os dois personagens tão fascinantes. Estruturado
como uma busca inconstante, e não
como um romance com início, meio e fim, também
o livro de Javier Cercas guarda o mesmo estilo
escorregadio que marca a vida marginal. O
último golpe da gangue, improvisado e patético,
é um fracasso. Tudo isso, em vez de obscurecer,
engrandece o mito de Zarco e dos seus.

O destino do jovem Cañas será traçado por um
policial, o inspetor Cuenca, e por seu próprio
pai. Um círculo se fecha — ou um futuro imprevisto
se abre. O romance de Cercas trata da construção
dos mitos, que podem ser feitos de materiais
imprevisíveis e representar sentimentos
improváveis. Em nosso mundo cada vez mais caracterizado
pela turbulência e pela mistura, a
margem está, a cada dia, mais quebrada, mais
difusa e mais próxima. Uma pergunta parece definir
nossos dias: “Onde estou?” No fundo, carregamos
a margem dentro do peito como uma espécie
sinistra de destino.

João Paulo - O copo e o vento‏

O copo e o vento

"O que a eleição pode trazer de melhor é a explicitação de projetos divergentes, com defesas consistentes dos dois lados"
 
João Paulo
jpaulocunha.mg@diariosassociados.com.br



Estado de Minas: 25/01/2014 


 

Copo d'água, obra do artista plástico Iran do Espírito Santo, que pode ser vista na Galeria Mata, em Inhotim (Maria Tereza Correia/EM/D.A Press-22/10/08)
Copo d'água, obra do artista plástico Iran do Espírito Santo, que pode ser vista na Galeria Mata, em Inhotim
 “É sempre bom lembrar/ que o copo vazio/ está cheio de ar.” Os versos de inspiração zen-budista da canção de Gilberto Gil parecem sintetizar, muitos anos depois, a situação real do nada sagrado tempo em que vivemos. Enquanto poucos e eloquentes cantam o copo vazio da crise que se avizinha inexoravelmente, a maioria parece bastante otimista, tocada pelo vento seguro, como uma nau de velas pandas.

Em outro contexto, o psicanalista francês Jacques Lacan apelava para a existência de três constituintes do universo psicológico – o real, o simbólico e o imaginário. Não parece ser outra a relação das pessoas com a sociedade e a política. Há o real, dos que vivem o dia a dia; o imaginário, dos que desejam outro cenário; e o simbólico, que pode ser traduzido nas ideologias que de certa forma amparam os dois lados em conflito.

O que a canção e a psicanálise têm a nos dizer, quando se trata de economia e crise, é que sabemos sempre menos do que precisamos. As certezas se mostram a cada dia mais caducas e exigem não apenas abertura para o novo, mas honestidade de propósitos. Algo que é essencial sempre, mas que se torna civilizador quando se entra, como agora, no calor de uma eleição.

O ponto de discordância entre os pessimistas – do meio copo vazio – e os otimistas – do copo meio cheio – é, mais uma vez, a precedência dada à economia quando se discutem divergências políticas. Tudo se passa como se houvesse alguns universais a serem perseguidos (controle da inflação, estabilidade, pleno emprego, crescimento sustentável) e pequenas diferenças na forma de chegar a esses objetivos.

No entanto, a própria colocação do problema já antecipa o sentido do debate. É preciso lembrar sempre que a opinião pública, de certa maneira traduzida no Brasil pela opinião publicada pela chamada grande imprensa, parece ter apenas como norte a defesa dos valores liberais de mercado. Para entrar na roda, é preciso de antemão se localizar entre os “capitalistas modernos”, que pela cartilha da mídia é quase uma redundância. Ainda que falsa em seus fundamentos.

Por isso, o tratamento dado à economia no contexto das disputas políticas precisa ser feito com mais honestidade. Tipo papo reto. Não há consenso, como se propaga, que o melhor receituário é o que incorpora a inflação na meta, câmbio livre e equilíbrio fiscal, com atenção especial ao superávit primário. Essa equação quase sempre desanda para a subida de juros, volatilidade de capitais e garantia do ganho do setor financeiro rentista, mesmo à custa do arrocho do contribuinte.

Trata-se de uma economia ligada a valores que são menos do mercado (uma entidade quase mágica) e mais do capital (que pode ser fetichista, mas não tem nada de irreal). Os chamados fundamentos da economia são, na realidade, uma forma técnica de defesa de uma opção nitidamente política. Além do mais, tal receituário, aplicado por décadas nos países ricos com o lastro das economias dependentes, está fazendo água, com alto grau de desemprego e insegurança social em muitos países da Europa. A ideia de uma social-democracia para poucos não pode mais subsistir num cenário de demanda real de melhoria do padrão de vida para todos.

No lado da economia das pessoas comuns a sensação é outra. Mesmo com a ameaça da inflação como grande atiçador brandido por parte da oposição, a melhoria do padrão de vida é patente. Programas sociais vitoriosos – na área da distribuição de renda, oportunidades na educação e moradia – são traduzidos no dia a dia como novo patamar qualitativo de existência. E, o que é mais significativo, alteram a relação das pessoas com a sociedade e com a autoestima. Há uma postulação de direitos, tomados como naturais e evidentes, que é ainda mais importante que as conquistas meramente materiais.

Se o fato fosse apenas a distinção de projetos para a sociedade brasileira – e é para isso que servem as eleições – tudo estaria no melhor dos mundos. Bastaria apresentar as propostas existentes e dar ao povo liberdade de escolher. No entanto, o que se percebe é um atravessamento moral do debate, como se estivesse em jogo a verdade ou, em outras palavras, o bem contra o mal. Sempre que se descamba para o terreno do moralismo, quem perde primeiro é a política. Uma eleição que resgata a política começa bem. É o que se espera dos próximos lances. Ou então, o que sobra é um misto de descontentamento alienante (“todo político é ladrão”) somado a uma cobrança por eficiência (“padrão Fifa” ou “Primeiro Mundo”).

O projeto liberal, representado pela oposição – e por isso é bom que Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central na gestão de Fernando Henrique Cardoso, esteja sendo apresentado, ainda que informalmente, como economista-orgânico de Aécio Neves, possível candidato do PSDB às eleições presidenciais –, vai na linha da defesa dos chamados fundamentos da economia de mercado. São propostas vindas do setor financeiro, com trânsito privilegiado pelo mercado de capitais, como indica a origem de Fraga.

É isso que a eleição pode trazer de melhor, a explicitação de projetos divergentes, com defesas consistentes dos dois lados: o neodesenvolvimentista, do atual governo; e o neoliberal, das oposições (para ficar mais amplo, é só lembrar que no caso de Eduardo Campos, virtual candidato do PSB, sai Armínio e entra Giannetti da Fonseca na seara da economia, sem mudanças substanciais). É com esses elementos, desdobrados nos debates em propostas concretas, que o eleitor vai ter que se dar para fazer sua opção. Não com a escolha entre Deus e o diabo, entre a mentira e verdade, a modernidade e o atraso. Na vida, como na política, as metáforas são apenas fantasmas.

MAGAZINE CONECTION
No começo da semana, num programa da TV paga, Manhattan Conection (um exemplo antipático de subserviência colonial e intelectual da mídia brasileira, que costuma indicar o melhor pãozinho de NY), a empresária Luzia Trajano, dona de uma rede de lojas de varejo, foi posta na arena dos leões do ultraliberalismo. Em desvantagem numérica – estava sozinha contra um economista e três jornalistas alinhados com a tese do copo vazio –, ela mostrou números, propósitos e ações que fazem a diferença entre a teoria catastrofista e a realidade.

De um lado, a ameaça da bolha; do outro, a celebração do crescimento do emprego e do consumo; um setor defendendo o capital transnacional, a varejista apontando a especificidade do nosso mercado. O programa foi ainda exemplar em outro aspecto, sobre o qual ainda temos que melhorar muito: a capacidade de ouvir o outro. Na arrogância que caracteriza a elite brasileira (da qual a imprensa é um bom sucedâneo), existe sempre a palavra autorizada, que um dia Marilena Chauí nomeou de “discurso competente”. Luzia, na contramão desse jogo de cartas marcadas, levou ao telespectador, além da comunicação fácil e sincera, a sabedoria que faltava a quem sempre se defendeu mais com padrões morais que com a realidade.

Luiza pode ser empresária, mas é mulher, deixa claro que veio de baixo e atua num setor pouco charmoso do mercado (vender papéis podres e carros insustentáveis é mais chique que negociar chapinhas e tanquinhos). Por isso tinha tudo para ser diminuída e tratada como um dinossauro (o jornalista Diogo Mainardi, que mostrou sua ignorância com relação aos números da inadimplência brasileira no comércio, chegou a varticinar a venda do magazine para uma pontocom americana). O resultado, no entanto, como se viu durante a semana nas redes sociais, foi uma empatia dos argumentos da empresária com o sentimento das pessoas.

Essa talvez seja a lição mais importante para quem está preocupado em dar o rumo certo ao debate econômico durante o franco período eleitoral que vivemos. Quem vota não são os colunistas de economia e seus leitores, cada vez mais parcos e desinformados, mas as pessoas comuns. E, por uma regra de mercado, destas que não costumam falhar, geralmente a maioria está certa, já que a inteligência e o bom senso não são atributos de classe. Uma Luzia Trajano vale mais que quatro comentaristas. Com o voto, a lógica é a mesma: a realidade sempre liquida a teoria vazia e cheia de ar.

Livraria Folha seca


Vingança nas redes sociais

Relações efêmeras, expostas como objeto de consumo, geram frustração e ressentimento em jovens incapazes de conviver em igualdade com a diferença e o desejo do outro


Inez Lemos
Inez Lemos é psicanalista. E-mail: inezlemoss@gmail.com.


Estado de Minas: 25/01/2014

 

As relações humanas, inclusive as afetivas, estão sendo mediadas pelas redes sociais, que se tornam também território de represália aos fracassos (Hoang Dinh Nnam/Reuters)
As relações humanas, inclusive as afetivas, estão sendo mediadas pelas redes sociais, que se tornam também território de represália aos fracassos
 Ao escrever sobre relações afetivas contemporâneas, quando a tendência é expressar os sentimentos via ondas eletromagnéticas, o que está em questão é uma profunda mudança na produção da subjetividade – um novo sujeito e uma nova forma de vivenciar as pulsões: amor, ódio, vingança, inveja, ressentimentos. Outrora, ao falarmos de sentimentos, transportávamos o pensamento para um outro lugar, arrastávamos as entranhas para o mundo íntimo. Um mundo que, ao ser acessado, requer um pouco de silêncio e concentração, centrar no que nos causa estranhamento. O silêncio, por sua vez, requer tempo – tempo é a mediação que viabiliza contato com a vida interior. Sem ele dificilmente questionamos o modo de ser e estar no mundo.

Vivemos a mania dos smartphones e tablets. Tornou-se comum entre a moçada agendar as relações afetivas e sexuais on-line. O tempo é o tempo virtual, é nele que se vive, se ama e se tenta resolver os incômodos. A vida íntima, os conflitos, logo é registrada em redes sociais. A questão que destacamos é a qualidade das relações, como os jovens estão elaborando a sexualidade, algo maior que envolve perdas, pernas e corações. Nem todos conseguem desvincular o ato sexual dos sentimentos. Relação implica duas pessoas se envolvendo, trocando profundezas. Intimidade não se resume em tirar a roupa e ir para a cama, mas desnudar, aos poucos, as camadas internas. É quando escolhemos quais as páginas da alma que queremos mostrar ao outro. A vida afetiva exige mergulho nas entranhas. Amar é entranhar, revisitar poços, cavernas e grutas.

Como resistir à efemeridade nas relações, a não adesão à banalidade dos sentimentos? Como expressar o descontentamento com o rumo do mundo, quando tudo se transforma em espetáculo, circo midiático? Uma transa vira notícia no Facebook, a viagem e o carro novo têm que ser postados. Exibimos a fartura, a abundância, a beleza e o sucesso. E como fica a vida quando tudo é precário, fracasso e pobreza? Não seria a violência, a criminalidade e os rolezinhos – o urro que destoa da manada, a boiada que sofre a exclusão? A obsessão em priorizar o consumo – a arrogância fascista de se impor pelo dinheiro define os traços de uma sociedade desigual e injusta. A maioria dos pais está ocupada em tamponar a falta do filho com objetos, máquinas e mimos. Poucos pensam em uma formação humanista, uma outra concepção de mundo. Qual o lugar que queremos que o nosso filho ocupe? O de bem-sucedido, rico, estúpido e machista? Os monstrinhos de hoje serão os bandidos de amanhã. Ou será que julgamos monstros apenas os excluídos, que crescem sendo humilhados, destruídos pela desfaçatez daqueles que se julgam melhores por transitarem em carros importados?

O debate questiona o tempo e seu papel na educação das crianças. A forma como os jovens amam, pensam e circulam pela vida remete à postura dos pais. Família, cidadania, ética. Palavras desgastadas diante da fissura em locupletar. O pai não tem tempo para conversar com o filho, a mãe julga mais importante a academia e o salão de beleza. Tudo é prioritário quando se trata de cumprir com as funções paternas e maternas. Tempo, esse desconhecido quando o assunto é educação de filhos. Contudo, ele é o elemento que possibilita aos pais imprimirem nos filhos a marca, o diferencial de cada família. Como educá-los priorizando experiências em que viceja intimidade, interioridade? Relações sem viço são frouxas e expõem a descrença dos envolvidos na potência dos sentimentos. A qualidade da convivência confere sentido à vida, o fio que une brota de dentro. Dificilmente estabeleceremos relações douradoras apenas por satélites.

Nas redes sociais a comunicação é mecânica, a máquina mediando um espaço coletivo, espaço de pouca elaboração onde o tempo é fruição sem maturação. Tempo imediato e não mediato. A internet é um recurso excelente para trocar visões de mundo, encontro de ideias e debates. A obsessão em registrar intimidades em rede atesta a superficialidade da nova ordem amorosa. O mundo virtual em que os afetos e desafetos são postados lembra o Coliseu romano. No Império Romano, a diversão da plebe era torcer pelos gladiadores. Hoje, a juventude se diverte digladiando uns aos outros na arena virtual. As feras soltam o veneno da inveja, ciúme e ressentimento. O palco cibernético é o escolhido pela moçada – muitas garotas se despem e oferecem aos namorados material para possíveis vinganças.

O Brasil é um dos campeões em usuários de celulares e redes sociais, contudo, os índices não são suficientes em garantir qualidade nos conteúdos das mensagens. Não avançamos na forma de trabalhar os sentimentos danificados. O ressentimento não elaborado transforma-se em vingança – sentimento que nasce do retorno dos desejos vingativos sobre o eu. Ao querer se livrar dos incômodos, agimos sem pensar, sem tentar saídas honrosas. Logo, lançamos sobre o outro a fúria, caldo fermentado na crueldade. Sentimento tóxico que adoece a alma indigente e impiedosa. Destacamos a importância daquele que deseja lançar a espada sobre o seu algoz, de se implicar e analisar o teor da vingança – dívida adiada, acumulada. A vingança é a tentativa de reparar o sentimento de ter sido lesado. Uma reparação fajuta, uma vez que o alívio incide apenas em privar o outro de algo – se eu não a tenho, ele também não a terá.

DESEJO E CONFLITO


O sofrimento, sensação de perda e necessidade de se sentir superior, expõe a frustração de não ser o que gostaríamos de ser – o eu idealizado confrontando com o eu real. Ser amado e aceito é um mecanismo de defesa, idealização de proteção. Fantasia que ameniza a sensação de desamparo e abandono. Dependência garantida. O que está em questão não é o amor que sinto pelo outro, mas a dor que sentirei ao perdê-lo. A propriedade é fantasia de proteção, defesa contra a tragédia do desamparo. Sentir-se amado é deparar com a necessidade de escapar da angústia, do medo e da loucura. A traição é uma forma de fuga, de escapar do que realmente importa – a não consciência de si. É o ato de se excluir de uma determinada situação, um acordo que fazemos com a incapacidade de explorar os conflitos afetivos. Todo desejo é conflitante.

O ato de tentar escapar ileso, de não se implicar, demanda pouco esforço. Atravessar os incômodos é mais difícil que suplantá-los. O desejo de punição exposto na web, a chamada pornografia de vingança, é a versão atualizada da violência de gênero. E deveria contribuir para o debate sobre a forma como os jovens estão sendo educados. Machismo, homofobia e racismo apontam rejeição ao diferente e deflagram uma educação elitista, patrimonialista. Talvez falte às famílias introduzir o debate sobre temas e conceitos sociológicos e antropológicos. Saber perder, saber lutar, questão necessária quando o assunto é um mundo menos violento. A violência é efeito da frustração. Sem refletir sobre perdas, exclusão e humilhação, pouco podemos esperar dos jovens. Geração que aprendeu a exigir e pouco sabe sobre trabalho e conquistas.

Deixar frustrar, suportar que o filho entre em contato com a dor pela perda da ilusão da superioridade. Saber do fracasso é se preparar para a satisfação, é dar conta de assumir o lado obscuro, a lama que habita cada um de nós. Cultivar a frustração é manter a ilusão sobre nós mesmos. Quanto mais frustrados, mais ressentidos e vingativos. Se o desejo advém da falta, negá-la é manter-se na repetição, na mesmice. Enfrentar as próprias mazelas, se implicando e se responsabilizando pelo fracasso, é transformação, ação sobre o sentimento.

Como enfrentar a dor se não paramos o caminhão? É na boleia, no ir e vir da vida, que a compreensão se processa. Ao nos proteger da raiva de se saber pior, mais feio ou menos poderoso, algo tem que se romper e abrir espaço para bons sentimentos. Perdão, tolerância, compreensão. A vingança, o desejo de fazer o mal é a incapacidade de estabelecer contato consigo e com os outros. Quando vivemos afastados de nosso âmago – lugar onde jorra emoção –, nos privamos de esperança. Como lutar por sentido e se extasiar pela alegria da conquista? Viver a secura do mundo, desidratado e pouco recompensado por práticas afetivas consistentes, é cunhar loucura. Devastação. No deserto, as almas indigentes de sentido denunciam a descrença no futuro. Atos descabidos e enlouquecidos. O excesso ou a falta de esperança os condenam ao tédio, enfado – pouco há a desejar. Violência e vingança são apelos ao limite, o grito de socorro pela irrelevância da vida, quando tudo é permitido. Seres deformados pela promessa de prazer eterno. Covardia é pecado difícil de ser perdoado, uma vez que não há vida humana sem passar pela experiência da dor. Saber viver é saber conviver com a falta. Ser onde não tenho, eis a questão.


Inez Lemos é psicanalista. E-mail: inezlemoss@gmail.com.