quinta-feira, 24 de abril de 2014

ENTREVISTA/JANET BALASKAS » Em defesa do parto ativo

ENTREVISTA/JANET BALASKAS » Em defesa do parto ativo

Obstetra sul-africana defende que mulheres deem à luz na posição que se sentirem mais confortáveis. Segundo ela, o método promove a saúde física e mental das mães



Rodrigo Craveiro
Estado de Minas: 24/04/2014

 


"Em um parto ativo, a mulher tem liberdade para seguir seus instintos. Ela se movimenta, relaxa em qualquer situação que se sinta confortável e dá à luz em posição vertical, ou ajoelhada, de cócoras ou na água" 

"Existe uma guerra entre a maioria dos obstetras e as mulheres brasileiras que querem um parto natural, quando deveria haver parceria e cooperação"  
Em 4 de abril de 1982, uma obstetra sul-africana organizou uma passeata no norte de Londres, durante a qual 60 mil pessoas exigiram o direito da mulher a dar à luz em qualquer posição que escolhesse. O chamado Movimento pelo Parto Ativo acabava de ser criado por Janet Balaskas, uma das mais respeitadas do mundo na área. Foi uma resposta à dificuldade imposta pelo Hampestad’s Royal Free Hospital, que obrigou uma gestante a assinar termo de responsabilidade, isentando quatro parteiras de culpa, quando ela tentava dar à luz em quatro apoios.

No fim, ela cedeu e o parto ocorreu na posição ginecológica. “Eu não fazia a menor ideia de que seria a fundadora do movimento. Ainda acho isso inacreditável”, afirmou Balaskas ao Estado de Minas, durante a passagem pelo Brasil. Em entrevista, ela assegurou que o parto ativo é o mais natural método de concepção e enumerou benefícios para a mãe e o bebê.

Balaskas também criticou a decisão da Justiça do Rio Grande do Sul, que, no fim do mês passado, determinou que uma gestante teria que se submeter à cesariana, mesmo contra a própria vontade. “Eu entendo essa situação como uma violência obstétrica”, comentou. No último dia 10, a sul-africana Janet Balaskas visitou a Casa de Parto de São Sebastião, no Distrito Federal, e promoveu uma palestra na Universidade de Brasília (UnB), com a participação de Maria Esther Vilela, coordenadora do Programa Saúde da Mulher, do Ministério da Saúde; e de Daphne Rattner, professora da UnB e presidente da Rede pela Humanização do Parto e do Nascimento (Rehuna).

Repercussão nacional

A Justiça do Rio Grande do Sul determinou, em 31 de maço, que Adelir Carmen Lemos de Goés, de 29 anos, fosse submetida, contra a vontade dela, a uma cesariana em um hospital de Torres, no litoral norte do estado. Ela estava grávida de 42 semanas e, segundo a juíza que expediu a decisão, Liniane Mog da Silva, “o bebê estava em pé no útero, sendo necessária uma cesariana, por indicação médica”. Adelir tinha a intenção de que o parto fosse natural. Ao ser atendida no Hospital Nossa Senhora dos Navegantes, ela foi informada da necessidade da cesariana, “quis deixar o hospital para fazer o parto em casa e assinou um termo de responsabilidade”. O Ministério Público foi acionado. Duas viaturas da Brigada Militar e uma ambulância buscaram a gestante em casa. Ela retornou ao hospital acompanhada de um oficial de justiça e foi submetida ao procedimento cirúrgico no dia seguinte. Não houve complicações no procedimento, mas Adelir reclama que teve a escolha do parto natural “roubada”.

Por que a cesariana desperta tanta polêmica e não é considerada o melhor tipo de parto?
Há vários tipos de cirurgia cesariana: a eletiva, aquela feita durante o trabalho de parto, e a de emergência. Atualmente, no Brasil, a taxa de cesarianas está próxima de 60%. É um índice bastante alto. A Organização Mundial da Saúde (OMS) defende que a taxa deve estar entre 10% e 15%. Quando esse índice ultrapassa 15%, os prejuízos são maiores que os benefícios. A cesariana traz riscos tanto para a mãe quanto para o bebê e, mesmo que ela seja às vezes necessária e que salve vidas, um parto como o que você descreve nesta pergunta é uma extração cirúrgica. Não é um parto. Todos os inúmeros benefícios que a natureza traz para a mãe e o bebê durante o processo de parto são perdidos.

Quais são esses benefícios?
Eles incluem os chamados hormônios do amor, que regem o nascimento. No momento do parto, mãe e bebê estão repletos desses hormônios e formam um vínculo forte, que é impossível de ser replicado em uma cesariana. Em um parto natural, o bebê nasce por meio de um ato de paixão e de amor, e a mãe faz sua entrada na maternidade em um estado de êxtase, sentindo-se bem e cheia de energia, em vez de ter que passar por uma recuperação pós-operatória de uma cirurgia de grande porte. A amamentação é mais fácil e mais bem-sucedida; a depressão pós-parto se torna muito improvável de acontecer, e a mãe achará mais fácil cuidar de seu bebê.

O que é o parto ativo e que benefícios ele representa para a mãe e o bebê?
Em um parto ativo, a mulher tem liberdade para seguir seus instintos. Ela se movimenta, relaxa em qualquer situação que se sinta confortável e dá à luz em posição vertical, ou ajoelhada, de cócoras ou na água. Ela pode se soltar e se entregar para o processo natural que vai parir o bebê. O parto não é algo que fazemos — ele acontece. Os principais benefícios são a ajuda da força da gravidade, que torna tudo menos dolorido para a mulher e mais fácil para o bebê; o suprimento de oxigênio para o bebê e para o útero é melhor; os diâmetros da pélvis ficam maiores; e as contrações uterinas se tornam mais eficientes.

Que tipo de precauções é preciso tomar durante esse tipo de parto?
Como não é um procedimento cirúrgico, um parto ativo não exige nenhum cuidado especial em relação à higiene, a não ser o bom senso. O bebê está naturalmente protegido pelas bactérias que estão no corpo da mãe, pois ambos compartilham dos mesmos fatores imunes. Provavelmente, é mais higiênico parir em casa, rodeada por bactérias familiares às quais a mãe e o bebê terão uma resistência natural. No parto, não somos diferentes dos outros mamíferos, e não ouvimos falar de infecções serem um problema comum entre os animais, ou no mundo selvagem.

Então, o parto ativo é o mais natural que existe?
O parto ativo não é nenhuma novidade. Não é um método. As mulheres vinham parindo de forma ativa por milhares de anos em todo o mundo — inclusive no Brasil —, antes de a cirurgia cesariana assumir. Parto ativo é apenas uma maneira de descrever um parto natural. Só há um tipo de parto, e os princípios de um parto ativo são universais e verdadeiros.

Uma gaúcha de 29 anos foi  obrigada pela Justiça a fazer uma cesariana contra a própria vontade. Como a senhora vê esse caso?
Eu entendo essa situação como uma violência obstétrica. Todas as mulheres têm o direito de consentir e de recusar qualquer procedimento feito em seu corpo. Se a cirurgia foi realizada sem o consentimento prévio dela, eu consideraria isso um abuso dos direitos humanos básicos. Isso aponta para a necessidade de uma melhor comunicação e colaboração entre as mulheres e os médicos, e uma compreensão muito mais profunda da fisiologia do nascimento por parte dos médicos e dos pais. No momento, existe uma guerra entre a maioria dos obstetras e as mulheres brasileiras que querem um parto natural, quando deveria haver parceria e cooperação. As mulheres, hoje, são muito mais informadas sobre o parto. Elas têm opiniões bem formadas e desejos em relação ao nascimento de seus bebês. Elas conhecem seus direitos. Penso que os médicos se beneficiariam muito se ouvissem o que as mulheres no Brasil estão dizendo e se tentassem oferecer mais apoio às que querem parir naturalmente, ao mesmo tempo em que oferecem apoio obstétrico quando necessário.

Em que culturas o parto ativo é considerado uma norma?
O parto ativo era a norma em todas as culturas antes do advento da obstetrícia moderna. No mundo de hoje, é difícil encontrar uma região onde ele seja a norma. No entanto, nos lugares onde há uma forte cultura para o parto natural, o parto ativo é parte fundamental. Em tais locais, os resultados geralmente são muito bons, com uma taxa de complicações muito baixa. O parto ativo é seguro, traz satisfação e promove saúde física e mental ótima para o recém-nascido. Isso dá ao bebê uma base de resistência a doenças e um sistema imunológico forte por toda a vida. Essa é uma das muitas razões pelas quais mulheres inteligentes e bem informadas queiram dar à luz naturalmente os seus bebês. Foi isso que me motivou no início. No Reino Unido, estamos em uma situação em que o parto ativo é comum, se não for a norma. Há muito respeito pelas mulheres que fazem essa escolha, e o sistema nacional de saúde lhes oferece, gratuitamente, condições e recursos para utilizar centros para parto normal e para o parto domiciliar planejado.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Dom Murilo Krieger, um bom pastor - Maria Stella de Azevedo Santos

A Tarde?BA - 23/04/2014

Maria Stella de Azevedo Santos
Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá
opoafonja@gmail.com

A Bahia experimentou, de novo, uma greve que poderia ter tomado proporções ainda mais drásticas do que as que ocorreram. Eu não gostaria, ou melhor, não poderia tecer maiores comentários sobre o ocorrido, pois não há nada pior do que o “achismo”, isto é, comentar sobre assuntos sem que se tenha envolvimento e, consequentemente, conhecimentos profundos sobre os detalhes que os envolvem. Entretanto, não posso também me eximir de utilizar o referido fato para refletir sobre o importante papel do sacerdote na sociedade. Aproveito, então, para agradecer a interferência de domMurilo Krieger, arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, ao tempo em que parabenizo sua coragem e me solidarizo com sua tristeza demonstrada pelos homens pensarem de maneira individualista e não comunitária.

Dom Murilo Krieger se comportou como um verdadeiro sacerdote. Um sacerdote está no mundo para servir onde se precise dele, por isto é comparado a um pastor nômade, que vai onde o “rebanho” necessita de condução. Sua função implica procurar ouvir e intervir com paciência e compaixão. Tendo calma na medida certa e exercendo sua missão no mundo, o sacerdote recebe como retorno paz e alegria. Digo isso, pois tenho certeza que a tristeza que enxerguei nos olhos de dom Murilo Krieger e que ouvi através de suas palavras durante uma entrevista que deu sobre a greve não terá assento em seu coração.

Os africanos chamam de ixé ixalé o trabalho feito comconhecimento de seus fundamentos. Não só os trabalhos, mas também as opiniões devem ser bem fundamentadas. Por essa razão é que no início do artigo disse que falaria sobre a greve ocorrida fazendo um recorte da importante participação de um religioso. Afinal, as alegrias e dores vivenciadas pelos religiosos são bastante conhecidas por mim.

Ifilelowo é como os africanos chamam o trabalho libertador, aquele que é feito comabnegação. O verdadeiro religioso se entrega de maneira inteira e profunda. Realiza seus trabalhos não como uma carga que precisa ser carregada e, sim, como uma missão que precisa ser cumprida. “O pastor simboliza a vigília; sua função é um constante exercício de vigilância: ele está desperto e vê.” O verdadeiro religioso se coloca na vida como um servo e até mesmo como escravo, uma vez que se dispõe a ficar sob o domínio dos seres superiores. Ele realiza a missão que lhe foi destinada renunciando à sua própria vontade, com desapego do interesse próprio, com generosidade e com sacrifício, pois ele sabe que seu ofício foi consagrado.

Os religiosos constroem pontes, como bem disse dom Murilo. Nossa função é unir, é religar. Somos, cada um, elos de uma grande corrente que nos une uns aos outros e que une os homens aos deuses. Que todos nós, religiosos ou não, façamos nossos trabalhos com alegria, com entrega total e profunda, para que possamos saltar por cima dos obstáculos e seguir em frente.

Para melhor enaltecer o trabalho dos verdadeiros religiosos, inspirando-me na atitude de dom Murilo, tomo como empréstimo o inesquecível rap brasileiro Vive Pra Servir, Serve Pra Viver:

“Sem arrependimento dispenso ressentimento, sempre atento ao ensinamento que eleve o conhecimento. Ter memórias, glórias, histórias, vitórias pra contar é ummotivo pra não cansar, enquanto não se alcançar. É o que vai determinar quando tudo terminar, se tu veio só a passeio ou tentando direcionar. Um dois três já que ninguém veio pra ficar, então resolve, qual impressão você quer deixar? De quem fez o que podia pra cumprir a missão, ou de quem tinha na mão e não prestava atenção... Não saber da própria função, pensar agora pro seu tempo por aqui não ser em vão. Então, ser ou não ser eis a questão, servir ou não servir é o dilema de todo ser vivo... Há males que vêm pra bem, como há bens que vêm pro mal, a distinção do que é real é o ideal essencial.

“Nem adianta se esconder, que a fuga te leva ao nada, perdido na encruzilhada com alma estilhaçada... Porque tem Judas que te ajuda, te sonda e te suga. Não julga!... Que seja, mas que a força esteja com você, pra decidir se vai servir ou se vai se render.”

sábado, 19 de abril de 2014

Um cinema chamado saudade - JC Teixeira Gomes

A Tarde/BA  - 19/04/2014

JC Teixeira Gomes
Jornalista, membro da
Academia de Letras da Bahia
jcteixeiragomes@hotmail.com

Estão em andamento preparativos para o relançamento do livro Um cinema chamado saudade, de Geraldo Leal, já falecido, e do seu sobrinho Luís Leal Filho, cuja primeira edição é de 1997. Trata-se de meritória obra de pesquisa, talvez, pela abundância de dados, sem paralelos no Brasil, e que em boa hora a Assembleia Legislativa da Bahia, pelo seu setor editorial, tão competentemente dirigido pelos dinâmicos Bina e Délio, integrará em seu catálogo.

Não pretendo aqui efetuar uma resenha do livro, que, pela riqueza de informações, mereceria apreciação mais detalhada de críticos de teatro, cinema e historiadores emgeral. Na verdade, o que desejo é evocar a dedicação de duas figuras às coisas de teatro e cinema na Bahia: a primeira é o próprio Geraldo Leal, que, sem formação específica de historiador, foi uma das mais espontâneas vocações de pesquisador que conheci na Bahia.

Quanto à outra figura, vou puxar brasa para a sardinha da minha família, ou seja, pretendo falar um pouco sobre a figura excepcional do meu avô João Oliveira, fundador do Cine-Teatro Jandaia, que a incúria e a omissão dos órgãos ditos culturais do Estado e da Prefeitura de Salvador permitiram que se transformasse numa pirâmide de escombros.

Dentista de profissão, Geraldo Leal viveu grande parte da sua vida imerso nos alfarrábios e documentos existentes no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, tão zelosamente preservados pela sua eficiente presidente Consuelo Pondé de Sena, campeã na luta contra dificuldades tão comuns na vida das instituições brasileiras.

Todas as vezes emque precisei recorrer ao instituto em busca de dados para meus livros, lá encontrei, obstinado e incansável, Geraldo Leal a remexer papéis velhos, desenterrando, de uma pilha enorme de jornais antigos, informações sobre a fundação e a existência de antigos teatros e cinemas baianos, além de compulsar com devoção a pouca bibliografia existente sobre esses assuntos.

Era, além de grande pesquisador, um conversador educado e amável, que sentia prazer em trocar com seus interlocutores informações variadas sobre temas comuns, que sempre enriquecia com observações pertinentes. O que estivesse ao alcance das suas pesquisas ele colocava a serviço do interesse dos demais frequentadores do instituto. Não se limitava a assuntos ligados a seus livros ou áreas de conhecimento.

Prestimoso, era uma referência para contatos úteis, uma fonte permanente de incentivos e de informações. Além dos seus incomparáveis trabalhos sobre cinema e teatro na Bahia, ocupou-se largamente das coisas do nosso passado, pois a sua mais forte vocação era revolver o legado da vida baiana de antigamente para fazê-lo retornar à convivência do presente.

Foi o interesse de Geraldo Leal pelas primeiras manifestações do cinema na Bahia que o levou ao encontro da grande figura do meu avô João Oliveira, um autêntico pioneiro do cinema brasileiro. Empresário de sucesso emmúltiplos ramos de atividade, homem rico que morava na Vitória e já naquela época possuía sofisticados automóveis, nos quais levava os sete filhos a passear nos embrionários desfiles carnavalescos de Salvador, João Oliveira enterrou fortuna e saúde no desafiador projeto de erigir na Bahia, no início dos anos 40, o mais belo cinema e teatro da sua época, o Jandaia, num terreno que possuía na Baixa dos Sapateiros.

Não era uma simples casa de espetáculos. Era um palácio “art nouveau”, embelezado com alfaias e rico acervo ornamental trazido da França. O sistema de iluminação interna do Jandaia não tinha paralelos, consistindo em fiações embutidas com lâmpadas coloridas à mostra, que acendiam alternativamente. A plateia acomodava nas cadeiras, galerias e camarotes de luxo mais de 2.500 confortáveis unidades. A ornamentação das paredes e do imenso teto, obra audaciosa de engenharia, era feita com estátuas de belos relevos de mulheres nuas em estuque, assinados por artistas franceses.

Era, pois, uma obra de arte. Hoje, como tantas coisas na Bahia, é uma lembrança sepultada em ruínas.

Semana Santa de outrora - Luiz Mott

A Tarde/BA - 19/04/2014

Luiz Mott
Professor titular de Antropologia da Ufba
luizmott@oi.com.br

Na infância e juventude dos/das coroas
nascidos como eu no século passado
(sou de 1946), Semana Santa e Páscoa
eram coisa muito mais solene do que o atual
consumismo pós-moderno. Começava mesmo
na quarta-feira de Cinzas, com a cruzinha
de cinza na testa e abstinência de carne nas
sextas-feiras da Quaresma.

A procissão de Ramos, no domingo que
antecede a Páscoa, era penitência gostosa,
festiva, lembrando a entrada gloriosa de Jesus
em Jerusalém. Os ramos de palmeira eram
guardados para afastar doenças e as ciladas
do demônio. Quinta-feira Santa, chamada na
Bahia de “maior”, era dia soleníssimo de visitar
igrejas, assistir à missa da instituição da
eucaristia e a cerimônia do lava pés: confissão
e comunhão obrigatórias.

Na Bahia há a tradição persistente do banquete
com tudo que é comida de azeite, incluindo
obrigatoriamente bacalhau e vinho
tinto. Nada dessas comilanças esdrúxulas na
minha Pauliceia de outrora.

A sexta-feira Santa era dia de passar fome:
no tempo de minha mãe e avó, não se comia
quase nada, quandomuito, fazia-se a consoada:
“leve refeição noturna, sem carne, em dia de
jejum”. Dia proibido de varrer a casa, interditado
cumprir o dever conjugal e se divertir.
Nas rádios, só música clássica, triste. Nos cinemas,
filmes da Paixão de Cristo. Às 15 horas,
cerimônia da adoração da santa cruz, seguida
da procissão do SenhorMorto, comcantoria da
Verônica e o reco-reco das matracas.

No sábado santo, na vigília pascal, o longo
ofício das trevas e solene acendimento do
círio, matéria-prima para confecção dos valorizados
agnus-dei, esses pequeninos patuás
católicos, antídotos contra as tentações infernais.
Comunhão pascal obrigatória.

À meia-noite, hora oficial da ressurreição
do crucificado, muito alarido de sinos, buzinas,
gente na rua batendo pedra nos postes
de ferro. Nas periferias ainda se queimava o
Judas. Ceia com leitoa assada, pururuca.

No domingo de Páscoa, os deliciosos ovos
de chocolate da Lacta. Nos lares mais abastados,
da Kopenhagen. Aleluia, aleluia!

Noll em viagem - José Castello

O Globo - 19/04/2014

Poucos livros que conheço retratam com tanta dramaticidade o nascimento da literatura quanto “Lorde”, romance que João Gilberto Noll publicou em 2004 pela editora Francis, ganhou o prêmio Jabuti em 2005, e agora é relançado pela Record. O romance ilustra também a nova figura do escritor como um eterno viajante que, sufocado por uma multiplicidade de destinos, muitas vezes já nem sabe mesmo onde está, ou por que viaja.

“Lorde” conta na primeira pessoa a história de um escritor brasileiro que chega a Londres a convite de um cidadão inglês desconhecido. Não são claros os objetivos da viagem — mas ele supõe que incluam uma agenda literária. A chegada já lhe traz a intuição constante do fracasso: “algo me dizia que ele iria faltar”. A partir dali, o escritor se aventura não em uma zona de conhecimento, mas de desconhecimento. Região turva e sem direção, ambiente inóspito no qual a literatura também nasce.

O personagem de Noll — como um escritor qualquer diante de sua folha em branco — nunca sabe o que o aguarda. Espera-o uma tarefa secreta, que parece estar além de suas forças, mas a qual, ainda assim, ele precisa cumprir, ou tentar cumprir. Esse esforço dá nascimento ao livro, que nada mais é do que o resto inesperado de uma busca cega. Sente-se pressionado, “tendo eu que me preparar para uma tarefa que poderia me exigir muito além do que eu poderia oferecer”. O escritor está sempre aquém do livro que imagina. Seus dotes são insuficientes. Seus recursos não bastam para dar conta da tarefa a que se propõe. E, no entanto, é assim, nessa zona de penúria, e “sem condições”, que ele deve escrever.

Também a viagem a Londres, que antes prometia algum tipo de consagração, só lhe devolve a mesma solidão em que já vivia no Brasil. Troca uma solidão por outra. Enfim, o anfitrião inglês resolve lhe mostrar a capital britânica. “Ele sabia o que eu mesmo já não sabia mais”. Às cegas, o escritor se entrega a um ritual de sagração que é também a chegada a um exílio. Quando entram no apartamento que lhe reservaram, o escritor se dá conta de que lhe falta um espelho. Sua identidade começa a se esfacelar. “Ah, eu estava na cidade de Churchill e seu charuto, murmurei, não deveria esquecer, deveria fazer algum exercício para a memória”. Mas quanto mais convoca sua ajuda, mais ela lhe falha. A literatura nasce assim: de um lugar desconhecido, com propósitos não controláveis e intenções obscuras. O escritor acha que caminha numa direção, quando caminha em outra.

Tateia — como o personagem em Londres — em busca de algo que não consegue pegar. “Não que eu fosse um idiota completo, de nada lembrasse”. Mas a verdade é que a vida começa a lhe faltar, e é aí que a escrita encontra um lugar para se estabelecer, um vão para nascer como um rascunho da verdade. Ronda pelo bairro da periferia em que se hospeda, continua sua busca de um espelho, mas tropeça em migrantes e se embrenha numa atmosfera turva.

“Queria me ver depois da viagem, ver se eu ainda era o mesmo”. Quando enfim pode se reconhecer, se desconhece: “Eu era um senhor velho. Antes não havia dúvida de que eu já tinha alguma idade. Mas agora já não me reconhecia, de tantos anos passados”.

A partir dessa ignorância de si, o escritor se embrenha em um turbilhão de acontecimentos cada vez mais bizarros. Segue em busca de uma identidade que teima em lhe escapar e, por fim, se dá conta de que é um dândi — um “lorde” — perdido em um mundo estrangeiro.

Passa a desconfiar que, em Londres, “já é outro”, mas não consegue nomear esse outro em que se transformou.

“Ah, eu me enganava de novo, o fato é que eu perdia a direção”, constata. Condição primeira da escrita, essa perda de direção.

Este vazio é a possibilidade de acolhimento de uma prosa que o preencha. Busca “uma precária garantia de que não cairia na sarjeta”, mas não existe garantia alguma. Tudo o que lhe resta é seguir em frente. Assim também caminha o escritor enquanto escreve: sem fiança, sem confiança, sem nada que o permita existir com leveza.

A entrada no mundo da ficção que a aventura do protagonista metaforiza é experimentada como um susto. “Ele sabia o que eu mesmo já não sabia mais”, diz o personagem de Noll, sublinhando a importância da ignorância na experiência literária. “Tudo o que eu vivera até ali parecia estar indo embora. Parecia só existir aquilo, uma casa desconhecida que teria de ocupar, uma língua nova”. Nesse mundo de sombras e de frágeis silhuetas, ele conclui que “é preciso saber olhar”.

Reaprender a olhar, e também se desapegar das ideias iniciais, rascunhos, projetos gloriosos que, diante do texto, se dissolvem. “Eu não tinha saudade do que deixara no Brasil nem de nada em qualquer esfera”, diz.

Aos poucos, o personagem original se decompõe, se fragmenta, abrindo caminho para outro homem, que ele mesmo desconhece. “Tinha vindo para Londres para ser vários”, conclui diante do cenário em fragmentos pelo qual transita. Tornando-se outro, ele se transforma em objeto. Objeto de que? Da ficção, que avança sobre o terreno e ocupa os espaços. A própria linguagem, ele experimenta, está em decomposição. Já não há nada conhecido, e todas as garantias estão desfeitas. “Eu tinha vindo nesse raio de mundo para isso, para preencher esse intervalo que na verdade não tinha fim”. Abre-se um abismo, e esse abismo é a própria ficção.

A aventura do personagem de Noll torna-se, a partir daí, insuportável, chegando a beirar o absurdo. É, enfim, uma travessia do desconhecido que, se abre uma rachadura no mundo estável, abre também um lugar para um novo mundo. “Só poderia então desejar que aquele impasse perdurasse pelo resto dos dias”, medita. O impasse é sua salvação. É diante da realidade insolúvel que ele pode, enfim, por falta de alternativa, criar. A criação se torna assim um destino, e não um ponto de partida. Uma meta, e não uma escolha.

Por fim, um erotismo forte toma conta de “Lorde”, como que a indicar que tudo se resolve no corpo ou em seu entorno. Que é na carne que as piores, mas também as melhores coisas se desvelam. É ali, chegando a si mesmo, que o homem enfim se constitui.

| Não te leves demasiado a sério, mas leva a sério o mundo - GONÇALO M. TAVARES

 O Globo 19/04/2014

CORRER E EXISTIR

“Um grupo de pessoas andava a passear e encontrou Nasreddin Hodja. Perguntaram-lhe:

— Quanto tempo levamos até à aldeia mais próxima?

— Andem — disse-lhes ele.

— Mas quanto tempo?

— Andem.

Não conseguiram arrancar-lhe mais nada além desse “andem” e deixaram-no ali.

Meia hora mais tarde chegaram à aldeia seguinte.

Ouviram atrás de si barulho de passos precipitados. Voltaram-se e viram Nasreddin que chegava a correr.

Sem fôlego, parou junto do grupo e disselhes:

— Demora uma meia hora.

— Mas porque não nos disse antes?

— Porque — respondeu Nasreddin — não sabia a que velocidade caminhavam.”

(História recolhida por Jean-Claude Carrière)

O HINO, A BANDEIRA

O hino e a bandeira, a bandeira e o hino.

A bandeira, qualquer bandeira, parecendo,

ao longe, um quadro mole em que as cores representariam uma espécie de outra paisagem, não exterior.

A bandeira de um país não é, de fato, um quadro realista, mas sim simbólico. O mais simbólico.

E sim. Se queres saber se há muito ou pouco vento fixa os olhos na bandeira, nos movimentos que ela faz — “as bandeiras são o vento tornado visível (…) os povos servem-se das bandeiras a fim de chamar seu o ar que paira sobre as suas cabeças”, escreve Elias Canetti. Eis, pois, o que representa a bandeira de um país que é levantada num estádio após uma vitória desportiva: subitamente, aquele bocado de ar fica com as nossas cores. Um retângulo de ar que é ocupado por uma bandeira. Parece pouco, mas é isso mesmo: o espaço aéreo de um outro país está ocupado pelo nosso país (um retângulo pequeno, a bandeira, sim, mas ocupa muito espaço mental porque, durante um minuto, é o centro — aquilo para onde todos olham).

E há ainda o hino, que não é nada irrelevante. Entre bilhões de associações de sons possíveis eis que surge a canção que reconhecemos.

E assim estamos, nesta cerimônia simples, na coroação de um vencedor olímpico, diante da ocupação temporária de olhos e ouvidos dos outros. Os olhos veem a bandeira, os ouvidos ouvem o hino. E esta ocupação temporária de olhos e ouvidos — os órgãos essenciais da atenção humana — é significativa. Invasão pacífica portanto: em vez de um exército a entrar em território alheio, ocupação — durante um minuto — dos olhos e ouvidos alheios. Olhos e ouvidos dinamarqueses, chineses, australianos (etc.) a verem e ouvirem a bandeira e o hino de um outro país. Pacífica ocupação visual e sonora do espaço aéreo estrangeiro por um minuto. É tempo suficiente? Sim.

1 - CORRIDA EM LINHA RETA VERSUS CORRIDA EM CÍRCULOS

Há dois tipos de corrida, isto é: duas formas de percorrer o espaço:

1 - Corrida em linha reta.

2 - Corrida em circunferência ou noutra forma “curva”, em que o ponto final é o mesmo do início.

E se viver for percorrer um espaço? Aqui está uma pergunta. Não é isso? Então o que é? É percorrer um tempo, resposta possível. Correr sobre um tempo, é isso? Mas como se corre sobre o tempo? É difícil pensá-lo a grande escala, mas uma corrida, a maratona por exemplo, é isso mesmo: é correr por cima do tempo, correr por cima do relógio, do cronômetro. O chão deixa de ser informe e neutro e passa a ser Tempo, tempo objetivo. Numa corrida percebemos então o que significa ainda não estar morto: é ter tempo a correr debaixo dos pés. E eis, pois, que correr muito, andar pouco ou ficar quieto ganham novos sentidos. É impossível correr mais rápido do que o tempo, por definição — mas podes correr ao mesmo ritmo do tempo, correr menos que o tempo, ou não correr, simplesmente. Neste sentido, duas formas de corrida são duas formas de existir sobre a terra. Duas formas completamente distintas. Resistência ou velocidade? Chegar rapidamente ao destino ou, no limite: avançar sempre, sem parar, tentando apenas não cair. As provas de atletismo resumem duas formas de estar vivo.

1A - Corrida em linha reta

Correr em linha reta: chegar o mais rápido possível a um ponto que está afastado — muito ou pouco — do ponto de partida.

— Corrida em linha reta curta — exemplo: corrida de cem metros.

— Corrida em linha reta longa — corrida de longo curso que não termina no ponto de partida (exemplo: atravessar uma cidade de um lado ao outro).

Qualquer que seja a distância, a verdade é que a corrida em linha reta esquece de onde partiu e só quer chegar ao destino. Aqui, então, o ponto de partida é isto mesmo: aquilo a que rapidamente se vira as costas. Esta indiferença em relação à origem, ao início, este não dar importância ao que está atrás de nós, deve merecer reflexão. Porque tal pode ser entendido como uma espécie de falta de memória. De onde parti, onde comecei? Eis aquilo de que j não me lembro e que já não importa nas corridas em linha reta. A corrida em linha reta — como nos 100 ou 200 metros — lembra até
uma fuga; tem, podemos dizer, o mesmo sistema mental da fuga (afastar-me o mais rápido possível do ponto onde estou!). Ao contrário, a longa corrida, como os dez mil metros, é para homens mais tranquilos.
Expliquemos porquê.

1B - Corridas em que se volta ao ponto de partida (circunferências mais ou menos imperfeitas)

Pois há então que dizê-lo: as corridas em circunferência (mesmo que muito imperfeita) são as mais sensatas. Façamos, então, um pequeno desvio e falemos de filosofia.

O filósofo Heidegger chamava a atenção para o que é filosofar: filosofar é andar em círculos, um itinerário longo, infinito, que regressa sempre ao ponto de onde partiu. Pois bem, explica ele, a filosofia anda em círculos porque está sempre à volta do centro. Ou seja, porqueestá sempre em redor do essencial. A filosofia, poderia dizer-se, traça uma circunferência cujo centro são os grandes temas humanos, ao contrário, por exemplo, de muitas ciências que avançam em linha reta — sempre em frente! Estas ciências, como é evidente, não têm centro porque uma linha reta, por definição, não tem centro.

E note-se que o essencial é aquilo para onde eu estou virado (nunca se vira as costas ao essencial); e, se é assim, em termos geométricos o centro de uma circunferência é o elemento para onde todos os pontos da linha da circunferência estão virados. Uma adoração sem Deus no centro.

Há, assim, uma diferença básica entre uma modalidade de atletismo como a corrida de cem metros, e uma modalidade como os 400 ou os 10 mil metros. Nestas modalidades, mesmo que não se trace uma circunferência, meta e partida estão no mesmo lugar. E esta característica é essencial.

São modalidades atlético-filosóficas, poderíamos dizer. Ao contrário dos 100 e 200 metros que são, continuando nesta lógica classificativa, modalidades atlético-científicas — (modalidades que têm o sistema mental da ciência: sempre em frente, é o caminho!). O atleta de dez mil metros nunca se afasta do centro — está sempre às voltas do essencial — mesmo que, por momentos, pareça afastar-se. E, além disso, corre muito, corre o mais rápido possível para chegar ao ponto de onde partiu. Parece um absurdo, mas é mesmo assim.
Do outro lado estão os velocistas.

2 – A CALMA DO ATLETA

De que é feita a calma? Disto: nada de espiritual ou psicológico — há que contar pelos dedos as pulsações cardíacas, eis tudo. A calma como um ritmo fisiológico — os metros por segundo que o sangue de um corpo percorre.

E as experiências individuais — correr a maratona, subir os Alpes, ver um filme, participar numa batalha — no fim, feitas as contas, não são o que sucede no exterior, são, sim, objetivamente, as pulsações cardíacas. Experiência individual não é o que se passa em frente ao corpo — é a consequência interna, no organismo, dos acontecimentos exteriores. Diante do mesmo acontecimento, duas pessoas têm reações orgânicas completamente distintas — um treme e grita, outro fica indiferente. Um tem 45 pulsações cardíacas, outro, cento e trinta. A experiência significativa é, então, aquela que altera brutalmente as pulsações cardíacas. Eis uma definição objetiva, quantitativa, neutra — mas definição.

(No entanto, se a aplicássemos em todas as situações, reduziríamos a vida pessoal a um gráfico de pulsações cardíacas. Em vez de um álbum de fotografias com os Alpes, Veneza e a mulher por quem nos apaixonamos, um gráfico de batimentos cardíacos por minuto. Aqui — dirá o dedo entusiasmado apontando para um número — aqui, quando me apaixonei: cento e vinte pulsações!)

Pois sim. A antiga definição de sabedoria poderia ser, afinal, uma mera constância nos batimentos cardíacos por minuto. O sábio como aquele que não se exalta, não se enerva. O sábio, no fundo, como um super-atleta, o atleta mais bem treinado para a Existência. A Existência entendida aqui como prova não Olímpica, mas prova, mesmo — exige esforço, força, velocidade, flexibilidade e capacidade de resistência.

(Texto que partiu de um texto-homenagem a Carlos Lopes, maratonista português que ganhou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos)

Encontros e fantasmas da madrugada - Frei Betto

 O Globo 19/04/2014

Meu último encontro com Gabriel García Márquez e Mercedes, sua mulher, foi em Havana, a 11 de dezembro de 2008. Ele parecia cansado e já demonstrava sinais da enfermidade que o consumiria.

Conheci-o na capital de Cuba, em fevereiro de 1985. Perguntei-lhe se havia terminado seu novo romance, “O amor nos tempos do cólera”.

— Terminei o texto linear. Agora trabalho nos acertos.

Gabo havia enviado o texto a Fidel, que pouco depois chegou à casa onde nos encontrávamos. Ansioso, indagou se o Comandante já havia lido os originais.

— Sim, e com muita atenção — disse Fidel.

— Descobri um erro crasso.

Gabo ficou lívido.

— Você escreve que um barco saiu de Cartagena transportando toneladas de ouro. Fiz alguns cálculos. Um barco da época, todo de madeira, teria afundado no próprio porto.

Em novembro de 1985, Gabo me chamou à casa de protocolo 61, onde se refugiava para escrever, e mostrou-me seu discurso para a abertura do congresso de intelectuais. Uma irônica e divertida história de congressos.

— Sugiro a você ressaltar o múltiplo aspecto da cultura popular na América Latina — opinei. — Como cultura de resistência, solidariedade, protesto, jogo e festa.

Ele me fez subir para o segundo andar da casa, ligou seu Macintosh e acrescentou ao texto a sugestão.

— Em que período do dia você prefere escrever? — perguntei.

— Pela manhã, após banhar-me, vestir-me e tomar um vasto café.

Era a primeira vez que eu via o computador com a grife da maçã. Fiquei maravilhado diante daquela máquina. Ele me mostrou como funcionava e insistiu para que eu comprasse uma. Depois, “roubou” de Mercedes um exemplar de seu romance “O amor nos tempos do cólera”, a ser lançado em breve, e me presenteou com uma dedicatória.

Em julho de 1986, participei em Havana de uma recepção oferecida por Fidel a um chefe de Estado da África. Às três da madrugada, Gabo e eu deixamos o Palácio da Revolução e cada um se dirigiu à casa em que se hospedava.

Meia hora depois, quando eu já pegava no sono, soou o telefone da cozinha. Fui atender:

— Companheiro, aqui é da casa de García Márquez — disse uma voz anônima. — Ele está indo para aí.

Por que Gabo viria ao meu encontro àquela hora? Aguardei 20 minutos, bêbado de sono. Nenhum Prêmio Nobel vale o preço do meu sono. Como não apareceu, voltei à cama após deixar a porta da casa encostada.

Na manhã seguinte, fui informado de que na casa de Gabo haviam recebido telefonema de alguém que dissera: “Frei Betto pede que venha urgente à casa dele”.

Ao contrário de mim, que voltara a dormir, Gabo atendeu ao chamado e ficou até as 7h da manhã na varanda da casa em que eu estava hospedado, conversando com amigos que me acompanhavam na viagem.

Nunca entendi por que os fantasmas da madrugada pretenderam nos manter despertos e juntos... Gabo poderia ter aproveitado o estranho episódio para um de seus primorosos contos.

domingo, 6 de abril de 2014

"A cesárea deve ser exceção e não regra" - Marilena Pereira

A Tarde/BA 06/04/2014
Revista Muito 
Fabiana Mascarenhas

 

A obstetra Marilena Pereira defende o parto natural


Ela já perdeu a conta do número de partos que assistiu em 30 anos de carreira como obstetra. Mas, há pelo menos 20, Marilena Pereira tem priorizado trazer crianças ao mundo de maneira natural. Muitas delas nascidas em domicílio, no aconchego da família. Formada pela Ufba, seu interesse pela área surgiu após a leitura de um trabalho sobre parto de cócoras do médico curitibano Moysés Paciornik, que a ajudou a entender que este era o caminho para não se tornar mais uma obstetra a aumentar o número escandaloso de cesáreas realizados no país. O que começou de maneira intuitiva e sigilosa - por conta do temor das críticas dos colegas - popularizou-se diante da demanda de mulheres que desejavam ter filhos de forma natural. A experiência acumulada a colocou entre as referências em parto natural no Brasil e representante do Movimento Nacional pela Humanização do Parto. Atualmente, é coordenadora de obstetrícia do Centro de Parto Normal da Mansão do Caminho, no qual assiste partos pelo SUS. É também obstetra da Maternidade Climério de Oliveira, além de atender pacientes em sua clínica particular. Duas décadas depois, o cenário é outro, e ela diz que já não teme possíveis críticas.
 

Há médicos que fazem duras críticas ao parto humanizado, sobretudo em domicílio. Para eles, é arriscado para a mãe e o bebê. Como a senhora lida com essas críticas?
Quando comecei, há cerca de 20 anos, havia muito receio. Sabia que não estava fazendo errado, mas temia a crítica dos colegas. Me formei dentro do modelo medicalocêntrico. No meio do processo, conheci o trabalho do médico curitibano Moysés Paciornik e passei um tempo no hospital dele. Me apaixonei. Sabia que era daquela forma que gostaria de atuar. Também participei de uma conferência da Rede Nacional pela Humanização do Parto (Rehuna). Um cenário novo se descortinou para mim porque vi que existiam, de fato, evidências científicas. Encontrar a medicina baseada em evidências foi uma transformação. Isso me deu mais segurança para continuar. Inicialmente, fazia tudo de forma intuitiva e sigilosa, mas, diante da enorme demanda das mulheres que queriam ter os filhos de forma natural, o meu trabalho se popularizou. Foi a partir daí que comecei a ganhar o apoio de outros profissionais e dos pais. Hoje já não temo as críticas dos colegas. O médico que critica não sabe do que está falando, não conhece o assunto.


Mas há,de fato,estudos que comparem a taxa de mortalidade dos partos hospitalares com os domiciliares?Sim. Estudos recentes mostram que há diferenças de desfechos desfavoráveis, tanto para a mãe quanto paraobebê, quando se compara o parto hospitalar com o domiciliar. Mas quando um parto domiciliar é assistido por profissionais capacitados, que sabem lidar com emergências, os riscos são pequenos. A vantagem de estar em ambiente hospitalar é que, se alguma complicação ocorrer, a possibilidade de resolução é mais rápida. Mas a mulher pode optar por ter seu filho no hospital, se dessa forma se sentir mais segura. Isso não a impede de ter um filho de forma natural. Só não se deve tirar dela esse direito e colocar sempre a cesárea como melhor opção.


Quais as complicações mais comuns em um parto domiciliar?
As complicações de qualquer parto. A parada de progressão é um exemplo (quando a mulher está em trabalho de parto e para a dilatação). Mas temos formas de acompanhar essa evolução e ver até quando se pode esperar. Só quando o risco é grande, optamos pela remoção para um hospital. Também pode ocorrer febre ou algum sinal de infecção materna ou alteração da frequência cardíaca do bebê. Essas são as mais comuns. Uma hemorragia pós-parto também, mas é menos comum. Nesses 20 anos, por exemplo, nunca tive nenhuma remoção para hospital por hemorragia. E há também uma série de complicações que podem ocorrer em uma cesárea.

Em quais situações a cirurgia deve, de fato, ser indicada?
As indicações são poucas. Diabetes e pré-eclâmpsia, sim, mas não necessariamente. A cesárea deve ser indicada se o bebê está em situação transversa (atravessado), placenta prévia oclusiva total (quando a placentafechaocolo uterino), prolapso de cordão (quando ele se exterioriza), e em casos de herpes genital ativa. Qualquer outra indicação deve passar por avaliação criteriosa.


O que seria um parto humanizado?Aquele que respeita as decisões da mulher, no qual o médico não é a figura central. Um parto em que ela possa contar como suporte emocional de uma equipe e o acompanhamento da família, em que possa decidir a forma como vai ter seu filho, que nãoseja somente em posição de litotomia (deitada coma barriga para cima e as pernas levantadas), sem ter o parto induzido ou acelerado com ocitocina ou em uma episiotomia (corte do períneo para supostamente facilitar a passagem do bebê). O parto não era ligado à medicina. Como tempo foi que deixou de ser algo familiar e íntimo para ser medicalizado.

Creio que a senhora concorda que recusar uma recomendação médica é uma decisão difícil. Como lidar com isso?
Primeiro, cominformação. Se a mulher souber em quais situações a cesariana é indicada, ela vai poder ter noção dos riscos. O médico, de fato, é a pessoa que deve orientar os pais, mas a decisão sobre o tipo de parto deve ser da gestante e da família. Uma das coisas que o Movimento pela Humanização do Parto mais preza é o direito à escolha. Mas, na cultura brasileira, só o médico toma decisão, o paciente só obedece.


A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que apenas 15% dos partos sejam cesáreas.Narede privada,oíndice é de 82%. Há uma epidemia?
Sim,sem sombra de dúvida.Mais de 50% de nascimentos realizados no país é por meio desse tipo de cirurgia. A cesárea é extremamente importante, salva inúmeras vidas,mas deve ser exceção e não regra. Isso ocorre,em parte, porque ela passou a ser aceita culturalmente como um modo normal de dar à luz, mas, originalmente, foi criada para aliviar condições adversas maternas ou fetais, quando há riscos para a mãe, o bebê ou para ambos.

O que faz os médicos incentivarem suas pacientes a optarem pela cesárea?
São vários os motivos. Obstetras são pagos apenas pelo parto e não pelas inúmeras horas de acompanhamento, embora hoje isso não seja totalmente verdadeiro–vários planos de saúde remuneram, embora pouco e com restrições.Um parto normal pode durar mais de 24 horas; uma cesariana
dura cerca de 40 minutos. Há o modelo de assistência obstétrica do país, a falta de leitos nos hospitais, a formação do médico, voltada para a patologia e a intervenção, enfim, são muitas coisas.

Um dos argumentos mais usados é que a cirurgia foi solicitada pela própria mãe.
É a cultura da cesariana a pedido da mãe, uma cultura que não é verdadeira, já que há estudo mostrando que 70% das gestantes gostariam de ter filho de modo natural

Muitas mulheres associam parto normal a dor, e a maioria não quer sentir dor.
Muitas desconhecem que há uma série de técnicas de relaxamento para aliviar a dor.O fato de o parto ser em um local acolhedor ,no qual a mulher tem privacidade, segurança e liberdade, contribui para atenuar o desconforto. Ter o apoio de uma enfermeira obstétrica e de uma doula – que auxilia a mãe no parto – também é importante. Há massagens, bolas e banhos que são aliados. Durante a gravidez, fazer atividades comoioga, caminhada,hidroginástica, alongamento ajuda a preparar a musculatura da vagina e da pélvi spara o nascimento. Há ainda a possibilidade de analgesia farmacológica.


A senhora é coordenadora de obstetrícia do Centro d eParto Normal d aMansão do Caminho, no qual realiza partos pelo SUS.Existe algum critério para a gestante ser aceita no centro?
Não. O centro faz parte da Rede Cegonha, programa do Ministério da Saúde, e está aberto para qualquer pessoa. Em 2 anos e meio, já assistimos cerca de mil nascimentos, com alto índice de segurança e satisfação, embora ainda tenhamos uma demanda aquém da nossa capacidade. Para saber mais informações, as pessoas podem entrar em contato pele telefone 71-34098333.

No documentário O Renascimento do Parto, o obstetra e pensador francês Michel Odent fala sobre a ocitocina, o chamado hormônio do amor, e sobr e como o tipo de parto interfere nas emoções. Fale um pouco sobre isso.
Há pesquisadores que mostram que, nos partos com intervenção ou na cesárea, há a perda da liberação natural de hormônios próprios do processo do parto, principalmente da ocitocina, ou hormônio do amor, comodiz MichelOdent. Esse hormônio, liberado pela mãe durante o trabalho de parto, não é apenas responsável pelas contrações uterinas, mas por preparar a mãe para a formação do vínculo com seu bebê e para a amamentação. Esse amor, que ali começa a ser estabelecido, será o protótipo de todas as formas de amor que esse indivíduo irá desenvolver ao longa da vida.


Colunista Convidado: ELIANE BRUM Letras que traem


sábado, 5 de abril de 2014

O golpe militar e eu - Luiz Mott

A Tarde/BA 05/04/2014

Luiz Mott
Professor titular de Antropologia da Ufba
luizmott@oi.com.br

Tinha 17 anos quando os militares tomaram o
poder. Eu era então seminarista
no Convento Dominicano de S. Paulo, a
ordem mais esquerdista de nossa história, a
mesma que acobertou Marighela e outros subversivos.
Alguns meus irmãos de hábito foram
presos e torturados. Deixando o convento, entrei
na mais marxista das faculdades da USP,
Ciências Sociais, a aguerrida Maria Antônia,
adversária belicosa da Universidade Mackenzie,
então, baluarte da extrema direita, commuitos
membros do CCC (Comando de Caça aos Comunistas).
Tive como mestres Florestan Fernandes,
FHC e outros marxistas caçados e exilados
pela ditadura. Participei de reuniões da
Ação Popular, Polop, JUC, grupos clandestinos
de oposição aos “gorilas”, como então chamávamos
aos milicos. Meu pai, italiano antifascista,
sempre foi de esquerda; meus irmãos
gêmeos eram anticomunistas e meus dois cunhados,
marxistas-leninistas. Escondemos no
sótão de minha casa um enorme baú com
muitos livros marxistas de um subversivo caçado
pelo Dops.

Entre 1965-1968 participei de uma dezena
de passeatas pelo centro da Pauliceia Desvairada,
cujos brados eram “abaixo a ditadura!”
Fora Aliança para o Progresso! Quebramos
muita vidraça, sobretudo de bancos
norte-americanos; jogávamos rolhas e bolinhas
de gude pra fazer cavalos e cavaleiros da
PMcaírem no chão. Numa destas passeatas, eu
raspara a barba pra não parecer comunista,
debalde: fui preso e fichado com centenas de
outros manifestantes, noite terrível numa cela
do Dops. Minha foto saiu na manchete do
Estadão, cinco agentes me agarrando. Fui preso
uma segunda vez, acusado de planejar
atentado contra o consulado norte-americano
da avenida Paulista.

Ainda em 1982, nos estertores dos anos de
chumbo, consta no Dops minucioso relatório
de um agente relatando minha palestra sobre
sexualidade para enorme auditório na Unicamp:
a ditadura desconfiava desse barbudo
pioneiro domovimento de libertação gay, cujos
militantes mais anarquistas e radicais gritavam:
“o coito anal derruba o capital!”

A Ucrânia e o czar da KGB - JC Teixeira Gomes

A Tarde/BA 05/04/2014

JC Teixeira Gomes
Jornalista, membro da
Academia de Letras da Bahia
jcteixeiragomes@hotmail.com

Estou em viagem que deverá ser demorada,
mas achei que devia deixar
estas notas sobre a crise que
envolveu a Ucrânia, por ter visitado aquele
país em 2011 e conhecer bastante a
Rússia. Durante a minha agradável permanência
em Kiev, a capital da Ucrânia,
e na histórica cidade de Odessa, jamais
imaginei que as relações entre os dois
países chegariam ao nível de desgaste
dos últimos meses, mas uma coisa ficou
muito clara para mim: os ucranianos detestam
a Rússia, sobretudo pelo traumático
legado do período stalinista. O mesmo
sentimento antirrusso domina hoje
os países bálticos: o comunismo soviético,
por onde passou, não deixou boas
lembranças.

Putin tem muitos admiradores na Rússia
porque, sob sua administração, o país
conseguiu superaras dificuldades econômicas
da décadade 90. Mas o resto do
mundo não se esquecede que o governante
desenvolveucarreira pregressa
no sinistro âmbitoda KGB, órgão repressor
de má fama,ligado à segurança
do estado soviético.Completam o quadro
a tradição autoritáriado czarismo e os
horrores políticos dostalinismo. As novas
lideranças ucranianas pugnavam por uma 
abertura para o Ocidente, contra a
tradição histórica do opressor garrote comunista.

Considerada um dos celeiros do mundo,
a Ucrânia sofreu na II GuerraMundial
a brutal agressão do hitlerismo durante
778 dias, como, em tempos bem mais
recuados, foi invadida por mongóis, poloneses,
lituanos, turcos e cossacos. O
neto de Gengis Khan destruiu a parte alta
da cidade, dividida, como Salvador, em
dois planos. A sobrevivência do país
diante de tantos infortúnios acentuou o
sólido nacionalismo do seu povo.

Um dos mais impressionantes monumentos
de Kiev é o museu ao ar livre da
II Guerra Mundial, repleto de murais e
esculturas, armas em geral do conflito,
além de uma imponente estátua simbolizando
a Mãe Rússia Vencedora, que
rivaliza com a maior, construída em Stalingrado,
de 85 metros de altura (o elevador
Lacerda tem 70 metros).

A Rússia começou em Kiev, antes que
Moscou se tornasse a capital do Império
Russo. A bela e agitada cidade, de largas
avenidas e elegantes bulevares, tem cerca
de 1.500 anos. Foi a capital dos rus, povo
eslavo oriental, nos séculos XIV e XV, bem
como área de influência do Império Bizantino,
que até hoje marca a vida da capital
com o rico legado da sua cultura,
patente na profusão dos esplêndidos mosaicos
das suas igrejas, notadamente na
catedral de Santa Sofia, obra-prima da igreja
ortodoxa. No centro da catedral esplende
uma impressionante imagem em mosaicos
da Virgem Maria, mais bela do que a
existente na Santa Sofia de Istambul. Relata
a lenda que o poder da sua beleza intimidou
os invasores mongóis, obrigados a
recuar diante do impacto causado pela imponência
da Virgem.

Outro monumento público grandioso
de Kiev é o Memorial Golodomor, construído
para registrar a miséria da Grande
Fome de 1932-1933, que matou mais de
quatro milhões de ucranianos pela política
de expropriações do stalinismo. Se
a reforma agrária se impunha na Rússia
pela brutal tradiçãoagrícola da escravidão
dos mujiques,foi entretanto executada
coma violênciaque caracterizava
as ações stalinistas,disseminando o terror
no celeiro ucranianoe na União Soviéticaem geral.

Visitei demoradamenteo extraordinário
parque Golodomor,sob uma emoção
que me levou às lágrimas.
Jamais poderãoser esquecidas a
exuberância da sua documentação e a comovente
profusão de monumentos denunciando
a fome coletiva na Ucrânia. Entre
estes, destaque para a estátua de uma menina
subnutrida, que abala o visitante logo
na entrada do parque, pela notável capacidade
do artista de imprimir o sofrimento
da fome na solidez do cimento. Anjos esculpidos
em pedra branca margeiam a ala
central do museu, que se completa numa
área subterrânea.

Para anexar a Crimeia, Putin evocou o
patriotismo dos russos lá radicados. Curiosamente,
foi assim que Hitler iniciou
a II Guerra Mundial: alegando defender
os alemães dos sudetos tchecos e da cidade
livre de Dantzig, na Polônia. Omundo
mudou pouco nestes setenta anos e a
violência humana continua a mesma.

domingo, 23 de março de 2014

Perfil:Isaac Bardavid - Ele não é imortal como o Wolverine, mas sua voz, sim

O Globo 23/03/2014

Com 83 anos e uma longa carreira na TV e no teatro, o artista é responsável pela dublagem de personagens de desenhos animados clássicos, como o vilão Esqueleto, de ‘He-Man’; Tigrão, de ‘Ursinho Puff’; e o mais popular dos X-Men
GABRIEL MENEZES
gabriel.menezes@oglobo.com.br

O temperamento e até mesmo
o visual de Isaac Bardavid
lembram o personagem
mais famoso que ele dubla
na TV e nos cinemas. Assim
como Wolverine, o artista
tem uma personalidade forte,
fala o que pensa e, até de
bom humor, carrega uma
certa dose de ranzinzice. As
sobrancelhas grossas e a barba
também ajudam na associação
ao herói.

No início da conversa com
a equipe do GLOBO-Niterói,
ele fez questão de frisar.

— O problema dessas entrevistas
é que... Sem qualquer
ofensa, geralmente são
feitas as mesmas perguntas e
eu tenho que dar as mesmas
respostas. Se você me pergunta
como eu comecei a
atuar, não tenho como inventar
uma história diferente.
Posto isso, vamos logo em
frente — disse, pronto para a
primeira pergunta.

Aos 83 anos (“Ninguém me
dá menos que 97’’, brinca), Bardavid
conquistou o público de
uma forma que poucos atores
conseguem. Para quem já passou
dos 50, ele é lembrado como
o cruel feitor Francisco da
novela “Escrava Isaura’’, de 1976,
seu papel de maior destaque na
TV. Já para os mais jovens —
que talvez nem tenham visto
seu rosto — ele é reconhecido
pela voz que dá vida a ícones da
cultura pop, como o mutante
mais popular da série X-Men;
Esqueleto, o vilão de “He-Man’’;
Tigrão (amigo do ursinho Puff);
e Capitão Haddock, o grande
parceiro de Tintim.

— Hoje em dia, sou mais reconhecido
pela minha voz.
Quando vou ao banco ou paro
diante de um guichê, geralmente
me perguntam se sou
dublador. Como ator, o papel
de Francisco foi meu maior sucesso.
Tanto é que fiz mais de
30 trabalhos na TV e muitas
pessoas acham que só tive
aquele — diz o artista.

Mas sua vida não se resume à
lembranças, pelo contrário: ele
mantém um ritmo intenso de
trabalho. Além de estar no ar
na novela das 19h da TV Globo,
“Além do horizonte”, Bardavid
faz dublagens praticamente
todos os dias. Uma de
suas próximas tarefas será colocar
voz no filme “X-Men: Dias
de um futuro esquecido”,
que chegará aos cinemas no
fim de maio.

— Na minha idade, não espero
muita coisa. Porém, não
reclamo. Tive, e ainda tenho,
uma vida muito boa. Poderia
ter parado de trabalhar, mas
nem penso nisso. Vida é movimento
— decreta.

NASCIDO E CRIADO EM NITERÓI

Bardavid nasceu numa casa na
Rua General Andrade de Neves,
no Centro, e nunca morou
em outra cidade. Atualmente,
vive num apartamento no
bairro de Santa Rosa, cercado
por centenas de livros, DVDs,
CDs de música clássica e presentes
de fãs, como uma caricatura
enviada de Cuba na
época da novela “Escrava Isaura’’
e um quadro que retrata o
feitor Francisco com as garras
do Wolverine. Apesar de morar
sozinho, ele é casado e, em setembro,
completará 54 anos de
união, com três filhos e cinco
netos já adultos.

— Eu e minha mulher nos
damos muito bem. Morar em
casas separadas foi a maneira
que encontramos para o casamento
dar certo — conta.

O ator e dublador considera
ter tido uma infância muito
mais divertida que a das crianças
de hoje, já que brincava na
rua, “em vez de ficar em frente
ao computador e à TV o dia inteiro’’.
Entre suas atividades
prediletas estavam jogar pião e
soltar cafifa. E tornou-se um
leitor voraz ainda menino.

— Quando alguém diz que as
pessoas mais velhas são muito
saudosistas não me sinto ofendido.
Eu sou mesmo. Antigamente,
a vida era mais tranquila,
mais devagar. A cidade ainda
não tinha essa poluição e
esse trânsito caótico — reclama
Bardavid.

Como já disse em várias entrevistas,
foi justamente na
rua, por acaso, que ele entrou
para o mundo da dramaturgia.
Aos 17 anos, enquanto batia
papo com amigos, avistou algumas
pessoas colando cartazes
nos muros. Ofereceu-se
para ajudar e acabou ganhando
um ingresso para “O dote”,
de Artur Azevedo, que estava
em cartaz no Teatro Municipal
de Niterói. Ele viu a peça e fez
questão de passar pelo camarim
para agradecer mais uma
vez pela cortesia.

— Estava conversando com
os produtores quando chegou
uma mulher muito nervosa,
dizendo que o ponto havia faltado.
Ponto era uma pessoa
que ficava escondida no palco,
lembrando as falas para os atores.
Naquela época, ninguém
decorava o texto todo. Eu me
ofereci para fazer o serviço e
eles adoraram — conta.

Depois de ser requisitado
outras vezes para a função,
ele decidiu que, se era para
trabalhar na área, queria estar
em cima do palco. Entrou
para o Clube Dramático
Fluminense, um grupo
amador, e, já no segundo espetáculo,
foi convidado pela
diretora e autora Maria Jacintha
para uma peça profissional.

— Aos 45 anos, fiz faculdade
de Direito e me formei,
mas segui trabalhando com
dramaturgia. Minha vida
sempre foi isso — diz.

sábado, 22 de março de 2014

50 ANOS DO GOLPE

O Globo 22/03/2014



Contradições do autoritarismo: as universidades e o regime militar

Obra mostra como as universidades, focos de resistência ao regime, sofreram com a opressão, mas também foram peça fundamental do projeto desenvolvimentista, passando por amplas mudanças

Por Leonardo Cazes

As universidades foram o principal centro de resistência à ditadura militar que começou em 1964. Ao mesmo tempo, tinham um papel central no projeto desenvolvimentista que ganhou corpo a partir do governo Costa e Silva, em 1967. Esse conflito atravessou todas as políticas dos regime para o ensino superior. Com uma mão, os militares criaram o regime de dedicação exclusiva para professores, investiram em laboratórios, na construção de novos campi e quadruplicaram o número de vagas. Com a outra, aposentaram compulsoriamente dezenas de docentes e pesquisadores, perseguiram e expulsaram estudantes. Os dois grupos foram alvos preferenciais da máquina da repressão.

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  Repressão e crescimento

 

Nas universidades do Rio, crescimento e repressão andaram juntos

 



Durante a ditadura, campus da UFRJ no Fundão foi construído e Unirio foi criada, mas expurgos de alunos e professores desfiguraram as instituições


Por Leonardo Cazes


 No dia 7 de setembro de 1972, o presidente Emílio Garrastazu Médici inaugurou a cidade universitária da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no Fundão. A cerimônia fez parte das comemorações dos 150 anos da independência e é exemplo da importância dada pelo regime à sua política para o ensino superior público. Para os militares, a reforma universitária empreendida em 1968 e o investimento na construção de novos campi era uma forma de aplacar o principal foco de oposição, que se concentrava nas instituições, e de viabilizar o projeto desenvolvimentista. Durante a ditadura, as universidades viveram um boom de investimentos e foram reorganizadas no modelo departamental, atualmente em vigor.

 

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Ideias no exílio

 

Prisões, torturas e cassações forçaram alguns dos mais destacados pensadores da época, nas humanidades e nas ciências, a deixar o país. Projetos de pesquisa foram interrompidos e carreiras acadêmicas tiveram o rumo alterado

 Por Guilherme Freitas e Leonardo Cazes

Em 1º de abril de 1964, Luiz Costa Lima saiu de casa cedo e foi para a Universidade do Recife, onde dava aulas de literatura e colaborava com o Serviço de Extensão Cultural (SEC), inovador programa de alfabetização de adultos liderado pelo educador Paulo Freire. Preparava-se para enfrentar o golpe iminente. No campus, ele e um colega expropriaram uma kombi e um mimeógrafo, que julgaram essenciais para a resistência democrática. 

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Artigo

 O cultivo da terra estéril - LUIZ COSTA LIMA

ENTRE
NÓS, OS
PRÓPRIOS
TERMOS
“CULTURA” E
“REFLEXÃO”
SÃO VISTOS
COM FASTIO

 Já não se duvida que o golpe de 64 instaurou uma ditadura. Tampouco é questionável que toda ditadura representa uma presença letal a qualquer vigor cultural. Cultura supõe cultivo, seja das terras do chão, seja da terra da mente. Para que o golpe tivesse significado outra coisa senão medo, rancor surdo, sensação de impotência seria preciso que tivesse lidado com outra humanidade. Chega a ser ocioso pensar-se que a nossa recente ditadura pudesse ter tido outro perfil que não o de suas semelhantes. O que escrevo só fará sentido se considerarmos a ditadura de 64 dentro das coordenadas nacionais.

 

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Brasilianistas denunciaram regime militar no exterior

Acadêmicos americanos divulgaram casos de tortura, desafiaram governos e acolheram colegas brasileiros, recorda Ralph Della Cava
Por Guilherme Freitas




 Em 1964, o americano Ralph Della Cava desembarcou no Brasil para pesquisar sobre Padre Cícero, tema de seu doutorado em ciências sociais na Universidade de Columbia. Depois de uma passagem por Juazeiro do Norte, no Ceará, veio para o Rio, onde se viu no turbilhão do golpe em 1º de abril. Testemunha de primeira hora dos abusos cometidos pelos militares, ele se tornou, ao voltar para os Estados Unidos, um dos principais articuladores de uma campanha que buscava denunciar a ditadura brasileira no exterior. Ao lado de outros especialistas em história do Brasil, conhecidos como “brasilianistas”, Della Cava fundou associações como o American Committee for Information on Brazil (Comitê Americano para Informação sobre o Brasil) e o American Friends of Brazil (Amigos Americanos do Brasil). Nos anos 1970, esses acadêmicos traduziram e divulgaram depoimentos de presos políticos e documentos comprovando torturas, promoveram palestras de exilados brasileiros em universidades e denunciaram o envolvimento de autoridades americanas no golpe. Pesquisador do Instituto de Estudos Latino-americanos de Columbia e autor de uma obra de referência sobre Cícero (”Milagre em Joaseiro”, que acaba de ganhar nova edição pela Companhia das Letras), ele relembra a campanha nesta entrevista por e-mail.

 

O senhor estava no Rio no momento do golpe de 1964. Quais são suas lembranças daquele dia?

Minha esposa e eu tínhamos ido ver um filme na Cinelândia com um casal de amigos. Quando saímos do cinema, em meio ao som de tiros, ficou claro que a “Gloriosa” estava em marcha. Conseguimos pegar um táxi e fomos para a casa de nossos amigos, em Copacabana. Não foi a primeira nem a última depredação que testemunhei. Um colega de Columbia, que trabalhava como repórter na revista “Time”, pediu que eu ficasse de olho no prédio da UNE. Contra todas as nossas esperanças, ele foi incendiado — e o ódio foi um dos combustíveis.

 

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Terror cultural

Editoras e livrarias que se tornaram refúgio e referência para autores perseguidos enfrentaram forte
repressão, incluindo atentados a bomba, mas procuraram manter o debate político durante o período


Por Guilherme Freitas

 

 

Numa das muitas ocasiões em que foi preso durante a ditadura, em maio de 1965, o editor Ênio Silveira recebeu uma inesperada demonstração de apoio. Na mira do regime desde o início por sua atuação à frente da Civilização Brasileira, casa de vários autores de oposição, ele foi detido por promover uma feijoada em homenagem ao ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes, cassado logo após o golpe. A prisão arbitrária foi contestada por um abaixo-assinado com mais de mil nomes, de militantes históricos de esquerda ao compositor Pixinguinha. E por um bilhete manuscrito do marechal Castelo Branco ao chefe de seu Gabinete Militar, general Ernesto Geisel: “Por que a prisão do Ênio? Só para depor?”, perguntava o presidente. “Apreensão de livros. Nunca se fez isso no Brasil. Só de alguns (alguns!) livros imorais. Os resultados são os piores possíveis contra nós. É mesmo um terror cultural”.

 

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A origem do método - José Castello



“FELIZ ANO NOVO” NOS MOSTRA UMA ESPÉCIE DE MARCO ZERO DE UMA VIOLÊNCIA QUE, APESAR DOS LONGOS ANOS DE DEMOCRACIA, AINDA SE ENCENA NO PAÍS

Fixo-me em “Feliz ano novo”, o conto que empresta título ao já lendário livro que Rubem Fonseca, cuja obra vem sendo relançada pela editora Agir, publicou em 1975. Não só, provavelmente, é o mais cruel relato da coletânea, mas uma das narrativas mais violentas produzidas pela literatura brasileira dos anos 1970. O conto guarda uma estranha síntese dos métodos da ditadura, que se espalharam pela entranhas da sociedade brasileira na ordem de uma peste — o livro de Fonseca seria censurado no ano seguinte ao seu lançamento. Antes de tudo, a violência, arbitrária, indiferente ao sentido, cruel que, na narrativa de Fonseca, deixa os cárceres do poder para penetrar na penumbra do dia a dia e se transformar em um método de ação. Contra a violência, mais violência. Contra a miséria, mais miséria. O método nefasto da duplicação e da retaliação.


A palavra como um risco para a sociedade


Censura a livros na ditadura deixou herança autoritária

Veto a livros considerados 'imorais' e proibição de obras de opositores deixaram como legado a ideia de que informação pode ser controlada, diz pesquisadora

Por Guilherme Freitas

 
A coletânea de contos “Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca, “retrata, em quase sua totalidade, personagens portadores de complexos, vícios e taras, com o objetivo de enfocar a face obscura da sociedade na prática da delinquência, suborno, latrocínio e homicídio, sem qualquer referência a sanções”. A história que dá título à obra, sobre três marginais que invadem uma festa grã-fina de réveillon, assim como as outras 12 narrativas do volume, têm uma linguagem “bastante popular, onde a pornografia foi largamente empregada”, e “alusões desmerecedoras aos responsáveis pelo destino do Brasil”.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Talento para um leque de gêneros [Paulo Goulart] - Barbara Heliodora

BARBARA HELIODORA
Especial para O GLOBO

 14/03/2014

Homem bonito, de uma
simpatia irradiante, é
natural que desde logo
tenha encontrado o
sucesso e que passasse a
vida em intensa atividade,
entre o palco e a telinha

O teatro fica mais pobre com a morte de Paulo Goulart, que nunca permitiu que o sucesso na televisão o afastasse do palco, que era a sua casa. Minha primeira lembrança dele é em uma peça que eu nem sei qual é, um espetáculo modesto, mas que me deixou a nítida impressão de que eu tinha visto um ator. Homem bonito, de uma simpatia irradiante, é natural que desde logo tenha encontrado o sucesso e que passasse a vida em intensa atividade, entre o palco e a telinha. Dois trabalhos de há muito tempo eu guardo sempre na memória: o rígido professor sueco (com discreto sotaque alemão) na “Lição de botânica”, de Machado de Assis, e sua hilariante e charmosa atuação como a chefe da “Orquestra de senhoritas”, que servem também para mostrar como era amplo o leque de gêneros que seu talento alcançava.

Creio que é com isso que mais podemos identificar o ator Paulo Goulart : sua fome de teatro, sua disposição para fazer papéis nos mais variados gêneros (aos quais juntava a variedade na televisão, é claro). Foi ótima sua atuação em “Oh! Que delícia de guerra!”, o notável musical que denunciava os erros e as tragédias da Primeira Guerra Mundial, e foi sem dúvida de Paulo o melhor e mais esmerado trabalho do todo o elenco do “Rei Lear” de Celso Nunes. E após uma ausência por demais longa dos palcos cariocas, Paulo teve novamente uma brilhante atuação em “Arte”, a sofisticada comédia intelectual também diversa de muitos trabalhos anteriores.

Mas falar de Paulo Goulart tem de ser também falar do amigo e, principalmente, daquela unidade específica chamada Paulo e Nicette, e de sua transmissão do DNA do teatro a Barbara, Beth e Paulo Filho; entrar em sua casa era entrar em um clima muito especial, era ser recebido com uma alegria e um carinho com poucos iguais por este mundo. Todos atores, sempre formaram um conjunto tão harmônico que chegava por vezes a parecer irreal; e, no entanto, todos os que tiveram a sorte de privar com eles puderam sentir a solidez de realidade daquela vida familiar, em que não há triunfo pessoal que não seja curtido por todos, em que a vida e o trabalho são sempre encarados com alegria e esperança.

O desaparecimento de Paulo Goulart é uma grande perda para o universo das artes, e a pessoa, perda ainda maior não só para esse unidíssimo núcleo de sua família, mas também para seus amigos, a quem ele sempre deu tanto de sua inesgotável generosidade