domingo, 18 de maio de 2014

Links do Dia ...

Copa do Mundo e eleições trazem desânimo a lojistas bit.ly/S6FyxN

Tostão - Vírus, transgressão e acaso bit.ly/S6FL45

Sebastião Nunes As surpresas de Kafka no dia de sua morte - parte II bit.ly/S6FTAE

Eduardo Aquino Homem: espécie em extinção bit.ly/S6FYV0

Eventuais falhas e problemas na Copa do Mundo devem pressionar disputas estaduais bit.ly/S6Gimx

Dobradinha para eleições viram sobrevivência política para prefeitos deputados bit.ly/S6GsKN

Pitaco de famosos sobre políticos causa forte reação no meio artístico - @AMelloreporter bit.ly/S6GL8g cc @zehdeabreu

Intolerantes #nãosomostodos - Lucas Soares Rodrigues bit.ly/S6H82B

 Google Glass começa a ser testado como suporte em consultórios e cirurgias bit.ly/S6HmH4

 Eduardo Almeida Reis - Maledicência bit.ly/S6HDtK

 E a escola também caiu na rede » Ensino a distância já reúne quase 6 milhões de alunos matriculados bit.ly/S6HSEV

 Assanhamento - Carlos Heitor COny goo.gl/bv7tZV cc @moliviasoares @Conteudo_Livre e d+ afins #vaitercopa

 Intestino, um dos órgãos mais importantes do organismo, é alvo de doenças crônicas bit.ly/S6Ib2A

 WordCamp tem adesão recorde e agrada leigos e desenvolvedores de blogs e sites bit.ly/S6IfPX

 Voz da periferia - Saraus de poesia bit.ly/S6IKtc

 EM DIA COM A PSICANÁLISE » Palavras e laços bit.ly/S6ITgj

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 Do que morrem os jovens? - Jairo Bouer bit.ly/S6K0MZ

 Um ano de papado latino - Mac Margolis bit.ly/S6K9A1

 Best-seller da desigualdade - Gilles Lapouge bit.ly/S6KbrJ

 Obrigado - Fábio Porchat bit.ly/S6Ki6I

 A revolta do batismo - Vera Guimarães [@folha_ombudsman] naofo.de/8hc cc @Conteudo_Livre @moliviasoares e d+ afins #jornalismo

 Vênia insto para discrepar - João Ubaldo Ribeiro bit.ly/S6Kl2p

 A outra vida do sr. Antonio - Luis Fernando Verissimo bit.ly/S6KqDc


Othelo - Luis Fernando Verissimo glo.bo/1t5E9oz


 ¡Macacos me muerdan! - Humberto Werneck bit.ly/S6KzX4

 HBO divulga trailer completo da última temporada de True Blood • ift.tt/1lQfkKi

 ELIANE CANTANHÊDE: Fim do "paz e amor" naofo.de/8hf

 RODRIGO BRESSAN: Esquizofrenia: ideologia versus ciência naofo.de/8hg


 Selfie é a expressão da adoração imagética num ciclo infinito, diz sociólogo oesta.do/S4IFXa 

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 Burocracia emperra funcionamento dos 21 poços abertos no Nordeste glo.bo/1t5Cv69


'Protestos contaminam forma de avaliar política' - Rudá Ricci glo.bo/1t5D1Ba

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 Motivos para começar a ver para ontem a série “Penny Dreadful”, com Eva Green e Josh Hartnett bit.ly/1t5HK5U

 A aristocracia carioca tem sua guardiã glo.bo/1t5HXpR

 Mandarim, árabe e turco já se aprendem nas escolas públicas glo.bo/1t5ItE1

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 Após início magro na Globo, Marcelo Adnet colhe críticas positivas com o ‘Tá no ar’ glo.bo/1t5R49R

 Fiz um bom negocio - Martha Medeiros bit.ly/1t5QrNv

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 Sete autores latino-americanos recriam histórias de Gabriel García Márquez para o Brasil glo.bo/1t5MuIP

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 Mais de 2,7 bilhões vivem em países onde ser gay é crime glo.bo/1t5Koso

 Homofobia agrava epidemia de Aids na Rússia, que cresce 10% ao ano glo.bo/1t5K2BW

 A cada mês, uma criança ou adolescente morre trabalhando no país glo.bo/1t5Jv2R




sábado, 17 de maio de 2014

Resenha de 'No estilo de Jalisco' - Por Marcelo Moutinho

O Globo - 17/05/2014

Primeiro romance do mexicano Juan Pablo Villalobos escrito em português usa encanto do escrete de 1970 para retratar o Brasil atual 
 
Por Marcelo Moutinho*

Clodoaldo recebe a bola e entrega a Pelé, que passa a Gerson. O camisa oito devolve a Clodoaldo. Numa sequência de dribles, o volante enfileira quatro adversários e estica até Rivelino, que faz lançamento longo, alcançando Jairzinho. O ponta ginga na frente do marcador e toca a Pelé. O domínio com o pé direito é preciso, e Pelé não demora a perceber que Carlos Alberto vem chegando, veloz, pela lateral direita. A bola é então rolada no ponto futuro, corre mansamente pela grama e ainda dá um leve quique antes do arremate: chute forte, certeiro, de três dedos, que morre no canto esquerdo do goleiro Albertosi.



 

A jogada do quarto e último gol do Brasil contra a Itália, na final da Copa do Mundo de 1970, pode ser tomada como emblema do futebol praticado por aquela seleção, considerada por muitos a maior da História. O talento dos craques e o rigor estético das tramas tecidas em campo pelo time tricampeão ajudaram a sedimentar — e exportar — uma visão do Brasil. 

“Não tô falando só de futebol, tô falando dum espírito que transmitia aquela seleção, e não é a alegria do futebol brasileiro, não, tô falando duma promessa cumprida, dum sonho realizado", resume Juan, o protagonista de “No estilo de Jalisco”. Na novela, o escritor Juan Pablo Villalobos parte do encanto com o escrete de 1970 para falar do Brasil — e do México — de hoje.

“O futebol tinha sido inventado pra isso, pra ser jogado assim, só que até então isso era só um ideal, uma coisa em potencial, algo que poderia chegar a ser, em resumo: uma promessa”, prossegue o narrador, mantendo o registro coloquial das conversas de bar.

Estamos mesmo diante de uma conversa de bar. O enredo se inicia quando, a caminho do banheiro de um boteco em Botafogo, Juan acaba por derramar bebida sobre a gravata do vizinho de mesa. O chope pedido a título de desculpas bastará para que entabulem um papo sobre sua vida até ali — a vinda do México para o Brasil em 1981, quando tinha 33 anos; o romance com uma nativa que ele agora despreza; o mirabolante projeto que resultou fracassado.

Embora se trate de um diálogo, ao leitor é dado conhecer apenas o relato de Juan. Somos nós os interlocutores, Villalobos parece sugerir. Entre chopes e doses de pinga, ficamos sabendo que o protagonista é filho de um funcionário do mítico estádio de Jalisco, onde a seleção jogou a maioria das partidas do tricampeonato. Que migrou sob o efeito tardio da magia do escrete canarinho, encarnação da “promessa da felicidade brasileira”. Que a imagem de fascínio do time de 1970, apesar das dificuldades e até de certo desencanto com o Brasil, permanecia há até bem pouco tempo, e talvez permaneça, como uma miragem que não se desfaz.

Descompromisso de uma boa pelada

Juan revê obsessivamente os gols da Copa. E é um desses gols — o de Pelé, contra a Romênia — que estimula seu grande projeto. Ele percebe que, no lance, dois jogadores brasileiros se posicionam na barreira adversária, e que Pelé chuta a bola exatamente naquele espaço. “Tive a impressão de que aquilo, além de esporte, era teatro (...). O que parece natural é sempre produto do preparo, do treino, do ensaio”, observa.

Nasce, então, a ideia de reencenar as jogadas do time campeão, ainda hoje impregnadas no imaginário mexicano. Juntar quatro ou cinco dublês dos atletas e excursionar por seu país, levando às pequenas cidades os “craques” brasileiros. Com a ajuda de um empresário esperto, a empreitada segue adiante.

Primeira obra escrita pelo mexicano Villalobos originalmente em língua portuguesa, “No estilo de Jalisco” mantém o humor cáustico de “Festa no covil” e “E se vivêssemos e um lugar normal”, que fazem parte de uma trilogia ainda não finalizada sobre o país natal. A mordacidade do menino Tochtli, que em “Festa no covil” elogiava a delicadeza dos franceses por tirarem a coroa dos reis antes de cortar suas cabeças, ecoa na fala de Juan sobre o povo mexicano, “capaz de engolir qualquer coisa embrulhada em bandeira estrangeira”.

No novo livro, o autor joga solto. Opta por uma narrativa que ressoa a oralidade e brinca com alusões à própria trajetória — o nome do protagonista, o fato de ter nascido no México e atualmente morar no Brasil —, borrando as fronteiras entre autobiografia e ficção. A impressão é que, após duas partidas com uniforme, juiz e campo oficial, Villalobos se permitiu escrever com o descompromisso de uma boa pelada.

Marcelo Moutinho é escritor e jornalista

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Fotografo, logo vivencio

 O Globo 05/05/2014

Na era digital, a ansiedade do consumo visual vem ocupando o lugar da reflexão, fundamental para se usufruir a arte

DANIELA LABRA
segundocaderno@oglobo.com.br


Ao chegar na exposição do escultor australiano Ron Mueck no Museu de Arte Moderna, o visitante se surpreende com a apurada técnica do artista e com a multidão acotovelada para ver e fotografar os seus prodígios hiper- realistas. No grande salão, pessoas que até há pouco não sabiam quem era Mueck e muito menos o que acontecia no museu, empunham câmeras e celulares para captar, vorazes, imagens dos trabalhos e selfies atropelando quem tenta apenas apreciar as obras.

Se o enorme público estreante no MAM é um fato novo e positivo, pessoas fotografando a si ou a conhecidos diante de trabalhos de arte já não são novidade. Dentro ou fora do espaço expositivo é fácil comprovar que câmeras digitais e smartphones não só popularizaram o ato fotográfico como fazem-no parecer um gesto necessário para desfrutar a vida. No caso de exposições, onde encontra-se lazer associado a reflexão e conhecimento por meio do contato sensível, intelectual e até físico do espectador com a obra, tento imaginar o que os visitantes desejam capturar com suas lentes e como essa mediação digital transforma a experiência estética in loco. Entendo que a natureza de muitas mostras tem apelo publicitário e espetacular, estimulando a incontinência fotográfica, mas observo que o excesso de registros substitui o processo, hoje difícil, de postarse atentamente diante de umobjeto artístico para apreendêlo na sua forma e conteúdo. Afinal, uma obra de arte não se esgota na visão rápida.

O filósofo Jacques Rancière diz que na ordem da nossa sociedade espetacular, ver uma obra pode ser o contrário de conhecer Partindo do pensamento de Guy Debord, ele explica que o espetáculo é o reino da visão. Visão que neste caso é entendida como a desapropriação da essência do indivíduo e de sua atividade crítica. Assim, quanto mais contempla, mais o homem aliena-se do mundo. Por sua vez, na arte contemporânea não se espera do público contemplação passiva, mas posicionamentos críticos ativos que justamente correm o risco de ser diminuídos com o frenesi do fotografar. Embora a mediação da máquina resulte em novas experiências, seu excesso afasta o sujeito da dimensão crítica do objeto artístico e o leva para o lugar onde a visão, no sentido da alienação, impera.

Volume de fotos também não significa compreensão total de um evento. Na retrospectiva da japonesa Yayoi Kusama, “Obsessão infinita”, centenas de retratos e autorretratos foram feitos nas instalações espelhadas da artista e compartilhadas na internet. Enquanto as fotos comprovam a vivência daquelas pessoas na exposição, acredito que muitos saíram dali sem saber que, além de criar lúdicos ambientes de bolinhas, Kusama foi muito importante para a arte feminista e performática nos anos 1960-70, nos EUA.

A primeira visita ao museu, independentemente da idade, pode despertar um interesse pela arte que tende a crescer de acordo com a oferta cultural na cidade. Mas, já que o espaço expositivo é lugar de exercício crítico, criativo e de conhecimento, sugiro ao visitante neófito guardar a bengala fotográfica para observar a obra e ouvi-la. A ansiedade do consumo visual ocupa o lugar da reflexão, cara à arte em geral. Na era digital a experiência do olhar vem mudando mas, por enquanto, até a “Mona Lisa”, mitificada e banalizada pela publicidade, é mais emocionante se vista com os olhos — depois que se atravessa a barreira de turistas fotógrafos diante dela.

domingo, 4 de maio de 2014

ENCONTROS DE DOMINGO Bruno Wainer

O Globo 04/05/2014

Um homem de olho na bilheteria de Hollywood

Com mania de perfeição, determinação e faro para saber o que o público quer, filho caçula de Danuza Leão e Samuel Wainer se firma como principal distribuidor de filmes nacionais e coloca as produções brasileiras de novo no topo das bilheterias

MARIA ELISA ALVES
elisa@oglobo.com.br

Ele tem a elegância despojada que se
espera do filho de Danuza Leão, e a determinação
herdada do pai, o jornalista
Samuel Wainer, fundador do jornal
“Última Hora’’. Mas Bruno Wainer tem
um trunfo só dele: um tremendo faro
para descobrir o que você quer ver no
cinema. Dono da Downtown Filmes,
distribuidora que só trabalha com filmes
nacionais, ele vem sendo apontado
— e olha que a fogueira de vaidades
que arde no meio cinematográfico não
é de incensar ninguém à toa — como
um dos responsáveis pela (nova) retomada
do cinema brasileiro.

No ano passado, por exemplo, dos
dez filmes nacionais com maior bilheteria,
seis tiveram o dedo de Bruno.
No ranking total, disputando
com as superproduções de Hollywood,
a Downtown também não fez
feio. Emplacou duas comédias (“Minha
mãe é uma peça” e “De pernas
para o ar 2”) entre os dez com maior
venda de ingressos.

CABEÇA DE DIRETOR DE ESTÚDIO

segredo? Bruno é um distribuidor
com cabeça de dono de estúdio. Não
se limita a espalhar cópias por aí. Vai
atrás de roteiros que dão samba, caça
produtores, palpita na escolha de diretores
e do elenco. Também corre atrás
de patrocínio e dá incertas nos sets.
Tudo para que o produto — sim, ele
não tem a visão romântica de que cinema
é arte — dê certo nas telas.

— Ele opina nos cortes, dá conselhos
úteis, faz a coisa andar. Participa de todo
o processo, é perfeccionista. Faz seu
filme realmente chegar ao público da
melhor forma possível — elogia a atriz
Mônica Martelli, protagonista de “Os
homens são de Marte... e é para lá que
eu vou’’, que estreia este mês.

O diretor Roberto Santucci, que dirigiu
os dois filmes arrasa-bilheteria
“De pernas para o Ar’’, também destaca
que Bruno faz acontecer. E que, ainda
por cima, é excelente olheiro:

— Quando falei, por alto, da história
da mulher que tinha ido trabalhar numa
sex-shop, depois de ter sido demitida
e abandonada pelo marido, ele, na
hora, comprou a ideia. Disse que ia me
arrumar roteirista, um produtor quente,
patrocínio. E cumpriu tudo.

CHEFE OBSESSIVO-COMPULSIVO

É claro que esse jeito extremamente
participativo de Bruno — que rendeu a
ele um bonequinho com a inscrição
obsessivo-compulsivo, um presenterecado
dos funcionários da Downtown
que ele mantém meio escondido na estante
— pode ser um trunfo na vida
profissional. Mas é um desastre na pessoal.
No seu escritório, na Barra da Tijuca,
sentado numa poltrona Charles
Eames — alguém tem dúvidas de que
ele fez questão de palpitar na decoração
do espaço? —, Bruno confessa que
anda sem tempo. Não surfa, uma das
suas maiores paixões, há quase dois
anos, e não tem sequer ido ao cinema.
Nos fins de semana, recarrega a energia
no sítio de Guapimirim, onde reúne a
família, a mulher, a designer Ana França,
Beatriz, a filha-xodó de 2 anos, e os
filhos já adultos, Gabriel e Pedro, ambos
do primeiro dos seus quatro casamentos.

— Fico exausto. Mas não tem jeito, vou
até o fim em todo assunto que eu curto.
Manjo até de algodão egípcio — diz, abusando
das gírias, antes de explicar esse negócio
de jogo de cama. — Um dia alguém
me apresentou um lençol muito macio.
Adorei e fui atrás. Descobri de quantos fios
eu precisava. Sou um homem em extinção,
da categoria heterossexual sensível —
brinca, ao se descrever, garantindo que
não faz jus à fama de mulherengo. — Esse
casamento já tem oito anos e é o último.
Danuza diz que Bruno nasceu com
“um paetê dentro da cabeça".

— Ele herdou meu bom gosto. Teve
época em que eu não trocava um sofá
sem consultar o Bruno. Mas agora que
ele mora na Barra, tudo mudou. Preciso
de passaporte para vê-lo e aí resolvo
meu afeto por telefone — lamenta.

O tal bom gosto de Bruno não é unanimidade.
Há quem diga, nos bastidores,
bem à boca miúda, que o distribuidor só
aposta em filmes menos sofisticados,
com mais chances de agradar, ignorando
os mais autorais, artísticos. Mas, diante
da verdade incontestável dos números,
só resta a Bruno fazer biquinho e
mandar um beijinho no ombro para o
recalque bater longe.

— A Downtown já vendeu 50 milhões
de ingressos desde que foi criada, em
2006. É uma marca muito relevante para o
cinema brasileiro. Junto da Paris Filmes,
nosssa parceira, disputamos espaço com a
Disney, Fox, Universal — orgulha-se, para,
em seguida, botar mais lenha na fogueira.
— Cinema é uma indústria como outra
qualquer. Você faz milhares de computadores
e aí aparece uma Apple. No caso de
carros, são muitos Chevys até se chegar a
uma Ferrari. Com cinema, é a mesma coisa.
Você vende muito ingresso até ter um
filme como “Central do Brasil".

As certezas todas que Bruno tem, aos
53 anos, em relação ao que funciona, ou
não, em cinema — ele não é infalível e
“Lula, o Filho do Brasil” não foi o sucesso
esperado — foram sendo construídas
desde a adolescência, quando ele pisou
pela primeira vez num set, praticamente
obrigado pelos pais

Mais novo dos irmãos (Pinky e Samuel,
morto num acidente de carro nos
anos 80), Bruno vivia, quando garoto,
com a cabeça mais nas ondas do que
nos livros da escola. Por isso, foi despachado
pelos pais para estudar e morar
em Paris, sozinho, quando tinha 15
anos. Aos 17, com o passaporte para o
desbunde praticamente entregue em
mãos, resolveu embarcar para o Afeganistão,
de onde iria, em seguida, para a
Índia. Como o país foi invadido dias antes
da viagem pela União Soviética, Danuza
resolveu que já era hora de colocar
os pés do filho caçula no chão. E em
solo brasileiro.

— Minha mãe pediu para o Cacá Diegues,
que era da família, porque tinha
sido casado com a minha tia Nara, para
me aceitar na filmagem de “Bye Bye,
Brasil”. Fui ser estagiário, servir cafezinho,
varrer set, o que precisasse. Fui
aprendendo tudo e não saí mais. Nunca
passei um mês desempregado —
diz Bruno, que também nunca mais
pensou em ir para o Afeganistão e diz
ter guardado da temporada em Paris
as seguintes lembranças. — Falo francês
bem e esquio razoavelmente.

SESSENTA PROJETOS EM ANDAMENTO
Atualmente, Bruno tem na manga 60
projetos, em diferentes fases de desenvolvimento.
Até o fim do ano, lança as
comédias “Candidato honesto”, que
conta a história de um político que
acorda, no meio da campanha, sem
conseguir mentir, e o filme estrelado
por Mônica. Também vai levar aos cinemas
até dezembro duas biografias
que não poderiam ter personagens
mais distintos um do outro: Irmã Dulce
e Tim Maia. E se prepara para investir
cerca de R$ 4 milhões na distribuição
de cada um. Diante da inevitável pergunta
— se não vai lançar a história de
Samuel Wainer —, Bruno é taxativo.

— Filme sobre o meu pai? Nem pensar.
Seria um ato de vaidade. Eu não entenderia
o motivo. A história dele já está
num livro que vendeu muito — afirma,
antes de ser pragmático. — E seria
um filme adulto. O que agrada é entretenimento
com elementos populares e
juvenis, além de ação e comédias

sábado, 3 de maio de 2014

O triunfo da ‘burrocracia’ - JC Teixeira Gomes

A Tarde/BA 03/05/2014

JC Teixeira Gomes
Jornalista, membro da
Academia de Letras da Bahia
jcteixeiragomes@hotmail.com

O lugar-comum do título – “burrocracia” – é propositado, porque serve para ilustrar um episódio ocorrido com este articulista, aqui narrado como forma de protesto. Nunca me conformei com fatos que se tornaram comuns na vida administrativa do Brasil e tenho a mania de denunciar a impostura e o conformismo.

Começarei lembrando recente episódio inadmissível, tal como me foi evocado pelo meu amigo, o advogado Schitini: a fuga do petista Pizzolato do Brasil, após condenado como mensaleiro pelo STF. Pizzolato viajou com passaporte falso para a Argentina e Roma. Vejam o absurdo: o passaporte foi expedido pela Polícia Federal em nome do irmão do evadido, morto em acidente automobilístico há mais de 25 anos! É ocorrência inacreditável, quando lembramos que, para conceder passaporte, a Polícia Federal age com rigor, exigindo hora marcada e uma série de documentos, cuja validade e legalidade são examinadas em prazo dilatado.

Essa introdução foi apenas para mostrar como, apesar do seu pretendido rigor, a burocracia no Brasil costuma ser uma operação irracional e não raro ridícula e incompreensível, existindo para transtornar a vida dos cidadãos.

Há cerca de duas semanas, fui ao SAC do Salvador Shopping para renovar minha carteirade identidade. O documento estava em perfeito estado, mas a burocracia brasileira, já transformada em burrocracia, a pretexto de atualização de datas e retrato, mas na verdade querendo obter lucros, exigiu que fosse renovado. Na hora marcada, compareci munido da minha certidão de nascimento e de uma carta de sentença original, expedida pelo juiz competente, com todos os carimbos e registros legais, provando que não estava mais casado, pois havia ali a prova do meu verdadeiro estado civil, ou seja, portador de uma separação judicial. É que a carteira anterior registrava meu casamento, que precisava ser eliminado na pleiteada. A carta de sentença o comprovava.

Acham os leitores que obtive êxito? Ledo engano! A funcionária do guichê do SAC disse que eu só conseguiria tirar a carteira nova se levasse uma certidão de casamento averbada, justamente para provar o que a carta de sentença que apresentei já evidenciava!

É óbvio que argumentei, explicand alto e bom som que aquela exigência significava uma redundância abusiva e desnecessária. Eu não estava sequer fazendo nenhuma transação que exigisse comprovar meu estado civil, apenas querendo renovar, por imposição da burocracia, um documento de identificação pessoal. De nada adiantou. Não pude renovar o documento. A burrocracia obstinada triunfou.

Pensam os leitores que essas anomalias da administração pública acontecem apenas por estupidez? Longe disso! A burrocracia precisa ser gorda, inchada, irracional, lenta, arrogante, exigente, duplicada,
para prosperar, arrecadar verbas, atormentar o cidadão brasileiro com exigências para ganhar mais e sustentar a legião de funcionários ociosos, nomeados pelos políticos.

Todo eles perdem se a administração diminuir, dispensar documentos que apenas enriquecem cartórios, escrivães, repartições, cobrando averbações, estampilhas, plastificações, cópias, carimbos, assinaturas, o diabo! Tudo o que inferniza a vida do homem do povo, dos empresários, dos advogados, da Justiça, emperrada e atravancada sempre por toneladas de papéis em plena era do computador e da internet, beneficia essa corja de aproveitadores da burrocracia que ancora o Brasil no atraso, na ineficiência e na preguiça administrativa. Para completar minha história: Pizzolato fugiu com passaporte falso, facilitado pelo governo brasileiro. Eu não pude tirar a nova carteira de identidade, apesar de apresentar documentação correta. Vou continuar com a minha, que pode ser velha, mas é digna e decente. Dizem que os dinossauros se extinguiram, além da hipótese da queda de meteoros, porque tinham o cérebro pequenininho. Os burocratas brasileiros também têm. Mas, em vez de extinguir-se, proliferam como praga incontrolável. Para desespero de milhões de brasileiros, esmagados pelos burrocratas triunfantes.

sábado, 26 de abril de 2014

Aproximação da poesia - José Castello

O Globo 26/04/2014

UMA PROSA QUE É POESIA. TALVEZ ESSA SEJA A MELHOR MANEIRA DE DEFINIR O NOVO ROMANCE DE VALTER HUGO MÃE

Uma prosa de fronteira, que se
deixa impregnar e definir pela
escrita poética. Uma prosa que
é poesia. Talvez essa seja a melhor
maneira de definir “A desumanização”
(Cosac Naify),
novo romance do português Valter Hugo Mãe.
Uma narrativa que é puro arrebatamento, conduzindo
o leitor — empurrando-o — para os limites
do êxtase, deixando-o, a cada página virada,
fora de si. Impossível ler o romance com serenidade
e temperança. A história de Halla, a
menina que perde sua irmã gêmea, Sigridur, e
com ela morre um pouco, é uma dessas narrativas
que não se lê facilmente. Narrado pela própria
Halla, o romance provoca sucessivos golpes
de admiração em um leitor que se torna cada
vez mais prisioneiro do livro.

“A poesia é a linguagem segundo a qual deus
escreveu o mundo”, diz o pai de Halla. “Nós não
somos mais do que a carne do poema”. Valter
Hugo Mãe adota a mesma filosofia de seu personagem:
não encara a poesia como decoração, ou
sedução, mas fundamento. O pai é um homem
simples da Islândia — onde se ambienta o livro
—, mas um homem que não cede um milímetro
de sua humanização, um homem que combate
suas feridas desumanas escrevendo versos. “Eu
perguntei: posso chamar a vida de poema. E ele
respondeu: podes chamar a vida de poema”. Para
ele, o poema não é uma exceção, o poema é a
matéria do mundo. “Ou podes chamar de normalidade.
A vida é a normalidade e deus é a normalidade.
O poema é normal”.

As palavras desse pai filósofo, que coloca versos
no lugar de cada coisa, regem a escrita de Mãe, ela
também aturdida e submissa à força da poesia. O
pai ensina à filha — sozinha e desamparada desde
a morte de Sigridur — o amor pelos livros. “Os livros
eram ladrões. Roubavam-nos do que acontecia”.
Mas os livros são também generosos, reconhece:
“Oferecem-nos o que não nos acontece”. A
poesia seria não só um instrumento de nomeação
do mundo, do qual nada escapa exceto Deus —
aquele que não pode ser nomeado —, mas um meio
de construção do próprio mundo.

“Éramos gêmeas. Crianças espelho. Tudo em
meu redor se dividiu por metade com a morte”.
Com a perda da irmã, Halla passa a se sentir violentamente
só. Não desgruda do túmulo de Sigridur,
pedaço de chão que as pessoas chamavam de
“criança plantada” e no qual julgavam
que a morta pudesse germinar.
Halla se pergunta se, com
sua morte, a alma de Sigridur se
instalou dentro dela. “Começaram
a dizer as irmãs mortas. A
mais morta e a menos morta”.
Aos 11 anos de idade, Halla é, assim,
vítima de um discreto assassinato.
Passa a ser vista como
a parte viva da irmã que se foi —
morre um tanto. Passa a sentir
como quem habita um inferno e
o inferno são os outros — que não a perdoam por
ter sobrevivido a Sigridur.

Desmente o pai: “O inferno não são os outros,
pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem
sozinho é apenas um animal”. É a solidão —
que ela experimenta de maneira tão radical — que
nos desumaniza. Continua o pai filósofo: “Sem
ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo
pensa tão sem razão quanto pensam os peixes”. O
pai tenta convencê-la de que a solidão não existe,
de que ela é só uma ficção que criamos para escapar
dos outros. O humano é o revelado — e só nos
revelamos para os outros. “E deus era o desconhecido.”
Arremata: “Cada coisa que nos revelasse tornava-
se humana. Apenas o que
nos transcendia podia ser deus”.

A família não aceita a morte de
Sigridur e fala, sem nenhuma piedade,
das “irmãs mortas”. Mas
Halla não se deixa matar. A figura
do amor precoce, sinal da humanização,
se manifesta na presença
estranha e ambígua de Einar,
ser de idade e feições indefinidas,
que lhe causa repulsa,
mas também atração. Halla o vê
como “um ogro malcriado”, mas
isso não impede que se envolvam. Ele vive naquele
limite em que a ingenuidade e a monstruosidade
se confundem. No mundo de Halla as coisas se
dissolvem e se misturam. Quando pensa em deus,
por exemplo, pensa na Islândia. Quando estava
para morrer, Sigridur, retida na mesma confusão,
lhe perguntou: “O que acha que a Islândia quer de
mim?” A irmã morta achava que deus “era o corpo
deitado da Islândia”. Era preciso aceitar essa
ausência de limites entre eles, até porque descobrir
o nome e o significado de deus “não compete
a ninguém”. E Halla respeita essa proibição.

Também a linguagem, Halla descobre, está
imersa na incerteza e na confusão. “As palavras
são objetos magros incapazes de conter o mundo.
Usamo-las por pura ilusão. Deixamo-nos iludir assim
para não perecermos, de imediato, conscientes
da impossibilidade de comunicar e, por isso, a
impossibilidade da beleza”. O tema da beleza está
no centro de “A desumanização”. Pode a beleza se
guardar na feiúra? Pode o repulsivo ser, ao mesmo
tempo, belo? Será a beleza alcançável? A beleza
maior estaria na firmeza da linguagem, que não
existe. “É o que todos almejamos. Que acreditem
em nós. Dizemos algo que se toma como verdadeiro
porque o dizemos simplesmente”. A beleza
não tem segundas intenções. Ela não se guarda
nos grandes arroubos, mas na alma de uma menina
perdida. Também a verdade só se configura
quando é pronunciada por uma menina que não
sabe o que diz. Assim se refletem alguns dos alicerces
da escrita de Valter Hugo Mãe, que desmentem
o mundo prático e arrogante — o mundo de
pessoas cheias de si — em que vivemos. Um mundo
regido por projetos, interesses e intenções secretas.
Indiferente à poesia.

Quanto às palavras, não há como admirar-se de
sua fraqueza. “As palavras não são nada. Deviam
ser eliminadas. Nada do que possamos dizer alude
ao mundo que é”. A verdade não se guarda nas palavras,
mas em suas entrelinhas. Halla pensa nas
pedras: “Nenhuma pedra se entende por caracteres.
As pedras são entidades absolutamente autônomas
às expressões. As pedras recusam a linguagem”.
Talvez se possa tomar como pedra, também,
o objeto de um romance. Não o tocamos. Só a poesia
consegue dele se aproximar. Daí a eficácia da
linguagem poética, muito mais potente que a objetiva.
Esta fecha caminhos, aquela os abre. Princípios
que regem a escrita de Valter Hugo Mãe, agora,
de forma não só intensa, mas atordoante.

SE MEU PIANO FALASSE

CL. Gente Boa O Globo 26/04/2014

CLEO GUIMARÃES
genteboa@oglobo.com.br
COM MARIA FORTUNA, ISABELA BASTOS E THAMINE LETA


João Donato recebe Roberto Menescal e Caetano Veloso numa ‘jam session’ em que estreou instrumento personalizado

No dia em que um piano
novinho chegou à casa
de João Donato, na Urca,
ele recebeu também a visita
de amigos ilustres, como Roberto
Menescal e Caetano Veloso.
Menescal daria só uma
“passadinha”, mas, claro, tudo
acabou no violão. E aí.... O trio
emendou clássicos da bossa
nova, como “O barquinho”, do
próprio Menescal, além de
parcerias de Donato e Caetano
(“A rã” e “O fundo”).

O encontro foi filmado por Tetê
Moraes, que dirige a série “João
Donato”, com roteiro de Lysias
Enio, irmão do compositor. Estreia
no Canal Brasil em dezembro
e celebra os 80 anos do
compositor. “Mostraremos a
primeira valsinha que ele compôs
para a namorada, sua participação
nos primórdios da bossa
nova, e ele hoje, no auge”,
conta Tetê, que também dirigiu
o documentário “Nasci para
bailar”, sobre uma viagem do
músico a Cuba, em 2008.

Antes de a sessão musical começar,
o afinador Ferdinando
Pietro Giuseppe Giaquinto deu
um trato no piano de Donato, o
tal que havia chegado naquele
dia. O instrumento, fabricado
pela Fritz Dobbert, é assinado
pelo músico. É feito de curupixá,
madeira preservada do Acre,
a terra de Donatão, como ele é
chamado pelos amigos. Por
dentro, é todo de jatobá. Tudo
sustentável. Um luxo.

Copa do Mundo estranha
Uma constatação intrigante: em ano
de Copa do Mundo no Brasil, a
Secretaria de Ordem Pública não
recebeu nem um pedido de
autorização para a decoração de ruas
da cidade. Lembra das faixas,
bandeirolas, pinturas no chão e de
todas aquelas manifestações de
patriotismo típicas das outras copas?
Parece que ficaram no passado, pelo
menos na Zona Sul viraram raridade.

Aliás e a propósito

Não há nenhuma proibição ou
restrição da prefeitura para a
decoração das ruas da cidade em
época de Copa do Mundo. O povo é
que não quer mais fazer mesmo.

Por falar em Copa...

A Rio de Paz vai levar 12 bolas da Copa
do Mundo ao Corcovado, onde serão
fotografadas nas mãos de voluntários
com a imagem do Cristo Redentor ao
fundo. Pintadas com cruzes
vermelhas, as bolas representam as
cidades-sede e são as protagonistas da
campanha “É justo?”, criada pela
entidade para questionar os gastos
públicos com a Copa.

‘Caos no Brasil!’

Imagens da guerra recente em
Copacabana foram destaque na versão
online do jornal alemão “Bild” de
anteontem. A reportagem começa com
a frase “Caos no Brasil!”, cita a greve da
PM em Salvador (39 mortos), e dá dicas
de como agir no Rio (“só pegue táxis
oficiais; não visite favelas”). De acordo
com o jornal, Cristiano Ronaldo, da
seleção portuguesa, proibiu a família de
vir, porque o Brasil é muito perigoso.

Com delicadeza
Fernanda Montenegro, que fará uma
lésbica na próxima novela de Gilberto
Braga, “Babilônia”, fez um pedido ao
autor: que sua personagem seja o
mais feminina possível. Fernandona
formará um casal com Nathalia
Timberg e quer passar longe dos
velhos estereótipos da mulher
machona e abrutalhada.

Mundo cão

Há uma cachorrinha da raça bichon
frisé hospedada há nove meses numa
das suítes mais chiques do Copacabana
Palace. Lady Bella acompanha seu
dono, Lord Bowen, que se apresenta
como lorde inglês e decorou o quarto
com fotos da cachorra para ela se sentir
“at home”. Quando o lorde viaja a
trabalho (frequentemente), cinco
funcionários do hotel se encarregam de
cuidar da cadela, que tem uma
alimentação mais rica e balanceada
que a maioria dos brasileiros.

No colinho do Felipão

Entrevistado por Maitê Proença,
Murilo Rosa e pela equipe do
Fantástico, o técnico Felipão
ficou surpreso, quando, ao fim
do papo, Maitê o abraçou e se
sentou em seu colo. “Ih, Dona
Olga vai ficar com ciúme”,
brincaram os jornalistas, numa
referência à mulher do treinador. A
conversa vai ao ar amanhã, na Globo.

Olha ela aí
Filha de CarmenMayrink Veiga,
Antonia Frering interpreta uma
dona de casa inglesa acomodada
com o casamento de mais de 20 anos
na montagem brasileira da peça
“Relações aparentes”, que estreou
 no Sesc Ginástico.A peça de Alan
Ayckbourn fez o maior sucesso
na temporada de Londres.

A próxima vítima
Um mês depois do despejo da
centenária A Guitarra de Prata, a bola
da vez na Rua da Carioca é a loja de
guarda-chuvas Vesúvio, que funciona
há 67 anos no número 35. Como não
houve acordo sobre os novos valores do
contrato de locação, o banco
Opportunity entrou com ação de
retomada do imóvel na 10ª Vara Cível.

Segue a história

A Vesúvio contra-atacou com uma
medida cautelar contra o despejo, o
que tem retardado o processo.

Aqui não, violão

Um abaixo-assinado de vizinhos
pretende acabar com a alegria dos
frequentadores de festas com gente
pelada que estão virando moda na
cidade, como a “Pool me in”, na Casa
Philippe, na Glória. “Eles não têm
alvará para esse tipo de festa”, reclama
o vizinho Wolfgang Kunath, que vem
colhendo as assinaturas. “O barulho é
insuportável e às vezes, só acaba às
três da manhã”. A mansão tem
história: ali viveu a Condessa de
Barral, amante de Dom Pedro II.

‘Fulana recebe as amigas’

A permuta da vez entre famosas
grávidas são os chás de bebê.
Celebridades que esperam neném
ganham das revistas a decoração e os
doces da reunião com as amigas e dão
em troca a exclusividade na cobertura
do “evento”. Até pouco tempo, isso
acontecia com os casamentos, em
trocas que envolviam até a cobertura da
viagem de lua de mel.

Os cadeados do amor
Chegou ao Rio a moda europeia de
colocar, em pontes da cidade, cadeados
com os nomes de casais apaixonados e
jogar a chave fora. Três românticos
fizeram o mesmo na ponte elevada na
ciclovia da Lagoa, perto do Caiçaras.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

ENTREVISTA/JANET BALASKAS » Em defesa do parto ativo

ENTREVISTA/JANET BALASKAS » Em defesa do parto ativo

Obstetra sul-africana defende que mulheres deem à luz na posição que se sentirem mais confortáveis. Segundo ela, o método promove a saúde física e mental das mães



Rodrigo Craveiro
Estado de Minas: 24/04/2014

 


"Em um parto ativo, a mulher tem liberdade para seguir seus instintos. Ela se movimenta, relaxa em qualquer situação que se sinta confortável e dá à luz em posição vertical, ou ajoelhada, de cócoras ou na água" 

"Existe uma guerra entre a maioria dos obstetras e as mulheres brasileiras que querem um parto natural, quando deveria haver parceria e cooperação"  
Em 4 de abril de 1982, uma obstetra sul-africana organizou uma passeata no norte de Londres, durante a qual 60 mil pessoas exigiram o direito da mulher a dar à luz em qualquer posição que escolhesse. O chamado Movimento pelo Parto Ativo acabava de ser criado por Janet Balaskas, uma das mais respeitadas do mundo na área. Foi uma resposta à dificuldade imposta pelo Hampestad’s Royal Free Hospital, que obrigou uma gestante a assinar termo de responsabilidade, isentando quatro parteiras de culpa, quando ela tentava dar à luz em quatro apoios.

No fim, ela cedeu e o parto ocorreu na posição ginecológica. “Eu não fazia a menor ideia de que seria a fundadora do movimento. Ainda acho isso inacreditável”, afirmou Balaskas ao Estado de Minas, durante a passagem pelo Brasil. Em entrevista, ela assegurou que o parto ativo é o mais natural método de concepção e enumerou benefícios para a mãe e o bebê.

Balaskas também criticou a decisão da Justiça do Rio Grande do Sul, que, no fim do mês passado, determinou que uma gestante teria que se submeter à cesariana, mesmo contra a própria vontade. “Eu entendo essa situação como uma violência obstétrica”, comentou. No último dia 10, a sul-africana Janet Balaskas visitou a Casa de Parto de São Sebastião, no Distrito Federal, e promoveu uma palestra na Universidade de Brasília (UnB), com a participação de Maria Esther Vilela, coordenadora do Programa Saúde da Mulher, do Ministério da Saúde; e de Daphne Rattner, professora da UnB e presidente da Rede pela Humanização do Parto e do Nascimento (Rehuna).

Repercussão nacional

A Justiça do Rio Grande do Sul determinou, em 31 de maço, que Adelir Carmen Lemos de Goés, de 29 anos, fosse submetida, contra a vontade dela, a uma cesariana em um hospital de Torres, no litoral norte do estado. Ela estava grávida de 42 semanas e, segundo a juíza que expediu a decisão, Liniane Mog da Silva, “o bebê estava em pé no útero, sendo necessária uma cesariana, por indicação médica”. Adelir tinha a intenção de que o parto fosse natural. Ao ser atendida no Hospital Nossa Senhora dos Navegantes, ela foi informada da necessidade da cesariana, “quis deixar o hospital para fazer o parto em casa e assinou um termo de responsabilidade”. O Ministério Público foi acionado. Duas viaturas da Brigada Militar e uma ambulância buscaram a gestante em casa. Ela retornou ao hospital acompanhada de um oficial de justiça e foi submetida ao procedimento cirúrgico no dia seguinte. Não houve complicações no procedimento, mas Adelir reclama que teve a escolha do parto natural “roubada”.

Por que a cesariana desperta tanta polêmica e não é considerada o melhor tipo de parto?
Há vários tipos de cirurgia cesariana: a eletiva, aquela feita durante o trabalho de parto, e a de emergência. Atualmente, no Brasil, a taxa de cesarianas está próxima de 60%. É um índice bastante alto. A Organização Mundial da Saúde (OMS) defende que a taxa deve estar entre 10% e 15%. Quando esse índice ultrapassa 15%, os prejuízos são maiores que os benefícios. A cesariana traz riscos tanto para a mãe quanto para o bebê e, mesmo que ela seja às vezes necessária e que salve vidas, um parto como o que você descreve nesta pergunta é uma extração cirúrgica. Não é um parto. Todos os inúmeros benefícios que a natureza traz para a mãe e o bebê durante o processo de parto são perdidos.

Quais são esses benefícios?
Eles incluem os chamados hormônios do amor, que regem o nascimento. No momento do parto, mãe e bebê estão repletos desses hormônios e formam um vínculo forte, que é impossível de ser replicado em uma cesariana. Em um parto natural, o bebê nasce por meio de um ato de paixão e de amor, e a mãe faz sua entrada na maternidade em um estado de êxtase, sentindo-se bem e cheia de energia, em vez de ter que passar por uma recuperação pós-operatória de uma cirurgia de grande porte. A amamentação é mais fácil e mais bem-sucedida; a depressão pós-parto se torna muito improvável de acontecer, e a mãe achará mais fácil cuidar de seu bebê.

O que é o parto ativo e que benefícios ele representa para a mãe e o bebê?
Em um parto ativo, a mulher tem liberdade para seguir seus instintos. Ela se movimenta, relaxa em qualquer situação que se sinta confortável e dá à luz em posição vertical, ou ajoelhada, de cócoras ou na água. Ela pode se soltar e se entregar para o processo natural que vai parir o bebê. O parto não é algo que fazemos — ele acontece. Os principais benefícios são a ajuda da força da gravidade, que torna tudo menos dolorido para a mulher e mais fácil para o bebê; o suprimento de oxigênio para o bebê e para o útero é melhor; os diâmetros da pélvis ficam maiores; e as contrações uterinas se tornam mais eficientes.

Que tipo de precauções é preciso tomar durante esse tipo de parto?
Como não é um procedimento cirúrgico, um parto ativo não exige nenhum cuidado especial em relação à higiene, a não ser o bom senso. O bebê está naturalmente protegido pelas bactérias que estão no corpo da mãe, pois ambos compartilham dos mesmos fatores imunes. Provavelmente, é mais higiênico parir em casa, rodeada por bactérias familiares às quais a mãe e o bebê terão uma resistência natural. No parto, não somos diferentes dos outros mamíferos, e não ouvimos falar de infecções serem um problema comum entre os animais, ou no mundo selvagem.

Então, o parto ativo é o mais natural que existe?
O parto ativo não é nenhuma novidade. Não é um método. As mulheres vinham parindo de forma ativa por milhares de anos em todo o mundo — inclusive no Brasil —, antes de a cirurgia cesariana assumir. Parto ativo é apenas uma maneira de descrever um parto natural. Só há um tipo de parto, e os princípios de um parto ativo são universais e verdadeiros.

Uma gaúcha de 29 anos foi  obrigada pela Justiça a fazer uma cesariana contra a própria vontade. Como a senhora vê esse caso?
Eu entendo essa situação como uma violência obstétrica. Todas as mulheres têm o direito de consentir e de recusar qualquer procedimento feito em seu corpo. Se a cirurgia foi realizada sem o consentimento prévio dela, eu consideraria isso um abuso dos direitos humanos básicos. Isso aponta para a necessidade de uma melhor comunicação e colaboração entre as mulheres e os médicos, e uma compreensão muito mais profunda da fisiologia do nascimento por parte dos médicos e dos pais. No momento, existe uma guerra entre a maioria dos obstetras e as mulheres brasileiras que querem um parto natural, quando deveria haver parceria e cooperação. As mulheres, hoje, são muito mais informadas sobre o parto. Elas têm opiniões bem formadas e desejos em relação ao nascimento de seus bebês. Elas conhecem seus direitos. Penso que os médicos se beneficiariam muito se ouvissem o que as mulheres no Brasil estão dizendo e se tentassem oferecer mais apoio às que querem parir naturalmente, ao mesmo tempo em que oferecem apoio obstétrico quando necessário.

Em que culturas o parto ativo é considerado uma norma?
O parto ativo era a norma em todas as culturas antes do advento da obstetrícia moderna. No mundo de hoje, é difícil encontrar uma região onde ele seja a norma. No entanto, nos lugares onde há uma forte cultura para o parto natural, o parto ativo é parte fundamental. Em tais locais, os resultados geralmente são muito bons, com uma taxa de complicações muito baixa. O parto ativo é seguro, traz satisfação e promove saúde física e mental ótima para o recém-nascido. Isso dá ao bebê uma base de resistência a doenças e um sistema imunológico forte por toda a vida. Essa é uma das muitas razões pelas quais mulheres inteligentes e bem informadas queiram dar à luz naturalmente os seus bebês. Foi isso que me motivou no início. No Reino Unido, estamos em uma situação em que o parto ativo é comum, se não for a norma. Há muito respeito pelas mulheres que fazem essa escolha, e o sistema nacional de saúde lhes oferece, gratuitamente, condições e recursos para utilizar centros para parto normal e para o parto domiciliar planejado.