O Globo 17/11/2013
Sobre o que escrever enquanto nas Filipinas as pessoas estão enfileirando corpos de entes queridos à beira da estrada, sem água, sem comida, sem saber se os parentes estão mortos senão vendo-os mortos, a filha, o irmão, a avó. Sem eletricidade, os aparelhos médicos, as máquinas de diálise, para dar um exemplo, não funcionam, e as pessoas estão morrendo por isso. Sem eletricidade, às escuras, o pouco que restou é saqueado, há mortes nesses saques, a ajuda tem que combater os saques antes para poder ajudar. Mulheres são agredidas, estão famintas e mortas de medo do escuro da noite.
Façamos um domingo de silêncio, no mínimo, por essas pessoas.
Mas agora, ao trabalho, vamos continuar perfurando mais e mais o planeta, em prol do crescimento. Vamos entrar com sondas profundas em camadas que ainda não perfuramos. E daí que desloquemos as placas das regiões abissais? Progresso. Ordem a gente vê mais tarde. Que impacto ambiental coisa nenhuma. Vão querer nos dizer que uma desgraça natural nas Filipinas tem relação com o nosso crescimento? Pois vamos continuar crescendo, vendendo mais carros, para poluirmos mais o planeta com o resíduo tóxico daquilo que fomos lá cavucar. Vamos destruir a camada de ozônio. Daqui a pouco aparece outra tsunami na televisão, coitados. As desgraças naturais são naturais como o próprio nome diz, nada têm a ver com o nosso crescimento. Vamos investir em combustível fóssil para ficarmos ricos. O petróleo é nosso. Como assim “nosso”? É do Rio ou é do Brasil? É do PT, do PSDB ou do DEM? Quem sabe de uma aliança espúria, ou melhor, uma bem cara de pau com sorrisos para as fotos, é mais cínico, mais na moda. E os que jogam todas as fichas em privilégios de informação do governo e perdem o jogo?
Alguns investidores de perfil conservador perguntam-se “mas já houve um case de sucesso antes?”. Quem já se deu bem apostando em energia eólica? Energia gerada por moinhos de vento? Aquela que não é utilizada na França só porque os franceses acham os cataventos feios? Perfurar é não mexer em time que está ganhando. São gerações de extrativismo. Importante é crescer agora, antes do pleito, vamos inaugurar construções em ruínas, e rápido. Bobajada essa coisa de energias alternativas. A tal da Energia Cinética. Imagina, geração de energia elétrica através das correntes marítimas. A alta e a baixa das marés fazem com que o mar todo flua, e essa energia, gerada pelas correntes marítimas, equipara-se em números ao que
produzem os tais cataventos eólicos para os quais os franceses fizeram bãfh. Tudo bem que vivamos em um país com uma costa considerável e de constante brisa. Vamos continuar enfiando as ruas de carros. Derrubando os prédios antigos, as obras-primas da arquitetura, para construirmos monstrengos modernos. Maiores.
Vamos comemorar o corte de árvores da Amazônia. Crescemos do ano passado para cá 28% em relação ao mesmo período do ano anterior. Números impressionantes. Nunca antes na história deste país a Amazônia teve menos árvores. E não vamos parar, a meta é crescer ainda mais. Com esses números, imagine daqui a uns anos, que beleza, a quantidade de carros rodando onde antes existia uma floresta, a maior do mundo, o pulmão do mundo, como se dizia antigamente, foi motivo de orgulho da Nação.
Continuemos maltratando os animais em nome do crescimento da indústria, são só animais, não são uma pessoa como outra qualquer. Somos a maravilha da criação. Superiores a qualquer forma de vida no planeta. A única espécie de vida sobre a Terra que está conseguindo derrotá-lo, somos os picões das galáxias. Vamos crescer, aumentar ainda mais, poluir mais, falar muito mais por muito menos, falar mais, mais, quebrar todos os recordes, rebentar a boca do balão.
Vamos entrar pra História.
domingo, 17 de novembro de 2013
‘AGORA ESTOU PREPARADA’
CL Gente Boa O Globo 17/11/2013
Doze anos depois da morte de Cássia Eller, Lan Lan trabalha em musical sobre a cantora e faz shows pelo país
Doze anos depois da morte de Cássia Eller, Lan Lan trabalha em musical sobre a cantora e faz shows pelo país
sábado, 16 de novembro de 2013
‘NÓS AMAMOS AS MULHERES’ [DOMENICO DOLCE E STEFANO GABBANA]
O Globo 16/11/2013
ESTILISTAS DOMENICO DOLCE E STEFANO GABBANA FALAM DA LOJA QUE VÃO ABRIR EM DEZEMBRO NO RIO, DO NAMORO QUE TERMINOU E DE PROCESSOS NA JUSTIÇA ITALIANA
‘O CARINHO NÃO ACABOU’
GILBERTO JÚNIOR
gilberto.junior@oglobo.com.br
A Dolce & Gabbana tem planos ambiciosos para o Brasil. Depois de inaugurar lojas em São Paulo, a grife italiana abrirá as portas em dezembro no Rio, no Shopping Leblon, ao lado de Burberry, Red Valentino, Salvatore Ferragamo e Versace. A expansão territorial da marca por aqui — Brasília, Recife, Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte e Campinas também estão na mira — acontece em momento turbulento. Os estilistas Domenico Dolce e Stefano Gabbana travam uma batalha contra a Justiça italiana, que os acusa de sonegação de impostos.
Nada que atrapalhe a criatividade dos designers. A dupla apresentou uma das coleções mais elogiadas da última edição da semana de moda de Milão. Para o verão 2014, a Dolce & Gabbana mostrou, como faz desde 1985, peças femininas e sensuais. E sempre com a italianíssima combinação de religião e sexo que é marca da grife. Madonna não é fã à toa.
Como se conheceram, já que um nasceu na Sicília e o outro em Milão?
Domenico Dolce: Eu me mudei da Sicília para Milão no final dos anos 1970. Queria escapar do mundo onde cresci. Tudo acontecia em Milão. Eu queria estar no centro de toda essa energia.Stefano Gabbana: Nos conhecemos nos anos 1980. Depois que eu terminei os estudos, comecei a trabalhar como designer gráfico. Mas percebi que não era o que eu gostaria de fazer. Naquela época, em Milão, todo mundo só falava de moda. E eu tinha paixão por roupas. Mas eu não sabia nada sobre o assunto. Por meio de um amigo, ouvi dizer que um designer estava à procura de um assistente. No dia da entrevista, o estilista não estava no escritório. A pessoa que veio abrir a porta foi...
Domenico: Eu... E o contratei para trabalhar no ateliê.
Stefano: Ele me ensinou tudo. Domenico era muito paciente comigo.
Como surgiu a ideia de criar a grife? Podem dizer como foram os primeiros anos do negócio?
Stefano: Tudo aconteceu por acaso. Nosso primeiro escritório ficava num prédio repleto de advogados. Quando chegou o momento de escolher o nome da empresa, bastou colocar uma placa na porta com os nossos sobrenomes, como se fosse um escritório de advocacia.
Domenico: No início, dávamos consultoria para muitas marcas. Certo dia, recebemos um telefonema da Camera della Moda nos convidando para participar dos desfiles de novos talentos. Era junho e o show aconteceria em setembro.
É verdade que vocês usaram suas amigas como modelos no primeiro desfile por falta de dinheiro?
Stefano: Conhecíamos muitas meninas diferentes, incluindo atrizes, artistas, dançarinas, arquitetas e até professoras universitárias.
Domenico: Mas se as mulheres eram “reais”, os tecidos e os volumes eram muito novos e pouco convencionais.
Como é uma mulher real?
Domenico: Não temos uma musa. Nossa mulher é uma mistura do que nós amamos em mulheres bem diferentes, como Sophia Loren, Anna Magnani, Monica Bellucci e Madonna.
Stefano: É uma mulher que sabe o que quer, mas não é agressiva. Ela é capaz de atingir seus objetivos com mansidão.
Scarlett Johansson, Madonna e Kylie Minogue sempre são vistas com suas criações. O que a marca tem que agrada tanto às celebridades?
Stefano: Você deveria perguntar para elas. Quero acreditar que temos um relacionamento próximo com as estrelas porque elas se sentem bem com nossas roupas.
Domenico: Nós amamos as mulheres. Tanto que nosso único objetivo é fazê-las se sentir bonitas. Provavelmente, essa é a razão pela qual elas gostam de usar nossas peças.
Stefano: Algumas celebridades viram nossas amigas após termos iniciado uma relação profissional.
Além de parceiros de negócios, vocês tiveram um longo relacionamento... Como era trabalhar ao lado do namorado?
Stefano: Fácil. Nossa forma de trabalhar não mudou. A maior parte do tempo só falávamos. Conversávamos sobre qualquer coisa, sobre nossas roupas antes de se tornar um esboço.
Domenico: Quando o nosso namoro terminou, foi um pouco complicado. Não só por termos que lidar com o fim de um relacionamento de 20 anos, mas também por termos de encontrar uma nova forma de continuar a trabalhar.
Stefano: Mas o nosso carinho não acabou. Só assumiu uma forma diferente, a da amizade. Eu não saberia o que fazer sem o Domenico. Ele é a primeira pessoa que eu chamo quando eu tenho uma dúvida. Eu preciso saber o que ele pensa.
Domenico: A marca é, ao mesmo tempo, a expressão do que eu gosto e do que ele gosta. Não seria o mesmo se metade desta equação desaparecesse.
Qual o papel de cada um na marca?
Domenico: Hoje, não há uma divisão de papéis. Nos envolvemos em tudo que está relacionado ao universo da etiqueta. No passado, eu ficava mais no ateliê, enquanto Stefano focava nas estratégias de comunicação.
Stefano: Quando não concordamos com algo, discutimos. Temos personalidades fortes. Na maioria das vezes, começamos com perspectivas muito diferentes, por isso que falamos bastante.
Domenico: Não para convencer o outro que a ideia de um é melhor. Mas para encontramos uma forma para expressar nossos mundos.
Vocês estão sendo acusados pelo fisco italiano de sonegação de impostos.
Stefano: Pela segunda vez em que enfrentamos um processo legal por sonegação de imposto, o juiz, não obstante ter declarado a acusação como prescrita, decidiu expressar uma conclusão, confirmando nossa absoluta inocência, já que o fato não existe.
Domenico: Agora, vamos reivindicar junto às autoridades fiscais, pois fomos absolvidos e, paradoxalmente, a Receita Federal está nos pedindo para pagar uma fortuna.
MODELOS, ATLETAS E ALGUMAS POLÊMICAS
Na história da Dolce & Gabbana, as campanhas merecem lugar de destaque. Na temporada de verão 2010, por exemplo, Domenico e Stefano convidaram Madonna para ocupar o posto de garotapropaganda. Nas imagens de Steven Klein, a cantora aparece lavando louça, comendo uma macarronada e descascando legumes — mais corriqueiro, impossível.
Marqueteira, a dupla ousou ao mostrar alguns jogadores da seleção de futebol italiana vestindo apenas cuecas, dentro de um vestiário numa campanha de 2006. Nos anos seguintes, a grife se superou ao abordar temas polêmicos, como violência contra a mulher (o anúncio acabou banido da Itália e da Espanha) e submissão masculina.
Os brasileiros também são figuras recorrentes nas publicidades da etiqueta. Gisele Bündchen, Isabeli Fontana, Izabel Goulart, Evandro Soldati e Alessandra Ambrósio já fotografaram para a marca. A seguir, os estilistas falam sobre esse importante meio de comunicação e sua relação com modelos e atletas.
DE OLHO NO VESTIÁRIO MASCULINO
No passado, a marca fez campanhas polêmicas e controversas. Como vocês lidam com esta parte importante do business?
Stefano: Como em tudo, as pessoas são livres para interpretar o que veem da maneira que preferirem. Mas nunca fizemos uma campanha só para provocar.
Domenico: Eu fotografei os três últimos anúncios. Portanto, o nosso compromisso é ainda maior do que no passado. Mesmo quando contratávamos fotógrafos, estávamos sempre envolvidos em cada detalhe.
Stefano: Houve sempre um interessante diálogo com todos os fotógrafos. No final do dia, era a nossa coleção, a nossa visão, o nosso mundo. E eles tinham um grande respeito por isso.
A Dolce & Gabbana é mais do que roupas. Vocês já licenciarama marca para uma montadora de carro e outros produtos. Como funcionam essas parcerias?
Domenico: Estamos menos inclinados a trabalhar com esses projetos. Temos muito que fazer na grife, como as linhas de relógios e a infantil.
‘JOGADORES APRENDEM COM BECKHAM’
Como é a relação de vocês com as modelos?
Stefano: Depende. Conhecemos Gisele Bündchen, Naomi Campbell, Eva Herzigova e Bianca Balti (estrela das últimas campanhas da marca, inclusive do perfume Light Blue, ao lado de David Gandy, o “muso” da etiqueta) há muitos anos. Com elas, há um vínculo que vai além do trabalho, porque foi construído com o tempo e com as experiências vividas juntos.
Domenico: Somos muito gratos a algumas modelos. No início, muitas aceitara participar de nossos desfiles de graça, porque acreditavam em nós.
Na história da grife, atletas sempre tiveram um lugar de destaque, principalmente os jogadores de futebol. Como é trabalhar com eles?
Domenico: Engraçado Eles não são nada complicados. Na maioria das vezes, trabalhamos com jovens talentos, e fico surpreso ao ver que eles são humildes e disciplinados. E esses valores são importantes se eles quiserem chegar a um nível mais elevado. O talento por si só nunca é o suficiente.
Stefano: Esses caras aprenderam a lição que David Beckham ensinou ao mundo nos anos 1990. Não basta vencer no campo, você precisa ter uma imagem vencedora fora do estádio. As gerações mais jovens têm isso muito claro, por esta razão os atletas são muito cuidadosos com o que usam e com as fotos que fazem.
Domenico: Mesmo quando trabalhamos com um grande campeão, como o Lionel Messi, é tranquilo. O que queremos é que sejam eles mesmos. Eles não precisam desempenhar um papel ou usar uma máscara.
ESTILISTAS DOMENICO DOLCE E STEFANO GABBANA FALAM DA LOJA QUE VÃO ABRIR EM DEZEMBRO NO RIO, DO NAMORO QUE TERMINOU E DE PROCESSOS NA JUSTIÇA ITALIANA
‘O CARINHO NÃO ACABOU’
GILBERTO JÚNIOR
gilberto.junior@oglobo.com.br
A Dolce & Gabbana tem planos ambiciosos para o Brasil. Depois de inaugurar lojas em São Paulo, a grife italiana abrirá as portas em dezembro no Rio, no Shopping Leblon, ao lado de Burberry, Red Valentino, Salvatore Ferragamo e Versace. A expansão territorial da marca por aqui — Brasília, Recife, Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte e Campinas também estão na mira — acontece em momento turbulento. Os estilistas Domenico Dolce e Stefano Gabbana travam uma batalha contra a Justiça italiana, que os acusa de sonegação de impostos.
Nada que atrapalhe a criatividade dos designers. A dupla apresentou uma das coleções mais elogiadas da última edição da semana de moda de Milão. Para o verão 2014, a Dolce & Gabbana mostrou, como faz desde 1985, peças femininas e sensuais. E sempre com a italianíssima combinação de religião e sexo que é marca da grife. Madonna não é fã à toa.
Como se conheceram, já que um nasceu na Sicília e o outro em Milão?
Domenico Dolce: Eu me mudei da Sicília para Milão no final dos anos 1970. Queria escapar do mundo onde cresci. Tudo acontecia em Milão. Eu queria estar no centro de toda essa energia.Stefano Gabbana: Nos conhecemos nos anos 1980. Depois que eu terminei os estudos, comecei a trabalhar como designer gráfico. Mas percebi que não era o que eu gostaria de fazer. Naquela época, em Milão, todo mundo só falava de moda. E eu tinha paixão por roupas. Mas eu não sabia nada sobre o assunto. Por meio de um amigo, ouvi dizer que um designer estava à procura de um assistente. No dia da entrevista, o estilista não estava no escritório. A pessoa que veio abrir a porta foi...
Domenico: Eu... E o contratei para trabalhar no ateliê.
Stefano: Ele me ensinou tudo. Domenico era muito paciente comigo.
Como surgiu a ideia de criar a grife? Podem dizer como foram os primeiros anos do negócio?
Stefano: Tudo aconteceu por acaso. Nosso primeiro escritório ficava num prédio repleto de advogados. Quando chegou o momento de escolher o nome da empresa, bastou colocar uma placa na porta com os nossos sobrenomes, como se fosse um escritório de advocacia.
Domenico: No início, dávamos consultoria para muitas marcas. Certo dia, recebemos um telefonema da Camera della Moda nos convidando para participar dos desfiles de novos talentos. Era junho e o show aconteceria em setembro.
É verdade que vocês usaram suas amigas como modelos no primeiro desfile por falta de dinheiro?
Stefano: Conhecíamos muitas meninas diferentes, incluindo atrizes, artistas, dançarinas, arquitetas e até professoras universitárias.
Domenico: Mas se as mulheres eram “reais”, os tecidos e os volumes eram muito novos e pouco convencionais.
Como é uma mulher real?
Domenico: Não temos uma musa. Nossa mulher é uma mistura do que nós amamos em mulheres bem diferentes, como Sophia Loren, Anna Magnani, Monica Bellucci e Madonna.
Stefano: É uma mulher que sabe o que quer, mas não é agressiva. Ela é capaz de atingir seus objetivos com mansidão.
Scarlett Johansson, Madonna e Kylie Minogue sempre são vistas com suas criações. O que a marca tem que agrada tanto às celebridades?
Stefano: Você deveria perguntar para elas. Quero acreditar que temos um relacionamento próximo com as estrelas porque elas se sentem bem com nossas roupas.
Domenico: Nós amamos as mulheres. Tanto que nosso único objetivo é fazê-las se sentir bonitas. Provavelmente, essa é a razão pela qual elas gostam de usar nossas peças.
Stefano: Algumas celebridades viram nossas amigas após termos iniciado uma relação profissional.
Além de parceiros de negócios, vocês tiveram um longo relacionamento... Como era trabalhar ao lado do namorado?
Stefano: Fácil. Nossa forma de trabalhar não mudou. A maior parte do tempo só falávamos. Conversávamos sobre qualquer coisa, sobre nossas roupas antes de se tornar um esboço.
Domenico: Quando o nosso namoro terminou, foi um pouco complicado. Não só por termos que lidar com o fim de um relacionamento de 20 anos, mas também por termos de encontrar uma nova forma de continuar a trabalhar.
Stefano: Mas o nosso carinho não acabou. Só assumiu uma forma diferente, a da amizade. Eu não saberia o que fazer sem o Domenico. Ele é a primeira pessoa que eu chamo quando eu tenho uma dúvida. Eu preciso saber o que ele pensa.
Domenico: A marca é, ao mesmo tempo, a expressão do que eu gosto e do que ele gosta. Não seria o mesmo se metade desta equação desaparecesse.
Qual o papel de cada um na marca?
Domenico: Hoje, não há uma divisão de papéis. Nos envolvemos em tudo que está relacionado ao universo da etiqueta. No passado, eu ficava mais no ateliê, enquanto Stefano focava nas estratégias de comunicação.
Stefano: Quando não concordamos com algo, discutimos. Temos personalidades fortes. Na maioria das vezes, começamos com perspectivas muito diferentes, por isso que falamos bastante.
Domenico: Não para convencer o outro que a ideia de um é melhor. Mas para encontramos uma forma para expressar nossos mundos.
Vocês estão sendo acusados pelo fisco italiano de sonegação de impostos.
Stefano: Pela segunda vez em que enfrentamos um processo legal por sonegação de imposto, o juiz, não obstante ter declarado a acusação como prescrita, decidiu expressar uma conclusão, confirmando nossa absoluta inocência, já que o fato não existe.
Domenico: Agora, vamos reivindicar junto às autoridades fiscais, pois fomos absolvidos e, paradoxalmente, a Receita Federal está nos pedindo para pagar uma fortuna.
MODELOS, ATLETAS E ALGUMAS POLÊMICAS
Na história da Dolce & Gabbana, as campanhas merecem lugar de destaque. Na temporada de verão 2010, por exemplo, Domenico e Stefano convidaram Madonna para ocupar o posto de garotapropaganda. Nas imagens de Steven Klein, a cantora aparece lavando louça, comendo uma macarronada e descascando legumes — mais corriqueiro, impossível.
Marqueteira, a dupla ousou ao mostrar alguns jogadores da seleção de futebol italiana vestindo apenas cuecas, dentro de um vestiário numa campanha de 2006. Nos anos seguintes, a grife se superou ao abordar temas polêmicos, como violência contra a mulher (o anúncio acabou banido da Itália e da Espanha) e submissão masculina.
Os brasileiros também são figuras recorrentes nas publicidades da etiqueta. Gisele Bündchen, Isabeli Fontana, Izabel Goulart, Evandro Soldati e Alessandra Ambrósio já fotografaram para a marca. A seguir, os estilistas falam sobre esse importante meio de comunicação e sua relação com modelos e atletas.
DE OLHO NO VESTIÁRIO MASCULINO
No passado, a marca fez campanhas polêmicas e controversas. Como vocês lidam com esta parte importante do business?
Stefano: Como em tudo, as pessoas são livres para interpretar o que veem da maneira que preferirem. Mas nunca fizemos uma campanha só para provocar.
Domenico: Eu fotografei os três últimos anúncios. Portanto, o nosso compromisso é ainda maior do que no passado. Mesmo quando contratávamos fotógrafos, estávamos sempre envolvidos em cada detalhe.
Stefano: Houve sempre um interessante diálogo com todos os fotógrafos. No final do dia, era a nossa coleção, a nossa visão, o nosso mundo. E eles tinham um grande respeito por isso.
A Dolce & Gabbana é mais do que roupas. Vocês já licenciarama marca para uma montadora de carro e outros produtos. Como funcionam essas parcerias?
Domenico: Estamos menos inclinados a trabalhar com esses projetos. Temos muito que fazer na grife, como as linhas de relógios e a infantil.
‘JOGADORES APRENDEM COM BECKHAM’
Como é a relação de vocês com as modelos?
Stefano: Depende. Conhecemos Gisele Bündchen, Naomi Campbell, Eva Herzigova e Bianca Balti (estrela das últimas campanhas da marca, inclusive do perfume Light Blue, ao lado de David Gandy, o “muso” da etiqueta) há muitos anos. Com elas, há um vínculo que vai além do trabalho, porque foi construído com o tempo e com as experiências vividas juntos.
Domenico: Somos muito gratos a algumas modelos. No início, muitas aceitara participar de nossos desfiles de graça, porque acreditavam em nós.
Na história da grife, atletas sempre tiveram um lugar de destaque, principalmente os jogadores de futebol. Como é trabalhar com eles?
Domenico: Engraçado Eles não são nada complicados. Na maioria das vezes, trabalhamos com jovens talentos, e fico surpreso ao ver que eles são humildes e disciplinados. E esses valores são importantes se eles quiserem chegar a um nível mais elevado. O talento por si só nunca é o suficiente.
Stefano: Esses caras aprenderam a lição que David Beckham ensinou ao mundo nos anos 1990. Não basta vencer no campo, você precisa ter uma imagem vencedora fora do estádio. As gerações mais jovens têm isso muito claro, por esta razão os atletas são muito cuidadosos com o que usam e com as fotos que fazem.
Domenico: Mesmo quando trabalhamos com um grande campeão, como o Lionel Messi, é tranquilo. O que queremos é que sejam eles mesmos. Eles não precisam desempenhar um papel ou usar uma máscara.
GOOGLEI - Ana Cristina Reis
O Globo 16/11/2013
Mao Tsé-Tung, Montesquieu, Cervantes e os mitos da sexualidade feminina numa tarde de calor
Tinha Prada, Miu Miu, Vuitton (até da edição
especial da Kusama), Chanel clássica de matelassê
nas cores amarela e vermelha, Saint Laurent
(com o Y dourado bem gritante). “Senti falta
da Hermès”, brincou Fernanda, tentando desanuviar
os ânimos (estávamos na missa
de sétimo dia de Sônia, que foi uma mulher
“dourada”: loura e vibrante) e distrair do calor
indecente que fez na terça-feira.
especial da Kusama), Chanel clássica de matelassê
nas cores amarela e vermelha, Saint Laurent
(com o Y dourado bem gritante). “Senti falta
da Hermès”, brincou Fernanda, tentando desanuviar
os ânimos (estávamos na missa
de sétimo dia de Sônia, que foi uma mulher
“dourada”: loura e vibrante) e distrair do calor
indecente que fez na terça-feira.
No altar, o sermão versava sobre a destruição da Biblioteca de
Alexandria, árabes, fogo e césares.
— É isso mesmo? A ordem é essa? — perguntou Renata.
Não deu para ponderar sobre o encadeamento da História
porque em seguida o padre soltou uma frase que nos paralisou:
“O terceiro livro mais lido do mundo é a Bíblia. O primeiro é ‘O
capital’, de Marx; o segundo, ‘Dom Quixote’, de Cervantes”.
Como assim? “Dom Quixote” é o segundo livro mais lido?
Como é que o mundo não está melhor? Ué, a Bíblia não é o
livro mais vendido do mundo? E Paulo Coelho não está na lista?
Que lista é essa?
Nossas cabecinhas fervilhavam incrédulas e em silêncio
quando Lívia sussurrou:
— Googlei. A lista dos livros mais vendidos no mundo é a
seguinte: “Bíblia sagrada”;“O peregrino”, obra de um pastor
batista publicado pela primeira vez na Inglaterra em 1678; “O
livro vermelho”, do comandante Mao Tsé-Tung; o “Alcorão”;
“Dom Quixote”, oba!, olha ele aqui de novo; e “Dicionário
Xinhua Zidian”, que deve ser o “Aurélio” da China.
— Mas, e os mais lidos? Deve ter uma lista também —
provoquei.
— Tem. Os dez livros mais lidos
nos últimos 50 anos. “Bíblia sagrada”,
“O livro vermelho”, “Harry Potter”, “O
senhor dos anéis”, “O alquimista”, “O
código Da Vinci”, a “Saga
Crepúsculo”, “E vento levou”, “Quem
pensa enriquece”...
— De quem?
—Um americano. Foi assessor dos
presidentes Wilson e Roosevelt. Ele
aponta características comuns em
gente como Henry Ford, King Gillette
e John Rockefeller.
— Ah...
— Em décimo lugar, “O Diário de Anne Frank”.
— “O Diário de Anne Frank”? Quem está relendo? — quis
saber Andrea, que chegou na hora dos cumprimentos. Antes
que pudéssemos esclarecer, ela acrescentou: — Fui deixar o
Enzo em casa antes. Enzo, o meu sobrinho destemido. Sabe
qual foi o papo no carro? Ele falou do “Leviatã”, de Hobbes. É
mole? Enzo tem 13 anos. Para não perder a pose, corrigi um
comentário que ele fez sobre Montesquieu.
Abrimos lugar na fila para a Jacqueline.
— Quem tá lendo Montesquieu?
— Ninguém — respondi. — Eu estou lendo “Vagina”, da
Naomi Wolf. Foi ela que escreveu “O mito da beleza”.
— Está gostando?
— É curioso...
— Tem algum ensinamento prático ou é tudo teoria? Queria
saber se faz diferença se a mulher for magra.
— Ainda estou na teoria.
— Teoria...
— Do lótus dourado da filosofia Tao ao sex shop de hoje. De
Freud a Ian McEwan. Mas a autora é fascinada pela ligação do
cérebro com a vagina. Sério! Ela acha que a vagina está
conectada com a criatividade, a confiança e o caráter.
— Então as putas devem estar entre os três tipos mais
interessantes de mulheres.
— Mulher interessante é muito subjetivo. Eu acho a Angelina
Jolie assustadora. Aquelas veias saltadas, aqueles lábios
descomunais... Prefiro a lista dos homens mais interessantes
hoje no Rio.
— Essa lista, querida, não está no Google
Alexandria, árabes, fogo e césares.
— É isso mesmo? A ordem é essa? — perguntou Renata.
Não deu para ponderar sobre o encadeamento da História
porque em seguida o padre soltou uma frase que nos paralisou:
“O terceiro livro mais lido do mundo é a Bíblia. O primeiro é ‘O
capital’, de Marx; o segundo, ‘Dom Quixote’, de Cervantes”.
Como assim? “Dom Quixote” é o segundo livro mais lido?
Como é que o mundo não está melhor? Ué, a Bíblia não é o
livro mais vendido do mundo? E Paulo Coelho não está na lista?
Que lista é essa?
Nossas cabecinhas fervilhavam incrédulas e em silêncio
quando Lívia sussurrou:
— Googlei. A lista dos livros mais vendidos no mundo é a
seguinte: “Bíblia sagrada”;“O peregrino”, obra de um pastor
batista publicado pela primeira vez na Inglaterra em 1678; “O
livro vermelho”, do comandante Mao Tsé-Tung; o “Alcorão”;
“Dom Quixote”, oba!, olha ele aqui de novo; e “Dicionário
Xinhua Zidian”, que deve ser o “Aurélio” da China.
— Mas, e os mais lidos? Deve ter uma lista também —
provoquei.
— Tem. Os dez livros mais lidos
nos últimos 50 anos. “Bíblia sagrada”,
“O livro vermelho”, “Harry Potter”, “O
senhor dos anéis”, “O alquimista”, “O
código Da Vinci”, a “Saga
Crepúsculo”, “E vento levou”, “Quem
pensa enriquece”...
— De quem?
—Um americano. Foi assessor dos
presidentes Wilson e Roosevelt. Ele
aponta características comuns em
gente como Henry Ford, King Gillette
e John Rockefeller.
— Ah...
— Em décimo lugar, “O Diário de Anne Frank”.
— “O Diário de Anne Frank”? Quem está relendo? — quis
saber Andrea, que chegou na hora dos cumprimentos. Antes
que pudéssemos esclarecer, ela acrescentou: — Fui deixar o
Enzo em casa antes. Enzo, o meu sobrinho destemido. Sabe
qual foi o papo no carro? Ele falou do “Leviatã”, de Hobbes. É
mole? Enzo tem 13 anos. Para não perder a pose, corrigi um
comentário que ele fez sobre Montesquieu.
Abrimos lugar na fila para a Jacqueline.
— Quem tá lendo Montesquieu?
— Ninguém — respondi. — Eu estou lendo “Vagina”, da
Naomi Wolf. Foi ela que escreveu “O mito da beleza”.
— Está gostando?
— É curioso...
— Tem algum ensinamento prático ou é tudo teoria? Queria
saber se faz diferença se a mulher for magra.
— Ainda estou na teoria.
— Teoria...
— Do lótus dourado da filosofia Tao ao sex shop de hoje. De
Freud a Ian McEwan. Mas a autora é fascinada pela ligação do
cérebro com a vagina. Sério! Ela acha que a vagina está
conectada com a criatividade, a confiança e o caráter.
— Então as putas devem estar entre os três tipos mais
interessantes de mulheres.
— Mulher interessante é muito subjetivo. Eu acho a Angelina
Jolie assustadora. Aquelas veias saltadas, aqueles lábios
descomunais... Prefiro a lista dos homens mais interessantes
hoje no Rio.
— Essa lista, querida, não está no Google
Miriam Makeba TRIBUTO A MAMA ÁFRICA
O Globo 16/11/2013
Obra da cantora morta em 2008 é celebrada no Back2Black, com artistas brasileiros, como Gilberto Gil, e africanos, como Aicha Koné
Chegada ao Rio. Em 1968, com o sucesso “Pata pata”, cantora veio ao Brasil, trazendo sua música política e espiritual
LEONARDO LICHOTE
llichote@oglobo.com.br
Em 1968, quando desembarcou no Rio, Miriam Makeba foi recebida pela bateria da Mangueira. Agora, 45 anos depois, a cantora sul-africana (morta em 2008, aos 76 anos) é novamente acolhida por batuques locais, filhos da diáspora. A artista é a grande homenageada hoje no Back2Black, às 22h30m, na Cidade das Artes, com um tributo que reunirá brasileiros (Gilberto Gil, Alcione, Ganhadeiras de Itapoã) e africanos (a neta de Miriam Zenzi Makeba Lee, Sayon Bamba, Sidiki Diabaté, Iyeoka, Ismael Lô, Aicha Koné, Ladysmith Black Mambazo, Salif Keita, Boncana Maiga e Papa Konaté), além de Buika (espanhola, de pais africanos), sob os tambores do candomblé.
— A ideia é criar uma ponte, uma conversa entre o universo dela e o brasileiro — explica Letieres Leite, responsável pelos arranjos do show. — É uma banda que tem na base atabaques de Salvador, de diferentes nações do candomblé. Junto deles, um naipe de sopros, a banda e um DJ. Queremos aproximar essa ancestralidade da música afro-brasileira com a música de toques mais contemporâneos produzida na África a partir de Makeba. Em última instância, tudo vem do mesmo lugar, da escravidão, esse holocausto que motivou a saída dos negros da África. A diáspora é a base da música popular ocidental, e é isso que veremos no palco.
Miriam Makeba sintetizou como poucos essa fusão entre o poder da música popular — não apenas por seu hit internacional “Pata pata”, mas pelos ouvidos abertos e pelo desejo de secomunicar com plateias do mundo inteiro — e a história de opressão e injustiça do povo africano.Não foi por acaso, portanto, que ela se tornou conhecida como Mama África. Nesse sentido, é emblemático vê-la interpretando “Khawuleza” (há um belo vídeo no YouTube gravado para a TV sueca em 1966). Antes de cantá-la, ela explica que a música vem das periferias da África do Sul do apartheid: “As crianças gritam das ruas quando veem os carros de polícia chegando para atacar suas casas por um motivo ou outro. Elas gritam ‘khawuleza, mama’, que simplesmente quer dizer, ‘corra, mamãe, por favor, não deixe eles pegarem você’”.
— É difícil responder como seu lado ativista e seu lado cantora se relacionavam — diz Nelson Lumumba Lee, neto da cantora. — Ela atendia a um chamado. Porque, quando foi para os Estados Unidos e começou a fazer sucesso, ela poderia simplesmente se esquecer de onde veio e cuidar de sua carreira. Mas ela atendeu a esse chamado e nunca se desligou de seu povo. Nunca foi algo que ela planejou, simplesmente veio.
Porque não era elegante dizer o que ela dizia. Era arriscado. Ela foi banida de seu país, sua música foi banida.
A trajetória de Miriam foi realmente tão intensa quanto acidentada. Ela começou a cantar nosanos 1950, em conjuntos vocais sul-africanos. Em 1959, uma participação no documentário “Come back, Africa”, exibido no Festival de Veneza, chamou a atenção para ela. A artista se mudou para a Europa e, em 1960, ao tentar voltar para casa para o enterro da mãe, descobriu que não podia entrar em seu país novamente. Em 1963, ela proferiu um discurso histórico no Comitê das Nações Unidas contra o apartheid. Mais tarde, já morando nos Estados Unidos — para onde foi levada por Harry Belafonte (com quem ganhou um Grammy em 1966 pelo álbum “An evening with Belafonte/Makeba”) —, ela sofreu novas sanções, dessa vez do mercado, ao se casar com o ativista político Stokely Carmichael, porta-voz dos Panteras Negras.
PROXIMIDADE COM A MÚSICA BRASILEIRA
Miriam não via sua obra como essencialmente política. “Eu só disse a verdade ao mundo, e se a verdade se tornou política, não posso fazer nada a respeito”, declarou em 2000.
— Ela era mais do que cantora e ativista — defende sua neta Zenzi Makeba Lee, que no tributo cantará “Khawuleza”, entre outras. — Sua mãe era uma sangoma, curava pessoas por meio da música. Ou seja, havia algo espiritual e ancestral na relação de Mama Makeba com a música. E ela deixou não só um legado musical, mas também um legado social, como o Makeba Centre for Girls (instituição que dá um lar e suporte a meninas abandonadas ou que sofreram abuso).
Ao longo de sua carreira, Miriam manteve uma relação com a música brasileira, fosse pela colaboração de Sivuca (com quem tocou e que escreveu arranjos para ela) ou gravando músicas como “Mas que nada” e “Xica da Silva”, ambas de Jorge Benjor.
— Ela sempre procurou se aproximar das plateias cantando músicas de seus países — lembra seu neto. — Cantou em francês, português, iídiche... Ela acreditava na unidade de culturas, na diversidade, na construção de um mundo de paz a partir do encontro. Ela fez isso em toda sua vida na música. E estaria bem feliz com a homenagem.
Zenzi concorda:
— Estou honrada de estar aqui com artistas brasileiros e outros africanos no tributo. Especialmente agora, quando se completam 50 anos de seu discurso no Comitê das Nações Unidas. Mais do que amar a música brasileira, Miriam Makeba se envolveu com ela. Essa é a beleza deste tributo.
Obra da cantora morta em 2008 é celebrada no Back2Black, com artistas brasileiros, como Gilberto Gil, e africanos, como Aicha Koné
Chegada ao Rio. Em 1968, com o sucesso “Pata pata”, cantora veio ao Brasil, trazendo sua música política e espiritual
LEONARDO LICHOTE
llichote@oglobo.com.br
Em 1968, quando desembarcou no Rio, Miriam Makeba foi recebida pela bateria da Mangueira. Agora, 45 anos depois, a cantora sul-africana (morta em 2008, aos 76 anos) é novamente acolhida por batuques locais, filhos da diáspora. A artista é a grande homenageada hoje no Back2Black, às 22h30m, na Cidade das Artes, com um tributo que reunirá brasileiros (Gilberto Gil, Alcione, Ganhadeiras de Itapoã) e africanos (a neta de Miriam Zenzi Makeba Lee, Sayon Bamba, Sidiki Diabaté, Iyeoka, Ismael Lô, Aicha Koné, Ladysmith Black Mambazo, Salif Keita, Boncana Maiga e Papa Konaté), além de Buika (espanhola, de pais africanos), sob os tambores do candomblé.
— A ideia é criar uma ponte, uma conversa entre o universo dela e o brasileiro — explica Letieres Leite, responsável pelos arranjos do show. — É uma banda que tem na base atabaques de Salvador, de diferentes nações do candomblé. Junto deles, um naipe de sopros, a banda e um DJ. Queremos aproximar essa ancestralidade da música afro-brasileira com a música de toques mais contemporâneos produzida na África a partir de Makeba. Em última instância, tudo vem do mesmo lugar, da escravidão, esse holocausto que motivou a saída dos negros da África. A diáspora é a base da música popular ocidental, e é isso que veremos no palco.
Miriam Makeba sintetizou como poucos essa fusão entre o poder da música popular — não apenas por seu hit internacional “Pata pata”, mas pelos ouvidos abertos e pelo desejo de secomunicar com plateias do mundo inteiro — e a história de opressão e injustiça do povo africano.Não foi por acaso, portanto, que ela se tornou conhecida como Mama África. Nesse sentido, é emblemático vê-la interpretando “Khawuleza” (há um belo vídeo no YouTube gravado para a TV sueca em 1966). Antes de cantá-la, ela explica que a música vem das periferias da África do Sul do apartheid: “As crianças gritam das ruas quando veem os carros de polícia chegando para atacar suas casas por um motivo ou outro. Elas gritam ‘khawuleza, mama’, que simplesmente quer dizer, ‘corra, mamãe, por favor, não deixe eles pegarem você’”.
— É difícil responder como seu lado ativista e seu lado cantora se relacionavam — diz Nelson Lumumba Lee, neto da cantora. — Ela atendia a um chamado. Porque, quando foi para os Estados Unidos e começou a fazer sucesso, ela poderia simplesmente se esquecer de onde veio e cuidar de sua carreira. Mas ela atendeu a esse chamado e nunca se desligou de seu povo. Nunca foi algo que ela planejou, simplesmente veio.
Porque não era elegante dizer o que ela dizia. Era arriscado. Ela foi banida de seu país, sua música foi banida.
A trajetória de Miriam foi realmente tão intensa quanto acidentada. Ela começou a cantar nosanos 1950, em conjuntos vocais sul-africanos. Em 1959, uma participação no documentário “Come back, Africa”, exibido no Festival de Veneza, chamou a atenção para ela. A artista se mudou para a Europa e, em 1960, ao tentar voltar para casa para o enterro da mãe, descobriu que não podia entrar em seu país novamente. Em 1963, ela proferiu um discurso histórico no Comitê das Nações Unidas contra o apartheid. Mais tarde, já morando nos Estados Unidos — para onde foi levada por Harry Belafonte (com quem ganhou um Grammy em 1966 pelo álbum “An evening with Belafonte/Makeba”) —, ela sofreu novas sanções, dessa vez do mercado, ao se casar com o ativista político Stokely Carmichael, porta-voz dos Panteras Negras.
PROXIMIDADE COM A MÚSICA BRASILEIRA
Miriam não via sua obra como essencialmente política. “Eu só disse a verdade ao mundo, e se a verdade se tornou política, não posso fazer nada a respeito”, declarou em 2000.
— Ela era mais do que cantora e ativista — defende sua neta Zenzi Makeba Lee, que no tributo cantará “Khawuleza”, entre outras. — Sua mãe era uma sangoma, curava pessoas por meio da música. Ou seja, havia algo espiritual e ancestral na relação de Mama Makeba com a música. E ela deixou não só um legado musical, mas também um legado social, como o Makeba Centre for Girls (instituição que dá um lar e suporte a meninas abandonadas ou que sofreram abuso).
Ao longo de sua carreira, Miriam manteve uma relação com a música brasileira, fosse pela colaboração de Sivuca (com quem tocou e que escreveu arranjos para ela) ou gravando músicas como “Mas que nada” e “Xica da Silva”, ambas de Jorge Benjor.
— Ela sempre procurou se aproximar das plateias cantando músicas de seus países — lembra seu neto. — Cantou em francês, português, iídiche... Ela acreditava na unidade de culturas, na diversidade, na construção de um mundo de paz a partir do encontro. Ela fez isso em toda sua vida na música. E estaria bem feliz com a homenagem.
Zenzi concorda:
— Estou honrada de estar aqui com artistas brasileiros e outros africanos no tributo. Especialmente agora, quando se completam 50 anos de seu discurso no Comitê das Nações Unidas. Mais do que amar a música brasileira, Miriam Makeba se envolveu com ela. Essa é a beleza deste tributo.
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
Estímulo ao aprendizado - Ana Regina Fonseca Araújo
Estímulo ao aprendizado
Ler e ouvir músicas em uma língua estrangeira facilita o domínio dela
Ana Regina Fonseca Araújo
Gerente de Pesquisa e Desenvolvimento da rede de franquias Number One
Estado de Minas: 13/11/2013
Aprender um novo
idioma não é uma tarefa simples. O estudo de uma língua estrangeira
exige dedicação, interesse e motivação. O papel do professor é
fundamental no aprendizado, porém o estudante também é responsável pelo
próprio rendimento. Estudar um idioma requer estímulo extraclasse para
motivar e tornar mais fácil a aquisição do conhecimento. Por isso, é
comum que as escolas usem livros, filmes, músicas e jogos para
auxiliarem nos estudos e despertar o interesse do aluno.
Os incentivos acontecem, principalmente, nas escolas de inglês, uma vez que a maioria das pessoas prefere estudar esse idioma, ainda considerado o oficial no mundo dos negócios. Contudo, por mais que a procura aumente gradativamente, apenas 5% dos brasileiros falam inglês fluentemente, segundo pesquisa da EF Cursos no Exterior. O motivo dessa baixa estatística pode estar relacionado ao desempenho da pessoa nos estudos, à falta de incentivo e à condição socioeconômica.
A falta de motivação é a grande vilã do aprendizado. Quem realmente quer aprender inglês não pode ficar preso ao ensino em sala de aula. O contato com a língua deve ser diário, pois quanto mais frequente o contato, melhor será o desenvolvimento das habilidades linguísticas aprendidas. As pessoas que gostam de escutar músicas em inglês devem começar a prestar mais atenção às letras para entenderem o que estão ouvindo. Outra dica é escutar a música e depois transcrever a letra. O exercício promove consideravelmente a expansão do vocabulário, desenvolve a fluência e a entonação. É uma atitude simples, mas que terá grande influência no aprendizado e na percepção das palavras e frases da língua.
Outra opção para aprimorar o estudo é assistir a filmes, com ou sem legenda. Preferencialmente sem, revendo-o mais de uma vez, já que o ouvido vai se acostumando ao idioma. Mas se o aluno tem dificuldade em compreender as frases, pode optar pela legenda em inglês. Assistir a filmes ajuda no vocabulário, na pronúncia, na fluência e na compreensão auditiva. Os seriados também são um ótimo treinamento, principalmente porque têm uma linguagem do dia a dia. Os livros também auxiliam e, muito, no aprendizado do inglês. Os amantes da literatura têm um meio a mais para se aventurarem em suas histórias favoritas. Assim como acontece com os exemplares em português, ler em inglês é um excelente exercício para ampliar a capacidade de compreensão, melhorar a escrita, compreender as estruturas e expandir o vocabulário no idioma. Alguns livros apresentam, inclusive, o CD da história.
Recorrer ao áudio é uma solução plausível, caso o aluno não saiba pronunciar alguma palavra, pois sempre auxilia na memorização da grafia das palavras e da pronúncia. Estimular o aprendizado é dever de todas as escolas, independentemente da área de ensino. O meio de facilitar os estudos e torná-lo ainda mais prazeroso depende do desempenho do aluno. A escola apresenta alternativas extraclasse para desenvolver o aprendizado e o crescimento do estudante. Cabe a ele aproveitar as oportunidades para incrementar o vocabulário e a percepção dos sons. Aprender um segundo idioma é uma tarefa que exige aplicação e paixão. A fluência em uma língua estrangeira depende, em grande parte, do interessado.
Os incentivos acontecem, principalmente, nas escolas de inglês, uma vez que a maioria das pessoas prefere estudar esse idioma, ainda considerado o oficial no mundo dos negócios. Contudo, por mais que a procura aumente gradativamente, apenas 5% dos brasileiros falam inglês fluentemente, segundo pesquisa da EF Cursos no Exterior. O motivo dessa baixa estatística pode estar relacionado ao desempenho da pessoa nos estudos, à falta de incentivo e à condição socioeconômica.
A falta de motivação é a grande vilã do aprendizado. Quem realmente quer aprender inglês não pode ficar preso ao ensino em sala de aula. O contato com a língua deve ser diário, pois quanto mais frequente o contato, melhor será o desenvolvimento das habilidades linguísticas aprendidas. As pessoas que gostam de escutar músicas em inglês devem começar a prestar mais atenção às letras para entenderem o que estão ouvindo. Outra dica é escutar a música e depois transcrever a letra. O exercício promove consideravelmente a expansão do vocabulário, desenvolve a fluência e a entonação. É uma atitude simples, mas que terá grande influência no aprendizado e na percepção das palavras e frases da língua.
Outra opção para aprimorar o estudo é assistir a filmes, com ou sem legenda. Preferencialmente sem, revendo-o mais de uma vez, já que o ouvido vai se acostumando ao idioma. Mas se o aluno tem dificuldade em compreender as frases, pode optar pela legenda em inglês. Assistir a filmes ajuda no vocabulário, na pronúncia, na fluência e na compreensão auditiva. Os seriados também são um ótimo treinamento, principalmente porque têm uma linguagem do dia a dia. Os livros também auxiliam e, muito, no aprendizado do inglês. Os amantes da literatura têm um meio a mais para se aventurarem em suas histórias favoritas. Assim como acontece com os exemplares em português, ler em inglês é um excelente exercício para ampliar a capacidade de compreensão, melhorar a escrita, compreender as estruturas e expandir o vocabulário no idioma. Alguns livros apresentam, inclusive, o CD da história.
Recorrer ao áudio é uma solução plausível, caso o aluno não saiba pronunciar alguma palavra, pois sempre auxilia na memorização da grafia das palavras e da pronúncia. Estimular o aprendizado é dever de todas as escolas, independentemente da área de ensino. O meio de facilitar os estudos e torná-lo ainda mais prazeroso depende do desempenho do aluno. A escola apresenta alternativas extraclasse para desenvolver o aprendizado e o crescimento do estudante. Cabe a ele aproveitar as oportunidades para incrementar o vocabulário e a percepção dos sons. Aprender um segundo idioma é uma tarefa que exige aplicação e paixão. A fluência em uma língua estrangeira depende, em grande parte, do interessado.
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
HORA DAS MERECIDAS FÉRIAS
O GLOBO _ CL GENTE BOA
11/11/2013
Em um ano de personagens sofridos, Bianca Comparato faz uma pausa na Bahia antes de interpretar Ana Cristina Cesar
A entrega para interpretar na TV uma personagem com câncer foi tão intensa — ela até raspou a cabeça — que Bianca Comparato teve que dar um tempo na Bahia para tentar renovar as energias.
“O desgaste emocional foi grande, não só por ela ter câncer, mas pelo processo terapêutico pelo qual passou”, conta a atriz. “Normalmente, levamos meses para lidar com esses sentimentos e ela teve só sete sessões”, diz.
Ao mesmo tempo em que vai se livrando de Carol, Bianca vê os cabelos crescerem. Ela adotou vários turbantes para compor o novo visual. “Também estou adorando os brincões, fica chique”, diz.
Bianca anda numa fase mulherão, está feliz assim, e mostra isso num ensaio sensual feito para a Noo Magazine.
Na Bahia, ela comemorou 28 anos e um 2013 em que tudo deu certo. Este ano, a atriz também interpretou a protagonista de “A menina sem qualidades”, série dirigida por Felipe Hirsch para a antiga MTV. Foi superelogiada.
Já de volta ao Rio, ela se prepara agora para viver a poeta Ana Cristina Cesar num longa-metragem que será dirigido por Julia Murat.
11/11/2013
Em um ano de personagens sofridos, Bianca Comparato faz uma pausa na Bahia antes de interpretar Ana Cristina Cesar
A entrega para interpretar na TV uma personagem com câncer foi tão intensa — ela até raspou a cabeça — que Bianca Comparato teve que dar um tempo na Bahia para tentar renovar as energias.
“O desgaste emocional foi grande, não só por ela ter câncer, mas pelo processo terapêutico pelo qual passou”, conta a atriz. “Normalmente, levamos meses para lidar com esses sentimentos e ela teve só sete sessões”, diz.
Ao mesmo tempo em que vai se livrando de Carol, Bianca vê os cabelos crescerem. Ela adotou vários turbantes para compor o novo visual. “Também estou adorando os brincões, fica chique”, diz.
Bianca anda numa fase mulherão, está feliz assim, e mostra isso num ensaio sensual feito para a Noo Magazine.
Na Bahia, ela comemorou 28 anos e um 2013 em que tudo deu certo. Este ano, a atriz também interpretou a protagonista de “A menina sem qualidades”, série dirigida por Felipe Hirsch para a antiga MTV. Foi superelogiada.
Já de volta ao Rio, ela se prepara agora para viver a poeta Ana Cristina Cesar num longa-metragem que será dirigido por Julia Murat.
sábado, 9 de novembro de 2013
A Espanha no trio elétrico - Antonio Risério
A Tarde/BA - 09/11/2013
Observei aqui, em mais de uma oportunidade, que quem melhor pode falar sobre a imigração espanhola para a Bahia é o antropólogo Jeferson Bacelar, que, aliás, já escreveu um livro sobre o assunto: Galegos no Paraíso Racial. Mas, como fiquei de dar uns pitacos sobre temas migratórios, mando mais uma azeitona nessa empada – ou passo algum vatapá no acarajé.
É verdade que espanhóis apareceram por aqui desde o início de nossa história. Não só gente de Castela, de Madri, mas também bascos – como, aliás, o jesuíta José de Anchieta, basco descendente de judeus que sabia escrever em tupi. Ele mesmo, por sinal, nunca se disse português, nem espanhol. Nasceu em Tenerife (o pai dele se viu obrigado a fugir da Espanha), nas Canárias. Mas, voltando ao assunto, não há uma continuidade entre os primeiros espanhóis que pisaram os pés aqui e a leva migratória que chegou no século 20.
Nessa época mais recente, a colônia espanhola chegou a representar o maior contingente de imigrantes aqui na Cidade da Bahia. Umgrupo que se concentrava principalmente, na primeira metade do século passado, no centro histórico da cidade. Como os imigrantes judeus e árabes, também eles sofreram discriminações, foram vítimas de leituras estereotipadas (espanhol = ladrão, furtando o povo em suas padarias de medidas e pesos viciados) e experimentaram, igualmente, a ascensão social e a integração.
Quando penso nessa migração, posso citar pessoas que marcaram e marcam a vida baiana. Pessoas tão diversas quanto o estudioso Valentín Calderón, examinando a pré-história da cidade, falando de nossos sambaquis milenares, como o da Pedra Oca, em Periperi. O sociólogo Gustavo Falcón, esquadrinhando a vida comercial baiana no século 19, escrevendo livros como Os Coronéis do Cacau e um recente e belo estudo sobre Mário Alves, cujo título não consigo me lembrar agora, acho que com as expressões “reformismo” e “luta armada”. Ou o empresário Carlos Suarez, antigo construtor de prédios e hoje investindo em gás, mas preocupado com a cidade e fazendo projetos para ela.
Mas há também o lance cotidiano que nem sempre é devidamente mapeado pelos historiadores – e daí o destaque que dou, aqui e ali, a esses temas do dia a dia. Como, por exemplo, o caso da presença da cultura espanhola (e mesmo da política ditatorial de Franco) em nosso trio elétrico, expressa, principalmente, nas
composições Passo Doble e Pombo Correio, sucesso fenomenal em nossos antigos e verdadeiros carnavais. A propósito, em seu livro O País do Carnaval Elétrico, Fred de Góes escreveu:
“Sendo Salvador um dos centros de maior concentração de imigrantes espanhóis no país, e sendo Dodô e Osmar frequentadores assíduos das festas e comemorações da colônia, onde tinham inúmeros amigos, a influência ibérica aparece muito forte no compositor [Osmar]. A presença do passo doble é marcante em algumas músicas executadas hoje [início da década de 1980] pelo trio elétrico, sobretudo em duas: Passo Doble Carnaval e Pombo Correio. A primeira, cujo nome já evidencia o estilo, intitulada primitivamente General Franco, para homenagear o caudilho espanhol, foi composta no início da década de 1940, de parceria com Solon Melo, mestre de bandolim de Osmar, e só gravada em 1980, no disco Vassourinha Elétrica”.
Sobre a segunda, Pombo Correio (música de Osmar com letra colocada posteriormente por Moraes Moreira), escreve o mesmo Fred de Góes: “Esta composição data de 1954 e intitulava-se originalmente Doble Morse, sendo somente instrumental. Como nesta música há uma sequência, na introdução, semelhante às batidas do código inventado por Morse, misturada com acordes de passo doble, o compositor resolveu fazer a junção e batizar a música homenageando, a umsó tempo, a colônia espanhola e o inventor do telégrafo”.
É isso aí. Foi uma surpresa, para mim, quando soube das relações de Osmar Macedo com o mundo espanhol, através dos imigrantes aqui domiciliados. Gosto de repassar informações assim. E verei se adiante trato também de árabes e judeus.
Destaco a presença
da cultura espanhola
(e mesmo da política
ditatorial de Franco)
em nosso trio
elétrico, expressa
nas composições
Passo Doble e
Pombo Correio
da cultura espanhola
(e mesmo da política
ditatorial de Franco)
em nosso trio
elétrico, expressa
nas composições
Passo Doble e
Pombo Correio
Observei aqui, em mais de uma oportunidade, que quem melhor pode falar sobre a imigração espanhola para a Bahia é o antropólogo Jeferson Bacelar, que, aliás, já escreveu um livro sobre o assunto: Galegos no Paraíso Racial. Mas, como fiquei de dar uns pitacos sobre temas migratórios, mando mais uma azeitona nessa empada – ou passo algum vatapá no acarajé.
É verdade que espanhóis apareceram por aqui desde o início de nossa história. Não só gente de Castela, de Madri, mas também bascos – como, aliás, o jesuíta José de Anchieta, basco descendente de judeus que sabia escrever em tupi. Ele mesmo, por sinal, nunca se disse português, nem espanhol. Nasceu em Tenerife (o pai dele se viu obrigado a fugir da Espanha), nas Canárias. Mas, voltando ao assunto, não há uma continuidade entre os primeiros espanhóis que pisaram os pés aqui e a leva migratória que chegou no século 20.
Nessa época mais recente, a colônia espanhola chegou a representar o maior contingente de imigrantes aqui na Cidade da Bahia. Umgrupo que se concentrava principalmente, na primeira metade do século passado, no centro histórico da cidade. Como os imigrantes judeus e árabes, também eles sofreram discriminações, foram vítimas de leituras estereotipadas (espanhol = ladrão, furtando o povo em suas padarias de medidas e pesos viciados) e experimentaram, igualmente, a ascensão social e a integração.
Quando penso nessa migração, posso citar pessoas que marcaram e marcam a vida baiana. Pessoas tão diversas quanto o estudioso Valentín Calderón, examinando a pré-história da cidade, falando de nossos sambaquis milenares, como o da Pedra Oca, em Periperi. O sociólogo Gustavo Falcón, esquadrinhando a vida comercial baiana no século 19, escrevendo livros como Os Coronéis do Cacau e um recente e belo estudo sobre Mário Alves, cujo título não consigo me lembrar agora, acho que com as expressões “reformismo” e “luta armada”. Ou o empresário Carlos Suarez, antigo construtor de prédios e hoje investindo em gás, mas preocupado com a cidade e fazendo projetos para ela.
Mas há também o lance cotidiano que nem sempre é devidamente mapeado pelos historiadores – e daí o destaque que dou, aqui e ali, a esses temas do dia a dia. Como, por exemplo, o caso da presença da cultura espanhola (e mesmo da política ditatorial de Franco) em nosso trio elétrico, expressa, principalmente, nas
composições Passo Doble e Pombo Correio, sucesso fenomenal em nossos antigos e verdadeiros carnavais. A propósito, em seu livro O País do Carnaval Elétrico, Fred de Góes escreveu:
“Sendo Salvador um dos centros de maior concentração de imigrantes espanhóis no país, e sendo Dodô e Osmar frequentadores assíduos das festas e comemorações da colônia, onde tinham inúmeros amigos, a influência ibérica aparece muito forte no compositor [Osmar]. A presença do passo doble é marcante em algumas músicas executadas hoje [início da década de 1980] pelo trio elétrico, sobretudo em duas: Passo Doble Carnaval e Pombo Correio. A primeira, cujo nome já evidencia o estilo, intitulada primitivamente General Franco, para homenagear o caudilho espanhol, foi composta no início da década de 1940, de parceria com Solon Melo, mestre de bandolim de Osmar, e só gravada em 1980, no disco Vassourinha Elétrica”.
Sobre a segunda, Pombo Correio (música de Osmar com letra colocada posteriormente por Moraes Moreira), escreve o mesmo Fred de Góes: “Esta composição data de 1954 e intitulava-se originalmente Doble Morse, sendo somente instrumental. Como nesta música há uma sequência, na introdução, semelhante às batidas do código inventado por Morse, misturada com acordes de passo doble, o compositor resolveu fazer a junção e batizar a música homenageando, a umsó tempo, a colônia espanhola e o inventor do telégrafo”.
É isso aí. Foi uma surpresa, para mim, quando soube das relações de Osmar Macedo com o mundo espanhol, através dos imigrantes aqui domiciliados. Gosto de repassar informações assim. E verei se adiante trato também de árabes e judeus.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
‘TEM QUE LIBERAR’
CL Gente Boa - O Globo -07/11/2013
Adriana Calcanhotto e Charles Gavin falam sobre a polêmica das biografias em papo na Casa do Saber O Globo
A polêmica das biografias virou piada no bate-papo entre o ex-baterista dos Titãs, Charles Gavin, e Adriana Calcanhotto, anteontem, na Casa do Saber O Globo. “Não posso censurar, né?”, brinca Adriana, quando Charles pergunta se pode ler trecho do livro da cantora, “Saga lusa”. “Essa é uma entrevista autorizada”, responde o músico, também em tom de brincadeira.
Na hora de falar sério, os dois concordam sobre a liberação de biografias sem autorização prévia. “Não dá para dissociar vida e obra, é pobre pensar assim. Se não soubéssemos o quanto Caravaggio aprontou, não teríamos a real dimensão da sua obra”, observa Adriana. “Tem que liberar de uma vez por todas”, completa Charles.
Desiludida com a falta de autorização das famílias de Manuel Bandeira e Cecilia Meirelles para publicar poemas deles em sua “Antologia ilustrada da poesia brasileira” (“ninguém sequer respondeu, parecia pegadinha, tipo publica aí e depois paga uma grana”, lamenta a cantora). “Herdeiro não é profissão, isso é inadmissível!”, reclama ela.
Gavin lembrou o caso de Sócrates, que morreu antes de publicar sua autobiografia, agora vetada pela família do ex-jogador. “É o caso mais bizarro, uma autobiografia não autorizada. O melhor é fazer que nem o Guarabyra”, sugere o baterista, referindo-se ao músico da dupla Sá & Guarabyra.Ele registrou em cartório sua disposição de proibir que herdeiros falem em seu nome depois de sua morte. A conversa, claro, foi além da polêmica do momento.
Adriana fez a plateia gargalhar ao contar detalhes dos bastidores do meio musical. “Falei para a Marisa Monte, ‘olha aqui o samba que fiz para a Mart'nália’ e aí senti um clima. Marisa pegou e gravou. Fiz uma outra para a Marisa, mas foi Teresa Cristina que gravou. Olha como são as cantoras, loucas! Faz uma música, mostra para a Nana Caymmi dizendo que fez pra mim para você ver!”
A falta de luz durante um show em Lisboa rendeu comentário bem-humorado de Adriana. “Lá é raro, mas aqui acontece muito esse tipo de coisa, até chovia no palco do Canecão, na cabeça da Maria Bethânia”. Ela também falou de Renato Russo.
“Ele era protetor comigo. Uma vez, eu estava escrevendo canção sobre separação e queria dar a ideia de abstinência. Renato disse: ‘não fale essas coisas, isso não é para você’’’, lembra ela. “Nessa época, ele dizia que eu era o Renato Russo de saias e Bethânia virou pra mim e disse assim: ‘Oxente, mas você não usa saias!’”
Adriana Calcanhotto e Charles Gavin falam sobre a polêmica das biografias em papo na Casa do Saber O Globo
A polêmica das biografias virou piada no bate-papo entre o ex-baterista dos Titãs, Charles Gavin, e Adriana Calcanhotto, anteontem, na Casa do Saber O Globo. “Não posso censurar, né?”, brinca Adriana, quando Charles pergunta se pode ler trecho do livro da cantora, “Saga lusa”. “Essa é uma entrevista autorizada”, responde o músico, também em tom de brincadeira.
Na hora de falar sério, os dois concordam sobre a liberação de biografias sem autorização prévia. “Não dá para dissociar vida e obra, é pobre pensar assim. Se não soubéssemos o quanto Caravaggio aprontou, não teríamos a real dimensão da sua obra”, observa Adriana. “Tem que liberar de uma vez por todas”, completa Charles.
Desiludida com a falta de autorização das famílias de Manuel Bandeira e Cecilia Meirelles para publicar poemas deles em sua “Antologia ilustrada da poesia brasileira” (“ninguém sequer respondeu, parecia pegadinha, tipo publica aí e depois paga uma grana”, lamenta a cantora). “Herdeiro não é profissão, isso é inadmissível!”, reclama ela.
Gavin lembrou o caso de Sócrates, que morreu antes de publicar sua autobiografia, agora vetada pela família do ex-jogador. “É o caso mais bizarro, uma autobiografia não autorizada. O melhor é fazer que nem o Guarabyra”, sugere o baterista, referindo-se ao músico da dupla Sá & Guarabyra.Ele registrou em cartório sua disposição de proibir que herdeiros falem em seu nome depois de sua morte. A conversa, claro, foi além da polêmica do momento.
“Vida e obra são
indissociáveis. Se
não soubéssemos o
quanto Caravaggio
aprontou, não
teríamos dimensão
de sua obra”
_
“Herdeiro não é
profissão”
Adriana Calcanhotto
indissociáveis. Se
não soubéssemos o
quanto Caravaggio
aprontou, não
teríamos dimensão
de sua obra”
_
“Herdeiro não é
profissão”
Adriana Calcanhotto
Adriana fez a plateia gargalhar ao contar detalhes dos bastidores do meio musical. “Falei para a Marisa Monte, ‘olha aqui o samba que fiz para a Mart'nália’ e aí senti um clima. Marisa pegou e gravou. Fiz uma outra para a Marisa, mas foi Teresa Cristina que gravou. Olha como são as cantoras, loucas! Faz uma música, mostra para a Nana Caymmi dizendo que fez pra mim para você ver!”
A falta de luz durante um show em Lisboa rendeu comentário bem-humorado de Adriana. “Lá é raro, mas aqui acontece muito esse tipo de coisa, até chovia no palco do Canecão, na cabeça da Maria Bethânia”. Ela também falou de Renato Russo.
“Ele era protetor comigo. Uma vez, eu estava escrevendo canção sobre separação e queria dar a ideia de abstinência. Renato disse: ‘não fale essas coisas, isso não é para você’’’, lembra ela. “Nessa época, ele dizia que eu era o Renato Russo de saias e Bethânia virou pra mim e disse assim: ‘Oxente, mas você não usa saias!’”
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
E a corrente cresce - MÃE STELLA
A Tarde -06/11/2013
Maria Stella de Azevedo Santos
Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá
opoafonja@gmail.com
Meus leitores sabem que venho comentando sobre a vida e a obra dos imortais que me antecederam na cadeira 33 da Academia de Letras da Bahia. É com muita alegria que hoje escrevo sobre meu antecessor e grande amigo Ubiratan Castro, fazendo um paralelo com o patrono da referida cadeira, o grande baiano Castro Alves. Somos elos de uma mesma corrente, na qual sempre nos seguramos para lutar por uma causa em comum: a igualdade de condições para todos. Cada um de nós lutando por honrar e glorificar o povo que, mesmo chegando escravizado ao Brasil, soube fazer história, ajudando na formação de nosso país em todas as áreas. Cada um de nós lutando por esse ideal de acordo com a época em que viveu e com os dons que recebeu do Deus Supremo.
A alma poética de Castro Alves grito clamando pela liberdade física dos negros; Bira Gordo, com sua capacidade única de contar a história e estórias, tudo fez para mostrar a contribuição indiscutível deste povo; eu, como cultuadora de divindades, sigo esforçando-me no sentido de fazer com que a religião trazida pelo povo africano para o Brasil seja mais bem compreendida e, assim, mais respeitada.
Imitando o historiador Ubiratan Castro de Araújo, tentei construir meu discurso de posse narrando fatos de modo histórico, mas com a leveza de uma contadora de "causos". Nascido em Salvador, em 22 de dezembro de 1948, o professor doutor Ubiratan Castro de Araújo foi graduado em história e em direito. O fato de ter recebido o troféu Clementina de Jesus da União dos Negros pela Igualdade e a medalha Zumbi dos Palmares da Câmara Municipal de Salvador mostra o reconhecimento pelo empenho de Bira Gordo contra a discriminação racial. Foram inúmeras as vezes que nos encontramos em seminários para reafirmar a grandeza histórica do povo negro e sua sabedoria ancestral, que é capaz de orientar qualquer um que dela se aposse. Afinal, sabedoria não tem cor e não pertence a nenhuma raça específica.
A frágil saúde de Bira Gordo, como gostava de ser chamado, não o impediu de dar uma grande contribuição ao mundo intelectual e de transmitir alegria por onde passava e para todos com quem convivia. Sua prestabilidade era incontestável! Nunca se negava a participar de nenhum evento para o qual fosse convidado a contribuir com sua forma única de estoriar a história. Intelectual cinco estrelas; contador de "causos" de estrelas incontáveis.
Bira registrou pouco seu vasto conhecimento. Foram apenas três os livros por ele escritos: A guerra da Bahia, Salvador era assim – memórias da cidade e Sete histórias de negro. Editou pouco, mas faloumuito. E era uma fala deliciosa de ser ouvida. Em seu único livro de ficção, Sete histórias de negro, ele conseguiu reunir muito do que era, sabia e lutava. Concordo, por experiência própria, com a opinião de Emiliano Queiroz sobre Bira: "O mestre que compartilhava sua erudição como quem contasse histórias à beira da fogueira".
Um exemplo claro dessa capacidade que tinha Ubiratan Castro, um intelectual do povo, é a última história escrita em seu livro Sete histórias de negro. Intitulada O protesto do poeta, que narra uma conversa que acontece em uma sessão espírita entre Castro Alves e um grupo de pessoas. Como bom piadista que era, não escapou da mente criativa de Bira Gordo nem o patrono da cadeira que ocupava na Academia de Letras da Bahia.
Para Bira, a vida parecia ser uma piada e a piada uma coisa muito séria. Condensada de maneira irônica no "causo" do protesto do poeta, Bira conta a trajetória da libertação dos escravos no Brasil ocorrida no passado, alertando para a necessidade constante por uma luta pela liberdade, pois as correntes de ferro, antes visíveis, são, no presente, correntes imperceptíveis, que marginalizam e excluem. Bira Gordo nos deixou há pouco tempo, em 3 de janeiro do ano em curso. Se hoje ainda estivesse conosco, digo fisicamente, é provável que buscasse na poesia de Castro Alves a força que precisamos para continuar enaltecendo um povo guerreiro, ao mesmo tempo pacífico e afetuoso, que soube amar e amamentar quem o escravizou.
Maria Stella de Azevedo Santos
Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá
opoafonja@gmail.com
Bira Gordo conta a
trajetória da libertação
dos escravos alertando
para a necessidade
constante de luta
pela liberdade, pois
as correntes de ferro,
hoje imperceptíveis,
marginalizam
e excluem
trajetória da libertação
dos escravos alertando
para a necessidade
constante de luta
pela liberdade, pois
as correntes de ferro,
hoje imperceptíveis,
marginalizam
e excluem
A alma poética de Castro Alves grito clamando pela liberdade física dos negros; Bira Gordo, com sua capacidade única de contar a história e estórias, tudo fez para mostrar a contribuição indiscutível deste povo; eu, como cultuadora de divindades, sigo esforçando-me no sentido de fazer com que a religião trazida pelo povo africano para o Brasil seja mais bem compreendida e, assim, mais respeitada.
Imitando o historiador Ubiratan Castro de Araújo, tentei construir meu discurso de posse narrando fatos de modo histórico, mas com a leveza de uma contadora de "causos". Nascido em Salvador, em 22 de dezembro de 1948, o professor doutor Ubiratan Castro de Araújo foi graduado em história e em direito. O fato de ter recebido o troféu Clementina de Jesus da União dos Negros pela Igualdade e a medalha Zumbi dos Palmares da Câmara Municipal de Salvador mostra o reconhecimento pelo empenho de Bira Gordo contra a discriminação racial. Foram inúmeras as vezes que nos encontramos em seminários para reafirmar a grandeza histórica do povo negro e sua sabedoria ancestral, que é capaz de orientar qualquer um que dela se aposse. Afinal, sabedoria não tem cor e não pertence a nenhuma raça específica.
A frágil saúde de Bira Gordo, como gostava de ser chamado, não o impediu de dar uma grande contribuição ao mundo intelectual e de transmitir alegria por onde passava e para todos com quem convivia. Sua prestabilidade era incontestável! Nunca se negava a participar de nenhum evento para o qual fosse convidado a contribuir com sua forma única de estoriar a história. Intelectual cinco estrelas; contador de "causos" de estrelas incontáveis.
Bira registrou pouco seu vasto conhecimento. Foram apenas três os livros por ele escritos: A guerra da Bahia, Salvador era assim – memórias da cidade e Sete histórias de negro. Editou pouco, mas faloumuito. E era uma fala deliciosa de ser ouvida. Em seu único livro de ficção, Sete histórias de negro, ele conseguiu reunir muito do que era, sabia e lutava. Concordo, por experiência própria, com a opinião de Emiliano Queiroz sobre Bira: "O mestre que compartilhava sua erudição como quem contasse histórias à beira da fogueira".
Um exemplo claro dessa capacidade que tinha Ubiratan Castro, um intelectual do povo, é a última história escrita em seu livro Sete histórias de negro. Intitulada O protesto do poeta, que narra uma conversa que acontece em uma sessão espírita entre Castro Alves e um grupo de pessoas. Como bom piadista que era, não escapou da mente criativa de Bira Gordo nem o patrono da cadeira que ocupava na Academia de Letras da Bahia.
Para Bira, a vida parecia ser uma piada e a piada uma coisa muito séria. Condensada de maneira irônica no "causo" do protesto do poeta, Bira conta a trajetória da libertação dos escravos no Brasil ocorrida no passado, alertando para a necessidade constante por uma luta pela liberdade, pois as correntes de ferro, antes visíveis, são, no presente, correntes imperceptíveis, que marginalizam e excluem. Bira Gordo nos deixou há pouco tempo, em 3 de janeiro do ano em curso. Se hoje ainda estivesse conosco, digo fisicamente, é provável que buscasse na poesia de Castro Alves a força que precisamos para continuar enaltecendo um povo guerreiro, ao mesmo tempo pacífico e afetuoso, que soube amar e amamentar quem o escravizou.
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Waldemar e Consuelo: unidos pela História - Maria Stella de Azevedo Santos
A Tade /BA - 23/10/2013
O oposto de morte é nascimento. Vida é uma palavra que não tem antônimo (...) A vida tem passagens de uma etapa para outra; tem um eterno recomeço
Maria Stella de Azevedo Santos
Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá
opoafonja@gmail.com
Sempre se fala em morte como contrário de vida. Entretanto, com um pouco de reflexão se perceberá que o oposto de morte é nascimento. Vida é uma palavra que não tem antônimo, mesmo que os dicionários insistam em dar para esta palavra algo que a ela se oponha. A vida não tem começo, nem fim; tem passagens de uma etapa para outra; tem um eterno recomeço; um eterno retorno. Não falo assim por ter uma visão religiosa do existir, a ciência ainda nos dias de hoje diz: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Digo isso para poder falar de dois membros da Academia de Letras da Bahia: a confreira Consuelo Novais Sampaio, que deixou a cadeira 40 da referida instituição no dia 18 deste mês, e de um dos meus antecessores na cadeira 33, Waldemar Magalhães Mattos.
Para que um povo possa construir seu presente e planejar o futuro, é imprescindível que conheça sua história. Essa foi uma das missões que Consuelo Novais Sampaio realizou durante sua estadia aqui na Terra. Ela não se contentou apenas em fazer o curso superior em História. Ela fez mestrado, doutorado e pós-doutorado nessa ciência humana. Serviu a nosso estado sendo diretora do Centro de Memória da Bahia, além de ter registrado a história do local que é berço de nosso país. Consuelo Novais escreveu: Canudos: Cartas para o Barão; Pinto de Aguiar – Audacioso Inovador; O Poder Legislativo da Bahia – Primeira República 1889-1930; 50 Anos de Urbanização – Salvador da Bahia no Século XIX. Consuelo está viva em nossa memória, relembrando a todos que não podemos esquecer-nos de pessoas e obras que contribuíram para fortalecer nossa sociedade.
Sigo então cumprindo o compromisso que assumi no dia em que fui empossada como acadêmica: de levar ao público o conhecimento, ou melhor, o reconhecimento de algumas pessoas que são consideradas, por nós baianos, imortais. Faço questão de reafirmar o que disse naquele dia: Somos todos imortais! Contudo, quero aqui esclarecer que umimortal, de verdade, é aquele que se tornou um indivíduo coletivo, pois deixou algo de proveitoso não apenas para sua família, mas para a sociedade em que viveu, como foi o caso de Waldemar Magalhães Mattos, sobre o qual escrevi em meu discurso de posse na Academia de Letras da Bahia.
Ele nasceu na cidade de Entre Rios, em 13 de setembro de 1917, e viveu na Terra por 86 anos. Era homem de números e letras. Bacharel em Ciências Contábeis, ingressou na carreira literária em 1940
pelo caminho jornalístico. O conjunto de sua obra é de um valor histórico imprescindível para a compreensão da Bahia e, consequentemente, do Brasil do século XIX. Tanto que em 2011, século XXI, portanto, dois de seus livros foram reeditados: Panorama Econômico da Bahia e O Palácio da Associação Comercial da Bahia, no qualWaldemar Mattos narra o baile que comemorou, em 1911, o centenário da Associação Comercial da Bahia, fundada em 15 de Julho de 1811:
“Suntuoso no seu deslumbramento inexcedível, cheio de encantadora poesia e fulgurante pompa. Sem contestação, foi uma cerimônia de destaque excepcional, cujas impressões os anais das crônicas baianas guardarão para sempre".
Waldemar Mattos também escreveu o livro A Bahia de Castro Alves e foi na sede da Associação Comercial da Bahia que o conclamado poeta dos escravos, na verdade poeta dos fracos e oprimidos, fez sua última declamação pública. Na tarde do dia 10 de fevereiro de 1871, apenas cinco meses antes de deixar esta vida, Castro Alves recitou o poema No meeting du Comité du Pain durante uma reunião filantrópica promovida pela colônia francesa em benefício das crianças desvalidas da Guerra Franco-Prussiana.
Waldemar Mattos ligou-se ao patrono da cadeira 33 ao escrever o livro A Bahia de Castro Alves. E ligou-se a mim, atual ocupante desta honrosa cadeira, por ter ele escrito sobre dona Francisca de Sande, a primeira enfermeira do Brasil. Afinal, eu hoje sou Mãe Stella, uma iyalorixá que orienta as pessoas no sentido de cuidarem do espírito, mas um dia fui Maria Stella de Azevedo Santos, uma enfermeira que orientava sobre os cuidados com o corpo físico.
MÃE STELLA ESCREVE NA 4-FEIRA, QUINZENALMENTE
Uma cabeça cheia de drama - Tom Cardoso
VALOR ECONÕMICO - 18/10/2013
Tom Cardoso

"Eu quero erro! Eu quero erro! Eu quero erro!" Os métodos da diretora Amora Mautner são conhecidos - e temidos - no Projac, o centro de produção da Rede Globo. Uma de suas táticas, para extrair o máximo de cada ator, é levá-lo ao erro, livrá-lo de qualquer condicionamento. Para chegar lá, ela costuma conduzir o set de gravação em voz alta, sob efeito de energéticos, quase em transe - quanto maior o caos, melhor. Quase sempre dá certo. "Eu detesto ator 'pronto' - considero o Sean Penn o pior ator do mundo, um mala", diz Amora, diante de um prato de sopa de legumes. Meia hora antes, ela transformara a sala do seu confortável apartamento no Leblon, o lugar escolhido por ela para este "À Mesa com o Valor", na extensão de um estúdio da Globo, mas sem, claro, o método do erro. Marisete, sua secretária, é quem tinha a missão de deixar a mesa pronta e impecável para o jantar.
Amora chegou do Projac, vinda da longínqua Barra da Tijuca, distância que não foi suficiente para tirá-lo do "transe". Elétrica, a diretora atravessou a sala em direção à cozinha perguntando se o penne com tomate e manjericão já estava pronto, se o vinho era mantido na temperatura certa, onde o repórter e o fotógrafo se sentariam, por que as taças não eram de cristal e o que o regime Detox, a dieta da moda, lhe reservara para o jantar (era a substanciosa sopa de legumes).
O repórter não sabia o que era "Detox" - para espanto de Amora. "Só você e meu pai não sabem. É coisa de intelectual", diz. O pai da diretora é o compositor Jorge Mautner, autor de "Maracatu Atômico", parceiro de Caetano Veloso e Gilberto Gil, o poeta do Kaos, com "K", não o caos profetizado pela racional e ao mesmo tempo irascível diretora. Mautner é zen - Amora inquieta, geminiana, instável. Não que pai e filha sejam totalmente antípodas. "Somos muito diferentes, mas parecidos em traços importantes, que moldam o meu jeito de viver até hoje", conta. Quais? "Somos livres. Não nos importamos com a opinião dos outros." E as diferenças? "Ele é satisfeito com a vida interna dele, passa boa parte do dia lendo, meditando - eu sou caótica, difícil me fazer parar."
Quando Amora decidiu fazer um teste para trabalhar na Rede Globo, aos 20 e poucos anos, o pai foi contra. "A TV vai empobrecê-la. Vai deixar de ler um livro para ler texto de novela?", disse, na época. Hoje, Mautner é fã incondicional da diretora Amora - e de novelas, desde que sejam dirigidas pela filha.
Mautner, assim como muitos brasileiros, não perdeu um só capítulo de "Avenida Brasil", telenovela exibida no ano passado que oxigenou o gênero ao introduzir conceitos de séries americanas e trazer para o centro da trama personagens da nova classe média brasileira. Amora, a diretora, e o autor, João Emanuel Carneiro, deram, juntos, vida à suburbana família Tufão, o núcleo central e responsável pela espantosa repercussão do folhetim. "Quando recebi o texto do João, achei, de cara, inovador, diferente, e tinha, como diretora, de fazer que os atores assimilassem toda aquele frescor", relata. O processo começou com a escolha - também em conjunto com Carneiro e os outros diretores da trama, Ricardo Waddington e José Luiz Villamarin - do elenco de atores e com uma rápida imersão no universo popular, que incluiu uma noite num baile charme, em Madureira. "Em dois segundos o João já sabia o que queria. Ele é um gênio."
Já Amora preferiu estender o intensivão em classe C para a casa da babá de sua filha, também no subúrbio carioca, onde passou um fim de semana. "Foi incrível. Eu queria saber exatamente como era esse áudio meio 'Maracanã' de todo mundo falando ao mesmo tempo e se fazendo entender, enquanto a televisão está no último volume, o aparelho de som também e o carro da pamonha passa na rua."
Depois da ida ao baile charme, do fim de semana na casa da babá, Amora reviu alguns filmes de Frank Capra (1897-1991), em "que a situação da família era muito presente", e todo o seriado "Família Soprano", para resgatar o lado meio "nonsense", essa mistura da comédia com drama que os roteiristas da série fazem tão bem. "Eu tinha um texto muito bom, um elenco privilegiado nas mãos, precisava fazer a lição de casa como diretora e levar para o ar algo de fato inovador que, em outras novelas, por uma série de circunstâncias, eu não consegui estabelecer de forma tão profunda, essa sinergia entre texto, atores e direção", diz Amora. Acha que ela e Carneiro - e o elenco - chegaram lá. "Conseguimos reproduzir com bastante fidelidade o cotidiano dessas pessoas, sobretudo nas falas da família Tufão, um dos pontos altos da novela."
Amora também tem seu ritmo de falar - frenético e ao mesmo tempo articulado e seguro. Enquanto explica detalhes das gravações de "Joia Rara", telenovela das seis, dirigida por ela e exibida na Rede Globo, tenta convencer Marisete de que as taças trazidas pela secretária não são de cristal. As taças de vidro são recolhidas. Amora agora fala sobre o desejo de filmar o primeiro longa-metragem. Cinéfila, fã de John Cassavetes e Paul Thomas Anderson, ela se obriga a assistir, no mínimo, a três filmes por semana e alguns seriados. Quase nunca vê a programação da TV aberta. Por falta de tempo e para não "contaminar" o seu trabalho como diretora. "Eu sou ligada em neurociência e sei que o cérebro guarda tudo que a gente vê", diz. "Então, a quanto menos filme ruim eu assistir, melhor." O seu primeiro longa-metragem será inspirado num livro, que ela não revela qual é, mas está perto de comprar os direitos para o cinema. Amora pretende rodá-lo na Argentina, com atores locais - e falado em espanhol. Será um "filme de ator", de baixo orçamento, algo raro, segundo ela, na atual indústria cinematográfica, cada vez mais dominada pelos "blockbusters" e, no caso brasileiro, pelas comédias de costume. "Se for para dirigir uma comédia, um gênero em que não tenho o mínimo interesse, prefiro não fazer cinema."

Amora em casa, lugar que escolheu para receber o "Valor", diante da sopa de legumes: "Eu detesto ator 'pronto'. Considero o Sean Penn o pior ator do mundo, um mala"
Tom Cardoso
"Eu quero erro! Eu quero erro! Eu quero erro!" Os métodos da diretora Amora Mautner são conhecidos - e temidos - no Projac, o centro de produção da Rede Globo. Uma de suas táticas, para extrair o máximo de cada ator, é levá-lo ao erro, livrá-lo de qualquer condicionamento. Para chegar lá, ela costuma conduzir o set de gravação em voz alta, sob efeito de energéticos, quase em transe - quanto maior o caos, melhor. Quase sempre dá certo. "Eu detesto ator 'pronto' - considero o Sean Penn o pior ator do mundo, um mala", diz Amora, diante de um prato de sopa de legumes. Meia hora antes, ela transformara a sala do seu confortável apartamento no Leblon, o lugar escolhido por ela para este "À Mesa com o Valor", na extensão de um estúdio da Globo, mas sem, claro, o método do erro. Marisete, sua secretária, é quem tinha a missão de deixar a mesa pronta e impecável para o jantar.
Amora chegou do Projac, vinda da longínqua Barra da Tijuca, distância que não foi suficiente para tirá-lo do "transe". Elétrica, a diretora atravessou a sala em direção à cozinha perguntando se o penne com tomate e manjericão já estava pronto, se o vinho era mantido na temperatura certa, onde o repórter e o fotógrafo se sentariam, por que as taças não eram de cristal e o que o regime Detox, a dieta da moda, lhe reservara para o jantar (era a substanciosa sopa de legumes).
O repórter não sabia o que era "Detox" - para espanto de Amora. "Só você e meu pai não sabem. É coisa de intelectual", diz. O pai da diretora é o compositor Jorge Mautner, autor de "Maracatu Atômico", parceiro de Caetano Veloso e Gilberto Gil, o poeta do Kaos, com "K", não o caos profetizado pela racional e ao mesmo tempo irascível diretora. Mautner é zen - Amora inquieta, geminiana, instável. Não que pai e filha sejam totalmente antípodas. "Somos muito diferentes, mas parecidos em traços importantes, que moldam o meu jeito de viver até hoje", conta. Quais? "Somos livres. Não nos importamos com a opinião dos outros." E as diferenças? "Ele é satisfeito com a vida interna dele, passa boa parte do dia lendo, meditando - eu sou caótica, difícil me fazer parar."
Quando Amora decidiu fazer um teste para trabalhar na Rede Globo, aos 20 e poucos anos, o pai foi contra. "A TV vai empobrecê-la. Vai deixar de ler um livro para ler texto de novela?", disse, na época. Hoje, Mautner é fã incondicional da diretora Amora - e de novelas, desde que sejam dirigidas pela filha.
"Eu criei uma nova linguagem, menos naturalista,
tenho total consciência disso. As pessoas dizem que sou metida, mas é
isso mesmo"
Mautner, assim como muitos brasileiros, não perdeu um só capítulo de "Avenida Brasil", telenovela exibida no ano passado que oxigenou o gênero ao introduzir conceitos de séries americanas e trazer para o centro da trama personagens da nova classe média brasileira. Amora, a diretora, e o autor, João Emanuel Carneiro, deram, juntos, vida à suburbana família Tufão, o núcleo central e responsável pela espantosa repercussão do folhetim. "Quando recebi o texto do João, achei, de cara, inovador, diferente, e tinha, como diretora, de fazer que os atores assimilassem toda aquele frescor", relata. O processo começou com a escolha - também em conjunto com Carneiro e os outros diretores da trama, Ricardo Waddington e José Luiz Villamarin - do elenco de atores e com uma rápida imersão no universo popular, que incluiu uma noite num baile charme, em Madureira. "Em dois segundos o João já sabia o que queria. Ele é um gênio."
Já Amora preferiu estender o intensivão em classe C para a casa da babá de sua filha, também no subúrbio carioca, onde passou um fim de semana. "Foi incrível. Eu queria saber exatamente como era esse áudio meio 'Maracanã' de todo mundo falando ao mesmo tempo e se fazendo entender, enquanto a televisão está no último volume, o aparelho de som também e o carro da pamonha passa na rua."
Depois da ida ao baile charme, do fim de semana na casa da babá, Amora reviu alguns filmes de Frank Capra (1897-1991), em "que a situação da família era muito presente", e todo o seriado "Família Soprano", para resgatar o lado meio "nonsense", essa mistura da comédia com drama que os roteiristas da série fazem tão bem. "Eu tinha um texto muito bom, um elenco privilegiado nas mãos, precisava fazer a lição de casa como diretora e levar para o ar algo de fato inovador que, em outras novelas, por uma série de circunstâncias, eu não consegui estabelecer de forma tão profunda, essa sinergia entre texto, atores e direção", diz Amora. Acha que ela e Carneiro - e o elenco - chegaram lá. "Conseguimos reproduzir com bastante fidelidade o cotidiano dessas pessoas, sobretudo nas falas da família Tufão, um dos pontos altos da novela."
Amora também tem seu ritmo de falar - frenético e ao mesmo tempo articulado e seguro. Enquanto explica detalhes das gravações de "Joia Rara", telenovela das seis, dirigida por ela e exibida na Rede Globo, tenta convencer Marisete de que as taças trazidas pela secretária não são de cristal. As taças de vidro são recolhidas. Amora agora fala sobre o desejo de filmar o primeiro longa-metragem. Cinéfila, fã de John Cassavetes e Paul Thomas Anderson, ela se obriga a assistir, no mínimo, a três filmes por semana e alguns seriados. Quase nunca vê a programação da TV aberta. Por falta de tempo e para não "contaminar" o seu trabalho como diretora. "Eu sou ligada em neurociência e sei que o cérebro guarda tudo que a gente vê", diz. "Então, a quanto menos filme ruim eu assistir, melhor." O seu primeiro longa-metragem será inspirado num livro, que ela não revela qual é, mas está perto de comprar os direitos para o cinema. Amora pretende rodá-lo na Argentina, com atores locais - e falado em espanhol. Será um "filme de ator", de baixo orçamento, algo raro, segundo ela, na atual indústria cinematográfica, cada vez mais dominada pelos "blockbusters" e, no caso brasileiro, pelas comédias de costume. "Se for para dirigir uma comédia, um gênero em que não tenho o mínimo interesse, prefiro não fazer cinema."
Amora em casa, lugar que escolheu para receber o "Valor", diante da sopa de legumes: "Eu detesto ator 'pronto'. Considero o Sean Penn o pior ator do mundo, um mala"
Marisete, aflita, traz, enfim, as tão solicitadas taças. "Arrasou,
amor", diz Amora. A diretora brinda com repórter e fotógrafo. "No
cinema, sou da turma do baixo orçamento, mas aqui em casa não tem
economia, não", brinca. A sopa de legumes permanece intocada. "Sempre
fui de comer muito pouco à noite, prefiro comer bem no almoço." A
comilança do almoço resumiu-se a um hambúrguer de quinua com grãos e o
lanche da tarde, em meio às gravações, a um purê de couve-flor.
Amora sempre recorre ao regime quando volta de uma longa viagem, como era o caso, ou quando o trabalho não permite que ela mantenha uma alimentação equilibrada. Para quem virou diretora da Globo aos 23 anos, a rotina incessante de gravações, cercada de Big Mac e empadinhas, poderia transformá-la numa sedentária e bem-sucedida diretora global. Mas ela se policia. "Já estou sentindo que estou desinchando, estou leve", observa. Em forma, aparentando bem menos do que os 38 anos, Amora conseguiria facilmente uma participação em "Malhação", série de televisão para o público adolescente, mas isso seria tão impossível quanto vê-la dirigindo a continuação de "E aí... Comeu?", comédia brasileira que levou milhões de espectadores ao cinema.
"Nunca mais vou interpretar, aquela foi a pior experiência da minha vida", diz, referindo-se à sua participação na novela "Vamp", de Antônio Calmon, que foi ao ar em 1991, ano em que ela entrou, meio por acaso, na Globo. Ela vinha de uma experiência pouco produtiva como publicitária na produtora Conspiração Filmes e achava, ao contrário do pai, que a Globo era o lugar ideal para dar início ao sonho de virar diretora - na época, o cinema brasileiro definhava, com o fim da Embrafilme (empresa estatal, produtora e distribuidora de filmes, extinta em 1990 pelo governo do presidente Fernando Collor). A extrovertida Amora chegou chegando. Com uma amiga, decidiu fazer um teste na emissora. "Eu não me lembro muito bem - eu acho que me perguntaram algo sobre a Madonna -, só sei que gostaram tanto de mim que eu fui escalada para fazer a novela das sete seguinte", conta. "Eu não queria, nunca quis ser atriz, mas o Calmon cismou comigo." Foram longos oito meses de martírio (a novela se tornou um sucesso no horário das sete), que incluíram uma tentativa - de Amora - de matar o seu personagem. Em "Vamp", ela fazia a filha do casal interpretado por Paulo José e Zezé Polessa, que, em determinado momento da trama, perdiam a vida. "Eu aproveitei e liguei para o Calmon, sugerindo que eu morresse também." Quase foi morta - de verdade - pelo diretor. "Ele ficou possesso, furioso, disse que eu era muito abusada de ligar para ele e que ficaria de qualquer jeito até o fim da novela."
Um dos piores momentos de sua breve e traumática experiência de atriz foi quando se viu obrigada a chorar pela morte dos pais fictícios. "Eu não sei chorar, nunca vou saber, sou muito racional, tanto que tenho enorme dificuldade de trabalhar com atores que são como eu", revela. "Quando me vi chorando lágrimas de crocodilo em 'Vamp', tive a certeza que só havia um caminho a seguir: virar diretora." Era um caminho tortuoso almejar um cargo de diretora numa emissora onde todo o núcleo de dramaturgia, com raras exceções, era formado por homens, dos diretores à equipe técnica.
A primeira oportunidade surgiu com o convite, em 1999, para ser uma das assistentes de direção de Dennis Carvalho em "Caminho das Nuvens", novela do horário das seis, escrita por Euclydes Marinho e Letícia Dornelles, para trabalhar exclusivamente com atores adolescentes, como toda iniciante. Teve apenas uma oportunidade - após a falta de um dos diretores - de dirigir o protagonista da novela, Marco Nanini. Arrasou. "O Nanini ligou para o Dennis Carvalho, me elogiando. Foi o meu primeiro grande incentivo." O que não serviu, na prática, para mudar muito o seu status na emissora - ela continuava sendo uma "pirralha" de 23 anos metida a diretora. E ainda por cima mulher.
Em 2000, mais uma vez como diretora-assistente, Amora enfrentou a prova dos noves: trabalhar ao lado de Walter Avancini (1935-2000), um dos maiores diretores de telenovelas do país e famoso pelo estilo durão e pela pouca paciência com profissionais inexperientes. Avancini voltava à Globo depois de dirigir quatro novelas na extinta Rede Manchete e, ao contrário do que ocorria normalmente, quando o diretor forma o próprio núcleo de trabalho, a direção da Globo selecionou uma equipe para Avancini e incluiu Amora no quadro de diretores-assistentes da novela "O Cravo e a Rosa".
"Conversamos por telefone, foi tudo ótimo, mas quando ele me viu pessoalmente, já dentro do Projac, ficou parado, em silêncio, me medindo dos pés à cabeça, e disse: 'Você não tem idade para ser diretora'." A partir dali, segundo ela, o diretor iniciou uma luta. E armou um teste de fogo para a jovem diretora-assistente: gravar uma noturna "na fazenda", com os dois protagonistas. Era uma cena tecnicamente difícil de ser gravada e de grande importância para a novela. "Ele queria ter um pretexto para chegar à direção da emissora e dizer: 'Olha, gente, essa menina não tem condições de ser diretora da Rede Globo'."
Cinéfila desde a adolescência - na sala de estar há uma imensa prateleira abarrotada de livros sobre o tema e DVDs de longas dirigidos por nomes como Stanley Kubrick, Andrei Tarkovski e David Lynch -, Amora salvou-se da degola recorrendo-se às suas referências sobre cinema. Como a cena seria gravada numa fazenda, lembrou-se de cara de "Babe, o Porquinho Atrapalhado", filme infantil dirigido pelo australiano Chris Noonan, de grande apuro técnico (ganhou o Oscar na categoria de melhores efeitos especiais), e também dos longas dirigidos pelos irmãos Joel e Ethan Coen, famosos pela inovação nos enquadramentos de câmera.
A primeira providência de Amora foi pedir à produção da novela que alugasse uma lente J11, muito usada no cinema, que não era, no entanto, utilizada pelos diretores da emissora até então. "Eu passei a noite gravando e, quando cheguei à ilha de edição, às duas da manhã, para editar o material, quem estava lá: o Avancini", relata Amora. "Não era para estar ali naquela hora nem ver o material antes de ser editado, mas ele fez questão de passar a noite na edição para atestar a minha 'incompetência'." Foi nesse clima de "UFC", diz Amora, que Avancini assistiu à cena gravada pela assistente. A sessão terminou com o diretor estupefato, aplaudindo-a em pé, durante cinco minutos. O salário de Amora foi triplicado e logo ela entraria para o seleto primeiro time de diretores de núcleo da TV Globo, assumindo a direção geral de novelas como "Cama de Gato" (2000), "Cordel Encantado" (2011) até a consagração definitiva com "Avenida Brasil".
Ela diz ter aprendido tudo de televisão com os seus três mestres - Avancini, Ricardo Waddington e Guel Arraes -, mas reconhece a sua importância para a teledramaturgia brasileira. "Eu criei uma nova linguagem, menos naturalista, tenho total consciência disso", afirma. "As pessoas dizem que sou metida, mas é isso mesmo."
Amora sempre recorre ao regime quando volta de uma longa viagem, como era o caso, ou quando o trabalho não permite que ela mantenha uma alimentação equilibrada. Para quem virou diretora da Globo aos 23 anos, a rotina incessante de gravações, cercada de Big Mac e empadinhas, poderia transformá-la numa sedentária e bem-sucedida diretora global. Mas ela se policia. "Já estou sentindo que estou desinchando, estou leve", observa. Em forma, aparentando bem menos do que os 38 anos, Amora conseguiria facilmente uma participação em "Malhação", série de televisão para o público adolescente, mas isso seria tão impossível quanto vê-la dirigindo a continuação de "E aí... Comeu?", comédia brasileira que levou milhões de espectadores ao cinema.
"Nunca mais vou interpretar, aquela foi a pior experiência da minha vida", diz, referindo-se à sua participação na novela "Vamp", de Antônio Calmon, que foi ao ar em 1991, ano em que ela entrou, meio por acaso, na Globo. Ela vinha de uma experiência pouco produtiva como publicitária na produtora Conspiração Filmes e achava, ao contrário do pai, que a Globo era o lugar ideal para dar início ao sonho de virar diretora - na época, o cinema brasileiro definhava, com o fim da Embrafilme (empresa estatal, produtora e distribuidora de filmes, extinta em 1990 pelo governo do presidente Fernando Collor). A extrovertida Amora chegou chegando. Com uma amiga, decidiu fazer um teste na emissora. "Eu não me lembro muito bem - eu acho que me perguntaram algo sobre a Madonna -, só sei que gostaram tanto de mim que eu fui escalada para fazer a novela das sete seguinte", conta. "Eu não queria, nunca quis ser atriz, mas o Calmon cismou comigo." Foram longos oito meses de martírio (a novela se tornou um sucesso no horário das sete), que incluíram uma tentativa - de Amora - de matar o seu personagem. Em "Vamp", ela fazia a filha do casal interpretado por Paulo José e Zezé Polessa, que, em determinado momento da trama, perdiam a vida. "Eu aproveitei e liguei para o Calmon, sugerindo que eu morresse também." Quase foi morta - de verdade - pelo diretor. "Ele ficou possesso, furioso, disse que eu era muito abusada de ligar para ele e que ficaria de qualquer jeito até o fim da novela."
Um dos piores momentos de sua breve e traumática experiência de atriz foi quando se viu obrigada a chorar pela morte dos pais fictícios. "Eu não sei chorar, nunca vou saber, sou muito racional, tanto que tenho enorme dificuldade de trabalhar com atores que são como eu", revela. "Quando me vi chorando lágrimas de crocodilo em 'Vamp', tive a certeza que só havia um caminho a seguir: virar diretora." Era um caminho tortuoso almejar um cargo de diretora numa emissora onde todo o núcleo de dramaturgia, com raras exceções, era formado por homens, dos diretores à equipe técnica.
A primeira oportunidade surgiu com o convite, em 1999, para ser uma das assistentes de direção de Dennis Carvalho em "Caminho das Nuvens", novela do horário das seis, escrita por Euclydes Marinho e Letícia Dornelles, para trabalhar exclusivamente com atores adolescentes, como toda iniciante. Teve apenas uma oportunidade - após a falta de um dos diretores - de dirigir o protagonista da novela, Marco Nanini. Arrasou. "O Nanini ligou para o Dennis Carvalho, me elogiando. Foi o meu primeiro grande incentivo." O que não serviu, na prática, para mudar muito o seu status na emissora - ela continuava sendo uma "pirralha" de 23 anos metida a diretora. E ainda por cima mulher.
Em 2000, mais uma vez como diretora-assistente, Amora enfrentou a prova dos noves: trabalhar ao lado de Walter Avancini (1935-2000), um dos maiores diretores de telenovelas do país e famoso pelo estilo durão e pela pouca paciência com profissionais inexperientes. Avancini voltava à Globo depois de dirigir quatro novelas na extinta Rede Manchete e, ao contrário do que ocorria normalmente, quando o diretor forma o próprio núcleo de trabalho, a direção da Globo selecionou uma equipe para Avancini e incluiu Amora no quadro de diretores-assistentes da novela "O Cravo e a Rosa".
O Talma [diretor e produtor] costuma dizer que para 'fazer televisão tem que ser macho. Macho homem, macho mulher e macho gay'"
"Conversamos por telefone, foi tudo ótimo, mas quando ele me viu pessoalmente, já dentro do Projac, ficou parado, em silêncio, me medindo dos pés à cabeça, e disse: 'Você não tem idade para ser diretora'." A partir dali, segundo ela, o diretor iniciou uma luta. E armou um teste de fogo para a jovem diretora-assistente: gravar uma noturna "na fazenda", com os dois protagonistas. Era uma cena tecnicamente difícil de ser gravada e de grande importância para a novela. "Ele queria ter um pretexto para chegar à direção da emissora e dizer: 'Olha, gente, essa menina não tem condições de ser diretora da Rede Globo'."
Cinéfila desde a adolescência - na sala de estar há uma imensa prateleira abarrotada de livros sobre o tema e DVDs de longas dirigidos por nomes como Stanley Kubrick, Andrei Tarkovski e David Lynch -, Amora salvou-se da degola recorrendo-se às suas referências sobre cinema. Como a cena seria gravada numa fazenda, lembrou-se de cara de "Babe, o Porquinho Atrapalhado", filme infantil dirigido pelo australiano Chris Noonan, de grande apuro técnico (ganhou o Oscar na categoria de melhores efeitos especiais), e também dos longas dirigidos pelos irmãos Joel e Ethan Coen, famosos pela inovação nos enquadramentos de câmera.
A primeira providência de Amora foi pedir à produção da novela que alugasse uma lente J11, muito usada no cinema, que não era, no entanto, utilizada pelos diretores da emissora até então. "Eu passei a noite gravando e, quando cheguei à ilha de edição, às duas da manhã, para editar o material, quem estava lá: o Avancini", relata Amora. "Não era para estar ali naquela hora nem ver o material antes de ser editado, mas ele fez questão de passar a noite na edição para atestar a minha 'incompetência'." Foi nesse clima de "UFC", diz Amora, que Avancini assistiu à cena gravada pela assistente. A sessão terminou com o diretor estupefato, aplaudindo-a em pé, durante cinco minutos. O salário de Amora foi triplicado e logo ela entraria para o seleto primeiro time de diretores de núcleo da TV Globo, assumindo a direção geral de novelas como "Cama de Gato" (2000), "Cordel Encantado" (2011) até a consagração definitiva com "Avenida Brasil".
Ela diz ter aprendido tudo de televisão com os seus três mestres - Avancini, Ricardo Waddington e Guel Arraes -, mas reconhece a sua importância para a teledramaturgia brasileira. "Eu criei uma nova linguagem, menos naturalista, tenho total consciência disso", afirma. "As pessoas dizem que sou metida, mas é isso mesmo."
Amora saboreia um sorvete "de mil frutas", um mix de maçã, cenoura e
gengibre, desprovido de leite, gordura e glúten. Ela conta que nem o
reconhecimento profissional, garantido pelos nomes Avancini e Arraes, a
livrou de alguns dissabores, sobretudo por ser mulher e exercer um cargo
de chefia. Logo depois do aumento salarial em plena gravação de "O
Cravo e a Rosa", Amora passou a ser "provocada" pela equipe técnica,
formada por câmeras, contrarregras, operadores de áudio - todos homens.
Até que um dia um dos câmeras fez um trocadilho grosseiro com seu nome.
"Eu fiquei possessa, briguei com cem homens ao mesmo tempo - deveria
entrar para o livro dos recordes." Foram quatro meses sem dirigir uma
palavra para a equipe técnica. "O Roberto Talma [diretor e produtor]
costuma dizer que para 'fazer televisão tem que ser macho. Macho homem,
macho mulher e macho gay'."
Atualmente, Amora corre poucos riscos de sofrer "bullying" no Projac, não só pelos quase 20 anos de casa, e pelo respeito conquistado como diretora, mas também por se dar ao luxo de ter uma equipe própria, altamente entrosada, que já conhece - e não se assusta tanto com o ritmo caótico imposto pela diretora. Ela também gosta de trabalhar sempre com os mesmos atores, os que não chegam "prontos" de casa e estão abertos ao método do erro. Entre os preferidos, Marcos Caruso, Eliane Giardini e Débora Bloch. Recentemente, sites especializados em televisão publicaram que Amora teria vetado, por falta de "afinidade artística", uma conhecida atriz global para integrar o elenco de uma de suas novelas. Amora não desconversa. "Não tenho nada contra o trabalho dessa moça como atriz, mas ela não vai somar nada ao meu trabalho nem eu ao dela", diz. "Na minha equipe não tem nenhum burocrata - todos pensam e criam junto comigo."
O fim do jantar coincide com a chegada de alguns atores ao apartamento de Amora. É parte do elenco de "Joia Rara", que não veio fazer uma visita à diretora - e sim trabalhar. É, um ensaio está programado para começar às 23 horas num dos quartos do apartamento. O clima é de festa. "Eu amo todos os meus atores, tenho paixão por eles." O ator Carmo Dalla Vecchia, de olho na sopa de legumes, pergunta quanto tempo Amora ainda tem de regime. Nathalia Dill elogia a forma física da diretora, que aproveita para contar a todos os atores presentes que existe mais alguém, além de Jorge Mautner, que nunca ouviu falar de dieta Detox. O elenco cai na gargalhada. Repórter e fotógrafo se despedem, agradecem pelo saboroso penne com manjericão, enquanto Amora começa a reunir o elenco para o improvisado ensaio. Do elevador, é possível ouvir os gritos de "Eu quero erro! Eu quero erro!" É a moradora do quarto andar.
Atualmente, Amora corre poucos riscos de sofrer "bullying" no Projac, não só pelos quase 20 anos de casa, e pelo respeito conquistado como diretora, mas também por se dar ao luxo de ter uma equipe própria, altamente entrosada, que já conhece - e não se assusta tanto com o ritmo caótico imposto pela diretora. Ela também gosta de trabalhar sempre com os mesmos atores, os que não chegam "prontos" de casa e estão abertos ao método do erro. Entre os preferidos, Marcos Caruso, Eliane Giardini e Débora Bloch. Recentemente, sites especializados em televisão publicaram que Amora teria vetado, por falta de "afinidade artística", uma conhecida atriz global para integrar o elenco de uma de suas novelas. Amora não desconversa. "Não tenho nada contra o trabalho dessa moça como atriz, mas ela não vai somar nada ao meu trabalho nem eu ao dela", diz. "Na minha equipe não tem nenhum burocrata - todos pensam e criam junto comigo."
O fim do jantar coincide com a chegada de alguns atores ao apartamento de Amora. É parte do elenco de "Joia Rara", que não veio fazer uma visita à diretora - e sim trabalhar. É, um ensaio está programado para começar às 23 horas num dos quartos do apartamento. O clima é de festa. "Eu amo todos os meus atores, tenho paixão por eles." O ator Carmo Dalla Vecchia, de olho na sopa de legumes, pergunta quanto tempo Amora ainda tem de regime. Nathalia Dill elogia a forma física da diretora, que aproveita para contar a todos os atores presentes que existe mais alguém, além de Jorge Mautner, que nunca ouviu falar de dieta Detox. O elenco cai na gargalhada. Repórter e fotógrafo se despedem, agradecem pelo saboroso penne com manjericão, enquanto Amora começa a reunir o elenco para o improvisado ensaio. Do elevador, é possível ouvir os gritos de "Eu quero erro! Eu quero erro!" É a moradora do quarto andar.
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
A bruxa nos relógios - Lya Luft
Revista Veja - 21/10/2013
Não falarei aqui do meu desânimo quanto à situação do país:
cansei. Por algum breve tempo vou tirar férias dessa preocupação. Vou me
concentrar no possível: os afetos, o trabalho, a vida. Então falo aqui
de um tema que me fascina, sobre o qual muito tenho refletido e acabo de
escrever um livro: a passagem do tempo.
Quando criança, eu achava que no relógio de parede do sobrado de uma de minhas avós, aquele que soava horas, meias horas e quartos de hora que me assustavam nas madrugadas insones em que eu eventualmente dormia lá. morava uma feiticeira que tricotava freneticamente, com agulhas de metal, tique-taque, tique-taque, tecendo em longas mantas o tempo da nossa vida.
Nessas reflexões, e observações, mais uma vez constatei o que todo mundo sabe: vivemos a idolatria da juventude — e do poder, do dinheiro, da beleza física e do prazer. Muitos gostariam de ficar para sempre embalsamados em seus 20 ou 30 anos. Ou ter aos 60, "alma jovem", o que acho muito discutível, pois deve ser bem melhor ter na maturidade ou na velhice uma alma adequada, o que não significa mofada e áspera.
Por que a juventude seria a melhor fase da vida, como se jovem não tivesse problemas e sofrimentos, doenças e perdas, e não lutasse contra enormes pressões da família, da turma, da sociedade, para ser e agir dessa ou daquela forma? O número de adolescentes que se suicidam ou tentam se matar é muito maior do que imaginamos.
Lembro que há muitos anos um adolescente conhecido se matou. Naquela ocasião, um menino de sua turma me disse em voz baixa, olho arregalado: "Ontem ainda a gente jogou bola junto na escola, e ele não disse nada, a gente não notou nada. Será que eu devia ter percebido, perguntado? Quem sabe podia ter ajudado?" (Havia medo e aflição em seu olhar. )
Tentei explicar que não cabia ninguém mais nesse buraco negro da alma do amigo morto, embora na nossa ilusão uma palavra boa, um colo, um abraço, um pequeno adiamento, teriam podido ajudar. Quem se mata espalha ao seu redor uma zona de culpa insensata: esse fica sendo seu triste legado, talvez sua cruel vingança inconsciente. Não notamos, não impedimos, nada fizemos, não porque não o amássemos, não nos importássemos, mas porque a gente é assim. Ou porque nada havia a ser feito, ser dito, apenas ser aceito com um rio de dúvidas e culpas pelo resto dos dias. A juventude para ele, como para tantos, não foi a melhor fase da vida: foi o fim dela, desesperado e triste.
Por outro lado. maturidade pode ter uma energia muito boa, pensamento e capacidade de trabalho estão no auge, os afetos mais sólidos e mais profundos, a capacidade de enfrentar problemas e compadecer-se dos outros mais refinada. Aliás, amadurecer devia ser refinar-se. Passada (ou abrandada) a insegurança juvenil, é possível desafiar conceitos que imperam, desatar alguns fios que nos enredam, limpar o pó desse uniforme de prisioneiros, deixar de lado as falas decoradas. a tirania do que temos de ser ou fazer. Pronunciar a nossa própria alforria: vai ser livre, vai ser você mesmo, vai tentar ser feliz — seja lá o que isso for.
Então podemos murmurar. gritar, cantar. Podemos até dançar. Não há marcações nem roteiro, mas a inquietante possibilidade de optar: cada minuto vale, o tempo que flui mostra o valor máximo das coisas mínimas — se eu parar para observar.
Portas continuam se abrindo: não apenas sobre salas de papelão pintado, mas sobre caminhos reais. Correndo pela floresta das fatalidades, encontramos clareiras de construir. De se renovar, não importa a cifra indicando a nossa idade. Descobrir o que afinal se quer é essencial. É raro. É possível. E quando alguém resolver não pagar mais o altíssimo tributo da acomodação, mas dar sentido à sua vida, verá que a bruxa dos relógios não é inteiramente má. E vai entender que o tempo não só nega e rouba com uma das mãos, mas, com a outra, oferece — até mesmo a possibilidade de, ao envelhecer, alargar ainda mais as varandas da alma.
Quando criança, eu achava que no relógio de parede do sobrado de uma de minhas avós, aquele que soava horas, meias horas e quartos de hora que me assustavam nas madrugadas insones em que eu eventualmente dormia lá. morava uma feiticeira que tricotava freneticamente, com agulhas de metal, tique-taque, tique-taque, tecendo em longas mantas o tempo da nossa vida.
Nessas reflexões, e observações, mais uma vez constatei o que todo mundo sabe: vivemos a idolatria da juventude — e do poder, do dinheiro, da beleza física e do prazer. Muitos gostariam de ficar para sempre embalsamados em seus 20 ou 30 anos. Ou ter aos 60, "alma jovem", o que acho muito discutível, pois deve ser bem melhor ter na maturidade ou na velhice uma alma adequada, o que não significa mofada e áspera.
Por que a juventude seria a melhor fase da vida, como se jovem não tivesse problemas e sofrimentos, doenças e perdas, e não lutasse contra enormes pressões da família, da turma, da sociedade, para ser e agir dessa ou daquela forma? O número de adolescentes que se suicidam ou tentam se matar é muito maior do que imaginamos.
Lembro que há muitos anos um adolescente conhecido se matou. Naquela ocasião, um menino de sua turma me disse em voz baixa, olho arregalado: "Ontem ainda a gente jogou bola junto na escola, e ele não disse nada, a gente não notou nada. Será que eu devia ter percebido, perguntado? Quem sabe podia ter ajudado?" (Havia medo e aflição em seu olhar. )
Tentei explicar que não cabia ninguém mais nesse buraco negro da alma do amigo morto, embora na nossa ilusão uma palavra boa, um colo, um abraço, um pequeno adiamento, teriam podido ajudar. Quem se mata espalha ao seu redor uma zona de culpa insensata: esse fica sendo seu triste legado, talvez sua cruel vingança inconsciente. Não notamos, não impedimos, nada fizemos, não porque não o amássemos, não nos importássemos, mas porque a gente é assim. Ou porque nada havia a ser feito, ser dito, apenas ser aceito com um rio de dúvidas e culpas pelo resto dos dias. A juventude para ele, como para tantos, não foi a melhor fase da vida: foi o fim dela, desesperado e triste.
Por outro lado. maturidade pode ter uma energia muito boa, pensamento e capacidade de trabalho estão no auge, os afetos mais sólidos e mais profundos, a capacidade de enfrentar problemas e compadecer-se dos outros mais refinada. Aliás, amadurecer devia ser refinar-se. Passada (ou abrandada) a insegurança juvenil, é possível desafiar conceitos que imperam, desatar alguns fios que nos enredam, limpar o pó desse uniforme de prisioneiros, deixar de lado as falas decoradas. a tirania do que temos de ser ou fazer. Pronunciar a nossa própria alforria: vai ser livre, vai ser você mesmo, vai tentar ser feliz — seja lá o que isso for.
Então podemos murmurar. gritar, cantar. Podemos até dançar. Não há marcações nem roteiro, mas a inquietante possibilidade de optar: cada minuto vale, o tempo que flui mostra o valor máximo das coisas mínimas — se eu parar para observar.
Portas continuam se abrindo: não apenas sobre salas de papelão pintado, mas sobre caminhos reais. Correndo pela floresta das fatalidades, encontramos clareiras de construir. De se renovar, não importa a cifra indicando a nossa idade. Descobrir o que afinal se quer é essencial. É raro. É possível. E quando alguém resolver não pagar mais o altíssimo tributo da acomodação, mas dar sentido à sua vida, verá que a bruxa dos relógios não é inteiramente má. E vai entender que o tempo não só nega e rouba com uma das mãos, mas, com a outra, oferece — até mesmo a possibilidade de, ao envelhecer, alargar ainda mais as varandas da alma.
domingo, 20 de outubro de 2013
Falso dilema - Gustavo Binenbojm
O Globo - 20/10/2013
O debate que se instaurou no Brasil sobre a possibilidade de publicação de obras biográficas sem o consenti- mento dos personagens biografados tem sido pautado por uma falsa dicotomia entre liberdade de expressão e direito à privacidade. Não é disso que se trata. A questão é mais singela do que um suposto dilema filosófico entre a livre circulação de ideias e informações e a soberania do individuo sobre sua vida privada.
O problema em discussão é o seguinte: tem o indivíduo o monopólio sobre a narrativa da sua trajetória de vida? Ao exigir a prévia autorização do biografado (ou de seus herdeiros) para a divulgação de escritos a seu respeito, o art. 20 do Código Civil responde que sim. Note-se que não se está aqui a cogitar do conteúdo da obra; a autorização pode ou não ser concedida ao inteiro alvedrio do personagem retratado, sem relação necessária com a proteção de sua intimidade.
Cuida-se apenas do agrado ou desagrado do protagonista dos fatos com a versão do biógrafo. Embora editado já na plena vigência da Constituição democrática de 1988, o Código Civil (que é uma lei ordinária) criou um monopólio das autobiografias no país. Salvo com o beneplácito, quase sempre oneroso e parcial do biografado, as heterobiografias são um gênero virtualmente banido entre nós.
Além das cifras vultosas negociadas muitas vezes por puro interesse argentário, a lei em vigor gera ao menos dois outros efeitos nocivos ao chamado livre mercado de ideias: ( 1) um efeito silenciador, que condena anos e anos de pesquisas sérias e responsáveis dos autores aos escaninhos das editoras; (II) um efeito distorsivo, resultante da filtragem de documentos e depoimentos pelo crivo do biografado. Surge então o argumento da preservação da vida privada dos biografados. Trata-se de um falso argumento.
Ninguém está a defender a prática de atos ilícitos por parte de pesquisadores, historiadores ou escritores. Não se cogita da subtração de documentos reservados, da invasão de computadores que contenham dados sigilosos, da violação de comunicação privada, nem do ingresso em recintos domiciliares, que representam o asilo inviolável do indivíduo.
O trabalho de pesquisa histórica se realiza no limite da legalidade, pelo resgate de depoimentos esquecidos, por entrevistas com pessoas envolvidas nos fatos em apuração, pela busca lícita de documentos em arquivos públicos ou privados. Um jurista português me disse certa vez, com aquele raciocínio literal e cortante que é próprio da cultura lusitana: “O anonimato é para os anônimos!”. O raciocínio inverso, no entanto, não pode ser levado ao extremo.
É claro que pessoas públicas não têm a sua esfera de privacidade e intimidade reduzida a zero. Como todos nós, elas tomam decisões soberanas sobre as informações de sua vida privada que desejam tornar públicas ou manter sob reserva. Mas, como todos nós, elas não detêm controle absoluto sobre as informações que possam ser legalmente apuradas ou voluntariamente reveladas pelos seus detentores. A vida de figuras públicas é parte integrante da historiografia social.
Contá-la é um direito de todos, independentemente de censura ou licença, como assegura a Constituição. Conhecê-la é uma forma de controle social sobre o poder e a influência que tais figuras exercem sobre todos os cidadãos. O mecanismo da autorização prévia, forma velada de censura privada, é simplesmente inconstitucional.
Gustavo Binenbojm é professor da Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e advogado da Associação Nacional dos Editores de Livros
O debate que se instaurou no Brasil sobre a possibilidade de publicação de obras biográficas sem o consenti- mento dos personagens biografados tem sido pautado por uma falsa dicotomia entre liberdade de expressão e direito à privacidade. Não é disso que se trata. A questão é mais singela do que um suposto dilema filosófico entre a livre circulação de ideias e informações e a soberania do individuo sobre sua vida privada.
O problema em discussão é o seguinte: tem o indivíduo o monopólio sobre a narrativa da sua trajetória de vida? Ao exigir a prévia autorização do biografado (ou de seus herdeiros) para a divulgação de escritos a seu respeito, o art. 20 do Código Civil responde que sim. Note-se que não se está aqui a cogitar do conteúdo da obra; a autorização pode ou não ser concedida ao inteiro alvedrio do personagem retratado, sem relação necessária com a proteção de sua intimidade.
Cuida-se apenas do agrado ou desagrado do protagonista dos fatos com a versão do biógrafo. Embora editado já na plena vigência da Constituição democrática de 1988, o Código Civil (que é uma lei ordinária) criou um monopólio das autobiografias no país. Salvo com o beneplácito, quase sempre oneroso e parcial do biografado, as heterobiografias são um gênero virtualmente banido entre nós.
Além das cifras vultosas negociadas muitas vezes por puro interesse argentário, a lei em vigor gera ao menos dois outros efeitos nocivos ao chamado livre mercado de ideias: ( 1) um efeito silenciador, que condena anos e anos de pesquisas sérias e responsáveis dos autores aos escaninhos das editoras; (II) um efeito distorsivo, resultante da filtragem de documentos e depoimentos pelo crivo do biografado. Surge então o argumento da preservação da vida privada dos biografados. Trata-se de um falso argumento.
Ninguém está a defender a prática de atos ilícitos por parte de pesquisadores, historiadores ou escritores. Não se cogita da subtração de documentos reservados, da invasão de computadores que contenham dados sigilosos, da violação de comunicação privada, nem do ingresso em recintos domiciliares, que representam o asilo inviolável do indivíduo.
O trabalho de pesquisa histórica se realiza no limite da legalidade, pelo resgate de depoimentos esquecidos, por entrevistas com pessoas envolvidas nos fatos em apuração, pela busca lícita de documentos em arquivos públicos ou privados. Um jurista português me disse certa vez, com aquele raciocínio literal e cortante que é próprio da cultura lusitana: “O anonimato é para os anônimos!”. O raciocínio inverso, no entanto, não pode ser levado ao extremo.
É claro que pessoas públicas não têm a sua esfera de privacidade e intimidade reduzida a zero. Como todos nós, elas tomam decisões soberanas sobre as informações de sua vida privada que desejam tornar públicas ou manter sob reserva. Mas, como todos nós, elas não detêm controle absoluto sobre as informações que possam ser legalmente apuradas ou voluntariamente reveladas pelos seus detentores. A vida de figuras públicas é parte integrante da historiografia social.
Contá-la é um direito de todos, independentemente de censura ou licença, como assegura a Constituição. Conhecê-la é uma forma de controle social sobre o poder e a influência que tais figuras exercem sobre todos os cidadãos. O mecanismo da autorização prévia, forma velada de censura privada, é simplesmente inconstitucional.
Gustavo Binenbojm é professor da Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e advogado da Associação Nacional dos Editores de Livros
Nos passos dos ‘lekes’, a transformação do Rio - RENÉE CASTELO BRANCO
O Globo 20/10/2013
Eles inventaram uma dança, criaram
uma nova noção de beleza e de amizade,
borraram as fronteiras entre o masculino
e o feminino. Estão por toda parte,
conectados através do Youtube e do Facebook;
não usam drogas e respeitam os pais. São os
“mulekes” do Passinho.
uma nova noção de beleza e de amizade,
borraram as fronteiras entre o masculino
e o feminino. Estão por toda parte,
conectados através do Youtube e do Facebook;
não usam drogas e respeitam os pais. São os
“mulekes” do Passinho.
Moram em favelas e bairros populares do Rio
de Janeiro; formam uma rede que se estende
pelos municípios vizinhos. Criaram um modelo
alternativo para os jovens dos morros cariocas,
ainda atraídos pelo poder, glamour e dinheiro
aparentemente fácil dos traficantes.
Esguios e atléticos, estes filhos do funk riscam
o chão com passos que lembram os do samba,
frevo, charme, break, street dance, hip hop ou
até yoga e dribles de futebol. Gostam de imitar
gay. Uma homenagem ao estilo do precursor
morto a pancadas de madrugada na rua no Rio;
um episódio até hoje pouco esclarecido. Gambá
trabalhava como gesseiro. Era talentosíssimo e
abusava de uma estética invejada pelos dançarinos.
A partir daí o passinho cresceu. Como se
todo movimento precisasse de um mártir.
Poucas meninas “mandam” passinho. É um
mundo masculino. Elas torcem por eles, ajudam
a enfeitá-los e até pagam para que estejam
bem arrumados. O cabeleireiro
é ponto de encontro,
onde experimentam variantes
do corte do Jaca, com
desenhos riscados a gilete
rente ao couro cabeludo.
Fazem unhas, tiram sobrancelhas,
depilam-se,
usam brincos brilhantes,
aparelho colorido nos dentes
e trocam a cor dos cabelos
com uma frequência impressionante. As novas
tendências espalham-se pelo Youtube.
A escola, como sempre, não abraça este processo.
Os que não abandonaram os estudos só a frequentam
porque a família insiste. Nada a ver com
preguiça; passam o dia pesquisando novos passos,
gravando vídeos, conectados pela internet.
Têm uma legião de fãs. Cada vídeo ou comentário
postado é curtido por centenas, até milhares de
pessoas. Um deles tem mil perfis falsos no Face.
Jeffinho sequer dança tão bem quanto feras como
Breguete, Iltinho, Pablinho, Sheick ou Pelúcia;
nem é tão bonito assim.
Mas é um mestre intuitivo
da manipulação da imagem
e do uso das novas
mídias. Verdade que já
tem empresário, que leva
porcentagem alta dos cachês
dos shows em que se
apresenta .
O Passinho está criando
um mercado. Além dos
shows convocados por MCs, alimenta web-rádios
e pequenos fabricantes de camisetas. Está na moda.
Teve “flashmob” na estação do metrô, a Coca-
Cola patrocinou campeonatos entre dançarinos,
produziu um vídeo que está no Youtube e já é viral.
A final da Batalha do Passinho deste ano foi
disputada no estúdio do “Caldeirão do Huck”. Alguns
participaram na abertura dos Jogos Paraolímpicos
em Londres em 2012 e do Criança Esperança
este ano. O Theatro Municipal do Rio de Janeiro
organizou um curso de férias onde a molecada
do Passinho trocou experiências com alunas
da Escola de Ballet Maria Oleneva.
Poucos poderão ganhar a vida como bailarinos,
assim como nem todos os artistas sobrevivem
do palco. Escritores sempre dependeram
de algum emprego fixo. Uma minoria dos milhares
de jornalistas formados a cada ano chega
a uma redação de jornal ou de televisão. Nem
por isto são vítimas. Os “lekes” são exemplos de
talento, força de vontade e honradez. A história
deles inclui ingredientes que nos alegram e nos
perturbam. Mas é certo que aponta uma sociedade
em transformação.
sábado, 19 de outubro de 2013
COBAIAS EM DEBATE Qual o limite da ciência?
ZERO HORA 19/10/2013
Ao retirar mais de 200 cães de um laboratório de pesquisas científicas em SP, um grupo de ativistas esquentou discussão sobre o uso de animais em testes
O Brasil vivenciou na noite de quinta-feira uma versão não ficcional do filme Os 101 Dálmatas, clássico da Disney no qual cachorrinhos são salvos de serem mortos para virar cosmético.
Só que o resgate, ocorrido no interior de São Paulo, foi de outra raça de cães – mais de 200 beagles – e os fins para os quais eles seriam usados são pretensamente científicos, para testes de medicamentos. A libertação dos cachorros, feita por ativistas ambientais e que resultou também na fuga de coelhos e ratos, resultou em queixa de furto contra os ambientalistas. E em intenso debate entre defensores de animais e pesquisadores, que acham imprescindível o uso de testes em bichos, para o bem da ciência.
Uma petição online contra o uso de animais em experimentos, lançada pelo site Avaaz.org, coletou mais de 265 mil assinaturas até a tarde de ontem. Tudo impulsionado pelo episódio da polêmica libertação dos cães, que aconteceu nos laboratórios de pesquisas científicas do Instituto Royal, em São Roque (a 66 quilômetros de São Paulo).
A empresa já era investigada pelo Ministério Público por suspeita de que os animais eram acomodados em condições irregulares. No local são testadas nos cachorros possíveis reações adversas aos medicamentos, como vômito, diarreia, perda de coordenação e até convulsões. Entre os ativistas que participaram do ato, organizado pela interner, está a atriz Nicole Puzzi, famosa por pornochanchadas nos anos 70.
A lei permite que se faça experimentos, desde que se prove que não há outros meios para se chegar a um resultado científico. Os ambientalistas que soltaram os beagles garantem que alguns cães tinham lesões nos olhos e nas patas, o que leva à desconfiança de maus-tratos. O resgate canino gerou comoção, por vários motivos. De um lado, porque os experimentos na Royal envolvem cães, os mais populares animais de estimação, ao ponto de angariar o epíteto de “melhor amigo do homem”. E logo cães de raça, os beagles, mundialmente conhecidos pelo personagem de quadrinhos Snoopy.
– Provoca uma compreensível reação emocional e, até por isso, a indústria tem desenvolvido testes com modelos simulados, não vivos. Mas em alguns casos os experimentos em animais são imprescindíveis. Para verificar se determinado produto é teratogênico (que causa deformações) ou para testar drogas contra câncer – exemplifica a veterinária Luiza Macedo Braga, professora da PUCRS e membro do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal.
O pesquisador Álvaro Montenegro Valls, professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Unisinos, não é tão conformado com a justificativa científica para uso dos animais em testes. Ele diz que, no estágio atual da humanidade, existem muitas alternativas. Entre elas, o uso de bonecos de anatomia e simulações de computador.
– Pingar produtos no olho para testar irritação e outras formas que envolvem sofrimento são inadmissíveis – opina.
Os animais resgatados do Instituto Royal por ativistas estavam sendo oferecidos para adoção em sites na internet. Mas quem adotar poderá incorrer em crime de receptação. Isso porque se trata de produto de furto, indicou o delegado seccional de Sorocaba, Marcelo Carriel. A pena prevista vai de um a quatro anos de prisão.
A Polícia Civil de São Roque abriu inquérito para apurar a invasão e depredação do instituto. O laudo da perícia feita no local deverá apontar a direção dos indiciamentos. Imagens da invasão serão usadas para identificar os ativistas.
andre.mags@zerohora.com.br
Ao retirar mais de 200 cães de um laboratório de pesquisas científicas em SP, um grupo de ativistas esquentou discussão sobre o uso de animais em testes
O Brasil vivenciou na noite de quinta-feira uma versão não ficcional do filme Os 101 Dálmatas, clássico da Disney no qual cachorrinhos são salvos de serem mortos para virar cosmético.
Só que o resgate, ocorrido no interior de São Paulo, foi de outra raça de cães – mais de 200 beagles – e os fins para os quais eles seriam usados são pretensamente científicos, para testes de medicamentos. A libertação dos cachorros, feita por ativistas ambientais e que resultou também na fuga de coelhos e ratos, resultou em queixa de furto contra os ambientalistas. E em intenso debate entre defensores de animais e pesquisadores, que acham imprescindível o uso de testes em bichos, para o bem da ciência.
Uma petição online contra o uso de animais em experimentos, lançada pelo site Avaaz.org, coletou mais de 265 mil assinaturas até a tarde de ontem. Tudo impulsionado pelo episódio da polêmica libertação dos cães, que aconteceu nos laboratórios de pesquisas científicas do Instituto Royal, em São Roque (a 66 quilômetros de São Paulo).
A empresa já era investigada pelo Ministério Público por suspeita de que os animais eram acomodados em condições irregulares. No local são testadas nos cachorros possíveis reações adversas aos medicamentos, como vômito, diarreia, perda de coordenação e até convulsões. Entre os ativistas que participaram do ato, organizado pela interner, está a atriz Nicole Puzzi, famosa por pornochanchadas nos anos 70.
A lei permite que se faça experimentos, desde que se prove que não há outros meios para se chegar a um resultado científico. Os ambientalistas que soltaram os beagles garantem que alguns cães tinham lesões nos olhos e nas patas, o que leva à desconfiança de maus-tratos. O resgate canino gerou comoção, por vários motivos. De um lado, porque os experimentos na Royal envolvem cães, os mais populares animais de estimação, ao ponto de angariar o epíteto de “melhor amigo do homem”. E logo cães de raça, os beagles, mundialmente conhecidos pelo personagem de quadrinhos Snoopy.
– Provoca uma compreensível reação emocional e, até por isso, a indústria tem desenvolvido testes com modelos simulados, não vivos. Mas em alguns casos os experimentos em animais são imprescindíveis. Para verificar se determinado produto é teratogênico (que causa deformações) ou para testar drogas contra câncer – exemplifica a veterinária Luiza Macedo Braga, professora da PUCRS e membro do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal.
O pesquisador Álvaro Montenegro Valls, professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Unisinos, não é tão conformado com a justificativa científica para uso dos animais em testes. Ele diz que, no estágio atual da humanidade, existem muitas alternativas. Entre elas, o uso de bonecos de anatomia e simulações de computador.
– Pingar produtos no olho para testar irritação e outras formas que envolvem sofrimento são inadmissíveis – opina.
Os animais resgatados do Instituto Royal por ativistas estavam sendo oferecidos para adoção em sites na internet. Mas quem adotar poderá incorrer em crime de receptação. Isso porque se trata de produto de furto, indicou o delegado seccional de Sorocaba, Marcelo Carriel. A pena prevista vai de um a quatro anos de prisão.
A Polícia Civil de São Roque abriu inquérito para apurar a invasão e depredação do instituto. O laudo da perícia feita no local deverá apontar a direção dos indiciamentos. Imagens da invasão serão usadas para identificar os ativistas.
andre.mags@zerohora.com.br
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
A Batalha das Biografias - Trocando em miúdos
O GLOBO 17/10/2013
Citados por Chico Buarque em seu artigo ontem no Segundo Caderno, Paulo Cesar de Araújo, autor de "Roberto Carlos em detalhes", Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, e Mário Magalhães, biógrafo de Carlos Marighella, contestam as afirmações do compositor
De seu amável interrogador - Paulo Cesar de Araújo
Quando o livro Estrela solitária estava para ser publicado, uma matéria foi veiculada no Fantástico chamando atenção para o livro. As filhas do Garrincha, que não haviam se manifestado até então, me procuraram, através de um advogado, e, sem ler uma página sequer do livro, demandaram pagamento de direitos e ameaçaram com um pedido de indenização.
O representante da família, a essas alturas, não falava em “imagem denegrida”, mas em “ajudar o Natal das meninas”. Como não aceitamos nenhum acordo — por julgarmos que a biografia enaltecia o jogador como o melhor de todos os tempos e tratava do alcoolismo, conhecido por todos, de maneira absolutamente ética –, seguimos em frente com a publicação. A partir daí fomos processados, com a família exigindo, ao mesmo tempo, o pagamento de direitos autorais — como se a vida de um antepassado pertencesse a seus herdeiros — e reclamando da imagem do jogador supostamente denegrida pelo livro, de cujos rendimentos gostariam de participar.
A partir daí, uma longa e custosa história se instaurou e, em segunda instância, Estrela solitária foi retirado de circulação, sem que todas as etapas do julgamento estivessem concluídas — situação que só a nossa lei permite. Assim como permite que um juiz ameace “quebrar” uma editora, ao ter amplos poderes para arbitrar a indenização. A biografia de Garrincha só voltou a circular mediante um volumoso acordo, e sem nenhuma condenação. Com o pagamento realizado, nem a capa ou muito menos o conteúdo voltou a preocupar as herdeiras. O fato é que a atual lei brasileira permite, singularmente, que se instaure um balcão de negócios, arbitrariedades e malversações.
Sei que Chico discorda da capa que escolhi pessoalmente para o livro do Ruy Castro. Estrela solitária termina com o triste fim do jogador, isolado e alcoólatra. Julguei que não devia, como editor, publicar um livro com tal força dramática colocando Garrincha com as mãos erguidas junto às pombas da Praça de Milão, foto que, aliás, teria sido a escolhida pelo autor. Aceito o julgamento público, confiante de que segui critérios editoriais corretos. O oposto significaria fugir da história para proteger a imagem de um ídolo nacional.
Pela lei vigente, os herdeiros se transformam em historiadores, editores e, desculpe-me, censores, sim. A foto que utilizamos foi retirada de arquivos públicos e, se não me falha a memória, havia sido previamente publicada em jornal. Existia uma muito pior para o Garrincha, capa de um jornal importante, com o ídolo desfilando no Carnaval, em carro alegórico, completamente entregue ao álcool. A família na época permitiu o desfile e a aparição do jogador na avenida. De quem é a culpa, então?
Quem ajuda a moldar a vida e a cultura de um país, seja no futebol, na música ou na política, tem, desde sempre, menor controle de sua vida pública. Sempre foi assim, de Cleópatra a Maria Callas, passando por Getúlio Vargas e pelos ídolos do iê-iê-iê. A defesa da privacidade no mundo contemporâneo deveria nos unir, mas o custo que a lei brasileira cobra é inaceitável, é muito pior.
Espero que um dia escritor e editor se juntem na defesa das duas causas: a da liberdade de expressão necessária para a nossa profissão, e a da privacidade possível no mundo atual. O “Procure saber” escolheu o vilão errado e ofendeu os profissionais do livro ao defender a permissão apenas da publicação gratuita dos livros pela internet, apresentando editores e escritores como argentários e pilantras profissionais. Além do Chico Buarque, Gil e Caetano foram publicados com muita honra pela Companhia das Letras e me conhecem bem.
Agora, que o pagamento à família de Garrincha justificado pela fragilidade das leis brasileiras de defesa da liberdade de expressão foi indevido, sem dúvida nenhuma foi. E que divergências não abalam amizades como as que tenho com Chico Buarque e Caetano Veloso, é certeza e nunca esteve em discussão.
Meu caro Chico - MÁRIO MAGALHÃES
Caríssimo Chico Buarque, eis o artigo do Código Civil que o grupo Procure Saber, ao qual você pertence, batalha para eternizar:
“Salvo se autorizadas [...], a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais”.
Quando você lançou a obra-prima “Apesar de você”, o ditador Médici presidia o Brasil. Era um tempo em que agentes públicos torturavam milhares de pessoas. Hoje, para biografar o general, só com autorização dos herdeiros. Dá para pensar no rame-rame laudatório que eles exigiriam?
A legislação em vigor permite que Fernando Collor barre uma biografia não autorizada, em nome de sua “boa fama”. Idem o juiz Lalau e o torturador Brilhante Ustra. É assim porque a lei vale para todos, artistas ou não. Pense bem: a prerrogativa de contar a história passou ao coronel Ustra.
No seu elegante artigo “Penso eu”, generoso com meu livro “Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo”, você menciona, sem título, uma biografia do Cabo Anselmo. Conheço três obras focadas no infiltrado que entregou a mulher grávida para repressores da ditadura a matarem (ela se chamava Soledad, e não Consuelo; todos tropeçamos, não somente os biógrafos).
As de 1984 e 99, com depoimentos mentirosos do covarde, assemelham-se a autobiografias. A de 81 é um breve perfil independente. A tragédia: publicado ainda durante a ditadura, este livro poderia ser proibido hoje, na democracia, amparado no Código Civil de 2002. A norma obscurantista transfere a Anselmo o poder de definir o conteúdo de uma biografia.
Concordo: é inaceitável a impunidade de biógrafo leviano ou criminoso que difunda informação “infamante ou mentirosa”. Mas a decisão tem de ser da Justiça, e não de censura prévia. Se o Judiciário é lento e a lei dócil com difamadores, aperfeiçoemos ambos. Somos contra o indulto de Natal porque, entre milhares de presos, meia dúzia foge? Crimes pontuais não devem abolir direitos coletivos. O conhecimento da história consagra-se como direito humano. Roberto Carlos é, sim, dono da vida dele. Mas não é dono da história.
Biografias são reportagens, que constituem gênero do jornalismo. Pagar royalties a personagens descaracteriza biografias não autorizadas _você propõe mesmo dar uns caraminguás aos netos do Médici?
Se defende que as filhas do Garrincha recebam pelo trabalho árduo do biógrafo, já pensou em remunerá-las, por ter citado o Mané junto com Pelé, Didi, Pagão e Canhoteiro? “O futebol”, sua música, não tem também “fins comerciais”? A imprensa de “fins comerciais” publica perfis. E se o Sarney e o Bolsonaro resolverem cobrar? Devemos reeditar a censura de outrora ou persistir no bom combate a ela?
Chico, perdoe o tom. Você merece interlocutores do “tempo da delicadeza” evocado em “Todo o sentimento”. Aceite um abraço e o carinho deste fã irrevogável.
Mário Magalhães é jornalista e biógrafo
Citados por Chico Buarque em seu artigo ontem no Segundo Caderno, Paulo Cesar de Araújo, autor de "Roberto Carlos em detalhes", Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, e Mário Magalhães, biógrafo de Carlos Marighella, contestam as afirmações do compositor
De seu amável interrogador - Paulo Cesar de Araújo
Foi
com grande espanto que li, ontem, declaração de Chico Buarque aqui no
GLOBO, afirmando que jamais me deu uma entrevista. Ou seja, ele alega
que eu teria faltado com a verdade ao incluí-lo entre as fontes listadas
na biografia "Roberto Carlos em detalhes" Ocorre que Chico Buarque foi,
sim, uma das 175 pessoas que entrevistei para a pesquisa que resultou
naquele livro. O artista certamente se esqueceu, mas ele me recebeu em
sua casa, na Gávea, na tarde de 30 de março de 1992. E esta entrevista,
com duração de quatro horas, foi gravada, filmada e fotografada. Falamos
muito sobre censura, interrogatórios — creio que por isso ele
escreveu, junto com o autógrafo que me deu na capa do disco
"Construção": "Para o Paulo, meu amável interrogador, com um abraço do
Chico Buarque. Rio, março/92."
Naquela
entrevista, Chico me falou sobre as principais fases e canções de sua
carreira. Uma de minhas perguntas foi sobre sua relação com Roberto
Carlos nos anos 60, quando ambos representa-vam poios opostos na
nossa música popular — suas frases estão reproduzidas na página 184 da
biografia que escrevi.
No
seu artigo de ontem o cantor também negou uma declaração dele que
reproduzo no meu livro anterior, "Eu não sou cachorro, não" No livro eu
cito a fonte: "Última Hora-SP" 28/06/1970 — mesmo jornal para o qual, em
1974, o próprio Chico daria uma famosa
entrevista, sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide. Esta entrevista
está no seu site. Resumindo: no seu artigo de ontem, Chico dá a entender
que o jornal era desprezível, mas ele falava, sim, com seus repórteres.
Pois bem. Ele disse ontem ser impossível ter "criticado Caetano e Gil,
então no exílio, por denegrirem a imagem do país no exterior" Ocorre que
a crítica registrada na "Última Hora" não tinha este viés nacionalista.
O que ele criticava era o fato de os baianos usarem a condição de
exilados para sensibilizar os ingleses e fazer sucesso: "Nos cartazes de
publicidade que eles mandaram imprimir, consta que foram banidos do
país. Isso é ridículo, querer vencer pela pena."
Registre-se
que na época Chico andava mesmo afastado de Gil e Caetano por conta de
rusgas desde a eclosão do tropicalismo — o que Chico confirmou ao
"Pasquim" em 1970. Trecho: "Eu perdi o contato com eles, perdi a amizade
deles. Então eu não entendo mais se o Caetano é o mesmo que eu conheci"
Nesse mesmo papo com o "Pasquim" Chico se mostrou também desconfiado da
gravação de "Carolina" feita por Caetano. "Eu ouvi o disco uma vez só e
confesso que não gostei e não quis ouvir mais porque é um problema em
que eu não estava a fim de ficar pensando: será que ele gravou de boa-fé
ou de má-fé?" Portanto, neste contexto, acho bastante possível ele ter
feito também aquela declaração sobre os baianos na "Última Hora" Por
isso, incluí sua declaração no livro. Faz parte do meu ofício de
historiador.
Paulo Cesar de Araújo é historiador e escritor
Um editor de biografias - LUIZ SCHWARCZ
Falei recentemente com o Chico Buarque sobre o assunto das biografias mais de uma vez. Como ele agora escreveu publicamente, utilizando-se de exemplos sensíveis à história da Companhia das Letras, “condenada” a pagar uma larga soma de indenização à família de Garrincha, preciso vir a público esclarecer minha posição e contar, pela primeira vez, minha versão de toda esta história.Quando o livro Estrela solitária estava para ser publicado, uma matéria foi veiculada no Fantástico chamando atenção para o livro. As filhas do Garrincha, que não haviam se manifestado até então, me procuraram, através de um advogado, e, sem ler uma página sequer do livro, demandaram pagamento de direitos e ameaçaram com um pedido de indenização.
O representante da família, a essas alturas, não falava em “imagem denegrida”, mas em “ajudar o Natal das meninas”. Como não aceitamos nenhum acordo — por julgarmos que a biografia enaltecia o jogador como o melhor de todos os tempos e tratava do alcoolismo, conhecido por todos, de maneira absolutamente ética –, seguimos em frente com a publicação. A partir daí fomos processados, com a família exigindo, ao mesmo tempo, o pagamento de direitos autorais — como se a vida de um antepassado pertencesse a seus herdeiros — e reclamando da imagem do jogador supostamente denegrida pelo livro, de cujos rendimentos gostariam de participar.
A partir daí, uma longa e custosa história se instaurou e, em segunda instância, Estrela solitária foi retirado de circulação, sem que todas as etapas do julgamento estivessem concluídas — situação que só a nossa lei permite. Assim como permite que um juiz ameace “quebrar” uma editora, ao ter amplos poderes para arbitrar a indenização. A biografia de Garrincha só voltou a circular mediante um volumoso acordo, e sem nenhuma condenação. Com o pagamento realizado, nem a capa ou muito menos o conteúdo voltou a preocupar as herdeiras. O fato é que a atual lei brasileira permite, singularmente, que se instaure um balcão de negócios, arbitrariedades e malversações.
Sei que Chico discorda da capa que escolhi pessoalmente para o livro do Ruy Castro. Estrela solitária termina com o triste fim do jogador, isolado e alcoólatra. Julguei que não devia, como editor, publicar um livro com tal força dramática colocando Garrincha com as mãos erguidas junto às pombas da Praça de Milão, foto que, aliás, teria sido a escolhida pelo autor. Aceito o julgamento público, confiante de que segui critérios editoriais corretos. O oposto significaria fugir da história para proteger a imagem de um ídolo nacional.
Pela lei vigente, os herdeiros se transformam em historiadores, editores e, desculpe-me, censores, sim. A foto que utilizamos foi retirada de arquivos públicos e, se não me falha a memória, havia sido previamente publicada em jornal. Existia uma muito pior para o Garrincha, capa de um jornal importante, com o ídolo desfilando no Carnaval, em carro alegórico, completamente entregue ao álcool. A família na época permitiu o desfile e a aparição do jogador na avenida. De quem é a culpa, então?
Quem ajuda a moldar a vida e a cultura de um país, seja no futebol, na música ou na política, tem, desde sempre, menor controle de sua vida pública. Sempre foi assim, de Cleópatra a Maria Callas, passando por Getúlio Vargas e pelos ídolos do iê-iê-iê. A defesa da privacidade no mundo contemporâneo deveria nos unir, mas o custo que a lei brasileira cobra é inaceitável, é muito pior.
Espero que um dia escritor e editor se juntem na defesa das duas causas: a da liberdade de expressão necessária para a nossa profissão, e a da privacidade possível no mundo atual. O “Procure saber” escolheu o vilão errado e ofendeu os profissionais do livro ao defender a permissão apenas da publicação gratuita dos livros pela internet, apresentando editores e escritores como argentários e pilantras profissionais. Além do Chico Buarque, Gil e Caetano foram publicados com muita honra pela Companhia das Letras e me conhecem bem.
Agora, que o pagamento à família de Garrincha justificado pela fragilidade das leis brasileiras de defesa da liberdade de expressão foi indevido, sem dúvida nenhuma foi. E que divergências não abalam amizades como as que tenho com Chico Buarque e Caetano Veloso, é certeza e nunca esteve em discussão.
* * * * *
Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros.Meu caro Chico - MÁRIO MAGALHÃES
Caríssimo Chico Buarque, eis o artigo do Código Civil que o grupo Procure Saber, ao qual você pertence, batalha para eternizar:
“Salvo se autorizadas [...], a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais”.
Quando você lançou a obra-prima “Apesar de você”, o ditador Médici presidia o Brasil. Era um tempo em que agentes públicos torturavam milhares de pessoas. Hoje, para biografar o general, só com autorização dos herdeiros. Dá para pensar no rame-rame laudatório que eles exigiriam?
A legislação em vigor permite que Fernando Collor barre uma biografia não autorizada, em nome de sua “boa fama”. Idem o juiz Lalau e o torturador Brilhante Ustra. É assim porque a lei vale para todos, artistas ou não. Pense bem: a prerrogativa de contar a história passou ao coronel Ustra.
No seu elegante artigo “Penso eu”, generoso com meu livro “Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo”, você menciona, sem título, uma biografia do Cabo Anselmo. Conheço três obras focadas no infiltrado que entregou a mulher grávida para repressores da ditadura a matarem (ela se chamava Soledad, e não Consuelo; todos tropeçamos, não somente os biógrafos).
As de 1984 e 99, com depoimentos mentirosos do covarde, assemelham-se a autobiografias. A de 81 é um breve perfil independente. A tragédia: publicado ainda durante a ditadura, este livro poderia ser proibido hoje, na democracia, amparado no Código Civil de 2002. A norma obscurantista transfere a Anselmo o poder de definir o conteúdo de uma biografia.
Concordo: é inaceitável a impunidade de biógrafo leviano ou criminoso que difunda informação “infamante ou mentirosa”. Mas a decisão tem de ser da Justiça, e não de censura prévia. Se o Judiciário é lento e a lei dócil com difamadores, aperfeiçoemos ambos. Somos contra o indulto de Natal porque, entre milhares de presos, meia dúzia foge? Crimes pontuais não devem abolir direitos coletivos. O conhecimento da história consagra-se como direito humano. Roberto Carlos é, sim, dono da vida dele. Mas não é dono da história.
Biografias são reportagens, que constituem gênero do jornalismo. Pagar royalties a personagens descaracteriza biografias não autorizadas _você propõe mesmo dar uns caraminguás aos netos do Médici?
Se defende que as filhas do Garrincha recebam pelo trabalho árduo do biógrafo, já pensou em remunerá-las, por ter citado o Mané junto com Pelé, Didi, Pagão e Canhoteiro? “O futebol”, sua música, não tem também “fins comerciais”? A imprensa de “fins comerciais” publica perfis. E se o Sarney e o Bolsonaro resolverem cobrar? Devemos reeditar a censura de outrora ou persistir no bom combate a ela?
Chico, perdoe o tom. Você merece interlocutores do “tempo da delicadeza” evocado em “Todo o sentimento”. Aceite um abraço e o carinho deste fã irrevogável.
Mário Magalhães é jornalista e biógrafo
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