sexta-feira, 18 de abril de 2014
domingo, 6 de abril de 2014
"A cesárea deve ser exceção e não regra" - Marilena Pereira
A Tarde/BA 06/04/2014
Revista Muito
Fabiana Mascarenhas
Revista Muito
Fabiana Mascarenhas
A obstetra Marilena Pereira defende o parto natural
Ela já perdeu a conta do número de partos que assistiu em 30 anos de
carreira como obstetra. Mas, há pelo menos 20, Marilena Pereira tem
priorizado trazer crianças ao mundo de maneira natural. Muitas delas
nascidas em domicílio, no aconchego da família. Formada pela Ufba, seu
interesse pela área surgiu após a leitura de um trabalho sobre parto de
cócoras do médico curitibano Moysés Paciornik, que a ajudou a entender
que este era o caminho para não se tornar mais uma obstetra a aumentar o
número escandaloso de cesáreas realizados no país. O que começou de
maneira intuitiva e sigilosa - por conta do temor das críticas dos
colegas - popularizou-se diante da demanda de mulheres que desejavam ter
filhos de forma natural. A experiência acumulada a colocou entre as
referências em parto natural no Brasil e representante do Movimento
Nacional pela Humanização do Parto. Atualmente, é coordenadora de
obstetrícia do Centro de Parto Normal da Mansão do Caminho, no qual
assiste partos pelo SUS. É também obstetra da Maternidade Climério de
Oliveira, além de atender pacientes em sua clínica particular. Duas
décadas depois, o cenário é outro, e ela diz que já não teme possíveis
críticas.
Há médicos que fazem duras críticas ao parto humanizado,
sobretudo em domicílio. Para eles, é arriscado para a mãe e o bebê. Como
a senhora lida com essas críticas?
Quando comecei, há cerca de 20 anos, havia muito receio. Sabia que não estava fazendo errado, mas temia a crítica dos colegas. Me formei dentro do modelo medicalocêntrico. No meio do processo, conheci o trabalho do médico curitibano Moysés Paciornik e passei um tempo no hospital dele. Me apaixonei. Sabia que era daquela forma que gostaria de atuar. Também participei de uma conferência da Rede Nacional pela Humanização do Parto (Rehuna). Um cenário novo se descortinou para mim porque vi que existiam, de fato, evidências científicas. Encontrar a medicina baseada em evidências foi uma transformação. Isso me deu mais segurança para continuar. Inicialmente, fazia tudo de forma intuitiva e sigilosa, mas, diante da enorme demanda das mulheres que queriam ter os filhos de forma natural, o meu trabalho se popularizou. Foi a partir daí que comecei a ganhar o apoio de outros profissionais e dos pais. Hoje já não temo as críticas dos colegas. O médico que critica não sabe do que está falando, não conhece o assunto.
Quando comecei, há cerca de 20 anos, havia muito receio. Sabia que não estava fazendo errado, mas temia a crítica dos colegas. Me formei dentro do modelo medicalocêntrico. No meio do processo, conheci o trabalho do médico curitibano Moysés Paciornik e passei um tempo no hospital dele. Me apaixonei. Sabia que era daquela forma que gostaria de atuar. Também participei de uma conferência da Rede Nacional pela Humanização do Parto (Rehuna). Um cenário novo se descortinou para mim porque vi que existiam, de fato, evidências científicas. Encontrar a medicina baseada em evidências foi uma transformação. Isso me deu mais segurança para continuar. Inicialmente, fazia tudo de forma intuitiva e sigilosa, mas, diante da enorme demanda das mulheres que queriam ter os filhos de forma natural, o meu trabalho se popularizou. Foi a partir daí que comecei a ganhar o apoio de outros profissionais e dos pais. Hoje já não temo as críticas dos colegas. O médico que critica não sabe do que está falando, não conhece o assunto.
Mas há,de fato,estudos que comparem a taxa de mortalidade dos partos hospitalares com os domiciliares?Sim. Estudos recentes mostram que há diferenças de desfechos desfavoráveis, tanto para a mãe quanto paraobebê, quando se compara o parto hospitalar com o domiciliar. Mas quando um parto domiciliar é assistido por profissionais capacitados, que sabem lidar com emergências, os riscos são pequenos. A vantagem de estar em ambiente hospitalar é que, se alguma complicação ocorrer, a possibilidade de resolução é mais rápida. Mas a mulher pode optar por ter seu filho no hospital, se dessa forma se sentir mais segura. Isso não a impede de ter um filho de forma natural. Só não se deve tirar dela esse direito e colocar sempre a cesárea como melhor opção.
Quais as complicações mais comuns em um parto domiciliar?
As complicações de qualquer parto. A parada de progressão é um exemplo (quando a mulher está em trabalho de parto e para a dilatação). Mas temos formas de acompanhar essa evolução e ver até quando se pode esperar. Só quando o risco é grande, optamos pela remoção para um hospital. Também pode ocorrer febre ou algum sinal de infecção materna ou alteração da frequência cardíaca do bebê. Essas são as mais comuns. Uma hemorragia pós-parto também, mas é menos comum. Nesses 20 anos, por exemplo, nunca tive nenhuma remoção para hospital por hemorragia. E há também uma série de complicações que podem ocorrer em uma cesárea.
As complicações de qualquer parto. A parada de progressão é um exemplo (quando a mulher está em trabalho de parto e para a dilatação). Mas temos formas de acompanhar essa evolução e ver até quando se pode esperar. Só quando o risco é grande, optamos pela remoção para um hospital. Também pode ocorrer febre ou algum sinal de infecção materna ou alteração da frequência cardíaca do bebê. Essas são as mais comuns. Uma hemorragia pós-parto também, mas é menos comum. Nesses 20 anos, por exemplo, nunca tive nenhuma remoção para hospital por hemorragia. E há também uma série de complicações que podem ocorrer em uma cesárea.
Em quais situações a cirurgia deve, de fato, ser indicada?
As indicações são poucas. Diabetes e pré-eclâmpsia, sim, mas não necessariamente. A cesárea deve ser indicada se o bebê está em situação transversa (atravessado), placenta prévia oclusiva total (quando a placentafechaocolo uterino), prolapso de cordão (quando ele se exterioriza), e em casos de herpes genital ativa. Qualquer outra indicação deve passar por avaliação criteriosa.
As indicações são poucas. Diabetes e pré-eclâmpsia, sim, mas não necessariamente. A cesárea deve ser indicada se o bebê está em situação transversa (atravessado), placenta prévia oclusiva total (quando a placentafechaocolo uterino), prolapso de cordão (quando ele se exterioriza), e em casos de herpes genital ativa. Qualquer outra indicação deve passar por avaliação criteriosa.
O que seria um parto humanizado?Aquele que respeita as decisões da mulher, no qual o médico não é a figura central. Um parto em que ela possa contar como suporte emocional de uma equipe e o acompanhamento da família, em que possa decidir a forma como vai ter seu filho, que nãoseja somente em posição de litotomia (deitada coma barriga para cima e as pernas levantadas), sem ter o parto induzido ou acelerado com ocitocina ou em uma episiotomia (corte do períneo para supostamente facilitar a passagem do bebê). O parto não era ligado à medicina. Como tempo foi que deixou de ser algo familiar e íntimo para ser medicalizado.
Creio que a senhora concorda que recusar uma recomendação médica é uma decisão difícil. Como lidar com isso?
Primeiro, cominformação. Se a mulher souber em quais situações a cesariana é indicada, ela vai poder ter noção dos riscos. O médico, de fato, é a pessoa que deve orientar os pais, mas a decisão sobre o tipo de parto deve ser da gestante e da família. Uma das coisas que o Movimento pela Humanização do Parto mais preza é o direito à escolha. Mas, na cultura brasileira, só o médico toma decisão, o paciente só obedece.
Primeiro, cominformação. Se a mulher souber em quais situações a cesariana é indicada, ela vai poder ter noção dos riscos. O médico, de fato, é a pessoa que deve orientar os pais, mas a decisão sobre o tipo de parto deve ser da gestante e da família. Uma das coisas que o Movimento pela Humanização do Parto mais preza é o direito à escolha. Mas, na cultura brasileira, só o médico toma decisão, o paciente só obedece.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que apenas 15% dos partos sejam cesáreas.Narede privada,oíndice é de 82%. Há uma epidemia?
Sim,sem sombra de dúvida.Mais de 50% de nascimentos realizados no país é por meio desse tipo de cirurgia. A cesárea é extremamente importante, salva inúmeras vidas,mas deve ser exceção e não regra. Isso ocorre,em parte, porque ela passou a ser aceita culturalmente como um modo normal de dar à luz, mas, originalmente, foi criada para aliviar condições adversas maternas ou fetais, quando há riscos para a mãe, o bebê ou para ambos.
O que faz os médicos incentivarem suas pacientes a optarem pela cesárea?
São vários os motivos. Obstetras são pagos apenas pelo parto e não pelas inúmeras horas de acompanhamento, embora hoje isso não seja totalmente verdadeiro–vários planos de saúde remuneram, embora pouco e com restrições.Um parto normal pode durar mais de 24 horas; uma cesariana
dura cerca de 40 minutos. Há o modelo de assistência obstétrica do país, a falta de leitos nos hospitais, a formação do médico, voltada para a patologia e a intervenção, enfim, são muitas coisas.
São vários os motivos. Obstetras são pagos apenas pelo parto e não pelas inúmeras horas de acompanhamento, embora hoje isso não seja totalmente verdadeiro–vários planos de saúde remuneram, embora pouco e com restrições.Um parto normal pode durar mais de 24 horas; uma cesariana
dura cerca de 40 minutos. Há o modelo de assistência obstétrica do país, a falta de leitos nos hospitais, a formação do médico, voltada para a patologia e a intervenção, enfim, são muitas coisas.
Um dos argumentos mais usados é que a cirurgia foi solicitada pela própria mãe.
É a cultura da cesariana a pedido da mãe, uma cultura que não é verdadeira, já que há estudo mostrando que 70% das gestantes gostariam de ter filho de modo natural
É a cultura da cesariana a pedido da mãe, uma cultura que não é verdadeira, já que há estudo mostrando que 70% das gestantes gostariam de ter filho de modo natural
Muitas mulheres associam parto normal a dor, e a maioria não quer sentir dor.
Muitas desconhecem que há uma série de técnicas de relaxamento para aliviar a dor.O fato de o parto ser em um local acolhedor ,no qual a mulher tem privacidade, segurança e liberdade, contribui para atenuar o desconforto. Ter o apoio de uma enfermeira obstétrica e de uma doula – que auxilia a mãe no parto – também é importante. Há massagens, bolas e banhos que são aliados. Durante a gravidez, fazer atividades comoioga, caminhada,hidroginástica, alongamento ajuda a preparar a musculatura da vagina e da pélvi spara o nascimento. Há ainda a possibilidade de analgesia farmacológica.
Muitas desconhecem que há uma série de técnicas de relaxamento para aliviar a dor.O fato de o parto ser em um local acolhedor ,no qual a mulher tem privacidade, segurança e liberdade, contribui para atenuar o desconforto. Ter o apoio de uma enfermeira obstétrica e de uma doula – que auxilia a mãe no parto – também é importante. Há massagens, bolas e banhos que são aliados. Durante a gravidez, fazer atividades comoioga, caminhada,hidroginástica, alongamento ajuda a preparar a musculatura da vagina e da pélvi spara o nascimento. Há ainda a possibilidade de analgesia farmacológica.
A senhora é coordenadora de obstetrícia do Centro d eParto Normal d aMansão do Caminho, no qual realiza partos pelo SUS.Existe algum critério para a gestante ser aceita no centro?
Não. O centro faz parte da Rede Cegonha, programa do Ministério da Saúde, e está aberto para qualquer pessoa. Em 2 anos e meio, já assistimos cerca de mil nascimentos, com alto índice de segurança e satisfação, embora ainda tenhamos uma demanda aquém da nossa capacidade. Para saber mais informações, as pessoas podem entrar em contato pele telefone 71-34098333.
Não. O centro faz parte da Rede Cegonha, programa do Ministério da Saúde, e está aberto para qualquer pessoa. Em 2 anos e meio, já assistimos cerca de mil nascimentos, com alto índice de segurança e satisfação, embora ainda tenhamos uma demanda aquém da nossa capacidade. Para saber mais informações, as pessoas podem entrar em contato pele telefone 71-34098333.
No documentário O Renascimento do Parto, o obstetra e pensador francês Michel Odent fala sobre a ocitocina, o chamado hormônio do amor, e sobr e como o tipo de parto interfere nas emoções. Fale um pouco sobre isso.
Há pesquisadores que mostram que, nos partos com intervenção ou na cesárea, há a perda da liberação natural de hormônios próprios do processo do parto, principalmente da ocitocina, ou hormônio do amor, comodiz MichelOdent. Esse hormônio, liberado pela mãe durante o trabalho de parto, não é apenas responsável pelas contrações uterinas, mas por preparar a mãe para a formação do vínculo com seu bebê e para a amamentação. Esse amor, que ali começa a ser estabelecido, será o protótipo de todas as formas de amor que esse indivíduo irá desenvolver ao longa da vida.
Há pesquisadores que mostram que, nos partos com intervenção ou na cesárea, há a perda da liberação natural de hormônios próprios do processo do parto, principalmente da ocitocina, ou hormônio do amor, comodiz MichelOdent. Esse hormônio, liberado pela mãe durante o trabalho de parto, não é apenas responsável pelas contrações uterinas, mas por preparar a mãe para a formação do vínculo com seu bebê e para a amamentação. Esse amor, que ali começa a ser estabelecido, será o protótipo de todas as formas de amor que esse indivíduo irá desenvolver ao longa da vida.
sábado, 5 de abril de 2014
O golpe militar e eu - Luiz Mott
A Tarde/BA 05/04/2014
Luiz Mott
Professor titular de Antropologia da Ufba
luizmott@oi.com.br
Entre 1965-1968 participei de uma dezena
de passeatas pelo centro da Pauliceia Desvairada,
cujos brados eram “abaixo a ditadura!”
Fora Aliança para o Progresso! Quebramos
muita vidraça, sobretudo de bancos
norte-americanos; jogávamos rolhas e bolinhas
de gude pra fazer cavalos e cavaleiros da
PMcaírem no chão. Numa destas passeatas, eu
raspara a barba pra não parecer comunista,
debalde: fui preso e fichado com centenas de
outros manifestantes, noite terrível numa cela
do Dops. Minha foto saiu na manchete do
Estadão, cinco agentes me agarrando. Fui preso
uma segunda vez, acusado de planejar
atentado contra o consulado norte-americano
da avenida Paulista.
Ainda em 1982, nos estertores dos anos de
chumbo, consta no Dops minucioso relatório
de um agente relatando minha palestra sobre
sexualidade para enorme auditório na Unicamp:
a ditadura desconfiava desse barbudo
pioneiro domovimento de libertação gay, cujos
militantes mais anarquistas e radicais gritavam:
“o coito anal derruba o capital!”
Luiz Mott
Professor titular de Antropologia da Ufba
luizmott@oi.com.br
Tinha 17 anos quando os militares tomaram o
poder. Eu era então seminarista
no Convento Dominicano de S. Paulo, a
ordem mais esquerdista de nossa história, a
mesma que acobertou Marighela e outros subversivos.
Alguns meus irmãos de hábito foram
presos e torturados. Deixando o convento, entrei
na mais marxista das faculdades da USP,
Ciências Sociais, a aguerrida Maria Antônia,
adversária belicosa da Universidade Mackenzie,
então, baluarte da extrema direita, commuitos
membros do CCC (Comando de Caça aos Comunistas).
Tive como mestres Florestan Fernandes,
FHC e outros marxistas caçados e exilados
pela ditadura. Participei de reuniões da
Ação Popular, Polop, JUC, grupos clandestinos
de oposição aos “gorilas”, como então chamávamos
aos milicos. Meu pai, italiano antifascista,
sempre foi de esquerda; meus irmãos
gêmeos eram anticomunistas e meus dois cunhados,
marxistas-leninistas. Escondemos no
sótão de minha casa um enorme baú com
muitos livros marxistas de um subversivo caçado
pelo Dops.
poder. Eu era então seminarista
no Convento Dominicano de S. Paulo, a
ordem mais esquerdista de nossa história, a
mesma que acobertou Marighela e outros subversivos.
Alguns meus irmãos de hábito foram
presos e torturados. Deixando o convento, entrei
na mais marxista das faculdades da USP,
Ciências Sociais, a aguerrida Maria Antônia,
adversária belicosa da Universidade Mackenzie,
então, baluarte da extrema direita, commuitos
membros do CCC (Comando de Caça aos Comunistas).
Tive como mestres Florestan Fernandes,
FHC e outros marxistas caçados e exilados
pela ditadura. Participei de reuniões da
Ação Popular, Polop, JUC, grupos clandestinos
de oposição aos “gorilas”, como então chamávamos
aos milicos. Meu pai, italiano antifascista,
sempre foi de esquerda; meus irmãos
gêmeos eram anticomunistas e meus dois cunhados,
marxistas-leninistas. Escondemos no
sótão de minha casa um enorme baú com
muitos livros marxistas de um subversivo caçado
pelo Dops.
Entre 1965-1968 participei de uma dezena
de passeatas pelo centro da Pauliceia Desvairada,
cujos brados eram “abaixo a ditadura!”
Fora Aliança para o Progresso! Quebramos
muita vidraça, sobretudo de bancos
norte-americanos; jogávamos rolhas e bolinhas
de gude pra fazer cavalos e cavaleiros da
PMcaírem no chão. Numa destas passeatas, eu
raspara a barba pra não parecer comunista,
debalde: fui preso e fichado com centenas de
outros manifestantes, noite terrível numa cela
do Dops. Minha foto saiu na manchete do
Estadão, cinco agentes me agarrando. Fui preso
uma segunda vez, acusado de planejar
atentado contra o consulado norte-americano
da avenida Paulista.
Ainda em 1982, nos estertores dos anos de
chumbo, consta no Dops minucioso relatório
de um agente relatando minha palestra sobre
sexualidade para enorme auditório na Unicamp:
a ditadura desconfiava desse barbudo
pioneiro domovimento de libertação gay, cujos
militantes mais anarquistas e radicais gritavam:
“o coito anal derruba o capital!”
A Ucrânia e o czar da KGB - JC Teixeira Gomes
A Tarde/BA 05/04/2014
JC Teixeira Gomes
Jornalista, membro da
Academia de Letras da Bahia
jcteixeiragomes@hotmail.com
Putin tem muitos admiradores na Rússia
porque, sob sua administração, o país
conseguiu superaras dificuldades econômicas
da décadade 90. Mas o resto do
mundo não se esquecede que o governante
desenvolveucarreira pregressa
no sinistro âmbitoda KGB, órgão repressor
de má fama,ligado à segurança
do estado soviético.Completam o quadro
a tradição autoritáriado czarismo e os
horrores políticos dostalinismo. As novas
lideranças ucranianas pugnavam por uma
Considerada um dos celeiros do mundo,
a Ucrânia sofreu na II GuerraMundial
a brutal agressão do hitlerismo durante
778 dias, como, em tempos bem mais
recuados, foi invadida por mongóis, poloneses,
lituanos, turcos e cossacos. O
neto de Gengis Khan destruiu a parte alta
da cidade, dividida, como Salvador, em
dois planos. A sobrevivência do país
diante de tantos infortúnios acentuou o
sólido nacionalismo do seu povo.
Um dos mais impressionantes monumentos
de Kiev é o museu ao ar livre da
II Guerra Mundial, repleto de murais e
esculturas, armas em geral do conflito,
além de uma imponente estátua simbolizando
a Mãe Rússia Vencedora, que
rivaliza com a maior, construída em Stalingrado,
de 85 metros de altura (o elevador
Lacerda tem 70 metros).
A Rússia começou em Kiev, antes que
Moscou se tornasse a capital do Império
Russo. A bela e agitada cidade, de largas
avenidas e elegantes bulevares, tem cerca
de 1.500 anos. Foi a capital dos rus, povo
eslavo oriental, nos séculos XIV e XV, bem
como área de influência do Império Bizantino,
que até hoje marca a vida da capital
com o rico legado da sua cultura,
patente na profusão dos esplêndidos mosaicos
das suas igrejas, notadamente na
catedral de Santa Sofia, obra-prima da igreja
ortodoxa. No centro da catedral esplende
uma impressionante imagem em mosaicos
da Virgem Maria, mais bela do que a
existente na Santa Sofia de Istambul. Relata
a lenda que o poder da sua beleza intimidou
os invasores mongóis, obrigados a
recuar diante do impacto causado pela imponência
da Virgem.
Outro monumento público grandioso
de Kiev é o Memorial Golodomor, construído
para registrar a miséria da Grande
Fome de 1932-1933, que matou mais de
quatro milhões de ucranianos pela política
de expropriações do stalinismo. Se
a reforma agrária se impunha na Rússia
pela brutal tradiçãoagrícola da escravidão
dos mujiques,foi entretanto executada
coma violênciaque caracterizava
as ações stalinistas,disseminando o terror
no celeiro ucranianoe na União Soviéticaem geral.
Para anexar a Crimeia, Putin evocou o
patriotismo dos russos lá radicados. Curiosamente,
foi assim que Hitler iniciou
a II Guerra Mundial: alegando defender
os alemães dos sudetos tchecos e da cidade
livre de Dantzig, na Polônia. Omundo
mudou pouco nestes setenta anos e a
violência humana continua a mesma.
JC Teixeira Gomes
Jornalista, membro da
Academia de Letras da Bahia
jcteixeiragomes@hotmail.com
Estou em viagem que deverá ser demorada,
mas achei que devia deixar
estas notas sobre a crise que
envolveu a Ucrânia, por ter visitado aquele
país em 2011 e conhecer bastante a
Rússia. Durante a minha agradável permanência
em Kiev, a capital da Ucrânia,
e na histórica cidade de Odessa, jamais
imaginei que as relações entre os dois
países chegariam ao nível de desgaste
dos últimos meses, mas uma coisa ficou
muito clara para mim: os ucranianos detestam
a Rússia, sobretudo pelo traumático
legado do período stalinista. O mesmo
sentimento antirrusso domina hoje
os países bálticos: o comunismo soviético,
por onde passou, não deixou boas
lembranças.
mas achei que devia deixar
estas notas sobre a crise que
envolveu a Ucrânia, por ter visitado aquele
país em 2011 e conhecer bastante a
Rússia. Durante a minha agradável permanência
em Kiev, a capital da Ucrânia,
e na histórica cidade de Odessa, jamais
imaginei que as relações entre os dois
países chegariam ao nível de desgaste
dos últimos meses, mas uma coisa ficou
muito clara para mim: os ucranianos detestam
a Rússia, sobretudo pelo traumático
legado do período stalinista. O mesmo
sentimento antirrusso domina hoje
os países bálticos: o comunismo soviético,
por onde passou, não deixou boas
lembranças.
Putin tem muitos admiradores na Rússia
porque, sob sua administração, o país
conseguiu superaras dificuldades econômicas
da décadade 90. Mas o resto do
mundo não se esquecede que o governante
desenvolveucarreira pregressa
no sinistro âmbitoda KGB, órgão repressor
de má fama,ligado à segurança
do estado soviético.Completam o quadro
a tradição autoritáriado czarismo e os
horrores políticos dostalinismo. As novas
lideranças ucranianas pugnavam por uma
abertura para o Ocidente, contra a
tradição histórica do opressor garrote comunista.
tradição histórica do opressor garrote comunista.
Considerada um dos celeiros do mundo,
a Ucrânia sofreu na II GuerraMundial
a brutal agressão do hitlerismo durante
778 dias, como, em tempos bem mais
recuados, foi invadida por mongóis, poloneses,
lituanos, turcos e cossacos. O
neto de Gengis Khan destruiu a parte alta
da cidade, dividida, como Salvador, em
dois planos. A sobrevivência do país
diante de tantos infortúnios acentuou o
sólido nacionalismo do seu povo.
Um dos mais impressionantes monumentos
de Kiev é o museu ao ar livre da
II Guerra Mundial, repleto de murais e
esculturas, armas em geral do conflito,
além de uma imponente estátua simbolizando
a Mãe Rússia Vencedora, que
rivaliza com a maior, construída em Stalingrado,
de 85 metros de altura (o elevador
Lacerda tem 70 metros).
A Rússia começou em Kiev, antes que
Moscou se tornasse a capital do Império
Russo. A bela e agitada cidade, de largas
avenidas e elegantes bulevares, tem cerca
de 1.500 anos. Foi a capital dos rus, povo
eslavo oriental, nos séculos XIV e XV, bem
como área de influência do Império Bizantino,
que até hoje marca a vida da capital
com o rico legado da sua cultura,
patente na profusão dos esplêndidos mosaicos
das suas igrejas, notadamente na
catedral de Santa Sofia, obra-prima da igreja
ortodoxa. No centro da catedral esplende
uma impressionante imagem em mosaicos
da Virgem Maria, mais bela do que a
existente na Santa Sofia de Istambul. Relata
a lenda que o poder da sua beleza intimidou
os invasores mongóis, obrigados a
recuar diante do impacto causado pela imponência
da Virgem.
Outro monumento público grandioso
de Kiev é o Memorial Golodomor, construído
para registrar a miséria da Grande
Fome de 1932-1933, que matou mais de
quatro milhões de ucranianos pela política
de expropriações do stalinismo. Se
a reforma agrária se impunha na Rússia
pela brutal tradiçãoagrícola da escravidão
dos mujiques,foi entretanto executada
coma violênciaque caracterizava
as ações stalinistas,disseminando o terror
no celeiro ucranianoe na União Soviéticaem geral.
Visitei demoradamenteo extraordinário
parque Golodomor,sob uma emoção
que me levou às lágrimas.
parque Golodomor,sob uma emoção
que me levou às lágrimas.
Jamais poderãoser esquecidas a
exuberância da sua documentação e a comovente
profusão de monumentos denunciando
a fome coletiva na Ucrânia. Entre
estes, destaque para a estátua de uma menina
subnutrida, que abala o visitante logo
na entrada do parque, pela notável capacidade
do artista de imprimir o sofrimento
da fome na solidez do cimento. Anjos esculpidos
em pedra branca margeiam a ala
central do museu, que se completa numa
área subterrânea.
exuberância da sua documentação e a comovente
profusão de monumentos denunciando
a fome coletiva na Ucrânia. Entre
estes, destaque para a estátua de uma menina
subnutrida, que abala o visitante logo
na entrada do parque, pela notável capacidade
do artista de imprimir o sofrimento
da fome na solidez do cimento. Anjos esculpidos
em pedra branca margeiam a ala
central do museu, que se completa numa
área subterrânea.
Para anexar a Crimeia, Putin evocou o
patriotismo dos russos lá radicados. Curiosamente,
foi assim que Hitler iniciou
a II Guerra Mundial: alegando defender
os alemães dos sudetos tchecos e da cidade
livre de Dantzig, na Polônia. Omundo
mudou pouco nestes setenta anos e a
violência humana continua a mesma.
domingo, 30 de março de 2014
domingo, 23 de março de 2014
Perfil:Isaac Bardavid - Ele não é imortal como o Wolverine, mas sua voz, sim
O Globo 23/03/2014
Com 83 anos e uma longa carreira na TV e no teatro, o artista é responsável pela dublagem de personagens de desenhos animados clássicos, como o vilão Esqueleto, de ‘He-Man’; Tigrão, de ‘Ursinho Puff’; e o mais popular dos X-Men
GABRIEL MENEZES
gabriel.menezes@oglobo.com.br
No início da conversa com
a equipe do GLOBO-Niterói,
ele fez questão de frisar.
— O problema dessas entrevistas
é que... Sem qualquer
ofensa, geralmente são
feitas as mesmas perguntas e
eu tenho que dar as mesmas
respostas. Se você me pergunta
como eu comecei a
atuar, não tenho como inventar
uma história diferente.
Posto isso, vamos logo em
frente — disse, pronto para a
primeira pergunta.
Aos 83 anos (“Ninguém me
dá menos que 97’’, brinca), Bardavid
conquistou o público de
uma forma que poucos atores
conseguem. Para quem já passou
dos 50, ele é lembrado como
o cruel feitor Francisco da
novela “Escrava Isaura’’, de 1976,
seu papel de maior destaque na
TV. Já para os mais jovens —
que talvez nem tenham visto
seu rosto — ele é reconhecido
pela voz que dá vida a ícones da
cultura pop, como o mutante
mais popular da série X-Men;
Esqueleto, o vilão de “He-Man’’;
Tigrão (amigo do ursinho Puff);
e Capitão Haddock, o grande
parceiro de Tintim.
— Hoje em dia, sou mais reconhecido
pela minha voz.
Quando vou ao banco ou paro
diante de um guichê, geralmente
me perguntam se sou
dublador. Como ator, o papel
de Francisco foi meu maior sucesso.
Tanto é que fiz mais de
30 trabalhos na TV e muitas
pessoas acham que só tive
aquele — diz o artista.
Mas sua vida não se resume à
lembranças, pelo contrário: ele
mantém um ritmo intenso de
trabalho. Além de estar no ar
na novela das 19h da TV Globo,
“Além do horizonte”, Bardavid
faz dublagens praticamente
todos os dias. Uma de
suas próximas tarefas será colocar
voz no filme “X-Men: Dias
de um futuro esquecido”,
que chegará aos cinemas no
fim de maio.
— Na minha idade, não espero
muita coisa. Porém, não
reclamo. Tive, e ainda tenho,
uma vida muito boa. Poderia
ter parado de trabalhar, mas
nem penso nisso. Vida é movimento
— decreta.
NASCIDO E CRIADO EM NITERÓI
Bardavid nasceu numa casa na
Rua General Andrade de Neves,
no Centro, e nunca morou
em outra cidade. Atualmente,
vive num apartamento no
bairro de Santa Rosa, cercado
por centenas de livros, DVDs,
CDs de música clássica e presentes
de fãs, como uma caricatura
enviada de Cuba na
época da novela “Escrava Isaura’’
e um quadro que retrata o
feitor Francisco com as garras
do Wolverine. Apesar de morar
sozinho, ele é casado e, em setembro,
completará 54 anos de
união, com três filhos e cinco
netos já adultos.
— Eu e minha mulher nos
damos muito bem. Morar em
casas separadas foi a maneira
que encontramos para o casamento
dar certo — conta.
O ator e dublador considera
ter tido uma infância muito
mais divertida que a das crianças
de hoje, já que brincava na
rua, “em vez de ficar em frente
ao computador e à TV o dia inteiro’’.
Entre suas atividades
prediletas estavam jogar pião e
soltar cafifa. E tornou-se um
leitor voraz ainda menino.
— Quando alguém diz que as
pessoas mais velhas são muito
saudosistas não me sinto ofendido.
Eu sou mesmo. Antigamente,
a vida era mais tranquila,
mais devagar. A cidade ainda
não tinha essa poluição e
esse trânsito caótico — reclama
Bardavid.
Como já disse em várias entrevistas,
foi justamente na
rua, por acaso, que ele entrou
para o mundo da dramaturgia.
Aos 17 anos, enquanto batia
papo com amigos, avistou algumas
pessoas colando cartazes
nos muros. Ofereceu-se
para ajudar e acabou ganhando
um ingresso para “O dote”,
de Artur Azevedo, que estava
em cartaz no Teatro Municipal
de Niterói. Ele viu a peça e fez
questão de passar pelo camarim
para agradecer mais uma
vez pela cortesia.
— Estava conversando com
os produtores quando chegou
uma mulher muito nervosa,
dizendo que o ponto havia faltado.
Ponto era uma pessoa
que ficava escondida no palco,
lembrando as falas para os atores.
Naquela época, ninguém
decorava o texto todo. Eu me
ofereci para fazer o serviço e
eles adoraram — conta.
Depois de ser requisitado
outras vezes para a função,
ele decidiu que, se era para
trabalhar na área, queria estar
em cima do palco. Entrou
para o Clube Dramático
Fluminense, um grupo
amador, e, já no segundo espetáculo,
foi convidado pela
diretora e autora Maria Jacintha
para uma peça profissional.
— Aos 45 anos, fiz faculdade
de Direito e me formei,
mas segui trabalhando com
dramaturgia. Minha vida
sempre foi isso — diz.
Com 83 anos e uma longa carreira na TV e no teatro, o artista é responsável pela dublagem de personagens de desenhos animados clássicos, como o vilão Esqueleto, de ‘He-Man’; Tigrão, de ‘Ursinho Puff’; e o mais popular dos X-Men
GABRIEL MENEZES
gabriel.menezes@oglobo.com.br
O temperamento e até mesmo
o visual de Isaac Bardavid
lembram o personagem
mais famoso que ele dubla
na TV e nos cinemas. Assim
como Wolverine, o artista
tem uma personalidade forte,
fala o que pensa e, até de
bom humor, carrega uma
certa dose de ranzinzice. As
sobrancelhas grossas e a barba
também ajudam na associação
ao herói.
o visual de Isaac Bardavid
lembram o personagem
mais famoso que ele dubla
na TV e nos cinemas. Assim
como Wolverine, o artista
tem uma personalidade forte,
fala o que pensa e, até de
bom humor, carrega uma
certa dose de ranzinzice. As
sobrancelhas grossas e a barba
também ajudam na associação
ao herói.
No início da conversa com
a equipe do GLOBO-Niterói,
ele fez questão de frisar.
— O problema dessas entrevistas
é que... Sem qualquer
ofensa, geralmente são
feitas as mesmas perguntas e
eu tenho que dar as mesmas
respostas. Se você me pergunta
como eu comecei a
atuar, não tenho como inventar
uma história diferente.
Posto isso, vamos logo em
frente — disse, pronto para a
primeira pergunta.
Aos 83 anos (“Ninguém me
dá menos que 97’’, brinca), Bardavid
conquistou o público de
uma forma que poucos atores
conseguem. Para quem já passou
dos 50, ele é lembrado como
o cruel feitor Francisco da
novela “Escrava Isaura’’, de 1976,
seu papel de maior destaque na
TV. Já para os mais jovens —
que talvez nem tenham visto
seu rosto — ele é reconhecido
pela voz que dá vida a ícones da
cultura pop, como o mutante
mais popular da série X-Men;
Esqueleto, o vilão de “He-Man’’;
Tigrão (amigo do ursinho Puff);
e Capitão Haddock, o grande
parceiro de Tintim.
— Hoje em dia, sou mais reconhecido
pela minha voz.
Quando vou ao banco ou paro
diante de um guichê, geralmente
me perguntam se sou
dublador. Como ator, o papel
de Francisco foi meu maior sucesso.
Tanto é que fiz mais de
30 trabalhos na TV e muitas
pessoas acham que só tive
aquele — diz o artista.
Mas sua vida não se resume à
lembranças, pelo contrário: ele
mantém um ritmo intenso de
trabalho. Além de estar no ar
na novela das 19h da TV Globo,
“Além do horizonte”, Bardavid
faz dublagens praticamente
todos os dias. Uma de
suas próximas tarefas será colocar
voz no filme “X-Men: Dias
de um futuro esquecido”,
que chegará aos cinemas no
fim de maio.
— Na minha idade, não espero
muita coisa. Porém, não
reclamo. Tive, e ainda tenho,
uma vida muito boa. Poderia
ter parado de trabalhar, mas
nem penso nisso. Vida é movimento
— decreta.
NASCIDO E CRIADO EM NITERÓI
Bardavid nasceu numa casa na
Rua General Andrade de Neves,
no Centro, e nunca morou
em outra cidade. Atualmente,
vive num apartamento no
bairro de Santa Rosa, cercado
por centenas de livros, DVDs,
CDs de música clássica e presentes
de fãs, como uma caricatura
enviada de Cuba na
época da novela “Escrava Isaura’’
e um quadro que retrata o
feitor Francisco com as garras
do Wolverine. Apesar de morar
sozinho, ele é casado e, em setembro,
completará 54 anos de
união, com três filhos e cinco
netos já adultos.
— Eu e minha mulher nos
damos muito bem. Morar em
casas separadas foi a maneira
que encontramos para o casamento
dar certo — conta.
O ator e dublador considera
ter tido uma infância muito
mais divertida que a das crianças
de hoje, já que brincava na
rua, “em vez de ficar em frente
ao computador e à TV o dia inteiro’’.
Entre suas atividades
prediletas estavam jogar pião e
soltar cafifa. E tornou-se um
leitor voraz ainda menino.
— Quando alguém diz que as
pessoas mais velhas são muito
saudosistas não me sinto ofendido.
Eu sou mesmo. Antigamente,
a vida era mais tranquila,
mais devagar. A cidade ainda
não tinha essa poluição e
esse trânsito caótico — reclama
Bardavid.
Como já disse em várias entrevistas,
foi justamente na
rua, por acaso, que ele entrou
para o mundo da dramaturgia.
Aos 17 anos, enquanto batia
papo com amigos, avistou algumas
pessoas colando cartazes
nos muros. Ofereceu-se
para ajudar e acabou ganhando
um ingresso para “O dote”,
de Artur Azevedo, que estava
em cartaz no Teatro Municipal
de Niterói. Ele viu a peça e fez
questão de passar pelo camarim
para agradecer mais uma
vez pela cortesia.
— Estava conversando com
os produtores quando chegou
uma mulher muito nervosa,
dizendo que o ponto havia faltado.
Ponto era uma pessoa
que ficava escondida no palco,
lembrando as falas para os atores.
Naquela época, ninguém
decorava o texto todo. Eu me
ofereci para fazer o serviço e
eles adoraram — conta.
Depois de ser requisitado
outras vezes para a função,
ele decidiu que, se era para
trabalhar na área, queria estar
em cima do palco. Entrou
para o Clube Dramático
Fluminense, um grupo
amador, e, já no segundo espetáculo,
foi convidado pela
diretora e autora Maria Jacintha
para uma peça profissional.
— Aos 45 anos, fiz faculdade
de Direito e me formei,
mas segui trabalhando com
dramaturgia. Minha vida
sempre foi isso — diz.
sábado, 22 de março de 2014
50 ANOS DO GOLPE
O Globo 22/03/2014
Obra mostra como as universidades,
focos de resistência ao regime, sofreram com a opressão, mas também
foram peça fundamental do projeto desenvolvimentista, passando por
amplas mudanças
Durante a ditadura, campus da UFRJ no Fundão foi construído e Unirio foi criada, mas expurgos de alunos e professores desfiguraram as instituições
Por Leonardo Cazes
Por Guilherme Freitas e Leonardo Cazes
Brasilianistas denunciaram regime militar no exterior
Acadêmicos americanos divulgaram casos de tortura, desafiaram governos e acolheram colegas brasileiros, recorda Ralph Della Cava
Por Guilherme Freitas
Em 1964, o americano Ralph Della Cava
desembarcou no Brasil para pesquisar sobre Padre Cícero, tema de seu
doutorado em ciências sociais na Universidade de Columbia. Depois de uma
passagem por Juazeiro do Norte, no Ceará, veio para o Rio, onde se viu
no turbilhão do golpe em 1º de abril. Testemunha de primeira hora dos
abusos cometidos pelos militares, ele se tornou, ao voltar para os
Estados Unidos, um dos principais articuladores de uma campanha que
buscava denunciar a ditadura brasileira no exterior. Ao lado de outros
especialistas em história do Brasil, conhecidos como “brasilianistas”,
Della Cava fundou associações como o American Committee for Information
on Brazil (Comitê Americano para Informação sobre o Brasil) e o American
Friends of Brazil (Amigos Americanos do Brasil). Nos anos 1970, esses
acadêmicos traduziram e divulgaram depoimentos de presos políticos e
documentos comprovando torturas, promoveram palestras de exilados
brasileiros em universidades e denunciaram o envolvimento de autoridades
americanas no golpe. Pesquisador do Instituto de Estudos
Latino-americanos de Columbia e autor de uma obra de referência sobre
Cícero (”Milagre em Joaseiro”, que acaba de ganhar nova edição pela
Companhia das Letras), ele relembra a campanha nesta entrevista por
e-mail.
O senhor estava no Rio no momento do golpe de 1964. Quais são suas lembranças daquele dia?
Editoras e livrarias que se tornaram refúgio e referência para autores perseguidos enfrentaram forte
“FELIZ ANO NOVO” NOS MOSTRA UMA ESPÉCIE DE MARCO ZERO DE UMA VIOLÊNCIA QUE, APESAR DOS LONGOS ANOS DE DEMOCRACIA, AINDA SE ENCENA NO PAÍS
Por Guilherme Freitas
Contradições do autoritarismo: as universidades e o regime militar
Obra mostra como as universidades,
focos de resistência ao regime, sofreram com a opressão, mas também
foram peça fundamental do projeto desenvolvimentista, passando por
amplas mudanças
Por Leonardo Cazes
As
universidades foram o principal centro de resistência à ditadura
militar que começou em 1964. Ao mesmo tempo, tinham um papel central no
projeto desenvolvimentista que ganhou corpo a partir do governo Costa e
Silva, em 1967. Esse conflito atravessou todas as políticas dos regime
para o ensino superior. Com uma mão, os militares criaram o regime de
dedicação exclusiva para professores, investiram em laboratórios, na
construção de novos campi e quadruplicaram o número de vagas. Com a
outra, aposentaram compulsoriamente dezenas de docentes e pesquisadores,
perseguiram e expulsaram estudantes. Os dois grupos foram alvos
preferenciais da máquina da repressão.
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Repressão e crescimento
Nas universidades do Rio, crescimento e repressão andaram juntos
Durante a ditadura, campus da UFRJ no Fundão foi construído e Unirio foi criada, mas expurgos de alunos e professores desfiguraram as instituições
Por Leonardo Cazes
No dia 7 de setembro de 1972, o presidente Emílio Garrastazu Médici inaugurou a cidade universitária da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no Fundão. A cerimônia fez parte das comemorações dos 150 anos da independência e é exemplo da importância dada pelo regime à sua política para o ensino superior público. Para os militares, a reforma universitária empreendida em 1968 e o investimento na construção de novos campi era uma forma de aplacar o principal foco de oposição, que se concentrava nas instituições, e de viabilizar o projeto desenvolvimentista. Durante a ditadura, as universidades viveram um boom de investimentos e foram reorganizadas no modelo departamental, atualmente em vigor.
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Ideias no exílio
Prisões, torturas e cassações forçaram alguns dos mais destacados pensadores da época, nas humanidades e nas ciências, a deixar o país. Projetos de pesquisa foram interrompidos e carreiras acadêmicas tiveram o rumo alterado
Por Guilherme Freitas e Leonardo Cazes
Em
1º de abril de 1964, Luiz Costa Lima saiu de casa cedo e foi para a
Universidade do Recife, onde dava aulas de literatura e colaborava com o
Serviço de Extensão Cultural (SEC), inovador programa de alfabetização
de adultos liderado pelo educador Paulo Freire. Preparava-se para
enfrentar o golpe iminente. No campus, ele e um colega expropriaram uma
kombi e um mimeógrafo, que julgaram essenciais para a resistência
democrática.
CONTINUE LENDO...
Artigo
O cultivo da terra estéril - LUIZ COSTA LIMA
ENTRE
NÓS, OS
PRÓPRIOS
TERMOS
“CULTURA” E
“REFLEXÃO”
SÃO VISTOS
COM FASTIO
NÓS, OS
PRÓPRIOS
TERMOS
“CULTURA” E
“REFLEXÃO”
SÃO VISTOS
COM FASTIO
Já não se duvida que o golpe de 64 instaurou uma ditadura. Tampouco é questionável que toda ditadura representa uma presença letal a qualquer vigor cultural. Cultura supõe cultivo, seja das terras do chão, seja da terra da mente. Para que o golpe tivesse significado outra coisa senão medo, rancor surdo, sensação de impotência seria preciso que tivesse lidado com outra humanidade. Chega a ser ocioso pensar-se que a nossa recente ditadura pudesse ter tido outro perfil que não o de suas semelhantes. O que escrevo só fará sentido se considerarmos a ditadura de 64 dentro das coordenadas nacionais.
CONTINUE LENDO...
Acadêmicos americanos divulgaram casos de tortura, desafiaram governos e acolheram colegas brasileiros, recorda Ralph Della Cava
Por Guilherme Freitas
Em 1964, o americano Ralph Della Cava
desembarcou no Brasil para pesquisar sobre Padre Cícero, tema de seu
doutorado em ciências sociais na Universidade de Columbia. Depois de uma
passagem por Juazeiro do Norte, no Ceará, veio para o Rio, onde se viu
no turbilhão do golpe em 1º de abril. Testemunha de primeira hora dos
abusos cometidos pelos militares, ele se tornou, ao voltar para os
Estados Unidos, um dos principais articuladores de uma campanha que
buscava denunciar a ditadura brasileira no exterior. Ao lado de outros
especialistas em história do Brasil, conhecidos como “brasilianistas”,
Della Cava fundou associações como o American Committee for Information
on Brazil (Comitê Americano para Informação sobre o Brasil) e o American
Friends of Brazil (Amigos Americanos do Brasil). Nos anos 1970, esses
acadêmicos traduziram e divulgaram depoimentos de presos políticos e
documentos comprovando torturas, promoveram palestras de exilados
brasileiros em universidades e denunciaram o envolvimento de autoridades
americanas no golpe. Pesquisador do Instituto de Estudos
Latino-americanos de Columbia e autor de uma obra de referência sobre
Cícero (”Milagre em Joaseiro”, que acaba de ganhar nova edição pela
Companhia das Letras), ele relembra a campanha nesta entrevista por
e-mail.
O senhor estava no Rio no momento do golpe de 1964. Quais são suas lembranças daquele dia?
Minha
esposa e eu tínhamos ido ver um filme na Cinelândia com um casal de
amigos. Quando saímos do cinema, em meio ao som de tiros, ficou claro
que a “Gloriosa” estava em marcha. Conseguimos pegar um táxi e fomos
para a casa de nossos amigos, em Copacabana. Não foi a primeira nem a
última depredação que testemunhei. Um colega de Columbia, que trabalhava
como repórter na revista “Time”, pediu que eu ficasse de olho no prédio
da UNE. Contra todas as nossas esperanças, ele foi incendiado — e o
ódio foi um dos combustíveis.
CONTINUE LENDO...
Terror cultural
Editoras e livrarias que se tornaram refúgio e referência para autores perseguidos enfrentaram forte
repressão, incluindo atentados a bomba, mas procuraram manter o debate político durante o período
Por Guilherme Freitas
Numa das muitas ocasiões em que foi preso durante a ditadura, em maio de 1965, o editor Ênio Silveira recebeu uma inesperada demonstração de apoio. Na mira do regime desde o início por sua atuação à frente da Civilização Brasileira, casa de vários autores de oposição, ele foi detido por promover uma feijoada em homenagem ao ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes, cassado logo após o golpe. A prisão arbitrária foi contestada por um abaixo-assinado com mais de mil nomes, de militantes históricos de esquerda ao compositor Pixinguinha. E por um bilhete manuscrito do marechal Castelo Branco ao chefe de seu Gabinete Militar, general Ernesto Geisel: “Por que a prisão do Ênio? Só para depor?”, perguntava o presidente. “Apreensão de livros. Nunca se fez isso no Brasil. Só de alguns (alguns!) livros imorais. Os resultados são os piores possíveis contra nós. É mesmo um terror cultural”.
CONTINUE LENDO...
A origem do método - José Castello
“FELIZ ANO NOVO” NOS MOSTRA UMA ESPÉCIE DE MARCO ZERO DE UMA VIOLÊNCIA QUE, APESAR DOS LONGOS ANOS DE DEMOCRACIA, AINDA SE ENCENA NO PAÍS
Fixo-me em “Feliz ano novo”, o conto que empresta título ao já lendário livro que Rubem Fonseca, cuja obra vem sendo relançada pela editora Agir, publicou em 1975. Não só, provavelmente, é o mais cruel relato da coletânea, mas uma das narrativas mais violentas produzidas pela literatura brasileira dos anos 1970. O conto guarda uma estranha síntese dos métodos da ditadura, que se espalharam pela entranhas da sociedade brasileira na ordem de uma peste — o livro de Fonseca seria censurado no ano seguinte ao seu lançamento. Antes de tudo, a violência, arbitrária, indiferente ao sentido, cruel que, na narrativa de Fonseca, deixa os cárceres do poder para penetrar na penumbra do dia a dia e se transformar em um método de ação. Contra a violência, mais violência. Contra a miséria, mais miséria. O método nefasto da duplicação e da retaliação.
A palavra como um risco para a sociedade
Censura a livros na ditadura deixou herança autoritária
Veto a livros considerados 'imorais' e proibição de obras de opositores deixaram como legado a ideia de que informação pode ser controlada, diz pesquisadoraPor Guilherme Freitas
A
coletânea de contos “Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca, “retrata, em
quase sua totalidade, personagens portadores de complexos, vícios e
taras, com o objetivo de enfocar a face obscura da sociedade na prática
da delinquência, suborno, latrocínio e homicídio, sem qualquer
referência a sanções”. A história que dá título à obra, sobre três
marginais que invadem uma festa grã-fina de réveillon, assim como as
outras 12 narrativas do volume, têm uma linguagem “bastante popular,
onde a pornografia foi largamente empregada”, e “alusões desmerecedoras
aos responsáveis pelo destino do Brasil”.
sexta-feira, 14 de março de 2014
Talento para um leque de gêneros [Paulo Goulart] - Barbara Heliodora
BARBARA HELIODORA
Especial para O GLOBO
14/03/2014
O teatro fica mais pobre com a morte de Paulo Goulart, que nunca permitiu que o sucesso na televisão o afastasse do palco, que era a sua casa. Minha primeira lembrança dele é em uma peça que eu nem sei qual é, um espetáculo modesto, mas que me deixou a nítida impressão de que eu tinha visto um ator. Homem bonito, de uma simpatia irradiante, é natural que desde logo tenha encontrado o sucesso e que passasse a vida em intensa atividade, entre o palco e a telinha. Dois trabalhos de há muito tempo eu guardo sempre na memória: o rígido professor sueco (com discreto sotaque alemão) na “Lição de botânica”, de Machado de Assis, e sua hilariante e charmosa atuação como a chefe da “Orquestra de senhoritas”, que servem também para mostrar como era amplo o leque de gêneros que seu talento alcançava.
Creio que é com isso que mais podemos identificar o ator Paulo Goulart : sua fome de teatro, sua disposição para fazer papéis nos mais variados gêneros (aos quais juntava a variedade na televisão, é claro). Foi ótima sua atuação em “Oh! Que delícia de guerra!”, o notável musical que denunciava os erros e as tragédias da Primeira Guerra Mundial, e foi sem dúvida de Paulo o melhor e mais esmerado trabalho do todo o elenco do “Rei Lear” de Celso Nunes. E após uma ausência por demais longa dos palcos cariocas, Paulo teve novamente uma brilhante atuação em “Arte”, a sofisticada comédia intelectual também diversa de muitos trabalhos anteriores.
Mas falar de Paulo Goulart tem de ser também falar do amigo e, principalmente, daquela unidade específica chamada Paulo e Nicette, e de sua transmissão do DNA do teatro a Barbara, Beth e Paulo Filho; entrar em sua casa era entrar em um clima muito especial, era ser recebido com uma alegria e um carinho com poucos iguais por este mundo. Todos atores, sempre formaram um conjunto tão harmônico que chegava por vezes a parecer irreal; e, no entanto, todos os que tiveram a sorte de privar com eles puderam sentir a solidez de realidade daquela vida familiar, em que não há triunfo pessoal que não seja curtido por todos, em que a vida e o trabalho são sempre encarados com alegria e esperança.
O desaparecimento de Paulo Goulart é uma grande perda para o universo das artes, e a pessoa, perda ainda maior não só para esse unidíssimo núcleo de sua família, mas também para seus amigos, a quem ele sempre deu tanto de sua inesgotável generosidade
Especial para O GLOBO
14/03/2014
Homem bonito, de uma
simpatia irradiante, é
natural que desde logo
tenha encontrado o
sucesso e que passasse a
vida em intensa atividade,
entre o palco e a telinha
simpatia irradiante, é
natural que desde logo
tenha encontrado o
sucesso e que passasse a
vida em intensa atividade,
entre o palco e a telinha
O teatro fica mais pobre com a morte de Paulo Goulart, que nunca permitiu que o sucesso na televisão o afastasse do palco, que era a sua casa. Minha primeira lembrança dele é em uma peça que eu nem sei qual é, um espetáculo modesto, mas que me deixou a nítida impressão de que eu tinha visto um ator. Homem bonito, de uma simpatia irradiante, é natural que desde logo tenha encontrado o sucesso e que passasse a vida em intensa atividade, entre o palco e a telinha. Dois trabalhos de há muito tempo eu guardo sempre na memória: o rígido professor sueco (com discreto sotaque alemão) na “Lição de botânica”, de Machado de Assis, e sua hilariante e charmosa atuação como a chefe da “Orquestra de senhoritas”, que servem também para mostrar como era amplo o leque de gêneros que seu talento alcançava.
Creio que é com isso que mais podemos identificar o ator Paulo Goulart : sua fome de teatro, sua disposição para fazer papéis nos mais variados gêneros (aos quais juntava a variedade na televisão, é claro). Foi ótima sua atuação em “Oh! Que delícia de guerra!”, o notável musical que denunciava os erros e as tragédias da Primeira Guerra Mundial, e foi sem dúvida de Paulo o melhor e mais esmerado trabalho do todo o elenco do “Rei Lear” de Celso Nunes. E após uma ausência por demais longa dos palcos cariocas, Paulo teve novamente uma brilhante atuação em “Arte”, a sofisticada comédia intelectual também diversa de muitos trabalhos anteriores.
Mas falar de Paulo Goulart tem de ser também falar do amigo e, principalmente, daquela unidade específica chamada Paulo e Nicette, e de sua transmissão do DNA do teatro a Barbara, Beth e Paulo Filho; entrar em sua casa era entrar em um clima muito especial, era ser recebido com uma alegria e um carinho com poucos iguais por este mundo. Todos atores, sempre formaram um conjunto tão harmônico que chegava por vezes a parecer irreal; e, no entanto, todos os que tiveram a sorte de privar com eles puderam sentir a solidez de realidade daquela vida familiar, em que não há triunfo pessoal que não seja curtido por todos, em que a vida e o trabalho são sempre encarados com alegria e esperança.
O desaparecimento de Paulo Goulart é uma grande perda para o universo das artes, e a pessoa, perda ainda maior não só para esse unidíssimo núcleo de sua família, mas também para seus amigos, a quem ele sempre deu tanto de sua inesgotável generosidade
domingo, 9 de março de 2014
Que fim levou Bo Derek? - MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 09/03/2014
Eu estava em plena adolescência quando assisti no cinema ao filme Mulher Nota 10 com uma estreante chamada Bo Derek. A comédia contava a história de um cantor que um dia viu uma loira espetacular vestida de noiva e ficou obcecado por ela. O que aquela mulher tinha de nota 10? Que eu lembre, apenas um tremendo corpaço. Mas foi o que bastou para eu e mais umas tantas meninas da minha idade desejarem ser 10 também.
Mal sabíamos que estava em curso uma revolução que iria nos exigir muito mais do que um corpaço: iria nos exigir independência financeira, atitude, cultura, talento, sucesso profissional, inteligência acima da média, um bom casamento, filhos notáveis, um farto círculo de amigos, um apartamento bem decorado, uma ótima mão para a cozinha, conhecimento sobre política, economia, artes plásticas, jardinagem e comércio exterior, muita feminilidade, um guarda-roupa de matar de inveja a editora da Vogue, um rosto lisinho, um cabelo lisinho, dotes sexuais de humilhar o Kama Sutra e, para aguentar o tranco, o tal corpaço de parar o trânsito, claro.
Nem titubeamos. Parecia fácil. Daríamos conta. E demos, se abstrairmos o padrão cinematográfico das exigências.
Até que descobrimos que tínhamos tudo, menos a coisa mais importante do mundo: tempo. Deixamos de ser donas dos nossos dias, viramos escravas da perfeição, passamos a buscar a nota 10 em todos os quesitos, feito uma escola de samba, e ganhamos o quê? Um stress gigantesco e uma tremenda frustração por não conseguir manter tudo no topo: o casamento, a profissão, os seios. Nunca mais uma escapada de três dias num sítio, nunca mais pegar uma matinê num dia da semana, nunca mais passar a tarde conversando na casa de uma amiga, nunca mais deitar no sofá para ouvir nossa música preferida. Tic-tac, tic-tac. Proibido relaxar.
Trégua, por favor. Não estamos numa competição. Ninguém está contabilizando nossos recordes. A intenção não é virar uma campeã, e sim desfrutar a delícia de ser uma mulher divertida e desestressada. Por que isso precisa conflitar com a independência? Proponho uma pequena subversão: agrade si mesmo e a mais ninguém. E não brigue com o espelho, pois ter saúde é o único item de beleza indispensável, e isso só se enxerga por dentro. Trabalhe no que lhe dá gosto, aprenda a dizer não, invente sua própria maneira de ser quem é, e se for gorda, fumante, esquisita e sozinha, qual o problema? Aliás, sendo você mesma, dificilmente ficará sozinha.
Lembra das garotas nota 10 da sua sala de aula? Cá entre nós, umas chatas. Não aproveitavam a hora do recreio, não deixavam a blusa para fora da saia, não matavam as aulas de religião, só pensavam em ser exemplares. Pois tiveram o mesmo fim da Bo Derek: nunca mais se ouviu falar delas.
Eu estava em plena adolescência quando assisti no cinema ao filme Mulher Nota 10 com uma estreante chamada Bo Derek. A comédia contava a história de um cantor que um dia viu uma loira espetacular vestida de noiva e ficou obcecado por ela. O que aquela mulher tinha de nota 10? Que eu lembre, apenas um tremendo corpaço. Mas foi o que bastou para eu e mais umas tantas meninas da minha idade desejarem ser 10 também.
Mal sabíamos que estava em curso uma revolução que iria nos exigir muito mais do que um corpaço: iria nos exigir independência financeira, atitude, cultura, talento, sucesso profissional, inteligência acima da média, um bom casamento, filhos notáveis, um farto círculo de amigos, um apartamento bem decorado, uma ótima mão para a cozinha, conhecimento sobre política, economia, artes plásticas, jardinagem e comércio exterior, muita feminilidade, um guarda-roupa de matar de inveja a editora da Vogue, um rosto lisinho, um cabelo lisinho, dotes sexuais de humilhar o Kama Sutra e, para aguentar o tranco, o tal corpaço de parar o trânsito, claro.
Nem titubeamos. Parecia fácil. Daríamos conta. E demos, se abstrairmos o padrão cinematográfico das exigências.
Até que descobrimos que tínhamos tudo, menos a coisa mais importante do mundo: tempo. Deixamos de ser donas dos nossos dias, viramos escravas da perfeição, passamos a buscar a nota 10 em todos os quesitos, feito uma escola de samba, e ganhamos o quê? Um stress gigantesco e uma tremenda frustração por não conseguir manter tudo no topo: o casamento, a profissão, os seios. Nunca mais uma escapada de três dias num sítio, nunca mais pegar uma matinê num dia da semana, nunca mais passar a tarde conversando na casa de uma amiga, nunca mais deitar no sofá para ouvir nossa música preferida. Tic-tac, tic-tac. Proibido relaxar.
Trégua, por favor. Não estamos numa competição. Ninguém está contabilizando nossos recordes. A intenção não é virar uma campeã, e sim desfrutar a delícia de ser uma mulher divertida e desestressada. Por que isso precisa conflitar com a independência? Proponho uma pequena subversão: agrade si mesmo e a mais ninguém. E não brigue com o espelho, pois ter saúde é o único item de beleza indispensável, e isso só se enxerga por dentro. Trabalhe no que lhe dá gosto, aprenda a dizer não, invente sua própria maneira de ser quem é, e se for gorda, fumante, esquisita e sozinha, qual o problema? Aliás, sendo você mesma, dificilmente ficará sozinha.
Lembra das garotas nota 10 da sua sala de aula? Cá entre nós, umas chatas. Não aproveitavam a hora do recreio, não deixavam a blusa para fora da saia, não matavam as aulas de religião, só pensavam em ser exemplares. Pois tiveram o mesmo fim da Bo Derek: nunca mais se ouviu falar delas.
TeVê
TV paga
Estado de Minas: 09/03/2014
ROMANCE O Telecine Premium exibe
hoje, às 16h15, a comédia Um bom partido (foto), com Gerard Butler e
Jessica Biel. George é um ex-jogador de futebol que recebe uma segunda
chance para se aproximar de seu filho. Para reconstruir sua vida, ele
precisa primeiro reconquistar sua ex-mulher.
INTERCÂMBIO O programa Casa brasileira, que vai
ao ar às 23h no GNT, traz o episódio “Brasil e França”. Brasileiros
e franceses mesclam em casas e apartamentos a cultura de
seus países. Entre os convidados, Olivier Anquier, a pintora
Isabelle Tuchband e o arquiteto Sig Bergamin.
Enlatados Mariana Peixoto - mariana.peixoto@uai.com.br
Estado de Minas: 09/03/2014
![]() |
INTERCÂMBIO O programa Casa brasileira, que vai
ao ar às 23h no GNT, traz o episódio “Brasil e França”. Brasileiros
e franceses mesclam em casas e apartamentos a cultura de
seus países. Entre os convidados, Olivier Anquier, a pintora
Isabelle Tuchband e o arquiteto Sig Bergamin.
Enlatados Mariana Peixoto - mariana.peixoto@uai.com.br
Sangue, mortes e mentiras
Foi aberta a temporada sanguinolenta. Amanhã, às 23h, estreia a segunda temporada de Hannibal. Versão televisiva para o serial killer mais famoso do cinema contemporâneo, mostra o embate entre um investigador com uma intuição do outro mundo para caçar criminosos (Will Graham, interpretado por Hugh Dancy) e o psicopata canibal Hannibal Lecter (o ator Mads Mikkelsen). No final da primeira temporada, Will se dá mal e vai parar atrás das grades. Já no primeiro episódio do segundo ano ele busca provar sua inocência e a culpa de Hannibal por uma série de atrocidades. Neste segundo ano, foi confirmada a participação de Cynthia Nixon (de Sex and the city), que será uma funcionária do FBI.
Caninos afiados – Já na quinta, às 22h, o canal Universal exibe a estreia de Drácula. A nova versão do mítico personagem é estrelada por Jonathan Rhys Meyers (que viveu no passado o Rei Henrique VIII em The Tudors). Na Inglaterra do final do século 19, um industrial americano surge do nada chamando a atenção da alta sociedade local. Visionário, ele provoca um pequena revolução no mundo dos ricos. Ao mesmo tempo, figurões começam a morrer degolados, chamando a atenção de um grupo de caça-vampiros que atua secretamente. O industrial na verdade é Drácula, que quer se vingar daqueles que, no passado, mataram sua amada. A série traz como credenciais os produtores de Downton Abbey, mas as interpretações exageradas (Rhys Meyers carrega na canastrice) não empolgam.
Sequestro – Outra novidade é a microssérie Kidnap and ransom, que estreia no +Globosat na terça, às 21h. A trama gira em torno do negociador de sequestros britânico Dominic King contra uma sequência de raptos interligados, realizados pelo misterioso Willard, que se inicia na África do Sul e continua na Inglaterra. São somente três episódios.
Caras & Bocas
Simone Castro - simone.castro@uai.com.br
Vez da parceira
Estreia, amanhã, a nona temporada de Espelho, que irá ao ar às 21h30, no Canal Brasil (TV paga). O apresentador Lázaro Ramos recebe no primeiro programa a sua mulher, a atriz Taís Araújo (foto). Uma das principais atrizes negras de sua geração, Taís fala sobre as capas de revistas femininas que fez, tentando abrir espaço para as artistas negras. “Via como um ato político”, afirma. Ela ainda comentou sobre sua personagem Helena na novela Viver a vida (Globo), de Manoel Carlos, muito criticada. “Talvez tenha sido o maior tombo profissional que tomei em quase 20 anos de profissão e foi o que melhor serviu na minha vida. Repensei toda a minha carreira e mudei meu caminho”, revelou. A novela foi um fracasso. Nesta temporada, Espelho terá 26 episódios, que mostrarão entrevistas, entre outros, com Ney Latorraca, Renato Aragão, Débora Bloch, Aracy Balabanian, Hélio de La Peña e Djavan. E uma novidade: ao fim de cada programa, Lázaro vai narrar um dos artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
CASOS DE FAMÍLIA VOLTA AO AR NO INÍCIO DA TARDE
Em mais uma mudança na grade do SBT, o Casos de família, com Christina Rocha, será exibido, a partir de amanhã, às 14h15. Em seguida, entram no ar as novelas vespertinas do canal. O programa será diário novamente.
SABARÁ E SEUS ATRATIVOS NA ROTA DA VIAÇÃO CIPÓ
Confira a primeira matéria do Viação Cipó. Neste domingo, às 10h, na TV Alterosa, o programa vai até Sabará e o telespectador fica por dentro da produção de jabuticaba e seu festival, as perspectivas da cidade para o futuro, a história do distrito onde Nhá Chica nasceu, além da música de Aline Calixto, a receita do cipó e muito mais.
NOVELA AINDA DEMORA MAS JÁ ESTÁ NO FORNO
Joia rara (Globo) termina em abril. A sucessora é o remake de Meu pedacinho de chão. Em seguida, virá Saber viver (que também pode se chamar Boogie-oogie), que será substituída por Lady Marizete. E os autores desta última já estão a todo vapor. Alcides Nogueira, Mário Teixeira e equipe se dedicam aos capítulos da história ambientada nos dias atuais, nas regiões do Morumbi e Paraisópolis, em São Paulo. A estreia está prevista para 2015.
AFASTAMENTO E REFORÇO NO SERIADO PÉ NA COVA
Enquanto Marília Pêra não retorna às gravações do seriado Pé na cova (Globo), pelo menos por enquanto, pois se recupera de uma cirurgia no quadril, um nome está confirmado no elenco na temporada 2014. O ator Diogo Vilela dará o ar da graça no programa de Miguel Falabella e companhia. Ele vai interpretar dr. Zoltan. Promete.
DOENÇA NO CORAÇÃO VAI ACOMETER CADU EM TRAMA
Miocardiopatia dilatada, que atinge o músculo do coração, o miocárdio, é a doença que acometerá Cadu, personagem de Reynaldo Gianecchini na novela Em família (Globo). A moléstia foi definida pelo autor Manoel Carlos. “A pessoa manifesta insuficiência cardíaca e, com a evolução dos sintomas, apresenta muito cansaço. Chega ao ponto de o paciente deixar de conseguir fazer as atividades do dia a dia, como tomar banho”, contou a pesquisadora Gabriela Miranda ao site da novela. O personagem já começou a sentir os primeiros sintomas de falta de ar e inchaço no tornozelo. Cadu terá a doença diagnosticada e tratada pela doutora Sílvia (Bianca Rinaldi). Gianecchini contou que visitará hospitais para acompanhar como é a vida dos pacientes. Ainda não se sabe se Cadu ficará curado.
ATRIZ PREPARA-SE PARA RETORNAR À TELINHA
Nanda Costa (foto) é cotada para um dos principais personagens de Falso brilhante, novela de Aguinaldo Silva que vai substituir Em família. A última novela da atriz foi Salve Jorge, exibida em 2012, em que interpretou a protagonista Morena. Nenhum detalhe foi divulgado sobre a personagem, mas a atriz confirmou que voltará à telinha em breve. Também estão previstas as participações de Maria Padilha e de Ana Cecília Costa, a Gaia de Joia rara. Outra atriz que retorna às novelas é Marina Ruy Barbosa, que vai viver uma lolita amante de um homem mais velho. O papel é de Alexandre Nero, atualmente o vilão Hermes em Além do horizonte (Globo), que morrerá para que o ator possa deixar a trama e descansar antes do novo trabalho.
Foi aberta a temporada sanguinolenta. Amanhã, às 23h, estreia a segunda temporada de Hannibal. Versão televisiva para o serial killer mais famoso do cinema contemporâneo, mostra o embate entre um investigador com uma intuição do outro mundo para caçar criminosos (Will Graham, interpretado por Hugh Dancy) e o psicopata canibal Hannibal Lecter (o ator Mads Mikkelsen). No final da primeira temporada, Will se dá mal e vai parar atrás das grades. Já no primeiro episódio do segundo ano ele busca provar sua inocência e a culpa de Hannibal por uma série de atrocidades. Neste segundo ano, foi confirmada a participação de Cynthia Nixon (de Sex and the city), que será uma funcionária do FBI.
Caninos afiados – Já na quinta, às 22h, o canal Universal exibe a estreia de Drácula. A nova versão do mítico personagem é estrelada por Jonathan Rhys Meyers (que viveu no passado o Rei Henrique VIII em The Tudors). Na Inglaterra do final do século 19, um industrial americano surge do nada chamando a atenção da alta sociedade local. Visionário, ele provoca um pequena revolução no mundo dos ricos. Ao mesmo tempo, figurões começam a morrer degolados, chamando a atenção de um grupo de caça-vampiros que atua secretamente. O industrial na verdade é Drácula, que quer se vingar daqueles que, no passado, mataram sua amada. A série traz como credenciais os produtores de Downton Abbey, mas as interpretações exageradas (Rhys Meyers carrega na canastrice) não empolgam.
Sequestro – Outra novidade é a microssérie Kidnap and ransom, que estreia no +Globosat na terça, às 21h. A trama gira em torno do negociador de sequestros britânico Dominic King contra uma sequência de raptos interligados, realizados pelo misterioso Willard, que se inicia na África do Sul e continua na Inglaterra. São somente três episódios.
Caras & Bocas
Simone Castro - simone.castro@uai.com.br
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Vez da parceira
Estreia, amanhã, a nona temporada de Espelho, que irá ao ar às 21h30, no Canal Brasil (TV paga). O apresentador Lázaro Ramos recebe no primeiro programa a sua mulher, a atriz Taís Araújo (foto). Uma das principais atrizes negras de sua geração, Taís fala sobre as capas de revistas femininas que fez, tentando abrir espaço para as artistas negras. “Via como um ato político”, afirma. Ela ainda comentou sobre sua personagem Helena na novela Viver a vida (Globo), de Manoel Carlos, muito criticada. “Talvez tenha sido o maior tombo profissional que tomei em quase 20 anos de profissão e foi o que melhor serviu na minha vida. Repensei toda a minha carreira e mudei meu caminho”, revelou. A novela foi um fracasso. Nesta temporada, Espelho terá 26 episódios, que mostrarão entrevistas, entre outros, com Ney Latorraca, Renato Aragão, Débora Bloch, Aracy Balabanian, Hélio de La Peña e Djavan. E uma novidade: ao fim de cada programa, Lázaro vai narrar um dos artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
CASOS DE FAMÍLIA VOLTA AO AR NO INÍCIO DA TARDE
Em mais uma mudança na grade do SBT, o Casos de família, com Christina Rocha, será exibido, a partir de amanhã, às 14h15. Em seguida, entram no ar as novelas vespertinas do canal. O programa será diário novamente.
SABARÁ E SEUS ATRATIVOS NA ROTA DA VIAÇÃO CIPÓ
Confira a primeira matéria do Viação Cipó. Neste domingo, às 10h, na TV Alterosa, o programa vai até Sabará e o telespectador fica por dentro da produção de jabuticaba e seu festival, as perspectivas da cidade para o futuro, a história do distrito onde Nhá Chica nasceu, além da música de Aline Calixto, a receita do cipó e muito mais.
NOVELA AINDA DEMORA MAS JÁ ESTÁ NO FORNO
Joia rara (Globo) termina em abril. A sucessora é o remake de Meu pedacinho de chão. Em seguida, virá Saber viver (que também pode se chamar Boogie-oogie), que será substituída por Lady Marizete. E os autores desta última já estão a todo vapor. Alcides Nogueira, Mário Teixeira e equipe se dedicam aos capítulos da história ambientada nos dias atuais, nas regiões do Morumbi e Paraisópolis, em São Paulo. A estreia está prevista para 2015.
AFASTAMENTO E REFORÇO NO SERIADO PÉ NA COVA
Enquanto Marília Pêra não retorna às gravações do seriado Pé na cova (Globo), pelo menos por enquanto, pois se recupera de uma cirurgia no quadril, um nome está confirmado no elenco na temporada 2014. O ator Diogo Vilela dará o ar da graça no programa de Miguel Falabella e companhia. Ele vai interpretar dr. Zoltan. Promete.
DOENÇA NO CORAÇÃO VAI ACOMETER CADU EM TRAMA
Miocardiopatia dilatada, que atinge o músculo do coração, o miocárdio, é a doença que acometerá Cadu, personagem de Reynaldo Gianecchini na novela Em família (Globo). A moléstia foi definida pelo autor Manoel Carlos. “A pessoa manifesta insuficiência cardíaca e, com a evolução dos sintomas, apresenta muito cansaço. Chega ao ponto de o paciente deixar de conseguir fazer as atividades do dia a dia, como tomar banho”, contou a pesquisadora Gabriela Miranda ao site da novela. O personagem já começou a sentir os primeiros sintomas de falta de ar e inchaço no tornozelo. Cadu terá a doença diagnosticada e tratada pela doutora Sílvia (Bianca Rinaldi). Gianecchini contou que visitará hospitais para acompanhar como é a vida dos pacientes. Ainda não se sabe se Cadu ficará curado.
ATRIZ PREPARA-SE PARA RETORNAR À TELINHA
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Nanda Costa (foto) é cotada para um dos principais personagens de Falso brilhante, novela de Aguinaldo Silva que vai substituir Em família. A última novela da atriz foi Salve Jorge, exibida em 2012, em que interpretou a protagonista Morena. Nenhum detalhe foi divulgado sobre a personagem, mas a atriz confirmou que voltará à telinha em breve. Também estão previstas as participações de Maria Padilha e de Ana Cecília Costa, a Gaia de Joia rara. Outra atriz que retorna às novelas é Marina Ruy Barbosa, que vai viver uma lolita amante de um homem mais velho. O papel é de Alexandre Nero, atualmente o vilão Hermes em Além do horizonte (Globo), que morrerá para que o ator possa deixar a trama e descansar antes do novo trabalho.
AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA-O leopardo-das-neves e nós
O leopardo-das-neves e nós
AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA
Estado de Minas: 09/03/2014
AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA
Estado de Minas: 09/03/2014
Qual a relação
entre o leopardo-das -neves e essa crise lá na Ucrânia? O que Putin ou a
Rússia têm a ver com aqueles caçadores nas montanhas do Afeganistão? O
que há de animal e de humano nessa demarcação de fronteiras?
Estou assistindo a um documentário francês sobre a caça ao leopardo-das-neves na altas montanhas do Afeganistão. Uma equipe de biólogos e estudiosos desse animal se preparou cuidadosamente para a façanha. Trazem equipamentos sofisticadíssimos. Sabem tudo sobre essa bela fera. O animal não sabe de nada. Está lá em cima, nos picos pedregosos, cuidando de sua vida, caçando marmotas e antílopes. É guiado apenas pelo instinto.
Chamamos de instinto a essa sabedoria inexplicável que os humanos e os animais têm inscrita nos seus sentidos. A sabedoria que está ao nível da natureza, antes da invenção da cultura. Os humanos, seja Putin ou Obama, acham que agem racional e politicamente, mas guardam suas fronteiras sem saber que o instinto os comanda. Não sabem que são como um leopardo-das-neves. Chamam seus assessores, seus generais e estrategistas para posicionar suas tropas e dizem: estamos defendendo nossos interesses ao proteger a soberania do nosso território.
O leopardo-das-neves no Afeganistão nunca foi à universidade, mas também defende seu território. Como ele faz isto? Os caçadores (na verdade, invejáveis estudiosos dessa espécie) monitoram as andanças do animal. Num mapa mostram por onde ele anda, todo o território que lhe pertence. E para assinalar que aquela região é dele, o leopardo-das-neves usa de uma artimanha instintiva: deixa a sua urina, faz marcas precisas assinalando sua passagem até pela presença das fezes.
Minha cachorrinha faz isso em Friburgo: quando chega, vai logo remarcando seu território com urina e latidos. Os especialistas em teoria dos jogos, lá no Pentágono ou no alto-comando russo, fazem a mesma coisa. Volta e meia aprontam alguma cagada quando pensam marcar seu território. Fizeram isso na Guerra Fria. E tanto Guevara quanto milhares de sonhadores instintivos pagaram com sua vida por não saber ou não querer admitir que aquele território tinha dono. O leopardo-das-neves, em Washington ou Moscou, nos vigiava. Os mais velhos se lembram da crise dos mísseis em Cuba, nos anos 1960. Kennedy e Brejenev eram os leopardos de plantão.
Teve um tempo em que me interessei tanto por esse assunto que descobri uma ciência chamada proxemia, que estuda as relações que o animal tem com o espaço. E posso lhes dizer: somos mito aparecidos com os nobres antílopes, com a desprezível barata e com o majestoso leopardo-das-neves.
No documentário que vi, os cientistas sobem as montanhas e plantam várias armadilhas para caçar o leopardo. O animal vem na sua trilha, palmilhando o território que lhe pertence, e bota o pé na armadilha. Fica preso. Os caçadores estudiosos então se aproximam, dão um tiro anestésico na fera presa e ela desmaia.
Eles então se aproximam cautelosos, felizes, tocam no animal, admiram sua beleza, tiram suas medidas, acariciam-no e enquanto ele está inconsciente colocam no seu dorso um equipamento para que possam acompanhá-lo durante um ano. E se afastam.
O lindo animal acorda da anestesia, meio atordoado. Não entende o que lhe aconteceu. Equilibra-se com alguma dificuldade e vai andando pelas escarpas. Recuperou a liberdade e a vida. Vai voltar às suas trilhas, ao seu território.
A marmota ou antílope que entrar desavisado nessa área será comido inapelavelmente.
Neste momento Putin e Obama são dois leopardos-das-neves vigiando seu território.
Estou assistindo a um documentário francês sobre a caça ao leopardo-das-neves na altas montanhas do Afeganistão. Uma equipe de biólogos e estudiosos desse animal se preparou cuidadosamente para a façanha. Trazem equipamentos sofisticadíssimos. Sabem tudo sobre essa bela fera. O animal não sabe de nada. Está lá em cima, nos picos pedregosos, cuidando de sua vida, caçando marmotas e antílopes. É guiado apenas pelo instinto.
Chamamos de instinto a essa sabedoria inexplicável que os humanos e os animais têm inscrita nos seus sentidos. A sabedoria que está ao nível da natureza, antes da invenção da cultura. Os humanos, seja Putin ou Obama, acham que agem racional e politicamente, mas guardam suas fronteiras sem saber que o instinto os comanda. Não sabem que são como um leopardo-das-neves. Chamam seus assessores, seus generais e estrategistas para posicionar suas tropas e dizem: estamos defendendo nossos interesses ao proteger a soberania do nosso território.
O leopardo-das-neves no Afeganistão nunca foi à universidade, mas também defende seu território. Como ele faz isto? Os caçadores (na verdade, invejáveis estudiosos dessa espécie) monitoram as andanças do animal. Num mapa mostram por onde ele anda, todo o território que lhe pertence. E para assinalar que aquela região é dele, o leopardo-das-neves usa de uma artimanha instintiva: deixa a sua urina, faz marcas precisas assinalando sua passagem até pela presença das fezes.
Minha cachorrinha faz isso em Friburgo: quando chega, vai logo remarcando seu território com urina e latidos. Os especialistas em teoria dos jogos, lá no Pentágono ou no alto-comando russo, fazem a mesma coisa. Volta e meia aprontam alguma cagada quando pensam marcar seu território. Fizeram isso na Guerra Fria. E tanto Guevara quanto milhares de sonhadores instintivos pagaram com sua vida por não saber ou não querer admitir que aquele território tinha dono. O leopardo-das-neves, em Washington ou Moscou, nos vigiava. Os mais velhos se lembram da crise dos mísseis em Cuba, nos anos 1960. Kennedy e Brejenev eram os leopardos de plantão.
Teve um tempo em que me interessei tanto por esse assunto que descobri uma ciência chamada proxemia, que estuda as relações que o animal tem com o espaço. E posso lhes dizer: somos mito aparecidos com os nobres antílopes, com a desprezível barata e com o majestoso leopardo-das-neves.
No documentário que vi, os cientistas sobem as montanhas e plantam várias armadilhas para caçar o leopardo. O animal vem na sua trilha, palmilhando o território que lhe pertence, e bota o pé na armadilha. Fica preso. Os caçadores estudiosos então se aproximam, dão um tiro anestésico na fera presa e ela desmaia.
Eles então se aproximam cautelosos, felizes, tocam no animal, admiram sua beleza, tiram suas medidas, acariciam-no e enquanto ele está inconsciente colocam no seu dorso um equipamento para que possam acompanhá-lo durante um ano. E se afastam.
O lindo animal acorda da anestesia, meio atordoado. Não entende o que lhe aconteceu. Equilibra-se com alguma dificuldade e vai andando pelas escarpas. Recuperou a liberdade e a vida. Vai voltar às suas trilhas, ao seu território.
A marmota ou antílope que entrar desavisado nessa área será comido inapelavelmente.
Neste momento Putin e Obama são dois leopardos-das-neves vigiando seu território.
EM DIA COM A PSICANÁLISE » Entre o melhor e o pior
EM DIA COM A PSICANÁLISE »
Entre o melhor e o pior
Brasileiros sempre foram pacíficos e indiferentes e agora percebem que o momento é de não mais se calar
regina teixeira da costa
Estado de Minas: 09/03/2014
Assistimos à festa de carnaval, à alegria do povo cantando e dançando nas ruas da cidade. Com certeza o carnaval de Belo Horizonte pegou para valer e a cada ano reforçará o desejo dos mineiros de fazer a folia em casa.
Uma festa boa para soltar as feras, liberar as fantasias e botar o bloco na rua sem medo de ser feliz. Dias reservados para empreender a catarse daquilo que fica contido o ano todo, quando devemos ser sérios e normais, entre aspas, no trabalho e na vida.
Mas nem só de festa vive o homem, apesar de que quando se faz festa se esquece de todo o resto. Esquecemos a miséria, a pobreza, a doença, a tristeza. Como disse uma carta pretensamente maçom que circula nas redes sociais, o governo tem dado pão e circo por meio das Bolsas e da Copa e isso fará o povo feliz, dominado.
Se isso já foi verdade um dia, nota-se que hoje temos uma população avisada. Os movimentos de protesto pelos quais as pessoas vão às ruas denunciam a distorção de gastar tanto na Copa do Mundo em um país onde nem em 10 anos se gastará soma igual na educação e na saúde da população.
Países com problemas estruturais como o nosso não deveriam sediar a Copa. É um luxo para o qual não estamos preparados. E em ano eleitoral é tapar muito o sol com a peneira. Os movimentos de rua cada vez mais fortes, não apenas os de carnaval, os de protesto, têm sido alvo de muitos artigos e comentários na mídia por terem sido raros por aqui.
Brasileiros sempre foram pacíficos e indiferentes e agora percebem que o momento é de não mais se calar porque hoje é dia de futebol e carnaval. Ainda gostando dos dois é tempo de se inquietar e mover os pauzinhos para termos o país que queremos.
Que país é este? Um país do qual queremos nos orgulhar. Um país que cuida do seu povo como a coisa mais rara e preciosa que há. Um país que deseja crianças na escola, professores preparados, médicos satisfeitos e hospitais com leitos em número suficiente na rede pública.
Um país que oferece transporte para sua população não ter de usar carro próprio todo dia, impossibilitando o trânsito de fluir. E não o que estimula o consumo, baixando impostos para vendas de mais automóveis. Um país em que não se tem medo de sair na rua e ser assaltado a qualquer momento, e talvez até assassinado. Sem cadeias cheias de gente improdutiva. Por que nenhum projeto para aproveitar essa mão de obra decola?
É certo que a mídia ressalta fatos trágicos e nos assusta, alarma, mas são fatos e alcançam o objetivo. Ninguém aqui está satisfeito, nem poderia ficar, depois de cada edição do jornal. Ninguém está feliz com o jogo político atual. O cenário preocupa. As melhoras são pequenas.
Podem até dizer que estou sonhando. Posso estar. Mas há países assim e não é à toa que muito brasileiro sonha em ir para os Estados Unidos, não que lá seja ideal ou perfeito, mas a ilusão de que seja ocupa o ideário nacional. E não só do brasileiro, vejam o resultado da ditadura em Cuba. Médicos vêm para o Brasil para escapar da miséria de lá. Se abrirem a fronteira não restará um cubano em Cuba.
Infelizmente, dentre os que fazem protestos aproveitam a cena os baderneiros e marginais. Nada ainda pode ser provado sobre a tentativa política de desestabilizar o país com infiltrados, mas é um risco real. Oportunistas enxergam chance nos furos do real e podem sim articular manobras contra a democracia. Diante da natureza humana, todo cuidado é pouco, pois bem sabemos que a oportunidade pode fazer o ladrão.
O homem usa qualquer coisa como pretexto para sua conduta. Não age de modo próprio, mas conforme uma situação que lhe proporcione certo modelo convencional para seu comportamento. Se aquilo que a situação permite é a crueldade, tanto melhor. Sem escrúpulos com toda intensidade, aproveita a permissão e faz dela um uso tão amplo que não se pode pôr em dúvida: em sua maioria, os homens esperam apenas que as circunstâncias lhes deixem a passagem livre para a crueldade e grosseria e lhes permitam ser livremente brutais.
Sabendo disso, cada um deve cuidar de sua parte pior, porque negá-la é não negociar. Talvez, assim, possamos escolher o melhor ao invés de sermos levados pelo pior.
Brasileiros sempre foram pacíficos e indiferentes e agora percebem que o momento é de não mais se calar
regina teixeira da costa
Estado de Minas: 09/03/2014
Assistimos à festa de carnaval, à alegria do povo cantando e dançando nas ruas da cidade. Com certeza o carnaval de Belo Horizonte pegou para valer e a cada ano reforçará o desejo dos mineiros de fazer a folia em casa.
Uma festa boa para soltar as feras, liberar as fantasias e botar o bloco na rua sem medo de ser feliz. Dias reservados para empreender a catarse daquilo que fica contido o ano todo, quando devemos ser sérios e normais, entre aspas, no trabalho e na vida.
Mas nem só de festa vive o homem, apesar de que quando se faz festa se esquece de todo o resto. Esquecemos a miséria, a pobreza, a doença, a tristeza. Como disse uma carta pretensamente maçom que circula nas redes sociais, o governo tem dado pão e circo por meio das Bolsas e da Copa e isso fará o povo feliz, dominado.
Se isso já foi verdade um dia, nota-se que hoje temos uma população avisada. Os movimentos de protesto pelos quais as pessoas vão às ruas denunciam a distorção de gastar tanto na Copa do Mundo em um país onde nem em 10 anos se gastará soma igual na educação e na saúde da população.
Países com problemas estruturais como o nosso não deveriam sediar a Copa. É um luxo para o qual não estamos preparados. E em ano eleitoral é tapar muito o sol com a peneira. Os movimentos de rua cada vez mais fortes, não apenas os de carnaval, os de protesto, têm sido alvo de muitos artigos e comentários na mídia por terem sido raros por aqui.
Brasileiros sempre foram pacíficos e indiferentes e agora percebem que o momento é de não mais se calar porque hoje é dia de futebol e carnaval. Ainda gostando dos dois é tempo de se inquietar e mover os pauzinhos para termos o país que queremos.
Que país é este? Um país do qual queremos nos orgulhar. Um país que cuida do seu povo como a coisa mais rara e preciosa que há. Um país que deseja crianças na escola, professores preparados, médicos satisfeitos e hospitais com leitos em número suficiente na rede pública.
Um país que oferece transporte para sua população não ter de usar carro próprio todo dia, impossibilitando o trânsito de fluir. E não o que estimula o consumo, baixando impostos para vendas de mais automóveis. Um país em que não se tem medo de sair na rua e ser assaltado a qualquer momento, e talvez até assassinado. Sem cadeias cheias de gente improdutiva. Por que nenhum projeto para aproveitar essa mão de obra decola?
É certo que a mídia ressalta fatos trágicos e nos assusta, alarma, mas são fatos e alcançam o objetivo. Ninguém aqui está satisfeito, nem poderia ficar, depois de cada edição do jornal. Ninguém está feliz com o jogo político atual. O cenário preocupa. As melhoras são pequenas.
Podem até dizer que estou sonhando. Posso estar. Mas há países assim e não é à toa que muito brasileiro sonha em ir para os Estados Unidos, não que lá seja ideal ou perfeito, mas a ilusão de que seja ocupa o ideário nacional. E não só do brasileiro, vejam o resultado da ditadura em Cuba. Médicos vêm para o Brasil para escapar da miséria de lá. Se abrirem a fronteira não restará um cubano em Cuba.
Infelizmente, dentre os que fazem protestos aproveitam a cena os baderneiros e marginais. Nada ainda pode ser provado sobre a tentativa política de desestabilizar o país com infiltrados, mas é um risco real. Oportunistas enxergam chance nos furos do real e podem sim articular manobras contra a democracia. Diante da natureza humana, todo cuidado é pouco, pois bem sabemos que a oportunidade pode fazer o ladrão.
O homem usa qualquer coisa como pretexto para sua conduta. Não age de modo próprio, mas conforme uma situação que lhe proporcione certo modelo convencional para seu comportamento. Se aquilo que a situação permite é a crueldade, tanto melhor. Sem escrúpulos com toda intensidade, aproveita a permissão e faz dela um uso tão amplo que não se pode pôr em dúvida: em sua maioria, os homens esperam apenas que as circunstâncias lhes deixem a passagem livre para a crueldade e grosseria e lhes permitam ser livremente brutais.
Sabendo disso, cada um deve cuidar de sua parte pior, porque negá-la é não negociar. Talvez, assim, possamos escolher o melhor ao invés de sermos levados pelo pior.
O que move Yuka - Ailton Magioli
O que move Yuka
Compositor prepara lançamento do álbum Canções para depois do ódio e fala de seu processo de recuperação. Ele diz que ioga e meditação foram fundamentais
Ailton Magioli
Estado de Minas: 09/03/2014
O título do novo disco de Marcelo Yuka, de 48 anos, já diz tudo. Gravado com a banda A Entidade, Canções para depois do ódio, como sempre ocorre com tudo que o ex-baterista de O Rappa faz, é para botar os bichos para fora. “É o primeiro depois de alguns entendimentos adquiridos com a prática da meditação e da ioga, que mudaram a minha vida”, afirma Yuka, que faz do cantor belga Bukassa Kabengele, radicado no Brasil, o principal porta-voz de suas aflições, entre as quais figuram, inclusive, o amor.
Produto da parceria de Yuka com Marisa Monte, a canção Para ti não sei, gravada no disco pela cantora, é reflexo do novo momento do compositor, que diz ter descoberto o amor como “forma de inteligência”. Graças à prática semanal da ioga, que descobriu em 2005, e da meditação diária, Marcelo Yuka acredita ter aberto os canais para a vida. “A primeira coisa que essas filosofias me ensinaram foi a me ver como prática de meu próprio remédio”, garante o artista, paraplégico depois de baleado em um assalto no fim de 2000, no Rio de Janeiro.
De lá para cá, Yuka entrou em profunda depressão, da qual está se livrando mais de uma década depois, graças aos novos hábitos que adquiriu. “A lesão física é fácil de ver, mas a psicológica é mais forte”, justifica o longo processo de recuperação, por meio do qual diz ter aprendido a ouvir o próprio silêncio, além da respiração. “Eram três antidepressivos ao dia; hoje não tomo nenhum”, comemora o artista.
Ao avaliar o processo pelo qual passou, Yuka diz que acabou chegando a Canções para depois do ódio, que, como admite, é autobiográfico na medida em que nasceu “fincado” no que ele teria aprendido em todo processo. “Mas tem outras coisas no disco também. Socialmente ele é contundente, está tudo lá”, observa. “Mas tendo o amor como forma. Sempre fui um cara apaixonado. É esta paixão que me move todo dia”, avalia. Seu Jorge, Apollo 9 e Cibelle, além de Marisa Monte e Bukassa, estão no disco, cujo lançamento está programado para junho.
Enquanto finaliza o petardo, Marcelo Yuka negocia a distribuição com uma gravadora. Se no disco anterior – Sangueaudiência, de 2005 – ele assinava o trabalho coletivamente com a banda F. U. R. T. O., o novo álbum terá a assinatura dele, além da banda A Entidade. Paralelamente, Yuka se dedica à produção de Mestiço, projeto eletro-indígena-hardcore. “Trata-se de algo mais pesado, com guitarras distorcidas e base eletrônica. As letras são todas sobre a questão indígena”, diz sobre o projeto punk-eletrônico, que desenvolve ao lado de Sérgio Espírito Santo, que foi da banda Tubarões Voadores.
Em casa Um mês antes de o novo disco de Marcelo Yuka chegar às lojas e redes sociais, ele vai estrear na PlayTV o talk show Hoje eu desafio o mundo sem sair da minha casa. Trata-se de programa semanal de entrevistas, com 40 minutos de duração, que promete abordar temas como pobreza, maconha, manifestações de rua, questões ambientais e tantos outros que estiverem em pauta.
Militante de causas sociais desde os 16 anos, Yuka garante que o talk show terá linguagem documental, acompanhando seu cotidiano, com direito a café de fim de tarde, que ele estenderá para músicos e artistas. A direção de Hoje eu desafio o mundo sem sair da minha casa é de Antônio de Andrade e duas temporadas já estão gravadas, cada uma com 13 programas.
Entre os primeiros convidados do artista estão a atriz Letícia Sabatella, o delegado hare-krisha Orlando Zacone, o biólogo Mário Moscatelli, o senador Cristovam Buarque, o teólogo Leonardo Boff, o protagonista do documentário Lixo extraordinário, Tião Santos, e o diretor do filme, Vik Muniz. “Estou gostando da experiência com a TV, porque o programa é quase uma trincheira no ar”, confessa Yuka, para quem a defesa de temas na telinha deve ser feita com argumentos.
“Hoje, há poucos programas na TV com opinião”, lamenta. Para ele, nem sempre é confortável tomar posição diante de temas polêmicos. “A ideia de transmitir é que é legal. Sempre gostei de rádio”, admite o artista, que cursou jornalismo no Rio, na década de 1980. Morador da Tijuca, na Zona Norte carioca, o artista criou em casa um loft sem paredes, especialmente adaptado para se locomover na cadeira de rodas. Yuka mora no primeiro andar, com direito ao próprio estúdio, e sua mãe vive no andar de cima.
Entusiasmo Como artista, Marcelo Yuka nunca produziu tanto. “O susto passou e tudo que está por vir é consequência deste entendimento”, justifica. Ele ressalta que, apesar de tudo, a vida pode ser boa. “O ser humano se adapta a tudo”, consente ele, lembrando que as pessoas saem transformadas depois de uma situação-limite como a que ele viveu.
“Acho que a palavra certa para definir o que estou sentindo é entusiasmo. Eu estou cheio de Deus. Trabalhei para chegar a este momento, entusiasmado. Trata-se de uma consequência direta para alguém que viveu um limite tão grande quanto eu.” Tal situação, no entanto, como faz questão de dizer, independe de religiosidade. Longe de uma prática religiosa, o artista diz ter “entendimento espiritualizante”.
Paradoxo brasileiro
Para Yuka, o fato de o brasileiro ter ido para as ruas se manifestar, em junho, é sintoma de que está tudo mais à flor da pele no país. “Se por um lado o povo está procurando se manifestar, por outro nunca houve tanto reacionarismo. Os reacionários estão todos saindo do armário”, denuncia. E lamenta o ocorrido com o movimento gay de São Paulo, que depois de obter conquistas com as paradas, passou a sofrer com a ação de gangues de extermínio.
“Não por acaso vieram à tona figuras como Jair Bolsonaro e Marco Feliciano”, cita os deputados cuja postura político-social e homofobia têm provocado polêmicas. “O Brasil vive um grande paradoxo. Se por um lado estamos próximos dos grandes eventos, por outro ainda convivemos com a pior educação do mundo”, lamenta.
Marcelo Yuka começou a sair mais de casa. Além de ocupações, nas quais a arte e a cultura são vistas do ponto de vista político, ele também participou ativamente do bloco Devotos de Marley. “Isso me levanta, empurra minha cadeira, embora ainda haja um pensamento reacionário enorme no Brasil.”
Nas páginas
Nos próximos dias, Marcelo Yuka lança no eixo Rio-São Paulo a biografia que escreveu a quatro mãos com o jornalista Bruno Levinson. Trata-se de Não se preocupe comigo, que vai sair pela Sextante, cujo título foi tirado da canção homônima do compositor e baterista carioca. O livro narra momentos marcantes da vida de Yuka, no campo da arte e da militância social.
Nas telas
Uma série para a TV também está nos planos do artista, que escreveu sob encomenda para uma produtora o argumento de Castigo, inspirado no momento brasileiro. Em cena, um grupo de pessoas que confunde justiça com vingança. “Eles não são justiceiros, são normais. O processo utilizado para fazer justiça é que é diferente.” Os protagonistas se encontram uma vez por mês para armar ciladas.
Elas só ganham NO GRITO
Elas só ganham NO GRITO
Estrelas do pop não honram a tradição das divas de antigamente. Indústria fonográfica aposta em cantoras que se valem de truques eletrônicos, falsas rebeldias e canções melodramáticas
Arthur G Couto Duarte
Estado de Minas: 09/03/2014
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| Aino Jawo e Caroline Hjel, do Icona Pop: o disco This is tenta despistar a fragilidade vocal da dupla sueca |
Em outros tempos, a palavra diva, no mais das vezes, restringia-se ao mundo da música erudita – equivalente do termo italiano prima donna, usualmente aplicado a estrelas mundiais da ópera. Poucas fizeram por merecer tal classificação no exercício do bel canto: Maria Callas, Yma Sumac, Bidu Sayão, Montserrat Caballé.
No jazz, passaram a ser consideradas como tal Billie Holiday, Lena Horne, Ella Fitzgerald e Dinah Washington. No soul e no rhythm & blues, Aretha Franklin e Laura Nyro. A anos luz de simulacros providos pela tecnologia dos estúdios de gravação, essas cantoras fascinavam o público se valendo unicamente de suas personalidades magnéticas e da extensão natural que vai dos registros graves e médios ao alcance sem esforço das mais extremas notas agudas. Dons quase divinos manifestos pelo domínio sobre coloraturas, glissandos, melismas e escalas mais complexas, a ponto de fazer da voz a expressão mais direta e intensa dos afetos humanos.
Na cada vez mais efêmera música pop, a banalização do termo “diva” acabou contemplando cantoras providas de pouco ou nenhum talento vocal. Mais: flanqueadas pela moral hedonista da sociedade de consumo, estrelas da pós-contemporaneidade se espalharam como metástase. Defrontadas com a legitimação do provisório e o culto do perecível, elas reformularam o conceito que muitos se esforçaram para lhes aplicar quando passaram a estampar o abjeto e o escândalo como embalagem – pérfida “humanização” que destrói mitos e condiciona seus sujeitos à absoluta vacuidade.
No jogo da moda, a fragilidade, ao tomar para si o lugar da raridade (da diva, enfim), acabou por promover a definitiva entronização da carência.
ICONA POP
. This is
Espécie de clonagem genética de Kesha com Abba e Spice Girls, a dupla sueca Icona Pop tem obtido fama transcontinental com açucaradas diluições do batidão sintético e das novidades da radical cena EBM transpostas de forma palatável para o mercado pop. Tal pesadelo sônico se viu materializado nas 11 faixas que Caroline Hjelt e Aino Jawo bancaram sob a forma de melodrama plastificado no CD This is. Soterrada por pulsos gerados por sintetizadores e outras formas de vertigem rítmica eletrônica, a dupla evita a exposição solo das respectivas vozes, optando por dividir o microfone de modo a disfarçar parcos recursos. Um engodo harmônico veio outorgar às integrantes do Icona Pop imediato status de “divas” por conta de toneladas de delays, efeitos reverberados, compressores e o famigerado auto-tune.
LAURA PAUSINI
. The greatest hits
Entronizada em sua terra natal por amarguradas donas de casa e adolescentes problemáticas como “diva do pop romântico”, a italiana Laura Pausini conquistou milhares de fãs no Brasil. Até o finado rocker Renato Russo se rendeu à cantora, ao assumir sua porção brega quando gravou CD só com versões de xaroposas baladas italianas. O repertório dele trazia quatro canções gravadas pela ainda relativamente desconhecida Pausini: Gente, Lettera e os sucessos Strano amore e La solitude. Ainda que não apele para o erotismo vulgar de uma Rihanna e possa ser considerada mezzosoprano, Pausini – mesmo com certa discrição – também é adepta de “anabolizantes eletrônicos” como o auto-tune, de modo a corrigir imprecisões de performances vocais ou potencializar gravações e apresentações ao vivo. Na melhor das hipóteses (confira versões remixadas ou relidas de suas músicas mais conhecidas em The greatest hits), Pausini não passa de uma Celine Dion em roupagem e look atlanto-mediterrâneos. Ou seja, outra “diva” descartável que se tornou uma praga no Brasil depois do aval obtido junto à Rede Globo, vide suas incontáveis aparições em trilhas sonoras da emissora ou programas de auditório como Domingão do Faustão.
KELLY CLARKSON
. Wrapped in
Com o oportunismo que lhe é comum, o conglomerado formado pelos selos Sony Music e RCA fez chegar ao mercado norte-americano, no apagar das luzes de 2013, o álbum da “diva” texana, recheado com músicas alusivas ao Natal. Desovado no Brasil em pleno verão, fica claro que os “15 segundos de fama” destinados a tal frígido registro se derreteram rapidamente, sem grande esforço. Vide a foto da loirinha brincando com flocos de neve na contracapa, bem como as releituras com as quais destroçou as até então antológicas White Christmas (Irving Berlin), Please come home for Christmas (Charles Brown/Gene Redd) e My favourite things (Hammerstein/Rodgers).
AVRIL LAVIGNE
. Avril Lavigne
Espécie de involuntária precursora dos rolezinhos que grassam pelos shopping centers do país, a usualmente desafinada Avril Lavigne e sua rebeldia fake jamais nos enganaram. Mesmo batizando faixas de seu último CD com títulos como Rock’n’roll, Bad girl (para a qual tentou angariar credibilidade convidando Marylin Manson para uma participação especial) e Bitchin’ summer, a gravação – na qual a voz da “diva” aparece devidamente modificada por filtros e outras trucagens eletrônicas – serve, na melhor das hipóteses, como polaroide de um tempo e de uma sociedade em que jovens e inconformados acabam transformados, da noite para o dia, de consumidores em mercadoria de liquidação.
BRITNEY SPEARS
. Britney Jean
Como lídimo exemplar das “divas” do nosso admirável mundo novo, Spears sempre abusou de playbacks para tentar disfarçar – sem muito êxito – sua gemida, pusilânime e anasalada voz. Ainda que inegavelmente tenha melhorado sua técnica depois de incontáveis aulas de canto, o pesadelo de ouvi-la persiste. Isso pode ser aferido neste oitavo disco de estúdio da dublê de dançarina, atriz e cantora. Concebido como uma espécie de álbum conceitual sobre “a solidão da vida no mundo pop” (quanta originalidade!), Britney Jean ao menos dá sinal de que o poderio da estrela já não é o mesmo. O novo CD não só foi o disco da cantora que menos vendeu nos Estados Unidos –, também não emplacou na Inglaterra e em outros países da Europa. Resumindo: merece ser confinado para sempre nos arquivos do esquecimento.
CELINE DION
. Loved me back to life
Ao melhor estilo “sessão tortura”, com o qual a finada Whitney Houston atormentou a humanidade via sua tonitruante performance no tema do filme O guarda-costas, Celine Dion sempre abusou da capacidade de sustentar notas que parecem não ter fim. Detentora de extensão de 3,1 oitavas, ela pode até acreditar naqueles que a chamam de diva. Porém, a vasta discografia e as cifras milionárias – conforme reiteram as quase 250 milhões de cópias vendidas do recém-lançado Loved me back to life – não foram suficientes para mascarar o tatibitate do timbre característico de que ela se valeu para surrar ouvidos alheios com pieguissímo melodrama pop durante mais de três décadas. Prova de que nem mesmo uma portentosa voz e técnica acima da média são capazes de privar as “admiráveis divas do mundo novo” do mau gosto e da mesmice.
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