domingo, 15 de novembro de 2015

Agora é que são elas - Cacá Diegues

  • 15 nov 2015
  • O Globo
  • CACÁ DIEGUES


Em solidariedade ao movimento #AgoraÉQueSãoElas, abro hoje o espaço desta coluna para Isabel Diegues. Formada em Letras pela PUC- RJ, Isabel atuou como roteirista, produtora e diretora em filmes premiados como “Vila Isabel” (1998) e “Marina” ( 2003), além de ter sido produtora executiva de “Madame Satã” (2002), de Karim Ainouz. Dirigiu videoclipes, fotografou, fez capas de disco e cenários de show para Adriana Calcanhotto, Toni Garrido, Gilberto Gil e Milton Nascimento. Como produtora e editora de livros de arte, na Ed. Cobogó que dirige, organizou publicações sobre Adriana Varejão, bem como sobre a pintura brasileira do século XXI, além de “Aranhando a superfície", com desenhos de Gerald Thomas, e a Coleção Dramaturgia, com mais de 30 títulos publicados:

 Alguns dias depois de muitas colunas “cedidas a elas”, e dos milhares de depoimentos feitos nas redes sociais, ainda ecoam — e precisam ecoar! — as narrativas que tratam da desigualdade, da violência, das invasões de intimidade contra a mulher. E é preciso seguir lançando luz sobre tantas questões latentes e urgentes.

Aqui, na coluna do meu pai, conto pela primeira vez o que lembro ser o assédio mais remoto que sofri (esta é na verdade a segunda, a primeira foi numa incrível conversa com meu filho). Um amigo da família, quando eu tinha 8 anos, me sentou um dia em seu colo e percebi perplexa que ele roçava seu corpo no meu. Meu espanto de menina era também uma dúvida. Ele era legal, por que faria aquilo comigo? Tive medo e culpa. E recordo claramente como tudo se deu e o quanto me senti paralisada e assustada. Ouvi ao longo da vida muitas histórias mais terríveis que essa. Mas o mais comum entre nós mulheres é o silêncio, por constrangimento.

Ao ler tantos relatos surpreendentes de assédio, e com toda a discussão a respeito dos direitos da mulher sobre seu corpo, pensei muito sobre esse espantoso silêncio. Meu filho José, aos 13 anos, custa a acreditar que seja possível tamanha violência. Passamos horas falando sobre o que havíamos lido nas redes sociais e nos jornais, sobre como ele entendia tudo aquilo e sobre essa experiência tão delicada e violenta que eu, sua mãe, havia passado.

Sempre digo ao meu filho que nunca deixe que lhe façam nada que não tenha conforto e confiança em fazer. E que nunca, jamais!, imponha o mesmo a qualquer um. Pois o mais novo, o menos experiente, o fisicamente mais fraco, por insegurança ou ingenuidade, poderia se sujeitar ao que o outro propõe, sem perceber que não teria o direito de determinar os limites. E é preciso dizer não. A seu tempo, ele entenderia que o corpo é como nosso parque de diversões e temos todo o direito de nos divertir com ele como quisermos. Sempre atentos ao desejo e ao conforto do outro.

Dentre tantas narrativas de assédios e embates, uma história que li há algum tempo me pareceu um prólogo sintomático do que veio a ser escrito nos últimos dias. Uma atriz havia sido detida em Ipanema por fazer fotos sem blusa, e outra atriz propôs que todas as mulheres mostrassem seus seios ao mesmo tempo em protesto. Não deu certo. Ainda que houvesse quase dez mil confirmações no evento convocado pela internet, elas não apareceram e o protesto virou quase piada.

Mas uma de suas organizadoras escreveu um texto tão belo, na internet, que para mim valeu o episódio. Ana Rios contava ter crescido numa família carioca, de mãe e pai que lhe ensinaram que mulheres e homens eram iguais e que, fora o pênis de seu irmão, nada deveria ser diferente entre eles. Mas, ao entrar na puberdade, para sua surpresa, a mãe começou a pedir que tomasse cuidado com o que vestia. E numa tarde em que caminhava sozinha, ao se deparar com dois homens numa esquina, atravessou imediatamente a rua.

Esse ato impensado, automático, a fez perceber num susto que ela tinha “medo dos homens”. Essa conclusão terrível que se abateu sobre ela me fez pensar que eu, que nunca havia questionado a possibilidade de ter medo da figura masculina, talvez já tivesse também sofrido desse mal. Logo eu que me achava destemida, segura da minha força, intensificada justamente por minha posição de mulher. Lembrei as vezes em que mudei caminhos, apressei o passo, ou tive o coração disparado por me ver diante de um homem que poderia, quem sabe, me fazer mal. Pensei ainda em quantas mulheres não teriam tido sua sexualidade moldada por um medo que nem percebiam sentir, de tão naturalizado. Fiquei estarrecida e constrangida com essa perspectiva. Ao ler, nos últimos dias, tantas histórias, voltei ao relato da Ana e ele me pareceu um gesto inaugural sobre algo tenebroso que precisava ser combatido.

É preciso, de uma vez por todas, que o corpo seja um lugar de conforto, não de ameaça. E os homens têm um papel importante para criarmos essa nova ordem, um papel secundário, certamente, mas necessário. É preciso seguir narrando, questionando, propondo, determinando limites e expandindo outros. Mas não podemos nos restringir a falar entre nós mulheres — toda a sociedade deve estar envolvida no mesmo movimento de mudança. E será preciso paciência, alguns homens terão medo, se sentirão ameaçados. Portanto, temos de convidá-los e trazê-los para a discussão, os meninos e os adultos, com firmeza, mas com generosidade, para fazermos um imenso movimento, todos juntos, pessoas de todos os gêneros, pela liberdade, independência e autonomia sobre nossos corpos, nossas escolhas, nossos caminhos.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Esta noite encarnarei na tua TV

Série Zé do Caixão, sobre "homem obcecado pelo cinema" e que "tem os dois pés metidos na jaca da vida", como diz o ator Matheus Nachtergaele, que interpreta José Mojica Marins, estreia nesta sexta, 13

 

Mariana Peixoto
Estado de MInas: 13/11/2015 

 

 (Ana Ottoni/Canal Space/Divulgação)

Em uma sala de aula, o professor dá a ordem para os alunos. Estão todos em um avião, que começa a balançar. Depois de muita turbulência e gritos de terror, a aeronave cai. Todos estão mortos. Espera! Há uma sobrevivente. Que logo percebe que estaria melhor morta. Isso porque todos os outros passageiros viraram zumbis. Só de sutiã, a mulher agora tem que se salvar do ataque de mortos-vivos.

No final da década de 1950, José Mojica Marins iniciava seu caminho no cinema. Filho de artistas de circo, havia criado uma escola de atores no Brás, região central de São Paulo. Buscava, em meio aos alunos, aqueles que poderiam participar de sua primeira produção profissional. O critério era bem simples: quem pagasse mais teria um papel maior. Depois de montar seu elenco, que tinha como estrela uma stripper, partiu para o interior de São Paulo para filmar o primeiro faroeste do cinema brasileiro. Não havia quase nenhum dinheiro envolvido.

É a partir da impressionante cena do avião que tem início a série Zé do Caixão, primeira produção original do canal Space, que estreia hoje, às 22h30. A data está longe de ser aleatória. Para começar a contar a trajetória do mais maldito e cultuado cineasta brasileiro – que se lança no faroeste, consagra-se no terror, passeia pela pornochanchada e chega até o sexo explícito –, nada melhor do que uma noite de sexta-feira, 13.

É também impressionante a interpretação de Matheus Nachtergaele no papel do cineasta. Sem em momento algum mesmerizá-lo, o ator consegue, com sutileza e atenção aos detalhes, separar o criador (Mojica) da criatura (Caixão), ainda que os dois, em determinado momento, se misturem de forma definitiva.

Dirigida por Vitor Mafra e criada a partir do livro Maldito – A vida e o cinema de José Mojica Marins (1998), de André Barcinski e Ivan Finotti (que lançaram em 2001 documentário homônimo), a série traz seis episódios. Cada um deles corresponde a um filme da extensa produção (são mais de 20 longas) de Mojica.

SEM CARETICE “Não queríamos fazer um roteiro cinebiográfico daqueles clássicos e caretas, que começa com a infância do biografado e o acompanha por toda a vida. O tema central da série é a batalha de Mojica para realizar seus filmes, e como ele fez de tudo – tudo mesmo, incluindo vender objetos dos pais – para bancar as produções. É a história de um homem obcecado pelo cinema. Por isso, achamos que seria interessante contar a vida de Mojica paralelamente à produção de seis de seus filmes mais importantes”, afirma Barcinski, que assina o roteiro (em parceria com Ricardo Grynspan e o próprio Mafra).

Durante a primeira exibição pública da série – os dois episódios iniciais foram projetados durante a Mostra de São Paulo, no mês passado –, Nachtergaele afirmou: “Minha sensação é que o Zé está com os dois pés metidos na jaca da vida”. As dificuldades de Mojica para realizar seus filmes – e a maneira por vezes genial que encontrou para superar as adversidades – são exploradas na série com humor e uma bem cuidada reconstituição de época.

Aos 79 anos, o cineasta não se envolveu diretamente com a produção. Em 2014, Mojica sofreu duas paradas cardíacas, que o obrigaram a uma temporada de cinco meses na UTI. Hoje, faz diálise e sofre de enfisema pulmonar. “Nossa intenção era que ele fizesse uma ponta na série, mas não foi possível. Mas ele conseguiu visitar as filmagens por um dia e, apesar de fragilizado fisicamente, se mostrou muito feliz. Ele viu os episódios prontos e ficou particularmente emocionado com as cenas em que os pais aparecem”, diz Barcinski.

A temporada Zé do Caixão não se limita à série. O Museu da Imagem e do Som de São Paulo dedica a ele uma exposição. Já a biografia de Barcinski e Finotti, esgotada há muitos anos, ganha nova edição pela DarkSide Books, que chega hoje às livrarias. Para o relançamento, há um posfácio com os últimos anos de Mojica, novas imagens e a filmografia atualizada. São 200 páginas a mais, totalizando 666. Número autoexplicativo, em se tratando da história de José Mojica/Zé do Caixão.

ZÉ DO CAIXÃO
A série estreia hoje, às 22h30, no canal Space. Reprise aos domingos, às 23h, e às terças, às 21h50.

ACERVO TERRIR

A exposição À meia-noite levarei sua alma, que fica em cartaz até 10 de janeiro no MIS de São Paulo, reúne fotografias, figurinos, roteiros, objetos cênicos, trechos de filmes e imagens de bastidores das produções de Zé do Caixão. O material vem do acervo pessoal do próprio Mojica e de sua filha, Liz Marins, e também dos diretores Marcelo Colaiacovo, Paulo Sacramento e Kapel Furman, este último especialista em efeitos especiais, que trabalhou com Mojica em seu mais recente filme, Encarnação do demônio.

O cineasta José Mojica Marins, em Belo Horizonte, durante o lançamento de Encarnação do demônio, em 2008 (PEDRO VILELA/ESP/EM/D.A.PRESS)
O cineasta José Mojica Marins, em Belo Horizonte, durante o lançamento de Encarnação do demônio, em 2008


BASEADO NUM FILME REAL

Confira os filmes de José Mojica Marins que inspiram os seis episódios da série. Cada um tem 45 minutos

»  A sina do aventureiro (1958)
Primeiro filme profissional de Mojica, é considerado ainda o primeiro faroeste brasileiro. Após ser baleado, bandido é socorrido por duas jovens. Envolve-se com a filha de um fazendeiro, e se entrega à polícia por amor a ela. Além de fazer uma ponta, Mojica é o autor das letras das 10 canções da trilha.

»  À meia-noite levarei sua alma (1963)
No primeiro filme do personagem Zé do Caixão, o coveiro é apresentado como um homem obcecado por gerar o filho perfeito. Como sua mulher não pode engravidar, ele estupra uma moça, que jura cometer suicídio para retornar dos mortos e levar a alma daquele que acabou com sua vida.

»  Esta noite encarnarei no teu cadáver (1966)
Nesta sequência, Zé do Caixão continua em busca da mulher para gerar o filho perfeito. Rapta seis moças e as tortura. Acredita que só a mulher ideal sobreviverá. Só que ele mata uma mulher grávida e, atormentado pela culpa, sofre um pesadelo em que é levado para um inferno gelado, onde reencontra suas vítimas.

»  O despertar da besta: Ritual dos sádicos (1969)
Considerada a ‘obra-prima’ de Mojica, foi censurado e exibido pela primeira vez somente em 1983. Psiquiatra injeta LSD em quatro voluntários para estudar os efeitos da droga associada à imagem de Zé do Caixão. O personagem aparece de maneira diferente nos delírios psicodélicos de cada um, misturando sexo, perversão e sadismo.

»  Perversão (1978)
Playboy milionário que brutaliza todas as mulheres que conhece estupra uma jovem ingênua, arrancando a dentadas um de seus mamilos, que exibe como um troféu. Ele continua seduzindo mulheres até se apaixonar por uma estudante, que tem um plano de vingança.

»  24 horas de sexo explícito (1985)
Representante da fase pornô do cineasta. Três atores disputam quem consegue transar com o maior número de mulheres durante 24 horas. Traz aquela que é considerada a primeira cena de bestialismo do cinema nacional: uma atriz transa com um pastor-alemão.

domingo, 8 de novembro de 2015

O QUE ACONTECEU COM AS LUTAS DE BETINHO?

Cl Ancelmo Gois - O Globo 08/11/2015

O sociólogo Herbert José de Souza, santificado seja o vosso nome, completaria 80 anos na última terça. Betinho, falecido em 1997, travou vários combates em diferentes direções. Aqui um balanço dessas lutas:


Ação da Cidadania contra a Fome
 

 O relatório “O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo 2015”, da ONU, mostra que o Brasil está vencendo a fome.



Ética na Política 

 

Movimento lançado em 1992, que culminou com o impeachment de Collor. De lá para cá, a situação piorou, acho, como mostra a Lava-Jato. A ironia suprema é que alguns capas pretas petistas, que aderiram à época, resolveram enricar às custas de empresas que dependem do governo.







 Terra e Democracia
 


Em 1990, o movimento liderado por Betinho lutava pela reforma agrária. Hoje, a questão permanece, mas sem a dramaticidade daquela época. Muitos miseráveis do campo foram beneficiados por programas sociais e há ainda uma política de assentamentos.



 Reage Rio

Em 1995, eram comuns longos sequestros de empresários e também tiroteios nas favelas. Uma passeata pela paz reuniu umas 300 mil pessoas na Av. Rio Branco. De lá para cá, esses sequestros cinematográficos diminuíram e surgiram as UPPs. Mas a sensação de insegurança, no Rio e no Brasil, cresceu.





Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids

Foi fundamental em1986 para mobilizar a sociedade e o governo contra uma doença que acabara de surgir e que levou à morte o próprio Betinho. De lá para cá, mudou o controle de sangue (Lei Betinho), e o Brasil foi o primeiro país do mundo a distribuir antirretrovirais gratuitamente. Hoje, entretanto, não são poucos os que acham que o governo anda desleixado em relação ao tema.




No Mais
 Uma frase do Betinho, atual nestes tempos de sangria econômica: “Não podemos aceitar a teoria de que se o pé é grande e o sapato, pequeno, devemos cortar o pé. Temos de trocar de sapato.”

A cultura do crime - Cacá Diegues


  • 8 nov 2015
  • O Globo
  • CACÁ DIEGUES Cacá Diegues é cineasta carlosdiegues2015@gmail.com

Estamos mudando para pior no Brasil em termos de convivência humana Oque há em comum entre a campanha racista, via rede social, contra Taís Araújo e o trabalho escravo no país, denunciado por Wagner Moura? E entre a violência que chega ao canibalismo em presídios brasileiros e o projeto de nossos deputados para dificultar e impedir o aborto das mulheres? Ou entre as mortes de PMs e crianças nas favelas, vítimas de tiros vindos dos dois lados, e a trapalhada aparentemente inocente do Simples Doméstico? E assim por diante.


Não é só a necessidade que gera o crime. O Brasil e o Rio de Janeiro já foram muito mais pobres do que são agora, e nossas taxas de violência sempre foram relativamente humanas. Nem sempre o motivo do assaltante é a fome. Se fosse assim, a incidência de crimes seria dominante em outras áreas, longe das cidades afluentes do Sul e do Sudeste. Não sei se esta é a mesma reação das novas gerações, mas eu, que conheci de perto um pouco desse passado, tenho a nítida impressão de que o Brasil, em termos de convivência humana, muda de cara. Para muito pior.

O que comparamos no primeiro parágrafo deste texto são descasos, ilícitos, delitos, contravenções e crimes, malfeitos frutos de uma nova cultura que alimenta um comportamento sem generosidade, sem confiança no outro, sem projeto comum. Essa cultura é fundada num suposto direito individual de satisfazer o desejo sem restrições, produzindo prazer, lucro e poder às custas dos outros. Através dela, o capitalismo financeiro e consumista sequestra a nossa vontade atendendo a nossos desejos.

É impossível proibir o sentimento de um desejo por mais sórdido e repulsivo que ele seja, do estupro à pedofilia, passando por todas as formas imagináveis de violência. Os mistérios do inconsciente humano prevalecem, ninguém é conscientemente responsável por seu próprio desejo. A responsabilidade de cada um é pelo controle da prática do desejo segundo uma ética pessoal, o direito dos outros e princípios acordados em cada sociedade. A vontade consciente existe para impedir o desejo indesejável.

A criação do Estado é um momento importante na história da humanidade. Ele se responsabiliza pelo controle dos desejos criminosos, nem que para isso seja necessário usar a força da qual possui o monopólio. O Estado é o agente da sociedade em defesa da civilização. Quando ele perde o controle disso, quando seus representantes incentivam o mau comportamento pelos exemplos de violência que dão, o caos vence a justiça, a arma se torna mais poderosa que a fala, a civilização desfalece. Como deve agir o cidadão de um país onde, no Congresso Nacional, um grupo de eminentes parlamentares é conhecido e se reconhece como a “bancada da bala”?

Nossos homens públicos, em seus diferentes planos e poderes, estão viciados na cultura do pensamento mágico, criando argumentos e teses mirabolantes (às vezes simplesmente cínicas) que tentam justificar seus malfeitos provocados por desejos materiais. O deputado Luiz Sérgio, relator da CPI da Petrobras, jurou de mãos postas que nenhum homem público havia praticado qualquer ilícito contra a empresa estatal. E ainda aproveitou para atacar a colaboração premiada, a mais civilizada atenuação de pena para quem cometeu um crime. O deputado põe o pensamento mágico a seu serviço e, de tanto repeti-lo aos outros, acaba convencendose do que diz e vai dormir em paz. O juiz Sérgio Moro e seus companheiros são uns inventores de moda.

É esse pensamento mágico a serviço do crime que, em diversas dimensões (ele existe à direita e à esquerda), nos ajuda a esclarecer o que Kenneth Maxwell, brasilianista inglês, afirma sobre nós: a elite brasileira se comporta como se nada se passou e tudo é passado. Ou seja, a elite brasileira se nega a pensar que é culpada de alguma coisa, ela não se dá conta do real porque é incapaz de pensar no outro. Se tudo é passado, não há nada a fazer no presente.
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São Paulo sempre gerou alguns de nossos melhores filmes, com cineastas, de Roberto Santos e Walter Hugo Khoury a Hector Babenco e Fernando Meirelles, que consagrariam o cinema paulista no mundo inteiro. Agora, o governador Geraldo Alckmin decidiu que São Paulo não precisa mais de cinema e está extinguindo o Programa de Fomento ao Cinema Paulista, gerido pelo estado. Justamente no momento em que a SPCine, empresa municipal criada por Juca Ferreira, atual ministro da Cultura, quando era secretário de Cultura da capital, começa a dar seu primeiros frutos.

Durante 12 anos, o Programa de Fomento ao Cinema Paulista viabilizou mais de cem filmes, inclusive nosso premiadíssimo sucesso e atual candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro, “Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert. Para os cineastas paulistas, “o fim do programa é uma decisão política que, se confirmada, vai interromper o fluxo de produção com consequências desastrosas para o cinema paulista”, como dizem em manifesto recente. Estamos juntos com eles.

‘Porque estamos em 2015’ - Dorrit Harazim

  • 8 nov 2015
  • O Globo
  • DORRIT HARAZIM Dorrit Harazim é jornalista
 É mais fácil o presidente da Câmara tourear a cassação do seu mandato com os políticos do que abafar o movimento das mulheres

 Desde sua vitória de arromba nas eleições gerais de três semanas atrás, o canadense Justin Trudeau tem sido um deleite para fotógrafos. O segundo primeiro-ministro mais jovem do país (43 anos) mergulhou com entusiasmo em selfies com mulheres portandoo hijab, ensaiou uma dança típica com hindus, fez refeições com conterrâneos muçulmanos.


Também a cerimônia de posse desta quarta-feira ofereceu novidades telegênicas. Um dos pontos altos foi a lúdica apresentação de canto gutural inuit, uma tradição do povo indígena da Região Ártica. Trata-se, na verdade, de uma competição: duas mulheres ou meninas esquimós, posicionadas cara a cara, emitem pela garganta sons de animais ou da natureza. Perde aquela que rir primeiro. Educadamente, os presentes à posse do 23º chefe de governo também riram e aplaudiram.

Para quem vê nisso tudo sinais alarmantes de barato populismo multicultural, Trudeau reservou uma surpresa: a composição de seu gabinete. Os ministeriáveis chegaram juntos à cerimônia no centenário Rideau Hall de Ottawa. Num mesmo micro-ônibus, nada de limusines pretas.

A grande maioria dos integrantes do novo ministério tem entre 35 e 50 anos. Dois são aborígenes. Três são seguidores da doutrina sikh, surgida na região do Punjab indiano séculos atrás. E 15 são mulheres — metade exata do gabinete de 30 membros. “Por que considera esse equilíbrio de gênero tão crucial?”, quis saber a mídia logo após o anúncio. Trudeau pareceu espantado com a pergunta, pela obviedade da resposta: “Porque estamos em 2015”, disse apenas, antes de passar para questões mais complexas. Resumia assim o pensamento de um homem de seu tempo. No atual governo de Dilma Rousseff, aparelhado 275 dias após sua reeleição, o placar é de 27 homens para quatro mulheres.

No caso canadense, não se trata de uma questão apenas numérica. Ela também pretende ser qualitativa. Os ministérios de Comércio Internacional, da Justiça, das Instituições Democráticas e da Mudança Climática e Meio Ambiente estão entre as pastas agora comandadas por mulheres. Uma delas, Maryan Monsef, chegou ao Canadá aos 11 anos de idade, refugiada do Afeganistão.

No vasto país do Hemisfério Norte de apenas 36 milhões de habitantes, prevalece a compreensão de que a moderna nação-estado se construiu através de sucessivas ondas migratórias. Desde os egressos da Guerra de Independência americana, primeiros a receber do país vizinho um quinhão de terra, até os refugiados dos conflitos, desastres naturais e a fome de hoje, o Canadá se orgulha da tradição humanitária.

Nesse sentido, o governo conservador de Stephen Harper, que antecedeu a Trudeau e se manteve no poder por quase uma década, foi um ponto fora da curva. Centralizador, polemista, político de estilo combativo e autoritário, Harper considerava equivocado “derramar ajuda sobre gente que já morreu”, referindose aos despossuídos em busca de um recomeço de vida.

Foi surrado nas urnas em 2015 por não ter compreendido seu tempo nem sua gente, que votou em peso — 68% do eleitorado compareceram, apesar de o voto ser facultativo.

(Também Eduardo Cunha pretende não ver a dimensão do #AgoraÉQueSãoElas e a força do ronco feminino contra o seu projeto que dificulta o acesso ao aborto legal para vítimas de estupro. É mais fácil o presidente da Câmara tourear a cassação do seu mandato com os políticos do que abafar o movimento das mulheres).

“Meu governo é a cara do Canadá”, pode dizer Trudeau, “e a maioria sinalizou que é hora de uma mudança real”. O seu novo ministro da Defesa, por exemplo, usa turbante, barba e bigodão sikh, e nasceu na Índia. Mas não é por isso que o tenente-coronel Harjit Sajjan mereceu a pasta. Veterano de três temporadas na Guerra do Afeganistão e uma no conflito dos Balcãs dos anos 1990, o condecorado Sajjan pretende destrinchar o Canadá da reação ao ataque do 11 de Setembro que há 15 anos envenena a geopolítica mundial.

No dia da posse, Justin Trudeau foi mais uma vez perguntado se planejava perpetuar o legado do pai — Pierre Elliott Trudeau foi o premier mais pop e popular que o Canadá já teve e governou o país por 15 anos no século passado. “Meus pensamentos hoje não são para meu pai — sorry, Dad — mas para que meus próprios filhos e as crianças deste país tenham um futuro melhor”, respondeu o filho. Porque estamos em 2015.

Pergunta a Pedro Paulo Carvalho, secretário de Coordenação do Governo carioca e delfim do prefeito Eduardo Paes à sua sucessão nas eleições do próximo ano: em que órbita ele vive para classificar de “descontrole” a agressão à sua ex-mulher (à época ainda casados)? Pelo depoimento da acusadora feito em 2010 à Polícia Civil, ela foi derrubada no chão, agredida com chutes, socos e empurrões. Também teve um dente quebrado.

Porque estamos em 2015 isso se enquadra na Lei Maria da Penha.


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A bancada de um homem só

sábado, 7 de junho de 2014

O grande Samuel Wainer - Plínio Barreto


Estado de Minas: 07/06/2014

 

Gênio sonhador e ingênuo retratado nas memórias de Danuza Leão, conforme afirma minha grande amiga, Cleia Batista, a personalidade de Samuel Wainer supera qualquer rótulo que se lhe queiram atribuir.

Posso dizer que foi, para mim, uma grande honra ter trabalhado por alguns meses sob a batuta deste grande jornalista. A vontade de viver novas experiências, conhecer outro ambiente jornalístico e o excelente profissional que me queria por perto, foram maiores que a razão. A razão me dizia pra ficar por aqui, considerar a segurança de um emprego público e a necessidade que a família tinha da minha presença. Mas segui o coração: requisitei minhas férias-prêmio e me mandei para o Rio de Janeiro.

Durante o breve período em que trabalhei no jornal Última hora, pude perceber a figura humana e cheia de carisma daquele gênio do jornalismo. Sem medo de errar posso afirmar que talvez tenha sido uma das mais aguçadas inteligências do nosso meio, detentor de “faro” que só os verdadeiros repórteres desenvolvem. Além do brilho profissional, um homem alegre e humano, amigo dos amigos, pai e marido carinhoso. Lembro-me da Danuza entrando na redação, rumo à sala do “chefe” portando um “barrigão” da gravidez de seu segundo filho – o Samuca.

Samuel Wainer exibia sempre um leve sorriso no canto dos lábios, os óculos por sobre a testa, o olhar atento do repórter que habitava nele. Sabia incentivar os jovens como eu, tirar o melhor do profissional, instigar e reconhecer valores e, sobretudo, valorizar o trabalho em equipe. Sempre circulando pela redação, pelas oficinas, corrigindo, ponderando, elogiando. Era também, extremamente metódico: ao encerrar mais um dia de profícuo trabalho, deixava sempre a sua velha Remington de pernas pro ar – teclado pra cima – como se reconhecesse que a companheira precisasse descansar durante a noite, na sua ausência.

sábado, 31 de maio de 2014

Roma eterna e inigualável - Luiz Mott

A Tarde - 31/05/2014

Luiz Mott
Professor titular de Antropologia da Ufba
luizmott@oi.com.br

Pelo sétimo ano consecutivo, passo todo
o mês de maio em Roma. E pretendo
retornar enquanto a “vecchiaia” não impedir.
Vivi anos seguidos em Paris, Lisboa, São
Paulo e Salvador, mas Roma é hors concours.
Sobretudo na primavera. Clima delicioso, de
15 a 25 graus, chuva rara. Céu azul, sol brilhando
até 20 horas.

Diversas circunstâncias fizeram a Cidade
Eterna ser tão especial. Suas suaves sete colinas
proporcionam panoramas indescritíveis.
O caudaloso e limpo rio Tibre (Tevere), abriga
ainda hoje peixes e aves aquáticas. Vegetação
nativa exuberante, incluindo oliveiras, pinhos,
carvalhos, olmos, frutas deliciosas. Flores
multicoloridas, com campos cheios de papoula
vermelha e giestas. Muito jasmim com
perfume inebriante. O céu romano é forrado
de pássaros, das pequeninas andorinhas a
enormes gaivotas e corvos. Búfalos habitavam
seus pântanos e uma loba maternal amamentou
Rômulo e Remo, mitológicos fundadores
da cidade e do povo romano.

Não existe no mundo espaço urbano com
tantas fontes, mais de duas mil, comdeliciosa
água gelada, algumas jorrando sem parar desde
o tempo dos césares. É o mais exuberante
museu a céu aberto em todo o planeta, concentrando
as maiores e mais bem conservadas
maravilhas da arqueologia clássica, notadamente
o Panteon e o Coliseu. Suas centenas
de basílicas e igrejas são destaque mundial
em todos os estilos: paleocristãs, românicas
e góticas, mas é sobretudo o barroco,
com assinatura de Michelangelo e Borromini,
que nos extasiam.

Em Roma estão os maiores e majestosos
obeliscos jamais esculpidos, quase todos provenientes
do Egito faraônico. Os mármores
multicromáticos dos palácios e igrejas não
têm paralelo em todo o orbe, assim como as
muitas pinturas de Caravaggio e Rafael, presentes
em diversas igrejas romanas. O povo é
alegre, muito falante, hospitaleiro. Sobretudo
os mais velhos primam pela elegância, senhoras
de cabelo arrumado, coroas com roupas
e sapatos de bomgosto. Todos os caminhos
levam a Roma. E quem tem boca, chega lá...

Reaja ao caos do trânsito, prefeito - JC Teixeira Gomes

A Tarde - 31/05/2014

JC Teixeira Gomes
Jornalista, membro da Academia de Letras da
Bahia
jcteixeiragomes@hotmail.com

Escrever um artigo sobre o caos em que se transformou o trânsito de Salvador não deixa de ser redundância, pois, melhor do que eu, sabe quem dirige. Mas, como jornalista, tenho um espaço privilegiado e me sinto na obrigação de defender os interesses da nossa hoje infeliz Salvador. Por isso, dirigirei estas linhas, enquanto continuo viajando, ao prefeito ACM Neto, embora sem esperanças de que na minha volta algo tenha melhorado.


Quem dirige e trabalha, porque ninguém mais usa carro para passear, sabe o quanto está sofrendo para circular com automóvel ou ônibus em Salvador. Longamente negligenciada por incompetentes administrações, a capital baiana chegou ao paroxismo do péssimo, em matéria de tráfego. O mais grave é que todos os novos administradores, quando assumem seus cargos, protelam medidas imperativas em favor de arranjos, qu apenas iludem ou retardam providências realmente indispensáveis.


Infelizmente, até agora agiu assim também o prefeit ACM Neto. Pois é ou não uma inversão de prioridades realizar obras em um bairro como a Barra, em prejuízo de outras mais urgentes em locais como o Iguatemi, a rua Oswald Cruz, na Mariquita, a saída do Salvador Shopping, e tantas ruas da Pituba, Liberdade, Brotas, avenidas de vale etc., onde a situação chegou a níveis insuportáveis?


Poderão objetar que ACM Neto tem pouco tempo no cargo. É condescendência de simpatizante, já é prefeito há bem mais de um ano. O período é pouco para a realização de obras fundamentais, não para o seu planejamento. Sobretudo, par demonstrar que não inverterá prioridades na cidade sufocada.


Há semanas, elogiei o anúncio que o prefeito fez da recuperação do Aeroclube, destacando a informação de que ele traria uma urbanista internacional para ajudar no planejamento da área. Considerei auspicioso o fato e o tomei como prenúncio de medidas idênticas em outras iniciativas. Esperei em vão. No entanto, essa feliz ideia precisa ser estendida como fator benéfico de rejuvenescimento urbano. Não que Salvador não disponha de quadros para planejar seu traçado. Mas trazer a visão de fora pode tornar-se essencial para renovar o enquadramento das providências. Isto se faz nas principais cidades do mundo, inclusive naquelas que, na Europa, já foram consagradas pelas bênçãos dos séculos.


O estrangulado sistema viário baiano tornou-se mais congestionado pela ausência do metrô, cujo funcionamento só agora se anuncia. A esperança surgiu há mais de doze anos, quando a prefeitura iniciou o que hoje os taxistas qualificam satiricamente de “metrô Nelson Ned”, ou seja, o menor do mundo, com os seus ridículos seis quilômetros.


Continuo aguardando que alguma autoridadedo governo ou da prefeitura venh explicar aos baianos por que “o metrô Nelson Ned” foi levantado sobre portentosas pilastras, que consumiram milhões do povo, pelo uso excessivo de cimento, ferro e brita. Um crime! Salvador, pelo que eu conheço do mundo, é a única cidade que levantou metrô aéreo, quando o normal é que os trilhos deslizem na superfície do solo ou nas partes subterrâneas da cidade. O que considero mais grave é que esse brutal desperdício do dinheiro da Bahia, afrontoso e inadmissível, não provocou uma única investigação, nem muito menos mandou sequer um provável dilapidador dos recursos do povo baiano para a cadeia.


A recente greve dos ônibus tornou a evidenciar o espantoso estado da desordem nos transportes na Bahia. Todos sabemque o prefeito ACMNeto temmuitas ambições políticas. Então é recomendável que transforme sua primeira e única experiência administrativa na vida pública, pois antes não dirigiu órgão algum, numa prova irrefutável de eficiência e consciência de prioridades. O caos reinante no Iguatemi, na absurda rua Oswaldo Cruz, no Rio Vermelho, na avenida Garibaldi, diariamente na saída vespertina do mais importante shopping da cidade, o Salvador, sempre um suplício, em Brotas, na Pituba, na Liberdade etc., em suma, em toda a capital baiana, mais do que remendos, exige medidas corajosas, urgentes e inadiáveis.