sábado, 16 de janeiro de 2016
domingo, 29 de novembro de 2015
Impunidade ambiental - Carlos Minc
A tragédia de Mariana teve alertas não levados a sério. O Ibama multou a
Samarco por desmatamento ilegal, que desprotege as barragens, e pediu a
sua interdição
No Brasil, não existe cultura de prevenção. Em países onde há ciclones e terremotos, há simulações e exercícios frequentes, até para crianças. Aqui, até há pouco, sirenes e Mapeamentos de Risco (MRs) inexistiam. A impunidade ambiental (e não só) é regra: empresas não pagam multas e protelam obrigações de reconstituir ecossistemas — artigo 225 da Constituição federal, que, independentemente de comprovação de culpa, é responsabilidade objetiva.
A tragédia de Mariana teve alertas não levados a sério. O Ibama multou a Samarco por desmatamento ilegal, que desprotege as barragens, e pediu sua interdição, após ouvir órgão ambiental de Minas, que não se pronunciou. Condicionante ambiental da licença exigia plano de contingência, sirenes, que não existiam.
A Lei 1898 — das auditorias ambientais para empresas poluidoras, aprovada no Rio de Janeiro em 1991 — foi criticada: seria caro. Só foi cumprida 15 anos depois, inclusive pela CSN e Reduc: com diagnóstico preciso e ações de mudança tecnológica preventiva de R$ 400 milhões e R$ 1 bilhão, respectivamente. Pelo potencial destrutivo das barragens de rejeitos, estas devem ser submetidas a auditorias independentes. Municípios do Rio de Janeiro passaram a ter MRs, sirenes e sistemas de alerta de cheias dos rios a partir de 2007, com recursos do Fecam para o Departamento de Recursos Minerais, a Defesa Civil e o Inea. Vários prefeitos colocavam a publicação sob um jarro de flores e faziam obras em encostas e beira de rios, vedadas pelo MR. Nova lei obrigou que diretrizes do mapeamento fossem incorporadas ao uso do solo das cidades.
Em 2007, no segundo acidente das barragens da Cataguases, que contaminou as bacias dos rios Pomba, Muriaé e municípios do Noroeste Fluminense, acionamos, à frente da Secretaria do Ambiente, a Agência Nacional de Águas, o Ministério Público Federal e secretarias mineiras — que prometeram fiscalização e transparência. Admitiram que havia 40 barragens de risco, sem auditoria e plano da Defesa Civil, por pressão das mineradoras, por conta de custos. Até hoje, pescadores e agricultores do Noroeste fluminense não foram indenizados: um alerta para que a impunidade não se repita.
A proposta de Sebastião Salgado, que dedicou a vida ao reflorestamento das nascentes do Rio Doce, é a melhor. A volta à vida e atividades na região dependem da recuperação da Mata Atlântica e dos olhos d’água. Salgado propôs um fundo de recuperação, mas preocupa-se com quem irá geri-lo, para o recurso não ser desviado. No Ministério do Meio Ambiente, criamos, em 2009, o Fundo Amazônia — operado pelo BNDES e gerido por conselho com SBPC, sssociações de seringueiros, municípios. Não houve desvios, mas a execução foi lenta: foram aplicados só 30% de uma doação da Noruega, de US$ 1 bilhão.
Há que ter probidade e agilidade, para que o fundo apoie já ações que enfrentem a tragédia, regenerem o deserto produzido pela inépcia e reconstituam condições de vida de populações desterradas e agredidas.
- 29 nov 2015
- O Globo
- CARLOS MINC Carlos Minc é deputado estadual (PT-RJ)
Futuro? Que futuro? - Aldir Blanc
Juiz Moro, suas delações vazam mais que os rejeitos das barragens
Todos aqueles canalhas da casa de tolerância, votando pela merecida cadeia para Delcídio, o Bestalhão, pelo amor de meus netinhos! Não escapava um da mão na grade, que estão lá, relinchando ao vivo, com o Zé Peruca botando (des)ordem nos procedimentos. Quer dizer que um crime de 50 mil por mês gera prisão imediata, enquanto uma propina de 5 milhões de dólares continua impune na pátria que pariu as pobres crianças do Rio Morto? Essa é a aritmética do futuro?
Mais: Delcídio teria proposto mesada e fuga para evitar a delação de Cerveró, que envolveria a presidente no superfaturamento da refinaria Passadilma. Juiz Moro, suas delações vazam mais que os rejeitos das barragens. O sr. é tão severo. Não notou que tem alguém levando grana? Enquanto isso, Romário retiraria sua candidatura para apoiar o espancador Pedro Paulo. Assim ficaria blindado pelo PMDB. Chega! É preciso denunciar ainda o tonitruante silêncio do presidenciável mineiro Aócio Neves. Tem amiguinhos na Vale o Quanto Vaza, que virou privada na gestão de FHC. Vão todos se fifar — ou se sarnar!
Sugiro homicídio culposo para os irresponsáveis da Samarco & Vale. É o mínimo que o Brasil emporcalhado exige.
O texto abaixo vai para o grande Lédio Carmona, comentarista-símbolo da concisão e da elegância, que atua de forma diametralmente oposta aos elementos a seguir. O Comentarista do Futuro: — Ao ver o objeto do desejo, a terceira bola, diante de sua libido, representação do seio materno idealizado pela ansiedade primeva e edipiana contra o domínio do Nome do Pai, o atleta, no que era chamada de meia-lua, hoje topo do incidente russo-turco, foi acometido por uma desleitura bloomiana da jogada e, além de causar fratura exposta na tíbia do pseudo-Laio, afundou no que antes era conhecida como zona do agrião, atual Samarco. Uma curiosidade: devido a um transtorno no genoma, talvez ribossômico, o player gabava-se de possuir três testículos. Conta-se que ao voltar das desnudas, ex-peladas, em Honório Gurgel, as periguetes ironizavam o futuro volante: — Aí, hein? Tá com as bolas todas! A bibliografia para meu comentário pode ser encontrada em:
1 —“A Aimée de Lacan” — Jean Allouch;
2 — “Angústia de influência” — Harold Bloom;
3 —“O enigma da esfera”, “O Talmude” e o “Talismã-Badalhoca do Muezin” — Paulo Coelho;
4 — “The Future of Embryology and Genetics” — Roger Bighouse;
5 — “Meiões com chulé também são divinos” — Padre Marcelo de Rossi;
6 — “O seminal Hilda, a Mineirinha” — Carlos Zéfiro.
2 — “Angústia de influência” — Harold Bloom;
3 —“O enigma da esfera”, “O Talmude” e o “Talismã-Badalhoca do Muezin” — Paulo Coelho;
4 — “The Future of Embryology and Genetics” — Roger Bighouse;
5 — “Meiões com chulé também são divinos” — Padre Marcelo de Rossi;
6 — “O seminal Hilda, a Mineirinha” — Carlos Zéfiro.
- 29 nov 2015
- O Globo
- Aldir Blanc é compositor
Mistério há de pintar por aí - Cacá Diegues
O Brasil é um país, para o bem ou para o mal, cheio de mistérios. Três
filmes brasileiros, em cartaz na cidade, tentam dar conta de alguns
deles. Nenhum tem muito a ver com o outro, os mistérios que eles
procuram nos desvendar são de natureza totalmente diferente um do outro.
O primeiro desses filmes chama-se “Chico, artista brasileiro”, foi realizado por Miguel Faria Jr. e nos revela um Chico Buarque que o público muito mais supõe do que conhece. É impressionante como um artista que sempre esteve na linha de frente da música popular e da cultura brasileira em geral, às vezes com repercussão artística e política estrondosa, conseguiu preservar sua intimidade e, mais do que isso, sua individualidade solidária durante os seus 50 anos de atividade.
Um raro padrão brasileiro de integridade, Chico foi sempre um guerrilheiro do próprio pensamento, usando seu talento a serviço de causas que julgava justas, fossem elas de que natureza fossem, retirando-se quando considerava suficiente o que já fizera. Chico sempre teve o pudor do sucesso, sem se negar nunca a aceitá-lo com naturalidade e sem exibicionismo.
No filme de Miguel Faria Jr., pela primeira vez Chico nos mostra, num documento público, como ele é em sua privacidade. Um homem cheio de humor e ternura, capaz de rir-se de si mesmo e de nos dizer coisas da maior importância da maneira mais simples (me surpreendi com sua justíssima fala sobre a bossa nova). Os números musicais, montados com bom gosto e sobriedade, iluminam essa descoberta comovente da obra imortal de Chico.
Diferentemente do consagrado “Vinicius”, esse novo filme de Miguel Faria Jr. se dedica à compreensão mais íntima de seu personagem. Enquanto “Vinicius” era uma fascinante reportagem sobre o famoso poeta e letrista, “Chico” se aproxima de seu personagem para entendê-lo melhor. Enquanto o primeiro filme é um discurso de admiração por um grande artista, esse de agora é um delicado e confessional canto de amor por alguém que mexeu com nossas vidas nestas últimas cinco décadas.
Por provocação do próprio Chico, esse canto de amor vai de assuntos como a censura durante a ditadura militar, até seu orgulho pessoal como boleiro; ou de confissões como a descoberta de seu pai, Sérgio Buarque de Holanda, através da literatura, até o elogio das relações com sua ex-mulher, a atriz Marieta Severo.
O primeiro desses filmes chama-se “Chico, artista brasileiro”, foi realizado por Miguel Faria Jr. e nos revela um Chico Buarque que o público muito mais supõe do que conhece. É impressionante como um artista que sempre esteve na linha de frente da música popular e da cultura brasileira em geral, às vezes com repercussão artística e política estrondosa, conseguiu preservar sua intimidade e, mais do que isso, sua individualidade solidária durante os seus 50 anos de atividade.
Um raro padrão brasileiro de integridade, Chico foi sempre um guerrilheiro do próprio pensamento, usando seu talento a serviço de causas que julgava justas, fossem elas de que natureza fossem, retirando-se quando considerava suficiente o que já fizera. Chico sempre teve o pudor do sucesso, sem se negar nunca a aceitá-lo com naturalidade e sem exibicionismo.
No filme de Miguel Faria Jr., pela primeira vez Chico nos mostra, num documento público, como ele é em sua privacidade. Um homem cheio de humor e ternura, capaz de rir-se de si mesmo e de nos dizer coisas da maior importância da maneira mais simples (me surpreendi com sua justíssima fala sobre a bossa nova). Os números musicais, montados com bom gosto e sobriedade, iluminam essa descoberta comovente da obra imortal de Chico.
Diferentemente do consagrado “Vinicius”, esse novo filme de Miguel Faria Jr. se dedica à compreensão mais íntima de seu personagem. Enquanto “Vinicius” era uma fascinante reportagem sobre o famoso poeta e letrista, “Chico” se aproxima de seu personagem para entendê-lo melhor. Enquanto o primeiro filme é um discurso de admiração por um grande artista, esse de agora é um delicado e confessional canto de amor por alguém que mexeu com nossas vidas nestas últimas cinco décadas.
Por provocação do próprio Chico, esse canto de amor vai de assuntos como a censura durante a ditadura militar, até seu orgulho pessoal como boleiro; ou de confissões como a descoberta de seu pai, Sérgio Buarque de Holanda, através da literatura, até o elogio das relações com sua ex-mulher, a atriz Marieta Severo.
Artista brasileiro por sua própria definição, o filme termina com a
interpretação emocionada e emocionante de “Paratodos”, uma criação de
antropologia lírica do Brasil, o retrato do indecifrável mistério da
genialidade. A cara de Chico.
Outro mistério do cinema brasileiro: “Chatô, o rei do Brasil”, filme de Guilherme Fontes. O que se poderia esperar de um filme iniciado 20 anos atrás, dirigido e produzido por um menino com então pouco mais de 20 anos de idade, sem maiores compromissos com a cinematografia, a política e a cultura do país, um filme que, ainda por cima, havia de sofrer tantos e tão controvertidos acidentes de produção que só lhe permitiriam ficar pronto agora, duas décadas depois?
Pois a vítima de todos esses percalços é um grande filme!
Guilherme Fontes obteve os direitos do livro de Fernando Morais sobre Assis Chateaubriand, o tycoon da imprensa brasileira dos anos 1940 aos 60, e transformou a biografia literária em poesia cinematográfica. Uma poesia osvaldiana, refletida do tropicalismo da segunda metade do século passado, a poesia de “Terra em transe”, “O rei da vela” ou “Alegria, alegria”. Um exaltado carnaval de travellings e jump cuts, sempre surpreendentes e inspirados, para falar do Brasil e de brasileiros menos arcaicos do que podemos supor.
Como um milagre, o filme iniciado há 20 anos tem o frescor de um documento contemporâneo sobre o estado do país e seus líderes em diferentes setores da sociedade. O delírio político, o exibicionismo de comportamento, a ganância e o excesso, a ausência festiva de escrúpulos, parecem inspirados no que lemos diariamente nos jornais e vemos na televisão em nossos dias. Uma comédia dolorosa.
Embora tenha sido lançado em apenas 19 cinemas, “Chatô” fez, na semana passada, a segunda média de ingressos por sala. O que significa que atraiu a inesperada curiosidade de muita gente e, se fosse lançado em circuito maior, teria certamente feito bilheteria significativa. O grande sucesso cinematográfico é sempre aquele de filmes que o público ainda não sabe que vai gostar.
Ainda não vi o terceiro filme de minha lista, mas não posso deixar de lembrar que “Idolo”, documentário de Ricardo Calvet, trata de um grande mistério de nosso futebol, o gênio de Nilton Santos. Nilton, a Enciclopédia do Futebol, nunca deu um carrinho em toda a sua vida e, como jogava sempre de cabeça erguida, nunca soube de que cor era o gramado de futebol. Não dá para perder.
Outro mistério do cinema brasileiro: “Chatô, o rei do Brasil”, filme de Guilherme Fontes. O que se poderia esperar de um filme iniciado 20 anos atrás, dirigido e produzido por um menino com então pouco mais de 20 anos de idade, sem maiores compromissos com a cinematografia, a política e a cultura do país, um filme que, ainda por cima, havia de sofrer tantos e tão controvertidos acidentes de produção que só lhe permitiriam ficar pronto agora, duas décadas depois?
Pois a vítima de todos esses percalços é um grande filme!
Guilherme Fontes obteve os direitos do livro de Fernando Morais sobre Assis Chateaubriand, o tycoon da imprensa brasileira dos anos 1940 aos 60, e transformou a biografia literária em poesia cinematográfica. Uma poesia osvaldiana, refletida do tropicalismo da segunda metade do século passado, a poesia de “Terra em transe”, “O rei da vela” ou “Alegria, alegria”. Um exaltado carnaval de travellings e jump cuts, sempre surpreendentes e inspirados, para falar do Brasil e de brasileiros menos arcaicos do que podemos supor.
Como um milagre, o filme iniciado há 20 anos tem o frescor de um documento contemporâneo sobre o estado do país e seus líderes em diferentes setores da sociedade. O delírio político, o exibicionismo de comportamento, a ganância e o excesso, a ausência festiva de escrúpulos, parecem inspirados no que lemos diariamente nos jornais e vemos na televisão em nossos dias. Uma comédia dolorosa.
Embora tenha sido lançado em apenas 19 cinemas, “Chatô” fez, na semana passada, a segunda média de ingressos por sala. O que significa que atraiu a inesperada curiosidade de muita gente e, se fosse lançado em circuito maior, teria certamente feito bilheteria significativa. O grande sucesso cinematográfico é sempre aquele de filmes que o público ainda não sabe que vai gostar.
Ainda não vi o terceiro filme de minha lista, mas não posso deixar de lembrar que “Idolo”, documentário de Ricardo Calvet, trata de um grande mistério de nosso futebol, o gênio de Nilton Santos. Nilton, a Enciclopédia do Futebol, nunca deu um carrinho em toda a sua vida e, como jogava sempre de cabeça erguida, nunca soube de que cor era o gramado de futebol. Não dá para perder.
- 29 nov 2015
- O Globo
- CACÁ DIEGUES Cacá Diegues é cineasta carlosdiegues2015@gmail.com
sábado, 28 de novembro de 2015
E no entanto se move - Zuenir Ventura
- 28 nov 2015
- O Globo
Seria uma tarefa constrangedora cortar na própria carne numa casa como o Senado, de forte espírito de corpo, onde presidente
está sendo investigado
está sendo investigado
no exercício de seu mandato, no caso o líder do governo no Senado, Delcídio Amaral, junto com o poderoso banqueiro André Esteves (está preso em Bangu, frequentado até então apenas por banqueiros de bicho). A voz do primeiro aparecia numa gravação tentando comprar o silêncio do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, oferecendo R$ 4 milhões, R$ 50 mil por mês para a família e um detalhado roteiro de fuga para o exterior. Tudo para que os dois nomes não fossem citados por Cerveró, que firmara acordo de delação premiada na Operação Lava-Jato.
Delcídio foi logo lançado às feras pelos seus companheiros. O PT,
em nota, negou-lhe solidariedade, ao contrário do que fizera no
mensalão, transformando condenados como José Dirceu em “guerreiros do
povo brasileiro”. Além disso, quer expulsá-lo e, como se fosse pouco, o
ex-presidente Lula chamou-o de “idiota” e “imbecil” (o seu instituto
desmentiu, mas duas testemunhas, segundo a “Folha”, confirmaram). Pode
haver quem se arrependa de tê-lo execrado se, por acaso, Delcídio
resolver também ser um delator. De qualquer maneira, foi assim,
rejeitado e encarcerado, que Delcídio seria julgado à noite por seus
pares. Era difícil ficar conivente com ele diante de provas que o
tornavam quase indefensável. Mas, apesar disso, cortar na própria carne
numa casa de forte espírito de corpo, onde o presidente está sendo
investigado, seria uma tarefa constrangedora. E foi, ainda mais que o
acusado é tido como uma pessoa afável, de livre trânsito e muito
benquisto pelos adversários. Ganhou elogios até de muitos dos 59 que
votaram por mantê-lo na prisão. Sua derrota foi dupla. Perdeu quando o
plenário preferiu que o voto não fosse secreto, como queria o presidente
e os outros que não gostariam de revelar sua escolha. E perdeu em
seguida, quando a maioria aprovou a decisão do STF de mandar prendê-lo,
contra apenas 13 que queriam sua liberação.
Essa espécie de rebelião ética do Senado contra a vontade de quem o preside poderia servir de lição para a Câmara. O presidente dessas Casas não deve ser um ditador, principalmente se coberto de graves denúncias. Quando nada, para reforçar a impressão de que o país, como a Terra, está se movendo — e, espera-se, para melhor.
Essa espécie de rebelião ética do Senado contra a vontade de quem o preside poderia servir de lição para a Câmara. O presidente dessas Casas não deve ser um ditador, principalmente se coberto de graves denúncias. Quando nada, para reforçar a impressão de que o país, como a Terra, está se movendo — e, espera-se, para melhor.
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
País de rinocerontes? - Chico Alencar
Governo eleito há mais de um ano não consegue começar
- 18 nov 2015
- O Globo
- CHICO ALENCAR Chico Alencar é deputado federal (PSOL-RJ)
Apeça “O rinoceronte”, de Eugène Ionesco (1909/1994), marcou minha juventude. Ainda era ditadura, e a censura, de olho no espetáculo, cogitou proibi-lo. Não foi a primeira vez que sua burrice popularizou uma obra de arte. O humor cáustico e a linguagem figurada do texto questionavam a lógica do totalitarismo e da massificação, confundindo os defensores da ordem.
O regressismo conservador dos nossos tempos nos leva ao palco da vida real, onde se monta, a cada dia, um novo teatro do absurdo. A peça já clássica de Ionesco tem três atos. A do Brasil, que todos nós encenamos, em diferentes papéis, também pode ser estruturada assim.
O primeiro ato é o de um governo que, eleito há mais de um ano, não consegue começar. Trocou todo o cenário e os diálogos originalmente apresentados. O que foi dito na campanha ficou por lá, e agora a direção assumiu o roteiro do seu antagonista. O palco foi tomado por rinocerontes, com os humanos se transformando nesses paquidérmicos animais. O ar está pesado, as políticas públicas não andam, o governo não governa: vai sobrevivendo, aos trancos e barrancos, tentando se entender. O segundo ato se dá no Legislativo Nacional, em particular na Câmara dos Deputados. Nunca na história do Parlamento brasileiro um presidente sofreu acusações tão contundentes, com inquéritos por corrupção, lavagem de dinheiro e ganhos não declarados já no Supremo. Mas Sua Excelência nega tudo. Quando, afinal, tenta se explicar, traz uma história digna do absurdo de Ionesco, do surrealismo de Dalí ou do realismo fantástico de García Márquez. O acusado cunhou uma versão sui generis: reconhece acúmulo de bens no exterior que não são bem seus, propriedade que não lhe pertence, comprovação do que não é provável, em montante não preciso gerido por terceiros que não revela. O personagem de tantos negócios obscuros é ninguém menos que o segundo na linha sucessória da República. Nada sereníssima...
O terceiro ato pode ser o da peça de Ionesco, sem grandes
alterações. A letargia de quem devia reagir a tudo isso, em especial no
Legislativo, cria um ambiente de patética omissão. Comportamento de
manada é da natureza dos rinocerontes! Representação no Conselho de
Ética virou retaliação e tentativa de intimidação contra os que não
aceitam o servilismo do “não vejo, não falo, não ouço”.
Mas tem final feliz: apesar da tentação da acomodação à ordem em decomposição, as ruas resistem, de forma crescente. São como Berenger, o anti-herói de Ionesco. Após muito vacilar, e feliz por não ter se transformado, como tantos, em mais um rinoceronte, ele assume sua humanidade: “A mim vocês não pegam! Eu não vos seguirei, eu não vos compreendo! Continuarei como sou, um ser humano! (...) Contra todo mundo, eu me defenderei. Sou o último homem, hei de sê-lo até o fim: não me rendo!”.
Há caminhos.
Mas tem final feliz: apesar da tentação da acomodação à ordem em decomposição, as ruas resistem, de forma crescente. São como Berenger, o anti-herói de Ionesco. Após muito vacilar, e feliz por não ter se transformado, como tantos, em mais um rinoceronte, ele assume sua humanidade: “A mim vocês não pegam! Eu não vos seguirei, eu não vos compreendo! Continuarei como sou, um ser humano! (...) Contra todo mundo, eu me defenderei. Sou o último homem, hei de sê-lo até o fim: não me rendo!”.
Há caminhos.
terça-feira, 17 de novembro de 2015
Raymundo Costa: O segundo tempo do impeachment
Valor Econômico - 17/11/2015
Troca de Levy por Meirelles empareda de vez a presidente
O ex-presidente Lula disse a amigos que não fará mais tanta pressão para
a presidente Dilma Rousseff trocar de ministro da Fazenda. Vai deixar
de falar ao pé do ouvido e dizer de público o que pensa. Lula não quer
se indispor com Levy, com quem acha que tem divergências apenas
eventuais. Em suas palavras, não quer fazer "uma cruzada contra o Levy".
E o ouvido de Dilma, por outro lado, está quente de tanto ouvir os seus
argumentos em favor de Henrique Meirelles.
Lula e Dilma tiveram uma longa conversa sobre economia há menos de 15
dias. Nem todos os ministros da Casa participaram da reunião, organizada
por Jaques Wagner. Lula falou o que pensa da economia. E educadamente
ouviu o que a presidente tinha a dizer - bem diferente dos relatos sobre
conversas ocorridas no primeiro semestre. A relação entre os dois está
melhor, contam os amigos em comum. O que chamou a atenção foi a ausência
do ministro Joaquim Levy, aquele que Lula quer trocar por Henrique
Meirelles.
Lula queria mover três peças no governo: tirar Aloizio Mercadante da
Casa Civil, trocar Joaquim Levy por Henrique Meirelles na Fazenda e
tirar José Eduardo Cardozo da Justiça. Conseguiu o primeiro objetivo,
mantém a mesma opinião sobre Meirelles e mais do que nunca gostaria de
ver Cardozo longe de Brasília. Na época, posou de vencedor. Agora deixou
a conversa "desanimado". Diz que só falará em público, um perigo, pois é
justamente quando desata a falar que Lula mais tem ajudado a minar a
autoridade de Levy. Outro dia, um petista que defende a saída de Levy
reagiu desconcertado quando um colega de partido resolveu brincar com
ele: "Cuidado: Vocês podem gritar 'Fora Levy' e ganhar o Meirelles".
Lula não esperou muito tempo para declarar em público que a data de
validade do ministro Levy está vencida. Dilma subiu o tom e respondeu
que não era forçada a concordar com "avaliações" de pessoas das quais
gosta imensamente. Levy que se cuide: Dias antes da demissão de
Mercadante a presidente dizia que tirar o ministro da Casa Civil
significaria gerar mais "instabilidade" no governo.
Levy vem sendo fritado há tempos. Segundo as fontes palacianas, primeiro
foi Mercadante, então chefe da Casa Civil, que estimulava outros
ministros a divergir do titular da Fazenda, assim como boicotou o
vice-presidente Michel Temer quando este assumiu a coordenação política
do governo. Mercadante saiu e agora os líderes no Congresso afirmam que a
situação de Levy é insustentável. Tem mais alguém no Palácio do
Planalto e arredores incomodado com o ministro.
A receita da fritura é a mesma de todos os governos: o ministro não
teria o menor jogo de cintura político, se expôs numa conversa recente
com senadores, sem avisar ou combinar nada com a área política do
governo. Sua saída, nessas circunstâncias, seria questão de tempo. E por
que Meirelles? Para recuperar a credibilidade do governo a partir da
economia. É difícil medir a diferença. Numa tradução livre da piada
petista: o 'Fora Levy, vive Meirelles!".
O ministro Jaques Wagner, que participou da reunião com Lula, afirma que
está "alinhado" com a presidente - ou seja, Levy é um grande servidor
público compromissado com o país. "Estou aqui para apoiá-la (a
presidente) no que ela quiser", disse, por meio de sua assessoria.
Wagner também disse que tem ajudado nas votações relacionadas à Fazenda e
nega que tenha tomado partido do ministro Nelson Barbosa (Planejamento)
em divergências entre as duas pastas. Alias, acha perfeitamente natural
a discussão de projetos antes da tomada de decisão.
Pode ser. Wagner é um político jeitoso, cujos primeiros passos na Casa
Civil têm sido elogiados no Congresso, onde habita sua clientela. Mas na
prática o apoio do Congresso ao governo caiu, pouco mas caiu sobretudo
devido às questões de natureza econômica. Sem uma saída para a questão
econômica, dificilmente o governo voltará a ter a paz política de que
necessita para retomar os projetos de desenvolvimento econômico.,
Com menos de 10% de popularidade, hoje pode-se dizer que Dilma é a chefe
de Estado, mas já não é a chefe de governo. Há quem pense, no PT, em
antecipar a votação da proposta de impeachment, por estar seguro de que
tem pouco mais de 171 votos necessários para barrar o projeto. Talvez
duzentos e alguns trocados. Um governo fraco politicamente. Dilma pode
até escapar, mas sofrerá o "impeachment" de Estado, no momento em que
Meirelles assumir a Fazenda, se assumir. Mas ao vencedores do PT terá
restado mais que as batatas.
Análise de 13 votações realizadas em outubro revela que o apoio ao
governo voltou a cair, após ligeira melhoria no semestre, segundo
levantamento da empresa de consultoria política Arko Advice. Entre julho
e setembro, a média de apoio na Câmara foi superior a 50% e apresentava
tendência de alta. Em outubro, esse movimento foi interrompido, o
índice ficou abaixo desse patamar e fechou o mês em 49,70%.
O analista Cristiano Noronha atribuiu a queda sobretudo à votação de
matérias de natureza econômica. "A queda está relacionada ao número de
matéria polêmicas que foram submetidas à votação como, por exemplo,
repatriação, urgência para o projeto que revoga o regime de partilha nos
leilões do pré-sal e medidas provisórias do ajuste fiscal", disse
Noronha..
Na opinião da Arko Advice, essa é mais uma demonstração clara de que a
reforma ministerial realizada pelo governo não contribuiu para melhorar
"o nivel de coesão da base em matérias de interesse do governo". De
qualquer forma, ressalta Noronha, "o percentual é bem maior do que a
média de apoio verificada nos meses de março (38,34%) e abril (40,11%).
Também é superior que a média que a presidente teve no primeiro mandato
(45,24%)".
Sua conclusão: "Apesar da queda, o governo está conseguindo avançar -
ainda que com dificuldade e de forma lenta - na agenda do ajuste
fiscal".
Poderes de guerra
Hollande pede mudanças constitucionais para combater ameaça terrorista
- 17 nov 2015
- O Globo
- DEBORAH BERLINCK Especial para O Globo internacio@oglobo.com.br
França envia porta- aviões nuclear Charles de Gaulle ao Mediterrâneo para triplicar sua capacidade ofensiva contra o Estado Islâmico na Síria; polícia francesa faz 168 operações e prende 23 suspeitos
Em resposta ao massacre de 129 pessoas por jihadistas em Paris, na sexta- feira, o presidente François Hollande propôs a uma chocada França a reforma da Constituição para dar mais poderes ao Executivo, conta DEBORAH BERLINCK. No terceiro discurso de um chefe de Estado em sessão conjunta do Parlamento desde 1848, ele disse que o país enfrenta “um novo tipo de guerra” e precisa de outros instrumentos para combater os extremistas. Hollande afirmou que vai se reunir com os presidentes Obama, dos EUA, e Putin, da Rússia, na busca da união contra o terrorismo. Na Turquia para a reunião do G- 20, Obama voltou a descartar o uso de forças terrestres contra o EI. Na frente militar, a França enviou um portaaviões nuclear ao Mediterrâneo para reforçar o ataque ao terror na Síria. Ontem, a polícia francesa prendeu 23 suspeitos. - PARIS- Foi um discurso abertamente de guerra, longe dos temas que, até sexta- feira, mais preocupavam os franceses, como o desemprego e a crise. O presidente francês, François Hollande, carregou nas palavras, propondo até mudar a Constituição.
— A França está em guerra — disse, solenemente, ao iniciar o terceiro pronunciamento de um presidente às duas câmaras do Parlamento desde 1848.
Três dias depois do maior atentado terrorista da História recente da França, Hollande anunciou um vasto plano de segurança e a caça implacável aos radicais do país, sob os aplausos de pé de parlamentares de diferentes partidos, que cantaram “A Marselhesa”, o Hino Nacional francês.
Três grupos supostamente sob o comando do Estado Islâmico ( EI) massacraram 129 pessoas que se divertiam nos bairros boêmios de Paris, na sexta- feira à noite. E ainda deixaram o rastro do terror em 350 feridos, dos quais 88 ainda lutam pela vida.
Entre as medidas sugeridas estão a remoção da nacionalidade de cidadãos acusados de terrorismo, acesso irrestrito dos juízes antiterroristas às mais sote tecnologias de informação, e a criação de 5 mil vagas nas forças policiais e outras mil no serviço de aduanas.
Hollande também anunciou planos de alterar a Constituição, nos artigos 16 — que dá ao presidente poderes especiais em circunstâncias excepcionais — e 36, que regula o estado de emergência, declarado em caso de ameaça iminente contra o país, como a situação após os atentados em Paris.
— Este novo tipo de guerra exige um regime constitucional capaz de lidar com ela — afirmou.
Contrariando muitos na comunidade muçulmana da França que acham que o país erra ao se unir aos EUA para intervir no Oriente Médio, o presidente prometeu justo o contrário: intensificar os ataques na Síria, estreitar suas relações com o presidente americano Barack Obama, e o russo, Vladimir Putin, para “unificar as forças contra o terrorismo”. Ontem mesmo a França anunciou o envio do portaaviões nuclear Charles de Gaulle — a nau- capitânia da Marinha — ao Mediterrâneo, o que triplicará seu poder de fogo contra o EI na Síria.
Hollande também disse que vai apresentar uma medida para ampliar o estado de emergência decretado na sexta- feira após os ataques — o que exigiria aprovação do Parlamento.
— Vamos erradicar o terrorismo — afirmou Hollande após 50 minutos de discurso.
Apesar das palavras de Hollande, que destacou a necessidade de “união” no país após os ataques, a política francesa ainda lida com visões conflitantes sobre como lidar com o problema do extremismo no país. O ex- presidente Nicolas Sarkozy, líder dos Republicanos, principal legenda da oposição, pediu leis mais duras para cidadãos que se envolvam com o radicalismo islâmico.
— No momento há 520 jovens entre a Síria e o Iraque. Aqueles que retornarem devem ser presos — declarou Sarkozy, que defendeu a deportação de suspeitos com dupla nacionalidade. AMEAÇAS CONTINUAM Já a líder do partido de extrema- direita Frente Nacional, Marine Le Pen, defendeu a interrupção imediata do abrigo a imigrantes no país. Em nota, Le Pen — que atualmente enfrenta um processo por incitação ao ódio racial — afirmou que a decisão francesa de aceitar a cota de refugiados proposta pela União Europeia ( UE) foi “irresponsável”.
— A decisão de declarar estado de emergência foi boa. Mas independentemente do que a UE disser, é necessário que a França recupere permanentemenfisticadas o controle das fronteiras nacionais.
O Estado Islâmico alertou em um novo vídeo divulgado ontem que os países que participam dos ataques aéreos contra a Síria terão o mesmo destino da França, e ainda ameaçou atacar Washington. O vídeo, divulgado em um site usado pelo grupo radical para publicar suas mensagens, começa com o noticiário sobre os ataques de sexta- feira, em Paris.
Ontem, o primeiro- ministro Manuel Valls confirmou que a França e outros países europeus podem ser alvo de novos atentados nos próximos dias ou semanas. O diretor da CIA, por sua vez, afirmou que o Estado Islâmico está planejando novos ataques semelhantes aos de Paris. Na cúpula do G- 20 em Antália, na Turquia, Obama defendeu a estratégia utilizada pela coalizão que enfrenta o Estado Islâmico na Síria, e reiterou que os EUA não porão soldados em terra.
— A estratégia deve ser capaz de se sustentar — afirmou Obama.
As declarações seguiram o alerta do premier francês, que pediu para a França estar preparada. Ele destacou que os ataques foram “organizados, pensados e planejados” a partir da Síria.
— Vamos viver muito tempo com esta ameaça — advertiu Valls.
Qualidade no ensino - Arnaldo Niskier
Não seria uma boa ideia privatizar totalmente a educação superior
- 17 nov 2015
- O Globo
- ARNALDO NISKIER Arnaldo Niskier é professor e jornalista
Nossa resposta partiu das origens do ensino superior brasileiro, calcado no bacharelismo herdado de Portugal. Hoje, temos 75% do efetivo do ensino de terceiro grau na iniciativa privada.
O ensino público é minoritário e com tendência a perder cada vez mais substância, como se pode verificar pelo grande número de greves explodindo aqui e ali, sem qualquer perspectiva de solução. Mas não seria boa ideia privatizar o ensino superior, totalmente, pois defender essa tese seria reconhecer que os estudantes menos aquinhoados, do ponto de vista social, teriam que enfrentar a comercialização desenfreada, para o que não estariam preparados.
Veio à baila, na palestra sobre a educação brasileira, o atual estágio dos colégios militares em nosso país. Tema que interessou particularmente o comandante do CEP, coronel Álvaro Ferreira Lima, foi debatido com muito interesse pela plateia. Lembramos a amizade que nos uniu ao general Leônidas Pires Gonçalves, com quem nós conversamos muito a respeito de uma hipotética redução do número de escolas militares no Brasil. Não apenas fomos contrários a isso, como defendemos o aperfeiçoamento do seu projeto pedagógico, para assegurar a qualidade que já foi uma característica do Colégio Militar.
Hoje, compulsando o ranking do Enem, pode- se verificar que houve
uma perda de posição — e as causas são variadas. Falta de recursos
financeiros talvez seja a principal delas.
A discussão se estendeu para as agruras vividas pelo ensino médio. Não há dúvida de que se trata de uma tragédia pedagógica, agravada pela sucessão absurda de portarias oficiais, tentando regular a matéria. Há um número excessivo de matérias ( 13) e nenhum esforço inteligente do ponto de vista curricular.
Experiências internacionais ( foram citados os modelos da Finlândia, da Suécia, do Japão e da Coreia do Sul) demonstram que hoje não se pode mais manter a educação média no plano que era novidade, no século passado. A modernidade pede aulas menos unidirecionais e a formatação de grupos de trabalho para o ensino compartilhado. Será que é tão difícil entender isso?
Ainda sobrou tempo para condenar a excessiva politização das escolas públicas, em detrimento dos valores pedagógicos. E para reclamar a ausência de bibliotecas públicas, sacrificando os anseios de 15 milhões de estudantes de todo o país. Existe uma lei federal que procura corrigir essa omissão, mas os seus efeitos até aqui têm sido rigorosamente nulos.
A discussão se estendeu para as agruras vividas pelo ensino médio. Não há dúvida de que se trata de uma tragédia pedagógica, agravada pela sucessão absurda de portarias oficiais, tentando regular a matéria. Há um número excessivo de matérias ( 13) e nenhum esforço inteligente do ponto de vista curricular.
Experiências internacionais ( foram citados os modelos da Finlândia, da Suécia, do Japão e da Coreia do Sul) demonstram que hoje não se pode mais manter a educação média no plano que era novidade, no século passado. A modernidade pede aulas menos unidirecionais e a formatação de grupos de trabalho para o ensino compartilhado. Será que é tão difícil entender isso?
Ainda sobrou tempo para condenar a excessiva politização das escolas públicas, em detrimento dos valores pedagógicos. E para reclamar a ausência de bibliotecas públicas, sacrificando os anseios de 15 milhões de estudantes de todo o país. Existe uma lei federal que procura corrigir essa omissão, mas os seus efeitos até aqui têm sido rigorosamente nulos.
domingo, 15 de novembro de 2015
Agora é que são elas - Cacá Diegues
- 15 nov 2015
- O Globo
- CACÁ DIEGUES
Em solidariedade ao movimento #AgoraÉQueSãoElas, abro hoje o espaço desta coluna para Isabel Diegues. Formada em Letras pela PUC- RJ, Isabel atuou como roteirista, produtora e diretora em filmes premiados como “Vila Isabel” (1998) e “Marina” ( 2003), além de ter sido produtora executiva de “Madame Satã” (2002), de Karim Ainouz. Dirigiu videoclipes, fotografou, fez capas de disco e cenários de show para Adriana Calcanhotto, Toni Garrido, Gilberto Gil e Milton Nascimento. Como produtora e editora de livros de arte, na Ed. Cobogó que dirige, organizou publicações sobre Adriana Varejão, bem como sobre a pintura brasileira do século XXI, além de “Aranhando a superfície", com desenhos de Gerald Thomas, e a Coleção Dramaturgia, com mais de 30 títulos publicados:
Alguns dias depois de muitas colunas “cedidas a elas”, e dos milhares de depoimentos feitos nas redes sociais, ainda ecoam — e precisam ecoar! — as narrativas que tratam da desigualdade, da violência, das invasões de intimidade contra a mulher. E é preciso seguir lançando luz sobre tantas questões latentes e urgentes.
Aqui, na coluna do meu pai, conto pela primeira vez o que lembro ser o assédio mais remoto que sofri (esta é na verdade a segunda, a primeira foi numa incrível conversa com meu filho). Um amigo da família, quando eu tinha 8 anos, me sentou um dia em seu colo e percebi perplexa que ele roçava seu corpo no meu. Meu espanto de menina era também uma dúvida. Ele era legal, por que faria aquilo comigo? Tive medo e culpa. E recordo claramente como tudo se deu e o quanto me senti paralisada e assustada. Ouvi ao longo da vida muitas histórias mais terríveis que essa. Mas o mais comum entre nós mulheres é o silêncio, por constrangimento.
Ao ler tantos relatos surpreendentes de assédio, e com toda a discussão a respeito dos direitos da mulher sobre seu corpo, pensei muito sobre esse espantoso silêncio. Meu filho José, aos 13 anos, custa a acreditar que seja possível tamanha violência. Passamos horas falando sobre o que havíamos lido nas redes sociais e nos jornais, sobre como ele entendia tudo aquilo e sobre essa experiência tão delicada e violenta que eu, sua mãe, havia passado.
Sempre digo ao meu filho que nunca deixe que lhe façam nada que
não tenha conforto e confiança em fazer. E que nunca, jamais!, imponha o
mesmo a qualquer um. Pois o mais novo, o menos experiente, o
fisicamente mais fraco, por insegurança ou ingenuidade, poderia se
sujeitar ao que o outro propõe, sem perceber que não teria o direito de
determinar os limites. E é preciso dizer não. A seu tempo, ele
entenderia que o corpo é como nosso parque de diversões e temos todo o
direito de nos divertir com ele como quisermos. Sempre atentos ao desejo
e ao conforto do outro.
Dentre tantas narrativas de assédios e embates, uma história que li há algum tempo me pareceu um prólogo sintomático do que veio a ser escrito nos últimos dias. Uma atriz havia sido detida em Ipanema por fazer fotos sem blusa, e outra atriz propôs que todas as mulheres mostrassem seus seios ao mesmo tempo em protesto. Não deu certo. Ainda que houvesse quase dez mil confirmações no evento convocado pela internet, elas não apareceram e o protesto virou quase piada.
Mas uma de suas organizadoras escreveu um texto tão belo, na internet, que para mim valeu o episódio. Ana Rios contava ter crescido numa família carioca, de mãe e pai que lhe ensinaram que mulheres e homens eram iguais e que, fora o pênis de seu irmão, nada deveria ser diferente entre eles. Mas, ao entrar na puberdade, para sua surpresa, a mãe começou a pedir que tomasse cuidado com o que vestia. E numa tarde em que caminhava sozinha, ao se deparar com dois homens numa esquina, atravessou imediatamente a rua.
Esse ato impensado, automático, a fez perceber num susto que ela tinha “medo dos homens”. Essa conclusão terrível que se abateu sobre ela me fez pensar que eu, que nunca havia questionado a possibilidade de ter medo da figura masculina, talvez já tivesse também sofrido desse mal. Logo eu que me achava destemida, segura da minha força, intensificada justamente por minha posição de mulher. Lembrei as vezes em que mudei caminhos, apressei o passo, ou tive o coração disparado por me ver diante de um homem que poderia, quem sabe, me fazer mal. Pensei ainda em quantas mulheres não teriam tido sua sexualidade moldada por um medo que nem percebiam sentir, de tão naturalizado. Fiquei estarrecida e constrangida com essa perspectiva. Ao ler, nos últimos dias, tantas histórias, voltei ao relato da Ana e ele me pareceu um gesto inaugural sobre algo tenebroso que precisava ser combatido.
É preciso, de uma vez por todas, que o corpo seja um lugar de conforto, não de ameaça. E os homens têm um papel importante para criarmos essa nova ordem, um papel secundário, certamente, mas necessário. É preciso seguir narrando, questionando, propondo, determinando limites e expandindo outros. Mas não podemos nos restringir a falar entre nós mulheres — toda a sociedade deve estar envolvida no mesmo movimento de mudança. E será preciso paciência, alguns homens terão medo, se sentirão ameaçados. Portanto, temos de convidá-los e trazê-los para a discussão, os meninos e os adultos, com firmeza, mas com generosidade, para fazermos um imenso movimento, todos juntos, pessoas de todos os gêneros, pela liberdade, independência e autonomia sobre nossos corpos, nossas escolhas, nossos caminhos.
Dentre tantas narrativas de assédios e embates, uma história que li há algum tempo me pareceu um prólogo sintomático do que veio a ser escrito nos últimos dias. Uma atriz havia sido detida em Ipanema por fazer fotos sem blusa, e outra atriz propôs que todas as mulheres mostrassem seus seios ao mesmo tempo em protesto. Não deu certo. Ainda que houvesse quase dez mil confirmações no evento convocado pela internet, elas não apareceram e o protesto virou quase piada.
Mas uma de suas organizadoras escreveu um texto tão belo, na internet, que para mim valeu o episódio. Ana Rios contava ter crescido numa família carioca, de mãe e pai que lhe ensinaram que mulheres e homens eram iguais e que, fora o pênis de seu irmão, nada deveria ser diferente entre eles. Mas, ao entrar na puberdade, para sua surpresa, a mãe começou a pedir que tomasse cuidado com o que vestia. E numa tarde em que caminhava sozinha, ao se deparar com dois homens numa esquina, atravessou imediatamente a rua.
Esse ato impensado, automático, a fez perceber num susto que ela tinha “medo dos homens”. Essa conclusão terrível que se abateu sobre ela me fez pensar que eu, que nunca havia questionado a possibilidade de ter medo da figura masculina, talvez já tivesse também sofrido desse mal. Logo eu que me achava destemida, segura da minha força, intensificada justamente por minha posição de mulher. Lembrei as vezes em que mudei caminhos, apressei o passo, ou tive o coração disparado por me ver diante de um homem que poderia, quem sabe, me fazer mal. Pensei ainda em quantas mulheres não teriam tido sua sexualidade moldada por um medo que nem percebiam sentir, de tão naturalizado. Fiquei estarrecida e constrangida com essa perspectiva. Ao ler, nos últimos dias, tantas histórias, voltei ao relato da Ana e ele me pareceu um gesto inaugural sobre algo tenebroso que precisava ser combatido.
É preciso, de uma vez por todas, que o corpo seja um lugar de conforto, não de ameaça. E os homens têm um papel importante para criarmos essa nova ordem, um papel secundário, certamente, mas necessário. É preciso seguir narrando, questionando, propondo, determinando limites e expandindo outros. Mas não podemos nos restringir a falar entre nós mulheres — toda a sociedade deve estar envolvida no mesmo movimento de mudança. E será preciso paciência, alguns homens terão medo, se sentirão ameaçados. Portanto, temos de convidá-los e trazê-los para a discussão, os meninos e os adultos, com firmeza, mas com generosidade, para fazermos um imenso movimento, todos juntos, pessoas de todos os gêneros, pela liberdade, independência e autonomia sobre nossos corpos, nossas escolhas, nossos caminhos.
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
Esta noite encarnarei na tua TV
Série Zé do Caixão,
sobre "homem obcecado pelo cinema" e que "tem os dois pés metidos na
jaca da vida", como diz o ator Matheus Nachtergaele, que interpreta José
Mojica Marins, estreia nesta sexta, 13
Em uma sala de aula, o professor dá a ordem para os alunos. Estão todos em um avião, que começa a balançar. Depois de muita turbulência e gritos de terror, a aeronave cai. Todos estão mortos. Espera! Há uma sobrevivente. Que logo percebe que estaria melhor morta. Isso porque todos os outros passageiros viraram zumbis. Só de sutiã, a mulher agora tem que se salvar do ataque de mortos-vivos.
No final da década de 1950, José Mojica Marins iniciava seu caminho no cinema. Filho de artistas de circo, havia criado uma escola de atores no Brás, região central de São Paulo. Buscava, em meio aos alunos, aqueles que poderiam participar de sua primeira produção profissional. O critério era bem simples: quem pagasse mais teria um papel maior. Depois de montar seu elenco, que tinha como estrela uma stripper, partiu para o interior de São Paulo para filmar o primeiro faroeste do cinema brasileiro. Não havia quase nenhum dinheiro envolvido.
É a partir da impressionante cena do avião que tem início a série Zé do Caixão, primeira produção original do canal Space, que estreia hoje, às 22h30. A data está longe de ser aleatória. Para começar a contar a trajetória do mais maldito e cultuado cineasta brasileiro – que se lança no faroeste, consagra-se no terror, passeia pela pornochanchada e chega até o sexo explícito –, nada melhor do que uma noite de sexta-feira, 13.
É também impressionante a interpretação de Matheus Nachtergaele no papel do cineasta. Sem em momento algum mesmerizá-lo, o ator consegue, com sutileza e atenção aos detalhes, separar o criador (Mojica) da criatura (Caixão), ainda que os dois, em determinado momento, se misturem de forma definitiva.
Dirigida por Vitor Mafra e criada a partir do livro Maldito – A vida e o cinema de José Mojica Marins (1998), de André Barcinski e Ivan Finotti (que lançaram em 2001 documentário homônimo), a série traz seis episódios. Cada um deles corresponde a um filme da extensa produção (são mais de 20 longas) de Mojica.
SEM CARETICE “Não queríamos fazer um roteiro cinebiográfico daqueles clássicos e caretas, que começa com a infância do biografado e o acompanha por toda a vida. O tema central da série é a batalha de Mojica para realizar seus filmes, e como ele fez de tudo – tudo mesmo, incluindo vender objetos dos pais – para bancar as produções. É a história de um homem obcecado pelo cinema. Por isso, achamos que seria interessante contar a vida de Mojica paralelamente à produção de seis de seus filmes mais importantes”, afirma Barcinski, que assina o roteiro (em parceria com Ricardo Grynspan e o próprio Mafra).
Durante a primeira exibição pública da série – os dois episódios iniciais foram projetados durante a Mostra de São Paulo, no mês passado –, Nachtergaele afirmou: “Minha sensação é que o Zé está com os dois pés metidos na jaca da vida”. As dificuldades de Mojica para realizar seus filmes – e a maneira por vezes genial que encontrou para superar as adversidades – são exploradas na série com humor e uma bem cuidada reconstituição de época.
Aos 79 anos, o cineasta não se envolveu diretamente com a produção. Em 2014, Mojica sofreu duas paradas cardíacas, que o obrigaram a uma temporada de cinco meses na UTI. Hoje, faz diálise e sofre de enfisema pulmonar. “Nossa intenção era que ele fizesse uma ponta na série, mas não foi possível. Mas ele conseguiu visitar as filmagens por um dia e, apesar de fragilizado fisicamente, se mostrou muito feliz. Ele viu os episódios prontos e ficou particularmente emocionado com as cenas em que os pais aparecem”, diz Barcinski.
A temporada Zé do Caixão não se limita à série. O Museu da Imagem e do Som de São Paulo dedica a ele uma exposição. Já a biografia de Barcinski e Finotti, esgotada há muitos anos, ganha nova edição pela DarkSide Books, que chega hoje às livrarias. Para o relançamento, há um posfácio com os últimos anos de Mojica, novas imagens e a filmografia atualizada. São 200 páginas a mais, totalizando 666. Número autoexplicativo, em se tratando da história de José Mojica/Zé do Caixão.
ZÉ DO CAIXÃO
A série estreia hoje, às 22h30, no canal Space. Reprise aos domingos, às 23h, e às terças, às 21h50.
ACERVO TERRIR
A exposição À meia-noite levarei sua alma, que fica em cartaz até 10 de janeiro no MIS de São Paulo, reúne fotografias, figurinos, roteiros, objetos cênicos, trechos de filmes e imagens de bastidores das produções de Zé do Caixão. O material vem do acervo pessoal do próprio Mojica e de sua filha, Liz Marins, e também dos diretores Marcelo Colaiacovo, Paulo Sacramento e Kapel Furman, este último especialista em efeitos especiais, que trabalhou com Mojica em seu mais recente filme, Encarnação do demônio.
• BASEADO NUM FILME REAL
Confira os filmes de José Mojica Marins que inspiram os seis episódios da série. Cada um tem 45 minutos
» A sina do aventureiro (1958)
Primeiro filme profissional de Mojica, é considerado ainda o primeiro faroeste brasileiro. Após ser baleado, bandido é socorrido por duas jovens. Envolve-se com a filha de um fazendeiro, e se entrega à polícia por amor a ela. Além de fazer uma ponta, Mojica é o autor das letras das 10 canções da trilha.
» À meia-noite levarei sua alma (1963)
No primeiro filme do personagem Zé do Caixão, o coveiro é apresentado como um homem obcecado por gerar o filho perfeito. Como sua mulher não pode engravidar, ele estupra uma moça, que jura cometer suicídio para retornar dos mortos e levar a alma daquele que acabou com sua vida.
» Esta noite encarnarei no teu cadáver (1966)
Nesta sequência, Zé do Caixão continua em busca da mulher para gerar o filho perfeito. Rapta seis moças e as tortura. Acredita que só a mulher ideal sobreviverá. Só que ele mata uma mulher grávida e, atormentado pela culpa, sofre um pesadelo em que é levado para um inferno gelado, onde reencontra suas vítimas.
» O despertar da besta: Ritual dos sádicos (1969)
Considerada a ‘obra-prima’ de Mojica, foi censurado e exibido pela primeira vez somente em 1983. Psiquiatra injeta LSD em quatro voluntários para estudar os efeitos da droga associada à imagem de Zé do Caixão. O personagem aparece de maneira diferente nos delírios psicodélicos de cada um, misturando sexo, perversão e sadismo.
» Perversão (1978)
Playboy milionário que brutaliza todas as mulheres que conhece estupra uma jovem ingênua, arrancando a dentadas um de seus mamilos, que exibe como um troféu. Ele continua seduzindo mulheres até se apaixonar por uma estudante, que tem um plano de vingança.
» 24 horas de sexo explícito (1985)
Representante da fase pornô do cineasta. Três atores disputam quem consegue transar com o maior número de mulheres durante 24 horas. Traz aquela que é considerada a primeira cena de bestialismo do cinema nacional: uma atriz transa com um pastor-alemão.
Mariana Peixoto
Estado de MInas: 13/11/2015 Em uma sala de aula, o professor dá a ordem para os alunos. Estão todos em um avião, que começa a balançar. Depois de muita turbulência e gritos de terror, a aeronave cai. Todos estão mortos. Espera! Há uma sobrevivente. Que logo percebe que estaria melhor morta. Isso porque todos os outros passageiros viraram zumbis. Só de sutiã, a mulher agora tem que se salvar do ataque de mortos-vivos.
No final da década de 1950, José Mojica Marins iniciava seu caminho no cinema. Filho de artistas de circo, havia criado uma escola de atores no Brás, região central de São Paulo. Buscava, em meio aos alunos, aqueles que poderiam participar de sua primeira produção profissional. O critério era bem simples: quem pagasse mais teria um papel maior. Depois de montar seu elenco, que tinha como estrela uma stripper, partiu para o interior de São Paulo para filmar o primeiro faroeste do cinema brasileiro. Não havia quase nenhum dinheiro envolvido.
É a partir da impressionante cena do avião que tem início a série Zé do Caixão, primeira produção original do canal Space, que estreia hoje, às 22h30. A data está longe de ser aleatória. Para começar a contar a trajetória do mais maldito e cultuado cineasta brasileiro – que se lança no faroeste, consagra-se no terror, passeia pela pornochanchada e chega até o sexo explícito –, nada melhor do que uma noite de sexta-feira, 13.
É também impressionante a interpretação de Matheus Nachtergaele no papel do cineasta. Sem em momento algum mesmerizá-lo, o ator consegue, com sutileza e atenção aos detalhes, separar o criador (Mojica) da criatura (Caixão), ainda que os dois, em determinado momento, se misturem de forma definitiva.
Dirigida por Vitor Mafra e criada a partir do livro Maldito – A vida e o cinema de José Mojica Marins (1998), de André Barcinski e Ivan Finotti (que lançaram em 2001 documentário homônimo), a série traz seis episódios. Cada um deles corresponde a um filme da extensa produção (são mais de 20 longas) de Mojica.
SEM CARETICE “Não queríamos fazer um roteiro cinebiográfico daqueles clássicos e caretas, que começa com a infância do biografado e o acompanha por toda a vida. O tema central da série é a batalha de Mojica para realizar seus filmes, e como ele fez de tudo – tudo mesmo, incluindo vender objetos dos pais – para bancar as produções. É a história de um homem obcecado pelo cinema. Por isso, achamos que seria interessante contar a vida de Mojica paralelamente à produção de seis de seus filmes mais importantes”, afirma Barcinski, que assina o roteiro (em parceria com Ricardo Grynspan e o próprio Mafra).
Durante a primeira exibição pública da série – os dois episódios iniciais foram projetados durante a Mostra de São Paulo, no mês passado –, Nachtergaele afirmou: “Minha sensação é que o Zé está com os dois pés metidos na jaca da vida”. As dificuldades de Mojica para realizar seus filmes – e a maneira por vezes genial que encontrou para superar as adversidades – são exploradas na série com humor e uma bem cuidada reconstituição de época.
Aos 79 anos, o cineasta não se envolveu diretamente com a produção. Em 2014, Mojica sofreu duas paradas cardíacas, que o obrigaram a uma temporada de cinco meses na UTI. Hoje, faz diálise e sofre de enfisema pulmonar. “Nossa intenção era que ele fizesse uma ponta na série, mas não foi possível. Mas ele conseguiu visitar as filmagens por um dia e, apesar de fragilizado fisicamente, se mostrou muito feliz. Ele viu os episódios prontos e ficou particularmente emocionado com as cenas em que os pais aparecem”, diz Barcinski.
A temporada Zé do Caixão não se limita à série. O Museu da Imagem e do Som de São Paulo dedica a ele uma exposição. Já a biografia de Barcinski e Finotti, esgotada há muitos anos, ganha nova edição pela DarkSide Books, que chega hoje às livrarias. Para o relançamento, há um posfácio com os últimos anos de Mojica, novas imagens e a filmografia atualizada. São 200 páginas a mais, totalizando 666. Número autoexplicativo, em se tratando da história de José Mojica/Zé do Caixão.
ZÉ DO CAIXÃO
A série estreia hoje, às 22h30, no canal Space. Reprise aos domingos, às 23h, e às terças, às 21h50.
ACERVO TERRIR
A exposição À meia-noite levarei sua alma, que fica em cartaz até 10 de janeiro no MIS de São Paulo, reúne fotografias, figurinos, roteiros, objetos cênicos, trechos de filmes e imagens de bastidores das produções de Zé do Caixão. O material vem do acervo pessoal do próprio Mojica e de sua filha, Liz Marins, e também dos diretores Marcelo Colaiacovo, Paulo Sacramento e Kapel Furman, este último especialista em efeitos especiais, que trabalhou com Mojica em seu mais recente filme, Encarnação do demônio.
| O cineasta José Mojica Marins, em Belo Horizonte, durante o lançamento de Encarnação do demônio, em 2008 |
• BASEADO NUM FILME REAL
Confira os filmes de José Mojica Marins que inspiram os seis episódios da série. Cada um tem 45 minutos
» A sina do aventureiro (1958)
Primeiro filme profissional de Mojica, é considerado ainda o primeiro faroeste brasileiro. Após ser baleado, bandido é socorrido por duas jovens. Envolve-se com a filha de um fazendeiro, e se entrega à polícia por amor a ela. Além de fazer uma ponta, Mojica é o autor das letras das 10 canções da trilha.
» À meia-noite levarei sua alma (1963)
No primeiro filme do personagem Zé do Caixão, o coveiro é apresentado como um homem obcecado por gerar o filho perfeito. Como sua mulher não pode engravidar, ele estupra uma moça, que jura cometer suicídio para retornar dos mortos e levar a alma daquele que acabou com sua vida.
» Esta noite encarnarei no teu cadáver (1966)
Nesta sequência, Zé do Caixão continua em busca da mulher para gerar o filho perfeito. Rapta seis moças e as tortura. Acredita que só a mulher ideal sobreviverá. Só que ele mata uma mulher grávida e, atormentado pela culpa, sofre um pesadelo em que é levado para um inferno gelado, onde reencontra suas vítimas.
» O despertar da besta: Ritual dos sádicos (1969)
Considerada a ‘obra-prima’ de Mojica, foi censurado e exibido pela primeira vez somente em 1983. Psiquiatra injeta LSD em quatro voluntários para estudar os efeitos da droga associada à imagem de Zé do Caixão. O personagem aparece de maneira diferente nos delírios psicodélicos de cada um, misturando sexo, perversão e sadismo.
» Perversão (1978)
Playboy milionário que brutaliza todas as mulheres que conhece estupra uma jovem ingênua, arrancando a dentadas um de seus mamilos, que exibe como um troféu. Ele continua seduzindo mulheres até se apaixonar por uma estudante, que tem um plano de vingança.
» 24 horas de sexo explícito (1985)
Representante da fase pornô do cineasta. Três atores disputam quem consegue transar com o maior número de mulheres durante 24 horas. Traz aquela que é considerada a primeira cena de bestialismo do cinema nacional: uma atriz transa com um pastor-alemão.
domingo, 8 de novembro de 2015
O QUE ACONTECEU COM AS LUTAS DE BETINHO?
Cl Ancelmo Gois - O Globo 08/11/2015
O sociólogo Herbert José de Souza, santificado seja o vosso nome, completaria 80 anos na última terça. Betinho, falecido em 1997, travou vários combates em diferentes direções. Aqui um balanço dessas lutas:
Ação da Cidadania contra a Fome
O relatório “O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo 2015”, da ONU, mostra que o Brasil está vencendo a fome.
Ética na Política
Movimento lançado em 1992, que culminou com o impeachment de Collor. De lá para cá, a situação piorou, acho, como mostra a Lava-Jato. A ironia suprema é que alguns capas pretas petistas, que aderiram à época, resolveram enricar às custas de empresas que dependem do governo.
Terra e Democracia
O sociólogo Herbert José de Souza, santificado seja o vosso nome, completaria 80 anos na última terça. Betinho, falecido em 1997, travou vários combates em diferentes direções. Aqui um balanço dessas lutas:
Ação da Cidadania contra a Fome
O relatório “O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo 2015”, da ONU, mostra que o Brasil está vencendo a fome.
Ética na Política
Movimento lançado em 1992, que culminou com o impeachment de Collor. De lá para cá, a situação piorou, acho, como mostra a Lava-Jato. A ironia suprema é que alguns capas pretas petistas, que aderiram à época, resolveram enricar às custas de empresas que dependem do governo.
Terra e Democracia
Em 1990, o movimento liderado por Betinho lutava pela reforma agrária. Hoje, a questão permanece, mas sem a dramaticidade daquela época. Muitos miseráveis do campo foram beneficiados por programas sociais e há ainda uma política de assentamentos.
Reage Rio
Em 1995, eram comuns longos sequestros de empresários e também tiroteios nas favelas. Uma passeata pela paz reuniu umas 300 mil pessoas na Av. Rio Branco. De lá para cá, esses sequestros cinematográficos diminuíram e surgiram as UPPs. Mas a sensação de insegurança, no Rio e no Brasil, cresceu.
Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids
Foi fundamental em1986 para mobilizar a sociedade e o governo contra uma doença que acabara de surgir e que levou à morte o próprio Betinho. De lá para cá, mudou o controle de sangue (Lei Betinho), e o Brasil foi o primeiro país do mundo a distribuir antirretrovirais gratuitamente. Hoje, entretanto, não são poucos os que acham que o governo anda desleixado em relação ao tema.
No Mais
Uma frase do Betinho, atual nestes tempos de sangria econômica: “Não podemos aceitar a teoria de que se o pé é grande e o sapato, pequeno, devemos cortar o pé. Temos de trocar de sapato.”
A cultura do crime - Cacá Diegues
- 8 nov 2015
- O Globo
- CACÁ DIEGUES Cacá Diegues é cineasta carlosdiegues2015@gmail.com
Estamos mudando para pior no Brasil em termos de convivência humana Oque há em comum entre a campanha racista, via rede social, contra Taís Araújo e o trabalho escravo no país, denunciado por Wagner Moura? E entre a violência que chega ao canibalismo em presídios brasileiros e o projeto de nossos deputados para dificultar e impedir o aborto das mulheres? Ou entre as mortes de PMs e crianças nas favelas, vítimas de tiros vindos dos dois lados, e a trapalhada aparentemente inocente do Simples Doméstico? E assim por diante.
Não é só a necessidade que gera o crime. O Brasil e o Rio de Janeiro já foram muito mais pobres do que são agora, e nossas taxas de violência sempre foram relativamente humanas. Nem sempre o motivo do assaltante é a fome. Se fosse assim, a incidência de crimes seria dominante em outras áreas, longe das cidades afluentes do Sul e do Sudeste. Não sei se esta é a mesma reação das novas gerações, mas eu, que conheci de perto um pouco desse passado, tenho a nítida impressão de que o Brasil, em termos de convivência humana, muda de cara. Para muito pior.
O que comparamos no primeiro parágrafo deste texto são descasos, ilícitos, delitos, contravenções e crimes, malfeitos frutos de uma nova cultura que alimenta um comportamento sem generosidade, sem confiança no outro, sem projeto comum. Essa cultura é fundada num suposto direito individual de satisfazer o desejo sem restrições, produzindo prazer, lucro e poder às custas dos outros. Através dela, o capitalismo financeiro e consumista sequestra a nossa vontade atendendo a nossos desejos.
É impossível proibir o sentimento de um desejo por mais sórdido e repulsivo que ele seja, do estupro à pedofilia, passando por todas as formas imagináveis de violência. Os mistérios do inconsciente humano prevalecem, ninguém é conscientemente responsável por seu próprio desejo. A responsabilidade de cada um é pelo controle da prática do desejo segundo uma ética pessoal, o direito dos outros e princípios acordados em cada sociedade. A vontade consciente existe para impedir o desejo indesejável.
A criação do Estado é um momento importante na história da
humanidade. Ele se responsabiliza pelo controle dos desejos criminosos,
nem que para isso seja necessário usar a força da qual possui o
monopólio. O Estado é o agente da sociedade em defesa da civilização.
Quando ele perde o controle disso, quando seus representantes incentivam
o mau comportamento pelos exemplos de violência que dão, o caos vence a
justiça, a arma se torna mais poderosa que a fala, a civilização
desfalece. Como deve agir o cidadão de um país onde, no Congresso
Nacional, um grupo de eminentes parlamentares é conhecido e se reconhece
como a “bancada da bala”?
Nossos homens públicos, em seus diferentes planos e poderes, estão viciados na cultura do pensamento mágico, criando argumentos e teses mirabolantes (às vezes simplesmente cínicas) que tentam justificar seus malfeitos provocados por desejos materiais. O deputado Luiz Sérgio, relator da CPI da Petrobras, jurou de mãos postas que nenhum homem público havia praticado qualquer ilícito contra a empresa estatal. E ainda aproveitou para atacar a colaboração premiada, a mais civilizada atenuação de pena para quem cometeu um crime. O deputado põe o pensamento mágico a seu serviço e, de tanto repeti-lo aos outros, acaba convencendose do que diz e vai dormir em paz. O juiz Sérgio Moro e seus companheiros são uns inventores de moda.
É esse pensamento mágico a serviço do crime que, em diversas dimensões (ele existe à direita e à esquerda), nos ajuda a esclarecer o que Kenneth Maxwell, brasilianista inglês, afirma sobre nós: a elite brasileira se comporta como se nada se passou e tudo é passado. Ou seja, a elite brasileira se nega a pensar que é culpada de alguma coisa, ela não se dá conta do real porque é incapaz de pensar no outro. Se tudo é passado, não há nada a fazer no presente.
_____________
São Paulo sempre gerou alguns de nossos melhores filmes, com cineastas, de Roberto Santos e Walter Hugo Khoury a Hector Babenco e Fernando Meirelles, que consagrariam o cinema paulista no mundo inteiro. Agora, o governador Geraldo Alckmin decidiu que São Paulo não precisa mais de cinema e está extinguindo o Programa de Fomento ao Cinema Paulista, gerido pelo estado. Justamente no momento em que a SPCine, empresa municipal criada por Juca Ferreira, atual ministro da Cultura, quando era secretário de Cultura da capital, começa a dar seu primeiros frutos.
Durante 12 anos, o Programa de Fomento ao Cinema Paulista viabilizou mais de cem filmes, inclusive nosso premiadíssimo sucesso e atual candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro, “Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert. Para os cineastas paulistas, “o fim do programa é uma decisão política que, se confirmada, vai interromper o fluxo de produção com consequências desastrosas para o cinema paulista”, como dizem em manifesto recente. Estamos juntos com eles.
Nossos homens públicos, em seus diferentes planos e poderes, estão viciados na cultura do pensamento mágico, criando argumentos e teses mirabolantes (às vezes simplesmente cínicas) que tentam justificar seus malfeitos provocados por desejos materiais. O deputado Luiz Sérgio, relator da CPI da Petrobras, jurou de mãos postas que nenhum homem público havia praticado qualquer ilícito contra a empresa estatal. E ainda aproveitou para atacar a colaboração premiada, a mais civilizada atenuação de pena para quem cometeu um crime. O deputado põe o pensamento mágico a seu serviço e, de tanto repeti-lo aos outros, acaba convencendose do que diz e vai dormir em paz. O juiz Sérgio Moro e seus companheiros são uns inventores de moda.
É esse pensamento mágico a serviço do crime que, em diversas dimensões (ele existe à direita e à esquerda), nos ajuda a esclarecer o que Kenneth Maxwell, brasilianista inglês, afirma sobre nós: a elite brasileira se comporta como se nada se passou e tudo é passado. Ou seja, a elite brasileira se nega a pensar que é culpada de alguma coisa, ela não se dá conta do real porque é incapaz de pensar no outro. Se tudo é passado, não há nada a fazer no presente.
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São Paulo sempre gerou alguns de nossos melhores filmes, com cineastas, de Roberto Santos e Walter Hugo Khoury a Hector Babenco e Fernando Meirelles, que consagrariam o cinema paulista no mundo inteiro. Agora, o governador Geraldo Alckmin decidiu que São Paulo não precisa mais de cinema e está extinguindo o Programa de Fomento ao Cinema Paulista, gerido pelo estado. Justamente no momento em que a SPCine, empresa municipal criada por Juca Ferreira, atual ministro da Cultura, quando era secretário de Cultura da capital, começa a dar seu primeiros frutos.
Durante 12 anos, o Programa de Fomento ao Cinema Paulista viabilizou mais de cem filmes, inclusive nosso premiadíssimo sucesso e atual candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro, “Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert. Para os cineastas paulistas, “o fim do programa é uma decisão política que, se confirmada, vai interromper o fluxo de produção com consequências desastrosas para o cinema paulista”, como dizem em manifesto recente. Estamos juntos com eles.
‘Porque estamos em 2015’ - Dorrit Harazim
- 8 nov 2015
- O Globo
- DORRIT HARAZIM Dorrit Harazim é jornalista
É mais fácil o presidente da Câmara tourear a cassação do seu mandato com os políticos do que abafar o movimento das mulheres
Desde sua vitória de arromba nas eleições gerais de três semanas atrás, o canadense Justin Trudeau tem sido um deleite para fotógrafos. O segundo primeiro-ministro mais jovem do país (43 anos) mergulhou com entusiasmo em selfies com mulheres portandoo hijab, ensaiou uma dança típica com hindus, fez refeições com conterrâneos muçulmanos.
Também a cerimônia de posse desta quarta-feira ofereceu novidades telegênicas. Um dos pontos altos foi a lúdica apresentação de canto gutural inuit, uma tradição do povo indígena da Região Ártica. Trata-se, na verdade, de uma competição: duas mulheres ou meninas esquimós, posicionadas cara a cara, emitem pela garganta sons de animais ou da natureza. Perde aquela que rir primeiro. Educadamente, os presentes à posse do 23º chefe de governo também riram e aplaudiram.
Para quem vê nisso tudo sinais alarmantes de barato populismo multicultural, Trudeau reservou uma surpresa: a composição de seu gabinete. Os ministeriáveis chegaram juntos à cerimônia no centenário Rideau Hall de Ottawa. Num mesmo micro-ônibus, nada de limusines pretas.
A grande maioria dos integrantes do novo ministério tem entre 35 e 50 anos. Dois são aborígenes. Três são seguidores da doutrina sikh, surgida na região do Punjab indiano séculos atrás. E 15 são mulheres — metade exata do gabinete de 30 membros. “Por que considera esse equilíbrio de gênero tão crucial?”, quis saber a mídia logo após o anúncio. Trudeau pareceu espantado com a pergunta, pela obviedade da resposta: “Porque estamos em 2015”, disse apenas, antes de passar para questões mais complexas. Resumia assim o pensamento de um homem de seu tempo. No atual governo de Dilma Rousseff, aparelhado 275 dias após sua reeleição, o placar é de 27 homens para quatro mulheres.
No caso canadense, não se trata de uma questão apenas numérica. Ela também pretende ser qualitativa. Os ministérios de Comércio Internacional, da Justiça, das Instituições Democráticas e da Mudança Climática e Meio Ambiente estão entre as pastas agora comandadas por mulheres. Uma delas, Maryan Monsef, chegou ao Canadá aos 11 anos de idade, refugiada do Afeganistão.
No vasto país do Hemisfério Norte de apenas 36 milhões de habitantes, prevalece a compreensão de que a moderna nação-estado se construiu através de sucessivas ondas migratórias. Desde os egressos da Guerra de Independência americana, primeiros a receber do país vizinho um quinhão de terra, até os refugiados dos conflitos, desastres naturais e a fome de hoje, o Canadá se orgulha da tradição humanitária.
Nesse sentido, o governo conservador de Stephen Harper, que
antecedeu a Trudeau e se manteve no poder por quase uma década, foi um
ponto fora da curva. Centralizador, polemista, político de estilo
combativo e autoritário, Harper considerava equivocado “derramar ajuda
sobre gente que já morreu”, referindose aos despossuídos em busca de um
recomeço de vida.
Foi surrado nas urnas em 2015 por não ter compreendido seu tempo nem sua gente, que votou em peso — 68% do eleitorado compareceram, apesar de o voto ser facultativo.
(Também Eduardo Cunha pretende não ver a dimensão do #AgoraÉQueSãoElas e a força do ronco feminino contra o seu projeto que dificulta o acesso ao aborto legal para vítimas de estupro. É mais fácil o presidente da Câmara tourear a cassação do seu mandato com os políticos do que abafar o movimento das mulheres).
“Meu governo é a cara do Canadá”, pode dizer Trudeau, “e a maioria sinalizou que é hora de uma mudança real”. O seu novo ministro da Defesa, por exemplo, usa turbante, barba e bigodão sikh, e nasceu na Índia. Mas não é por isso que o tenente-coronel Harjit Sajjan mereceu a pasta. Veterano de três temporadas na Guerra do Afeganistão e uma no conflito dos Balcãs dos anos 1990, o condecorado Sajjan pretende destrinchar o Canadá da reação ao ataque do 11 de Setembro que há 15 anos envenena a geopolítica mundial.
No dia da posse, Justin Trudeau foi mais uma vez perguntado se planejava perpetuar o legado do pai — Pierre Elliott Trudeau foi o premier mais pop e popular que o Canadá já teve e governou o país por 15 anos no século passado. “Meus pensamentos hoje não são para meu pai — sorry, Dad — mas para que meus próprios filhos e as crianças deste país tenham um futuro melhor”, respondeu o filho. Porque estamos em 2015.
Pergunta a Pedro Paulo Carvalho, secretário de Coordenação do Governo carioca e delfim do prefeito Eduardo Paes à sua sucessão nas eleições do próximo ano: em que órbita ele vive para classificar de “descontrole” a agressão à sua ex-mulher (à época ainda casados)? Pelo depoimento da acusadora feito em 2010 à Polícia Civil, ela foi derrubada no chão, agredida com chutes, socos e empurrões. Também teve um dente quebrado.
Porque estamos em 2015 isso se enquadra na Lei Maria da Penha.
Foi surrado nas urnas em 2015 por não ter compreendido seu tempo nem sua gente, que votou em peso — 68% do eleitorado compareceram, apesar de o voto ser facultativo.
(Também Eduardo Cunha pretende não ver a dimensão do #AgoraÉQueSãoElas e a força do ronco feminino contra o seu projeto que dificulta o acesso ao aborto legal para vítimas de estupro. É mais fácil o presidente da Câmara tourear a cassação do seu mandato com os políticos do que abafar o movimento das mulheres).
“Meu governo é a cara do Canadá”, pode dizer Trudeau, “e a maioria sinalizou que é hora de uma mudança real”. O seu novo ministro da Defesa, por exemplo, usa turbante, barba e bigodão sikh, e nasceu na Índia. Mas não é por isso que o tenente-coronel Harjit Sajjan mereceu a pasta. Veterano de três temporadas na Guerra do Afeganistão e uma no conflito dos Balcãs dos anos 1990, o condecorado Sajjan pretende destrinchar o Canadá da reação ao ataque do 11 de Setembro que há 15 anos envenena a geopolítica mundial.
No dia da posse, Justin Trudeau foi mais uma vez perguntado se planejava perpetuar o legado do pai — Pierre Elliott Trudeau foi o premier mais pop e popular que o Canadá já teve e governou o país por 15 anos no século passado. “Meus pensamentos hoje não são para meu pai — sorry, Dad — mas para que meus próprios filhos e as crianças deste país tenham um futuro melhor”, respondeu o filho. Porque estamos em 2015.
Pergunta a Pedro Paulo Carvalho, secretário de Coordenação do Governo carioca e delfim do prefeito Eduardo Paes à sua sucessão nas eleições do próximo ano: em que órbita ele vive para classificar de “descontrole” a agressão à sua ex-mulher (à época ainda casados)? Pelo depoimento da acusadora feito em 2010 à Polícia Civil, ela foi derrubada no chão, agredida com chutes, socos e empurrões. Também teve um dente quebrado.
Porque estamos em 2015 isso se enquadra na Lei Maria da Penha.
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
A bancada de um homem só
Revista Piauí | Edição 110 | Novembro DE 2015
“Isto aqui não é um Fla–Flu, já falei! Não é Fla–Flu. Isto aqui é um debate profundo”, exaltou-se o senador João Capiberibe, do PSB do Amapá, tentando pôr alguma ordem no ambiente. Ele presidia a audiência pública do projeto de lei que propõe a legalização do aborto no sistema público de saúde, organizada pela Comissão de Direitos Humanos do Senado.
Na plateia, ativistas de grupos feministas e defensores da legalização do aborto estavam em franca minoria diante dos adversários. Parlamentares ligados a igrejas evangélicas e outros grupos religiosos se alternavam na ofensiva. Quando chegou sua vez de falar, o deputado federal Flávio Augusto da Silva, do PSB de São Paulo, partiu para o ataque.
Católico, escolheu como alvo as feministas e seus aliados. “Estranha-me que militantes LGBT estejam tão atrelados a essa luta em favor do aborto, como o deputado Jean Wyllys”, discursou o parlamentar, mais conhecido como Flavinho. “Tudo isso começou com as feministas e hoje já foi abraçado por uma outra ideologia. Me estranha esse tipo de engajamento.” Fez uma pausa e arrematou com uma insinuação: “Aliás, hoje já sei de onde vêm os recursos para manter todos esses movimentos.”
Talita Victor, uma das assessoras da liderança do PSOL, acompanhava a discussão. Quando ouviu a referência a Jean Wyllys, avisou-o pelo celular. O deputado, que estava na sala da liderança do partido, largou tudo e chegou em minutos à Comissão de Direitos Humanos. Tinha o ar cansado de quem trabalhara até a madrugada.
Ele foi o último deputado a discursar na audiência. Lembrou que, a despeito das restrições que a legislação brasileira impõe ao aborto, permitido apenas em casos de estupro e risco de morte para a mãe, mulheres de todas as classes sociais do país recorrem ao procedimento de forma clandestina. “Apesar das declarações, exortações a favor da vida, contrárias às reivindicações das mulheres, elas continuam praticando o aborto, gostem ou não. Esse é um problema de saúde pública”, disse o deputado.
Parte do auditório aplaudiu, mas a maioria protestou. Flavinho quis retomar a palavra e teve o microfone cortado. Visivelmente contrariado, juntou suas coisas e abandonou a sala. Wyllys correu atrás do colega para tirar satisfações. “Por que é que você fez aquele comentário a meu respeito?”, perguntou, já no corredor, cutucando-o no ombro com o dedo indicador. Flavinho reagiu: “Não me toque! Não me toque! Isto é um desrespeito!”
Wyllys estava indignado porque julgava que o colega pusera em dúvida sua honestidade ao insinuar que ele receberia dinheiro para apoiar as feministas. Bateram boca. Uma campainha ensurdecedora soou, avisando os parlamentares de que era hora de se dirigirem ao plenário. Os curiosos se dispersaram e Wyllys retornou à sala da audiência. Sorriu para fotos com simpatizantes que ainda estavam ali. Botou a mochila nas costas e já ia saindo quando topou com um padre que participara da sessão. Ligado à Arquidiocese de Cuiabá (MT) e estrela emergente da ala conservadora da Igreja Católica, o religioso Paulo Ricardo de Azevedo Júnior dissera na audiência que gays, lésbicas e feministas haviam se unido contra as “instituições naturais da sociedade”.
“E aí, padre?”, Wyllys não se conteve, “Continua explorando os menininhos? Deixa eles horas a fio segurando cartazes contra o aborto na porta do Congresso?” O padre não parecia abalado. “Não sou explorador”, respondeu, sem alterar o tom de voz. Wyllys insistiu: “Padre, vamos combinar. Pegar os meninos e colocar horas sob o sol é, sim, uma exploração.” Sem alterar o tom de voz, o padre provocou: “Adolf Hitler também disse: ‘Vamos falar do aborto. Vamos falar dos judeus.’” Wyllys reagiu com ironia: “Curioso o senhor falar dos judeus, padre. A Igreja Católica tem um papel tão importante no antissemitismo, não é mesmo?” O deputado se afastou sem esperar a resposta. Ainda pôde ouvir as últimas palavras do religioso: “Deus te abençoe.”
Wyllys deixou o recinto ofegante, acompanhado por três assessoras que apertavam o passo para segui-lo pelos corredores do Senado. A chefe de gabinete do deputado, Noemia Boianovsky, avaliou como positiva sua participação. “É, mas rolou o barraco que eu disse que ia rolar”, ele ressalvou. “Fica parecendo que o Parlamento só tem uma voz a favor do aborto”, lamentou a chefe de gabinete. Um grupo de visitantes interrompeu a conversa para pedir uma fotografia. Wyllys aquiesceu e mais uma vez sorriu para a câmera.
Quando retomaram o passo, a assessora Talita Victor criticou a omissão da presidente Dilma Rousseff e do PT em relação ao aborto: “Dilma falou que aborto não se discute. Os petistas não aparecem.” Wyllys foi além. “Esse partido tem mais é que acabar mesmo. Está todo mundo preocupado com as conveniências, fazendo cálculo eleitoral”, disse, entrando no plenário da Câmara.
Jean Wyllys estreou no Congresso em 2011, e não foi de mansinho. “Meti o pé na porta. Ou, para usar uma expressão cara aos machistas, botei o pau na mesa. Ou fazia isso ou era engolido”, disse à piauí durante um almoço no Rio de Janeiro, no final de junho. Até entrar na política, era conhecido como o baiano que participou do Big Brother Brasil, declarou ser gay em rede nacional e saiu vencedor do programa, com 50 milhões de votos dos espectadores. No dia da posse no Congresso, parentes de outros deputados se acotovelavam para tirar foto a seu lado.
A imprensa queria saber em primeira mão como Wyllys planejava decorar seu gabinete. Até então, a referência de político homossexual havia sido Clodovil Hernandes (PTC-SP), morto em 2009, gay assumido e celebridade na mídia. Como político, nunca empunhou a bandeira da comunidade, notabilizando-se por seu gabinete customizado – tapetes tibetanos, cortinas de voile, luminárias de cristal, além da inesquecível naja de cobre que servia de pé de mesa e que o deputado batizara de Marta, em homenagem à ex-prefeita de São Paulo, seu notório desafeto.
O assédio fez com que Wyllys quisesse evaporar na cerimônia de posse. “Achavam que eu tinha brotado feito cogumelo no BBB. Foi um folclore. Como se eu não tivesse história.” Para fugir da pecha de celebridade oca e bicha exótica, o deputado adotou uma postura aguerrida. Estrategicamente, pleiteou de cara uma vaga na Comissão de Finanças e Tributações – “majoritariamente masculina e branca, e que no imaginário destes homens não é assunto para gays”.
Wyllys obteve apenas 13 018 votos e só garantiu uma vaga graças ao resultado alcançado pela legenda do PSOL. O segundo mandato, no ano passado, teve um resultado bem mais robusto: foram 144 770 votos. Transitando com desenvoltura entre artistas, tendo a simpatia de intelectuais e um expressivo número de seguidores na internet, o deputado vem chamando a atenção para suas bandeiras: a defesa dos direitos dos negros e das minorias estigmatizadas, como a comunidade LGBT, e causas polêmicas, como a legalização das drogas e do aborto.
A bancada religiosa da Casa considera Wyllys uma espécie de encarnação do Tinhoso, ou, como alguém já o definiu, o “Porteiro do Capeta”. Wyllys gosta de recorrer à metáfora bíblica do jovem pastor Davi que enfrentou e venceu o gigante Golias para descrever a correlação de forças no Congresso: “Eu tenho apenas um estilingue na mão.”
Annus mirabilis dos evangélicos, 2015 foi um marco: pela primeira vez o grupo conquistou a presidência da Câmara na figura de Eduardo Cunha. Com 69 deputados federais – dados da Frente Parlamentar Evangélica (FPE) –, a ala busca garantir posições estratégicas em Brasília a fim de ampliar sua influência. Dentre suas propostas no Legislativo, em diferentes estágios de tramitação, há a criação do Estatuto da Família – que reconhece apenas a união entre homem e mulher –, a celebração do Dia do Orgulho Heterossexual, a penalização da heterofobia e da cristofobia.
Marco Feliciano (PSC-SP), o “Vendilhão do Templo”, como Wyllys se refere a ele, foi alocado no comando da Comissão de Direitos Humanos e Minorias em 2013, cargo historicamente ocupado por políticos de filiação progressista. Pastor da Assembleia de Deus e pré-candidato a prefeito de São Paulo, Feliciano já afirmou que “africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé” e pregou, durante um culto, que Jesus “não foi feito para ser enfeite de pescoço de homossexual, nem de pederasta, nem de lésbica”.
Em repúdio à eleição do pastor, Wyllys e outros deputados lançaram a Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos Humanos, espécie de comissão paralela para esvaziar o poder de Feliciano e dar voz aos dissidentes. Logo surgiu o movimento “Fora, Feliciano”, que ganhou as redes sociais. O pastor deixou o cargo após um ano. Embora o PT tenha reassumido o controle da comissão, hoje presidida por Paulo Pimenta (PT-RS), os religiosos ainda detêm a maior parte dos assentos.
“A comissão tem presidente, mas não tem tropa. Nós derrubamos tudo que não interessa à família ali”, decretou Jair Bolsonaro (PP-RJ), com o punho cerrado sobre a mesa e um sorriso triunfante. O deputado, que encabeçou a lista dos mais votados em seu estado, ria à larga com um grupo em seu gabinete em Brasília quando me recebeu. Ao saber do motivo da conversa, franziu o cenho e afastou as costas do assento da cadeira, em posição de alerta.
Para Bolsonaro, Wyllys não passa de “um ativista gay com projetos absurdos que não somam nada para que se valorize a família”. Ele assegurou que não é contra os homossexuais, contanto que permaneçam escondidos e sem fazer alarde. “Quer ser feliz entre quatro paredes? Problema deles. Quero mais que fiquem roucos de tanto uivar de felicidade com seus parceiros”, disse, rindo. O problema, prosseguiu, é que a “pauta gay que vivia no armário resolveu mostrar as asinhas”. A indecência, nos termos do parlamentar, teria começado com o famigerado “kit gay” preparado pelo Ministério da Educação. (Em maio de 2011, após pressão do ultradireitista e católico Bolsonaro e da bancada evangélica – com quem ele costuma votar em bloco –, a presidente Dilma Rousseff vetou a distribuição do material anti-homofobia nas escolas públicas.)
Quando perguntei sobre o projeto de lei de Wyllys que propõe regulamentar a profissão das prostitutas, Bolsonaro soltou uma gargalhada. “Que maravilha! Um pai vai dizer para o outro: ‘Quanto sua filha está ganhando? Dois mil, só? A minha tira 5 mil.’” O assessor fez um sinal para que ele encerrasse a conversa. Ao se levantar, o deputado disparou: “A minoria gay no Brasil agora se julga semideus! Tem que rir. Ha-ha-ha!”
Antes da chegada de Wyllys à Câmara, a senadora Marta Suplicy já defendia os direitos da comunidade LGBT havia muito tempo. Recebeu desse grupo, inclusive, a alcunha de “Nossa Senhora das Bichas”. Mas sua figura não provocava tanta rejeição no Congresso. “Marta é friendly, não lésbica. Isso muda tudo”, observou Wyllys. “No meu caso, a pauta não é só política. É a minha vida que está em jogo. Então é óbvio que vou me jogar com muito mais coragem.”
“Concentração. Câmera. Ação! Poemaria. Cena 1. Take 1.” Era sábado de sol e Jean Wyllys estava em um estúdio em São Paulo para gravar uma participação no documentário Poemaria. Aos 41 anos, o parlamentar adotou o cabelo comprido e a barba rala que o deixam parecido com Jon Snow, personagem da série Game of Thrones, da qual é fã. Usa um escapulário com as imagens de Jesus Cristo e Nossa Senhora, e uma pulseira de contas de candomblé. Vestia calça jeans e bata branca, decotada o bastante para deixar visível a tatuagem que lhe ocupa todo o peito: “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome.” São versos de um poema de Vladimir Maiakóvski, que Caetano Veloso incluiu numa canção em 1977. “Tem muito a ver com minha vida”, comentou.
O projeto Poemaria vem registrando personalidades de diferentes áreas falando de poesia. O diretor Davi Kinski, um rapaz ruivo, magro e alto, serviu um copo de vinho tinto para seu entrevistado e pediu que ele narrasse de forma sucinta sua trajetória. Wyllys encarou a câmera e respondeu: “Sucintamente é difícil. Como diz a letra de Belchior: Qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa.”
A seguir, fez um breve relato.
Jean Wyllys de Matos Santos nasceu no dia 10 de março de 1974. Tivesse escolha, Inalva de Matos Santos, já mãe de três meninas, teria determinado outra data para o rebento vir ao mundo. “Perdi o último capítulo da novela pra parir o Jean”, contou, rindo, em uma tarde de julho. Miúda, com o rosto vincado pelo sol e pelo tempo, os cabelos muito pretos presos por grampos, ela me recebeu em sua casa em Alagoinhas, no interior da Bahia, a 93 quilômetros de Salvador. Sentada no sofá da sala, balançava os chinelos sem tocar os pés no chão. E contou que na Baixa da Candeia, na periferia rural da cidade, televisão era artigo raro, só encontrado na casa de um vizinho. Era lá que a família se aboletava para acompanhar os folhetins.
“Se não fossem aqueles breves instantes de ficção e música à porta de um vizinho”, escreveu Jean Wyllys em seu livro Tempo Bom, Tempo Ruim, “talvez minha mãe não tivesse suportado a vida miserável e sem graça que vivia.” Mainha – termo como os baianos se referem à mãe – era muito prática. “Melhor não alimentar sonhos para não se frustrar”, repetia, feito mantra, para os seis filhos.
Já o pai, José Dias dos Santos, sonhava grande. Ganhava uns trocados pintando carros e se imaginava ao volante do luxuoso Aero Willys, sedã que deixou de ser produzido no comecinho da década de 70. Seu José não tinha cacife nem para pagar as contas, mas deu um jeito de se aproximar do automóvel, ou pelo menos do nome dele. Descartou o Aero, pegou o Willys, acrescentou um y e batizou o primeiro filho varão com o nome dos sonhos. Jean foi ideia de uma tia, que se inspirou num galã de fotonovela.
Extrovertido, seu José varava noites entoando canções de Nelson Gonçalves e Waldick Soriano. “Solta um lá maior”, dizia aos companheiros de botequim, onde invariavelmente se embriagava. Voltava para casa de cara cheia e carteira vazia.
Wyllys tinha 6 anos quando sentiu pela primeira vez que era diferente. A pedido da mãe, então lavadeira (depois ela também trabalhou como empregada doméstica), o menino foi até a venda do seu Deraldo. “Me dê seis pães”, disse, na ponta dos pés, os olhos na altura do balcão, caprichando na concordância. Um sujeito, com um copo de pinga na mão, escrutinou o moleque e perguntou alto, com ironia. “Seis pães? Você é estudado ou veado?”
A freguesia se fartou de rir. O menino voltou para casa com um aperto no peito. Desde essa época, ele passou a ouvir toda sorte de humilhações – “Pare de rebolar!”, “Maricas!”, por aí vai. Dona Inalva se “enraivava dessas manias idiotas do povo”, conforme me disse, e saía em defesa do rebento.
E seu José? “Meu pai nunca teve apreço por mim por causa do meu jeito. Tinha vergonha”, disse Wyllys. “Fazia planos para meu irmão George, nunca pra mim.” George é hoje capitão da Polícia Militar em Salvador. Manca ligeiramente de uma perna, resquícios de um acidente de carro. E, acanhado, cora ao falar.
Os filhos de dona Inalva e seu José frequentaram as Pastorais da Juventude e as Comunidades Eclesiais de Base, movimentos criados por padres progressistas influenciados pelo marxismo e pelo Concílio Vaticano II, com “opção preferencial pelos pobres”. E aprenderam que a desigualdade social não deveria ser considerada natural. “Foi no envolvimento com a Igreja Católica que minha vida começou a ser politizada. A Igreja me deu acesso a livros e a um conhecimento que minha família e mesmo a escola que eu frequentava não me permitiam”, falou Wyllys.
Aos 10 anos, o menino e o irmão George foram trabalhar nas ruas de Alagoinhas, vendendo algodão-doce, calendários do Sagrado Coração de Jesus e livros de ervas medicinais. “Jean já nasceu velho. Arrimo de família, sempre incumbido de algo”, disse Firmiane Venâncio, colega do ensino médio e hoje defensora pública em Salvador.
Mas sobrou uma brecha para pecados menores. Provar o vinho da consagração, mastigar a hóstia e surrupiar uns trocados da caixa de ofertas da igreja. Logo batia o remorso no pequeno infrator. Wyllys publicou na rede, em setembro, um vídeo contando esses pequenos delitos em depoimento à campanha EuConfesso.org, contra a redução da maioridade penal.
O menino era encarregado de ler a Bíblia nas missas e desempenhava papéis de destaque nas montagens teatrais realizadas pela igreja. Não tardou e foi convidado a apresentar um programa diário na Rádio Emissora de Alagoinhas, sucesso na zona rural da cidade. Às seis da tarde em ponto, iniciava com a Ave Maria de Franz Schubert. Finda a música, informava as pautas da paróquia e lia trechos do Evangelho.
Aos 13 anos, Wyllys passou num concurso e entrou na Caixa Econômica como aprendiz. “Sabe de uma coisa, filha? Uma vizinha falou um negócio que até hoje fico magoada. Que Deus a tenha”, disse dona Inalva, fazendo o sinal da cruz e olhando para o alto antes de prosseguir. “A criatura disse bem deste jeito: ‘Quem devia ter vencido este concurso era meu menino, e não o veado filho daquela esmoler.’ Ah, fui pobre, mas nunca fui esmoler! Queria que ela estivesse viva para ver até onde Jean chegou.” Dona Inalva estudou só até a 3ª série; o marido, até a 4ª. Sempre se achou “burra”: “Não entrava nada na minha cabeça.” “Mas Jean era só nota boa”, acrescentou.
Um ano depois, o primeiro varão conseguiu uma disputada vaga para cursar o ensino médio técnico na Fundação José Carvalho, entidade filantrópica de excelência em educação com várias unidades de ensino fundamental, técnico e rural. Wyllys foi aprovado para a unidade de Pojuca, na região metropolitana de Salvador, a 46 quilômetros de Alagoinhas. O espaço era enorme e parecia ainda maior para o menino que até então vivia numa casa de um único cômodo e sem água encanada. A escola funcionava em esquema de internato, e os alunos só voltavam para casa de seis em seis meses. Os parentes podiam visitá-los nos fins de semana, mas os pais de Jean Wyllys não tinham dinheiro para a condução e só apareciam raramente. O garoto varava a madrugada estudando e dormia no máximo quatro horas por noite, hábito que mantém até hoje.
“Jean sempre foi efusivo. Jamais reprimia sua sexualidade”, contou Firmiane Venâncio, a colega na Fundação. O baiano iniciou sua vida sexual no começo dos anos 90. Quando entrou no colégio era virgem, porém já tinha clara sua orientação sexual, o que o transformava em alvo constante de chacota. Mas tinha muitos aliados, principalmente as amigas. “Toda mulher que se preze tem um veado de estimação”, costumava dizer.
Rapazes dormiam com rapazes, moças com moças, essa era a regra. Muitos colegas se recusavam a compartilhar o quarto com um gay e bolavam estratégias para que o jovem implorasse para sair. Uma delas era fazer barulho à noite, batendo pés e mãos na parede, para atazaná-lo durante o sono.
Às vezes Wyllys partia para o confronto: “Venha cá! Qual é a sua?” Em outras, reagia com certo desdém desafiador. “Sou gay mesmo, e daí?”, perguntava, com as mãos na cintura, dando uma sonora gargalhada. Um colega tímido, gordo e gay escudava-se no amigo. “Eu já era uma bicha assumida e me impunha. Ele não.” Foi na companhia de Klebson e de mais dois amigos que Jean Wyllys se aventurou pela primeira vez na noite gay da capital baiana. Anos mais tarde, Klebson cometeria suicídio.
Concluído o curso, e com um certificado de programador de computadores, Wyllys foi morar em Salvador. “Eu tinha que sair de Alagoinhas. Era impossível viver plenamente minha homossexualidade lá.” Na primeira tentativa do vestibular, ele passou na Universidade Federal da Bahia, a UFBA, para cursar jornalismo.
“Naquela época não tinha cota, entrar aqui não era fácil”, contou Wilson Gomes, que foi seu professor de semiótica na UFBA, onde ensina teoria da comunicação até hoje. “Só dava gente branquinha, caras de Curitiba e classe média.” Jean Wyllys trabalhou para os principais jornais soteropolitanos, nos quais escreveu sobre quase todos os assuntos, menos futebol. Foi professor de cultura brasileira e teoria da comunicação em faculdades privadas e concluiu mestrado em letras e linguística na UFBA. Estudou a narrativa de presidiários que sobreviveram ao Massacre do Carandiru em 1992, quando 111 presos foram assassinados pela Polícia Militar paulista, e planejava seguir a mesma linha de pesquisa para o doutorado. Não conseguiu.
“Jean ficou frustrado, realmente desiludido, porque seu projeto de doutorado não foi aprovado”, revelou Eneida Leal Cunha, que foi sua orientadora de mestrado na Bahia e hoje leciona na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. A professora disse que o ex-aluno era inteligente, mas não talhado para a vida acadêmica. “Não tinha entusiasmo como pesquisador. Acredito que agora ele abriu horizontes e se encontrou muito mais.” Os dois nunca mais se viram, mas ela votou no ex-aluno nas duas últimas eleições.
O baiano costuma dizer que se inscreveu no Big Brother com o intuito de fazer uma investigação etnográfica do programa para entender sua engrenagem. Numa entrevista concedida na ocasião, enumerou mais duas razões: queria impulsionar sua carreira literária e quebrar a rotina. E, citando Raul Seixas, disse à jornalista: “Minha vida estava correta demais, sem graça, estava mais ou menos no trono do apartamento esperando a morte chegar.”
Jean Wyllys sempre teve interesse por televisão, fosse como noveleiro assumido, fosse como estudioso da cultura de massa. As telenovelas, ele gosta de dizer, podem ser mais relevantes politicamente do que imagina “a dita nata da intelligentsia”. Para reforçar sua tese, recorre ao pensador francês Jean Baudrillard: “Se milhões de pessoas trocaram um comício por um último capítulo de novela, isso não pode ser considerado um mero equívoco.”
Com a ajuda de dois colegas, o então professor universitário fez um vídeo caseiro no quarto de casa com a estante de livros ao fundo e enviou para a Rede Globo. Foi aceito e não contou a novidade nem para os mais próximos, já que uma das cláusulas do contrato exigia sigilo. Mas teve que se abrir com a irmã Josiane, com quem dividia o apartamento em Salvador.
“Ninha, sente aqui”, falou, mostrando o lugar ao seu lado no sofá. “Quero que você saiba que não vou te deixar desamparada.” Josiane percebeu que o irmão ia para não mais voltar e chorou. “Ele me abraçou e chorou também. Jean sempre quis uma vida diferente. Não ficou em Alagoinhas, não ia ficar em Salvador. Dizia que se não fosse aprovado no doutorado iria embora para o Rio ou para fora do país. Pronto, e foi”, ela me disse.
Dona Inalva tomou um susto com a notícia e com a multidão de curiosos e jornalistas plantados na porta de sua casa. “Não gostei quando Jean falou assim, sabe né? Da vida dele na televisão”, lembrou, referindo-se ao fato de o filho ter dito em rede nacional que era gay. Não que fosse novidade, ele mesmo já lhe contara havia muito tempo. Ela chorou quando soube, depois aceitou. Mas agora não precisava fazer tanto escarcéu e dar munição ao diz que diz do povo. O alívio veio na fala de um compadre: “Dona Inalva, a senhora deve estar muito orgulhosa. Seu filho foi mais homem do que muito homem que conheço.”
Nos dias de paredão – quando os telespectadores votam para eliminar um dos participantes da casa do BBB –, Alagoinhas acompanhava o programa numa grande tela armada na praça central da cidade. O Grupo Gay da Bahia (GGB), no qual Wyllys começou sua militância, designou duas pessoas para ficar o dia inteiro votando pelo telefone no conterrâneo. O advogado Fernando Quaresma, atual presidente da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, fez o mesmo, escondendo o telefone embaixo da mesa enquanto atendia seus clientes.
Depois de 79 dias de confinamento, Wyllys vestiu uma camiseta com a estampa de são Jorge – seu padroeiro – e sentou em frente à televisão, ao lado da outra finalista, a ex-miss e hoje atriz Grazi Massafera. Na tela, Pedro Bial fazia suspense. A cada palavra, o “professor”, como era tratado no programa, apertava com mais força a mão de Grazi. Quando Bial anunciou o vencedor, o baiano começou a chorar. “Eu não acredito! Não acredito”, repetia, abraçado à colega.
Em Alagoinhas, uma multidão o aguardava gritando seu nome. A maioria para celebrar, mas muitos com a esperança de conseguir uma lasca do prêmio de 1 milhão de reais – desde gente com conta de luz atrasada até a mãe de uma debutante que vislumbrava a oportunidade de pedir dinheiro à nova celebridade para a festa da filha.
Dona Inalva achou aquilo tudo um despropósito. “‘Ave-Maria!’, eu dizia, ‘mas nem eu ainda fui ajudada.’” Logo Wyllys presenteou a mãe com a casa térrea e espaçosa em que vive hoje com três de seus filhos. “Mainha passou a vida reclamando da outra casa, e agora só se queixa por ter saído do antigo bairro e de perto dos irmãos dela”, lamentou o deputado, mais terno que zangado.
O potencial eleitoral do ex-BBB entrou imediatamente na mira de políticos, e os convites pipocaram. Foi cortejado pelo conterrâneo Antônio Carlos Magalhães Neto, do DEM, na época deputado federal e hoje prefeito de Salvador. Depois veio Aloizio Mercadante, atual ministro da Educação de Dilma Rousseff. Wyllys tinha sido “soldado vermelho” na adolescência e era eleitor do PT desde 1994. Mas não aceitou.
A terceira e derradeira tentativa partiu de Heloísa Helena, então presidente do PSOL e hoje na Rede, de Marina Silva. A ironia é que Heloísa e Wyllys militam em campos opostos na questão do aborto. Categórica, na discussão sobre o tema em agosto, ela afirmou que “nem dependurada em pau de arara com sangue saindo pelos ouvidos” aprovaria a ampliação da legalização da interrupção da gravidez. Por ocasião do convite, porém, tais divergências ainda não tinham vindo à baila e o baiano aceitou. “Pensei: se três pessoas de diferentes partidos me convidaram, é porque tem um recado aí”, ele disse.
Os dois irmãos mais novos de Jean estavam em casa no dia em que fui a Alagoinhas. A semelhança física entre eles é enorme. Ricardo Matos Santos – estudante de direito e “fanático por Lula” – apontou coincidências entre as histórias do irmão e do ex-presidente: filhos de pai alcoólatra e mãe lavadeira, oriundos da periferia e da pobreza. “Lula expandiu as políticas públicas para os alijados de direitos. É o que Jean busca quando trata das questões dos deficientes, da comunidade LGBT, das mulheres e dos negros.” Dos 513 deputados, prosseguiu o irmão, “não tem um que se compare ao grau intelectual de Jean”.
Rômulo Matos Santos, formado em letras e professor de uma escola municipal, fez questão de frisar que a mobilidade social da família se deu graças aos estudos de Jean, e não a seu ingresso na política. “O fato de ele ter estudado, isso sim puxou a gente. Jean foi nossa referência, nosso carro-chefe.”
Dona Inalva estava mais entretida com as fotografias do álbum que tinha no colo do que com a conversa. “Não sei muito de política, os meninos é que sabem. Às vezes eu vejo o jornal na tevê, mas durmo. Pra Brasília fui só uma vez, e a pulso. Eles botaram Jean lá no céu”, disse, referindo-se aos elogios feitos pelos colegas de chapa do PSOL.
Seu José morreu em 2001 de câncer. Não teve a chance de ver o filho chegar tão longe.
O sábado era de céu limpo em São Paulo. Fogos de artifícios celebravam o Dia de Santo Antônio. Dentro do estúdio, Jean Wyllys finalizava o breve relato de sua trajetória. Enfim, respirou fundo e, numa tacada só, recitou o poema Cântico Negro, do escritor e poeta português José Régio: Não, não vou por aí! Só vou por onde/Me levam meus próprios passos…/Se ao que busco saber nenhum de vós responde/Por que me repetis: “Vem por aqui!”? Maria Bethânia declama o poema em muitos de seus shows.
Despediu-se da equipe do documentário Poemaria e foi para o quintal da produtora esperar o carro que o levaria ao hotel. De pé e com uma xícara de café na mão, contou que finalizava um romance cujo tema seria a morte. “Não tenho pretensões de entrar no panteão da literatura”, avisou.
Não será sua estreia na ficção. Um de seus livros, Ainda Lembro, publicado logo após o BBB, vendeu muito, mas também foi massacrado pela crítica. “Sabe maldade de bicha cruel? Então: o jornalista Artur Xexéo acabou comigo. Professou que eu ia desaparecer no mês seguinte e ninguém mais iria ouvir falar de mim. Ah, querida. O tempo, nada como o tempo.”
O carro chegou. Noemia Boianovsky, sua assessora, sentou-se na frente. Jean e eu nos aboletamos no banco de trás. Quando o motorista deu a partida, ouvimos umas batidinhas no vidro. Era a atriz Guta Ruiz, que havia chegado para gravar e correu para falar com o deputado ao saber que ele estava indo embora: “Jean, torço por você. Estamos juntos.” Ele segurou as duas mãos dela. “Obrigado, amada. Você é linda.” O carro partiu e Wyllys espiou em silêncio o cair da tarde pela janela. “Brasília é um turbilhão, tantas guerras, tantos embates e demandas. É emocionalmente desgastante. Preciso dar um tempo das pessoas, do corpo a corpo. Gosto de ficar em casa. Leio, vejo tevê, curto o silêncio, a solidão. Choro. Sinto falta de namorado, da família.”
A assessora atalhou a conversa, lendo em voz alta as notícias no celular. “Saiu até no El País sobre a cruzada dos evangélicos contra a palavra gênero na educação.” “Tão estúpidos”, ele lamentou. “São capazes de tirar a palavra gênero de um projeto que trate de gêneros alimentícios. É uma desgraça.”
O Congresso passa por uma espécie de “generofobia”. Basta que o termo apareça no texto de qualquer projeto que a bancada religiosa já se ouriça. No ano passado, depois de muita pressão, foi suprimido do Plano Nacional de Educação (PNE) o trecho que assegurava o combate à discriminação por gênero e orientação sexual nas escolas. O mesmo embate tem se repetido nas esferas municipais e estaduais. O lobby religioso alega que a expressão “ideologia de gênero” deturparia o conceito de homem e mulher, que é dado ao nascer, e não escolhido a posteriori.
“Ideologia de gênero, o que é isso? O camarada vai decidir depois se é menino ou menina? É muita bandidagem”, vociferou o pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, em vídeo publicado na internet quando o PNE era discutido em Brasília. Segundo Wyllys, Eduardo Cunha, que ele chama de “aquele sacripanta”, costuma barganhar com os deputados. Promete aprovar seus projetos, contanto que retirem qualquer referência a gênero do texto. “Isto tudo me dá um cansaço. Vontade assim de deitar e dormir”, ele disse.
Ao telefone, Boianovsky tinha a voz preocupada. O parlamentar quis saber o motivo. O estudante Rafael Melo, de 14 anos, havia sido assassinado naquela manhã em Cariacica, no Espírito Santo, a pauladas. Tudo levava a crer que a motivação do crime era homofóbica. A chefe de gabinete sugeriu que o deputado aguardasse maiores informações antes de se manifestar. A prudência se justificava. Em dois crimes semelhantes, a despeito de os fatos indicarem motivação homofóbica, a polícia concluiu que um dos jovens tinha se matado e o outro fora vítima de latrocínio.
“Ao fim e ao cabo, a versão final é a da polícia. Por isso não quero esse desgaste. Porque quando a versão oficial saiu esses fi-lhos-da-pu-ta” – continuou, aumentando o volume da voz – “desmoralizaram a gente. ‘Tá vendo? Se vitimizando! Tá vendo? Pra ele é tudo homofobia!’ Segundo esses imbecis, os gays querem privilégio. Mas para descobrir os assassinos e fazer justiça, tem que reconhecer a motivação homofóbica.”
Poucas horas depois a notícia da morte do jovem foi postada no Facebook do deputado: “Independentemente do que pode ter motivado esse crime abominável, estamos solidários com a família e os amigos do estudante Rafael Melo e atentos aos rumos da investigação.”
Chegamos ao hotel. Em pé, na calçada, Wyllys contou que teve um ataque de pânico um ano atrás, quando soube do caso de Alex, de 8 anos, que vivia em Mossoró, no Rio Grande do Norte. O menino apanhou tanto do pai que teve o fígado dilacerado e morreu. Motivo? Alex gostava de dança do ventre e de lavar louça, a surra era para que tomasse jeito de homem. “Vi minha percepção distorcer. Corri para a frente do espelho, meu rosto parecia desfigurado, achei que estivesse tendo um derrame. Misturou todos os meus temores, essa notícia me… não gosto de lembrar.” O deputado fez uma pausa e chorou. “Desculpe. Me emociona. Esse menino provavelmente passou pelo processo que eu e tantos outros passamos e passarão. De humilhação, xingamento e insulto.”
A assessora o chamou. Faltava pouco para o próximo compromisso, um debate sobre Aids. Jean Wyllys sentou-se ao lado da janela do quarto, observou a cidade iluminada e cantou, a capela, a canção Encontros e Despedidas, de Milton Nascimento e Fernando Brant, falecido no dia anterior. Tem gente que chega pra ficar/Tem gente que vai pra nunca mais…
O vídeo foi postado em sua página no Facebook.
Em 2005, ano em que venceu o BBB, Jean Wyllys foi um dos convidados de honra da Parada do Orgulho LGBT em São Paulo, que também contou com a presença de vários políticos, do então prefeito José Serra à ex-prefeita Marta Suplicy. Wyllys desfilou no carro abre-alas, foi ovacionado e participou de todas as paradas seguintes até 2014, mas não deu as caras este ano. “Não recebi convite especial dos organizadores. Entendi que eles não me queriam.” Ele atribui o gelo às críticas que tem feito ao movimento, que em sua opinião perdeu o caráter político e reivindicatório para se contentar em ser um encontro festivo.
“Esqueceram de chamar o único deputado declaradamente gay? Ah, tem uma historinha bem ardiiida aí!”, disse Laerte Coutinho, em sua casa, esticando as pernas sobre o sofá. A cartunista, que há seis anos assumiu em público sua identidade feminina, lembrou um episódio. As palavras de ordem da parada de 2014 fariam uma menção expressa ao projeto de lei João Nery (nome de um transexual que nasceu mulher). De autoria de Jean Wyllys e da deputada Érika Kokay (PT-DF), o projeto assegurava aos transexuais o direito de ter o nome alterado nos documentos e autorizava a cirurgia de mudança de sexo pelo SUS, o Sistema Único de Saúde. De última hora, os organizadores do evento recuaram, evitando imprimir ao evento uma conotação política. “Foi uma espécie de passada de perna”, comentou Laerte.
A sede da Associação da Parada do Orgulho LGBT funciona no 2º andar de um prédio na praça da República, na capital paulista. O presidente da entidade, Fernando Quaresma, é um homem bastante corpulento, de barba rala, óculos e argolas nas orelhas. Em sua sala, entulhada de caixas vazias e pilhas de pastas, perguntei-lhe por que o deputado não havia sido convidado para a edição deste ano. Quaresma apontou o calhamaço de papéis a seu redor. “Ai, amada, você está vendo, é tanta correria.” Marta Suplicy teria recebido um convite formal? “Claro. A Marta é uma figura histórica na associação. Desde a primeira parada, ela sempre esteve junto. Mas, olha, não fui eu quem convidou ela”, emendou, eximindo-se da responsabilidade.
As arestas de Jean Wyllys com o movimento LGBT vão muito além da Parada. “Criatura! Não trouxe guarda-chuva?”, quis saber o antropólogo Luiz Mott, apressando o passo para não se molhar ao abrir o portão, assim que ouviu as badaladas do sino que funciona como campainha. Localizada no Barris, Centro de Salvador, sua casa abriga dezenas de coleções: de carrinhos a uma infinidade de santos. Com o cabelo grisalho cortado rente, Mott usa barba e brinco de argola. Sentamos em duas poltronas próximas à janela, ao lado de Luluca – um papagaio que volta e meia dava pitacos na conversa. O antropólogo começou a se apresentar, referindo-se a si próprio na terceira pessoa.
Mott é professor da Universidade Federal da Bahia, fundador do Grupo Gay da Bahia, que surgiu em 1980 e é considerado um dos pioneiros na defesa dos direitos humanos dos homossexuais no Brasil. Seu primeiro contato com Jean Wyllys ocorreu no início dos anos 90, quando o jovem era estudante na mesma universidade em que ele lecionava. Os dois se esbarraram algumas vezes em reuniões do GGB e em festas – Wyllys, segundo o entrevistado, teria se interessado por ele.
“Não me assediou porque eu era comprometido na época. Me deixa orgulhoso saber que despertei interesse homoerótico no Jean Wyllys”, o professor comentou, retomando a primeira pessoa. Para ele, a entrada do conterrâneo no Congresso representou um ganho para o movimento LGBT: o fato de ele ser um gay culto, inteligente – e ainda por cima boa pinta – tem ajudado a aumentar a autoestima de um grupo marginalizado.
“Noto um crescimento nos discursos dele. Um traço da performance midiática de Jean Wyllys é citar letras de música. Eu, particularmente, acho isso muito pobre”, comentou, espalmando a mão sobre o peito. “Mas ultimamente ele tem citado mais autores de relevância dentro do mundo acadêmico, o que demonstra capacidade de aprendizado e acúmulo de experiência”, ponderou. Dos elogios (salpicados de senões), Mott logo passou às críticas abertas.
São basicamente três as ressalvas do antropólogo em relação ao deputado. A primeira é que Wyllys age com “estrelismo de franco-atirador”, tomando iniciativas no Congresso sem dialogar com a base LGBT. A segunda é o “infeliz” retrato do deputado como Che Guevara, na capa da revista Rolling Stone em 2011. O revolucionário cubano, apesar da aparência atraente e da aura revolucionária, era homofóbico. “No auge do poder de Che em Cuba, muitos gays foram deportados, presos, perseguidos e assassinados”, disse Mott. Fez uma pausa, olhou feio para o papagaio que falava cada vez mais alto e pediu ajuda à empregada: “Narcisa, prenda a Luluca, por favor.”
Sem o louro na sala, o professor partiu para a terceira crítica: “Um gay assumido ter apoiado a reeleição presidencial é um grande equívoco.” E passou a listar, com os dados na ponta da língua, provas de que Dilma Rousseff não teria se mostrado uma aliada das causas LGBT. Dentre elas, seu recuo quanto à distribuição de material educativo contra a homofobia, o descaso na prevenção à Aids e a escalada de crimes contra homossexuais durante o seu governo.
Diante de um copo de suco de lima-da-pérsia, Mott lamentou que Jean Wyllys não o tenha aceitado como amigo no Facebook, mesmo depois de reiterados pedidos. “O que acho um descaso. Afinal das contas, Luiz Mott é o decano, o mais antigo do movimento homossexual brasileiro. Merecia um pouco mais de acolhimento por parte de Jean Wyllys, você não acha?”, quis saber, voltando a empregar a terceira pessoa.
Nos últimos anos houve avanços para o movimento LGBT no Brasil: em 2011, o Supremo Tribunal Federal reconheceu juridicamente a união estável homoafetiva, e o Conselho Nacional de Justiça obrigou todos os cartórios do país a cumprir a decisão do STF, ou seja, realizar as uniões estáveis de todos os casais do mesmo sexo e fornecer a certidão de registro delas. Wyllys considera as decisões relevantes, mas acredita que o Congresso Nacional deveria garantir essas conquistas numa lei. “Nós não temos que ficar com a união estável enquanto o restante da população tem direito ao casamento civil. Isso seria uma cidadania de segunda categoria”, disse em entrevista à Folha de S.Paulo.
Representantes da ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) defendem punições severas para manifestações de homofobia. Já Wyllys sustenta que casos de injúria e atos discriminatórios não violentos poderiam ser passíveis de penas socioeducativas, para ele mais eficazes do que a cadeia. “Não acho que tem que mofar na prisão só porque me chamou de veado. Este não é um crime hediondo indefensável.”
A pauta costuma causar cizânia na comunidade. Em resposta aos que o criticam por isso, Wyllys afirma que não tem medo de se contrapor. “Não sou deputado, estou deputado. Se não quiser, não vota em mim.” E conclui citando Muito Romântico, de Caetano Veloso: Sou o que soa, eu não douro a pílula.
Até quem admira seu estilo acha que nem sempre o parlamentar se sai bem. Militante há trinta anos e membro da ABGLT, Toni Reis imagina o grau de solidão e estresse implicado em ocupar uma cadeira no Congresso e ser vítima constante de difamações nas redes sociais, como ocorre com Wyllys. Ele elogia o caráter “franco e sincero” do deputado, mas pondera que essas qualidades no Congresso possam se converter em defeitos. “Jean é oito ou oitenta, e na política muitas vezes é necessário dar um passo atrás para depois avançar.” Ele acha que Wyllys fala muito e tem dificuldade de ouvir. “Acaba fazendo política mais para fora do que para dentro.”
O seu juiz já falou/Que o coração não tem lei/Pode chegar/Pra celebrar/O casamento gay/Joga arroz/Joga arroz/Joga arroz/Em nós dois. Em apoio à campanha Casamento Civil Igualitário, idealizada por Wyllys, no final de maio de 2013 os Tribalistas – trio formado por Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Carlinhos Brown – gravaram a canção Joga Arroz.
Com trânsito desimpedido no meio artístico, o deputado sabe se valer disso e impulsionar suas bandeiras. Diferente da esquerda que lutou contra a ditadura ou militou nos anos 80 – para a qual o lema “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” faz todo o sentido –, Wyllys não vê os grandes meios de comunicação como vilões, mas como uma arena rica a ser disputada. Comanda Cinema em Outras Cores, no canal GNT, em que apresenta filmes com temática LGBT. Costuma aceitar convites para participar de programas de auditório, do Esquenta, de Regina Casé, ao SuperPop, de Luciana Gimenez. Sua trajetória é também tema do documentário #Eu, Jean Wyllys, dirigido pelos jornalistas Carlos Juliano Barros e Caio Cavechini, com estreia prevista para o ano que vem.
“Este sujeito é um fenômeno político”, exclamou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso quando soube que suas netas cariocas tinham votado no jovem do PSOL. Instado a falar sobre o “fenômeno”, disse, por e-mail, que o respeita sobretudo por defender questões contemporâneas, como a legalização do aborto e o uso de drogas, sem se escudar em hipocrisias. “Pode-se concordar ou não com as suas posições, mas o fato de tomá-las com franqueza faz de Jean Wyllys uma voz a ser respeitada e seguida, sobretudo pelos mais jovens.”
Wyllys é participativo nas comissões da Câmara que integra, mas raríssimas vezes pede a palavra no plenário. Em vão seus correligionários insistem para que ele ocupe a tribuna. Quando algum parlamentar faz um discurso que o desagrada, ele berra, ri alto e sai para tomar café. Nos momentos de marasmo, senta ao lado do líder do PSOL, o deputado Chico Alencar (RJ), também de formação católica, e cantarola uma música sobre a partilha de pão, aprendida nos tempos da Pastoral. Mas a atividade a que mais se dedica enquanto está no plenário é alimentar as mídias sociais.
“A audiência da TV Câmara é menor do que a minha no Facebook. Então, se é para falar para o grande público, falo nas redes sociais e na imprensa, e não no plenário, onde ninguém se escuta”, justificou-se. No último dia 28, Wyllys ignorou a própria regra e revidou o ataque de João Rodrigues, do PSD de Santa Catarina. Discursando em defesa da revogação do Estatuto do Desarmamento – a favor, pois, de um afrouxamento da lei que restringe o porte de armas –, o deputado referiu-se a Wyllys como “escória”. “Isso não é deputado, isso é a escória da política desse país.” E, numa alusão à participação de Wyllys no BBB, encerrou dizendo não admitir que “alguém que caiu de paraquedas, que veio de seu primeiro mandato a reboque de um programa que diminui a sociedade”, dê “lição moral de cueca”.
Wyllys tomou o microfone e fez um inflamado discurso: “Homens decentes não assistem vídeo pornô em plena sessão plenária, homens decentes não são condenados por improbidade administrativa, por roubar dinheiro público”, lembrando que em maio o parlamentar fora flagrado assistindo a um vídeo pornô no celular. E concluiu: “Não tenho medo de coronéis, os tempos mudaram. Ele e todos os fascistas desta Casa vão ter de me engolir, vão ter de me engolir. Eu sou homossexual assumido, sim, e se acostumem com isso.”
Os seguidores de Jean Wyllys no Facebook no final de outubro eram quase 800 mil, número composto predominantemente por mulheres na faixa dos 16 a 30 anos. O fluxo de comentários chega a milhares em alguns posts, e um funcionário de seu gabinete passa os dias em frente ao computador, respondendo um a um.
Nem só elogios alimentam a correspondência. “Sou amado, mas também odiado”, ele diz. As ameaças se intensificaram bastante em duas ocasiões: quando o casamento igualitário foi aprovado pelo STF e quando Dilma enterrou o Projeto Escola sem Homofobia, o kit gay. Um internauta ameaçou: “OLHA POR ONDE ANDA, SEU VEADO! TE PEGO E TE MATO!!”
A equipe de Wyllys costumava ler mensagens desse teor em voz alta, rindo, como forma de fazer um contraponto à selvageria. Com o tempo, a artilharia passou a provocar medo. Dois internautas enviaram mensagens com indicações de que os remetentes conheciam cada canto do Congresso e estavam a par dos lugares desprotegidos de câmeras de segurança. Por precaução, Wyllys deixou de divulgar sua agenda e evitou eventos públicos em locais abertos. A dupla responsável pelas ameaças foi identificada e presa em março de 2012, em uma operação da polícia intitulada Intolerância. Um era morador de Curitiba, o outro, de Brasília. Os criminosos faziam apologia à violência, sobretudo contra mulheres, negros, homossexuais, nordestinos e judeus, além de incitarem o abuso sexual de menores.
Recentemente foi feita uma varredura no apartamento de Wyllys em Brasília. “Não é só ameaça de morte, mas também risco de sabotagem pra cima de mim. Desde plantar drogas até infiltrar material suspeito. Me constroem como inimigo público número 1. É uma gentalha. Uma gen-ta-lha”, repetiu, elevando a voz e escandindo as sílabas.
Desde agosto o deputado integra a Comissão Parlamentar de Inquérito dos Crimes Cibernéticos. Nos bastidores, tem prestado uma consultoria informal a outros parlamentares vítimas de difamação na rede. Inúmeras notícias falsas sobre Wyllys são criadas e replicadas feito vírus: que ele quer obrigar todas as crianças a fazerem mudança de sexo; que vai retirar trechos homofóbicos da Bíblia e conceder licença-maternidade para as mulheres que abortarem; que é defensor da pedofilia – e por aí vai.
No ano passado, em entrevista a O Estado de S. Paulo, Wellington de Oliveira, um ex-assessor do deputado Feliciano, afirmou ter produzido um vídeo difamatório contra Wyllys que teria sido aprovado pelo pastor. “Eu não sei quem fez, mas que ficou bom, ficou”, comentou Feliciano à época. (Mais tarde, Oliveira disse ter feito o filme por encomenda do deputado.)
Atualmente há quinze procedimentos instaurados para apurar ofensas e ameaças feitas ao deputado via internet. O caso mais recente teve desfecho em setembro, com a condenação de Márcio Gleyson Damasceno, que dois anos atrás compartilhou como notícia real uma piada do site humorístico Sensacionalista (“Bancada gay lança projeto de lei para proibir casamento de evangélicos”). Em sua página no Facebook, o internauta fez o seguinte comentário: “Eu falei do deputado federal endemoniado Jean. Se Deus não matar esse infeliz, eu mesmo vou matá-lo pessoalmente. Querem respeito desrespeitando as leis de Deus e os princípios da Bíblia Sagrada.” A Justiça do Rio Grande do Norte condenou Damasceno a prestar serviços comunitários em uma instituição no interior do estado que assiste homossexuais em situação de vulnerabilidade.
Certa ocasião, um casal procurou Wyllys em seu gabinete. Estavam perto de casar e participaram de um curso para noivos em uma igreja evangélica. Um dos palestrantes mostrou um vídeo em que o deputado era apresentado como aquele que veio para acabar com a família. Os noivos consideraram um exagero e decidiram alertá-lo. Disseram que o autor do vídeo era o pastor Rodrigo Delmasso.
O deputado distrital Rodrigo Delmasso, do PTN, é membro da Sara Nossa Terra. Estava em meados de julho num megaculto realizado pela igreja evangélica no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. Quando cheguei, um grupo de jovens cantava e dançava no palco ao som de música gospel com pegada de rock. Muitos tinham cabelo colorido, tatuagem e piercing. O bispo Robson Rodovalho, fundador da Sara, estava lá. Tem 60 anos, mais de setenta livros publicados, um séquito de 1,3 milhão de fiéis em todo o mundo e sente orgulho em dizer que a igreja é muito mais moderna do que a Assembleia de Deus – a mais numerosa dentre as evangélicas. “Só tem doido na Sara. Tudo tatuado. Jesus era tatuado”, ele diz. Apesar da retórica, a Sara Nossa Terra considera que família é apenas a união entre homem e mulher, posiciona-se contra a legalização do aborto e a descriminalização da maconha.
Rodrigo Delmasso, com 35 anos e um sorriso constante no rosto bochechudo, me recebeu numa sala vip do evento, destinada a bispos e pastores. Pedi que falasse sobre o vídeo exibido no curso de noivos, de sua autoria. Abriu o laptop e me mostrou um pequeno trecho. Nele, um homem acusava Jean Wyllys de chamar os pastores de corja e de incentivar a profissão de prostitutas. “E isto é incompatível com os direitos humanos”, bradava o figurante do filme.
Delmasso fechou o computador depois de meio minuto. Com voz pausada, explicou, sorridente: “Ensinamos nossos valores em cima da Bíblia. E Jean Wyllys fez uma emenda obrigando a retirar todos os trechos homofóbicos da Bíblia.” À observação de que tal projeto não existe, o pastor não tergiversou. Disse que era questão de tempo: Wyllys logo apresentaria algo nesse sentido.
O único gay assumido no Congresso conta com o apoio do pequeno exército de mosqueteiros do PSOL, partido criado há dez anos por dissidentes do PT descontentes com os rumos do governo Lula. Nas últimas eleições, o PSOL elegeu cinco deputados federais. Em maio esse número baixou para quatro, quando o Cabo Daciolo (RJ) foi expulso, acusado de contrariar o programa da legenda – evangélico, iniciava e finalizava seus discursos com a frase “Deus está no comando”. Mas a gota d’água foi o projeto de lei que apresentou para substituir “povo” por “Deus” no primeiro artigo da Constituição Federal (“Todo o poder emana do povo”); não bastasse, na semana seguinte o bombeiro militar defendeu os policiais militares envolvidos no caso Amarildo.
Wyllys faz uma divertida síntese do grupo: Chico Alencar seria o “vaselina”, o “veja bem” que, cheio de dedos, evita fazer críticas contundentes; Ivan Valente, o “velho comunista radical”; Edmilson Rodrigues, o “prolixo”, que se empolga tanto na tribuna que costuma sair rouco de lá. E ele, “o cara que fala tudo muito na ‘chincha’, sem dourar a pílula”. No final de setembro, o PSOL reconquistou a cadeira perdida com a adesão do deputado federal Glauber Braga (RJ), que deixou o PSB.
No primeiro dia de trabalho após o recesso de julho, Alencar entrou no gabinete da liderança do partido com os braços abertos e a gravata amarela solta no colarinho. “Bom dia, moças e moços! Bom dia, transexuais e gays. Bom dia a todos”, saudou a equipe, que se levantou à sua chegada. Como a sala de reuniões estava ocupada, nos sentamos num canto, ali mesmo. Após um prelúdio de muitos elogios – “Jean é de uma coragem surpreendente” –, disse que o deputado baiano é demasiadamente intransigente e que uma dose de paciência lhe faria bem. “Parlamentar é isto, tem que ser um pouco casca-grossa, sem perder a sensibilidade. Tem que ter paciência. Jean diz: ‘É fácil para você, que não é alvo do ódio como eu.’”
Alencar lembrou que, “como sexagenário”, é de um tempo em que as expressões individuais muitas vezes eram solapadas em nome de valores coletivos, e que a nova geração corre o risco de incorrer no pecado contrário. “O Jean teve formação de base eclesial, aprendeu os valores do coletivo, mas acabou no BBB, que é bem a cultura do nosso tempo. E o Parlamento também estimula as figuras e pouco se fala em partido, o coletivo anda muito fragilizado. Pode ser uma tentação ficar no seu próprio nicho.”
Em seguida, entramos na sala onde Wyllys finalizava uma reunião com sua equipe. Alencar o chamou de “papa-hóstia” e pediu que cantasse a música que os dois costumam cantarolar quando o tédio domina o plenário. “Psiu! Ouve aí, ateia!”, disse o líder do partido, pedindo silêncio a uma das assessoras que matraqueava. Wyllys topou o desafio e soltou a voz. Depois, ofereceu a Alencar um calendário do papa Francisco, mimo que trouxera de suas férias na Europa. Para os dois, o pontífice é a prova viva de que é possível ser católico e ter um discurso progressista contra os preconceitos.
Era final de junho e o céu carioca estava nublado. Sentado a uma mesa de canto do restaurante Felice Caffè, em Ipanema, entre goles de um suco de laranja e garfadas de um frango thai, Wyllys avaliou estar mais comedido no segundo mandato. O maior exemplo disso teria ocorrido naquele mês.
Indignados com a artista transexual que simulou ser Cristo na cruz durante a Parada LGBT, deputados evangélicos suspenderam uma sessão para protestar. Depois de gritarem palavras de ordem como “respeito” e “família”, deram-se as mãos e rezaram o Pai-Nosso, encerrando a oração com vivas a Jesus Cristo. Muitos dos presentes dirigiram os olhos ao único parlamentar assumidamente homossexual ali presente, à espera de uma reação. Wyllys teve ganas de gritar “Canalhas!”, mas se conteve. “Eu teria sido trucidado. Fazia parte da estratégia deles que eu reagisse, mas fiquei quieto. Foi maturidade. Se fosse no início do primeiro mandato, eu teria respondido.”
Um sujeito atravessou o salão do restaurante e se postou a seu lado. Queria tirar um retrato com o deputado. Ele atendeu ao pedido do fã – depois viriam mais dois – e ao retornar à cadeira narrou um episódio recente.
Durante um evento numa escola pública de Macaé, no Rio, um adolescente do ensino médio lhe contou que sua mãe, ao descobrir que ele era gay, rejeitou-o categoricamente: “Esconde, dê um jeito.” O rapaz se desorientou, ficou desesperado, e afirmou que ao ver o deputado ali na sua frente se sentia reconfortado. “A minha existência é um ato de esperança para muita gente. Dizem que todo homossexual é um fracassado. Eu provo o contrário. Ser homossexual não é ter um destino imperfeito”, disse Wyllys.
O deputado já se sentiu como o rapaz de Macaé, e seu alento foi ter conhecido Chico Dantas, seu professor de literatura em Alagoinhas. Como de hábito, pôs-se a recitar os versos de uma canção – agora, um trecho de Velhos e Jovens, de Arnaldo Antunes: Antes de mim vieram os velhos/os jovens vieram depois de mim/E estamos todos aqui/no meio do caminho desta vida/vinda antes de nós/E estamos todos a sós/no meio do caminho desta vida/E estamos todos no meio/quem chegou e quem faz tempo que veio.
Ainda comendo, notou como em geral os LGBTs saem cedo de casa, numa tentativa de assumir a identidade mais livremente, e encontram na rede de amigos a família que deixaram para trás. “Acho que a ruptura com a família é uma ferida no inconsciente coletivo gay. Até por isso acho tão importante aprovar o casamento igualitário. A gente tem necessidade de recompor essa família.”
Fez uma pausa, olhou para baixo e pousou os talheres. Tinha os olhos marejados. Mordeu o lábio para conter o choro, mas não deu. “Por mais que a gente vire arrimo de família desde cedo, a nossa vontade, no fundo, é ser amado feito os outros, sem ter que fazer tanto esforço.” Enxugou os olhos com o guardanapo e se desculpou.
O garçom veio tirar a mesa. E o defensor das liberdades individuais contou que está vivendo no celibato. Andar livremente por aí tem sido cada vez mais complicado, disse rindo. “Eu vou à sauna gay e, quando entro, me olham como se eu fosse uma freira num puteiro.” Nas boates o quadro não é muito diferente. Mal pisa no local, os frequentadores sacam seus celulares para filmar e fotografar. “Vira uma vigilância, um saco. É uma obsessão, um controle. Tudo vai parar na internet. Nunca aconteceu, mas me policio bastante.”
Perguntei se ele tinha planos de disputar um cargo executivo. Disse que seu perfil tem mais a ver com o Legislativo, e sobretudo que não conseguiria fazer as concessões necessárias para se eleger numa disputa majoritária.
Quando estive em Alagoinhas, seu irmão caçula, Ricardo, disse que Jean Wyllys é uma incógnita. Ninguém imaginava que entraria na política, e lá está ele. “Foi, encaixou e pegou. Amanhã ele surge com outra ideia, encaixa e vai. E aí pronto.”
O único deputado federal assumidamente homossexual do país tenta fazer frente à pauta conservadora do Congresso e sofre cobranças do movimento gay
Adriana Abujamra
Na manhã do último dia 6 de agosto, numa sala lotada do Senado Federal, uma senhora orava, concentrada. Perto dela, duas moças – os cabelos compridos, as saias na altura dos tornozelos e um terço nas mãos – se dividiam entre orações, sorrisos e cochichos. Rapazes de terno e gravata brandiam cartazes com a imagem de um bebê sorridente e a mensagem: “Brasil vivo! Sem aborto!” Um garoto vibrava como se estivesse num estádio de futebol.
“Isto aqui não é um Fla–Flu, já falei! Não é Fla–Flu. Isto aqui é um debate profundo”, exaltou-se o senador João Capiberibe, do PSB do Amapá, tentando pôr alguma ordem no ambiente. Ele presidia a audiência pública do projeto de lei que propõe a legalização do aborto no sistema público de saúde, organizada pela Comissão de Direitos Humanos do Senado.
Na plateia, ativistas de grupos feministas e defensores da legalização do aborto estavam em franca minoria diante dos adversários. Parlamentares ligados a igrejas evangélicas e outros grupos religiosos se alternavam na ofensiva. Quando chegou sua vez de falar, o deputado federal Flávio Augusto da Silva, do PSB de São Paulo, partiu para o ataque.
Católico, escolheu como alvo as feministas e seus aliados. “Estranha-me que militantes LGBT estejam tão atrelados a essa luta em favor do aborto, como o deputado Jean Wyllys”, discursou o parlamentar, mais conhecido como Flavinho. “Tudo isso começou com as feministas e hoje já foi abraçado por uma outra ideologia. Me estranha esse tipo de engajamento.” Fez uma pausa e arrematou com uma insinuação: “Aliás, hoje já sei de onde vêm os recursos para manter todos esses movimentos.”
Talita Victor, uma das assessoras da liderança do PSOL, acompanhava a discussão. Quando ouviu a referência a Jean Wyllys, avisou-o pelo celular. O deputado, que estava na sala da liderança do partido, largou tudo e chegou em minutos à Comissão de Direitos Humanos. Tinha o ar cansado de quem trabalhara até a madrugada.
Ele foi o último deputado a discursar na audiência. Lembrou que, a despeito das restrições que a legislação brasileira impõe ao aborto, permitido apenas em casos de estupro e risco de morte para a mãe, mulheres de todas as classes sociais do país recorrem ao procedimento de forma clandestina. “Apesar das declarações, exortações a favor da vida, contrárias às reivindicações das mulheres, elas continuam praticando o aborto, gostem ou não. Esse é um problema de saúde pública”, disse o deputado.
Parte do auditório aplaudiu, mas a maioria protestou. Flavinho quis retomar a palavra e teve o microfone cortado. Visivelmente contrariado, juntou suas coisas e abandonou a sala. Wyllys correu atrás do colega para tirar satisfações. “Por que é que você fez aquele comentário a meu respeito?”, perguntou, já no corredor, cutucando-o no ombro com o dedo indicador. Flavinho reagiu: “Não me toque! Não me toque! Isto é um desrespeito!”
Wyllys estava indignado porque julgava que o colega pusera em dúvida sua honestidade ao insinuar que ele receberia dinheiro para apoiar as feministas. Bateram boca. Uma campainha ensurdecedora soou, avisando os parlamentares de que era hora de se dirigirem ao plenário. Os curiosos se dispersaram e Wyllys retornou à sala da audiência. Sorriu para fotos com simpatizantes que ainda estavam ali. Botou a mochila nas costas e já ia saindo quando topou com um padre que participara da sessão. Ligado à Arquidiocese de Cuiabá (MT) e estrela emergente da ala conservadora da Igreja Católica, o religioso Paulo Ricardo de Azevedo Júnior dissera na audiência que gays, lésbicas e feministas haviam se unido contra as “instituições naturais da sociedade”.
“E aí, padre?”, Wyllys não se conteve, “Continua explorando os menininhos? Deixa eles horas a fio segurando cartazes contra o aborto na porta do Congresso?” O padre não parecia abalado. “Não sou explorador”, respondeu, sem alterar o tom de voz. Wyllys insistiu: “Padre, vamos combinar. Pegar os meninos e colocar horas sob o sol é, sim, uma exploração.” Sem alterar o tom de voz, o padre provocou: “Adolf Hitler também disse: ‘Vamos falar do aborto. Vamos falar dos judeus.’” Wyllys reagiu com ironia: “Curioso o senhor falar dos judeus, padre. A Igreja Católica tem um papel tão importante no antissemitismo, não é mesmo?” O deputado se afastou sem esperar a resposta. Ainda pôde ouvir as últimas palavras do religioso: “Deus te abençoe.”
Wyllys deixou o recinto ofegante, acompanhado por três assessoras que apertavam o passo para segui-lo pelos corredores do Senado. A chefe de gabinete do deputado, Noemia Boianovsky, avaliou como positiva sua participação. “É, mas rolou o barraco que eu disse que ia rolar”, ele ressalvou. “Fica parecendo que o Parlamento só tem uma voz a favor do aborto”, lamentou a chefe de gabinete. Um grupo de visitantes interrompeu a conversa para pedir uma fotografia. Wyllys aquiesceu e mais uma vez sorriu para a câmera.
Quando retomaram o passo, a assessora Talita Victor criticou a omissão da presidente Dilma Rousseff e do PT em relação ao aborto: “Dilma falou que aborto não se discute. Os petistas não aparecem.” Wyllys foi além. “Esse partido tem mais é que acabar mesmo. Está todo mundo preocupado com as conveniências, fazendo cálculo eleitoral”, disse, entrando no plenário da Câmara.
Jean Wyllys estreou no Congresso em 2011, e não foi de mansinho. “Meti o pé na porta. Ou, para usar uma expressão cara aos machistas, botei o pau na mesa. Ou fazia isso ou era engolido”, disse à piauí durante um almoço no Rio de Janeiro, no final de junho. Até entrar na política, era conhecido como o baiano que participou do Big Brother Brasil, declarou ser gay em rede nacional e saiu vencedor do programa, com 50 milhões de votos dos espectadores. No dia da posse no Congresso, parentes de outros deputados se acotovelavam para tirar foto a seu lado.
A imprensa queria saber em primeira mão como Wyllys planejava decorar seu gabinete. Até então, a referência de político homossexual havia sido Clodovil Hernandes (PTC-SP), morto em 2009, gay assumido e celebridade na mídia. Como político, nunca empunhou a bandeira da comunidade, notabilizando-se por seu gabinete customizado – tapetes tibetanos, cortinas de voile, luminárias de cristal, além da inesquecível naja de cobre que servia de pé de mesa e que o deputado batizara de Marta, em homenagem à ex-prefeita de São Paulo, seu notório desafeto.
O assédio fez com que Wyllys quisesse evaporar na cerimônia de posse. “Achavam que eu tinha brotado feito cogumelo no BBB. Foi um folclore. Como se eu não tivesse história.” Para fugir da pecha de celebridade oca e bicha exótica, o deputado adotou uma postura aguerrida. Estrategicamente, pleiteou de cara uma vaga na Comissão de Finanças e Tributações – “majoritariamente masculina e branca, e que no imaginário destes homens não é assunto para gays”.
Wyllys obteve apenas 13 018 votos e só garantiu uma vaga graças ao resultado alcançado pela legenda do PSOL. O segundo mandato, no ano passado, teve um resultado bem mais robusto: foram 144 770 votos. Transitando com desenvoltura entre artistas, tendo a simpatia de intelectuais e um expressivo número de seguidores na internet, o deputado vem chamando a atenção para suas bandeiras: a defesa dos direitos dos negros e das minorias estigmatizadas, como a comunidade LGBT, e causas polêmicas, como a legalização das drogas e do aborto.
A bancada religiosa da Casa considera Wyllys uma espécie de encarnação do Tinhoso, ou, como alguém já o definiu, o “Porteiro do Capeta”. Wyllys gosta de recorrer à metáfora bíblica do jovem pastor Davi que enfrentou e venceu o gigante Golias para descrever a correlação de forças no Congresso: “Eu tenho apenas um estilingue na mão.”
Annus mirabilis dos evangélicos, 2015 foi um marco: pela primeira vez o grupo conquistou a presidência da Câmara na figura de Eduardo Cunha. Com 69 deputados federais – dados da Frente Parlamentar Evangélica (FPE) –, a ala busca garantir posições estratégicas em Brasília a fim de ampliar sua influência. Dentre suas propostas no Legislativo, em diferentes estágios de tramitação, há a criação do Estatuto da Família – que reconhece apenas a união entre homem e mulher –, a celebração do Dia do Orgulho Heterossexual, a penalização da heterofobia e da cristofobia.
Marco Feliciano (PSC-SP), o “Vendilhão do Templo”, como Wyllys se refere a ele, foi alocado no comando da Comissão de Direitos Humanos e Minorias em 2013, cargo historicamente ocupado por políticos de filiação progressista. Pastor da Assembleia de Deus e pré-candidato a prefeito de São Paulo, Feliciano já afirmou que “africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé” e pregou, durante um culto, que Jesus “não foi feito para ser enfeite de pescoço de homossexual, nem de pederasta, nem de lésbica”.
Em repúdio à eleição do pastor, Wyllys e outros deputados lançaram a Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos Humanos, espécie de comissão paralela para esvaziar o poder de Feliciano e dar voz aos dissidentes. Logo surgiu o movimento “Fora, Feliciano”, que ganhou as redes sociais. O pastor deixou o cargo após um ano. Embora o PT tenha reassumido o controle da comissão, hoje presidida por Paulo Pimenta (PT-RS), os religiosos ainda detêm a maior parte dos assentos.
“A comissão tem presidente, mas não tem tropa. Nós derrubamos tudo que não interessa à família ali”, decretou Jair Bolsonaro (PP-RJ), com o punho cerrado sobre a mesa e um sorriso triunfante. O deputado, que encabeçou a lista dos mais votados em seu estado, ria à larga com um grupo em seu gabinete em Brasília quando me recebeu. Ao saber do motivo da conversa, franziu o cenho e afastou as costas do assento da cadeira, em posição de alerta.
Para Bolsonaro, Wyllys não passa de “um ativista gay com projetos absurdos que não somam nada para que se valorize a família”. Ele assegurou que não é contra os homossexuais, contanto que permaneçam escondidos e sem fazer alarde. “Quer ser feliz entre quatro paredes? Problema deles. Quero mais que fiquem roucos de tanto uivar de felicidade com seus parceiros”, disse, rindo. O problema, prosseguiu, é que a “pauta gay que vivia no armário resolveu mostrar as asinhas”. A indecência, nos termos do parlamentar, teria começado com o famigerado “kit gay” preparado pelo Ministério da Educação. (Em maio de 2011, após pressão do ultradireitista e católico Bolsonaro e da bancada evangélica – com quem ele costuma votar em bloco –, a presidente Dilma Rousseff vetou a distribuição do material anti-homofobia nas escolas públicas.)
Quando perguntei sobre o projeto de lei de Wyllys que propõe regulamentar a profissão das prostitutas, Bolsonaro soltou uma gargalhada. “Que maravilha! Um pai vai dizer para o outro: ‘Quanto sua filha está ganhando? Dois mil, só? A minha tira 5 mil.’” O assessor fez um sinal para que ele encerrasse a conversa. Ao se levantar, o deputado disparou: “A minoria gay no Brasil agora se julga semideus! Tem que rir. Ha-ha-ha!”
Antes da chegada de Wyllys à Câmara, a senadora Marta Suplicy já defendia os direitos da comunidade LGBT havia muito tempo. Recebeu desse grupo, inclusive, a alcunha de “Nossa Senhora das Bichas”. Mas sua figura não provocava tanta rejeição no Congresso. “Marta é friendly, não lésbica. Isso muda tudo”, observou Wyllys. “No meu caso, a pauta não é só política. É a minha vida que está em jogo. Então é óbvio que vou me jogar com muito mais coragem.”
“Concentração. Câmera. Ação! Poemaria. Cena 1. Take 1.” Era sábado de sol e Jean Wyllys estava em um estúdio em São Paulo para gravar uma participação no documentário Poemaria. Aos 41 anos, o parlamentar adotou o cabelo comprido e a barba rala que o deixam parecido com Jon Snow, personagem da série Game of Thrones, da qual é fã. Usa um escapulário com as imagens de Jesus Cristo e Nossa Senhora, e uma pulseira de contas de candomblé. Vestia calça jeans e bata branca, decotada o bastante para deixar visível a tatuagem que lhe ocupa todo o peito: “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome.” São versos de um poema de Vladimir Maiakóvski, que Caetano Veloso incluiu numa canção em 1977. “Tem muito a ver com minha vida”, comentou.
O projeto Poemaria vem registrando personalidades de diferentes áreas falando de poesia. O diretor Davi Kinski, um rapaz ruivo, magro e alto, serviu um copo de vinho tinto para seu entrevistado e pediu que ele narrasse de forma sucinta sua trajetória. Wyllys encarou a câmera e respondeu: “Sucintamente é difícil. Como diz a letra de Belchior: Qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa.”
A seguir, fez um breve relato.
Jean Wyllys de Matos Santos nasceu no dia 10 de março de 1974. Tivesse escolha, Inalva de Matos Santos, já mãe de três meninas, teria determinado outra data para o rebento vir ao mundo. “Perdi o último capítulo da novela pra parir o Jean”, contou, rindo, em uma tarde de julho. Miúda, com o rosto vincado pelo sol e pelo tempo, os cabelos muito pretos presos por grampos, ela me recebeu em sua casa em Alagoinhas, no interior da Bahia, a 93 quilômetros de Salvador. Sentada no sofá da sala, balançava os chinelos sem tocar os pés no chão. E contou que na Baixa da Candeia, na periferia rural da cidade, televisão era artigo raro, só encontrado na casa de um vizinho. Era lá que a família se aboletava para acompanhar os folhetins.
“Se não fossem aqueles breves instantes de ficção e música à porta de um vizinho”, escreveu Jean Wyllys em seu livro Tempo Bom, Tempo Ruim, “talvez minha mãe não tivesse suportado a vida miserável e sem graça que vivia.” Mainha – termo como os baianos se referem à mãe – era muito prática. “Melhor não alimentar sonhos para não se frustrar”, repetia, feito mantra, para os seis filhos.
Já o pai, José Dias dos Santos, sonhava grande. Ganhava uns trocados pintando carros e se imaginava ao volante do luxuoso Aero Willys, sedã que deixou de ser produzido no comecinho da década de 70. Seu José não tinha cacife nem para pagar as contas, mas deu um jeito de se aproximar do automóvel, ou pelo menos do nome dele. Descartou o Aero, pegou o Willys, acrescentou um y e batizou o primeiro filho varão com o nome dos sonhos. Jean foi ideia de uma tia, que se inspirou num galã de fotonovela.
Extrovertido, seu José varava noites entoando canções de Nelson Gonçalves e Waldick Soriano. “Solta um lá maior”, dizia aos companheiros de botequim, onde invariavelmente se embriagava. Voltava para casa de cara cheia e carteira vazia.
Wyllys tinha 6 anos quando sentiu pela primeira vez que era diferente. A pedido da mãe, então lavadeira (depois ela também trabalhou como empregada doméstica), o menino foi até a venda do seu Deraldo. “Me dê seis pães”, disse, na ponta dos pés, os olhos na altura do balcão, caprichando na concordância. Um sujeito, com um copo de pinga na mão, escrutinou o moleque e perguntou alto, com ironia. “Seis pães? Você é estudado ou veado?”
A freguesia se fartou de rir. O menino voltou para casa com um aperto no peito. Desde essa época, ele passou a ouvir toda sorte de humilhações – “Pare de rebolar!”, “Maricas!”, por aí vai. Dona Inalva se “enraivava dessas manias idiotas do povo”, conforme me disse, e saía em defesa do rebento.
E seu José? “Meu pai nunca teve apreço por mim por causa do meu jeito. Tinha vergonha”, disse Wyllys. “Fazia planos para meu irmão George, nunca pra mim.” George é hoje capitão da Polícia Militar em Salvador. Manca ligeiramente de uma perna, resquícios de um acidente de carro. E, acanhado, cora ao falar.
Os filhos de dona Inalva e seu José frequentaram as Pastorais da Juventude e as Comunidades Eclesiais de Base, movimentos criados por padres progressistas influenciados pelo marxismo e pelo Concílio Vaticano II, com “opção preferencial pelos pobres”. E aprenderam que a desigualdade social não deveria ser considerada natural. “Foi no envolvimento com a Igreja Católica que minha vida começou a ser politizada. A Igreja me deu acesso a livros e a um conhecimento que minha família e mesmo a escola que eu frequentava não me permitiam”, falou Wyllys.
Aos 10 anos, o menino e o irmão George foram trabalhar nas ruas de Alagoinhas, vendendo algodão-doce, calendários do Sagrado Coração de Jesus e livros de ervas medicinais. “Jean já nasceu velho. Arrimo de família, sempre incumbido de algo”, disse Firmiane Venâncio, colega do ensino médio e hoje defensora pública em Salvador.
Mas sobrou uma brecha para pecados menores. Provar o vinho da consagração, mastigar a hóstia e surrupiar uns trocados da caixa de ofertas da igreja. Logo batia o remorso no pequeno infrator. Wyllys publicou na rede, em setembro, um vídeo contando esses pequenos delitos em depoimento à campanha EuConfesso.org, contra a redução da maioridade penal.
O menino era encarregado de ler a Bíblia nas missas e desempenhava papéis de destaque nas montagens teatrais realizadas pela igreja. Não tardou e foi convidado a apresentar um programa diário na Rádio Emissora de Alagoinhas, sucesso na zona rural da cidade. Às seis da tarde em ponto, iniciava com a Ave Maria de Franz Schubert. Finda a música, informava as pautas da paróquia e lia trechos do Evangelho.
Aos 13 anos, Wyllys passou num concurso e entrou na Caixa Econômica como aprendiz. “Sabe de uma coisa, filha? Uma vizinha falou um negócio que até hoje fico magoada. Que Deus a tenha”, disse dona Inalva, fazendo o sinal da cruz e olhando para o alto antes de prosseguir. “A criatura disse bem deste jeito: ‘Quem devia ter vencido este concurso era meu menino, e não o veado filho daquela esmoler.’ Ah, fui pobre, mas nunca fui esmoler! Queria que ela estivesse viva para ver até onde Jean chegou.” Dona Inalva estudou só até a 3ª série; o marido, até a 4ª. Sempre se achou “burra”: “Não entrava nada na minha cabeça.” “Mas Jean era só nota boa”, acrescentou.
Um ano depois, o primeiro varão conseguiu uma disputada vaga para cursar o ensino médio técnico na Fundação José Carvalho, entidade filantrópica de excelência em educação com várias unidades de ensino fundamental, técnico e rural. Wyllys foi aprovado para a unidade de Pojuca, na região metropolitana de Salvador, a 46 quilômetros de Alagoinhas. O espaço era enorme e parecia ainda maior para o menino que até então vivia numa casa de um único cômodo e sem água encanada. A escola funcionava em esquema de internato, e os alunos só voltavam para casa de seis em seis meses. Os parentes podiam visitá-los nos fins de semana, mas os pais de Jean Wyllys não tinham dinheiro para a condução e só apareciam raramente. O garoto varava a madrugada estudando e dormia no máximo quatro horas por noite, hábito que mantém até hoje.
“Jean sempre foi efusivo. Jamais reprimia sua sexualidade”, contou Firmiane Venâncio, a colega na Fundação. O baiano iniciou sua vida sexual no começo dos anos 90. Quando entrou no colégio era virgem, porém já tinha clara sua orientação sexual, o que o transformava em alvo constante de chacota. Mas tinha muitos aliados, principalmente as amigas. “Toda mulher que se preze tem um veado de estimação”, costumava dizer.
Rapazes dormiam com rapazes, moças com moças, essa era a regra. Muitos colegas se recusavam a compartilhar o quarto com um gay e bolavam estratégias para que o jovem implorasse para sair. Uma delas era fazer barulho à noite, batendo pés e mãos na parede, para atazaná-lo durante o sono.
Às vezes Wyllys partia para o confronto: “Venha cá! Qual é a sua?” Em outras, reagia com certo desdém desafiador. “Sou gay mesmo, e daí?”, perguntava, com as mãos na cintura, dando uma sonora gargalhada. Um colega tímido, gordo e gay escudava-se no amigo. “Eu já era uma bicha assumida e me impunha. Ele não.” Foi na companhia de Klebson e de mais dois amigos que Jean Wyllys se aventurou pela primeira vez na noite gay da capital baiana. Anos mais tarde, Klebson cometeria suicídio.
Concluído o curso, e com um certificado de programador de computadores, Wyllys foi morar em Salvador. “Eu tinha que sair de Alagoinhas. Era impossível viver plenamente minha homossexualidade lá.” Na primeira tentativa do vestibular, ele passou na Universidade Federal da Bahia, a UFBA, para cursar jornalismo.
“Naquela época não tinha cota, entrar aqui não era fácil”, contou Wilson Gomes, que foi seu professor de semiótica na UFBA, onde ensina teoria da comunicação até hoje. “Só dava gente branquinha, caras de Curitiba e classe média.” Jean Wyllys trabalhou para os principais jornais soteropolitanos, nos quais escreveu sobre quase todos os assuntos, menos futebol. Foi professor de cultura brasileira e teoria da comunicação em faculdades privadas e concluiu mestrado em letras e linguística na UFBA. Estudou a narrativa de presidiários que sobreviveram ao Massacre do Carandiru em 1992, quando 111 presos foram assassinados pela Polícia Militar paulista, e planejava seguir a mesma linha de pesquisa para o doutorado. Não conseguiu.
“Jean ficou frustrado, realmente desiludido, porque seu projeto de doutorado não foi aprovado”, revelou Eneida Leal Cunha, que foi sua orientadora de mestrado na Bahia e hoje leciona na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. A professora disse que o ex-aluno era inteligente, mas não talhado para a vida acadêmica. “Não tinha entusiasmo como pesquisador. Acredito que agora ele abriu horizontes e se encontrou muito mais.” Os dois nunca mais se viram, mas ela votou no ex-aluno nas duas últimas eleições.
O baiano costuma dizer que se inscreveu no Big Brother com o intuito de fazer uma investigação etnográfica do programa para entender sua engrenagem. Numa entrevista concedida na ocasião, enumerou mais duas razões: queria impulsionar sua carreira literária e quebrar a rotina. E, citando Raul Seixas, disse à jornalista: “Minha vida estava correta demais, sem graça, estava mais ou menos no trono do apartamento esperando a morte chegar.”
Jean Wyllys sempre teve interesse por televisão, fosse como noveleiro assumido, fosse como estudioso da cultura de massa. As telenovelas, ele gosta de dizer, podem ser mais relevantes politicamente do que imagina “a dita nata da intelligentsia”. Para reforçar sua tese, recorre ao pensador francês Jean Baudrillard: “Se milhões de pessoas trocaram um comício por um último capítulo de novela, isso não pode ser considerado um mero equívoco.”
Com a ajuda de dois colegas, o então professor universitário fez um vídeo caseiro no quarto de casa com a estante de livros ao fundo e enviou para a Rede Globo. Foi aceito e não contou a novidade nem para os mais próximos, já que uma das cláusulas do contrato exigia sigilo. Mas teve que se abrir com a irmã Josiane, com quem dividia o apartamento em Salvador.
“Ninha, sente aqui”, falou, mostrando o lugar ao seu lado no sofá. “Quero que você saiba que não vou te deixar desamparada.” Josiane percebeu que o irmão ia para não mais voltar e chorou. “Ele me abraçou e chorou também. Jean sempre quis uma vida diferente. Não ficou em Alagoinhas, não ia ficar em Salvador. Dizia que se não fosse aprovado no doutorado iria embora para o Rio ou para fora do país. Pronto, e foi”, ela me disse.
Dona Inalva tomou um susto com a notícia e com a multidão de curiosos e jornalistas plantados na porta de sua casa. “Não gostei quando Jean falou assim, sabe né? Da vida dele na televisão”, lembrou, referindo-se ao fato de o filho ter dito em rede nacional que era gay. Não que fosse novidade, ele mesmo já lhe contara havia muito tempo. Ela chorou quando soube, depois aceitou. Mas agora não precisava fazer tanto escarcéu e dar munição ao diz que diz do povo. O alívio veio na fala de um compadre: “Dona Inalva, a senhora deve estar muito orgulhosa. Seu filho foi mais homem do que muito homem que conheço.”
Nos dias de paredão – quando os telespectadores votam para eliminar um dos participantes da casa do BBB –, Alagoinhas acompanhava o programa numa grande tela armada na praça central da cidade. O Grupo Gay da Bahia (GGB), no qual Wyllys começou sua militância, designou duas pessoas para ficar o dia inteiro votando pelo telefone no conterrâneo. O advogado Fernando Quaresma, atual presidente da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, fez o mesmo, escondendo o telefone embaixo da mesa enquanto atendia seus clientes.
Depois de 79 dias de confinamento, Wyllys vestiu uma camiseta com a estampa de são Jorge – seu padroeiro – e sentou em frente à televisão, ao lado da outra finalista, a ex-miss e hoje atriz Grazi Massafera. Na tela, Pedro Bial fazia suspense. A cada palavra, o “professor”, como era tratado no programa, apertava com mais força a mão de Grazi. Quando Bial anunciou o vencedor, o baiano começou a chorar. “Eu não acredito! Não acredito”, repetia, abraçado à colega.
Em Alagoinhas, uma multidão o aguardava gritando seu nome. A maioria para celebrar, mas muitos com a esperança de conseguir uma lasca do prêmio de 1 milhão de reais – desde gente com conta de luz atrasada até a mãe de uma debutante que vislumbrava a oportunidade de pedir dinheiro à nova celebridade para a festa da filha.
Dona Inalva achou aquilo tudo um despropósito. “‘Ave-Maria!’, eu dizia, ‘mas nem eu ainda fui ajudada.’” Logo Wyllys presenteou a mãe com a casa térrea e espaçosa em que vive hoje com três de seus filhos. “Mainha passou a vida reclamando da outra casa, e agora só se queixa por ter saído do antigo bairro e de perto dos irmãos dela”, lamentou o deputado, mais terno que zangado.
O potencial eleitoral do ex-BBB entrou imediatamente na mira de políticos, e os convites pipocaram. Foi cortejado pelo conterrâneo Antônio Carlos Magalhães Neto, do DEM, na época deputado federal e hoje prefeito de Salvador. Depois veio Aloizio Mercadante, atual ministro da Educação de Dilma Rousseff. Wyllys tinha sido “soldado vermelho” na adolescência e era eleitor do PT desde 1994. Mas não aceitou.
A terceira e derradeira tentativa partiu de Heloísa Helena, então presidente do PSOL e hoje na Rede, de Marina Silva. A ironia é que Heloísa e Wyllys militam em campos opostos na questão do aborto. Categórica, na discussão sobre o tema em agosto, ela afirmou que “nem dependurada em pau de arara com sangue saindo pelos ouvidos” aprovaria a ampliação da legalização da interrupção da gravidez. Por ocasião do convite, porém, tais divergências ainda não tinham vindo à baila e o baiano aceitou. “Pensei: se três pessoas de diferentes partidos me convidaram, é porque tem um recado aí”, ele disse.
Os dois irmãos mais novos de Jean estavam em casa no dia em que fui a Alagoinhas. A semelhança física entre eles é enorme. Ricardo Matos Santos – estudante de direito e “fanático por Lula” – apontou coincidências entre as histórias do irmão e do ex-presidente: filhos de pai alcoólatra e mãe lavadeira, oriundos da periferia e da pobreza. “Lula expandiu as políticas públicas para os alijados de direitos. É o que Jean busca quando trata das questões dos deficientes, da comunidade LGBT, das mulheres e dos negros.” Dos 513 deputados, prosseguiu o irmão, “não tem um que se compare ao grau intelectual de Jean”.
Rômulo Matos Santos, formado em letras e professor de uma escola municipal, fez questão de frisar que a mobilidade social da família se deu graças aos estudos de Jean, e não a seu ingresso na política. “O fato de ele ter estudado, isso sim puxou a gente. Jean foi nossa referência, nosso carro-chefe.”
Dona Inalva estava mais entretida com as fotografias do álbum que tinha no colo do que com a conversa. “Não sei muito de política, os meninos é que sabem. Às vezes eu vejo o jornal na tevê, mas durmo. Pra Brasília fui só uma vez, e a pulso. Eles botaram Jean lá no céu”, disse, referindo-se aos elogios feitos pelos colegas de chapa do PSOL.
Seu José morreu em 2001 de câncer. Não teve a chance de ver o filho chegar tão longe.
O sábado era de céu limpo em São Paulo. Fogos de artifícios celebravam o Dia de Santo Antônio. Dentro do estúdio, Jean Wyllys finalizava o breve relato de sua trajetória. Enfim, respirou fundo e, numa tacada só, recitou o poema Cântico Negro, do escritor e poeta português José Régio: Não, não vou por aí! Só vou por onde/Me levam meus próprios passos…/Se ao que busco saber nenhum de vós responde/Por que me repetis: “Vem por aqui!”? Maria Bethânia declama o poema em muitos de seus shows.
Despediu-se da equipe do documentário Poemaria e foi para o quintal da produtora esperar o carro que o levaria ao hotel. De pé e com uma xícara de café na mão, contou que finalizava um romance cujo tema seria a morte. “Não tenho pretensões de entrar no panteão da literatura”, avisou.
Não será sua estreia na ficção. Um de seus livros, Ainda Lembro, publicado logo após o BBB, vendeu muito, mas também foi massacrado pela crítica. “Sabe maldade de bicha cruel? Então: o jornalista Artur Xexéo acabou comigo. Professou que eu ia desaparecer no mês seguinte e ninguém mais iria ouvir falar de mim. Ah, querida. O tempo, nada como o tempo.”
O carro chegou. Noemia Boianovsky, sua assessora, sentou-se na frente. Jean e eu nos aboletamos no banco de trás. Quando o motorista deu a partida, ouvimos umas batidinhas no vidro. Era a atriz Guta Ruiz, que havia chegado para gravar e correu para falar com o deputado ao saber que ele estava indo embora: “Jean, torço por você. Estamos juntos.” Ele segurou as duas mãos dela. “Obrigado, amada. Você é linda.” O carro partiu e Wyllys espiou em silêncio o cair da tarde pela janela. “Brasília é um turbilhão, tantas guerras, tantos embates e demandas. É emocionalmente desgastante. Preciso dar um tempo das pessoas, do corpo a corpo. Gosto de ficar em casa. Leio, vejo tevê, curto o silêncio, a solidão. Choro. Sinto falta de namorado, da família.”
A assessora atalhou a conversa, lendo em voz alta as notícias no celular. “Saiu até no El País sobre a cruzada dos evangélicos contra a palavra gênero na educação.” “Tão estúpidos”, ele lamentou. “São capazes de tirar a palavra gênero de um projeto que trate de gêneros alimentícios. É uma desgraça.”
O Congresso passa por uma espécie de “generofobia”. Basta que o termo apareça no texto de qualquer projeto que a bancada religiosa já se ouriça. No ano passado, depois de muita pressão, foi suprimido do Plano Nacional de Educação (PNE) o trecho que assegurava o combate à discriminação por gênero e orientação sexual nas escolas. O mesmo embate tem se repetido nas esferas municipais e estaduais. O lobby religioso alega que a expressão “ideologia de gênero” deturparia o conceito de homem e mulher, que é dado ao nascer, e não escolhido a posteriori.
“Ideologia de gênero, o que é isso? O camarada vai decidir depois se é menino ou menina? É muita bandidagem”, vociferou o pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, em vídeo publicado na internet quando o PNE era discutido em Brasília. Segundo Wyllys, Eduardo Cunha, que ele chama de “aquele sacripanta”, costuma barganhar com os deputados. Promete aprovar seus projetos, contanto que retirem qualquer referência a gênero do texto. “Isto tudo me dá um cansaço. Vontade assim de deitar e dormir”, ele disse.
Ao telefone, Boianovsky tinha a voz preocupada. O parlamentar quis saber o motivo. O estudante Rafael Melo, de 14 anos, havia sido assassinado naquela manhã em Cariacica, no Espírito Santo, a pauladas. Tudo levava a crer que a motivação do crime era homofóbica. A chefe de gabinete sugeriu que o deputado aguardasse maiores informações antes de se manifestar. A prudência se justificava. Em dois crimes semelhantes, a despeito de os fatos indicarem motivação homofóbica, a polícia concluiu que um dos jovens tinha se matado e o outro fora vítima de latrocínio.
“Ao fim e ao cabo, a versão final é a da polícia. Por isso não quero esse desgaste. Porque quando a versão oficial saiu esses fi-lhos-da-pu-ta” – continuou, aumentando o volume da voz – “desmoralizaram a gente. ‘Tá vendo? Se vitimizando! Tá vendo? Pra ele é tudo homofobia!’ Segundo esses imbecis, os gays querem privilégio. Mas para descobrir os assassinos e fazer justiça, tem que reconhecer a motivação homofóbica.”
Poucas horas depois a notícia da morte do jovem foi postada no Facebook do deputado: “Independentemente do que pode ter motivado esse crime abominável, estamos solidários com a família e os amigos do estudante Rafael Melo e atentos aos rumos da investigação.”
Chegamos ao hotel. Em pé, na calçada, Wyllys contou que teve um ataque de pânico um ano atrás, quando soube do caso de Alex, de 8 anos, que vivia em Mossoró, no Rio Grande do Norte. O menino apanhou tanto do pai que teve o fígado dilacerado e morreu. Motivo? Alex gostava de dança do ventre e de lavar louça, a surra era para que tomasse jeito de homem. “Vi minha percepção distorcer. Corri para a frente do espelho, meu rosto parecia desfigurado, achei que estivesse tendo um derrame. Misturou todos os meus temores, essa notícia me… não gosto de lembrar.” O deputado fez uma pausa e chorou. “Desculpe. Me emociona. Esse menino provavelmente passou pelo processo que eu e tantos outros passamos e passarão. De humilhação, xingamento e insulto.”
A assessora o chamou. Faltava pouco para o próximo compromisso, um debate sobre Aids. Jean Wyllys sentou-se ao lado da janela do quarto, observou a cidade iluminada e cantou, a capela, a canção Encontros e Despedidas, de Milton Nascimento e Fernando Brant, falecido no dia anterior. Tem gente que chega pra ficar/Tem gente que vai pra nunca mais…
O vídeo foi postado em sua página no Facebook.
Em 2005, ano em que venceu o BBB, Jean Wyllys foi um dos convidados de honra da Parada do Orgulho LGBT em São Paulo, que também contou com a presença de vários políticos, do então prefeito José Serra à ex-prefeita Marta Suplicy. Wyllys desfilou no carro abre-alas, foi ovacionado e participou de todas as paradas seguintes até 2014, mas não deu as caras este ano. “Não recebi convite especial dos organizadores. Entendi que eles não me queriam.” Ele atribui o gelo às críticas que tem feito ao movimento, que em sua opinião perdeu o caráter político e reivindicatório para se contentar em ser um encontro festivo.
“Esqueceram de chamar o único deputado declaradamente gay? Ah, tem uma historinha bem ardiiida aí!”, disse Laerte Coutinho, em sua casa, esticando as pernas sobre o sofá. A cartunista, que há seis anos assumiu em público sua identidade feminina, lembrou um episódio. As palavras de ordem da parada de 2014 fariam uma menção expressa ao projeto de lei João Nery (nome de um transexual que nasceu mulher). De autoria de Jean Wyllys e da deputada Érika Kokay (PT-DF), o projeto assegurava aos transexuais o direito de ter o nome alterado nos documentos e autorizava a cirurgia de mudança de sexo pelo SUS, o Sistema Único de Saúde. De última hora, os organizadores do evento recuaram, evitando imprimir ao evento uma conotação política. “Foi uma espécie de passada de perna”, comentou Laerte.
A sede da Associação da Parada do Orgulho LGBT funciona no 2º andar de um prédio na praça da República, na capital paulista. O presidente da entidade, Fernando Quaresma, é um homem bastante corpulento, de barba rala, óculos e argolas nas orelhas. Em sua sala, entulhada de caixas vazias e pilhas de pastas, perguntei-lhe por que o deputado não havia sido convidado para a edição deste ano. Quaresma apontou o calhamaço de papéis a seu redor. “Ai, amada, você está vendo, é tanta correria.” Marta Suplicy teria recebido um convite formal? “Claro. A Marta é uma figura histórica na associação. Desde a primeira parada, ela sempre esteve junto. Mas, olha, não fui eu quem convidou ela”, emendou, eximindo-se da responsabilidade.
As arestas de Jean Wyllys com o movimento LGBT vão muito além da Parada. “Criatura! Não trouxe guarda-chuva?”, quis saber o antropólogo Luiz Mott, apressando o passo para não se molhar ao abrir o portão, assim que ouviu as badaladas do sino que funciona como campainha. Localizada no Barris, Centro de Salvador, sua casa abriga dezenas de coleções: de carrinhos a uma infinidade de santos. Com o cabelo grisalho cortado rente, Mott usa barba e brinco de argola. Sentamos em duas poltronas próximas à janela, ao lado de Luluca – um papagaio que volta e meia dava pitacos na conversa. O antropólogo começou a se apresentar, referindo-se a si próprio na terceira pessoa.
Mott é professor da Universidade Federal da Bahia, fundador do Grupo Gay da Bahia, que surgiu em 1980 e é considerado um dos pioneiros na defesa dos direitos humanos dos homossexuais no Brasil. Seu primeiro contato com Jean Wyllys ocorreu no início dos anos 90, quando o jovem era estudante na mesma universidade em que ele lecionava. Os dois se esbarraram algumas vezes em reuniões do GGB e em festas – Wyllys, segundo o entrevistado, teria se interessado por ele.
“Não me assediou porque eu era comprometido na época. Me deixa orgulhoso saber que despertei interesse homoerótico no Jean Wyllys”, o professor comentou, retomando a primeira pessoa. Para ele, a entrada do conterrâneo no Congresso representou um ganho para o movimento LGBT: o fato de ele ser um gay culto, inteligente – e ainda por cima boa pinta – tem ajudado a aumentar a autoestima de um grupo marginalizado.
“Noto um crescimento nos discursos dele. Um traço da performance midiática de Jean Wyllys é citar letras de música. Eu, particularmente, acho isso muito pobre”, comentou, espalmando a mão sobre o peito. “Mas ultimamente ele tem citado mais autores de relevância dentro do mundo acadêmico, o que demonstra capacidade de aprendizado e acúmulo de experiência”, ponderou. Dos elogios (salpicados de senões), Mott logo passou às críticas abertas.
São basicamente três as ressalvas do antropólogo em relação ao deputado. A primeira é que Wyllys age com “estrelismo de franco-atirador”, tomando iniciativas no Congresso sem dialogar com a base LGBT. A segunda é o “infeliz” retrato do deputado como Che Guevara, na capa da revista Rolling Stone em 2011. O revolucionário cubano, apesar da aparência atraente e da aura revolucionária, era homofóbico. “No auge do poder de Che em Cuba, muitos gays foram deportados, presos, perseguidos e assassinados”, disse Mott. Fez uma pausa, olhou feio para o papagaio que falava cada vez mais alto e pediu ajuda à empregada: “Narcisa, prenda a Luluca, por favor.”
Sem o louro na sala, o professor partiu para a terceira crítica: “Um gay assumido ter apoiado a reeleição presidencial é um grande equívoco.” E passou a listar, com os dados na ponta da língua, provas de que Dilma Rousseff não teria se mostrado uma aliada das causas LGBT. Dentre elas, seu recuo quanto à distribuição de material educativo contra a homofobia, o descaso na prevenção à Aids e a escalada de crimes contra homossexuais durante o seu governo.
Diante de um copo de suco de lima-da-pérsia, Mott lamentou que Jean Wyllys não o tenha aceitado como amigo no Facebook, mesmo depois de reiterados pedidos. “O que acho um descaso. Afinal das contas, Luiz Mott é o decano, o mais antigo do movimento homossexual brasileiro. Merecia um pouco mais de acolhimento por parte de Jean Wyllys, você não acha?”, quis saber, voltando a empregar a terceira pessoa.
Nos últimos anos houve avanços para o movimento LGBT no Brasil: em 2011, o Supremo Tribunal Federal reconheceu juridicamente a união estável homoafetiva, e o Conselho Nacional de Justiça obrigou todos os cartórios do país a cumprir a decisão do STF, ou seja, realizar as uniões estáveis de todos os casais do mesmo sexo e fornecer a certidão de registro delas. Wyllys considera as decisões relevantes, mas acredita que o Congresso Nacional deveria garantir essas conquistas numa lei. “Nós não temos que ficar com a união estável enquanto o restante da população tem direito ao casamento civil. Isso seria uma cidadania de segunda categoria”, disse em entrevista à Folha de S.Paulo.
Representantes da ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) defendem punições severas para manifestações de homofobia. Já Wyllys sustenta que casos de injúria e atos discriminatórios não violentos poderiam ser passíveis de penas socioeducativas, para ele mais eficazes do que a cadeia. “Não acho que tem que mofar na prisão só porque me chamou de veado. Este não é um crime hediondo indefensável.”
A pauta costuma causar cizânia na comunidade. Em resposta aos que o criticam por isso, Wyllys afirma que não tem medo de se contrapor. “Não sou deputado, estou deputado. Se não quiser, não vota em mim.” E conclui citando Muito Romântico, de Caetano Veloso: Sou o que soa, eu não douro a pílula.
Até quem admira seu estilo acha que nem sempre o parlamentar se sai bem. Militante há trinta anos e membro da ABGLT, Toni Reis imagina o grau de solidão e estresse implicado em ocupar uma cadeira no Congresso e ser vítima constante de difamações nas redes sociais, como ocorre com Wyllys. Ele elogia o caráter “franco e sincero” do deputado, mas pondera que essas qualidades no Congresso possam se converter em defeitos. “Jean é oito ou oitenta, e na política muitas vezes é necessário dar um passo atrás para depois avançar.” Ele acha que Wyllys fala muito e tem dificuldade de ouvir. “Acaba fazendo política mais para fora do que para dentro.”
O seu juiz já falou/Que o coração não tem lei/Pode chegar/Pra celebrar/O casamento gay/Joga arroz/Joga arroz/Joga arroz/Em nós dois. Em apoio à campanha Casamento Civil Igualitário, idealizada por Wyllys, no final de maio de 2013 os Tribalistas – trio formado por Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Carlinhos Brown – gravaram a canção Joga Arroz.
Com trânsito desimpedido no meio artístico, o deputado sabe se valer disso e impulsionar suas bandeiras. Diferente da esquerda que lutou contra a ditadura ou militou nos anos 80 – para a qual o lema “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” faz todo o sentido –, Wyllys não vê os grandes meios de comunicação como vilões, mas como uma arena rica a ser disputada. Comanda Cinema em Outras Cores, no canal GNT, em que apresenta filmes com temática LGBT. Costuma aceitar convites para participar de programas de auditório, do Esquenta, de Regina Casé, ao SuperPop, de Luciana Gimenez. Sua trajetória é também tema do documentário #Eu, Jean Wyllys, dirigido pelos jornalistas Carlos Juliano Barros e Caio Cavechini, com estreia prevista para o ano que vem.
“Este sujeito é um fenômeno político”, exclamou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso quando soube que suas netas cariocas tinham votado no jovem do PSOL. Instado a falar sobre o “fenômeno”, disse, por e-mail, que o respeita sobretudo por defender questões contemporâneas, como a legalização do aborto e o uso de drogas, sem se escudar em hipocrisias. “Pode-se concordar ou não com as suas posições, mas o fato de tomá-las com franqueza faz de Jean Wyllys uma voz a ser respeitada e seguida, sobretudo pelos mais jovens.”
Wyllys é participativo nas comissões da Câmara que integra, mas raríssimas vezes pede a palavra no plenário. Em vão seus correligionários insistem para que ele ocupe a tribuna. Quando algum parlamentar faz um discurso que o desagrada, ele berra, ri alto e sai para tomar café. Nos momentos de marasmo, senta ao lado do líder do PSOL, o deputado Chico Alencar (RJ), também de formação católica, e cantarola uma música sobre a partilha de pão, aprendida nos tempos da Pastoral. Mas a atividade a que mais se dedica enquanto está no plenário é alimentar as mídias sociais.
“A audiência da TV Câmara é menor do que a minha no Facebook. Então, se é para falar para o grande público, falo nas redes sociais e na imprensa, e não no plenário, onde ninguém se escuta”, justificou-se. No último dia 28, Wyllys ignorou a própria regra e revidou o ataque de João Rodrigues, do PSD de Santa Catarina. Discursando em defesa da revogação do Estatuto do Desarmamento – a favor, pois, de um afrouxamento da lei que restringe o porte de armas –, o deputado referiu-se a Wyllys como “escória”. “Isso não é deputado, isso é a escória da política desse país.” E, numa alusão à participação de Wyllys no BBB, encerrou dizendo não admitir que “alguém que caiu de paraquedas, que veio de seu primeiro mandato a reboque de um programa que diminui a sociedade”, dê “lição moral de cueca”.
Wyllys tomou o microfone e fez um inflamado discurso: “Homens decentes não assistem vídeo pornô em plena sessão plenária, homens decentes não são condenados por improbidade administrativa, por roubar dinheiro público”, lembrando que em maio o parlamentar fora flagrado assistindo a um vídeo pornô no celular. E concluiu: “Não tenho medo de coronéis, os tempos mudaram. Ele e todos os fascistas desta Casa vão ter de me engolir, vão ter de me engolir. Eu sou homossexual assumido, sim, e se acostumem com isso.”
Os seguidores de Jean Wyllys no Facebook no final de outubro eram quase 800 mil, número composto predominantemente por mulheres na faixa dos 16 a 30 anos. O fluxo de comentários chega a milhares em alguns posts, e um funcionário de seu gabinete passa os dias em frente ao computador, respondendo um a um.
Nem só elogios alimentam a correspondência. “Sou amado, mas também odiado”, ele diz. As ameaças se intensificaram bastante em duas ocasiões: quando o casamento igualitário foi aprovado pelo STF e quando Dilma enterrou o Projeto Escola sem Homofobia, o kit gay. Um internauta ameaçou: “OLHA POR ONDE ANDA, SEU VEADO! TE PEGO E TE MATO!!”
A equipe de Wyllys costumava ler mensagens desse teor em voz alta, rindo, como forma de fazer um contraponto à selvageria. Com o tempo, a artilharia passou a provocar medo. Dois internautas enviaram mensagens com indicações de que os remetentes conheciam cada canto do Congresso e estavam a par dos lugares desprotegidos de câmeras de segurança. Por precaução, Wyllys deixou de divulgar sua agenda e evitou eventos públicos em locais abertos. A dupla responsável pelas ameaças foi identificada e presa em março de 2012, em uma operação da polícia intitulada Intolerância. Um era morador de Curitiba, o outro, de Brasília. Os criminosos faziam apologia à violência, sobretudo contra mulheres, negros, homossexuais, nordestinos e judeus, além de incitarem o abuso sexual de menores.
Recentemente foi feita uma varredura no apartamento de Wyllys em Brasília. “Não é só ameaça de morte, mas também risco de sabotagem pra cima de mim. Desde plantar drogas até infiltrar material suspeito. Me constroem como inimigo público número 1. É uma gentalha. Uma gen-ta-lha”, repetiu, elevando a voz e escandindo as sílabas.
Desde agosto o deputado integra a Comissão Parlamentar de Inquérito dos Crimes Cibernéticos. Nos bastidores, tem prestado uma consultoria informal a outros parlamentares vítimas de difamação na rede. Inúmeras notícias falsas sobre Wyllys são criadas e replicadas feito vírus: que ele quer obrigar todas as crianças a fazerem mudança de sexo; que vai retirar trechos homofóbicos da Bíblia e conceder licença-maternidade para as mulheres que abortarem; que é defensor da pedofilia – e por aí vai.
No ano passado, em entrevista a O Estado de S. Paulo, Wellington de Oliveira, um ex-assessor do deputado Feliciano, afirmou ter produzido um vídeo difamatório contra Wyllys que teria sido aprovado pelo pastor. “Eu não sei quem fez, mas que ficou bom, ficou”, comentou Feliciano à época. (Mais tarde, Oliveira disse ter feito o filme por encomenda do deputado.)
Atualmente há quinze procedimentos instaurados para apurar ofensas e ameaças feitas ao deputado via internet. O caso mais recente teve desfecho em setembro, com a condenação de Márcio Gleyson Damasceno, que dois anos atrás compartilhou como notícia real uma piada do site humorístico Sensacionalista (“Bancada gay lança projeto de lei para proibir casamento de evangélicos”). Em sua página no Facebook, o internauta fez o seguinte comentário: “Eu falei do deputado federal endemoniado Jean. Se Deus não matar esse infeliz, eu mesmo vou matá-lo pessoalmente. Querem respeito desrespeitando as leis de Deus e os princípios da Bíblia Sagrada.” A Justiça do Rio Grande do Norte condenou Damasceno a prestar serviços comunitários em uma instituição no interior do estado que assiste homossexuais em situação de vulnerabilidade.
Certa ocasião, um casal procurou Wyllys em seu gabinete. Estavam perto de casar e participaram de um curso para noivos em uma igreja evangélica. Um dos palestrantes mostrou um vídeo em que o deputado era apresentado como aquele que veio para acabar com a família. Os noivos consideraram um exagero e decidiram alertá-lo. Disseram que o autor do vídeo era o pastor Rodrigo Delmasso.
O deputado distrital Rodrigo Delmasso, do PTN, é membro da Sara Nossa Terra. Estava em meados de julho num megaculto realizado pela igreja evangélica no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. Quando cheguei, um grupo de jovens cantava e dançava no palco ao som de música gospel com pegada de rock. Muitos tinham cabelo colorido, tatuagem e piercing. O bispo Robson Rodovalho, fundador da Sara, estava lá. Tem 60 anos, mais de setenta livros publicados, um séquito de 1,3 milhão de fiéis em todo o mundo e sente orgulho em dizer que a igreja é muito mais moderna do que a Assembleia de Deus – a mais numerosa dentre as evangélicas. “Só tem doido na Sara. Tudo tatuado. Jesus era tatuado”, ele diz. Apesar da retórica, a Sara Nossa Terra considera que família é apenas a união entre homem e mulher, posiciona-se contra a legalização do aborto e a descriminalização da maconha.
Rodrigo Delmasso, com 35 anos e um sorriso constante no rosto bochechudo, me recebeu numa sala vip do evento, destinada a bispos e pastores. Pedi que falasse sobre o vídeo exibido no curso de noivos, de sua autoria. Abriu o laptop e me mostrou um pequeno trecho. Nele, um homem acusava Jean Wyllys de chamar os pastores de corja e de incentivar a profissão de prostitutas. “E isto é incompatível com os direitos humanos”, bradava o figurante do filme.
Delmasso fechou o computador depois de meio minuto. Com voz pausada, explicou, sorridente: “Ensinamos nossos valores em cima da Bíblia. E Jean Wyllys fez uma emenda obrigando a retirar todos os trechos homofóbicos da Bíblia.” À observação de que tal projeto não existe, o pastor não tergiversou. Disse que era questão de tempo: Wyllys logo apresentaria algo nesse sentido.
O único gay assumido no Congresso conta com o apoio do pequeno exército de mosqueteiros do PSOL, partido criado há dez anos por dissidentes do PT descontentes com os rumos do governo Lula. Nas últimas eleições, o PSOL elegeu cinco deputados federais. Em maio esse número baixou para quatro, quando o Cabo Daciolo (RJ) foi expulso, acusado de contrariar o programa da legenda – evangélico, iniciava e finalizava seus discursos com a frase “Deus está no comando”. Mas a gota d’água foi o projeto de lei que apresentou para substituir “povo” por “Deus” no primeiro artigo da Constituição Federal (“Todo o poder emana do povo”); não bastasse, na semana seguinte o bombeiro militar defendeu os policiais militares envolvidos no caso Amarildo.
Wyllys faz uma divertida síntese do grupo: Chico Alencar seria o “vaselina”, o “veja bem” que, cheio de dedos, evita fazer críticas contundentes; Ivan Valente, o “velho comunista radical”; Edmilson Rodrigues, o “prolixo”, que se empolga tanto na tribuna que costuma sair rouco de lá. E ele, “o cara que fala tudo muito na ‘chincha’, sem dourar a pílula”. No final de setembro, o PSOL reconquistou a cadeira perdida com a adesão do deputado federal Glauber Braga (RJ), que deixou o PSB.
No primeiro dia de trabalho após o recesso de julho, Alencar entrou no gabinete da liderança do partido com os braços abertos e a gravata amarela solta no colarinho. “Bom dia, moças e moços! Bom dia, transexuais e gays. Bom dia a todos”, saudou a equipe, que se levantou à sua chegada. Como a sala de reuniões estava ocupada, nos sentamos num canto, ali mesmo. Após um prelúdio de muitos elogios – “Jean é de uma coragem surpreendente” –, disse que o deputado baiano é demasiadamente intransigente e que uma dose de paciência lhe faria bem. “Parlamentar é isto, tem que ser um pouco casca-grossa, sem perder a sensibilidade. Tem que ter paciência. Jean diz: ‘É fácil para você, que não é alvo do ódio como eu.’”
Alencar lembrou que, “como sexagenário”, é de um tempo em que as expressões individuais muitas vezes eram solapadas em nome de valores coletivos, e que a nova geração corre o risco de incorrer no pecado contrário. “O Jean teve formação de base eclesial, aprendeu os valores do coletivo, mas acabou no BBB, que é bem a cultura do nosso tempo. E o Parlamento também estimula as figuras e pouco se fala em partido, o coletivo anda muito fragilizado. Pode ser uma tentação ficar no seu próprio nicho.”
Em seguida, entramos na sala onde Wyllys finalizava uma reunião com sua equipe. Alencar o chamou de “papa-hóstia” e pediu que cantasse a música que os dois costumam cantarolar quando o tédio domina o plenário. “Psiu! Ouve aí, ateia!”, disse o líder do partido, pedindo silêncio a uma das assessoras que matraqueava. Wyllys topou o desafio e soltou a voz. Depois, ofereceu a Alencar um calendário do papa Francisco, mimo que trouxera de suas férias na Europa. Para os dois, o pontífice é a prova viva de que é possível ser católico e ter um discurso progressista contra os preconceitos.
Era final de junho e o céu carioca estava nublado. Sentado a uma mesa de canto do restaurante Felice Caffè, em Ipanema, entre goles de um suco de laranja e garfadas de um frango thai, Wyllys avaliou estar mais comedido no segundo mandato. O maior exemplo disso teria ocorrido naquele mês.
Indignados com a artista transexual que simulou ser Cristo na cruz durante a Parada LGBT, deputados evangélicos suspenderam uma sessão para protestar. Depois de gritarem palavras de ordem como “respeito” e “família”, deram-se as mãos e rezaram o Pai-Nosso, encerrando a oração com vivas a Jesus Cristo. Muitos dos presentes dirigiram os olhos ao único parlamentar assumidamente homossexual ali presente, à espera de uma reação. Wyllys teve ganas de gritar “Canalhas!”, mas se conteve. “Eu teria sido trucidado. Fazia parte da estratégia deles que eu reagisse, mas fiquei quieto. Foi maturidade. Se fosse no início do primeiro mandato, eu teria respondido.”
Um sujeito atravessou o salão do restaurante e se postou a seu lado. Queria tirar um retrato com o deputado. Ele atendeu ao pedido do fã – depois viriam mais dois – e ao retornar à cadeira narrou um episódio recente.
Durante um evento numa escola pública de Macaé, no Rio, um adolescente do ensino médio lhe contou que sua mãe, ao descobrir que ele era gay, rejeitou-o categoricamente: “Esconde, dê um jeito.” O rapaz se desorientou, ficou desesperado, e afirmou que ao ver o deputado ali na sua frente se sentia reconfortado. “A minha existência é um ato de esperança para muita gente. Dizem que todo homossexual é um fracassado. Eu provo o contrário. Ser homossexual não é ter um destino imperfeito”, disse Wyllys.
O deputado já se sentiu como o rapaz de Macaé, e seu alento foi ter conhecido Chico Dantas, seu professor de literatura em Alagoinhas. Como de hábito, pôs-se a recitar os versos de uma canção – agora, um trecho de Velhos e Jovens, de Arnaldo Antunes: Antes de mim vieram os velhos/os jovens vieram depois de mim/E estamos todos aqui/no meio do caminho desta vida/vinda antes de nós/E estamos todos a sós/no meio do caminho desta vida/E estamos todos no meio/quem chegou e quem faz tempo que veio.
Ainda comendo, notou como em geral os LGBTs saem cedo de casa, numa tentativa de assumir a identidade mais livremente, e encontram na rede de amigos a família que deixaram para trás. “Acho que a ruptura com a família é uma ferida no inconsciente coletivo gay. Até por isso acho tão importante aprovar o casamento igualitário. A gente tem necessidade de recompor essa família.”
Fez uma pausa, olhou para baixo e pousou os talheres. Tinha os olhos marejados. Mordeu o lábio para conter o choro, mas não deu. “Por mais que a gente vire arrimo de família desde cedo, a nossa vontade, no fundo, é ser amado feito os outros, sem ter que fazer tanto esforço.” Enxugou os olhos com o guardanapo e se desculpou.
O garçom veio tirar a mesa. E o defensor das liberdades individuais contou que está vivendo no celibato. Andar livremente por aí tem sido cada vez mais complicado, disse rindo. “Eu vou à sauna gay e, quando entro, me olham como se eu fosse uma freira num puteiro.” Nas boates o quadro não é muito diferente. Mal pisa no local, os frequentadores sacam seus celulares para filmar e fotografar. “Vira uma vigilância, um saco. É uma obsessão, um controle. Tudo vai parar na internet. Nunca aconteceu, mas me policio bastante.”
Perguntei se ele tinha planos de disputar um cargo executivo. Disse que seu perfil tem mais a ver com o Legislativo, e sobretudo que não conseguiria fazer as concessões necessárias para se eleger numa disputa majoritária.
Quando estive em Alagoinhas, seu irmão caçula, Ricardo, disse que Jean Wyllys é uma incógnita. Ninguém imaginava que entraria na política, e lá está ele. “Foi, encaixou e pegou. Amanhã ele surge com outra ideia, encaixa e vai. E aí pronto.”
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