Valor Econômico - 29/01/2016
LITERATURA
Em um mercado editorial retraído, autores brasileiros ampliam a repercussão de suas obras negociando adaptações para o audiovisual.
Por Joselia Aguiar, para o Valor, de São Paulo
Sérgio Machado é um diretor de cinema que costuma encontrar na literatura ideias para filmes. Já levou
para as telas “Quincas Berro d’Água”, de Jorge Amado. Prevê começar a filmar neste ano uma história saída da antologia de contos “A Cidade Ilhada”, de Milton Hatoum. Por agora, está em cartaz em todo o país com “Tudo o Que Aprendemos Juntos”, que tem como mote uma peça de Antônio Ermírio de Moraes sobre a experiência do Instituto Baccarelli na formação de jovens músicos em Heliópolis, na zona sul de São Paulo. Entre projetos para concluir mais adiante, há uma nova versão, em filme de animação, de “A Arca de Noé”, clássico infantil de Vinicius de Moraes.
“Nos intervalos de produção, vou buscar títulos com os quais posso me identificar”, conta ao Valor, na filial de uma grande rede de livrarias, na avenida Paulista. “Tento acompanhar o que posso de ficção contemporânea.” A busca por títulos de autores brasileiros não é exclusiva. Outros diretores e produtores, tanto de cinema quanto de TV, têm procurado a ficção nacional para seus projetos. Num mercado editorial de tiragens que não crescem, escritores são cada vez mais procurados — ou procuram via agentes literários — para vender direitos autorais para adaptações.
“O ano de 2015 foi até que bem ativo no audiovisual”, conta Lucia Riff, da maior agência literária do país—para esse tipo de negociação, atua em parceria com a Film2B, de Ana Luiza Beraba, Eduardo Senna e Raquel Leiko. “Mesmo com a crise, não passamos um mês sem fechar dois a três contratos de cinema, o que me pareceu bastante bom.” Isso está relacionado, em parte, à recente lei que determinou a exibição de conteúdo nacional por canais a cabo. “Outro belo estímulo foram os núcleos criativos da Ancine, uma forma bem interessante de o mercado financiar novos projetos.” Quanto a valores, não depende apenas do autor ou título. “Depende do projeto em si: orçamento, formato, desdobramentos possíveis.”
Lucia, da agência literária Riff: 2015 teve contratos para cinema todo mês
O produtor Teixeira contratou com Lucia obras de Maria Valéria e Ferroni
Entre os recém-assinados, tanto “Quarenta Dias”, de Maria Valéria Rezende, vencedor do Prêmio Jabuti, quanto “Das Paredes,Meu Amor, os Escravos Nos Contemplam”, de Marcelo Ferroni, foram contratados por Rodrigo Teixeira, da RT Features.A obra de Jorge Andrade, pela Rede Globo. “Tudo ou Nada”, a história de Eike Batista escrita por Malu Gaspar, ficou com Mariza Leão, da Morena Filmes. “O Perfeito Cozinheiro das Almas Deste Mundo”, de Oswald de Andrade, com Joana Mariani. A série “Amor Veríssimo”, a partir de crônicas de Luis Fernando Verissimo, seguirá em nova temporada realizada pela Conspiração Filmes. “Borges e os Orangotangos Eternos”, do mesmo autor, teve direitos adquiridos por Paulo Boccato, da Glaz Entretenimento e Neoplastique.
A procura por conteúdo nacional coincide com o surgimento de uma geração de escritores que têm vocação ou pelo menos curiosidade com o audiovisual. “A literatura contemporânea tem autores cujas obras têm forte influência do próprio cinema, dos seriados de TV e dos videogames,o que torna essa aproximação praticamente inevitável”, diz Marianna Teixeira Soares, à frente da agência literária MTS. Títulos que gerencia, “Tempo de Espalhar Pedras”, de Estevão Azevedo, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura; “Quatro Soldados”, de Samir Machado de Machado; e “F”, de Antônio Xerxenesky, estão comos direitos de adaptação vendidos. Neste ano começa a produção do filme baseado em “Hoje Está um Dia Morto”, de André de Leones.
“Quando o autor tem alguma experiência com o audiovisual participa de alguma forma do processo de adaptação, muitas vezes nas equipes de desenvolvimento ou mesmo na confecção do roteiro”, conta a agente literária. “Autodidata em roteiro”, como se define, Marisa Ferrari é um dos casos de autora interessada em participar da adaptação. Relata que seu romance histórico “Arrabal e a Noiva do Capitão” nasceu, de início, como uma ideia para o cinema. Justamente esse potencial audiovisual chamou a atenção de sua agente literária, Luciana Villas-Boas, da VBM Agência e Consultoria Literária, que conseguiu negociá-lo com a TV Globo — produção ainda sem data para iniciar.
O cinema por vezes se torna mesmo um caminho paralelo. João Paulo Cuenca, que vendeu direitos de adaptação e escreveu um seriado para a mesma emissora — “Afinal, o Que Querem as Mulheres”, em 2010 —, acaba de fazer seu primeiro longa-metragem como diretor, “A Morte de J.P. Cuenca”.O filme já passou pela roda dos festivais no país e teve estreia europeia. Cuenca diz acreditar que, nesse nicho, ainda há muito projeto para pouca realização. “Como tenho interesse em cinema desde sempre, resolvi
eu mesmo estudar, tocar minhas coisas e dirigir”, diz. “Já tenho outros filmes na manga. Estou trabalhando em pelo menos outros dois projetos”, anuncia. “É possível que nos próximos anos eu me dedique igualmente ao cinema e à literatura.”
Hatoum já tem quatro obras que estrearam ou estão em produção em cinema ou TV: escritor se diz “um cinéfilo que nunca se aventurou a escrever roteiros”
Há os que prefiram manter os caminhos separados.Cercado hoje por diretores - são quatro obras suas que estrearam ou já estão em produção em cinema ou TV - , Milton Hatoum se diz “um cinéfilo que nunca se aventurou a escrever roteiros”. “Não me meto no roteiro nem na filmagem. Por que faria isso? Não domino essas linguagens nem sinto ciúme dos livros.” Por diversão, fez uma ponta como pescador em “Órfãos do Eldorado”, de Guilherme Coelho, que entrou em cartaz no fim do ano passado. Para o filme de Sérgio Machado, escreve uma história complementar ao conto “Adeus do Comandante”, que dá origem ao filme. Ele se reserva, mas todos querem seus palpites.
Na adaptação de obras de Hatoum, quem cuida do roteiro é a experiente Maria Camargo. A expertise desenvolve-se desde que preparou o roteiro de seu “Dois Irmãos” para a minissérie que Luiz Fernando Carvalho começou a gravar para a Globo no ano passado. “Sempre fui muito leitora”, conta a roteirista, para quem adaptar obra de autor consagrado é tarefa de “muita responsabilidade”. Entre trabalhos recentes, fez o “Correio Sentimental”, de Clarice Lispector, para o “Fantástico”. Encantada ao ler “A Vendedora de Fósforos”, de Adriana Lunardi, decidiu ela mesma fazer a produção, projeto que está tocando ao mesmo tempo.
Se hoje há uma geração de autores brasileiros que floresce, o mesmo se pode dizer da de roteiristas. “Em dez anos, mudou bastante. É um mercado em expansão, com muita gente talentosa, mas ainda falta formar gente. Não só roteirista, também produtor e diretor com visão mais ampla”, comenta Maria. Por ora, está trabalhando numa versão de “Fim”, de Fernanda Torres, para José Luiz Villamarim, na Globo.
Fernanda: versão do seu romance “Fim”está sendo feita pela experiente Maria Camargo para a Globo
O ofício do roteirista de fato passa “por um crescimento lento, proporcionado pela valorização do roteiro dentro do processo de produção audiovisual e um crescimento da produção nacional”, avalia Iana Paro, roteirista brasileira que também leciona roteiro na Escuela Internacional de Cine y Televisión (EICT), de San Antonio de los Baños, em Cuba. Seu primeiro longa, “Eu Te Levo”, dirigido por Marcelo Müller, tem estreia prevista para este ano. “Falta valorizar o trabalho do roteirista em si, de tempo e remuneração, além de rever as regras que movem a questão dos direitos autorais.” Conta que tem crescido a procura de brasileiros por cursos e oficinas de curta duração — está aberta agora a seleção de um dos mais concorridos, durante o Carnaval, ministrado pelo cubano Eliseo Altunaga na EICT.
“Ainda é muito difícil ser roteirista no Brasil. É um trabalho delongo prazo e solitário”, diz Carolina Benjamin, roteirista, produtora e curadora do Festival Adaptação, no Rio, que, nos últimos anos, tinha se tornado um evento interessante não só de exibição como de formação, com participantes de todo o país. Por ora, a falta de financiamento inviabiliza a realização de novas edições. “Antes, havia alguns editais de fomento com linhas para festivais,como a SEC-Rio, a Rio Filme e a Petrobras, que não foram reabertas. E o Fundo Setorial do Audiovisual, que hoje é o grande fomentador do audiovisual no Brasil, não tem linhas para festivais.”
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
Em brancas nuvens
Polêmica sobre a exclusão de negros entre
os indicados ao Oscar 2016 se acirra e obriga Academia de Artes e
Ciências Cinematográficas de Hollywood a reagir, anunciando mudança
futura no perfil dos votantes
“Não é à toa que ele tem um filme chamado Faça a coisa certa (1989). Foi mais um gol de Spike Lee”, opina a atriz brasileira Zezé Motta. O ator e diretor norte-americano foi escolhido para receber o Oscar honorário em 2016. Anteontem, Spike Lee comunicou sua decisão de não comparecer à cerimônia, marcada para 28 de fevereiro. Mais que isso: ao lado da atriz Jada Pinkett-Smith, ele defendeu o boicote à mais celebrada cerimônia da indústria do cinema em protesto à recorrente exclusão de negros entre os indicados ao prêmio.
O protesto de Spike Lee teve repercussão mundial e arrancou da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood uma reação contundente. Em comunicado oficial divulgado ontem, a presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs (a primeira negra a assumir o posto), reconheceu a lacuna e anunciou medidas para mudar os critérios de admissão de novos integrantes, para garantir diversidade no perfil dos votantes.
“Nos próximos dias e semanas vamos analisar o processo de seleção de nossos membros com o objetivo de refletir a diversidade de nossa classe em 2016”, afirmou. Segundo Cheryl, não é a primeira vez que a renovação da Academia torna-se urgente. Entre as décadas de 1960 e 1970, apontou a nota, a meta era rejuvenescer o grupo, “para permanecer vital e relevante”. “Em 2016, a ordem é para inclusão em todas as suas facetas: gênero, raça, etnicidade e orientação sexual. Reconhecemos que são preocupações muito reais da nossa comunidade e contamos com o apoio de todos para que possamos avançar juntos”, disse.
A polêmica veio à tona na segunda, no dia do aniversário de Martin Luther King. Pelo Instagram, Spike Lee publicou texto justificando sua decisão. “Dr. King disse ‘chegará o dia quando será preciso tomar uma posição que não será segura, política ou popular, mas necessária, pois a consciência diz que está certa’”, citou. “O Oscar não é onde o real batalha.” A atriz Jada Pinkett-Smith protestou por meio de um vídeo publicado no Facebook.
Com as hashtags #OscarsSoWhite (Oscar tão branco) e #OscarsBoycott, o movimento ganhou proporção e adeptos. Esnobado no ano passado pela atuação em Selma, o ator David Oyelowo Slams, em entrevista ao site Vulture, questionou a imutabilidade do Oscar. “A Academia é uma instituição em que todos dizem que as mudanças radicais não podem ocorrer rápido. É melhor que isso mude.”
Votante na categoria de documentário, o cineasta Michael Moore também fez coro ao boicote. “Pensei sobre isso o dia inteiro. Não pretendo ir à cerimônia. Não pretendo assistir à cerimônia e não pretendo ir a nenhuma festa relacionada a ela”, anunciou o diretor de Tiros em Columbine (2002) e Fahrenheit 11 de Setembro (2004).
BRASIL
“Spike Lee encontrou o momento certo para falar. A luta persiste, e a gente tem que continuar dando cotovelada e cobrando cada vez mais nossos direitos”, acredita Zezé Motta. Com 50 anos de carreira, a atriz brasileira observa uma preocupação maior relacionada à diversidade racial. “Estou muito feliz com o protagonismo de Taís (Araújo) e Lázaro (Ramos), mas acho que ainda falta espaço para muita gente”, cobra. É preciso também avançar em relação aos personagens.
Em 2014, Zezé Motta vivenciou experiência que classifica como humilhante. Foi chamada para fazer Sebastiana, uma empregada doméstica na novela Boogie oogie. “Nada contra, mas quero saber o conteúdo”, frisou. A promessa é de que seria a mãe da personagem de Fabrício Boliveira, cujo sonho seria se tornar diplomata. Ela seria a pessoa responsável para que o filho lutasse por isso, mas a atuação incisiva que sua empregada teria se perdeu ao longo da novela, escrita pelo português Rui Vilhena.
“A gente tem muita luta pela frente e tem que aproveitar essas oportunidades (como faz Spike Lee) e botar a boca no mundo”, afirma Zezé. Para o cineasta Joel Zito Araújo, diretor de A negação do Brasil, a distorção apresentada na lista de indicados ao Oscar é fruto do perfil de votantes da Academia. Por isso, ele considera interessante não apenas o protesto de Lee como a resposta da instituição.
De acordo com levantamento feito pelo jornal Los Angeles Times, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood tem hoje 6 mil integrantes. Desses, 94% são brancos, 77% homens e 86% com mais de 50 anos de idade.
“Essas gerações mais velhas não só não têm olhos para a diversidade como também são reativas. Todas essas transformações da sociedade, aos olhos deles, são vistas como aberração, pressão indevida. Eles querem manter a mentalidade de outra época”, analisa Joel Zito.
Decano do cinema brasileiro, o ator Milton Gonçalves tem uma opinião diferente da de seus colegas de profissão. “Não vamos colocar isso (o fato de nenhum negro ter sido indicado) como se fosse preconceito. O cinema e o teatro norte-americanos sempre foram muito gentis com os atores negros. Se este ano não tem nenhum indicado, é porque não houve um grande filme com eles.”
Gonçalves se diz mais preocupado com o Brasil. “Nos EUA, o presidente é negro e benquisto. Nós nunca tivemos um presidente negro, nem um perto disso.” O bailarino e coreógrafo Rui Moreira é outro que traz a questão para o país. “É interessante observar como a ausência de negros em um grande prêmio causa manifestações em todo o mundo. No Brasil, uma das fortes diásporas negras no planeta, a falta de indicados e laureados num prêmio (de teatro ou cinema) passa batida.”
Já o ator Luis Miranda afirma que a Academia de Hollywood precisa se conscientizar. “(A falta de indicados negros) é um desrespeito não só com os atores negros, mas com a classe artística como um todo.”
Filme repetido
Neste século, o Oscar já foi branco (ou tão branco, como comprova a hashtag #OscarsSoWhite) outras vezes. A primeira, em 2001 (que deu o troféu de melhor filme para Gladiador, ator para Russell Crowe e atriz para Julia Roberts). A segunda, uma década mais tarde, que premiou O discurso do rei, Colin Firth e Natalie Portman como melhores filme, ator e atriz.
O embranquecimento da maior premiação da indústria ainda se repetiu na edição de 2015. Selma – Uma luta pela igualdade, longa-metragem sobre a histórica marcha pacifista organizada por Martin Luther King em 1965, concorreu a melhor filme. Mas nem por isso nenhum de seus atores foi indicado, tampouco sua diretora, Ava DuVernay.
A edição passada do Oscar passou para a história como aquela em que nenhum negro foi indicado e nenhuma mulher apareceu nas categorias de direção, roteiro e fotografia. Os discursos de agradecimento mais contundentes – como o de Patricia Arquette, eleita a melhor atriz coadjuvante – enfatizaram as diferenças entre homens e mulheres em Hollywood.
O mesmo Spike Lee que vai boicotar a premiação de 2016 afirmou, em 2015, ao site The Daily Beast, que “quem pensou que este ano ia ser como no ano passado é retardado”. Ele referia-se à edição de 2014, que deu a 12 anos de escravidão os principais troféus.
E é também de Spike Lee uma das mais notórias brigas da indústria. Em 2012, quando Quentin Tarantino lançou Django livre, o cineasta negro classificou de “desrespeitoso” o faroeste ambientado durante a Guerra Civil americana. “A escravidão nos EUA não foi um western spaghetti de Sergio Leone, mas um Holocausto. Meus ancestrais foram escravos, roubados da África. Eu os honrarei”, acrescentou.
A polêmica entre os dois cineastas voltou à tona em novembro, quando Tarantino esteve no Brasil para lançar Os oito odiados, atualmente em cartaz. Quando perguntado se faria um filme com Lee, Tarantino, que pretende dirigir somente mais dois longas, afirmou: “Só tenho dois filmes mais para fazer. Não vou desperdiçá-los com Spike Lee.”
Carolina Braga e Mariana Peixoto
Estado de Minas : 20/01/2016 O cineasta Spike Lee, que será homenageado pelo 88º Oscar, em fevereiro, e convocou boicote à cerimônia |
“Não é à toa que ele tem um filme chamado Faça a coisa certa (1989). Foi mais um gol de Spike Lee”, opina a atriz brasileira Zezé Motta. O ator e diretor norte-americano foi escolhido para receber o Oscar honorário em 2016. Anteontem, Spike Lee comunicou sua decisão de não comparecer à cerimônia, marcada para 28 de fevereiro. Mais que isso: ao lado da atriz Jada Pinkett-Smith, ele defendeu o boicote à mais celebrada cerimônia da indústria do cinema em protesto à recorrente exclusão de negros entre os indicados ao prêmio.
O protesto de Spike Lee teve repercussão mundial e arrancou da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood uma reação contundente. Em comunicado oficial divulgado ontem, a presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs (a primeira negra a assumir o posto), reconheceu a lacuna e anunciou medidas para mudar os critérios de admissão de novos integrantes, para garantir diversidade no perfil dos votantes.
“Nos próximos dias e semanas vamos analisar o processo de seleção de nossos membros com o objetivo de refletir a diversidade de nossa classe em 2016”, afirmou. Segundo Cheryl, não é a primeira vez que a renovação da Academia torna-se urgente. Entre as décadas de 1960 e 1970, apontou a nota, a meta era rejuvenescer o grupo, “para permanecer vital e relevante”. “Em 2016, a ordem é para inclusão em todas as suas facetas: gênero, raça, etnicidade e orientação sexual. Reconhecemos que são preocupações muito reais da nossa comunidade e contamos com o apoio de todos para que possamos avançar juntos”, disse.
A polêmica veio à tona na segunda, no dia do aniversário de Martin Luther King. Pelo Instagram, Spike Lee publicou texto justificando sua decisão. “Dr. King disse ‘chegará o dia quando será preciso tomar uma posição que não será segura, política ou popular, mas necessária, pois a consciência diz que está certa’”, citou. “O Oscar não é onde o real batalha.” A atriz Jada Pinkett-Smith protestou por meio de um vídeo publicado no Facebook.
Com as hashtags #OscarsSoWhite (Oscar tão branco) e #OscarsBoycott, o movimento ganhou proporção e adeptos. Esnobado no ano passado pela atuação em Selma, o ator David Oyelowo Slams, em entrevista ao site Vulture, questionou a imutabilidade do Oscar. “A Academia é uma instituição em que todos dizem que as mudanças radicais não podem ocorrer rápido. É melhor que isso mude.”
Votante na categoria de documentário, o cineasta Michael Moore também fez coro ao boicote. “Pensei sobre isso o dia inteiro. Não pretendo ir à cerimônia. Não pretendo assistir à cerimônia e não pretendo ir a nenhuma festa relacionada a ela”, anunciou o diretor de Tiros em Columbine (2002) e Fahrenheit 11 de Setembro (2004).
BRASIL
“Spike Lee encontrou o momento certo para falar. A luta persiste, e a gente tem que continuar dando cotovelada e cobrando cada vez mais nossos direitos”, acredita Zezé Motta. Com 50 anos de carreira, a atriz brasileira observa uma preocupação maior relacionada à diversidade racial. “Estou muito feliz com o protagonismo de Taís (Araújo) e Lázaro (Ramos), mas acho que ainda falta espaço para muita gente”, cobra. É preciso também avançar em relação aos personagens.
Em 2014, Zezé Motta vivenciou experiência que classifica como humilhante. Foi chamada para fazer Sebastiana, uma empregada doméstica na novela Boogie oogie. “Nada contra, mas quero saber o conteúdo”, frisou. A promessa é de que seria a mãe da personagem de Fabrício Boliveira, cujo sonho seria se tornar diplomata. Ela seria a pessoa responsável para que o filho lutasse por isso, mas a atuação incisiva que sua empregada teria se perdeu ao longo da novela, escrita pelo português Rui Vilhena.
“A gente tem muita luta pela frente e tem que aproveitar essas oportunidades (como faz Spike Lee) e botar a boca no mundo”, afirma Zezé. Para o cineasta Joel Zito Araújo, diretor de A negação do Brasil, a distorção apresentada na lista de indicados ao Oscar é fruto do perfil de votantes da Academia. Por isso, ele considera interessante não apenas o protesto de Lee como a resposta da instituição.
De acordo com levantamento feito pelo jornal Los Angeles Times, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood tem hoje 6 mil integrantes. Desses, 94% são brancos, 77% homens e 86% com mais de 50 anos de idade.
“Essas gerações mais velhas não só não têm olhos para a diversidade como também são reativas. Todas essas transformações da sociedade, aos olhos deles, são vistas como aberração, pressão indevida. Eles querem manter a mentalidade de outra época”, analisa Joel Zito.
Decano do cinema brasileiro, o ator Milton Gonçalves tem uma opinião diferente da de seus colegas de profissão. “Não vamos colocar isso (o fato de nenhum negro ter sido indicado) como se fosse preconceito. O cinema e o teatro norte-americanos sempre foram muito gentis com os atores negros. Se este ano não tem nenhum indicado, é porque não houve um grande filme com eles.”
Gonçalves se diz mais preocupado com o Brasil. “Nos EUA, o presidente é negro e benquisto. Nós nunca tivemos um presidente negro, nem um perto disso.” O bailarino e coreógrafo Rui Moreira é outro que traz a questão para o país. “É interessante observar como a ausência de negros em um grande prêmio causa manifestações em todo o mundo. No Brasil, uma das fortes diásporas negras no planeta, a falta de indicados e laureados num prêmio (de teatro ou cinema) passa batida.”
Já o ator Luis Miranda afirma que a Academia de Hollywood precisa se conscientizar. “(A falta de indicados negros) é um desrespeito não só com os atores negros, mas com a classe artística como um todo.”
Cheryl Boone Isaacs, presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood |
Filme repetido
Neste século, o Oscar já foi branco (ou tão branco, como comprova a hashtag #OscarsSoWhite) outras vezes. A primeira, em 2001 (que deu o troféu de melhor filme para Gladiador, ator para Russell Crowe e atriz para Julia Roberts). A segunda, uma década mais tarde, que premiou O discurso do rei, Colin Firth e Natalie Portman como melhores filme, ator e atriz.
O embranquecimento da maior premiação da indústria ainda se repetiu na edição de 2015. Selma – Uma luta pela igualdade, longa-metragem sobre a histórica marcha pacifista organizada por Martin Luther King em 1965, concorreu a melhor filme. Mas nem por isso nenhum de seus atores foi indicado, tampouco sua diretora, Ava DuVernay.
A edição passada do Oscar passou para a história como aquela em que nenhum negro foi indicado e nenhuma mulher apareceu nas categorias de direção, roteiro e fotografia. Os discursos de agradecimento mais contundentes – como o de Patricia Arquette, eleita a melhor atriz coadjuvante – enfatizaram as diferenças entre homens e mulheres em Hollywood.
O mesmo Spike Lee que vai boicotar a premiação de 2016 afirmou, em 2015, ao site The Daily Beast, que “quem pensou que este ano ia ser como no ano passado é retardado”. Ele referia-se à edição de 2014, que deu a 12 anos de escravidão os principais troféus.
E é também de Spike Lee uma das mais notórias brigas da indústria. Em 2012, quando Quentin Tarantino lançou Django livre, o cineasta negro classificou de “desrespeitoso” o faroeste ambientado durante a Guerra Civil americana. “A escravidão nos EUA não foi um western spaghetti de Sergio Leone, mas um Holocausto. Meus ancestrais foram escravos, roubados da África. Eu os honrarei”, acrescentou.
A polêmica entre os dois cineastas voltou à tona em novembro, quando Tarantino esteve no Brasil para lançar Os oito odiados, atualmente em cartaz. Quando perguntado se faria um filme com Lee, Tarantino, que pretende dirigir somente mais dois longas, afirmou: “Só tenho dois filmes mais para fazer. Não vou desperdiçá-los com Spike Lee.”
sábado, 16 de janeiro de 2016
domingo, 29 de novembro de 2015
Impunidade ambiental - Carlos Minc
A tragédia de Mariana teve alertas não levados a sério. O Ibama multou a
Samarco por desmatamento ilegal, que desprotege as barragens, e pediu a
sua interdição
No Brasil, não existe cultura de prevenção. Em países onde há ciclones e terremotos, há simulações e exercícios frequentes, até para crianças. Aqui, até há pouco, sirenes e Mapeamentos de Risco (MRs) inexistiam. A impunidade ambiental (e não só) é regra: empresas não pagam multas e protelam obrigações de reconstituir ecossistemas — artigo 225 da Constituição federal, que, independentemente de comprovação de culpa, é responsabilidade objetiva.
A tragédia de Mariana teve alertas não levados a sério. O Ibama multou a Samarco por desmatamento ilegal, que desprotege as barragens, e pediu sua interdição, após ouvir órgão ambiental de Minas, que não se pronunciou. Condicionante ambiental da licença exigia plano de contingência, sirenes, que não existiam.
A Lei 1898 — das auditorias ambientais para empresas poluidoras, aprovada no Rio de Janeiro em 1991 — foi criticada: seria caro. Só foi cumprida 15 anos depois, inclusive pela CSN e Reduc: com diagnóstico preciso e ações de mudança tecnológica preventiva de R$ 400 milhões e R$ 1 bilhão, respectivamente. Pelo potencial destrutivo das barragens de rejeitos, estas devem ser submetidas a auditorias independentes. Municípios do Rio de Janeiro passaram a ter MRs, sirenes e sistemas de alerta de cheias dos rios a partir de 2007, com recursos do Fecam para o Departamento de Recursos Minerais, a Defesa Civil e o Inea. Vários prefeitos colocavam a publicação sob um jarro de flores e faziam obras em encostas e beira de rios, vedadas pelo MR. Nova lei obrigou que diretrizes do mapeamento fossem incorporadas ao uso do solo das cidades.
Em 2007, no segundo acidente das barragens da Cataguases, que contaminou as bacias dos rios Pomba, Muriaé e municípios do Noroeste Fluminense, acionamos, à frente da Secretaria do Ambiente, a Agência Nacional de Águas, o Ministério Público Federal e secretarias mineiras — que prometeram fiscalização e transparência. Admitiram que havia 40 barragens de risco, sem auditoria e plano da Defesa Civil, por pressão das mineradoras, por conta de custos. Até hoje, pescadores e agricultores do Noroeste fluminense não foram indenizados: um alerta para que a impunidade não se repita.
A proposta de Sebastião Salgado, que dedicou a vida ao reflorestamento das nascentes do Rio Doce, é a melhor. A volta à vida e atividades na região dependem da recuperação da Mata Atlântica e dos olhos d’água. Salgado propôs um fundo de recuperação, mas preocupa-se com quem irá geri-lo, para o recurso não ser desviado. No Ministério do Meio Ambiente, criamos, em 2009, o Fundo Amazônia — operado pelo BNDES e gerido por conselho com SBPC, sssociações de seringueiros, municípios. Não houve desvios, mas a execução foi lenta: foram aplicados só 30% de uma doação da Noruega, de US$ 1 bilhão.
Há que ter probidade e agilidade, para que o fundo apoie já ações que enfrentem a tragédia, regenerem o deserto produzido pela inépcia e reconstituam condições de vida de populações desterradas e agredidas.
- 29 nov 2015
- O Globo
- CARLOS MINC Carlos Minc é deputado estadual (PT-RJ)
Futuro? Que futuro? - Aldir Blanc
Juiz Moro, suas delações vazam mais que os rejeitos das barragens
Todos aqueles canalhas da casa de tolerância, votando pela merecida cadeia para Delcídio, o Bestalhão, pelo amor de meus netinhos! Não escapava um da mão na grade, que estão lá, relinchando ao vivo, com o Zé Peruca botando (des)ordem nos procedimentos. Quer dizer que um crime de 50 mil por mês gera prisão imediata, enquanto uma propina de 5 milhões de dólares continua impune na pátria que pariu as pobres crianças do Rio Morto? Essa é a aritmética do futuro?
Mais: Delcídio teria proposto mesada e fuga para evitar a delação de Cerveró, que envolveria a presidente no superfaturamento da refinaria Passadilma. Juiz Moro, suas delações vazam mais que os rejeitos das barragens. O sr. é tão severo. Não notou que tem alguém levando grana? Enquanto isso, Romário retiraria sua candidatura para apoiar o espancador Pedro Paulo. Assim ficaria blindado pelo PMDB. Chega! É preciso denunciar ainda o tonitruante silêncio do presidenciável mineiro Aócio Neves. Tem amiguinhos na Vale o Quanto Vaza, que virou privada na gestão de FHC. Vão todos se fifar — ou se sarnar!
Sugiro homicídio culposo para os irresponsáveis da Samarco & Vale. É o mínimo que o Brasil emporcalhado exige.
O texto abaixo vai para o grande Lédio Carmona, comentarista-símbolo da concisão e da elegância, que atua de forma diametralmente oposta aos elementos a seguir. O Comentarista do Futuro: — Ao ver o objeto do desejo, a terceira bola, diante de sua libido, representação do seio materno idealizado pela ansiedade primeva e edipiana contra o domínio do Nome do Pai, o atleta, no que era chamada de meia-lua, hoje topo do incidente russo-turco, foi acometido por uma desleitura bloomiana da jogada e, além de causar fratura exposta na tíbia do pseudo-Laio, afundou no que antes era conhecida como zona do agrião, atual Samarco. Uma curiosidade: devido a um transtorno no genoma, talvez ribossômico, o player gabava-se de possuir três testículos. Conta-se que ao voltar das desnudas, ex-peladas, em Honório Gurgel, as periguetes ironizavam o futuro volante: — Aí, hein? Tá com as bolas todas! A bibliografia para meu comentário pode ser encontrada em:
1 —“A Aimée de Lacan” — Jean Allouch;
2 — “Angústia de influência” — Harold Bloom;
3 —“O enigma da esfera”, “O Talmude” e o “Talismã-Badalhoca do Muezin” — Paulo Coelho;
4 — “The Future of Embryology and Genetics” — Roger Bighouse;
5 — “Meiões com chulé também são divinos” — Padre Marcelo de Rossi;
6 — “O seminal Hilda, a Mineirinha” — Carlos Zéfiro.
2 — “Angústia de influência” — Harold Bloom;
3 —“O enigma da esfera”, “O Talmude” e o “Talismã-Badalhoca do Muezin” — Paulo Coelho;
4 — “The Future of Embryology and Genetics” — Roger Bighouse;
5 — “Meiões com chulé também são divinos” — Padre Marcelo de Rossi;
6 — “O seminal Hilda, a Mineirinha” — Carlos Zéfiro.
- 29 nov 2015
- O Globo
- Aldir Blanc é compositor
Mistério há de pintar por aí - Cacá Diegues
O Brasil é um país, para o bem ou para o mal, cheio de mistérios. Três
filmes brasileiros, em cartaz na cidade, tentam dar conta de alguns
deles. Nenhum tem muito a ver com o outro, os mistérios que eles
procuram nos desvendar são de natureza totalmente diferente um do outro.
O primeiro desses filmes chama-se “Chico, artista brasileiro”, foi realizado por Miguel Faria Jr. e nos revela um Chico Buarque que o público muito mais supõe do que conhece. É impressionante como um artista que sempre esteve na linha de frente da música popular e da cultura brasileira em geral, às vezes com repercussão artística e política estrondosa, conseguiu preservar sua intimidade e, mais do que isso, sua individualidade solidária durante os seus 50 anos de atividade.
Um raro padrão brasileiro de integridade, Chico foi sempre um guerrilheiro do próprio pensamento, usando seu talento a serviço de causas que julgava justas, fossem elas de que natureza fossem, retirando-se quando considerava suficiente o que já fizera. Chico sempre teve o pudor do sucesso, sem se negar nunca a aceitá-lo com naturalidade e sem exibicionismo.
No filme de Miguel Faria Jr., pela primeira vez Chico nos mostra, num documento público, como ele é em sua privacidade. Um homem cheio de humor e ternura, capaz de rir-se de si mesmo e de nos dizer coisas da maior importância da maneira mais simples (me surpreendi com sua justíssima fala sobre a bossa nova). Os números musicais, montados com bom gosto e sobriedade, iluminam essa descoberta comovente da obra imortal de Chico.
Diferentemente do consagrado “Vinicius”, esse novo filme de Miguel Faria Jr. se dedica à compreensão mais íntima de seu personagem. Enquanto “Vinicius” era uma fascinante reportagem sobre o famoso poeta e letrista, “Chico” se aproxima de seu personagem para entendê-lo melhor. Enquanto o primeiro filme é um discurso de admiração por um grande artista, esse de agora é um delicado e confessional canto de amor por alguém que mexeu com nossas vidas nestas últimas cinco décadas.
Por provocação do próprio Chico, esse canto de amor vai de assuntos como a censura durante a ditadura militar, até seu orgulho pessoal como boleiro; ou de confissões como a descoberta de seu pai, Sérgio Buarque de Holanda, através da literatura, até o elogio das relações com sua ex-mulher, a atriz Marieta Severo.
O primeiro desses filmes chama-se “Chico, artista brasileiro”, foi realizado por Miguel Faria Jr. e nos revela um Chico Buarque que o público muito mais supõe do que conhece. É impressionante como um artista que sempre esteve na linha de frente da música popular e da cultura brasileira em geral, às vezes com repercussão artística e política estrondosa, conseguiu preservar sua intimidade e, mais do que isso, sua individualidade solidária durante os seus 50 anos de atividade.
Um raro padrão brasileiro de integridade, Chico foi sempre um guerrilheiro do próprio pensamento, usando seu talento a serviço de causas que julgava justas, fossem elas de que natureza fossem, retirando-se quando considerava suficiente o que já fizera. Chico sempre teve o pudor do sucesso, sem se negar nunca a aceitá-lo com naturalidade e sem exibicionismo.
No filme de Miguel Faria Jr., pela primeira vez Chico nos mostra, num documento público, como ele é em sua privacidade. Um homem cheio de humor e ternura, capaz de rir-se de si mesmo e de nos dizer coisas da maior importância da maneira mais simples (me surpreendi com sua justíssima fala sobre a bossa nova). Os números musicais, montados com bom gosto e sobriedade, iluminam essa descoberta comovente da obra imortal de Chico.
Diferentemente do consagrado “Vinicius”, esse novo filme de Miguel Faria Jr. se dedica à compreensão mais íntima de seu personagem. Enquanto “Vinicius” era uma fascinante reportagem sobre o famoso poeta e letrista, “Chico” se aproxima de seu personagem para entendê-lo melhor. Enquanto o primeiro filme é um discurso de admiração por um grande artista, esse de agora é um delicado e confessional canto de amor por alguém que mexeu com nossas vidas nestas últimas cinco décadas.
Por provocação do próprio Chico, esse canto de amor vai de assuntos como a censura durante a ditadura militar, até seu orgulho pessoal como boleiro; ou de confissões como a descoberta de seu pai, Sérgio Buarque de Holanda, através da literatura, até o elogio das relações com sua ex-mulher, a atriz Marieta Severo.
Artista brasileiro por sua própria definição, o filme termina com a
interpretação emocionada e emocionante de “Paratodos”, uma criação de
antropologia lírica do Brasil, o retrato do indecifrável mistério da
genialidade. A cara de Chico.
Outro mistério do cinema brasileiro: “Chatô, o rei do Brasil”, filme de Guilherme Fontes. O que se poderia esperar de um filme iniciado 20 anos atrás, dirigido e produzido por um menino com então pouco mais de 20 anos de idade, sem maiores compromissos com a cinematografia, a política e a cultura do país, um filme que, ainda por cima, havia de sofrer tantos e tão controvertidos acidentes de produção que só lhe permitiriam ficar pronto agora, duas décadas depois?
Pois a vítima de todos esses percalços é um grande filme!
Guilherme Fontes obteve os direitos do livro de Fernando Morais sobre Assis Chateaubriand, o tycoon da imprensa brasileira dos anos 1940 aos 60, e transformou a biografia literária em poesia cinematográfica. Uma poesia osvaldiana, refletida do tropicalismo da segunda metade do século passado, a poesia de “Terra em transe”, “O rei da vela” ou “Alegria, alegria”. Um exaltado carnaval de travellings e jump cuts, sempre surpreendentes e inspirados, para falar do Brasil e de brasileiros menos arcaicos do que podemos supor.
Como um milagre, o filme iniciado há 20 anos tem o frescor de um documento contemporâneo sobre o estado do país e seus líderes em diferentes setores da sociedade. O delírio político, o exibicionismo de comportamento, a ganância e o excesso, a ausência festiva de escrúpulos, parecem inspirados no que lemos diariamente nos jornais e vemos na televisão em nossos dias. Uma comédia dolorosa.
Embora tenha sido lançado em apenas 19 cinemas, “Chatô” fez, na semana passada, a segunda média de ingressos por sala. O que significa que atraiu a inesperada curiosidade de muita gente e, se fosse lançado em circuito maior, teria certamente feito bilheteria significativa. O grande sucesso cinematográfico é sempre aquele de filmes que o público ainda não sabe que vai gostar.
Ainda não vi o terceiro filme de minha lista, mas não posso deixar de lembrar que “Idolo”, documentário de Ricardo Calvet, trata de um grande mistério de nosso futebol, o gênio de Nilton Santos. Nilton, a Enciclopédia do Futebol, nunca deu um carrinho em toda a sua vida e, como jogava sempre de cabeça erguida, nunca soube de que cor era o gramado de futebol. Não dá para perder.
Outro mistério do cinema brasileiro: “Chatô, o rei do Brasil”, filme de Guilherme Fontes. O que se poderia esperar de um filme iniciado 20 anos atrás, dirigido e produzido por um menino com então pouco mais de 20 anos de idade, sem maiores compromissos com a cinematografia, a política e a cultura do país, um filme que, ainda por cima, havia de sofrer tantos e tão controvertidos acidentes de produção que só lhe permitiriam ficar pronto agora, duas décadas depois?
Pois a vítima de todos esses percalços é um grande filme!
Guilherme Fontes obteve os direitos do livro de Fernando Morais sobre Assis Chateaubriand, o tycoon da imprensa brasileira dos anos 1940 aos 60, e transformou a biografia literária em poesia cinematográfica. Uma poesia osvaldiana, refletida do tropicalismo da segunda metade do século passado, a poesia de “Terra em transe”, “O rei da vela” ou “Alegria, alegria”. Um exaltado carnaval de travellings e jump cuts, sempre surpreendentes e inspirados, para falar do Brasil e de brasileiros menos arcaicos do que podemos supor.
Como um milagre, o filme iniciado há 20 anos tem o frescor de um documento contemporâneo sobre o estado do país e seus líderes em diferentes setores da sociedade. O delírio político, o exibicionismo de comportamento, a ganância e o excesso, a ausência festiva de escrúpulos, parecem inspirados no que lemos diariamente nos jornais e vemos na televisão em nossos dias. Uma comédia dolorosa.
Embora tenha sido lançado em apenas 19 cinemas, “Chatô” fez, na semana passada, a segunda média de ingressos por sala. O que significa que atraiu a inesperada curiosidade de muita gente e, se fosse lançado em circuito maior, teria certamente feito bilheteria significativa. O grande sucesso cinematográfico é sempre aquele de filmes que o público ainda não sabe que vai gostar.
Ainda não vi o terceiro filme de minha lista, mas não posso deixar de lembrar que “Idolo”, documentário de Ricardo Calvet, trata de um grande mistério de nosso futebol, o gênio de Nilton Santos. Nilton, a Enciclopédia do Futebol, nunca deu um carrinho em toda a sua vida e, como jogava sempre de cabeça erguida, nunca soube de que cor era o gramado de futebol. Não dá para perder.
- 29 nov 2015
- O Globo
- CACÁ DIEGUES Cacá Diegues é cineasta carlosdiegues2015@gmail.com
sábado, 28 de novembro de 2015
E no entanto se move - Zuenir Ventura
- 28 nov 2015
- O Globo
Seria uma tarefa constrangedora cortar na própria carne numa casa como o Senado, de forte espírito de corpo, onde presidente
está sendo investigado
está sendo investigado
no exercício de seu mandato, no caso o líder do governo no Senado, Delcídio Amaral, junto com o poderoso banqueiro André Esteves (está preso em Bangu, frequentado até então apenas por banqueiros de bicho). A voz do primeiro aparecia numa gravação tentando comprar o silêncio do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, oferecendo R$ 4 milhões, R$ 50 mil por mês para a família e um detalhado roteiro de fuga para o exterior. Tudo para que os dois nomes não fossem citados por Cerveró, que firmara acordo de delação premiada na Operação Lava-Jato.
Delcídio foi logo lançado às feras pelos seus companheiros. O PT,
em nota, negou-lhe solidariedade, ao contrário do que fizera no
mensalão, transformando condenados como José Dirceu em “guerreiros do
povo brasileiro”. Além disso, quer expulsá-lo e, como se fosse pouco, o
ex-presidente Lula chamou-o de “idiota” e “imbecil” (o seu instituto
desmentiu, mas duas testemunhas, segundo a “Folha”, confirmaram). Pode
haver quem se arrependa de tê-lo execrado se, por acaso, Delcídio
resolver também ser um delator. De qualquer maneira, foi assim,
rejeitado e encarcerado, que Delcídio seria julgado à noite por seus
pares. Era difícil ficar conivente com ele diante de provas que o
tornavam quase indefensável. Mas, apesar disso, cortar na própria carne
numa casa de forte espírito de corpo, onde o presidente está sendo
investigado, seria uma tarefa constrangedora. E foi, ainda mais que o
acusado é tido como uma pessoa afável, de livre trânsito e muito
benquisto pelos adversários. Ganhou elogios até de muitos dos 59 que
votaram por mantê-lo na prisão. Sua derrota foi dupla. Perdeu quando o
plenário preferiu que o voto não fosse secreto, como queria o presidente
e os outros que não gostariam de revelar sua escolha. E perdeu em
seguida, quando a maioria aprovou a decisão do STF de mandar prendê-lo,
contra apenas 13 que queriam sua liberação.
Essa espécie de rebelião ética do Senado contra a vontade de quem o preside poderia servir de lição para a Câmara. O presidente dessas Casas não deve ser um ditador, principalmente se coberto de graves denúncias. Quando nada, para reforçar a impressão de que o país, como a Terra, está se movendo — e, espera-se, para melhor.
Essa espécie de rebelião ética do Senado contra a vontade de quem o preside poderia servir de lição para a Câmara. O presidente dessas Casas não deve ser um ditador, principalmente se coberto de graves denúncias. Quando nada, para reforçar a impressão de que o país, como a Terra, está se movendo — e, espera-se, para melhor.
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
País de rinocerontes? - Chico Alencar
Governo eleito há mais de um ano não consegue começar
- 18 nov 2015
- O Globo
- CHICO ALENCAR Chico Alencar é deputado federal (PSOL-RJ)
Apeça “O rinoceronte”, de Eugène Ionesco (1909/1994), marcou minha juventude. Ainda era ditadura, e a censura, de olho no espetáculo, cogitou proibi-lo. Não foi a primeira vez que sua burrice popularizou uma obra de arte. O humor cáustico e a linguagem figurada do texto questionavam a lógica do totalitarismo e da massificação, confundindo os defensores da ordem.
O regressismo conservador dos nossos tempos nos leva ao palco da vida real, onde se monta, a cada dia, um novo teatro do absurdo. A peça já clássica de Ionesco tem três atos. A do Brasil, que todos nós encenamos, em diferentes papéis, também pode ser estruturada assim.
O primeiro ato é o de um governo que, eleito há mais de um ano, não consegue começar. Trocou todo o cenário e os diálogos originalmente apresentados. O que foi dito na campanha ficou por lá, e agora a direção assumiu o roteiro do seu antagonista. O palco foi tomado por rinocerontes, com os humanos se transformando nesses paquidérmicos animais. O ar está pesado, as políticas públicas não andam, o governo não governa: vai sobrevivendo, aos trancos e barrancos, tentando se entender. O segundo ato se dá no Legislativo Nacional, em particular na Câmara dos Deputados. Nunca na história do Parlamento brasileiro um presidente sofreu acusações tão contundentes, com inquéritos por corrupção, lavagem de dinheiro e ganhos não declarados já no Supremo. Mas Sua Excelência nega tudo. Quando, afinal, tenta se explicar, traz uma história digna do absurdo de Ionesco, do surrealismo de Dalí ou do realismo fantástico de García Márquez. O acusado cunhou uma versão sui generis: reconhece acúmulo de bens no exterior que não são bem seus, propriedade que não lhe pertence, comprovação do que não é provável, em montante não preciso gerido por terceiros que não revela. O personagem de tantos negócios obscuros é ninguém menos que o segundo na linha sucessória da República. Nada sereníssima...
O terceiro ato pode ser o da peça de Ionesco, sem grandes
alterações. A letargia de quem devia reagir a tudo isso, em especial no
Legislativo, cria um ambiente de patética omissão. Comportamento de
manada é da natureza dos rinocerontes! Representação no Conselho de
Ética virou retaliação e tentativa de intimidação contra os que não
aceitam o servilismo do “não vejo, não falo, não ouço”.
Mas tem final feliz: apesar da tentação da acomodação à ordem em decomposição, as ruas resistem, de forma crescente. São como Berenger, o anti-herói de Ionesco. Após muito vacilar, e feliz por não ter se transformado, como tantos, em mais um rinoceronte, ele assume sua humanidade: “A mim vocês não pegam! Eu não vos seguirei, eu não vos compreendo! Continuarei como sou, um ser humano! (...) Contra todo mundo, eu me defenderei. Sou o último homem, hei de sê-lo até o fim: não me rendo!”.
Há caminhos.
Mas tem final feliz: apesar da tentação da acomodação à ordem em decomposição, as ruas resistem, de forma crescente. São como Berenger, o anti-herói de Ionesco. Após muito vacilar, e feliz por não ter se transformado, como tantos, em mais um rinoceronte, ele assume sua humanidade: “A mim vocês não pegam! Eu não vos seguirei, eu não vos compreendo! Continuarei como sou, um ser humano! (...) Contra todo mundo, eu me defenderei. Sou o último homem, hei de sê-lo até o fim: não me rendo!”.
Há caminhos.
terça-feira, 17 de novembro de 2015
Raymundo Costa: O segundo tempo do impeachment
Valor Econômico - 17/11/2015
Troca de Levy por Meirelles empareda de vez a presidente
O ex-presidente Lula disse a amigos que não fará mais tanta pressão para
a presidente Dilma Rousseff trocar de ministro da Fazenda. Vai deixar
de falar ao pé do ouvido e dizer de público o que pensa. Lula não quer
se indispor com Levy, com quem acha que tem divergências apenas
eventuais. Em suas palavras, não quer fazer "uma cruzada contra o Levy".
E o ouvido de Dilma, por outro lado, está quente de tanto ouvir os seus
argumentos em favor de Henrique Meirelles.
Lula e Dilma tiveram uma longa conversa sobre economia há menos de 15
dias. Nem todos os ministros da Casa participaram da reunião, organizada
por Jaques Wagner. Lula falou o que pensa da economia. E educadamente
ouviu o que a presidente tinha a dizer - bem diferente dos relatos sobre
conversas ocorridas no primeiro semestre. A relação entre os dois está
melhor, contam os amigos em comum. O que chamou a atenção foi a ausência
do ministro Joaquim Levy, aquele que Lula quer trocar por Henrique
Meirelles.
Lula queria mover três peças no governo: tirar Aloizio Mercadante da
Casa Civil, trocar Joaquim Levy por Henrique Meirelles na Fazenda e
tirar José Eduardo Cardozo da Justiça. Conseguiu o primeiro objetivo,
mantém a mesma opinião sobre Meirelles e mais do que nunca gostaria de
ver Cardozo longe de Brasília. Na época, posou de vencedor. Agora deixou
a conversa "desanimado". Diz que só falará em público, um perigo, pois é
justamente quando desata a falar que Lula mais tem ajudado a minar a
autoridade de Levy. Outro dia, um petista que defende a saída de Levy
reagiu desconcertado quando um colega de partido resolveu brincar com
ele: "Cuidado: Vocês podem gritar 'Fora Levy' e ganhar o Meirelles".
Lula não esperou muito tempo para declarar em público que a data de
validade do ministro Levy está vencida. Dilma subiu o tom e respondeu
que não era forçada a concordar com "avaliações" de pessoas das quais
gosta imensamente. Levy que se cuide: Dias antes da demissão de
Mercadante a presidente dizia que tirar o ministro da Casa Civil
significaria gerar mais "instabilidade" no governo.
Levy vem sendo fritado há tempos. Segundo as fontes palacianas, primeiro
foi Mercadante, então chefe da Casa Civil, que estimulava outros
ministros a divergir do titular da Fazenda, assim como boicotou o
vice-presidente Michel Temer quando este assumiu a coordenação política
do governo. Mercadante saiu e agora os líderes no Congresso afirmam que a
situação de Levy é insustentável. Tem mais alguém no Palácio do
Planalto e arredores incomodado com o ministro.
A receita da fritura é a mesma de todos os governos: o ministro não
teria o menor jogo de cintura político, se expôs numa conversa recente
com senadores, sem avisar ou combinar nada com a área política do
governo. Sua saída, nessas circunstâncias, seria questão de tempo. E por
que Meirelles? Para recuperar a credibilidade do governo a partir da
economia. É difícil medir a diferença. Numa tradução livre da piada
petista: o 'Fora Levy, vive Meirelles!".
O ministro Jaques Wagner, que participou da reunião com Lula, afirma que
está "alinhado" com a presidente - ou seja, Levy é um grande servidor
público compromissado com o país. "Estou aqui para apoiá-la (a
presidente) no que ela quiser", disse, por meio de sua assessoria.
Wagner também disse que tem ajudado nas votações relacionadas à Fazenda e
nega que tenha tomado partido do ministro Nelson Barbosa (Planejamento)
em divergências entre as duas pastas. Alias, acha perfeitamente natural
a discussão de projetos antes da tomada de decisão.
Pode ser. Wagner é um político jeitoso, cujos primeiros passos na Casa
Civil têm sido elogiados no Congresso, onde habita sua clientela. Mas na
prática o apoio do Congresso ao governo caiu, pouco mas caiu sobretudo
devido às questões de natureza econômica. Sem uma saída para a questão
econômica, dificilmente o governo voltará a ter a paz política de que
necessita para retomar os projetos de desenvolvimento econômico.,
Com menos de 10% de popularidade, hoje pode-se dizer que Dilma é a chefe
de Estado, mas já não é a chefe de governo. Há quem pense, no PT, em
antecipar a votação da proposta de impeachment, por estar seguro de que
tem pouco mais de 171 votos necessários para barrar o projeto. Talvez
duzentos e alguns trocados. Um governo fraco politicamente. Dilma pode
até escapar, mas sofrerá o "impeachment" de Estado, no momento em que
Meirelles assumir a Fazenda, se assumir. Mas ao vencedores do PT terá
restado mais que as batatas.
Análise de 13 votações realizadas em outubro revela que o apoio ao
governo voltou a cair, após ligeira melhoria no semestre, segundo
levantamento da empresa de consultoria política Arko Advice. Entre julho
e setembro, a média de apoio na Câmara foi superior a 50% e apresentava
tendência de alta. Em outubro, esse movimento foi interrompido, o
índice ficou abaixo desse patamar e fechou o mês em 49,70%.
O analista Cristiano Noronha atribuiu a queda sobretudo à votação de
matérias de natureza econômica. "A queda está relacionada ao número de
matéria polêmicas que foram submetidas à votação como, por exemplo,
repatriação, urgência para o projeto que revoga o regime de partilha nos
leilões do pré-sal e medidas provisórias do ajuste fiscal", disse
Noronha..
Na opinião da Arko Advice, essa é mais uma demonstração clara de que a
reforma ministerial realizada pelo governo não contribuiu para melhorar
"o nivel de coesão da base em matérias de interesse do governo". De
qualquer forma, ressalta Noronha, "o percentual é bem maior do que a
média de apoio verificada nos meses de março (38,34%) e abril (40,11%).
Também é superior que a média que a presidente teve no primeiro mandato
(45,24%)".
Sua conclusão: "Apesar da queda, o governo está conseguindo avançar -
ainda que com dificuldade e de forma lenta - na agenda do ajuste
fiscal".
Poderes de guerra
Hollande pede mudanças constitucionais para combater ameaça terrorista
- 17 nov 2015
- O Globo
- DEBORAH BERLINCK Especial para O Globo internacio@oglobo.com.br
França envia porta- aviões nuclear Charles de Gaulle ao Mediterrâneo para triplicar sua capacidade ofensiva contra o Estado Islâmico na Síria; polícia francesa faz 168 operações e prende 23 suspeitos
Em resposta ao massacre de 129 pessoas por jihadistas em Paris, na sexta- feira, o presidente François Hollande propôs a uma chocada França a reforma da Constituição para dar mais poderes ao Executivo, conta DEBORAH BERLINCK. No terceiro discurso de um chefe de Estado em sessão conjunta do Parlamento desde 1848, ele disse que o país enfrenta “um novo tipo de guerra” e precisa de outros instrumentos para combater os extremistas. Hollande afirmou que vai se reunir com os presidentes Obama, dos EUA, e Putin, da Rússia, na busca da união contra o terrorismo. Na Turquia para a reunião do G- 20, Obama voltou a descartar o uso de forças terrestres contra o EI. Na frente militar, a França enviou um portaaviões nuclear ao Mediterrâneo para reforçar o ataque ao terror na Síria. Ontem, a polícia francesa prendeu 23 suspeitos. - PARIS- Foi um discurso abertamente de guerra, longe dos temas que, até sexta- feira, mais preocupavam os franceses, como o desemprego e a crise. O presidente francês, François Hollande, carregou nas palavras, propondo até mudar a Constituição.
— A França está em guerra — disse, solenemente, ao iniciar o terceiro pronunciamento de um presidente às duas câmaras do Parlamento desde 1848.
Três dias depois do maior atentado terrorista da História recente da França, Hollande anunciou um vasto plano de segurança e a caça implacável aos radicais do país, sob os aplausos de pé de parlamentares de diferentes partidos, que cantaram “A Marselhesa”, o Hino Nacional francês.
Três grupos supostamente sob o comando do Estado Islâmico ( EI) massacraram 129 pessoas que se divertiam nos bairros boêmios de Paris, na sexta- feira à noite. E ainda deixaram o rastro do terror em 350 feridos, dos quais 88 ainda lutam pela vida.
Entre as medidas sugeridas estão a remoção da nacionalidade de cidadãos acusados de terrorismo, acesso irrestrito dos juízes antiterroristas às mais sote tecnologias de informação, e a criação de 5 mil vagas nas forças policiais e outras mil no serviço de aduanas.
Hollande também anunciou planos de alterar a Constituição, nos artigos 16 — que dá ao presidente poderes especiais em circunstâncias excepcionais — e 36, que regula o estado de emergência, declarado em caso de ameaça iminente contra o país, como a situação após os atentados em Paris.
— Este novo tipo de guerra exige um regime constitucional capaz de lidar com ela — afirmou.
Contrariando muitos na comunidade muçulmana da França que acham que o país erra ao se unir aos EUA para intervir no Oriente Médio, o presidente prometeu justo o contrário: intensificar os ataques na Síria, estreitar suas relações com o presidente americano Barack Obama, e o russo, Vladimir Putin, para “unificar as forças contra o terrorismo”. Ontem mesmo a França anunciou o envio do portaaviões nuclear Charles de Gaulle — a nau- capitânia da Marinha — ao Mediterrâneo, o que triplicará seu poder de fogo contra o EI na Síria.
Hollande também disse que vai apresentar uma medida para ampliar o estado de emergência decretado na sexta- feira após os ataques — o que exigiria aprovação do Parlamento.
— Vamos erradicar o terrorismo — afirmou Hollande após 50 minutos de discurso.
Apesar das palavras de Hollande, que destacou a necessidade de “união” no país após os ataques, a política francesa ainda lida com visões conflitantes sobre como lidar com o problema do extremismo no país. O ex- presidente Nicolas Sarkozy, líder dos Republicanos, principal legenda da oposição, pediu leis mais duras para cidadãos que se envolvam com o radicalismo islâmico.
— No momento há 520 jovens entre a Síria e o Iraque. Aqueles que retornarem devem ser presos — declarou Sarkozy, que defendeu a deportação de suspeitos com dupla nacionalidade. AMEAÇAS CONTINUAM Já a líder do partido de extrema- direita Frente Nacional, Marine Le Pen, defendeu a interrupção imediata do abrigo a imigrantes no país. Em nota, Le Pen — que atualmente enfrenta um processo por incitação ao ódio racial — afirmou que a decisão francesa de aceitar a cota de refugiados proposta pela União Europeia ( UE) foi “irresponsável”.
— A decisão de declarar estado de emergência foi boa. Mas independentemente do que a UE disser, é necessário que a França recupere permanentemenfisticadas o controle das fronteiras nacionais.
O Estado Islâmico alertou em um novo vídeo divulgado ontem que os países que participam dos ataques aéreos contra a Síria terão o mesmo destino da França, e ainda ameaçou atacar Washington. O vídeo, divulgado em um site usado pelo grupo radical para publicar suas mensagens, começa com o noticiário sobre os ataques de sexta- feira, em Paris.
Ontem, o primeiro- ministro Manuel Valls confirmou que a França e outros países europeus podem ser alvo de novos atentados nos próximos dias ou semanas. O diretor da CIA, por sua vez, afirmou que o Estado Islâmico está planejando novos ataques semelhantes aos de Paris. Na cúpula do G- 20 em Antália, na Turquia, Obama defendeu a estratégia utilizada pela coalizão que enfrenta o Estado Islâmico na Síria, e reiterou que os EUA não porão soldados em terra.
— A estratégia deve ser capaz de se sustentar — afirmou Obama.
As declarações seguiram o alerta do premier francês, que pediu para a França estar preparada. Ele destacou que os ataques foram “organizados, pensados e planejados” a partir da Síria.
— Vamos viver muito tempo com esta ameaça — advertiu Valls.
Qualidade no ensino - Arnaldo Niskier
Não seria uma boa ideia privatizar totalmente a educação superior
- 17 nov 2015
- O Globo
- ARNALDO NISKIER Arnaldo Niskier é professor e jornalista
Nossa resposta partiu das origens do ensino superior brasileiro, calcado no bacharelismo herdado de Portugal. Hoje, temos 75% do efetivo do ensino de terceiro grau na iniciativa privada.
O ensino público é minoritário e com tendência a perder cada vez mais substância, como se pode verificar pelo grande número de greves explodindo aqui e ali, sem qualquer perspectiva de solução. Mas não seria boa ideia privatizar o ensino superior, totalmente, pois defender essa tese seria reconhecer que os estudantes menos aquinhoados, do ponto de vista social, teriam que enfrentar a comercialização desenfreada, para o que não estariam preparados.
Veio à baila, na palestra sobre a educação brasileira, o atual estágio dos colégios militares em nosso país. Tema que interessou particularmente o comandante do CEP, coronel Álvaro Ferreira Lima, foi debatido com muito interesse pela plateia. Lembramos a amizade que nos uniu ao general Leônidas Pires Gonçalves, com quem nós conversamos muito a respeito de uma hipotética redução do número de escolas militares no Brasil. Não apenas fomos contrários a isso, como defendemos o aperfeiçoamento do seu projeto pedagógico, para assegurar a qualidade que já foi uma característica do Colégio Militar.
Hoje, compulsando o ranking do Enem, pode- se verificar que houve
uma perda de posição — e as causas são variadas. Falta de recursos
financeiros talvez seja a principal delas.
A discussão se estendeu para as agruras vividas pelo ensino médio. Não há dúvida de que se trata de uma tragédia pedagógica, agravada pela sucessão absurda de portarias oficiais, tentando regular a matéria. Há um número excessivo de matérias ( 13) e nenhum esforço inteligente do ponto de vista curricular.
Experiências internacionais ( foram citados os modelos da Finlândia, da Suécia, do Japão e da Coreia do Sul) demonstram que hoje não se pode mais manter a educação média no plano que era novidade, no século passado. A modernidade pede aulas menos unidirecionais e a formatação de grupos de trabalho para o ensino compartilhado. Será que é tão difícil entender isso?
Ainda sobrou tempo para condenar a excessiva politização das escolas públicas, em detrimento dos valores pedagógicos. E para reclamar a ausência de bibliotecas públicas, sacrificando os anseios de 15 milhões de estudantes de todo o país. Existe uma lei federal que procura corrigir essa omissão, mas os seus efeitos até aqui têm sido rigorosamente nulos.
A discussão se estendeu para as agruras vividas pelo ensino médio. Não há dúvida de que se trata de uma tragédia pedagógica, agravada pela sucessão absurda de portarias oficiais, tentando regular a matéria. Há um número excessivo de matérias ( 13) e nenhum esforço inteligente do ponto de vista curricular.
Experiências internacionais ( foram citados os modelos da Finlândia, da Suécia, do Japão e da Coreia do Sul) demonstram que hoje não se pode mais manter a educação média no plano que era novidade, no século passado. A modernidade pede aulas menos unidirecionais e a formatação de grupos de trabalho para o ensino compartilhado. Será que é tão difícil entender isso?
Ainda sobrou tempo para condenar a excessiva politização das escolas públicas, em detrimento dos valores pedagógicos. E para reclamar a ausência de bibliotecas públicas, sacrificando os anseios de 15 milhões de estudantes de todo o país. Existe uma lei federal que procura corrigir essa omissão, mas os seus efeitos até aqui têm sido rigorosamente nulos.
domingo, 15 de novembro de 2015
Agora é que são elas - Cacá Diegues
- 15 nov 2015
- O Globo
- CACÁ DIEGUES
Em solidariedade ao movimento #AgoraÉQueSãoElas, abro hoje o espaço desta coluna para Isabel Diegues. Formada em Letras pela PUC- RJ, Isabel atuou como roteirista, produtora e diretora em filmes premiados como “Vila Isabel” (1998) e “Marina” ( 2003), além de ter sido produtora executiva de “Madame Satã” (2002), de Karim Ainouz. Dirigiu videoclipes, fotografou, fez capas de disco e cenários de show para Adriana Calcanhotto, Toni Garrido, Gilberto Gil e Milton Nascimento. Como produtora e editora de livros de arte, na Ed. Cobogó que dirige, organizou publicações sobre Adriana Varejão, bem como sobre a pintura brasileira do século XXI, além de “Aranhando a superfície", com desenhos de Gerald Thomas, e a Coleção Dramaturgia, com mais de 30 títulos publicados:
Alguns dias depois de muitas colunas “cedidas a elas”, e dos milhares de depoimentos feitos nas redes sociais, ainda ecoam — e precisam ecoar! — as narrativas que tratam da desigualdade, da violência, das invasões de intimidade contra a mulher. E é preciso seguir lançando luz sobre tantas questões latentes e urgentes.
Aqui, na coluna do meu pai, conto pela primeira vez o que lembro ser o assédio mais remoto que sofri (esta é na verdade a segunda, a primeira foi numa incrível conversa com meu filho). Um amigo da família, quando eu tinha 8 anos, me sentou um dia em seu colo e percebi perplexa que ele roçava seu corpo no meu. Meu espanto de menina era também uma dúvida. Ele era legal, por que faria aquilo comigo? Tive medo e culpa. E recordo claramente como tudo se deu e o quanto me senti paralisada e assustada. Ouvi ao longo da vida muitas histórias mais terríveis que essa. Mas o mais comum entre nós mulheres é o silêncio, por constrangimento.
Ao ler tantos relatos surpreendentes de assédio, e com toda a discussão a respeito dos direitos da mulher sobre seu corpo, pensei muito sobre esse espantoso silêncio. Meu filho José, aos 13 anos, custa a acreditar que seja possível tamanha violência. Passamos horas falando sobre o que havíamos lido nas redes sociais e nos jornais, sobre como ele entendia tudo aquilo e sobre essa experiência tão delicada e violenta que eu, sua mãe, havia passado.
Sempre digo ao meu filho que nunca deixe que lhe façam nada que
não tenha conforto e confiança em fazer. E que nunca, jamais!, imponha o
mesmo a qualquer um. Pois o mais novo, o menos experiente, o
fisicamente mais fraco, por insegurança ou ingenuidade, poderia se
sujeitar ao que o outro propõe, sem perceber que não teria o direito de
determinar os limites. E é preciso dizer não. A seu tempo, ele
entenderia que o corpo é como nosso parque de diversões e temos todo o
direito de nos divertir com ele como quisermos. Sempre atentos ao desejo
e ao conforto do outro.
Dentre tantas narrativas de assédios e embates, uma história que li há algum tempo me pareceu um prólogo sintomático do que veio a ser escrito nos últimos dias. Uma atriz havia sido detida em Ipanema por fazer fotos sem blusa, e outra atriz propôs que todas as mulheres mostrassem seus seios ao mesmo tempo em protesto. Não deu certo. Ainda que houvesse quase dez mil confirmações no evento convocado pela internet, elas não apareceram e o protesto virou quase piada.
Mas uma de suas organizadoras escreveu um texto tão belo, na internet, que para mim valeu o episódio. Ana Rios contava ter crescido numa família carioca, de mãe e pai que lhe ensinaram que mulheres e homens eram iguais e que, fora o pênis de seu irmão, nada deveria ser diferente entre eles. Mas, ao entrar na puberdade, para sua surpresa, a mãe começou a pedir que tomasse cuidado com o que vestia. E numa tarde em que caminhava sozinha, ao se deparar com dois homens numa esquina, atravessou imediatamente a rua.
Esse ato impensado, automático, a fez perceber num susto que ela tinha “medo dos homens”. Essa conclusão terrível que se abateu sobre ela me fez pensar que eu, que nunca havia questionado a possibilidade de ter medo da figura masculina, talvez já tivesse também sofrido desse mal. Logo eu que me achava destemida, segura da minha força, intensificada justamente por minha posição de mulher. Lembrei as vezes em que mudei caminhos, apressei o passo, ou tive o coração disparado por me ver diante de um homem que poderia, quem sabe, me fazer mal. Pensei ainda em quantas mulheres não teriam tido sua sexualidade moldada por um medo que nem percebiam sentir, de tão naturalizado. Fiquei estarrecida e constrangida com essa perspectiva. Ao ler, nos últimos dias, tantas histórias, voltei ao relato da Ana e ele me pareceu um gesto inaugural sobre algo tenebroso que precisava ser combatido.
É preciso, de uma vez por todas, que o corpo seja um lugar de conforto, não de ameaça. E os homens têm um papel importante para criarmos essa nova ordem, um papel secundário, certamente, mas necessário. É preciso seguir narrando, questionando, propondo, determinando limites e expandindo outros. Mas não podemos nos restringir a falar entre nós mulheres — toda a sociedade deve estar envolvida no mesmo movimento de mudança. E será preciso paciência, alguns homens terão medo, se sentirão ameaçados. Portanto, temos de convidá-los e trazê-los para a discussão, os meninos e os adultos, com firmeza, mas com generosidade, para fazermos um imenso movimento, todos juntos, pessoas de todos os gêneros, pela liberdade, independência e autonomia sobre nossos corpos, nossas escolhas, nossos caminhos.
Dentre tantas narrativas de assédios e embates, uma história que li há algum tempo me pareceu um prólogo sintomático do que veio a ser escrito nos últimos dias. Uma atriz havia sido detida em Ipanema por fazer fotos sem blusa, e outra atriz propôs que todas as mulheres mostrassem seus seios ao mesmo tempo em protesto. Não deu certo. Ainda que houvesse quase dez mil confirmações no evento convocado pela internet, elas não apareceram e o protesto virou quase piada.
Mas uma de suas organizadoras escreveu um texto tão belo, na internet, que para mim valeu o episódio. Ana Rios contava ter crescido numa família carioca, de mãe e pai que lhe ensinaram que mulheres e homens eram iguais e que, fora o pênis de seu irmão, nada deveria ser diferente entre eles. Mas, ao entrar na puberdade, para sua surpresa, a mãe começou a pedir que tomasse cuidado com o que vestia. E numa tarde em que caminhava sozinha, ao se deparar com dois homens numa esquina, atravessou imediatamente a rua.
Esse ato impensado, automático, a fez perceber num susto que ela tinha “medo dos homens”. Essa conclusão terrível que se abateu sobre ela me fez pensar que eu, que nunca havia questionado a possibilidade de ter medo da figura masculina, talvez já tivesse também sofrido desse mal. Logo eu que me achava destemida, segura da minha força, intensificada justamente por minha posição de mulher. Lembrei as vezes em que mudei caminhos, apressei o passo, ou tive o coração disparado por me ver diante de um homem que poderia, quem sabe, me fazer mal. Pensei ainda em quantas mulheres não teriam tido sua sexualidade moldada por um medo que nem percebiam sentir, de tão naturalizado. Fiquei estarrecida e constrangida com essa perspectiva. Ao ler, nos últimos dias, tantas histórias, voltei ao relato da Ana e ele me pareceu um gesto inaugural sobre algo tenebroso que precisava ser combatido.
É preciso, de uma vez por todas, que o corpo seja um lugar de conforto, não de ameaça. E os homens têm um papel importante para criarmos essa nova ordem, um papel secundário, certamente, mas necessário. É preciso seguir narrando, questionando, propondo, determinando limites e expandindo outros. Mas não podemos nos restringir a falar entre nós mulheres — toda a sociedade deve estar envolvida no mesmo movimento de mudança. E será preciso paciência, alguns homens terão medo, se sentirão ameaçados. Portanto, temos de convidá-los e trazê-los para a discussão, os meninos e os adultos, com firmeza, mas com generosidade, para fazermos um imenso movimento, todos juntos, pessoas de todos os gêneros, pela liberdade, independência e autonomia sobre nossos corpos, nossas escolhas, nossos caminhos.
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
Esta noite encarnarei na tua TV
Série Zé do Caixão,
sobre "homem obcecado pelo cinema" e que "tem os dois pés metidos na
jaca da vida", como diz o ator Matheus Nachtergaele, que interpreta José
Mojica Marins, estreia nesta sexta, 13
Em uma sala de aula, o professor dá a ordem para os alunos. Estão todos em um avião, que começa a balançar. Depois de muita turbulência e gritos de terror, a aeronave cai. Todos estão mortos. Espera! Há uma sobrevivente. Que logo percebe que estaria melhor morta. Isso porque todos os outros passageiros viraram zumbis. Só de sutiã, a mulher agora tem que se salvar do ataque de mortos-vivos.
No final da década de 1950, José Mojica Marins iniciava seu caminho no cinema. Filho de artistas de circo, havia criado uma escola de atores no Brás, região central de São Paulo. Buscava, em meio aos alunos, aqueles que poderiam participar de sua primeira produção profissional. O critério era bem simples: quem pagasse mais teria um papel maior. Depois de montar seu elenco, que tinha como estrela uma stripper, partiu para o interior de São Paulo para filmar o primeiro faroeste do cinema brasileiro. Não havia quase nenhum dinheiro envolvido.
É a partir da impressionante cena do avião que tem início a série Zé do Caixão, primeira produção original do canal Space, que estreia hoje, às 22h30. A data está longe de ser aleatória. Para começar a contar a trajetória do mais maldito e cultuado cineasta brasileiro – que se lança no faroeste, consagra-se no terror, passeia pela pornochanchada e chega até o sexo explícito –, nada melhor do que uma noite de sexta-feira, 13.
É também impressionante a interpretação de Matheus Nachtergaele no papel do cineasta. Sem em momento algum mesmerizá-lo, o ator consegue, com sutileza e atenção aos detalhes, separar o criador (Mojica) da criatura (Caixão), ainda que os dois, em determinado momento, se misturem de forma definitiva.
Dirigida por Vitor Mafra e criada a partir do livro Maldito – A vida e o cinema de José Mojica Marins (1998), de André Barcinski e Ivan Finotti (que lançaram em 2001 documentário homônimo), a série traz seis episódios. Cada um deles corresponde a um filme da extensa produção (são mais de 20 longas) de Mojica.
SEM CARETICE “Não queríamos fazer um roteiro cinebiográfico daqueles clássicos e caretas, que começa com a infância do biografado e o acompanha por toda a vida. O tema central da série é a batalha de Mojica para realizar seus filmes, e como ele fez de tudo – tudo mesmo, incluindo vender objetos dos pais – para bancar as produções. É a história de um homem obcecado pelo cinema. Por isso, achamos que seria interessante contar a vida de Mojica paralelamente à produção de seis de seus filmes mais importantes”, afirma Barcinski, que assina o roteiro (em parceria com Ricardo Grynspan e o próprio Mafra).
Durante a primeira exibição pública da série – os dois episódios iniciais foram projetados durante a Mostra de São Paulo, no mês passado –, Nachtergaele afirmou: “Minha sensação é que o Zé está com os dois pés metidos na jaca da vida”. As dificuldades de Mojica para realizar seus filmes – e a maneira por vezes genial que encontrou para superar as adversidades – são exploradas na série com humor e uma bem cuidada reconstituição de época.
Aos 79 anos, o cineasta não se envolveu diretamente com a produção. Em 2014, Mojica sofreu duas paradas cardíacas, que o obrigaram a uma temporada de cinco meses na UTI. Hoje, faz diálise e sofre de enfisema pulmonar. “Nossa intenção era que ele fizesse uma ponta na série, mas não foi possível. Mas ele conseguiu visitar as filmagens por um dia e, apesar de fragilizado fisicamente, se mostrou muito feliz. Ele viu os episódios prontos e ficou particularmente emocionado com as cenas em que os pais aparecem”, diz Barcinski.
A temporada Zé do Caixão não se limita à série. O Museu da Imagem e do Som de São Paulo dedica a ele uma exposição. Já a biografia de Barcinski e Finotti, esgotada há muitos anos, ganha nova edição pela DarkSide Books, que chega hoje às livrarias. Para o relançamento, há um posfácio com os últimos anos de Mojica, novas imagens e a filmografia atualizada. São 200 páginas a mais, totalizando 666. Número autoexplicativo, em se tratando da história de José Mojica/Zé do Caixão.
ZÉ DO CAIXÃO
A série estreia hoje, às 22h30, no canal Space. Reprise aos domingos, às 23h, e às terças, às 21h50.
ACERVO TERRIR
A exposição À meia-noite levarei sua alma, que fica em cartaz até 10 de janeiro no MIS de São Paulo, reúne fotografias, figurinos, roteiros, objetos cênicos, trechos de filmes e imagens de bastidores das produções de Zé do Caixão. O material vem do acervo pessoal do próprio Mojica e de sua filha, Liz Marins, e também dos diretores Marcelo Colaiacovo, Paulo Sacramento e Kapel Furman, este último especialista em efeitos especiais, que trabalhou com Mojica em seu mais recente filme, Encarnação do demônio.
• BASEADO NUM FILME REAL
Confira os filmes de José Mojica Marins que inspiram os seis episódios da série. Cada um tem 45 minutos
» A sina do aventureiro (1958)
Primeiro filme profissional de Mojica, é considerado ainda o primeiro faroeste brasileiro. Após ser baleado, bandido é socorrido por duas jovens. Envolve-se com a filha de um fazendeiro, e se entrega à polícia por amor a ela. Além de fazer uma ponta, Mojica é o autor das letras das 10 canções da trilha.
» À meia-noite levarei sua alma (1963)
No primeiro filme do personagem Zé do Caixão, o coveiro é apresentado como um homem obcecado por gerar o filho perfeito. Como sua mulher não pode engravidar, ele estupra uma moça, que jura cometer suicídio para retornar dos mortos e levar a alma daquele que acabou com sua vida.
» Esta noite encarnarei no teu cadáver (1966)
Nesta sequência, Zé do Caixão continua em busca da mulher para gerar o filho perfeito. Rapta seis moças e as tortura. Acredita que só a mulher ideal sobreviverá. Só que ele mata uma mulher grávida e, atormentado pela culpa, sofre um pesadelo em que é levado para um inferno gelado, onde reencontra suas vítimas.
» O despertar da besta: Ritual dos sádicos (1969)
Considerada a ‘obra-prima’ de Mojica, foi censurado e exibido pela primeira vez somente em 1983. Psiquiatra injeta LSD em quatro voluntários para estudar os efeitos da droga associada à imagem de Zé do Caixão. O personagem aparece de maneira diferente nos delírios psicodélicos de cada um, misturando sexo, perversão e sadismo.
» Perversão (1978)
Playboy milionário que brutaliza todas as mulheres que conhece estupra uma jovem ingênua, arrancando a dentadas um de seus mamilos, que exibe como um troféu. Ele continua seduzindo mulheres até se apaixonar por uma estudante, que tem um plano de vingança.
» 24 horas de sexo explícito (1985)
Representante da fase pornô do cineasta. Três atores disputam quem consegue transar com o maior número de mulheres durante 24 horas. Traz aquela que é considerada a primeira cena de bestialismo do cinema nacional: uma atriz transa com um pastor-alemão.
Mariana Peixoto
Estado de MInas: 13/11/2015 Em uma sala de aula, o professor dá a ordem para os alunos. Estão todos em um avião, que começa a balançar. Depois de muita turbulência e gritos de terror, a aeronave cai. Todos estão mortos. Espera! Há uma sobrevivente. Que logo percebe que estaria melhor morta. Isso porque todos os outros passageiros viraram zumbis. Só de sutiã, a mulher agora tem que se salvar do ataque de mortos-vivos.
No final da década de 1950, José Mojica Marins iniciava seu caminho no cinema. Filho de artistas de circo, havia criado uma escola de atores no Brás, região central de São Paulo. Buscava, em meio aos alunos, aqueles que poderiam participar de sua primeira produção profissional. O critério era bem simples: quem pagasse mais teria um papel maior. Depois de montar seu elenco, que tinha como estrela uma stripper, partiu para o interior de São Paulo para filmar o primeiro faroeste do cinema brasileiro. Não havia quase nenhum dinheiro envolvido.
É a partir da impressionante cena do avião que tem início a série Zé do Caixão, primeira produção original do canal Space, que estreia hoje, às 22h30. A data está longe de ser aleatória. Para começar a contar a trajetória do mais maldito e cultuado cineasta brasileiro – que se lança no faroeste, consagra-se no terror, passeia pela pornochanchada e chega até o sexo explícito –, nada melhor do que uma noite de sexta-feira, 13.
É também impressionante a interpretação de Matheus Nachtergaele no papel do cineasta. Sem em momento algum mesmerizá-lo, o ator consegue, com sutileza e atenção aos detalhes, separar o criador (Mojica) da criatura (Caixão), ainda que os dois, em determinado momento, se misturem de forma definitiva.
Dirigida por Vitor Mafra e criada a partir do livro Maldito – A vida e o cinema de José Mojica Marins (1998), de André Barcinski e Ivan Finotti (que lançaram em 2001 documentário homônimo), a série traz seis episódios. Cada um deles corresponde a um filme da extensa produção (são mais de 20 longas) de Mojica.
SEM CARETICE “Não queríamos fazer um roteiro cinebiográfico daqueles clássicos e caretas, que começa com a infância do biografado e o acompanha por toda a vida. O tema central da série é a batalha de Mojica para realizar seus filmes, e como ele fez de tudo – tudo mesmo, incluindo vender objetos dos pais – para bancar as produções. É a história de um homem obcecado pelo cinema. Por isso, achamos que seria interessante contar a vida de Mojica paralelamente à produção de seis de seus filmes mais importantes”, afirma Barcinski, que assina o roteiro (em parceria com Ricardo Grynspan e o próprio Mafra).
Durante a primeira exibição pública da série – os dois episódios iniciais foram projetados durante a Mostra de São Paulo, no mês passado –, Nachtergaele afirmou: “Minha sensação é que o Zé está com os dois pés metidos na jaca da vida”. As dificuldades de Mojica para realizar seus filmes – e a maneira por vezes genial que encontrou para superar as adversidades – são exploradas na série com humor e uma bem cuidada reconstituição de época.
Aos 79 anos, o cineasta não se envolveu diretamente com a produção. Em 2014, Mojica sofreu duas paradas cardíacas, que o obrigaram a uma temporada de cinco meses na UTI. Hoje, faz diálise e sofre de enfisema pulmonar. “Nossa intenção era que ele fizesse uma ponta na série, mas não foi possível. Mas ele conseguiu visitar as filmagens por um dia e, apesar de fragilizado fisicamente, se mostrou muito feliz. Ele viu os episódios prontos e ficou particularmente emocionado com as cenas em que os pais aparecem”, diz Barcinski.
A temporada Zé do Caixão não se limita à série. O Museu da Imagem e do Som de São Paulo dedica a ele uma exposição. Já a biografia de Barcinski e Finotti, esgotada há muitos anos, ganha nova edição pela DarkSide Books, que chega hoje às livrarias. Para o relançamento, há um posfácio com os últimos anos de Mojica, novas imagens e a filmografia atualizada. São 200 páginas a mais, totalizando 666. Número autoexplicativo, em se tratando da história de José Mojica/Zé do Caixão.
ZÉ DO CAIXÃO
A série estreia hoje, às 22h30, no canal Space. Reprise aos domingos, às 23h, e às terças, às 21h50.
ACERVO TERRIR
A exposição À meia-noite levarei sua alma, que fica em cartaz até 10 de janeiro no MIS de São Paulo, reúne fotografias, figurinos, roteiros, objetos cênicos, trechos de filmes e imagens de bastidores das produções de Zé do Caixão. O material vem do acervo pessoal do próprio Mojica e de sua filha, Liz Marins, e também dos diretores Marcelo Colaiacovo, Paulo Sacramento e Kapel Furman, este último especialista em efeitos especiais, que trabalhou com Mojica em seu mais recente filme, Encarnação do demônio.
O cineasta José Mojica Marins, em Belo Horizonte, durante o lançamento de Encarnação do demônio, em 2008 |
• BASEADO NUM FILME REAL
Confira os filmes de José Mojica Marins que inspiram os seis episódios da série. Cada um tem 45 minutos
» A sina do aventureiro (1958)
Primeiro filme profissional de Mojica, é considerado ainda o primeiro faroeste brasileiro. Após ser baleado, bandido é socorrido por duas jovens. Envolve-se com a filha de um fazendeiro, e se entrega à polícia por amor a ela. Além de fazer uma ponta, Mojica é o autor das letras das 10 canções da trilha.
» À meia-noite levarei sua alma (1963)
No primeiro filme do personagem Zé do Caixão, o coveiro é apresentado como um homem obcecado por gerar o filho perfeito. Como sua mulher não pode engravidar, ele estupra uma moça, que jura cometer suicídio para retornar dos mortos e levar a alma daquele que acabou com sua vida.
» Esta noite encarnarei no teu cadáver (1966)
Nesta sequência, Zé do Caixão continua em busca da mulher para gerar o filho perfeito. Rapta seis moças e as tortura. Acredita que só a mulher ideal sobreviverá. Só que ele mata uma mulher grávida e, atormentado pela culpa, sofre um pesadelo em que é levado para um inferno gelado, onde reencontra suas vítimas.
» O despertar da besta: Ritual dos sádicos (1969)
Considerada a ‘obra-prima’ de Mojica, foi censurado e exibido pela primeira vez somente em 1983. Psiquiatra injeta LSD em quatro voluntários para estudar os efeitos da droga associada à imagem de Zé do Caixão. O personagem aparece de maneira diferente nos delírios psicodélicos de cada um, misturando sexo, perversão e sadismo.
» Perversão (1978)
Playboy milionário que brutaliza todas as mulheres que conhece estupra uma jovem ingênua, arrancando a dentadas um de seus mamilos, que exibe como um troféu. Ele continua seduzindo mulheres até se apaixonar por uma estudante, que tem um plano de vingança.
» 24 horas de sexo explícito (1985)
Representante da fase pornô do cineasta. Três atores disputam quem consegue transar com o maior número de mulheres durante 24 horas. Traz aquela que é considerada a primeira cena de bestialismo do cinema nacional: uma atriz transa com um pastor-alemão.
domingo, 8 de novembro de 2015
O QUE ACONTECEU COM AS LUTAS DE BETINHO?
Cl Ancelmo Gois - O Globo 08/11/2015
O sociólogo Herbert José de Souza, santificado seja o vosso nome, completaria 80 anos na última terça. Betinho, falecido em 1997, travou vários combates em diferentes direções. Aqui um balanço dessas lutas:
Ação da Cidadania contra a Fome
O relatório “O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo 2015”, da ONU, mostra que o Brasil está vencendo a fome.
Ética na Política
Movimento lançado em 1992, que culminou com o impeachment de Collor. De lá para cá, a situação piorou, acho, como mostra a Lava-Jato. A ironia suprema é que alguns capas pretas petistas, que aderiram à época, resolveram enricar às custas de empresas que dependem do governo.
Terra e Democracia
O sociólogo Herbert José de Souza, santificado seja o vosso nome, completaria 80 anos na última terça. Betinho, falecido em 1997, travou vários combates em diferentes direções. Aqui um balanço dessas lutas:
Ação da Cidadania contra a Fome

O relatório “O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo 2015”, da ONU, mostra que o Brasil está vencendo a fome.
Ética na Política

Movimento lançado em 1992, que culminou com o impeachment de Collor. De lá para cá, a situação piorou, acho, como mostra a Lava-Jato. A ironia suprema é que alguns capas pretas petistas, que aderiram à época, resolveram enricar às custas de empresas que dependem do governo.
Terra e Democracia

Em 1990, o movimento liderado por Betinho lutava pela reforma agrária. Hoje, a questão permanece, mas sem a dramaticidade daquela época. Muitos miseráveis do campo foram beneficiados por programas sociais e há ainda uma política de assentamentos.
Reage Rio
Em 1995, eram comuns longos sequestros de empresários e também tiroteios nas favelas. Uma passeata pela paz reuniu umas 300 mil pessoas na Av. Rio Branco. De lá para cá, esses sequestros cinematográficos diminuíram e surgiram as UPPs. Mas a sensação de insegurança, no Rio e no Brasil, cresceu.
Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids
Foi fundamental em1986 para mobilizar a sociedade e o governo contra uma doença que acabara de surgir e que levou à morte o próprio Betinho. De lá para cá, mudou o controle de sangue (Lei Betinho), e o Brasil foi o primeiro país do mundo a distribuir antirretrovirais gratuitamente. Hoje, entretanto, não são poucos os que acham que o governo anda desleixado em relação ao tema.
No Mais
Uma frase do Betinho, atual nestes tempos de sangria econômica: “Não podemos aceitar a teoria de que se o pé é grande e o sapato, pequeno, devemos cortar o pé. Temos de trocar de sapato.”
A cultura do crime - Cacá Diegues
- 8 nov 2015
- O Globo
- CACÁ DIEGUES Cacá Diegues é cineasta carlosdiegues2015@gmail.com
Estamos mudando para pior no Brasil em termos de convivência humana Oque há em comum entre a campanha racista, via rede social, contra Taís Araújo e o trabalho escravo no país, denunciado por Wagner Moura? E entre a violência que chega ao canibalismo em presídios brasileiros e o projeto de nossos deputados para dificultar e impedir o aborto das mulheres? Ou entre as mortes de PMs e crianças nas favelas, vítimas de tiros vindos dos dois lados, e a trapalhada aparentemente inocente do Simples Doméstico? E assim por diante.
Não é só a necessidade que gera o crime. O Brasil e o Rio de Janeiro já foram muito mais pobres do que são agora, e nossas taxas de violência sempre foram relativamente humanas. Nem sempre o motivo do assaltante é a fome. Se fosse assim, a incidência de crimes seria dominante em outras áreas, longe das cidades afluentes do Sul e do Sudeste. Não sei se esta é a mesma reação das novas gerações, mas eu, que conheci de perto um pouco desse passado, tenho a nítida impressão de que o Brasil, em termos de convivência humana, muda de cara. Para muito pior.
O que comparamos no primeiro parágrafo deste texto são descasos, ilícitos, delitos, contravenções e crimes, malfeitos frutos de uma nova cultura que alimenta um comportamento sem generosidade, sem confiança no outro, sem projeto comum. Essa cultura é fundada num suposto direito individual de satisfazer o desejo sem restrições, produzindo prazer, lucro e poder às custas dos outros. Através dela, o capitalismo financeiro e consumista sequestra a nossa vontade atendendo a nossos desejos.
É impossível proibir o sentimento de um desejo por mais sórdido e repulsivo que ele seja, do estupro à pedofilia, passando por todas as formas imagináveis de violência. Os mistérios do inconsciente humano prevalecem, ninguém é conscientemente responsável por seu próprio desejo. A responsabilidade de cada um é pelo controle da prática do desejo segundo uma ética pessoal, o direito dos outros e princípios acordados em cada sociedade. A vontade consciente existe para impedir o desejo indesejável.
A criação do Estado é um momento importante na história da
humanidade. Ele se responsabiliza pelo controle dos desejos criminosos,
nem que para isso seja necessário usar a força da qual possui o
monopólio. O Estado é o agente da sociedade em defesa da civilização.
Quando ele perde o controle disso, quando seus representantes incentivam
o mau comportamento pelos exemplos de violência que dão, o caos vence a
justiça, a arma se torna mais poderosa que a fala, a civilização
desfalece. Como deve agir o cidadão de um país onde, no Congresso
Nacional, um grupo de eminentes parlamentares é conhecido e se reconhece
como a “bancada da bala”?
Nossos homens públicos, em seus diferentes planos e poderes, estão viciados na cultura do pensamento mágico, criando argumentos e teses mirabolantes (às vezes simplesmente cínicas) que tentam justificar seus malfeitos provocados por desejos materiais. O deputado Luiz Sérgio, relator da CPI da Petrobras, jurou de mãos postas que nenhum homem público havia praticado qualquer ilícito contra a empresa estatal. E ainda aproveitou para atacar a colaboração premiada, a mais civilizada atenuação de pena para quem cometeu um crime. O deputado põe o pensamento mágico a seu serviço e, de tanto repeti-lo aos outros, acaba convencendose do que diz e vai dormir em paz. O juiz Sérgio Moro e seus companheiros são uns inventores de moda.
É esse pensamento mágico a serviço do crime que, em diversas dimensões (ele existe à direita e à esquerda), nos ajuda a esclarecer o que Kenneth Maxwell, brasilianista inglês, afirma sobre nós: a elite brasileira se comporta como se nada se passou e tudo é passado. Ou seja, a elite brasileira se nega a pensar que é culpada de alguma coisa, ela não se dá conta do real porque é incapaz de pensar no outro. Se tudo é passado, não há nada a fazer no presente.
_____________
São Paulo sempre gerou alguns de nossos melhores filmes, com cineastas, de Roberto Santos e Walter Hugo Khoury a Hector Babenco e Fernando Meirelles, que consagrariam o cinema paulista no mundo inteiro. Agora, o governador Geraldo Alckmin decidiu que São Paulo não precisa mais de cinema e está extinguindo o Programa de Fomento ao Cinema Paulista, gerido pelo estado. Justamente no momento em que a SPCine, empresa municipal criada por Juca Ferreira, atual ministro da Cultura, quando era secretário de Cultura da capital, começa a dar seu primeiros frutos.
Durante 12 anos, o Programa de Fomento ao Cinema Paulista viabilizou mais de cem filmes, inclusive nosso premiadíssimo sucesso e atual candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro, “Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert. Para os cineastas paulistas, “o fim do programa é uma decisão política que, se confirmada, vai interromper o fluxo de produção com consequências desastrosas para o cinema paulista”, como dizem em manifesto recente. Estamos juntos com eles.
Nossos homens públicos, em seus diferentes planos e poderes, estão viciados na cultura do pensamento mágico, criando argumentos e teses mirabolantes (às vezes simplesmente cínicas) que tentam justificar seus malfeitos provocados por desejos materiais. O deputado Luiz Sérgio, relator da CPI da Petrobras, jurou de mãos postas que nenhum homem público havia praticado qualquer ilícito contra a empresa estatal. E ainda aproveitou para atacar a colaboração premiada, a mais civilizada atenuação de pena para quem cometeu um crime. O deputado põe o pensamento mágico a seu serviço e, de tanto repeti-lo aos outros, acaba convencendose do que diz e vai dormir em paz. O juiz Sérgio Moro e seus companheiros são uns inventores de moda.
É esse pensamento mágico a serviço do crime que, em diversas dimensões (ele existe à direita e à esquerda), nos ajuda a esclarecer o que Kenneth Maxwell, brasilianista inglês, afirma sobre nós: a elite brasileira se comporta como se nada se passou e tudo é passado. Ou seja, a elite brasileira se nega a pensar que é culpada de alguma coisa, ela não se dá conta do real porque é incapaz de pensar no outro. Se tudo é passado, não há nada a fazer no presente.
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São Paulo sempre gerou alguns de nossos melhores filmes, com cineastas, de Roberto Santos e Walter Hugo Khoury a Hector Babenco e Fernando Meirelles, que consagrariam o cinema paulista no mundo inteiro. Agora, o governador Geraldo Alckmin decidiu que São Paulo não precisa mais de cinema e está extinguindo o Programa de Fomento ao Cinema Paulista, gerido pelo estado. Justamente no momento em que a SPCine, empresa municipal criada por Juca Ferreira, atual ministro da Cultura, quando era secretário de Cultura da capital, começa a dar seu primeiros frutos.
Durante 12 anos, o Programa de Fomento ao Cinema Paulista viabilizou mais de cem filmes, inclusive nosso premiadíssimo sucesso e atual candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro, “Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert. Para os cineastas paulistas, “o fim do programa é uma decisão política que, se confirmada, vai interromper o fluxo de produção com consequências desastrosas para o cinema paulista”, como dizem em manifesto recente. Estamos juntos com eles.
‘Porque estamos em 2015’ - Dorrit Harazim
- 8 nov 2015
- O Globo
- DORRIT HARAZIM Dorrit Harazim é jornalista
É mais fácil o presidente da Câmara tourear a cassação do seu mandato com os políticos do que abafar o movimento das mulheres
Desde sua vitória de arromba nas eleições gerais de três semanas atrás, o canadense Justin Trudeau tem sido um deleite para fotógrafos. O segundo primeiro-ministro mais jovem do país (43 anos) mergulhou com entusiasmo em selfies com mulheres portandoo hijab, ensaiou uma dança típica com hindus, fez refeições com conterrâneos muçulmanos.
Também a cerimônia de posse desta quarta-feira ofereceu novidades telegênicas. Um dos pontos altos foi a lúdica apresentação de canto gutural inuit, uma tradição do povo indígena da Região Ártica. Trata-se, na verdade, de uma competição: duas mulheres ou meninas esquimós, posicionadas cara a cara, emitem pela garganta sons de animais ou da natureza. Perde aquela que rir primeiro. Educadamente, os presentes à posse do 23º chefe de governo também riram e aplaudiram.
Para quem vê nisso tudo sinais alarmantes de barato populismo multicultural, Trudeau reservou uma surpresa: a composição de seu gabinete. Os ministeriáveis chegaram juntos à cerimônia no centenário Rideau Hall de Ottawa. Num mesmo micro-ônibus, nada de limusines pretas.
A grande maioria dos integrantes do novo ministério tem entre 35 e 50 anos. Dois são aborígenes. Três são seguidores da doutrina sikh, surgida na região do Punjab indiano séculos atrás. E 15 são mulheres — metade exata do gabinete de 30 membros. “Por que considera esse equilíbrio de gênero tão crucial?”, quis saber a mídia logo após o anúncio. Trudeau pareceu espantado com a pergunta, pela obviedade da resposta: “Porque estamos em 2015”, disse apenas, antes de passar para questões mais complexas. Resumia assim o pensamento de um homem de seu tempo. No atual governo de Dilma Rousseff, aparelhado 275 dias após sua reeleição, o placar é de 27 homens para quatro mulheres.
No caso canadense, não se trata de uma questão apenas numérica. Ela também pretende ser qualitativa. Os ministérios de Comércio Internacional, da Justiça, das Instituições Democráticas e da Mudança Climática e Meio Ambiente estão entre as pastas agora comandadas por mulheres. Uma delas, Maryan Monsef, chegou ao Canadá aos 11 anos de idade, refugiada do Afeganistão.
No vasto país do Hemisfério Norte de apenas 36 milhões de habitantes, prevalece a compreensão de que a moderna nação-estado se construiu através de sucessivas ondas migratórias. Desde os egressos da Guerra de Independência americana, primeiros a receber do país vizinho um quinhão de terra, até os refugiados dos conflitos, desastres naturais e a fome de hoje, o Canadá se orgulha da tradição humanitária.
Nesse sentido, o governo conservador de Stephen Harper, que
antecedeu a Trudeau e se manteve no poder por quase uma década, foi um
ponto fora da curva. Centralizador, polemista, político de estilo
combativo e autoritário, Harper considerava equivocado “derramar ajuda
sobre gente que já morreu”, referindose aos despossuídos em busca de um
recomeço de vida.
Foi surrado nas urnas em 2015 por não ter compreendido seu tempo nem sua gente, que votou em peso — 68% do eleitorado compareceram, apesar de o voto ser facultativo.
(Também Eduardo Cunha pretende não ver a dimensão do #AgoraÉQueSãoElas e a força do ronco feminino contra o seu projeto que dificulta o acesso ao aborto legal para vítimas de estupro. É mais fácil o presidente da Câmara tourear a cassação do seu mandato com os políticos do que abafar o movimento das mulheres).
“Meu governo é a cara do Canadá”, pode dizer Trudeau, “e a maioria sinalizou que é hora de uma mudança real”. O seu novo ministro da Defesa, por exemplo, usa turbante, barba e bigodão sikh, e nasceu na Índia. Mas não é por isso que o tenente-coronel Harjit Sajjan mereceu a pasta. Veterano de três temporadas na Guerra do Afeganistão e uma no conflito dos Balcãs dos anos 1990, o condecorado Sajjan pretende destrinchar o Canadá da reação ao ataque do 11 de Setembro que há 15 anos envenena a geopolítica mundial.
No dia da posse, Justin Trudeau foi mais uma vez perguntado se planejava perpetuar o legado do pai — Pierre Elliott Trudeau foi o premier mais pop e popular que o Canadá já teve e governou o país por 15 anos no século passado. “Meus pensamentos hoje não são para meu pai — sorry, Dad — mas para que meus próprios filhos e as crianças deste país tenham um futuro melhor”, respondeu o filho. Porque estamos em 2015.
Pergunta a Pedro Paulo Carvalho, secretário de Coordenação do Governo carioca e delfim do prefeito Eduardo Paes à sua sucessão nas eleições do próximo ano: em que órbita ele vive para classificar de “descontrole” a agressão à sua ex-mulher (à época ainda casados)? Pelo depoimento da acusadora feito em 2010 à Polícia Civil, ela foi derrubada no chão, agredida com chutes, socos e empurrões. Também teve um dente quebrado.
Porque estamos em 2015 isso se enquadra na Lei Maria da Penha.
Foi surrado nas urnas em 2015 por não ter compreendido seu tempo nem sua gente, que votou em peso — 68% do eleitorado compareceram, apesar de o voto ser facultativo.
(Também Eduardo Cunha pretende não ver a dimensão do #AgoraÉQueSãoElas e a força do ronco feminino contra o seu projeto que dificulta o acesso ao aborto legal para vítimas de estupro. É mais fácil o presidente da Câmara tourear a cassação do seu mandato com os políticos do que abafar o movimento das mulheres).
“Meu governo é a cara do Canadá”, pode dizer Trudeau, “e a maioria sinalizou que é hora de uma mudança real”. O seu novo ministro da Defesa, por exemplo, usa turbante, barba e bigodão sikh, e nasceu na Índia. Mas não é por isso que o tenente-coronel Harjit Sajjan mereceu a pasta. Veterano de três temporadas na Guerra do Afeganistão e uma no conflito dos Balcãs dos anos 1990, o condecorado Sajjan pretende destrinchar o Canadá da reação ao ataque do 11 de Setembro que há 15 anos envenena a geopolítica mundial.
No dia da posse, Justin Trudeau foi mais uma vez perguntado se planejava perpetuar o legado do pai — Pierre Elliott Trudeau foi o premier mais pop e popular que o Canadá já teve e governou o país por 15 anos no século passado. “Meus pensamentos hoje não são para meu pai — sorry, Dad — mas para que meus próprios filhos e as crianças deste país tenham um futuro melhor”, respondeu o filho. Porque estamos em 2015.
Pergunta a Pedro Paulo Carvalho, secretário de Coordenação do Governo carioca e delfim do prefeito Eduardo Paes à sua sucessão nas eleições do próximo ano: em que órbita ele vive para classificar de “descontrole” a agressão à sua ex-mulher (à época ainda casados)? Pelo depoimento da acusadora feito em 2010 à Polícia Civil, ela foi derrubada no chão, agredida com chutes, socos e empurrões. Também teve um dente quebrado.
Porque estamos em 2015 isso se enquadra na Lei Maria da Penha.
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