A mitológica relação entre bebida e arte sempre existiu.Agora, ensaísta britânica investiga como o alcoolismo afetou a vida de grandes escritores.
Por José Castello, para o Valor, de Curitiba 12/02/2016
São muitos os grandes escritores que travaram uma difícil luta contra o álcool. Ernest Hemingway, Tennessee Williams, Patricia Highsmith, Truman Capote, Dylan Thomas, Marguerite Duras, Jack London, Elizabeth Bishop, Raymond Chandler — a lista, proposta pela ensaísta Olivia Laing em “Viagem ao Redor da Garrafa” (trad.: Hugo Langone, Rocco, 320 págs., R$ 44,50), é eloquente. Falando a respeito de Edgar Allan Poe, o poeta Charles Baudelaire disse, certa vez, que “o álcool se tornara uma arma para matar algo dentro dele mesmo,um verme que não queria morrer”. O alcoolismo surge, a princípio, como um recurso de defesa pessoal. Que logo se volta contra aquele que se defende. Defende de quê? O que é esse “verme que não queria morrer”de que falava Baudelaire?
“Quatro dos seis escritores americanos que venceram o Nobel de Literatura eram alcoólatras”, lembra Olivia. As causas do alcoolismo, porém, são esquivas. Na verdade, não existe um único sistema, um padrão fixo, que explique por que uma pessoa se torna alcoólatra. Esse é justamente o grande problema do livro de Olivia Laing: ela luta, desesperadamente, para chegar a uma “explicação”. Só que não existe uma explicação única e é isso o que seu livro, apesar das boas intenções da autora, termina por mostrar.
Foram muitas as grandes parcerias de copo — como o laço de amizade que uniu Ernest Hemingway e Scott Fitzgerald. Esses vínculos afetivos, contudo, não asseguram uma origem comum. Em seu livro, Olivia procura características psicológicas que uniriam os escritores alcoólatras. Uma mãe autoritária e um pai fraco.Um forte autodesprezo e a sensação contínua de inadequação. A tendência à promiscuidade. Os conflito quanto à própria sexualidade. “Vidas assim parecem trágicas, parecem pertencer a pródigos e dissolutos”, diz a autora.
Contudo, tudo se torna simplista demais. Todos experimentamos,em algum momento da vida, problemas com nossos pais. Todos nos sentimos, em algumas situações, deslocados e inadequados. A sexualidade é, inevitavelmente, um terreno cheio de dúvidas. Não: não dá para traçar, como Olivia se esforça para fazer, um “retrato do alcoólatra”. A moldura sempre se quebra.
Ela se concentra na vida de seis autores: F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Tennessee Williams, John Cheever, John Berryman e Raymond Carver. A arbitrariedade inevitável dessa escolha traz um primeiro problema: o que garante que esses seis escritores dividem um mesmo padrão? Um vínculo entre eles seria o amor pelas viagens. A própria Olivia parece sofrer desse “vício”: seu livro, no fim das contas, é uma grande reportagem de aventura. Em uma tentativa inglória para reconstruir o passado, ela repisa os passos e os deslocamentos de seus biografados. Tenta incorporá-los — como se só através da possessão uma respost pudesse se formar.
O próprio Tennessee Williams tentou generalizar: “Quase todos os escritores americanos têm problemas com o álcool porque há na escrita uma tensão enorme”. Defrontados com esse estado de ameaça contínua, a maior parte dos escritores deseja desaparecer do mundo — e o álcool se oferece como uma borracha capaz de apagar os vínculos com o real. Ansiedade, a ameaça das fobias e mesmo da loucura, a timidez justificariam o desejo de desaparecer. Mas só entre os que se tornam alcoólatras?
A autora sai em busca de psiquiatras e outros especialistas que a ajudem a encontrar “explicações científicas”. Narra sua aventura na primeira pessoa, o que torna a leitura de seu livro, sem dúvida, mais atraente. Busca as inevitáveis raízes da infância. Sobre John Cheever, por exemplo, ela escreve: “Foi um menino franzino e solitário,uma criança um pouco afeminada”, que não conseguia se livrar da sensação de que não passava de um impostor. Buscando outro padrão, Olivia constata que tanto Fitzgerald como Hemingway sofriam de insônia. Mede a intensidade do sofrimento psicológico “a partir dos esforços feitos para evitá-lo”. A própria literatura faria parte desses esforços.
Há sempre, porém, a presença do inesperado. Como quando, depois de uma bebedeira, Fitzgerald fica observando Hemingway “com olhos de pássaro sem nenhuma expressão”. O álcool produz, algumas vezes, pensamentos tenebrosos e aniquiladores. Imagens que não se classificam.
Constata Olivia que o desejo de beber costuma vir encoberto por “desculpas, por omissões, por mentiras descaradas”. Seu biografados experimentam, em um momento ou em outro,o desejo de se esconder “sob um casaco pesado”. Muitos deles defendem a existência de aspectos positivos no alcoolismo. Fitzgerald disse certa vez: “A bebida aumenta o sentir. Quando bebo, minhas emoções crescem”. Hemingway ajuda o amigo: “Quando as coisas estavam bem ruins, eu sempre conseguia tomar um trago e logo as coisas ficavam bem melhores”.
Os sentimentos estranhos, e inclassificáveis, contudo, se tornam obstáculos para o evidente desejo de controle que move o projeto da autora. Cheever, por exemplo, falava “da estranha impressão” de que estava “em dois lugares ao mesmo tempo”. Olivia trat de relativizar essa imagem: “Como biógrafos, não devemos confiar inteiramente e Cheever”. O próprio poeta, em certo momento, escreve: “Devo convencer-me de queescrever não é uma vocação autodestrutiva”.
Para furar a espessa cortina que envolve o alcoolismo, Olivia persegue mecanismos psicológicos regulares, na esperança de que eles organizem melhor suas ideias. Sobre Tennessee Williams, por exemplo, diz ser “um clássico caso de alcoólatra que tenta machucar a si mesmo machucando aqueles que lhes são mais caros”. Contudo, em seus “Diários”, o próprio Williams se pergunta: “Porventura morri por minhas próprias mãos ou fui destruído lenta e brutalmente por um grupo conspiratório?”
Enquanto luta para se aproximar da verdade, o que Olivia evita é a própria complexidade dessa verdade. Quando sua mulher o deixou, John Berryman já estava destruído “pela ansiedade, pela bebedeira, pela promiscuidade e por sua culpa venenosa”. A culpa, de fato, parece ser uma constante, mas também ela se refere a motivações e fundamentos muito diversos entre si. Outro fator repetitivo parece ser a negação, isto é, a recusa a admitir que existe um problema. E também o que Olivia chama de “ilusões sinceras”, isto é, “as ilusões em que o alcoólatra genuinamente acredita”. Mas cada um tem as próprias ilusões e os próprios artifícios.
A autora se recorda de Saul Bellow que, no prefácio de “Recuperação”, romance de Berryman, nos diz que “a inspiração continha uma ameaça de morte, ao escrever ele sucumbia”. Vida e morte estão, de fato, interligados e, ao mesmo tempo, alimentam e destroem os processos criativos. Não são elos fáceis de capturar.Avida, por mais coerente que pareça, é sempre mais incoerente e densa que qualquer padrão.
sábado, 13 de fevereiro de 2016
À MESA COM O VALOR - JORGE MAUTNER - O criador do Kaos
À MESA COM O VALOR - JORGE MAUTNER
O criador do Kaos
A liberdade de expressão e o otimismo em relação ao Brasil são marcas do poeta e músico, que diz: “Ou o mundo se ‘brasilifica’ ou vira nazista”.
Por Tom Cardoso, para o Valor, do Rio 12/02/2016
Anda meio deprimido? Almoce com Jorge Mautner. Zika vírus, Samarco, Lava-Jato, recessão, desemprego, inflação? Nada é capaz de diminuir o otimismo do músico e poeta pelo Brasil. Não, ele não é uma versão real da Velhinha de Taubaté, a ingênua e crédula personagem criada por Luis Fernando Verissimo durante o mandato do presidente João Baptista Figueiredo (1979-1985), transformada em celebridade por ser a única a acreditar no governo.
Nada do que Mautner diz é raso, desprovido de argumento. Em cinco minutos de conversa, ele já havia citado frases do escritor e músico indiano Rabindranath Tagore (“A civilização superior do amor nascerá do Brasil”) e do filósofo francês Jacques Maritain (“O único lugar onde a justiça e a liberdade poderão aflorar juntas é o Brasil”) para corroborar sua tese, cada vez mais incompreendida, de que somos não só um país bem-sucedido como devemos dar exemplos aos outros. Aliás, Mautner criou o seu aforismo sobre o tema, já transformado em mantra e em letra de música: “Ou o mundo se ‘brasilifica’ ou vira nazista”.
O músico chega ao restaurante Degrau, no Leblon, ao lado de João Paulo Reys, que organizou, com Maria Borba, o seu novo livro, “Kaos Total” (Companhia das Letras). Trata-se de uma compilação de letras, textos, poesias, fragmentos de prosa poética (muitos deles inéditos) e pinturas naïf (uma faceta pouco conhecida de Mautner) que ajuda a explicar as razões e os motivos para tanto otimismo. O livro vai ser lançado em São Paulo, na quarta-feira, no Museu da Imagem e do Som (MIS), às 19 horas.
Questionado sobre se o Brasil não corre o risco de também caminhar no sentido oposto à sua tese, com o crescimento de casos de intolerância — ali mesmo, no Leblon, Chico Buarque foi hostilizado por um grupo de jovens, e a articulação, por exemplo, da chamada bancada da bala para aprovar no Congresso Nacional mudanças no estatuto do desarmamento.
Mautner se incomoda. É um otimista que não gosta de reducionismos. “É preciso levar em conta as simultaneidades. Se você quer levar para esse lado, não vamos nem começar”, diz. “Ninguém aqui é criança, né?” Estamos na última mesa do segundo andar do restaurante. O garçom chega com os cardápios. O músico recusa o seu. “Quero uma torta alemã”, diz, pedindo a sobremesa, uma das especialidades da casa. Todos estranham sua decisão de começar o almoço pelo fim. Mas estamos falando de Jorge Mautner. É impossível doutrinar o filho de um judeu austríaco com uma católica iugoslava, criado no candomblé pela babá, que, aos 14 anos, viu o seu singelo quarto de criança transformado num boteco. Pela mãe.
“Ela disse que precisava ‘humanizar’ o filho e montou um bar no meu quarto com uísque, cachaça e gim”, conta. “O que eu aprontava no meu quarto não se fazia na época nem nos bares de Greenwich Village [bairro nova-iorquino habitado por malucos de todos os tipos, ponto de ebulição da literatura beatnik]”, compara Mautner, orgulhoso de suas transgressões juvenis.
O inocente adolescente tornou-se um ébrio e começou a dar à luz seus devaneios. Foi no seu etílico quarto que ele gestou o primeiro livro, “Deus da Chuva e da Morte” (vencedor do Prêmio Jabutiem1962), os seguintes “O Vigarista Jorge”, “Fragmentos de Sabonete”, “Panfletos da Nova Era” e as bases do Partido do Kaos, sua profissão de fé. “Sabe quais são as quatro definições para K.A.O.S?”, pergunta Mautner, para em seguida responder: “Kamaradas Anarquistas Organizando-se Socialmente; Kristo Ama Over Sonora; e Kolofé, Axé, Oxóssi e Saravá”, explica. E a quarta? “Você mesmo inventa.” Não há dúvida: dona Anna Illichi, mãe de Mautner, cumpriu com louvor a missão de humanizar o filho. “Minha educação foi a mais livre e abrangente possível.”
A torta chega. “É uma das coisas boas da Alemanha”, comenta Mautner. É sua primeira refeição do dia. A indisciplina alimentar parece não ter tido efeitos mais imediatos na sua saúde. Mautner, que acaba de
completar 75 anos, mantém o mesmo peso há anos, desde que começou a praticar tai chi chuan em 1958, hábito que segue até hoje, alternando sessões de alongamento e de Pilates, enquanto assiste a noticiários na televisão. “Eu faço exames e nunca encontram nada. Samurai tem dessas coisas”, brinca. “Eu acho que consigo sobreviver um pouco mais. Mesmo assim, tenho inveja de vocês, que vão viver mais de 400 anos”. Reys espanta-se com a previsão. “É isso mesmo.A medicina e a ciência já estão próximas de descobrir a cura para todas as doenças.”
A despeito do bar montado pela sua mãe, Mautner nunca teve sérios problemas com álcool. Aliás, teve, mas foi passageiro. Deixou de beber depois de uma experiência traumática, vivida no seu Greenwich Village particular. Embriagado, agrediu um amigo com faca, por causa de uma discussão sobre futebol.O Corinthians, seu time do coração, havia tomado uma goleada do São Paulo, pelo qual torcia o amigo. “Eu disse: ‘Não tripudia! Não tripudia! Ele continuou provocando e por pouco eu não o matei”, conta. “A faca quase chegou ao fígado dele.”
Mautner já comeu metade da torta alemã. O garçom avisa que o polvo temperado com molho de vinho branco e ervas finas, acompanhado de arroz com brócolis, dá para duas pessoas. Se a experiência de Mautner com o álcool foi breve, interrompida pelos acontecimentos, com as drogas ela se prolongou por muitos anos até que decidisse, de forma voluntária, frequentar os Narcóticos Anônimos (NA). “Cheguei à reunião no NA de mãos dadas com a minha filha, Amora [Mautner], e com o [diretor de televisão] Dennis Carvalho”, conta. Como o transgressor Mautner, o “Vigarista Jorge”, o artista que entrara e saíra de todas as estruturas, se viu de repente “engessado” numa reunião dos Narcóticos Anônimos, cumprindo todos os protocolos e dividindo suas frustrações e dramas com estranhos? “Ali ninguém é mais do que ninguém. Para a morte e para as drogas da morte somos todos doentes máximos”, diz o músico. Ele passa a cantarolar “Coisa Assassina”, o seu libelo contra as drogas, musicado por Gilberto Gil: “Maldita seja/ Essa coisa assassina/ Que se vende em quase toda esquina/ E que passa por crença, ideologia, cultura, esporte/ E no entanto é só doença,monotonia da loucura e morte”.
Hoje, um de seus únicos vícios é comer torta alemã. Mautner pede um café e uma segunda torta. Ele passa a falar com imenso orgulho sobre as façanhas e qualidades de Amora, que teve com a historiadora Ruth Mendes de Sousa, com quem não está mais casado. Amora é diretora de “A Regra do Jogo”, novela das9da Rede Globo. No novo livro, dedicado a nomes como o artista plástico José Roberto Aguilar, a ambientalista Dulce Maia de Souza e o físico Mário Schenberg (1914-1990), Mautner faz um agradecimento especial à filha e à família: “Eu sou o pequeno planeta, que gira em órbita sem cessar ao redor de três estrelas que me irradiam vida: a minha esposa Ruth,a minha filha Amora e minha netinha Julia”.
“Ela [Amora] é impressionante. Além de diretora artística sensível, ela cuida de toda parte executiva, tem habilidade para exercer as duas funções”, afirma. “Eu, por exemplo, jamais tive qualquer aptidão executiva, tanto que só consegui lançar esta antologia por causa do esforço de dois grandes e jovens pesquisadores, que se meteram a fazer o que eu jamais conseguiria: fuçar o meu legado e organizá-lo.”
Mautner começa a devorar a segunda torta alemã da tarde. Em entrevista ao Valor, Amora reconheceu a enorme influência que o pai exerceu em sua vida, sobretudo na maneira de encarar as coisas. “Somos
muito diferentes, mas parecidos em traços importantes, que moldam o meu jeito de viver até hoje. Somos livres. Não nos importamos com a opinião dos outros”, disse.
Mautner sorri, curioso para saber mais. Na mesma entrevista, ela também ressaltou as diferenças entre os dois: “Ele é satisfeito com a vida interna dele, passa boa parte do dia lendo, meditando. Eu sou caótica, difícil me fazer parar”. Abismo, aliás, que era muito maior anos atrás, no auge do “desbunde” do pai, que coincidiu com a adolescência de Amora.
Um dos pontos do documentário “ Jorge Mautner, o Filho do Holocausto” (2012), dirigido por Pedro Bial e Heito D’Alincourt, se dá no momento em que Amora revela que morria de vergonha do pai, quando ele ia buscá-la na escola—um tradicional colégio carioca—usando apenas uma sunga.
“Hoje eu me arrependo, claro, tinha que ter percebido que aquilo que parecia algo tão natural para mim na verdade a incomodava muito”, diz Mautner. Ele diz que segue cometendo erros e eles são necessários. Sempre. “A imperfeição é a medida do ser humano.A perfeição é nazista.”
O músico e poeta aproveita a deixa para falar novamente sobre o Brasil e o seu otimismo sem fim. Mautner não se convence nem com a lista de recentes acontecimentos no país, que é capaz de tornar o mais crédulo dos homens em um cético contumaz. Seu tom de voz é professoral: “Para salvar a democracia, para salvar o Brasil, para salvar o povo brasileiro, veio o Sergio Moro com a Lava-Jato”.
Seria uma ironia? Não é. Para Mautner, seguimos dando o exemplo para o mundo. Mesmo quando a barra pesou — e ele foi uma das muitas vítimas —, como no regime militar (1964-1985), a perda da democracia,
segundo o músico, se deu pela vontade de uma minoria. “O golpe foi dado por apenas 5% do Exército”, afirma. Ele próprio diz ter vivido uma situação curiosa: foi protegido pela cúpula do Segundo Exército assim que o general Castello Branco assumiu a Presidência. Foi levado para uma fazenda em Barretos (SP) para não correr o risco de ser morto pelo CCC, o Comando de Caça aos Comunistas. “Eles disseram que eu, filiado ao PC do B [Partido Comunista do Brasil], colunista do combativo jornal ‘Última Hora’, encabeçava a lista de procurados pelo CCC e, por ser um patriota,um grande escritor, tinham o dever de me proteger.”
Mautner no Degrau, sobre sua adolescência: “O que eu aprontava no meu quarto não se fazia na época nem nos bares de Greenwich Village”
O polvo com ervas finas é servido. Mautner está quase no fim da segunda torta alemã. Pedirá a terceira? Ele prefere um café carioca. Mas o que ele fez durante o tempo vivido em Barretos, hóspede, aos 23 anos, dos militares? “Fiquei conversando sobre história do Brasil e filosofia alemã. Os oficiais eram gente da maior categoria, muito cultos.” Mesmo sendo tratado como hóspede, Mautner só foi “liberado” para voltar a São Paulo três meses depois e mesmo assim sob a condição de não escrever nada que fosse considerado ofensivo ao governo.Não cumpriu as ordens e escreveu, logo em seguida, “Vigarista Jorge”, publicado em 1965, logo proibido pela censura.
O que se seguiu adiante é narrado de forma resumida por Mautner. Mesmo com visto para morar em Cuba, ele, tratado de hóspede a inimigo pelos militares, preferiu exilar-se nos Estados Unidos, onde trabalhou na Unesco até virar secretário literário do poeta americano Robert Lowell. Sua volta para o Brasil coincidiu com o período de abertura política, fase em que se aproximo de Golbery do Couto e Silva (1911-1987), ministro da Casa Civil de 1974 a 1981, tido como um dos ideólogos do golpe de 64.
Pouco se falou até hoje sobre os encontros, quase secretos, de Golbery com parte da classe artística, que incluía, além de Mautner, nomes como os cineastas Júlio Bressane e Glauber Rocha. Este chegou a enviar para a revista “Visão”, em 1974, uma carta em que chama Golbery de “Gênio da Raça”, provocando a ira e a perseguição eterna de setores da esquerda. Mautner não chega a tanto, mas diz, sem rodeios, que os seus inimigos eram outros.
Mautner pede mais um café carioca. Ele afirma, sem receio de ser patrulhado, que no meio da década de 1970 estava muito próximo ideologicamente de um general como Golbery, para ele um legalista, o grande catalisador do processo de redemocratização, que terminaria na Lei da Anistia, em 1979, do que de alguns artistas descolados que insistiam em apoiar a luta armada ou estavam ligados a movimentos e ideais extremistas — dando cada vez mais motivos para os generais da linha dura frearem o processo de redemocratização.
“A contracultura sempre foi nazista. Por aqui, boa parte da esquerda achava que direitos humanos era coisa de burguês”, diz Mautner. “Posso dar aqui vários exemplos.” Ele cita, de fato, vários nomes de peso da cultura brasileira, incluindo um ícone do rock brasileiro e um escritor contemporâneo, expoentes da Sociedade Alternativa, movimento inspirado nos escritos de Aleister Crowley (1875-1947). “Crowley era um nazista de carteirinha”, observa Mautner.
Amigo de fé de Caetano Veloso e Gilberto Gil, Mautner, que voltou do exílioseis meses antes dos dois baianos, não contou à dupla, na época, sobre os seus encontros com Golbery, mas sabia que, sem eles, dificilmente poderia liderar sozinho um movimento pela redemocratização do país. “Eles eram os protagonistas”, afirma. Mautner relata que forçou o máximo para que Caetano e Gil voltassem logo do exílio, contrariando a recomendação de lideranças da esquerda, entre elas a da socióloga e ativista política Violeta Arraes (1926-2008). “Ela dizia que era preciso ‘dramatizar’ o máximo possível a ditadura e manter Caetano e Gil em Londres fazia parte dessa estratégia.”
Quando Gil e Caetano voltaram e, anos depois, já no processo de abertura política, Gil gravou uma versão (“Não Chore Mais”) para “No Woman, no Cry”, de Bob Marley, citando os amigos presos, “amigos sumindo assim”, a linha-dura do Exército, segundo Mautner, armou (em julho de 1976) para que ele fosse preso por porte de maconha, em Florianópolis. “A imprensa todinha ficou do lado de Gil, incluindo os grandes jornais e redes de televisão, uma prova de que interessava a uma parte mínima da sociedade, incluindo as próprias Forças Armadas, e setores da esquerda radical, manter um regime autoritário por muito tempo”, afirma. “Nossa tradição não é bélica. Somos o país do marechal [Cândido] Rondon [1865-1958], um militar conhecido pela seguinte frase: ‘Matar jamais, morrer se for preciso’.”
São quase 4 da tarde. Não há mais nenhuma mesa ocupada na parte de cima do Degrau. Mautner atende gentilmente ao pedido da fotógrafa para que todos se desloquem para a mesa ao lado, onde a luz e os ângulos são mais convidativos. A fotógrafa, que acabara de chegar, pergunta pelo prato de Mautner— é preciso, como é praxe nesta seção, fazer um retrato dele. O músico solta uma gargalhada: “Eu comecei e acabei pela sobremesa”. O garçom avisa que ainda há um pouco de polvo e que pode montar o prato para o retrato, desde, claro, avisa o repórter, que ele seja comido pelo entrevistado. “Ah, não estou com vontade”, afirma Mautner, que não demora a sugerir uma solução para o impasse: “Posso pedir mais uma torta alemã?”
O criador do Kaos
A liberdade de expressão e o otimismo em relação ao Brasil são marcas do poeta e músico, que diz: “Ou o mundo se ‘brasilifica’ ou vira nazista”.
Por Tom Cardoso, para o Valor, do Rio 12/02/2016
Anda meio deprimido? Almoce com Jorge Mautner. Zika vírus, Samarco, Lava-Jato, recessão, desemprego, inflação? Nada é capaz de diminuir o otimismo do músico e poeta pelo Brasil. Não, ele não é uma versão real da Velhinha de Taubaté, a ingênua e crédula personagem criada por Luis Fernando Verissimo durante o mandato do presidente João Baptista Figueiredo (1979-1985), transformada em celebridade por ser a única a acreditar no governo.
Nada do que Mautner diz é raso, desprovido de argumento. Em cinco minutos de conversa, ele já havia citado frases do escritor e músico indiano Rabindranath Tagore (“A civilização superior do amor nascerá do Brasil”) e do filósofo francês Jacques Maritain (“O único lugar onde a justiça e a liberdade poderão aflorar juntas é o Brasil”) para corroborar sua tese, cada vez mais incompreendida, de que somos não só um país bem-sucedido como devemos dar exemplos aos outros. Aliás, Mautner criou o seu aforismo sobre o tema, já transformado em mantra e em letra de música: “Ou o mundo se ‘brasilifica’ ou vira nazista”.
O músico chega ao restaurante Degrau, no Leblon, ao lado de João Paulo Reys, que organizou, com Maria Borba, o seu novo livro, “Kaos Total” (Companhia das Letras). Trata-se de uma compilação de letras, textos, poesias, fragmentos de prosa poética (muitos deles inéditos) e pinturas naïf (uma faceta pouco conhecida de Mautner) que ajuda a explicar as razões e os motivos para tanto otimismo. O livro vai ser lançado em São Paulo, na quarta-feira, no Museu da Imagem e do Som (MIS), às 19 horas.
Questionado sobre se o Brasil não corre o risco de também caminhar no sentido oposto à sua tese, com o crescimento de casos de intolerância — ali mesmo, no Leblon, Chico Buarque foi hostilizado por um grupo de jovens, e a articulação, por exemplo, da chamada bancada da bala para aprovar no Congresso Nacional mudanças no estatuto do desarmamento.
Mautner se incomoda. É um otimista que não gosta de reducionismos. “É preciso levar em conta as simultaneidades. Se você quer levar para esse lado, não vamos nem começar”, diz. “Ninguém aqui é criança, né?” Estamos na última mesa do segundo andar do restaurante. O garçom chega com os cardápios. O músico recusa o seu. “Quero uma torta alemã”, diz, pedindo a sobremesa, uma das especialidades da casa. Todos estranham sua decisão de começar o almoço pelo fim. Mas estamos falando de Jorge Mautner. É impossível doutrinar o filho de um judeu austríaco com uma católica iugoslava, criado no candomblé pela babá, que, aos 14 anos, viu o seu singelo quarto de criança transformado num boteco. Pela mãe.
“Ela disse que precisava ‘humanizar’ o filho e montou um bar no meu quarto com uísque, cachaça e gim”, conta. “O que eu aprontava no meu quarto não se fazia na época nem nos bares de Greenwich Village [bairro nova-iorquino habitado por malucos de todos os tipos, ponto de ebulição da literatura beatnik]”, compara Mautner, orgulhoso de suas transgressões juvenis.
O inocente adolescente tornou-se um ébrio e começou a dar à luz seus devaneios. Foi no seu etílico quarto que ele gestou o primeiro livro, “Deus da Chuva e da Morte” (vencedor do Prêmio Jabutiem1962), os seguintes “O Vigarista Jorge”, “Fragmentos de Sabonete”, “Panfletos da Nova Era” e as bases do Partido do Kaos, sua profissão de fé. “Sabe quais são as quatro definições para K.A.O.S?”, pergunta Mautner, para em seguida responder: “Kamaradas Anarquistas Organizando-se Socialmente; Kristo Ama Over Sonora; e Kolofé, Axé, Oxóssi e Saravá”, explica. E a quarta? “Você mesmo inventa.” Não há dúvida: dona Anna Illichi, mãe de Mautner, cumpriu com louvor a missão de humanizar o filho. “Minha educação foi a mais livre e abrangente possível.”
A torta chega. “É uma das coisas boas da Alemanha”, comenta Mautner. É sua primeira refeição do dia. A indisciplina alimentar parece não ter tido efeitos mais imediatos na sua saúde. Mautner, que acaba de
completar 75 anos, mantém o mesmo peso há anos, desde que começou a praticar tai chi chuan em 1958, hábito que segue até hoje, alternando sessões de alongamento e de Pilates, enquanto assiste a noticiários na televisão. “Eu faço exames e nunca encontram nada. Samurai tem dessas coisas”, brinca. “Eu acho que consigo sobreviver um pouco mais. Mesmo assim, tenho inveja de vocês, que vão viver mais de 400 anos”. Reys espanta-se com a previsão. “É isso mesmo.A medicina e a ciência já estão próximas de descobrir a cura para todas as doenças.”
A despeito do bar montado pela sua mãe, Mautner nunca teve sérios problemas com álcool. Aliás, teve, mas foi passageiro. Deixou de beber depois de uma experiência traumática, vivida no seu Greenwich Village particular. Embriagado, agrediu um amigo com faca, por causa de uma discussão sobre futebol.O Corinthians, seu time do coração, havia tomado uma goleada do São Paulo, pelo qual torcia o amigo. “Eu disse: ‘Não tripudia! Não tripudia! Ele continuou provocando e por pouco eu não o matei”, conta. “A faca quase chegou ao fígado dele.”
Mautner já comeu metade da torta alemã. O garçom avisa que o polvo temperado com molho de vinho branco e ervas finas, acompanhado de arroz com brócolis, dá para duas pessoas. Se a experiência de Mautner com o álcool foi breve, interrompida pelos acontecimentos, com as drogas ela se prolongou por muitos anos até que decidisse, de forma voluntária, frequentar os Narcóticos Anônimos (NA). “Cheguei à reunião no NA de mãos dadas com a minha filha, Amora [Mautner], e com o [diretor de televisão] Dennis Carvalho”, conta. Como o transgressor Mautner, o “Vigarista Jorge”, o artista que entrara e saíra de todas as estruturas, se viu de repente “engessado” numa reunião dos Narcóticos Anônimos, cumprindo todos os protocolos e dividindo suas frustrações e dramas com estranhos? “Ali ninguém é mais do que ninguém. Para a morte e para as drogas da morte somos todos doentes máximos”, diz o músico. Ele passa a cantarolar “Coisa Assassina”, o seu libelo contra as drogas, musicado por Gilberto Gil: “Maldita seja/ Essa coisa assassina/ Que se vende em quase toda esquina/ E que passa por crença, ideologia, cultura, esporte/ E no entanto é só doença,monotonia da loucura e morte”.
Hoje, um de seus únicos vícios é comer torta alemã. Mautner pede um café e uma segunda torta. Ele passa a falar com imenso orgulho sobre as façanhas e qualidades de Amora, que teve com a historiadora Ruth Mendes de Sousa, com quem não está mais casado. Amora é diretora de “A Regra do Jogo”, novela das9da Rede Globo. No novo livro, dedicado a nomes como o artista plástico José Roberto Aguilar, a ambientalista Dulce Maia de Souza e o físico Mário Schenberg (1914-1990), Mautner faz um agradecimento especial à filha e à família: “Eu sou o pequeno planeta, que gira em órbita sem cessar ao redor de três estrelas que me irradiam vida: a minha esposa Ruth,a minha filha Amora e minha netinha Julia”.
“Ela [Amora] é impressionante. Além de diretora artística sensível, ela cuida de toda parte executiva, tem habilidade para exercer as duas funções”, afirma. “Eu, por exemplo, jamais tive qualquer aptidão executiva, tanto que só consegui lançar esta antologia por causa do esforço de dois grandes e jovens pesquisadores, que se meteram a fazer o que eu jamais conseguiria: fuçar o meu legado e organizá-lo.”
Mautner começa a devorar a segunda torta alemã da tarde. Em entrevista ao Valor, Amora reconheceu a enorme influência que o pai exerceu em sua vida, sobretudo na maneira de encarar as coisas. “Somos
muito diferentes, mas parecidos em traços importantes, que moldam o meu jeito de viver até hoje. Somos livres. Não nos importamos com a opinião dos outros”, disse.
Mautner sorri, curioso para saber mais. Na mesma entrevista, ela também ressaltou as diferenças entre os dois: “Ele é satisfeito com a vida interna dele, passa boa parte do dia lendo, meditando. Eu sou caótica, difícil me fazer parar”. Abismo, aliás, que era muito maior anos atrás, no auge do “desbunde” do pai, que coincidiu com a adolescência de Amora.
Um dos pontos do documentário “ Jorge Mautner, o Filho do Holocausto” (2012), dirigido por Pedro Bial e Heito D’Alincourt, se dá no momento em que Amora revela que morria de vergonha do pai, quando ele ia buscá-la na escola—um tradicional colégio carioca—usando apenas uma sunga.
“Hoje eu me arrependo, claro, tinha que ter percebido que aquilo que parecia algo tão natural para mim na verdade a incomodava muito”, diz Mautner. Ele diz que segue cometendo erros e eles são necessários. Sempre. “A imperfeição é a medida do ser humano.A perfeição é nazista.”
O músico e poeta aproveita a deixa para falar novamente sobre o Brasil e o seu otimismo sem fim. Mautner não se convence nem com a lista de recentes acontecimentos no país, que é capaz de tornar o mais crédulo dos homens em um cético contumaz. Seu tom de voz é professoral: “Para salvar a democracia, para salvar o Brasil, para salvar o povo brasileiro, veio o Sergio Moro com a Lava-Jato”.
Seria uma ironia? Não é. Para Mautner, seguimos dando o exemplo para o mundo. Mesmo quando a barra pesou — e ele foi uma das muitas vítimas —, como no regime militar (1964-1985), a perda da democracia,
segundo o músico, se deu pela vontade de uma minoria. “O golpe foi dado por apenas 5% do Exército”, afirma. Ele próprio diz ter vivido uma situação curiosa: foi protegido pela cúpula do Segundo Exército assim que o general Castello Branco assumiu a Presidência. Foi levado para uma fazenda em Barretos (SP) para não correr o risco de ser morto pelo CCC, o Comando de Caça aos Comunistas. “Eles disseram que eu, filiado ao PC do B [Partido Comunista do Brasil], colunista do combativo jornal ‘Última Hora’, encabeçava a lista de procurados pelo CCC e, por ser um patriota,um grande escritor, tinham o dever de me proteger.”
Mautner no Degrau, sobre sua adolescência: “O que eu aprontava no meu quarto não se fazia na época nem nos bares de Greenwich Village”
O polvo com ervas finas é servido. Mautner está quase no fim da segunda torta alemã. Pedirá a terceira? Ele prefere um café carioca. Mas o que ele fez durante o tempo vivido em Barretos, hóspede, aos 23 anos, dos militares? “Fiquei conversando sobre história do Brasil e filosofia alemã. Os oficiais eram gente da maior categoria, muito cultos.” Mesmo sendo tratado como hóspede, Mautner só foi “liberado” para voltar a São Paulo três meses depois e mesmo assim sob a condição de não escrever nada que fosse considerado ofensivo ao governo.Não cumpriu as ordens e escreveu, logo em seguida, “Vigarista Jorge”, publicado em 1965, logo proibido pela censura.
O que se seguiu adiante é narrado de forma resumida por Mautner. Mesmo com visto para morar em Cuba, ele, tratado de hóspede a inimigo pelos militares, preferiu exilar-se nos Estados Unidos, onde trabalhou na Unesco até virar secretário literário do poeta americano Robert Lowell. Sua volta para o Brasil coincidiu com o período de abertura política, fase em que se aproximo de Golbery do Couto e Silva (1911-1987), ministro da Casa Civil de 1974 a 1981, tido como um dos ideólogos do golpe de 64.
Pouco se falou até hoje sobre os encontros, quase secretos, de Golbery com parte da classe artística, que incluía, além de Mautner, nomes como os cineastas Júlio Bressane e Glauber Rocha. Este chegou a enviar para a revista “Visão”, em 1974, uma carta em que chama Golbery de “Gênio da Raça”, provocando a ira e a perseguição eterna de setores da esquerda. Mautner não chega a tanto, mas diz, sem rodeios, que os seus inimigos eram outros.
Mautner pede mais um café carioca. Ele afirma, sem receio de ser patrulhado, que no meio da década de 1970 estava muito próximo ideologicamente de um general como Golbery, para ele um legalista, o grande catalisador do processo de redemocratização, que terminaria na Lei da Anistia, em 1979, do que de alguns artistas descolados que insistiam em apoiar a luta armada ou estavam ligados a movimentos e ideais extremistas — dando cada vez mais motivos para os generais da linha dura frearem o processo de redemocratização.
“A contracultura sempre foi nazista. Por aqui, boa parte da esquerda achava que direitos humanos era coisa de burguês”, diz Mautner. “Posso dar aqui vários exemplos.” Ele cita, de fato, vários nomes de peso da cultura brasileira, incluindo um ícone do rock brasileiro e um escritor contemporâneo, expoentes da Sociedade Alternativa, movimento inspirado nos escritos de Aleister Crowley (1875-1947). “Crowley era um nazista de carteirinha”, observa Mautner.
Amigo de fé de Caetano Veloso e Gilberto Gil, Mautner, que voltou do exílioseis meses antes dos dois baianos, não contou à dupla, na época, sobre os seus encontros com Golbery, mas sabia que, sem eles, dificilmente poderia liderar sozinho um movimento pela redemocratização do país. “Eles eram os protagonistas”, afirma. Mautner relata que forçou o máximo para que Caetano e Gil voltassem logo do exílio, contrariando a recomendação de lideranças da esquerda, entre elas a da socióloga e ativista política Violeta Arraes (1926-2008). “Ela dizia que era preciso ‘dramatizar’ o máximo possível a ditadura e manter Caetano e Gil em Londres fazia parte dessa estratégia.”
Quando Gil e Caetano voltaram e, anos depois, já no processo de abertura política, Gil gravou uma versão (“Não Chore Mais”) para “No Woman, no Cry”, de Bob Marley, citando os amigos presos, “amigos sumindo assim”, a linha-dura do Exército, segundo Mautner, armou (em julho de 1976) para que ele fosse preso por porte de maconha, em Florianópolis. “A imprensa todinha ficou do lado de Gil, incluindo os grandes jornais e redes de televisão, uma prova de que interessava a uma parte mínima da sociedade, incluindo as próprias Forças Armadas, e setores da esquerda radical, manter um regime autoritário por muito tempo”, afirma. “Nossa tradição não é bélica. Somos o país do marechal [Cândido] Rondon [1865-1958], um militar conhecido pela seguinte frase: ‘Matar jamais, morrer se for preciso’.”
São quase 4 da tarde. Não há mais nenhuma mesa ocupada na parte de cima do Degrau. Mautner atende gentilmente ao pedido da fotógrafa para que todos se desloquem para a mesa ao lado, onde a luz e os ângulos são mais convidativos. A fotógrafa, que acabara de chegar, pergunta pelo prato de Mautner— é preciso, como é praxe nesta seção, fazer um retrato dele. O músico solta uma gargalhada: “Eu comecei e acabei pela sobremesa”. O garçom avisa que ainda há um pouco de polvo e que pode montar o prato para o retrato, desde, claro, avisa o repórter, que ele seja comido pelo entrevistado. “Ah, não estou com vontade”, afirma Mautner, que não demora a sugerir uma solução para o impasse: “Posso pedir mais uma torta alemã?”
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
Bengala sensorial ajuda na locomoção de cegos
Bengala sensorial ajuda na locomoção de cegos
Projeto de alunos da UNA tem sensores que detectam obstáculos e avisam o deficiente visual por meio de apito e vibração na manete. Conceito busca oferecer modelo de baixo custo
Bruno Freitas
Estado de Minas: 02/02/2016 | O coordenador do curso superior de tecnologia em automação e manutenção industrial, Cleiton Miranda, e os alunos Wender Cardoso, Juliano César Almeida e Luiz Guilherme Costa da Silva |
Vida de deficiente visual exige audição, tato e sentidos apurados. E por que não uma boa injeção de tecnologia? Pensando assim, alunos do Centro Universitário UNA, de Belo Horizonte, elaboraram proposta diferente da já existente para dar aquela ajuda aos cegos no dia a dia: uma bengala sensorial. Indispensável para quem não enxerga ou tem dificuldades em ver, o bom e velho acessório recebeu nova roupagem que detecta o ambiente por meio de sensores que emitem sinais transformados em vibração, proporcionando mais autonomia e segurança. Uma manete vibratória e um apito sonoro atuam então como sentidos complementares ao portador da deficiência visual.
A ideia, contudo, não é totalmente nova. Outros projetos universitários já foram desenvolvidos e há bengalas importadas com recursos semelhantes à venda. Mas a sugerida pelos mineiros se diferencia pela facilidade e baixo custo de produção – R$ 300, ante os valores de R$ 10 mil a R$ 20 mil para modelos produzidos fora do Brasil. O preço tende a diminuir com uma possível certificação e fabricação em escala industrial. Há ainda ideias de novas variações da bengala sensorial, com recursos como GPS, conexão com aplicativos como o SIU Mobile (informações sobre ônibus) da empresa que gerencia o transporte público e o trânsito da capital mineira, a BHTrans, e áudio.
O projeto foi desenvolvido por seis alunos na conclusão do primeiro ano do curso de manutenção e automação industrial da UNA Unidade Barreiro, sob coordenação do professor Matheus Gravito. O começo do projeto, conta um dos envolvidos, o estudante Wender Cardoso, de 24 anos, veio à cabeça quando ele viu uma idosa deficiente visual ser vítima de um buraco de rua no Centro de BH. Quando passava por uma calçada irregular, a senhora se desequilibrou, caiu e se machucou, despertando a atenção do estudante. “Na hora, bateu a ideia, mas não colocamos em prática. Em meados do ano passado, o professor Gravito nos passou uma demanda de um projeto voltado à comunidade, quando pensamos então em desenvolver a bengala para cegos”, conta Wender.
Desde o início, foi mantida a proposta de desenvolver algo que fosse de baixo custo. Para isso, a bengala sensorial usa componentes reaproveitados. O tubo de alumínio que serve de base veio de cortinas residenciais; as roldanas, de carrinhos de indústria; e os sensores, de sensores de marcha a ré usados em automóveis. Para completar, o sensor de vibração aplicado na manete é o mesmo de joysticks de videogames. Uma chave de liga e desliga industrial é responsável por acionar o dispositivo. Ao todo, foram gastos cerca de quatro meses de desenvolvimento, contando com o apoio de uma empresa de montagem industrial, que cedeu espaço e equipamentos.
| Juliano Almeida faz a demonstração de como usar a bengala criada em BH |
Um dos principais desafios encontrados foi a escolha do tipo de bateria e dos sensores, para evitar interferência. “Alguns sensores se mostraram bastante sensíveis ao alumínio, apitando de forma ininterrupta quando se aproximavam. Fizemos um circuito na caixa da bengala para que essa bateria pudesse ser recarregada em tomada residencial”, explica o estudante Luiz Guilherme Costa, de 26. O grupo não chegou a medir o consumo da bateria, mas, como se trata de uma bateria de longa duração, Luiz estima que a bengala possa ser usada ao longo de 12 horas, com um tempo de recarga estimado em três horas.
Durante a fase de desenvolvimento, a bengala chegou a ser testada com deficientes visuais e a avaliação foi positiva. “Tivemos algumas críticas construtivas e vamos trabalhar nelas. Um casal de deficientes visuais testou a bengala e achou bastante interessante. Agora é trabalhar no projeto para poder melhorá-lo”, diz Luiz. “Ficamos satisfeitos por unir o conhecimento adquirido no curso com a tecnologia para contribuir para a qualidade de vida dos deficientes visuais”, conclui Wender.
Para o coordenador do curso, Cleiton Geraldo Mendes Miranda, o projeto vem ao encontro da necessidade de resolução de problemas de acessibilidade. “Os alunos começaram o projeto com o desenvolvimento do protótipo. Temos parcerias e a nossa ideia é apresentá-lo a empresas para buscar viabilizá-lo. Na próxima etapa, vamos ver se colocamos os alunos do projeto em cursos de extensão para aprimorar. Nossa intenção é dar visibilidade para que empresas interessadas no projeto possam fazer parcerias conosco e a gente consiga atender ao público final.”
Parceria visa à aplicação real
Após a apresentação do projeto à banca avaliadora, os universitários esperam agora fechar parceria para uma possível certificação e aplicação industrial. Mas eles não pararão por aí. Para os próximos meses, preveem fazer aperfeiçoamentos e testes com novos recursos. “Até existem outras bengalas sensoriais à venda no Brasil, mas são todas importadas. O investimento do protótipo foi baixo (em torno de R$ 300). Nossa visão é fazer um produto que seja acessível a todas as pessoas”, salienta Luiz Guilherme Costa. O próximo passo será desenvolver novas variações da bengala, com itens como GPS e conexão com aplicativos como o SIU Mobile da BHTrans. Além disso, o modelo inicial deve dispensar o apito, considerado incômodo.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
A página virada na tela - Josélia Aguiar
Valor Econômico - 29/01/2016
LITERATURA
Em um mercado editorial retraído, autores brasileiros ampliam a repercussão de suas obras negociando adaptações para o audiovisual.
Por Joselia Aguiar, para o Valor, de São Paulo
Sérgio Machado é um diretor de cinema que costuma encontrar na literatura ideias para filmes. Já levou
para as telas “Quincas Berro d’Água”, de Jorge Amado. Prevê começar a filmar neste ano uma história saída da antologia de contos “A Cidade Ilhada”, de Milton Hatoum. Por agora, está em cartaz em todo o país com “Tudo o Que Aprendemos Juntos”, que tem como mote uma peça de Antônio Ermírio de Moraes sobre a experiência do Instituto Baccarelli na formação de jovens músicos em Heliópolis, na zona sul de São Paulo. Entre projetos para concluir mais adiante, há uma nova versão, em filme de animação, de “A Arca de Noé”, clássico infantil de Vinicius de Moraes.
“Nos intervalos de produção, vou buscar títulos com os quais posso me identificar”, conta ao Valor, na filial de uma grande rede de livrarias, na avenida Paulista. “Tento acompanhar o que posso de ficção contemporânea.” A busca por títulos de autores brasileiros não é exclusiva. Outros diretores e produtores, tanto de cinema quanto de TV, têm procurado a ficção nacional para seus projetos. Num mercado editorial de tiragens que não crescem, escritores são cada vez mais procurados — ou procuram via agentes literários — para vender direitos autorais para adaptações.
“O ano de 2015 foi até que bem ativo no audiovisual”, conta Lucia Riff, da maior agência literária do país—para esse tipo de negociação, atua em parceria com a Film2B, de Ana Luiza Beraba, Eduardo Senna e Raquel Leiko. “Mesmo com a crise, não passamos um mês sem fechar dois a três contratos de cinema, o que me pareceu bastante bom.” Isso está relacionado, em parte, à recente lei que determinou a exibição de conteúdo nacional por canais a cabo. “Outro belo estímulo foram os núcleos criativos da Ancine, uma forma bem interessante de o mercado financiar novos projetos.” Quanto a valores, não depende apenas do autor ou título. “Depende do projeto em si: orçamento, formato, desdobramentos possíveis.”
Lucia, da agência literária Riff: 2015 teve contratos para cinema todo mês
O produtor Teixeira contratou com Lucia obras de Maria Valéria e Ferroni
Entre os recém-assinados, tanto “Quarenta Dias”, de Maria Valéria Rezende, vencedor do Prêmio Jabuti, quanto “Das Paredes,Meu Amor, os Escravos Nos Contemplam”, de Marcelo Ferroni, foram contratados por Rodrigo Teixeira, da RT Features.A obra de Jorge Andrade, pela Rede Globo. “Tudo ou Nada”, a história de Eike Batista escrita por Malu Gaspar, ficou com Mariza Leão, da Morena Filmes. “O Perfeito Cozinheiro das Almas Deste Mundo”, de Oswald de Andrade, com Joana Mariani. A série “Amor Veríssimo”, a partir de crônicas de Luis Fernando Verissimo, seguirá em nova temporada realizada pela Conspiração Filmes. “Borges e os Orangotangos Eternos”, do mesmo autor, teve direitos adquiridos por Paulo Boccato, da Glaz Entretenimento e Neoplastique.
A procura por conteúdo nacional coincide com o surgimento de uma geração de escritores que têm vocação ou pelo menos curiosidade com o audiovisual. “A literatura contemporânea tem autores cujas obras têm forte influência do próprio cinema, dos seriados de TV e dos videogames,o que torna essa aproximação praticamente inevitável”, diz Marianna Teixeira Soares, à frente da agência literária MTS. Títulos que gerencia, “Tempo de Espalhar Pedras”, de Estevão Azevedo, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura; “Quatro Soldados”, de Samir Machado de Machado; e “F”, de Antônio Xerxenesky, estão comos direitos de adaptação vendidos. Neste ano começa a produção do filme baseado em “Hoje Está um Dia Morto”, de André de Leones.
“Quando o autor tem alguma experiência com o audiovisual participa de alguma forma do processo de adaptação, muitas vezes nas equipes de desenvolvimento ou mesmo na confecção do roteiro”, conta a agente literária. “Autodidata em roteiro”, como se define, Marisa Ferrari é um dos casos de autora interessada em participar da adaptação. Relata que seu romance histórico “Arrabal e a Noiva do Capitão” nasceu, de início, como uma ideia para o cinema. Justamente esse potencial audiovisual chamou a atenção de sua agente literária, Luciana Villas-Boas, da VBM Agência e Consultoria Literária, que conseguiu negociá-lo com a TV Globo — produção ainda sem data para iniciar.
O cinema por vezes se torna mesmo um caminho paralelo. João Paulo Cuenca, que vendeu direitos de adaptação e escreveu um seriado para a mesma emissora — “Afinal, o Que Querem as Mulheres”, em 2010 —, acaba de fazer seu primeiro longa-metragem como diretor, “A Morte de J.P. Cuenca”.O filme já passou pela roda dos festivais no país e teve estreia europeia. Cuenca diz acreditar que, nesse nicho, ainda há muito projeto para pouca realização. “Como tenho interesse em cinema desde sempre, resolvi
eu mesmo estudar, tocar minhas coisas e dirigir”, diz. “Já tenho outros filmes na manga. Estou trabalhando em pelo menos outros dois projetos”, anuncia. “É possível que nos próximos anos eu me dedique igualmente ao cinema e à literatura.”
Hatoum já tem quatro obras que estrearam ou estão em produção em cinema ou TV: escritor se diz “um cinéfilo que nunca se aventurou a escrever roteiros”
Há os que prefiram manter os caminhos separados.Cercado hoje por diretores - são quatro obras suas que estrearam ou já estão em produção em cinema ou TV - , Milton Hatoum se diz “um cinéfilo que nunca se aventurou a escrever roteiros”. “Não me meto no roteiro nem na filmagem. Por que faria isso? Não domino essas linguagens nem sinto ciúme dos livros.” Por diversão, fez uma ponta como pescador em “Órfãos do Eldorado”, de Guilherme Coelho, que entrou em cartaz no fim do ano passado. Para o filme de Sérgio Machado, escreve uma história complementar ao conto “Adeus do Comandante”, que dá origem ao filme. Ele se reserva, mas todos querem seus palpites.
Na adaptação de obras de Hatoum, quem cuida do roteiro é a experiente Maria Camargo. A expertise desenvolve-se desde que preparou o roteiro de seu “Dois Irmãos” para a minissérie que Luiz Fernando Carvalho começou a gravar para a Globo no ano passado. “Sempre fui muito leitora”, conta a roteirista, para quem adaptar obra de autor consagrado é tarefa de “muita responsabilidade”. Entre trabalhos recentes, fez o “Correio Sentimental”, de Clarice Lispector, para o “Fantástico”. Encantada ao ler “A Vendedora de Fósforos”, de Adriana Lunardi, decidiu ela mesma fazer a produção, projeto que está tocando ao mesmo tempo.
Se hoje há uma geração de autores brasileiros que floresce, o mesmo se pode dizer da de roteiristas. “Em dez anos, mudou bastante. É um mercado em expansão, com muita gente talentosa, mas ainda falta formar gente. Não só roteirista, também produtor e diretor com visão mais ampla”, comenta Maria. Por ora, está trabalhando numa versão de “Fim”, de Fernanda Torres, para José Luiz Villamarim, na Globo.
Fernanda: versão do seu romance “Fim”está sendo feita pela experiente Maria Camargo para a Globo
O ofício do roteirista de fato passa “por um crescimento lento, proporcionado pela valorização do roteiro dentro do processo de produção audiovisual e um crescimento da produção nacional”, avalia Iana Paro, roteirista brasileira que também leciona roteiro na Escuela Internacional de Cine y Televisión (EICT), de San Antonio de los Baños, em Cuba. Seu primeiro longa, “Eu Te Levo”, dirigido por Marcelo Müller, tem estreia prevista para este ano. “Falta valorizar o trabalho do roteirista em si, de tempo e remuneração, além de rever as regras que movem a questão dos direitos autorais.” Conta que tem crescido a procura de brasileiros por cursos e oficinas de curta duração — está aberta agora a seleção de um dos mais concorridos, durante o Carnaval, ministrado pelo cubano Eliseo Altunaga na EICT.
“Ainda é muito difícil ser roteirista no Brasil. É um trabalho delongo prazo e solitário”, diz Carolina Benjamin, roteirista, produtora e curadora do Festival Adaptação, no Rio, que, nos últimos anos, tinha se tornado um evento interessante não só de exibição como de formação, com participantes de todo o país. Por ora, a falta de financiamento inviabiliza a realização de novas edições. “Antes, havia alguns editais de fomento com linhas para festivais,como a SEC-Rio, a Rio Filme e a Petrobras, que não foram reabertas. E o Fundo Setorial do Audiovisual, que hoje é o grande fomentador do audiovisual no Brasil, não tem linhas para festivais.”
LITERATURA
Em um mercado editorial retraído, autores brasileiros ampliam a repercussão de suas obras negociando adaptações para o audiovisual.
Por Joselia Aguiar, para o Valor, de São Paulo
Sérgio Machado é um diretor de cinema que costuma encontrar na literatura ideias para filmes. Já levou
para as telas “Quincas Berro d’Água”, de Jorge Amado. Prevê começar a filmar neste ano uma história saída da antologia de contos “A Cidade Ilhada”, de Milton Hatoum. Por agora, está em cartaz em todo o país com “Tudo o Que Aprendemos Juntos”, que tem como mote uma peça de Antônio Ermírio de Moraes sobre a experiência do Instituto Baccarelli na formação de jovens músicos em Heliópolis, na zona sul de São Paulo. Entre projetos para concluir mais adiante, há uma nova versão, em filme de animação, de “A Arca de Noé”, clássico infantil de Vinicius de Moraes.
“Nos intervalos de produção, vou buscar títulos com os quais posso me identificar”, conta ao Valor, na filial de uma grande rede de livrarias, na avenida Paulista. “Tento acompanhar o que posso de ficção contemporânea.” A busca por títulos de autores brasileiros não é exclusiva. Outros diretores e produtores, tanto de cinema quanto de TV, têm procurado a ficção nacional para seus projetos. Num mercado editorial de tiragens que não crescem, escritores são cada vez mais procurados — ou procuram via agentes literários — para vender direitos autorais para adaptações.
“O ano de 2015 foi até que bem ativo no audiovisual”, conta Lucia Riff, da maior agência literária do país—para esse tipo de negociação, atua em parceria com a Film2B, de Ana Luiza Beraba, Eduardo Senna e Raquel Leiko. “Mesmo com a crise, não passamos um mês sem fechar dois a três contratos de cinema, o que me pareceu bastante bom.” Isso está relacionado, em parte, à recente lei que determinou a exibição de conteúdo nacional por canais a cabo. “Outro belo estímulo foram os núcleos criativos da Ancine, uma forma bem interessante de o mercado financiar novos projetos.” Quanto a valores, não depende apenas do autor ou título. “Depende do projeto em si: orçamento, formato, desdobramentos possíveis.”
Lucia, da agência literária Riff: 2015 teve contratos para cinema todo mês
O produtor Teixeira contratou com Lucia obras de Maria Valéria e Ferroni
Entre os recém-assinados, tanto “Quarenta Dias”, de Maria Valéria Rezende, vencedor do Prêmio Jabuti, quanto “Das Paredes,Meu Amor, os Escravos Nos Contemplam”, de Marcelo Ferroni, foram contratados por Rodrigo Teixeira, da RT Features.A obra de Jorge Andrade, pela Rede Globo. “Tudo ou Nada”, a história de Eike Batista escrita por Malu Gaspar, ficou com Mariza Leão, da Morena Filmes. “O Perfeito Cozinheiro das Almas Deste Mundo”, de Oswald de Andrade, com Joana Mariani. A série “Amor Veríssimo”, a partir de crônicas de Luis Fernando Verissimo, seguirá em nova temporada realizada pela Conspiração Filmes. “Borges e os Orangotangos Eternos”, do mesmo autor, teve direitos adquiridos por Paulo Boccato, da Glaz Entretenimento e Neoplastique.
A procura por conteúdo nacional coincide com o surgimento de uma geração de escritores que têm vocação ou pelo menos curiosidade com o audiovisual. “A literatura contemporânea tem autores cujas obras têm forte influência do próprio cinema, dos seriados de TV e dos videogames,o que torna essa aproximação praticamente inevitável”, diz Marianna Teixeira Soares, à frente da agência literária MTS. Títulos que gerencia, “Tempo de Espalhar Pedras”, de Estevão Azevedo, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura; “Quatro Soldados”, de Samir Machado de Machado; e “F”, de Antônio Xerxenesky, estão comos direitos de adaptação vendidos. Neste ano começa a produção do filme baseado em “Hoje Está um Dia Morto”, de André de Leones.
“Quando o autor tem alguma experiência com o audiovisual participa de alguma forma do processo de adaptação, muitas vezes nas equipes de desenvolvimento ou mesmo na confecção do roteiro”, conta a agente literária. “Autodidata em roteiro”, como se define, Marisa Ferrari é um dos casos de autora interessada em participar da adaptação. Relata que seu romance histórico “Arrabal e a Noiva do Capitão” nasceu, de início, como uma ideia para o cinema. Justamente esse potencial audiovisual chamou a atenção de sua agente literária, Luciana Villas-Boas, da VBM Agência e Consultoria Literária, que conseguiu negociá-lo com a TV Globo — produção ainda sem data para iniciar.
O cinema por vezes se torna mesmo um caminho paralelo. João Paulo Cuenca, que vendeu direitos de adaptação e escreveu um seriado para a mesma emissora — “Afinal, o Que Querem as Mulheres”, em 2010 —, acaba de fazer seu primeiro longa-metragem como diretor, “A Morte de J.P. Cuenca”.O filme já passou pela roda dos festivais no país e teve estreia europeia. Cuenca diz acreditar que, nesse nicho, ainda há muito projeto para pouca realização. “Como tenho interesse em cinema desde sempre, resolvi
eu mesmo estudar, tocar minhas coisas e dirigir”, diz. “Já tenho outros filmes na manga. Estou trabalhando em pelo menos outros dois projetos”, anuncia. “É possível que nos próximos anos eu me dedique igualmente ao cinema e à literatura.”
Hatoum já tem quatro obras que estrearam ou estão em produção em cinema ou TV: escritor se diz “um cinéfilo que nunca se aventurou a escrever roteiros”
Há os que prefiram manter os caminhos separados.Cercado hoje por diretores - são quatro obras suas que estrearam ou já estão em produção em cinema ou TV - , Milton Hatoum se diz “um cinéfilo que nunca se aventurou a escrever roteiros”. “Não me meto no roteiro nem na filmagem. Por que faria isso? Não domino essas linguagens nem sinto ciúme dos livros.” Por diversão, fez uma ponta como pescador em “Órfãos do Eldorado”, de Guilherme Coelho, que entrou em cartaz no fim do ano passado. Para o filme de Sérgio Machado, escreve uma história complementar ao conto “Adeus do Comandante”, que dá origem ao filme. Ele se reserva, mas todos querem seus palpites.
Na adaptação de obras de Hatoum, quem cuida do roteiro é a experiente Maria Camargo. A expertise desenvolve-se desde que preparou o roteiro de seu “Dois Irmãos” para a minissérie que Luiz Fernando Carvalho começou a gravar para a Globo no ano passado. “Sempre fui muito leitora”, conta a roteirista, para quem adaptar obra de autor consagrado é tarefa de “muita responsabilidade”. Entre trabalhos recentes, fez o “Correio Sentimental”, de Clarice Lispector, para o “Fantástico”. Encantada ao ler “A Vendedora de Fósforos”, de Adriana Lunardi, decidiu ela mesma fazer a produção, projeto que está tocando ao mesmo tempo.
Se hoje há uma geração de autores brasileiros que floresce, o mesmo se pode dizer da de roteiristas. “Em dez anos, mudou bastante. É um mercado em expansão, com muita gente talentosa, mas ainda falta formar gente. Não só roteirista, também produtor e diretor com visão mais ampla”, comenta Maria. Por ora, está trabalhando numa versão de “Fim”, de Fernanda Torres, para José Luiz Villamarim, na Globo.
Fernanda: versão do seu romance “Fim”está sendo feita pela experiente Maria Camargo para a Globo
O ofício do roteirista de fato passa “por um crescimento lento, proporcionado pela valorização do roteiro dentro do processo de produção audiovisual e um crescimento da produção nacional”, avalia Iana Paro, roteirista brasileira que também leciona roteiro na Escuela Internacional de Cine y Televisión (EICT), de San Antonio de los Baños, em Cuba. Seu primeiro longa, “Eu Te Levo”, dirigido por Marcelo Müller, tem estreia prevista para este ano. “Falta valorizar o trabalho do roteirista em si, de tempo e remuneração, além de rever as regras que movem a questão dos direitos autorais.” Conta que tem crescido a procura de brasileiros por cursos e oficinas de curta duração — está aberta agora a seleção de um dos mais concorridos, durante o Carnaval, ministrado pelo cubano Eliseo Altunaga na EICT.
“Ainda é muito difícil ser roteirista no Brasil. É um trabalho delongo prazo e solitário”, diz Carolina Benjamin, roteirista, produtora e curadora do Festival Adaptação, no Rio, que, nos últimos anos, tinha se tornado um evento interessante não só de exibição como de formação, com participantes de todo o país. Por ora, a falta de financiamento inviabiliza a realização de novas edições. “Antes, havia alguns editais de fomento com linhas para festivais,como a SEC-Rio, a Rio Filme e a Petrobras, que não foram reabertas. E o Fundo Setorial do Audiovisual, que hoje é o grande fomentador do audiovisual no Brasil, não tem linhas para festivais.”
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
Em brancas nuvens
Polêmica sobre a exclusão de negros entre
os indicados ao Oscar 2016 se acirra e obriga Academia de Artes e
Ciências Cinematográficas de Hollywood a reagir, anunciando mudança
futura no perfil dos votantes
“Não é à toa que ele tem um filme chamado Faça a coisa certa (1989). Foi mais um gol de Spike Lee”, opina a atriz brasileira Zezé Motta. O ator e diretor norte-americano foi escolhido para receber o Oscar honorário em 2016. Anteontem, Spike Lee comunicou sua decisão de não comparecer à cerimônia, marcada para 28 de fevereiro. Mais que isso: ao lado da atriz Jada Pinkett-Smith, ele defendeu o boicote à mais celebrada cerimônia da indústria do cinema em protesto à recorrente exclusão de negros entre os indicados ao prêmio.
O protesto de Spike Lee teve repercussão mundial e arrancou da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood uma reação contundente. Em comunicado oficial divulgado ontem, a presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs (a primeira negra a assumir o posto), reconheceu a lacuna e anunciou medidas para mudar os critérios de admissão de novos integrantes, para garantir diversidade no perfil dos votantes.
“Nos próximos dias e semanas vamos analisar o processo de seleção de nossos membros com o objetivo de refletir a diversidade de nossa classe em 2016”, afirmou. Segundo Cheryl, não é a primeira vez que a renovação da Academia torna-se urgente. Entre as décadas de 1960 e 1970, apontou a nota, a meta era rejuvenescer o grupo, “para permanecer vital e relevante”. “Em 2016, a ordem é para inclusão em todas as suas facetas: gênero, raça, etnicidade e orientação sexual. Reconhecemos que são preocupações muito reais da nossa comunidade e contamos com o apoio de todos para que possamos avançar juntos”, disse.
A polêmica veio à tona na segunda, no dia do aniversário de Martin Luther King. Pelo Instagram, Spike Lee publicou texto justificando sua decisão. “Dr. King disse ‘chegará o dia quando será preciso tomar uma posição que não será segura, política ou popular, mas necessária, pois a consciência diz que está certa’”, citou. “O Oscar não é onde o real batalha.” A atriz Jada Pinkett-Smith protestou por meio de um vídeo publicado no Facebook.
Com as hashtags #OscarsSoWhite (Oscar tão branco) e #OscarsBoycott, o movimento ganhou proporção e adeptos. Esnobado no ano passado pela atuação em Selma, o ator David Oyelowo Slams, em entrevista ao site Vulture, questionou a imutabilidade do Oscar. “A Academia é uma instituição em que todos dizem que as mudanças radicais não podem ocorrer rápido. É melhor que isso mude.”
Votante na categoria de documentário, o cineasta Michael Moore também fez coro ao boicote. “Pensei sobre isso o dia inteiro. Não pretendo ir à cerimônia. Não pretendo assistir à cerimônia e não pretendo ir a nenhuma festa relacionada a ela”, anunciou o diretor de Tiros em Columbine (2002) e Fahrenheit 11 de Setembro (2004).
BRASIL
“Spike Lee encontrou o momento certo para falar. A luta persiste, e a gente tem que continuar dando cotovelada e cobrando cada vez mais nossos direitos”, acredita Zezé Motta. Com 50 anos de carreira, a atriz brasileira observa uma preocupação maior relacionada à diversidade racial. “Estou muito feliz com o protagonismo de Taís (Araújo) e Lázaro (Ramos), mas acho que ainda falta espaço para muita gente”, cobra. É preciso também avançar em relação aos personagens.
Em 2014, Zezé Motta vivenciou experiência que classifica como humilhante. Foi chamada para fazer Sebastiana, uma empregada doméstica na novela Boogie oogie. “Nada contra, mas quero saber o conteúdo”, frisou. A promessa é de que seria a mãe da personagem de Fabrício Boliveira, cujo sonho seria se tornar diplomata. Ela seria a pessoa responsável para que o filho lutasse por isso, mas a atuação incisiva que sua empregada teria se perdeu ao longo da novela, escrita pelo português Rui Vilhena.
“A gente tem muita luta pela frente e tem que aproveitar essas oportunidades (como faz Spike Lee) e botar a boca no mundo”, afirma Zezé. Para o cineasta Joel Zito Araújo, diretor de A negação do Brasil, a distorção apresentada na lista de indicados ao Oscar é fruto do perfil de votantes da Academia. Por isso, ele considera interessante não apenas o protesto de Lee como a resposta da instituição.
De acordo com levantamento feito pelo jornal Los Angeles Times, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood tem hoje 6 mil integrantes. Desses, 94% são brancos, 77% homens e 86% com mais de 50 anos de idade.
“Essas gerações mais velhas não só não têm olhos para a diversidade como também são reativas. Todas essas transformações da sociedade, aos olhos deles, são vistas como aberração, pressão indevida. Eles querem manter a mentalidade de outra época”, analisa Joel Zito.
Decano do cinema brasileiro, o ator Milton Gonçalves tem uma opinião diferente da de seus colegas de profissão. “Não vamos colocar isso (o fato de nenhum negro ter sido indicado) como se fosse preconceito. O cinema e o teatro norte-americanos sempre foram muito gentis com os atores negros. Se este ano não tem nenhum indicado, é porque não houve um grande filme com eles.”
Gonçalves se diz mais preocupado com o Brasil. “Nos EUA, o presidente é negro e benquisto. Nós nunca tivemos um presidente negro, nem um perto disso.” O bailarino e coreógrafo Rui Moreira é outro que traz a questão para o país. “É interessante observar como a ausência de negros em um grande prêmio causa manifestações em todo o mundo. No Brasil, uma das fortes diásporas negras no planeta, a falta de indicados e laureados num prêmio (de teatro ou cinema) passa batida.”
Já o ator Luis Miranda afirma que a Academia de Hollywood precisa se conscientizar. “(A falta de indicados negros) é um desrespeito não só com os atores negros, mas com a classe artística como um todo.”
Filme repetido
Neste século, o Oscar já foi branco (ou tão branco, como comprova a hashtag #OscarsSoWhite) outras vezes. A primeira, em 2001 (que deu o troféu de melhor filme para Gladiador, ator para Russell Crowe e atriz para Julia Roberts). A segunda, uma década mais tarde, que premiou O discurso do rei, Colin Firth e Natalie Portman como melhores filme, ator e atriz.
O embranquecimento da maior premiação da indústria ainda se repetiu na edição de 2015. Selma – Uma luta pela igualdade, longa-metragem sobre a histórica marcha pacifista organizada por Martin Luther King em 1965, concorreu a melhor filme. Mas nem por isso nenhum de seus atores foi indicado, tampouco sua diretora, Ava DuVernay.
A edição passada do Oscar passou para a história como aquela em que nenhum negro foi indicado e nenhuma mulher apareceu nas categorias de direção, roteiro e fotografia. Os discursos de agradecimento mais contundentes – como o de Patricia Arquette, eleita a melhor atriz coadjuvante – enfatizaram as diferenças entre homens e mulheres em Hollywood.
O mesmo Spike Lee que vai boicotar a premiação de 2016 afirmou, em 2015, ao site The Daily Beast, que “quem pensou que este ano ia ser como no ano passado é retardado”. Ele referia-se à edição de 2014, que deu a 12 anos de escravidão os principais troféus.
E é também de Spike Lee uma das mais notórias brigas da indústria. Em 2012, quando Quentin Tarantino lançou Django livre, o cineasta negro classificou de “desrespeitoso” o faroeste ambientado durante a Guerra Civil americana. “A escravidão nos EUA não foi um western spaghetti de Sergio Leone, mas um Holocausto. Meus ancestrais foram escravos, roubados da África. Eu os honrarei”, acrescentou.
A polêmica entre os dois cineastas voltou à tona em novembro, quando Tarantino esteve no Brasil para lançar Os oito odiados, atualmente em cartaz. Quando perguntado se faria um filme com Lee, Tarantino, que pretende dirigir somente mais dois longas, afirmou: “Só tenho dois filmes mais para fazer. Não vou desperdiçá-los com Spike Lee.”
Carolina Braga e Mariana Peixoto
Estado de Minas : 20/01/2016 | O cineasta Spike Lee, que será homenageado pelo 88º Oscar, em fevereiro, e convocou boicote à cerimônia |
“Não é à toa que ele tem um filme chamado Faça a coisa certa (1989). Foi mais um gol de Spike Lee”, opina a atriz brasileira Zezé Motta. O ator e diretor norte-americano foi escolhido para receber o Oscar honorário em 2016. Anteontem, Spike Lee comunicou sua decisão de não comparecer à cerimônia, marcada para 28 de fevereiro. Mais que isso: ao lado da atriz Jada Pinkett-Smith, ele defendeu o boicote à mais celebrada cerimônia da indústria do cinema em protesto à recorrente exclusão de negros entre os indicados ao prêmio.
O protesto de Spike Lee teve repercussão mundial e arrancou da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood uma reação contundente. Em comunicado oficial divulgado ontem, a presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs (a primeira negra a assumir o posto), reconheceu a lacuna e anunciou medidas para mudar os critérios de admissão de novos integrantes, para garantir diversidade no perfil dos votantes.
“Nos próximos dias e semanas vamos analisar o processo de seleção de nossos membros com o objetivo de refletir a diversidade de nossa classe em 2016”, afirmou. Segundo Cheryl, não é a primeira vez que a renovação da Academia torna-se urgente. Entre as décadas de 1960 e 1970, apontou a nota, a meta era rejuvenescer o grupo, “para permanecer vital e relevante”. “Em 2016, a ordem é para inclusão em todas as suas facetas: gênero, raça, etnicidade e orientação sexual. Reconhecemos que são preocupações muito reais da nossa comunidade e contamos com o apoio de todos para que possamos avançar juntos”, disse.
A polêmica veio à tona na segunda, no dia do aniversário de Martin Luther King. Pelo Instagram, Spike Lee publicou texto justificando sua decisão. “Dr. King disse ‘chegará o dia quando será preciso tomar uma posição que não será segura, política ou popular, mas necessária, pois a consciência diz que está certa’”, citou. “O Oscar não é onde o real batalha.” A atriz Jada Pinkett-Smith protestou por meio de um vídeo publicado no Facebook.
Com as hashtags #OscarsSoWhite (Oscar tão branco) e #OscarsBoycott, o movimento ganhou proporção e adeptos. Esnobado no ano passado pela atuação em Selma, o ator David Oyelowo Slams, em entrevista ao site Vulture, questionou a imutabilidade do Oscar. “A Academia é uma instituição em que todos dizem que as mudanças radicais não podem ocorrer rápido. É melhor que isso mude.”
Votante na categoria de documentário, o cineasta Michael Moore também fez coro ao boicote. “Pensei sobre isso o dia inteiro. Não pretendo ir à cerimônia. Não pretendo assistir à cerimônia e não pretendo ir a nenhuma festa relacionada a ela”, anunciou o diretor de Tiros em Columbine (2002) e Fahrenheit 11 de Setembro (2004).
BRASIL
“Spike Lee encontrou o momento certo para falar. A luta persiste, e a gente tem que continuar dando cotovelada e cobrando cada vez mais nossos direitos”, acredita Zezé Motta. Com 50 anos de carreira, a atriz brasileira observa uma preocupação maior relacionada à diversidade racial. “Estou muito feliz com o protagonismo de Taís (Araújo) e Lázaro (Ramos), mas acho que ainda falta espaço para muita gente”, cobra. É preciso também avançar em relação aos personagens.
Em 2014, Zezé Motta vivenciou experiência que classifica como humilhante. Foi chamada para fazer Sebastiana, uma empregada doméstica na novela Boogie oogie. “Nada contra, mas quero saber o conteúdo”, frisou. A promessa é de que seria a mãe da personagem de Fabrício Boliveira, cujo sonho seria se tornar diplomata. Ela seria a pessoa responsável para que o filho lutasse por isso, mas a atuação incisiva que sua empregada teria se perdeu ao longo da novela, escrita pelo português Rui Vilhena.
“A gente tem muita luta pela frente e tem que aproveitar essas oportunidades (como faz Spike Lee) e botar a boca no mundo”, afirma Zezé. Para o cineasta Joel Zito Araújo, diretor de A negação do Brasil, a distorção apresentada na lista de indicados ao Oscar é fruto do perfil de votantes da Academia. Por isso, ele considera interessante não apenas o protesto de Lee como a resposta da instituição.
De acordo com levantamento feito pelo jornal Los Angeles Times, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood tem hoje 6 mil integrantes. Desses, 94% são brancos, 77% homens e 86% com mais de 50 anos de idade.
“Essas gerações mais velhas não só não têm olhos para a diversidade como também são reativas. Todas essas transformações da sociedade, aos olhos deles, são vistas como aberração, pressão indevida. Eles querem manter a mentalidade de outra época”, analisa Joel Zito.
Decano do cinema brasileiro, o ator Milton Gonçalves tem uma opinião diferente da de seus colegas de profissão. “Não vamos colocar isso (o fato de nenhum negro ter sido indicado) como se fosse preconceito. O cinema e o teatro norte-americanos sempre foram muito gentis com os atores negros. Se este ano não tem nenhum indicado, é porque não houve um grande filme com eles.”
Gonçalves se diz mais preocupado com o Brasil. “Nos EUA, o presidente é negro e benquisto. Nós nunca tivemos um presidente negro, nem um perto disso.” O bailarino e coreógrafo Rui Moreira é outro que traz a questão para o país. “É interessante observar como a ausência de negros em um grande prêmio causa manifestações em todo o mundo. No Brasil, uma das fortes diásporas negras no planeta, a falta de indicados e laureados num prêmio (de teatro ou cinema) passa batida.”
Já o ator Luis Miranda afirma que a Academia de Hollywood precisa se conscientizar. “(A falta de indicados negros) é um desrespeito não só com os atores negros, mas com a classe artística como um todo.”
| Cheryl Boone Isaacs, presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood |
Filme repetido
Neste século, o Oscar já foi branco (ou tão branco, como comprova a hashtag #OscarsSoWhite) outras vezes. A primeira, em 2001 (que deu o troféu de melhor filme para Gladiador, ator para Russell Crowe e atriz para Julia Roberts). A segunda, uma década mais tarde, que premiou O discurso do rei, Colin Firth e Natalie Portman como melhores filme, ator e atriz.
O embranquecimento da maior premiação da indústria ainda se repetiu na edição de 2015. Selma – Uma luta pela igualdade, longa-metragem sobre a histórica marcha pacifista organizada por Martin Luther King em 1965, concorreu a melhor filme. Mas nem por isso nenhum de seus atores foi indicado, tampouco sua diretora, Ava DuVernay.
A edição passada do Oscar passou para a história como aquela em que nenhum negro foi indicado e nenhuma mulher apareceu nas categorias de direção, roteiro e fotografia. Os discursos de agradecimento mais contundentes – como o de Patricia Arquette, eleita a melhor atriz coadjuvante – enfatizaram as diferenças entre homens e mulheres em Hollywood.
O mesmo Spike Lee que vai boicotar a premiação de 2016 afirmou, em 2015, ao site The Daily Beast, que “quem pensou que este ano ia ser como no ano passado é retardado”. Ele referia-se à edição de 2014, que deu a 12 anos de escravidão os principais troféus.
E é também de Spike Lee uma das mais notórias brigas da indústria. Em 2012, quando Quentin Tarantino lançou Django livre, o cineasta negro classificou de “desrespeitoso” o faroeste ambientado durante a Guerra Civil americana. “A escravidão nos EUA não foi um western spaghetti de Sergio Leone, mas um Holocausto. Meus ancestrais foram escravos, roubados da África. Eu os honrarei”, acrescentou.
A polêmica entre os dois cineastas voltou à tona em novembro, quando Tarantino esteve no Brasil para lançar Os oito odiados, atualmente em cartaz. Quando perguntado se faria um filme com Lee, Tarantino, que pretende dirigir somente mais dois longas, afirmou: “Só tenho dois filmes mais para fazer. Não vou desperdiçá-los com Spike Lee.”
sábado, 16 de janeiro de 2016
domingo, 29 de novembro de 2015
Impunidade ambiental - Carlos Minc
A tragédia de Mariana teve alertas não levados a sério. O Ibama multou a
Samarco por desmatamento ilegal, que desprotege as barragens, e pediu a
sua interdição
No Brasil, não existe cultura de prevenção. Em países onde há ciclones e terremotos, há simulações e exercícios frequentes, até para crianças. Aqui, até há pouco, sirenes e Mapeamentos de Risco (MRs) inexistiam. A impunidade ambiental (e não só) é regra: empresas não pagam multas e protelam obrigações de reconstituir ecossistemas — artigo 225 da Constituição federal, que, independentemente de comprovação de culpa, é responsabilidade objetiva.
A tragédia de Mariana teve alertas não levados a sério. O Ibama multou a Samarco por desmatamento ilegal, que desprotege as barragens, e pediu sua interdição, após ouvir órgão ambiental de Minas, que não se pronunciou. Condicionante ambiental da licença exigia plano de contingência, sirenes, que não existiam.
A Lei 1898 — das auditorias ambientais para empresas poluidoras, aprovada no Rio de Janeiro em 1991 — foi criticada: seria caro. Só foi cumprida 15 anos depois, inclusive pela CSN e Reduc: com diagnóstico preciso e ações de mudança tecnológica preventiva de R$ 400 milhões e R$ 1 bilhão, respectivamente. Pelo potencial destrutivo das barragens de rejeitos, estas devem ser submetidas a auditorias independentes. Municípios do Rio de Janeiro passaram a ter MRs, sirenes e sistemas de alerta de cheias dos rios a partir de 2007, com recursos do Fecam para o Departamento de Recursos Minerais, a Defesa Civil e o Inea. Vários prefeitos colocavam a publicação sob um jarro de flores e faziam obras em encostas e beira de rios, vedadas pelo MR. Nova lei obrigou que diretrizes do mapeamento fossem incorporadas ao uso do solo das cidades.
Em 2007, no segundo acidente das barragens da Cataguases, que contaminou as bacias dos rios Pomba, Muriaé e municípios do Noroeste Fluminense, acionamos, à frente da Secretaria do Ambiente, a Agência Nacional de Águas, o Ministério Público Federal e secretarias mineiras — que prometeram fiscalização e transparência. Admitiram que havia 40 barragens de risco, sem auditoria e plano da Defesa Civil, por pressão das mineradoras, por conta de custos. Até hoje, pescadores e agricultores do Noroeste fluminense não foram indenizados: um alerta para que a impunidade não se repita.
A proposta de Sebastião Salgado, que dedicou a vida ao reflorestamento das nascentes do Rio Doce, é a melhor. A volta à vida e atividades na região dependem da recuperação da Mata Atlântica e dos olhos d’água. Salgado propôs um fundo de recuperação, mas preocupa-se com quem irá geri-lo, para o recurso não ser desviado. No Ministério do Meio Ambiente, criamos, em 2009, o Fundo Amazônia — operado pelo BNDES e gerido por conselho com SBPC, sssociações de seringueiros, municípios. Não houve desvios, mas a execução foi lenta: foram aplicados só 30% de uma doação da Noruega, de US$ 1 bilhão.
Há que ter probidade e agilidade, para que o fundo apoie já ações que enfrentem a tragédia, regenerem o deserto produzido pela inépcia e reconstituam condições de vida de populações desterradas e agredidas.
- 29 nov 2015
- O Globo
- CARLOS MINC Carlos Minc é deputado estadual (PT-RJ)
Futuro? Que futuro? - Aldir Blanc
Juiz Moro, suas delações vazam mais que os rejeitos das barragens
Todos aqueles canalhas da casa de tolerância, votando pela merecida cadeia para Delcídio, o Bestalhão, pelo amor de meus netinhos! Não escapava um da mão na grade, que estão lá, relinchando ao vivo, com o Zé Peruca botando (des)ordem nos procedimentos. Quer dizer que um crime de 50 mil por mês gera prisão imediata, enquanto uma propina de 5 milhões de dólares continua impune na pátria que pariu as pobres crianças do Rio Morto? Essa é a aritmética do futuro?
Mais: Delcídio teria proposto mesada e fuga para evitar a delação de Cerveró, que envolveria a presidente no superfaturamento da refinaria Passadilma. Juiz Moro, suas delações vazam mais que os rejeitos das barragens. O sr. é tão severo. Não notou que tem alguém levando grana? Enquanto isso, Romário retiraria sua candidatura para apoiar o espancador Pedro Paulo. Assim ficaria blindado pelo PMDB. Chega! É preciso denunciar ainda o tonitruante silêncio do presidenciável mineiro Aócio Neves. Tem amiguinhos na Vale o Quanto Vaza, que virou privada na gestão de FHC. Vão todos se fifar — ou se sarnar!
Sugiro homicídio culposo para os irresponsáveis da Samarco & Vale. É o mínimo que o Brasil emporcalhado exige.
O texto abaixo vai para o grande Lédio Carmona, comentarista-símbolo da concisão e da elegância, que atua de forma diametralmente oposta aos elementos a seguir. O Comentarista do Futuro: — Ao ver o objeto do desejo, a terceira bola, diante de sua libido, representação do seio materno idealizado pela ansiedade primeva e edipiana contra o domínio do Nome do Pai, o atleta, no que era chamada de meia-lua, hoje topo do incidente russo-turco, foi acometido por uma desleitura bloomiana da jogada e, além de causar fratura exposta na tíbia do pseudo-Laio, afundou no que antes era conhecida como zona do agrião, atual Samarco. Uma curiosidade: devido a um transtorno no genoma, talvez ribossômico, o player gabava-se de possuir três testículos. Conta-se que ao voltar das desnudas, ex-peladas, em Honório Gurgel, as periguetes ironizavam o futuro volante: — Aí, hein? Tá com as bolas todas! A bibliografia para meu comentário pode ser encontrada em:
1 —“A Aimée de Lacan” — Jean Allouch;
2 — “Angústia de influência” — Harold Bloom;
3 —“O enigma da esfera”, “O Talmude” e o “Talismã-Badalhoca do Muezin” — Paulo Coelho;
4 — “The Future of Embryology and Genetics” — Roger Bighouse;
5 — “Meiões com chulé também são divinos” — Padre Marcelo de Rossi;
6 — “O seminal Hilda, a Mineirinha” — Carlos Zéfiro.
2 — “Angústia de influência” — Harold Bloom;
3 —“O enigma da esfera”, “O Talmude” e o “Talismã-Badalhoca do Muezin” — Paulo Coelho;
4 — “The Future of Embryology and Genetics” — Roger Bighouse;
5 — “Meiões com chulé também são divinos” — Padre Marcelo de Rossi;
6 — “O seminal Hilda, a Mineirinha” — Carlos Zéfiro.
- 29 nov 2015
- O Globo
- Aldir Blanc é compositor
Mistério há de pintar por aí - Cacá Diegues
O Brasil é um país, para o bem ou para o mal, cheio de mistérios. Três
filmes brasileiros, em cartaz na cidade, tentam dar conta de alguns
deles. Nenhum tem muito a ver com o outro, os mistérios que eles
procuram nos desvendar são de natureza totalmente diferente um do outro.
O primeiro desses filmes chama-se “Chico, artista brasileiro”, foi realizado por Miguel Faria Jr. e nos revela um Chico Buarque que o público muito mais supõe do que conhece. É impressionante como um artista que sempre esteve na linha de frente da música popular e da cultura brasileira em geral, às vezes com repercussão artística e política estrondosa, conseguiu preservar sua intimidade e, mais do que isso, sua individualidade solidária durante os seus 50 anos de atividade.
Um raro padrão brasileiro de integridade, Chico foi sempre um guerrilheiro do próprio pensamento, usando seu talento a serviço de causas que julgava justas, fossem elas de que natureza fossem, retirando-se quando considerava suficiente o que já fizera. Chico sempre teve o pudor do sucesso, sem se negar nunca a aceitá-lo com naturalidade e sem exibicionismo.
No filme de Miguel Faria Jr., pela primeira vez Chico nos mostra, num documento público, como ele é em sua privacidade. Um homem cheio de humor e ternura, capaz de rir-se de si mesmo e de nos dizer coisas da maior importância da maneira mais simples (me surpreendi com sua justíssima fala sobre a bossa nova). Os números musicais, montados com bom gosto e sobriedade, iluminam essa descoberta comovente da obra imortal de Chico.
Diferentemente do consagrado “Vinicius”, esse novo filme de Miguel Faria Jr. se dedica à compreensão mais íntima de seu personagem. Enquanto “Vinicius” era uma fascinante reportagem sobre o famoso poeta e letrista, “Chico” se aproxima de seu personagem para entendê-lo melhor. Enquanto o primeiro filme é um discurso de admiração por um grande artista, esse de agora é um delicado e confessional canto de amor por alguém que mexeu com nossas vidas nestas últimas cinco décadas.
Por provocação do próprio Chico, esse canto de amor vai de assuntos como a censura durante a ditadura militar, até seu orgulho pessoal como boleiro; ou de confissões como a descoberta de seu pai, Sérgio Buarque de Holanda, através da literatura, até o elogio das relações com sua ex-mulher, a atriz Marieta Severo.
O primeiro desses filmes chama-se “Chico, artista brasileiro”, foi realizado por Miguel Faria Jr. e nos revela um Chico Buarque que o público muito mais supõe do que conhece. É impressionante como um artista que sempre esteve na linha de frente da música popular e da cultura brasileira em geral, às vezes com repercussão artística e política estrondosa, conseguiu preservar sua intimidade e, mais do que isso, sua individualidade solidária durante os seus 50 anos de atividade.
Um raro padrão brasileiro de integridade, Chico foi sempre um guerrilheiro do próprio pensamento, usando seu talento a serviço de causas que julgava justas, fossem elas de que natureza fossem, retirando-se quando considerava suficiente o que já fizera. Chico sempre teve o pudor do sucesso, sem se negar nunca a aceitá-lo com naturalidade e sem exibicionismo.
No filme de Miguel Faria Jr., pela primeira vez Chico nos mostra, num documento público, como ele é em sua privacidade. Um homem cheio de humor e ternura, capaz de rir-se de si mesmo e de nos dizer coisas da maior importância da maneira mais simples (me surpreendi com sua justíssima fala sobre a bossa nova). Os números musicais, montados com bom gosto e sobriedade, iluminam essa descoberta comovente da obra imortal de Chico.
Diferentemente do consagrado “Vinicius”, esse novo filme de Miguel Faria Jr. se dedica à compreensão mais íntima de seu personagem. Enquanto “Vinicius” era uma fascinante reportagem sobre o famoso poeta e letrista, “Chico” se aproxima de seu personagem para entendê-lo melhor. Enquanto o primeiro filme é um discurso de admiração por um grande artista, esse de agora é um delicado e confessional canto de amor por alguém que mexeu com nossas vidas nestas últimas cinco décadas.
Por provocação do próprio Chico, esse canto de amor vai de assuntos como a censura durante a ditadura militar, até seu orgulho pessoal como boleiro; ou de confissões como a descoberta de seu pai, Sérgio Buarque de Holanda, através da literatura, até o elogio das relações com sua ex-mulher, a atriz Marieta Severo.
Artista brasileiro por sua própria definição, o filme termina com a
interpretação emocionada e emocionante de “Paratodos”, uma criação de
antropologia lírica do Brasil, o retrato do indecifrável mistério da
genialidade. A cara de Chico.
Outro mistério do cinema brasileiro: “Chatô, o rei do Brasil”, filme de Guilherme Fontes. O que se poderia esperar de um filme iniciado 20 anos atrás, dirigido e produzido por um menino com então pouco mais de 20 anos de idade, sem maiores compromissos com a cinematografia, a política e a cultura do país, um filme que, ainda por cima, havia de sofrer tantos e tão controvertidos acidentes de produção que só lhe permitiriam ficar pronto agora, duas décadas depois?
Pois a vítima de todos esses percalços é um grande filme!
Guilherme Fontes obteve os direitos do livro de Fernando Morais sobre Assis Chateaubriand, o tycoon da imprensa brasileira dos anos 1940 aos 60, e transformou a biografia literária em poesia cinematográfica. Uma poesia osvaldiana, refletida do tropicalismo da segunda metade do século passado, a poesia de “Terra em transe”, “O rei da vela” ou “Alegria, alegria”. Um exaltado carnaval de travellings e jump cuts, sempre surpreendentes e inspirados, para falar do Brasil e de brasileiros menos arcaicos do que podemos supor.
Como um milagre, o filme iniciado há 20 anos tem o frescor de um documento contemporâneo sobre o estado do país e seus líderes em diferentes setores da sociedade. O delírio político, o exibicionismo de comportamento, a ganância e o excesso, a ausência festiva de escrúpulos, parecem inspirados no que lemos diariamente nos jornais e vemos na televisão em nossos dias. Uma comédia dolorosa.
Embora tenha sido lançado em apenas 19 cinemas, “Chatô” fez, na semana passada, a segunda média de ingressos por sala. O que significa que atraiu a inesperada curiosidade de muita gente e, se fosse lançado em circuito maior, teria certamente feito bilheteria significativa. O grande sucesso cinematográfico é sempre aquele de filmes que o público ainda não sabe que vai gostar.
Ainda não vi o terceiro filme de minha lista, mas não posso deixar de lembrar que “Idolo”, documentário de Ricardo Calvet, trata de um grande mistério de nosso futebol, o gênio de Nilton Santos. Nilton, a Enciclopédia do Futebol, nunca deu um carrinho em toda a sua vida e, como jogava sempre de cabeça erguida, nunca soube de que cor era o gramado de futebol. Não dá para perder.
Outro mistério do cinema brasileiro: “Chatô, o rei do Brasil”, filme de Guilherme Fontes. O que se poderia esperar de um filme iniciado 20 anos atrás, dirigido e produzido por um menino com então pouco mais de 20 anos de idade, sem maiores compromissos com a cinematografia, a política e a cultura do país, um filme que, ainda por cima, havia de sofrer tantos e tão controvertidos acidentes de produção que só lhe permitiriam ficar pronto agora, duas décadas depois?
Pois a vítima de todos esses percalços é um grande filme!
Guilherme Fontes obteve os direitos do livro de Fernando Morais sobre Assis Chateaubriand, o tycoon da imprensa brasileira dos anos 1940 aos 60, e transformou a biografia literária em poesia cinematográfica. Uma poesia osvaldiana, refletida do tropicalismo da segunda metade do século passado, a poesia de “Terra em transe”, “O rei da vela” ou “Alegria, alegria”. Um exaltado carnaval de travellings e jump cuts, sempre surpreendentes e inspirados, para falar do Brasil e de brasileiros menos arcaicos do que podemos supor.
Como um milagre, o filme iniciado há 20 anos tem o frescor de um documento contemporâneo sobre o estado do país e seus líderes em diferentes setores da sociedade. O delírio político, o exibicionismo de comportamento, a ganância e o excesso, a ausência festiva de escrúpulos, parecem inspirados no que lemos diariamente nos jornais e vemos na televisão em nossos dias. Uma comédia dolorosa.
Embora tenha sido lançado em apenas 19 cinemas, “Chatô” fez, na semana passada, a segunda média de ingressos por sala. O que significa que atraiu a inesperada curiosidade de muita gente e, se fosse lançado em circuito maior, teria certamente feito bilheteria significativa. O grande sucesso cinematográfico é sempre aquele de filmes que o público ainda não sabe que vai gostar.
Ainda não vi o terceiro filme de minha lista, mas não posso deixar de lembrar que “Idolo”, documentário de Ricardo Calvet, trata de um grande mistério de nosso futebol, o gênio de Nilton Santos. Nilton, a Enciclopédia do Futebol, nunca deu um carrinho em toda a sua vida e, como jogava sempre de cabeça erguida, nunca soube de que cor era o gramado de futebol. Não dá para perder.
- 29 nov 2015
- O Globo
- CACÁ DIEGUES Cacá Diegues é cineasta carlosdiegues2015@gmail.com
sábado, 28 de novembro de 2015
E no entanto se move - Zuenir Ventura
- 28 nov 2015
- O Globo
Seria uma tarefa constrangedora cortar na própria carne numa casa como o Senado, de forte espírito de corpo, onde presidente
está sendo investigado
está sendo investigado
no exercício de seu mandato, no caso o líder do governo no Senado, Delcídio Amaral, junto com o poderoso banqueiro André Esteves (está preso em Bangu, frequentado até então apenas por banqueiros de bicho). A voz do primeiro aparecia numa gravação tentando comprar o silêncio do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, oferecendo R$ 4 milhões, R$ 50 mil por mês para a família e um detalhado roteiro de fuga para o exterior. Tudo para que os dois nomes não fossem citados por Cerveró, que firmara acordo de delação premiada na Operação Lava-Jato.
Delcídio foi logo lançado às feras pelos seus companheiros. O PT,
em nota, negou-lhe solidariedade, ao contrário do que fizera no
mensalão, transformando condenados como José Dirceu em “guerreiros do
povo brasileiro”. Além disso, quer expulsá-lo e, como se fosse pouco, o
ex-presidente Lula chamou-o de “idiota” e “imbecil” (o seu instituto
desmentiu, mas duas testemunhas, segundo a “Folha”, confirmaram). Pode
haver quem se arrependa de tê-lo execrado se, por acaso, Delcídio
resolver também ser um delator. De qualquer maneira, foi assim,
rejeitado e encarcerado, que Delcídio seria julgado à noite por seus
pares. Era difícil ficar conivente com ele diante de provas que o
tornavam quase indefensável. Mas, apesar disso, cortar na própria carne
numa casa de forte espírito de corpo, onde o presidente está sendo
investigado, seria uma tarefa constrangedora. E foi, ainda mais que o
acusado é tido como uma pessoa afável, de livre trânsito e muito
benquisto pelos adversários. Ganhou elogios até de muitos dos 59 que
votaram por mantê-lo na prisão. Sua derrota foi dupla. Perdeu quando o
plenário preferiu que o voto não fosse secreto, como queria o presidente
e os outros que não gostariam de revelar sua escolha. E perdeu em
seguida, quando a maioria aprovou a decisão do STF de mandar prendê-lo,
contra apenas 13 que queriam sua liberação.
Essa espécie de rebelião ética do Senado contra a vontade de quem o preside poderia servir de lição para a Câmara. O presidente dessas Casas não deve ser um ditador, principalmente se coberto de graves denúncias. Quando nada, para reforçar a impressão de que o país, como a Terra, está se movendo — e, espera-se, para melhor.
Essa espécie de rebelião ética do Senado contra a vontade de quem o preside poderia servir de lição para a Câmara. O presidente dessas Casas não deve ser um ditador, principalmente se coberto de graves denúncias. Quando nada, para reforçar a impressão de que o país, como a Terra, está se movendo — e, espera-se, para melhor.
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
País de rinocerontes? - Chico Alencar
Governo eleito há mais de um ano não consegue começar
- 18 nov 2015
- O Globo
- CHICO ALENCAR Chico Alencar é deputado federal (PSOL-RJ)
Apeça “O rinoceronte”, de Eugène Ionesco (1909/1994), marcou minha juventude. Ainda era ditadura, e a censura, de olho no espetáculo, cogitou proibi-lo. Não foi a primeira vez que sua burrice popularizou uma obra de arte. O humor cáustico e a linguagem figurada do texto questionavam a lógica do totalitarismo e da massificação, confundindo os defensores da ordem.
O regressismo conservador dos nossos tempos nos leva ao palco da vida real, onde se monta, a cada dia, um novo teatro do absurdo. A peça já clássica de Ionesco tem três atos. A do Brasil, que todos nós encenamos, em diferentes papéis, também pode ser estruturada assim.
O primeiro ato é o de um governo que, eleito há mais de um ano, não consegue começar. Trocou todo o cenário e os diálogos originalmente apresentados. O que foi dito na campanha ficou por lá, e agora a direção assumiu o roteiro do seu antagonista. O palco foi tomado por rinocerontes, com os humanos se transformando nesses paquidérmicos animais. O ar está pesado, as políticas públicas não andam, o governo não governa: vai sobrevivendo, aos trancos e barrancos, tentando se entender. O segundo ato se dá no Legislativo Nacional, em particular na Câmara dos Deputados. Nunca na história do Parlamento brasileiro um presidente sofreu acusações tão contundentes, com inquéritos por corrupção, lavagem de dinheiro e ganhos não declarados já no Supremo. Mas Sua Excelência nega tudo. Quando, afinal, tenta se explicar, traz uma história digna do absurdo de Ionesco, do surrealismo de Dalí ou do realismo fantástico de García Márquez. O acusado cunhou uma versão sui generis: reconhece acúmulo de bens no exterior que não são bem seus, propriedade que não lhe pertence, comprovação do que não é provável, em montante não preciso gerido por terceiros que não revela. O personagem de tantos negócios obscuros é ninguém menos que o segundo na linha sucessória da República. Nada sereníssima...
O terceiro ato pode ser o da peça de Ionesco, sem grandes
alterações. A letargia de quem devia reagir a tudo isso, em especial no
Legislativo, cria um ambiente de patética omissão. Comportamento de
manada é da natureza dos rinocerontes! Representação no Conselho de
Ética virou retaliação e tentativa de intimidação contra os que não
aceitam o servilismo do “não vejo, não falo, não ouço”.
Mas tem final feliz: apesar da tentação da acomodação à ordem em decomposição, as ruas resistem, de forma crescente. São como Berenger, o anti-herói de Ionesco. Após muito vacilar, e feliz por não ter se transformado, como tantos, em mais um rinoceronte, ele assume sua humanidade: “A mim vocês não pegam! Eu não vos seguirei, eu não vos compreendo! Continuarei como sou, um ser humano! (...) Contra todo mundo, eu me defenderei. Sou o último homem, hei de sê-lo até o fim: não me rendo!”.
Há caminhos.
Mas tem final feliz: apesar da tentação da acomodação à ordem em decomposição, as ruas resistem, de forma crescente. São como Berenger, o anti-herói de Ionesco. Após muito vacilar, e feliz por não ter se transformado, como tantos, em mais um rinoceronte, ele assume sua humanidade: “A mim vocês não pegam! Eu não vos seguirei, eu não vos compreendo! Continuarei como sou, um ser humano! (...) Contra todo mundo, eu me defenderei. Sou o último homem, hei de sê-lo até o fim: não me rendo!”.
Há caminhos.
terça-feira, 17 de novembro de 2015
Raymundo Costa: O segundo tempo do impeachment
Valor Econômico - 17/11/2015
Troca de Levy por Meirelles empareda de vez a presidente
O ex-presidente Lula disse a amigos que não fará mais tanta pressão para
a presidente Dilma Rousseff trocar de ministro da Fazenda. Vai deixar
de falar ao pé do ouvido e dizer de público o que pensa. Lula não quer
se indispor com Levy, com quem acha que tem divergências apenas
eventuais. Em suas palavras, não quer fazer "uma cruzada contra o Levy".
E o ouvido de Dilma, por outro lado, está quente de tanto ouvir os seus
argumentos em favor de Henrique Meirelles.
Lula e Dilma tiveram uma longa conversa sobre economia há menos de 15
dias. Nem todos os ministros da Casa participaram da reunião, organizada
por Jaques Wagner. Lula falou o que pensa da economia. E educadamente
ouviu o que a presidente tinha a dizer - bem diferente dos relatos sobre
conversas ocorridas no primeiro semestre. A relação entre os dois está
melhor, contam os amigos em comum. O que chamou a atenção foi a ausência
do ministro Joaquim Levy, aquele que Lula quer trocar por Henrique
Meirelles.
Lula queria mover três peças no governo: tirar Aloizio Mercadante da
Casa Civil, trocar Joaquim Levy por Henrique Meirelles na Fazenda e
tirar José Eduardo Cardozo da Justiça. Conseguiu o primeiro objetivo,
mantém a mesma opinião sobre Meirelles e mais do que nunca gostaria de
ver Cardozo longe de Brasília. Na época, posou de vencedor. Agora deixou
a conversa "desanimado". Diz que só falará em público, um perigo, pois é
justamente quando desata a falar que Lula mais tem ajudado a minar a
autoridade de Levy. Outro dia, um petista que defende a saída de Levy
reagiu desconcertado quando um colega de partido resolveu brincar com
ele: "Cuidado: Vocês podem gritar 'Fora Levy' e ganhar o Meirelles".
Lula não esperou muito tempo para declarar em público que a data de
validade do ministro Levy está vencida. Dilma subiu o tom e respondeu
que não era forçada a concordar com "avaliações" de pessoas das quais
gosta imensamente. Levy que se cuide: Dias antes da demissão de
Mercadante a presidente dizia que tirar o ministro da Casa Civil
significaria gerar mais "instabilidade" no governo.
Levy vem sendo fritado há tempos. Segundo as fontes palacianas, primeiro
foi Mercadante, então chefe da Casa Civil, que estimulava outros
ministros a divergir do titular da Fazenda, assim como boicotou o
vice-presidente Michel Temer quando este assumiu a coordenação política
do governo. Mercadante saiu e agora os líderes no Congresso afirmam que a
situação de Levy é insustentável. Tem mais alguém no Palácio do
Planalto e arredores incomodado com o ministro.
A receita da fritura é a mesma de todos os governos: o ministro não
teria o menor jogo de cintura político, se expôs numa conversa recente
com senadores, sem avisar ou combinar nada com a área política do
governo. Sua saída, nessas circunstâncias, seria questão de tempo. E por
que Meirelles? Para recuperar a credibilidade do governo a partir da
economia. É difícil medir a diferença. Numa tradução livre da piada
petista: o 'Fora Levy, vive Meirelles!".
O ministro Jaques Wagner, que participou da reunião com Lula, afirma que
está "alinhado" com a presidente - ou seja, Levy é um grande servidor
público compromissado com o país. "Estou aqui para apoiá-la (a
presidente) no que ela quiser", disse, por meio de sua assessoria.
Wagner também disse que tem ajudado nas votações relacionadas à Fazenda e
nega que tenha tomado partido do ministro Nelson Barbosa (Planejamento)
em divergências entre as duas pastas. Alias, acha perfeitamente natural
a discussão de projetos antes da tomada de decisão.
Pode ser. Wagner é um político jeitoso, cujos primeiros passos na Casa
Civil têm sido elogiados no Congresso, onde habita sua clientela. Mas na
prática o apoio do Congresso ao governo caiu, pouco mas caiu sobretudo
devido às questões de natureza econômica. Sem uma saída para a questão
econômica, dificilmente o governo voltará a ter a paz política de que
necessita para retomar os projetos de desenvolvimento econômico.,
Com menos de 10% de popularidade, hoje pode-se dizer que Dilma é a chefe
de Estado, mas já não é a chefe de governo. Há quem pense, no PT, em
antecipar a votação da proposta de impeachment, por estar seguro de que
tem pouco mais de 171 votos necessários para barrar o projeto. Talvez
duzentos e alguns trocados. Um governo fraco politicamente. Dilma pode
até escapar, mas sofrerá o "impeachment" de Estado, no momento em que
Meirelles assumir a Fazenda, se assumir. Mas ao vencedores do PT terá
restado mais que as batatas.
Análise de 13 votações realizadas em outubro revela que o apoio ao
governo voltou a cair, após ligeira melhoria no semestre, segundo
levantamento da empresa de consultoria política Arko Advice. Entre julho
e setembro, a média de apoio na Câmara foi superior a 50% e apresentava
tendência de alta. Em outubro, esse movimento foi interrompido, o
índice ficou abaixo desse patamar e fechou o mês em 49,70%.
O analista Cristiano Noronha atribuiu a queda sobretudo à votação de
matérias de natureza econômica. "A queda está relacionada ao número de
matéria polêmicas que foram submetidas à votação como, por exemplo,
repatriação, urgência para o projeto que revoga o regime de partilha nos
leilões do pré-sal e medidas provisórias do ajuste fiscal", disse
Noronha..
Na opinião da Arko Advice, essa é mais uma demonstração clara de que a
reforma ministerial realizada pelo governo não contribuiu para melhorar
"o nivel de coesão da base em matérias de interesse do governo". De
qualquer forma, ressalta Noronha, "o percentual é bem maior do que a
média de apoio verificada nos meses de março (38,34%) e abril (40,11%).
Também é superior que a média que a presidente teve no primeiro mandato
(45,24%)".
Sua conclusão: "Apesar da queda, o governo está conseguindo avançar -
ainda que com dificuldade e de forma lenta - na agenda do ajuste
fiscal".
Poderes de guerra
Hollande pede mudanças constitucionais para combater ameaça terrorista
- 17 nov 2015
- O Globo
- DEBORAH BERLINCK Especial para O Globo internacio@oglobo.com.br
França envia porta- aviões nuclear Charles de Gaulle ao Mediterrâneo para triplicar sua capacidade ofensiva contra o Estado Islâmico na Síria; polícia francesa faz 168 operações e prende 23 suspeitos
Em resposta ao massacre de 129 pessoas por jihadistas em Paris, na sexta- feira, o presidente François Hollande propôs a uma chocada França a reforma da Constituição para dar mais poderes ao Executivo, conta DEBORAH BERLINCK. No terceiro discurso de um chefe de Estado em sessão conjunta do Parlamento desde 1848, ele disse que o país enfrenta “um novo tipo de guerra” e precisa de outros instrumentos para combater os extremistas. Hollande afirmou que vai se reunir com os presidentes Obama, dos EUA, e Putin, da Rússia, na busca da união contra o terrorismo. Na Turquia para a reunião do G- 20, Obama voltou a descartar o uso de forças terrestres contra o EI. Na frente militar, a França enviou um portaaviões nuclear ao Mediterrâneo para reforçar o ataque ao terror na Síria. Ontem, a polícia francesa prendeu 23 suspeitos. - PARIS- Foi um discurso abertamente de guerra, longe dos temas que, até sexta- feira, mais preocupavam os franceses, como o desemprego e a crise. O presidente francês, François Hollande, carregou nas palavras, propondo até mudar a Constituição.
— A França está em guerra — disse, solenemente, ao iniciar o terceiro pronunciamento de um presidente às duas câmaras do Parlamento desde 1848.
Três dias depois do maior atentado terrorista da História recente da França, Hollande anunciou um vasto plano de segurança e a caça implacável aos radicais do país, sob os aplausos de pé de parlamentares de diferentes partidos, que cantaram “A Marselhesa”, o Hino Nacional francês.
Três grupos supostamente sob o comando do Estado Islâmico ( EI) massacraram 129 pessoas que se divertiam nos bairros boêmios de Paris, na sexta- feira à noite. E ainda deixaram o rastro do terror em 350 feridos, dos quais 88 ainda lutam pela vida.
Entre as medidas sugeridas estão a remoção da nacionalidade de cidadãos acusados de terrorismo, acesso irrestrito dos juízes antiterroristas às mais sote tecnologias de informação, e a criação de 5 mil vagas nas forças policiais e outras mil no serviço de aduanas.
Hollande também anunciou planos de alterar a Constituição, nos artigos 16 — que dá ao presidente poderes especiais em circunstâncias excepcionais — e 36, que regula o estado de emergência, declarado em caso de ameaça iminente contra o país, como a situação após os atentados em Paris.
— Este novo tipo de guerra exige um regime constitucional capaz de lidar com ela — afirmou.
Contrariando muitos na comunidade muçulmana da França que acham que o país erra ao se unir aos EUA para intervir no Oriente Médio, o presidente prometeu justo o contrário: intensificar os ataques na Síria, estreitar suas relações com o presidente americano Barack Obama, e o russo, Vladimir Putin, para “unificar as forças contra o terrorismo”. Ontem mesmo a França anunciou o envio do portaaviões nuclear Charles de Gaulle — a nau- capitânia da Marinha — ao Mediterrâneo, o que triplicará seu poder de fogo contra o EI na Síria.
Hollande também disse que vai apresentar uma medida para ampliar o estado de emergência decretado na sexta- feira após os ataques — o que exigiria aprovação do Parlamento.
— Vamos erradicar o terrorismo — afirmou Hollande após 50 minutos de discurso.
Apesar das palavras de Hollande, que destacou a necessidade de “união” no país após os ataques, a política francesa ainda lida com visões conflitantes sobre como lidar com o problema do extremismo no país. O ex- presidente Nicolas Sarkozy, líder dos Republicanos, principal legenda da oposição, pediu leis mais duras para cidadãos que se envolvam com o radicalismo islâmico.
— No momento há 520 jovens entre a Síria e o Iraque. Aqueles que retornarem devem ser presos — declarou Sarkozy, que defendeu a deportação de suspeitos com dupla nacionalidade. AMEAÇAS CONTINUAM Já a líder do partido de extrema- direita Frente Nacional, Marine Le Pen, defendeu a interrupção imediata do abrigo a imigrantes no país. Em nota, Le Pen — que atualmente enfrenta um processo por incitação ao ódio racial — afirmou que a decisão francesa de aceitar a cota de refugiados proposta pela União Europeia ( UE) foi “irresponsável”.
— A decisão de declarar estado de emergência foi boa. Mas independentemente do que a UE disser, é necessário que a França recupere permanentemenfisticadas o controle das fronteiras nacionais.
O Estado Islâmico alertou em um novo vídeo divulgado ontem que os países que participam dos ataques aéreos contra a Síria terão o mesmo destino da França, e ainda ameaçou atacar Washington. O vídeo, divulgado em um site usado pelo grupo radical para publicar suas mensagens, começa com o noticiário sobre os ataques de sexta- feira, em Paris.
Ontem, o primeiro- ministro Manuel Valls confirmou que a França e outros países europeus podem ser alvo de novos atentados nos próximos dias ou semanas. O diretor da CIA, por sua vez, afirmou que o Estado Islâmico está planejando novos ataques semelhantes aos de Paris. Na cúpula do G- 20 em Antália, na Turquia, Obama defendeu a estratégia utilizada pela coalizão que enfrenta o Estado Islâmico na Síria, e reiterou que os EUA não porão soldados em terra.
— A estratégia deve ser capaz de se sustentar — afirmou Obama.
As declarações seguiram o alerta do premier francês, que pediu para a França estar preparada. Ele destacou que os ataques foram “organizados, pensados e planejados” a partir da Síria.
— Vamos viver muito tempo com esta ameaça — advertiu Valls.
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