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sábado, 6 de abril de 2013

A infelicidade de Feliciano - CACÁ DIEGUES

 O Globo

Suspeito que Marco Feliciano não seja um homem feliz. ‘Infeliciano’ não deve dormir em paz

Outro dia, meu neto de 7 anos me disse excitado que tinha um presente para mim. Era uma lata de Coca-Cola que havia encontrado com meu nome, Carlos, inscrito nela. Tive a sensação de que meu neto havia-me achado no meio da multidão e me propunha celebrar minha existência.

Como quando nomeamos alguém estamos identificando sua singularidade, me dei conta de que um dos produtos mais universais do planeta, um dos signos fundadores da globalização, havia sacado a necessidade de reconhecer a existência do indivíduo e sua diferença. A humanidade não é uma massa anônima e informe, mas o encontro entre seus indivíduos, a única coisa concreta que existe. O resto (língua, sociedade, moeda, nação, estado, cultura, o que mais for) são abstrações necessárias que inventamos para poder melhor conviver com o outro.

É claro que essa operação de marketing do produto que minha geração, em sua juventude irreverente e bem-humorada, chamava de “a água suja do imperialismo”, é apenas uma fantasia que não vai melhorar a vida de ninguém. Mas é significativo que a marca máxima de um modo de vida planetário reconheça a necessidade de lembrar nossa individualidade, nossa diferença, nossa singularidade.

Somos indivíduos responsáveis pelos outros e essa responsabilidade começa pelo respeito ao que o outro é ou quer ser. A democracia é o único regime político em que esse comportamento se encontra em seu cerne. Sem ele, ela perde o sentido. Segundo Tocqueville, o grande pensador da democracia moderna na primeira metade do século 19, o regime democrático é uma ditadura da maioria, abrandada pelos direitos de manifestação das minorias. É tão simples e profundo quanto isso.

Nosso Congresso Nacional está deixando que essas ideias indiscutíveis sejam negadas pela ação nefasta do deputado Marco Feliciano, à frente da Comissão de Direitos Humanos. E esse desastre não tem apenas o deputado como único culpado; grosso modo, a câmara inteira é responsável pelo grave erro.

A democracia representativa fica comprometida quando os partidos dão prioridade a seus arranjos funcionais, em prejuízo da representação popular. Apesar de grosseiro, medieval e inaceitável, o deputado tem o direito de pensar como quiser, para agradar seus eleitores específicos. Mas não tem o de impor, por delegação de seus pares, as consequências segregadoras desse pensamento sectário à população inteira, que inclui os que são discriminados.

Todos os partidos deixaram que isso acontecesse quando negociaram, segundo seus interesses táticos, a formação das diferentes comissões no Congresso. A culpa não é só do partido de Feliciano, o PSC, que o indicou; os outros também preferiram o conforto próprio, em detrimento da segurança social da população. Quando isso aconteceu, onde estavam o PT e seus “progressistas”? Por onde andavam os “democratas” do PSDB? Que faziam os “socialistas” do PSB? E os “liberais’ do DEM? O único congressista que vi se manifestar desde a primeira hora, com coragem e firmeza, sem se preocupar com as conveniências regimentais da Casa, foi o deputado Jean Willys.

Suspeito que Marco Feliciano não seja um homem feliz. Ele deve viver atormentado pelos fantasmas do porre de Noé, do pecado de Cam, da maldição divina sobre a África e os negros. Feliciano não pode gastar relaxado o dízimo de seus fiéis, enquanto houver no mundo aborto, homossexuais, casamento gay e gente que não pensa como ele. “Infeliciano” não deve dormir em paz.

Mas confesso que não admiro nem um pouco o modo de reação de alguns ativistas contra ele. Numa democracia, não se deve fazer política invadindo reuniões, subindo nas mesas, agredindo quem passa pela frente, impedindo o interlocutor de se manifestar. A democracia é também um processo civilizatório, como foi a justa manifestação recente na ABI, organizada por Jean Willys, com a presença de Caetano Veloso, Wagner Moura, Preta Gil e tanta gente que lotou aquele auditório para discutir o assunto.

É evidente que hoje, no mundo inteiro, vivemos uma grave crise da democracia representativa. Talvez pelo crescimento da população em todos os países; talvez pela distância cada vez maior entre representantes e representados; talvez até mesmo pela crescente superação do poder do estado pela força natural da sociedade. Não sei encontrar solução para essa crise. Mas ela não pode ser a democracia direta que nos leve à aventura irresponsável do populismo, nem o voto distrital que torna clientelista o resultado de uma eleição, eliminando o debate ideológico que organiza o futuro. É preciso começar a discutir uma reforma política democrática que contemple todas essas novidades.

Para certos crentes, nosso mundo real é sempre provisório, o paraíso se encontra muito mais à frente, bem adiante de nós. Depois é que é sempre bom e, para chegar lá, devemos suportar dor e sofrimento, a fim de nos tornarmos merecedores da graça no futuro e punirmos os que ousam desejar ser felizes por aqui mesmo. Mas temos o direito de exigir que nos deixem ser o que somos, que nos garantam, aqui e agora, nossa felicidade de cidadãos, nossa “felicidadania”.

sábado, 9 de março de 2013

O canto dos pássaros - CACÁ DIEGUES

O GLOBO -  09/03/2013

A verdade não é uma bastarda pagã. Ela é filha da natureza com as circunstâncias, e afilhada de nossos interesses e opiniões. Nenhuma imagem, por mais concreta que seja, terá sempre o mesmo significado em diferentes circunstâncias.

Presente do governo francês ao povo americano, a Estátua da Liberdade, na entrada do porto de Nova York, é um belo e nobre símbolo de princípio consagrado pela cultura ocidental. Mas idêntica Estátua da Liberdade, diante de shopping na Barra da Tijuca, é apenas ridícula manifestação de mimetismo e arrogância sub-culturais, que nos quer fazer crer que ali estamos em Nova York.

Na história política do continente, Simon Bolívar foi tratado como aventureiro oportunista pelo insuspeito Karl Marx. E, no entanto, por seus feitos nas guerras pela independência da América hispânica, tornou-se símbolo do anti-imperialismo contemporâneo e pai da pátria venezuelana, assim consagrado por Hugo Chávez.

Assim também, o próprio Hugo Chávez não pode ser tratado como mero e tradicional caudilho populista, imagem que nos vem à mente quando lembramos de seus gestos demagógicos, de sua carnavalização do poder e sobretudo de seus atos autoritários (embora confirmados pelo voto popular).

Quando Chávez vai a Cuba e elogia os Castro, não está abraçando uma ditadura hereditária que não implantou em seu país. Ele sabe que Cuba não tem mais nenhuma importância no jogo de poder internacional, mas precisa saudar o velho símbolo do anti-americanismo, ficar do lado que provoca a fúria do lado de lá. O ódio às vezes pode ser uma moeda de troca nos negócios internacionais.

O regime chavista manteve no país uma inflação alta, quase dobrou o valor da dívida pública, criou condições para o aumento da violência urbana, pôs a Venezuela na dependência exclusiva do petróleo, tentou controlar a imprensa. Mas também quase triplicou seu PIB per capita, diminuiu a pobreza extrema de 20 para 7% da população, baixou a taxa de desemprego pela metade, não fez nenhum preso político. E não se tem notícia de corrupção, roubalheiras praticadas pelo líder do regime.

Nenhum caudilho populista, apenas inescrupuloso ou demente, se interessaria tanto por seu povo, sobretudo pelos mais pobres. Nem seria tão amado por ele, do jeito que Chávez foi.

No fundo, Hugo Chávez foi uma caricatura do que poderia ser a reação às evidentes frustrações causadas pela democracia representativa em nossos países, com seus Congressos de espertos e insensíveis legisladores, quase sempre corruptos, desinteressados da população. Em quase toda a América Latina, os Executivos nacionais têm merecido muito mais respeito do que seus Legislativos. E portanto mais poder.

Farto de tanta teoria sobre seu trabalho, Pablo Picasso disse um dia que "todo mundo fala em ‘compreender a pintura’, mas ninguém fala em ‘compreender o canto dos pássaros’". Foi a observação dos homens que fez o canto dos pássaros ser belo. Talvez tenhamos que desvencilhar a política de todas essas teorias ideológicas, para apreciar o que de verdade está por trás dela, em benefício da população.

*****

Há dez anos os cineastas brasileiros lutam pela criação do Vale Cultura, mecanismo público em que o trabalhador de carteira ganha o direito de gastar, sem custo para ele, 50 reais mensais em consumo cultural, indo ao cinema, ao teatro, à livraria, aos concertos que bem entender. O centro das políticas públicas para o setor passaria a ser o interesse do consumidor e não mais, como sempre foi, o do produtor.

Com a notícia de que a ministra Martha Suplicy está incluindo, nesse consumo incentivado, o direito de uso do Vale Cultura para a assinatura de televisão paga, nossos esforços de dez anos foram frustrados. Mais uma vez, acordamos de um sonho para a dura realidade em que os mais poderosos acabam sempre levando tudo, mesmo que não precisem de nada.

Em pouco tempo, a televisão paga no Brasil passou de 8 para as atuais 20 milhões de assinaturas. E só tende a crescer, como signo de mobilidade social e ascensão de classe. Um crescimento que, por enquanto, só favorece a produção audiovisual estrangeira, a maioria absoluta de sua programação.

No mundo inteiro, a televisão compensa seu poder tecnológico na oferta de consumo cultural sendo a principal fonte de financiamento de filmes. Isso acontece dos Estados Unidos à Ásia (incluindo a China), da Europa a grande parte da América Latina (como Chile e Argentina). Sendo o primeiro país do mundo em que o cinema vai ajudar a financiar a televisão, o Brasil será certamente objeto de gargalhadas nos próximos encontros internacionais do audiovisual.

Conhecendo o passado político de Martha Suplicy, temos esperança de que essa notícia seja um boato e que o Vale Cultura vá beneficiar apenas os produtores brasileiros de cinema, teatro, música, literatura, etc. Os que de fato precisam dele.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Golpe contra novos rumos - CACÁ DIEGUES

O GLOBO - 23/02/2013

Brasileiros sectários, supostamente em defesa de Cuba, provocam uma reação que só faz prejudicar o projeto de abertura daquele país



Não é muito fácil, para uma pessoa da minha idade, falar sobre Cuba. Para minha geração, Cuba foi um modelo de sonho, esperança de um inédito socialismo democrático, com liberdades individuais, direitos e oportunidades iguais para todos, liderado por rapazes como nós, com menos de 30 anos de idade, num país miscigenado como o nosso, ao som de rumba, mambo e bolero.

Nada poderia nos produzir mais euforia que a noite de Ano Novo em que Fidel Castro entrou em Havana e tomou o poder com seus guerrilheiros barbudos. Eu tinha 18 anos e estava nas ruas, com meus colegas da UNE e os companheiros do futuro Cinema Novo, celebrando a vitória da beleza e da justiça, como diria Paulo Martins em “Terra em transe”. Isso ninguém esquece. Mesmo que o sonho se transforme em pesadelo, permanece em nossos corações na sua forma original.


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sábado, 9 de fevereiro de 2013

Meu caro senador - Cacá Diegues

A ética, senador Calheiros, não é meio nem fim. É princípio. É a melhor invenção do homem, um princípio sem o qual não se pode viver em sociedade


Parece absurdo falar de ética em pleno carnaval, uma festa dita bárbara, com fama de tudo permitir sem restrição alguma. Não é bem assim. Como o carnaval foi inventado por seres humanos em sociedade, há sempre um contrato de comportamento mútuo entre os que desfrutam dele.
Experimente, por exemplo, namorar a mulher do passista de sua escola, enquanto vocês desfilam. Ou tocar o pandeiro fora do ritmo do animado bloco de sua rua. Experimente interromper o baile à fantasia para propor uma oração em memória de ente querido.