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quarta-feira, 20 de março de 2013

O cheio e o vazio - Francisco Bosco


‘Hoje, o mundo se tornou um hipermercado. E o campo digital tornou esse hipermercado globalizado em tempo real’

Há algumas semanas, Hermano Vianna publicou aqui um comentário (assim entendi, pois a menção não era explícita) à edição da “Carta Capital” que declarava “o vazio da cultura” brasileira contemporânea e, nos termos do editorial de Mino Carta, a “imbecilização do Brasil”. Na “Carta” dessa semana, Vladimir Safatle volta ao tema, afastando-se do modo como Mino Carta tratou o problema — uma avaliação objetiva e negativa sobre a qualidade das obras produzidas hoje — e lançando questões oportunas, como a necessidade de se repensar a noção de “cultura popular”. Farei aqui um comentário indireto às visões de Hermano e Safatle (talvez volte a elas mais detidamente na próxima semana), chamando atenção para um ponto que me parece importante nessa discussão.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Entrevistas - Francisco Bosco

Certa vez participei de uma mesa em torno do lançamento de um livro de meu amigo Alberto Pucheu. Ele contou que relera alguns de seus livros e chegara à conclusão de que o núcleo de identidade que os atravessava não estava tanto nas ideias quanto no modo de escrever, na cadência da frase, na sintaxe: “Eu sou um ritmo”, ele concluiu. Essa cena me veio à cabeça porque reli hoje (à procura de uma informação que julgava estar lá) uma entrevista que concedi há alguns anos. O entrevistador gravou a conversa, mas, para minha perplexidade (e decepção e indignação), quando li o resultado final, depois das intervenções dele, não me reconheci no texto: as ideias estavam adulteradas por paráfrases desajeitadas e meu ritmo tinha uma cadência tão graciosa quanto a de um desses bailarinos do Bolshoi quando vão sambar na Mangueira. Diante daquele espelho, me senti como Cristo se sentiria vendo a restauração de seu retrato feito pela tal senhora espanhola, que virou hit mundial.

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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

E nós com isso? - Francisco Bosco


‘Todo ano observo com perplexidade a atenção imensa que se presta à premiação do Oscar’

Todo ano observo com perplexidade, misturada a algum tédio e uma dose de revolta, a atenção imensa e generalizada que se presta à premiação do Oscar. Entre, digamos, as instituições culturais mundiais, o Oscar é uma das mais anacrônicas. Trata-se de uma cerimônia de autocelebração do cinema estadunidense, onde se premia a cinematografia deles, mais exatamente, certa cinematografia deles — e a que não faltam a categoria de melhor filme estrangeiro e eventuais exceções inesperadas ocupadas por estrangeiros em outras categorias para confirmar a regra do provincianismo à americana, que é a autossuficiência.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A linguagem das coisas - Francisco Bosco

No domingo retrasado, em sua coluna na “Folha de S.Paulo”, Ferreira Gullar argumentou contra a arte contemporânea, questionando o estatuto de arte das obras de alguns dos artistas tidos como dos mais importantes de nosso tempo. Isso porque, para Gullar, a arte contemporânea é “caracterizada por não ter linguagem” e é, no limite, uma “negação dos valores estéticos”. Considero que o grande poeta está, quanto a isso, bastante equivocado. Selecionarei e comentarei as passagens mais decisivas de sua argumentação, quanto ao ponto que me interessa aqui.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O monossexualismo - Francisco Bosco


Entrevista que o pastor Silas Malafaia concedeu a Marília Gabriela mostra dialética de civilização e barbárie

A entrevista que o pastor Silas Malafaia concedeu a Marília Gabriela teve grande repercussão nas redes sociais, em especial os trechos em que o pastor trata da homossexualidade. Recomendo que se veja a entrevista na íntegra, pois por meio dela pode-se compreender com clareza a dialética de civilização e barbárie que constitui a experiência das religiões monoteístas e sua relação com a sociedade. Senão, vejamos.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Esquenta - Francisco Bosco


O programa de auditório, esse vira-lata da cultura de massas, ressurge em versão inteligente na atração de Regina Casé

Há uns meses atrás meu colega de coluna Hermano Vianna observou que se costuma dar maior valor às suas produções em registros tradicionalmente tidos como “intelectuais” ou “elevados”, menosprezando suas intervenções em registros tidos como “superficiais” ou de “baixa cultura” (cito de memória, as palavras não foram essas). Hermano reprova essa visão — e com toda a razão: sendo o seu pensamento, que é um pensamento-ato, sempre efetivado concretamente na realidade da cultura, uma aposta no encontro e numa transvaloração cultural, hierarquizar os registros em que ele se manifesta já é de saída uma maneira de não o compreender. Faço essa introdução para finalmente tratar aqui de algo que quero tratar há tempos: o programa de TV “Esquenta!”, apresentado por Regina Casé, do qual Hermano é o idealizador (a redação final é de Patricia Andrade e Paula Miller).

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