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sábado, 1 de junho de 2013

Machado - Jose Miguel Wisnik


O GLOBO - 01/06/2013

A revanche de Machado em Moscou e um raio luminoso na Comissão da Verdade

Em 2007 participei de uma Semana da Língua Portuguesa em Moscou. O evento era uma iniciativa das embaixadas do Brasil e de Portugal e desenrolava-se na Biblioteca de Literaturas Estrangeiras, em cujo pátio aconteceria o momento áureo e mais solene do evento: a inauguração do busto de Machado de Assis. Bustos, estátuas e efígies de escritores, meditativos, eloquentes ou simplesmente de perfil para a posteridade, espalham-se por toda parte em Moscou. Lá, os encontros costumam ser marcados aos pés de Pushkin. Maiacovski ocupa uma praça em cujo subterrâneo está a estação de metrô com seu nome, no teto da qual se inscrevem poemas seus. Dostoievski e Tchecov são colossais. A entrada em cena do busto de Machado era um passo modesto, mas curioso, e bem à moda russa, do lento reconhecimento que vem se dando do nosso escritor maior no plano da literatura mundial.

Mais curioso ainda, e no entanto nada modesto, se revelou quando nos deparamos com o lugar que o nosso marco literário ocupava no átrio povoado pelos vultos de Goethe, Proust, Joyce, Pirandello. É que o representante da embaixada, um animado nissei brasileiro, em contato com os funcionários da biblioteca, tinha perguntado a eles sobre a localização do busto a ser instalado. Como a Rússia se parece com o Brasil na admissão de uma razoável margem de indeterminação, a resposta foi a de que ele podia escolher onde lhe parecesse melhor. O resultado irônico, ao descerrar-se o véu inaugural, é que Machado reluzia nada mais nada menos do que no centro geométrico do pátio, no epicentro das forças literárias do ocidente, tendo à sua volta o que parecia ser por um momento um irlandês bêbado, um alemão altivo e deslocado, um francês blasé, um italiano à procura de lugar, sem falar numa legião de outras expressões nacionais, todos convertidos por um efeito ótico instantâneo em orla periférica da inesperada centralidade machadiana.

Por obra de um acaso objetivo que não deixava de ser cômico e iluminador, o “mestre na periferia do capitalismo”, em Moscou, ocupava o centro. É significativo lembrar que o próprio Roberto Schwarz chamou a atenção, em “Ideias fora de lugar”, para as enormes afinidades entre as literaturas do Brasil e da Rússia, esses países continentais historicamente ligados ao escravismo e à servidão, na periferia do centro europeu. Por uma espécie de inadvertida revanche contra o pouco reconhecimento internacional de sua grandeza, o fora de lugar encontrava neste lugar de fora um equívoco mas não descabido lugar máximo. Não sei se a biblioteca russa corrigiu ou não, depois, o gesto soberano do nosso representante diplomático, que, sem saber, fez justiça com as próprias mãos: justiça, refiro-me, ao que sustentara Susan Sontag em 1990, confessando-se “espantada de que um escritor de tamanha grandeza ainda não ocupe o lugar que merece no palco da literatura mundial”. Na mesma passagem, ela constatava o quanto o centro pode ser periférico, e a periferia, central.

Lembro tudo isso por causa da tese de Hélio Guimarães, de cuja banca fiz parte, e que rastreia mais de um século da recepção crítica de Machado de Assis, os caminhos enviesados da sua conversão em monumento e as surpresas desconcertantes que ele não cessa de fazer pelas bordas e no miolo. Pelo quanto uma obra literária pode demandar, suportar e desafiar leituras ao longo dos tempos. Pelo quanto somos esquisitos aos olhos do mundo, e aos nossos, se nos admitíssemos nos ver. Lembro os textos de José Antonio Pasta que flagram a luta de morte como constante estrutural insidiosa no romance brasileiro, onde os antagonistas se confundem e se anulam sem a possibilidade de um salto dialético.

Penso no fato de que, desde a minha última coluna, na qual crianças xingavam André Mehmari, um morador de condomínio de luxo matou o casal vizinho por causa de som e fúria, significando nada, o prefeito do Rio esmurrou um artista que o xingava, mas que não sustentou o que dizia e o golpe que sofreu, e mais um dentista teve o corpo queimado por bandidos, atestando que o crime também segue, a seu modo, tendências e moda.

Hoje, no entanto, tudo isso é atravessado por um raio luminoso, o depoimento da historiadora Dulce Pandolfi à Comissão da Verdade, sobre as torturas que sofreu durante a ditadura militar. Da violência nós sabemos, de maneira genérica. Da sordidez e da minúcia sádica, da covardia e dos meandros mais mesquinhos e sinistros do mal, confundidos com a vida oficial brasileira, ela nos diz de maneira elevada, cristalina e irrespondível. Esse depoimento precisa ser conhecido na íntegra, não direi como uma lição moral e cívica, que não deixa de ser, mas como um testemunho da nossa humanidade.


sábado, 25 de maio de 2013

Não ouvir - José Miguel Wisnik


O Globo - 25/05/2013

O pianista André Mehmari é um dos maiores fenômenos da música instrumental surgida no Brasil nos últimos tempos

O pianista André Mehmari é um dos maiores fenômenos da música instrumental surgida no Brasil nos últimos tempos. Quem acompanha o gênero conhece certamente a sua técnica espantosa, sua fluência única e sua capacidade de transitar com sobra entre os estilos da música popular e da música de concerto. Seu recital recente na Sala São Paulo remetia, sem medo do paralelo, a uma versão brasileira do paradigma Keith Jarrett, o pianista que tem o instrumento como uma extensão total do corpo e que improvisa numa zona sem fronteiras entre as formas que o piano acumulou. Mehmari relata no Facebook uma experiência recentíssima e a seu modo chocante, que desafia a nossa capacidade de ler o estado atual das coisas.
Antes de passar a ela, uma observação a mais sobre a comparação entre Jarrett e Mehmari, marcando agora não a semelhança mas uma diferença estética, para não deixar a comparação de passagem num plano muito simplista. Jarrett é angustiado, problematiza o silêncio que o ronda, envereda pelo fragmento e pelo choque, entre o jazz, a música clássica e os impasses da arte moderna. Mehmari é de uma musicalidade sem dramas, de fundo romântico, que jorra nos moldes daquela que a lenda consagrou como sendo a de Villa-Lobos, que não conhece nem coloca limites à sua inesgotável capacidade de expressão.

Vamos aos fatos. André foi participar de um espetáculo para 600 crianças de escolas públicas, com idades entre 10 e 12 anos, num dos teatros municipais de Campinas, no bairro da Vila Industrial. Acho que o programa se chama “Ouvir para crescer”, e se iniciava com uma parte em que atores apresentavam de maneira divertida, caracterizados como palhaços, as características da linguagem musical. Até aí o roteiro pedagógico-cultural transcorria sem sustos. Em seguida entrava André, que apresentaria músicas de Ernesto Nazareth, fazendo as pontes, que ele é mestre em fazer, com outros repertórios. Ao começar uma explicação sobre a sua participação, e mesmo antes de tocar, começou a receber vaias e xingamentos pesados, intensivos, que se multiplicaram e continuaram ao longo de toda a apresentação.

Mehmari é uma pessoa sem pose, suas apresentações são informais e guiadas pela vontade sincera de contribuir. A rejeição não se aplicava a eventuais pompas ou a alguma ostentação de atitude. Imagino que ela se dá, primeiro, na passagem do tom divertido da primeira parte ao tom mais sério e concentrado que ele imprimia. Junto com este vêm certamente, misturados na reação cega da massa de xingamentos, o peso oficial da escola desacreditada, confundido com o estranhamento de classe social, que o pianista deve ter encarnado involuntariamente naquela situação ao mesmo tempo específica e sintomática.

Antes de qualquer outra consideração, é preciso dizer que a reação cega e coletiva ao outro, informe, não elaborada, dada de antemão e deixando sem ação os monitores do programa ironicamente intitulado “Ouvir para crescer”, com o agravante de que vinha de pré-púberes, é um sinal, entre outros, de pontos de ruptura no tecido civilizatório que passa pela escola. Notícias recentes, vindas de muitas partes, de violências no espaço escolar, dentro ou fora da sala de aula, indicam essa espécie de liberação do ataque físico ou verbal, a colegas ou a professores, como uma prática disseminada da qual a plateia referida pode ser vista como um corpo de aprendizes já em plena atividade.

Mais que isso, eles estão imitando procedimentos que estão se dando de muitas formas e em muitos lugares, não só nas chamadas classes C e D, como era o caso, mas nas A e B, na escola, nos debates, nas instituições, na rua. Gozar mais a derrota do time adversário do que a vitória do próprio time é um dos sintomas dessa síndrome. Quem quiser entender isso precisa escapar da lamentação moral de classe média sobre a falta de educação nas famílias. Não que ela não exista, e não seja um dos focos da questão, mas é que ela faz parte de uma rede de identidades que se constituem precariamente sobre a relação rivalitária de indivíduos e grupos cuja afirmação de existência depende da negação frontal do outro. É uma queda do laço simbólico que supõe a troca e a aceitação da própria fragilidade, das próprias insuficiências e das próprias contradições.

A cultura alta levada para jovens plateias pobres (no caso, Nazareth!), pode fazer o papel de ingênua, nesse contexto em que os muros e os fossos reais e imaginários prevalecem. Mas a questão, para mim, continua sendo a de ultrapassar os muros e os fossos, nas duas direções.


sábado, 18 de maio de 2013

Alê - José Miguel Wisnik


 O Globo - 18/05/2013

Alê conhece profundamente os procedimentos estruturadores da música de Bach à de Stockhausen

Como sempre acontece, entrego a coluna na quinta-feira. É a data limite do jornal e a minha também, porque jamais consigo escrever com antecedência. Hoje faço um show no Espaço Tom Jobim, e como já contei outras vezes, tenho que fazer a proeza de não me consumir aqui, e evitar a minha tendência a demorar demais na escrita. Para começar, nada de dissertações.

Cheguei na terça-feira para uma aula-show com Arthur Nestrovski no Real Gabinete Português de Leitura, que comemorava 176 anos de existência Eram canções comentadas indo de Martin Codax (canções galego-portuguesas do século XIII) a Fernando Pessoa, passando por Gregório de Matos, Drummond e Vinicius. Tivemos problemas de som, compensados pela reverberação e a maravilha do lugar, essa espantosa biblioteca a olhos nus plantada no centro do Rio de Janeiro como uma epifania surreal de Portugal. Nunca é demais lembrar que Machado de Assis, que não frequentou escola senão a primária, formou boa parte do seu repertório literário universal no Gabinete Português, antes da existência do prédio atual, que data do fim do século XIX.

Na quarta-feira fiquei trabalhando o dia inteiro com Jussara Silveira e Rita Ribeiro num futuro CD delas, que será um disco centrado o mais possível na autossuficiência das vozes. Nosso produtor é Alê Siqueira, eu faço uma espécie de direção artística que é mais propriamente uma parceria de ideias com ele e com elas, e ficávamos trocando canções que nos lembravam canções, feitas de outras canções desembocando em ainda outras. O melhor dos mundos.

Para que se entenda, eu preciso explicar um pouco Alê Siqueira, esse paulistano de Santana que resolveu há anos morar na Bahia para entender os ritmos, a última coisa que faltava na sua formação de quem cresceu ouvindo rap, dominou a música pop, mergulhou na linguagem da música erudita em toda a sua extensão histórica e trabalhou cinco anos com Flô Menezes no estúdio Panaroma de música eletroacústica. Alê conhece profundamente os procedimentos estruturadores da música de Bach à de Stockhausen.
Temperou tudo isso com a sua convivência com a canção popular, da chamada vanguarda paulista (ele é uma espécie de vanguarda paulista mutante, de última geração) ao panteão da canção pop (coproduziu o disco dos Tribalistas e acaba de produzir boa parte do próximo de Ana Carolina, entre muitos outros).
Dizendo assim, e como não estamos acostumados com tal amplitude e solidez de repertórios, pode ficar parecendo que Alê participa do clima de vale-tudo estético em que se mistura aleatoriamente tudo com tudo. Não haveria engano maior. Quando escrevi o livro “O som e o sentido”, em 1989, fiz no final a única profecia do livro, que era em parte uma piada, um jogo de palavras mas também uma previsão a se colocar no plano das ideias: a da formação de um novo tipo de músico a ocupar o lugar transformador que se deu historicamente com os filhos de Bach, que desenvolveram a forma-sonata e a forma-concerto, em contraponto com os filhos de Stockhausen, que eu ouvia dizer que faziam jazz e música pop. Falei então no surgimento de “filhos de Stockhausen”, não os literais, mas o de músicos capazes de transitar sem barreiras, e com completo conhecimento de causa, por todas as formas possíveis da música, como se tivessem decodificado o monolito dos tons e dos pulsos.

Essa figura virtual tomou corpo no mundo, ela pode ser reconhecida por exemplo em Björk, mas eu não imaginava uma encarnação completa tão perto de mim, como a de Alê Siqueira. Estão aí Rita Ribeiro e Jussara Silveira que não me deixam mentir. Alê é desses músicos capazes de radiografar a música que escuta, de distinguir imediatamente os pontos nodais que a diferenciam e que permitem a sua compatibilidade com outras. No campo melódico-harmônico e no campo rítmico (cujas claves africanas e cubanas ele domina, depois de ter trabalhado com as percussões baianas, o candomblé e com Omara Portuondo em Cuba). Um daró africano, uma peça de Béla Bartók sobre danças búlgaras, um samba de roda e uma fanfarra romena podem tocar juntos quando ele os acessa com facilidade espantosa no seu arquivo digital e as sincroniza imediatamente, não porque — repito — esteja fazendo uma maionese musical mas porque conhece os caminhos das pedras e os atalhos que compatibilizam essas tradições nas suas afinidades e nas suas diferenças.

Afinal as músicas, com seu travos próprios e suas cores, com seus sabores e dicções locais inconfundíveis, não deixam de ser uma negociação interna com os números e as frequências, no tempo e no espaço, um castelo de cartas que se monta passando do 2 ao 3, daí ao 5, ao 7, ao 12 e ao infinito.


sábado, 11 de maio de 2013

Dos males, o menor - José Miguel Wisnik


O Globo - 11/05/2013

 

Argumentos do sociólogo José de Souza sobre redução da maioridade penal são abalizados e bem postos, mas não me convencem

O suplemento Aliás, do jornal “O Estado de S.Paulo”, publicou no domingo passado alguns artigos sobre a discussão em torno da maioridade penal: diminuí-la para 16 anos ou não? Entre eles, o do sociólogo José de Souza Martins rebate a alegação de que levar jovens de 16 anos para a cadeia seria inseri-los de vez na escola do crime. Segundo Martins, há criminosos notórios nessa faixa de idade, agentes de barbáries em estado puro, que não precisaram de nenhuma escola para sê-lo, e a sociedade deve equipar-se para combater o mal que medra nessa zona juridicamente descoberta da existência humana, reduzindo a maioridade penal. Diferentemente da posição reativa e direta dos amedrontados, os argumentos são abalizados e bem postos, mas não me convencem.

Martins sabe que a redução da maioridade penal não resolveria “o problema grave das causas da criminalidade juvenil”. Diz com muita razão que a retórica jurídica do Estado brasileiro, sustentando o estatuto atual, apenas gira em falso no seu não saber o que fazer. Acha que a impossibilidade de punir na justa medida os crimes hediondos praticados por jovens (além da evaporação prática do cumprimento das penas entre adultos, a que ele não se refere diretamente) estimula a iniquidade do justiçamento popular, acrescentando que “o Brasil está entre os países que mais lincham no mundo”, promovendo a indistinção entre a cultura do crime e a punição do crime, entre “maus” e “bons”.

Reconheço a enormidade desse “defeito estrutural”, presente fora e também dentro das cadeias, na própria iniquidade do sistema carcerário, que o Ministro da Justiça deixou escapar outro dia. O diagnóstico supõe um mal-estar difuso e generalizado, exposto no enorme descompasso entre a extensão do problema e as providências apontadas, incluindo esta, a da redução da maioridade penal, que, também ela, mais encobre e aprofunda o problema, com seu simulacro de justiça, do que encara a sua extensão.

Diante do mal-estar, da emergência do mal que desponta em crimes inomináveis e do sentimento de impotência correspondente, as posições têm quase que inevitavelmente muito de sintoma de quem as toma, e de uma aposta implícita na destinação do seu desejo. No caso da posição exposta com propriedade por José de Souza Martins, trata-se de resgatar o funcionamento de um rito jurídico ali onde ele está faltando, e onde essa falta clama por uma reparação simbólica, para o bem das instituições. Sabemos também que esse mesmo clamor pode esconder, em outros casos, a sombra de um desejo coletivo não enunciado senão pelos mais exaltados e frenéticos: universalizar a potência criminosa do adolescente pobre é jogá-lo fora no esgoto das prisões, desejando, mais fundo, que ele seja sugado no imaginário ou no real pela treva do extermínio.
Algo do Brasil atual, com seus emergentes e suas zonas de exclusão, com sua indecisão entre o arranque e a regressão, dá sinais de uma aproximação galopante e não consciente à verdade de sua história escravista através de confrontos não politicamente formalizados nem simbolicamente elaborados, que se expressam no conflito entre os poderes de Estado, na loucura religiosa, nos tribunais do Facebook, nas facções discursivas, no alarde das opiniões, nos fla-flus sem beleza, sem perspectiva e sem regras. São a marca viciosa daquilo que na nossa sociedade vai mudando sem mudar, que se transforma sem transformar, e que resiste a encarar tanto o real de suas violências constitutivas e de suas desigualdades profundas quanto o real de sua potência inovadora.

Por isso tudo, nesse quadro, e para mim, escolher a antecipação da maioridade penal não é resolver problemas, mas encolher o país virtual, decretar o fosso social e, em nome de uma resposta à ocorrência do mal absoluto, recusar-se a olhar para essa zona crucial de passagem onde se decidem destinos pessoais e coletivos. É verdade que infância, adolescência e idade adulta estão tão confusas e embaralhadas, hoje, em todas as classes sociais, que existem crianças simulacros de adultos (pequenos bandidos, pequenas prostitutas, pequenos empresários), e adultos eternos adolescentes, para o bem ou para o mal. O crivo da maioridade como o lugar do sujeito autônomo, datado aos 18 anos, tornou-se problemático em todos os sentidos, mas não se trata de encontrar o responsável nessa faixa limítrofe: dos males, o menor. Continuo me lembrando de Luiz Eduardo Soares (onde está ele?) quando diz que tudo se decide no lugar e no instante frágil em que o ser humano pede sem saber o que todo ser humano pede: olhar, reconhecimento e consideração.


sábado, 4 de maio de 2013

Rotunda - José Miguel Wisnik


O Globo - 04/05/2013

 

Na roda da fortuna do futebol, sobe o Bayern de Munique e caem o Barcelona e a Seleção Brasileira

O Bayern de Munique impôs ao Barcelona uma derrota surpreendente e rotunda, somando 7 x 0 nos dois jogos pelas semifinais da Liga dos Campeões da Europa. Derrota rotunda quer dizer categórica, indiscutível, insofismável. A palavra rotunda está na origem da palavra redonda, e a derrota foi também líquida, esférica e na bola. Associando livremente, lembro-me de uma visita ao Museu Pérgamo, em Berlim, durante a Copa de 2006, quando era exibida uma exposição sobre as figurações da esfera na história humana. O único jogador citado era Garrincha: num filme em loop na entrada do museu, ele bailava um drible infinito, convidando o seu marcador para dançar, sem tocar a bola, como se o tempo, parado, girasse em círculos aos pés de uma criança (“Como se o ritmo do nada/ Fosse, sim, todos os ritmos por dentro”).

Há dois anos o Barcelona dava demonstrações do mais completo domínio de jogo, de uma posse de bola sem precedentes, de uma superioridade avassaladora sobre os adversários, como se tivesse descoberto a fórmula do futebol que os outros desconhecem, como se tivesse decodificado a própria quadratura do círculo que está na base secreta do futebol. Contando ainda com a eficácia absurda de Messi, despida de qualquer estrelismo (em contraste com a petulância irreprimível de seu rival máximo, Cristiano Ronaldo), o efeito estava próximo de uma condição supra-humana.

Mas a Roda da Fortuna, que aparecia na exposição berlinense como uma alegoria medieval, gira acelerada num futebol turbinado pela preparação atlética, exigido pela ocupação intensiva de todos os espaços, cobrado em toda linha por uma concorrência publicitária sem trégua, sugado rapidamente pelo tempo. O Barcelona, que não usa publicidade na camisa, e cujo futebol totalizante, que alguns consideraram totalitário, parecia pairar soberano acima das periclitantes economias europeias, sucumbe, junto com o Real Madri, à envolvente ascensão do futebol alemão, que parece, pelo menos por um momento, equalizar o poder futebolístico com o poder econômico nacional. Como já tem sido comentado, o futebol desses times alemães, o Bayern e o Borussia Dortmund, combina qualidades do Barcelona com mais volúpia, intensidade e verticalidade atacante. O giro de bola paciente, meticuloso, calculado e às vezes tedioso do time catalão, é contrastado por uma explosão sôfrega de contra-ataque. A inteligência tática se combina com técnica, dribles e vitalidade interna.

Não acredito que o ciclo do Barcelona esteja terminado. Acredito, isso sim, que esteja se dando uma espécie de revolução dentro da revolução de um futebol europeu jogado compactamente, e no qual, por uma espécie de aceleração, o feitiço reverte contra o próprio feiticeiro, aplicado por um outro feiticeiro da vez. Longe desse futebol estranhamente vivo, pela intensidade com que se supera, o brasileiro não tem sabido como sair da condição de espectro de si mesmo.

O Brasil jogou com o Chile num Mineirão renovado, mas num gramado castigado, segundo li, por shows realizados nos dias anteriores. A bola era essa usada na Copa do Brasil, que parece uma pipoca doce pela sua mistura informe de preto, amarelo e vermelho, distribuídos entre figuras meio geométricas e pinceladas indistintas que não dão leitura e não oferecem uma boa diferenciação de figura e fundo. Os detalhes, altamente sintomáticos, podem parecer desimportantes, mas só para uma cultura futebolística degradada que esqueceu o que é o campo e a bola. Não ouvi nenhum comentário a respeito disso na transmissão da Globo, entre os elogios irrestritos ao estádio. A esfera parecia pipocar continuamente no terreno mais irregular do que deveria ser, e queimava mais nos pés brasileiros do que nos chilenos.

Luiz Felipe Scolari substituiu o meio-campista Jadson pelo atacante Osvaldo caindo pela direita, que era imediatamente anulado por três adversários quando pegava na bola. O time, que não estava mal na partida naquele momento, perdeu o meio-campo, abandonado a um Ronaldo Gaúcho solitário. Esse tipo de situação (jogadores isolados pela ponta, na ilusão de que somam mais um elemento ao ataque destituído de alimentação) não existe mais no futebol contemporâneo, nem nas seleções medianas. A torcida começa com o “sou brasileiro com muito orgulho” e não espera muito para começar as vaias. Neymar desenha-se como o possível bode expiatório dessas velhas síndromes, se a Roda da Fortuna não girar a favor de um renascimento, enquanto João Havelange foge pela porta dos fundos.


sábado, 27 de abril de 2013

Link para Leminski - José Miguel Wisnik


 O GLOBO

27/04/2013

Um corpo estranho tem atravessado como um cometa a lista dos best-sellers nas últimas semanas: 'Toda poesia', de Paulo Leminski

Um corpo estranho tem atravessado como um cometa a lista dos best-sellers nas últimas semanas: o volume “Toda poesia” de Paulo Leminski. Um catatau cor de laranja em meio aos não sei quantos tons de cinza, um quinau de poesia flanando distraidamente em meio à corrida dos mais vendidos, com um pique vencedor (estou brincando, aqui, com o título de um dos seus livros, o “Distraídos venceremos”). Como diz o poeta curitibano, a poesia é um inutensílio que não tem nenhuma outra justificativa que não seja “a própria razão de ser da vida”, e de fazer parte, como o orgasmo e a amizade, “daquelas coisas que não precisam ter um porquê: pra que porquê?”. É ironicamente empolgante, além de intrigante, que a obra reunida do poeta, morto em 1989, se destaque de repente, inesperada, em meio à multidão de livros feitos ostensivamente para vender.

Ninguém, ao que eu saiba, sabe explicar a razão do fenômeno (mais de 20 mil exemplares em um mês e meio). E como os fenômenos de venda tornaram-se a “razão de Estado” de tudo quanto gira sob o controle de um mercado altamente administrado, é no mínimo curioso esse não saber sobre um certo poder imprevisível da poesia. Esperados sucessos que fracassam são mais comuns, nesse mundo de cálculos, do que fracassos que sobem inesperadamente à parada de sucessos. Pois estes desvelam, ao contrário, a emergência do incomum. Todos os editores que se aventuram no gênero trabalham com o fato de que o alcance monetariamente palpável da poesia é limitado por definição: “poesia não vende”. Envolvido na edição do livro com um texto escrito para ele (“Nota sobre Leminski cancionista”), pude ver de perto o quanto não estava no horizonte da editora uma expectativa de recepção quantitativamente maiúscula.

É certo que o senso poético de Leminski conversa de perto com a sua experiência publicitária – uma prontidão certeira, uma agilidade verbal e mental (que se liga também à sua relação com as artes marciais e a com a poesia japonesa), com a concisão e a vocação icônica que o fazem encontrar imagens sintéticas derivadas de clichês postos à deriva. Mesmo a prosa experimental e vanguardista do “Catatau” não deixa de ser uma coleção alucinante de jingles alterados sobre frases feitas. A dupla face vanguardista e pop, anunciada pela poética leminskiana, encontrou uma perfeita correspondência no hit maker Arnaldo Antunes, que a desenvolveu na poesia e na canção. A expansão desse campo talvez tenha contribuído para a onda de interesse retrospectivo por Leminski.

O bigode do “polaco louco paca”, à la Solidarnosc, já era, por sua vez, uma espécie de layout ambulante, um autorretrato metonímico que, aproveitado engenhosamente no projeto gráfico e promocional do livro, funcionou certamente como uma senha chamativa imediatamente reconhecível no meio do turbilhão das gôndolas das livrarias. Toda a guerra editorial contemporânea se aplica, aliás, a conquistar um lugar visível no congestionado espaço das megalivrarias, pressionadas pelo ritmo contínuo dos lançamentos buscando fisgar a atenção instantânea do comprador. A resposta instantânea realimenta, num momento-chave, a atenção do vendedor, que põe ou não o livro em espaço de maior destaque, promovendo vendas que, se sobem à lista dos mais vendidos, alavancam mais vendas, convertendo sucesso em sucesso. É de um tal círculo virtuoso e tautológico, disparado por fatores em parte imponderáveis, que dependeu a “laranja mecânica” de Leminski, associada ao carisma da sua figura e ao atrativo do objeto gráfico, para vir a contrair o vírus do best-seller.

Tudo isso continua a não explicar o porquê do sucesso insólito, embora sirva para situá-lo um pouco. Mas afinal, podemos perguntar também, pra que porquê? Um público de muitas idades, e jovem em essência, dá sinais de achar graça na gratuidade vitalmente comprometida da poesia de Paulo Leminski. Pois todo o circuito material e comercial descrito acima não avançaria numa direção tão improvável se não fosse guiado por uma necessidade interna e por uma confirmação de reconhecimento, passado o primeiro disparo do processo. Há uma sensível necessidade de poesia no ar, e ela foi identificada nesse poeta inquieto, capaz de ir fundo nas suas formas ancestrais e nas suas mutações contemporâneas, de transcender polaridades e de exercer a leveza profunda.

<SW,15>Durante algum tempo Curitiba não queria deixar Paulo Leminski morrer, como se ele tivesse que continuar imaginariamente ali, frequentando os mesmos lugares e as mesmas rodas. Mas o grande teste de um poeta é morrer, quando ele revela, como é o caso, o seu surpreendente poder de renascer.


sábado, 20 de abril de 2013

Pontos - José Miguel Wisnik


O Globo 

20/04/2013

Faltam nexos compreensivos capazes de dar conta dos acontecimentos culturais no Brasil

Se não me engano em fevereiro, há cerca de dois meses, travou-se uma polêmica sobre o “vazio cultural” brasileiro, lançada por um número da revista “Carta capital” que discutia o assunto. Por algum motivo circunstancial (acho que eu estava em viagem) só me dei conta da discussão posteriormente, através de seus ecos. Não tenho condições de recuperá-la agora, mas o meu “vazio cultural” particular de hoje, em que a coluna gira em falso à procura de seu ponto de apoio, me impele de volta à questão. Considerar o tema como “ultrapassado” seria prender-se a uma lógica imediatista. A redução, aliás, de toda cultura a pautas, ganchos jornalísticos e mercadológicos, efemérides e fenômenos virais, é uma das partes do problema.

Vou tentar expor a minha posição, mesmo sabendo que o assunto não cabe aqui. Acho o Brasil um país de grande vitalidade cultural. Essa vitalidade está na diversidade das práticas, no modo como elas se permeiam, nas soluções incomuns que resultam disso, em muitos níveis. Confesso que é difícil descrevê-la, porque ela se apresenta de maneira não usual, múltipla e heterogênea, extraindo a sua força exatamente disso. Ao mesmo tempo, essa vitalidade contracena com o baixo letramento médio brasileiro, que compromete sob muitos aspectos a sua organicidade e a sua capacidade de articulação. Apesar desse baixo letramento, no entanto, fomos capazes de reconhecer uma literatura na qual conviviam, a certo momento, Drummond, Rosa, Bandeira, Clarice, João Cabral e a poesia concreta, junto com teatro, música e cinema incandescentes. Isso não teria acontecido se não houvesse por sua vez uma atividade crítica de peso reconhecível, um campo crítico mapeado e exposto ao debate, um conjunto de publicações acompanhando a vida contemporânea.

As instituições da chamada alta cultura, ou das instituições letradas, sofreram abalos e deslocamentos em todo o mundo, nas últimas décadas, sob a pressão dos meios de massa articulados com a onipresença da publicidade e com uma considerável corrosão da escola tradicional frente a essas novas realidades. Mesmo assim, a literatura, os escritores, a crítica, tiveram ainda um papel determinante no acompanhamento de todas as transformações que se deram na Rússia ao longo do século XX, por exemplo, ou na Argentina ou em Portugal. O lugar do escritor, garantido por um certo lastro letrado, não se evaporou completamente no processo. Certamente não se pode dizer o mesmo do século XXI, mesmo lá.

No Brasil, a tendência a deslocar as pautas culturais do campo das ideias para o das vendagens, comportamento, moda e polêmica de superfície lavou o lastro frágil da vida literária acumulada, e acuou a atividade crítica num papel incômodo, impertinente e estigmatizado, substituído pela atividade dos agentes e assessores de imprensa, dos releases, das entrevistas e notas em colunas sociais, pela participação em eventos, num ambiente de coquetelização da cultura (estou lembrando de um artigo contundente de Flora Sussekind, “A crítica como papel de bala”, publicado no Prosa em 2010, algumas balas do qual sobram para mim, se não estou enganado).

É certamente a essa perda de articulação e a esse rebaixamento do papel crítico na esfera pública que Vladimir Safatle se referia, ao intervir no debate caucionando o mote do “vazio cultural”. Vazio cultural, nesse caso, significa a falta de um senso totalizante e de um tensionamento da linguagem que comprometa as produções com algo mais do que sua inserção num mercado ou o seu reconhecimento por um grupo de participantes consumidores. É exatamente o contrário do que pensa Hermano Vianna, para quem a cultura vive da força empenhada nela por seus agentes, que dão a cada cena cultural um sentido total auto-bastante. Onde para um há o vazio para outro sobra excedente. Os pressupostos são tão opostos que não dão lugar a uma conversa possível nem ao entendimento da impossibilidade disso.

Para mim este é o ponto. Não falta acontecimento cultural no Brasil, das mais complexas aventuras intelectuais às mais saudavelmente elementares manifestações do apetite de viver. Faltam, quando faltam, e como faltam, nexos compreensivos capazes de dar conta dessa complexidade, em meio à entropia de um mercado voraz e de um debate reduzido muitas vezes ao quiproquó, à faccionalização dos discursos e à simplificação jornalística.

Em muitos sentidos, “vazio cultural” é um estado do mundo, hoje. Em cada caso, a questão é saber onde estão os “pontos luminosos”, e o Brasil é um vazio cheio deles.


sábado, 13 de abril de 2013

Cerebral - José Miguel Wisnik

O Globo - 13/04/2013

Kim Jong-un fala literalmente, quando anuncia a iminência da guerra termonuclear?

Faz pouco tempo aconteceu em São Paulo o show de Arrigo Barnabé com Luiz Tatit. Pela primeira vez esses dois compositores da chamada vanguarda paulista fizeram parcerias — mais de uma dezena delas. É um assunto para quando sair o CD gravado ao vivo. Por ora, só quero citar alguns versos da canção final do show: “Ser humano é sempre igual/ é bem bom mas é falho/ ser humano é cerebral/ cerebral o caralho”. Essas palavras estão reboando no meu cérebro enquanto se desenrola a novela bélica da Coreia.

Escrevo na quinta sem saber o que ninguém sabe: Kim Jong-un fala literalmente, quando anuncia a iminência da guerra termonuclear? Está disposto, junto com seu comando militar, a desencadeá-la, ao mesmo tempo em que acusa o inimigo de fazê-lo? Ou fará alguma demonstração de poder balístico localizado, a título exemplar, para efeitos internos e externos? Com que raio de ação? Comemorará o centenário do avô, data cívica nacional máxima, na próxima segunda-feira, com algum fogo de artifício nuclear? Ou a manobra anunciada é toda de retórica verbal, com objetivos precisos? Em suma, seus mísseis serão, nesse momento, artefatos reais, imaginários ou simbólicos?

Todas as análises que leio esbarram na dificuldade de responder a essas perguntas. Se são mísseis simbólicos, fariam parte de uma diplomacia armada, a um tempo fria e fervente, capaz de considerar os fatores econômicos, políticos e militares envolvidos no tabuleiro asiático e de controlar os riscos levando-os ao limite, para firmar uma posição de força frente à Coreia do Sul, ao Japão e aos Estados Unidos. Se não estou enganado, a entrevista do embaixador brasileiro em Pyongyang, que li em “O Estado de S. Paulo”, há umas duas semanas, ia em boa parte nessa direção.

Se os mísseis são imaginários, não no sentido de irreais, mas como parte de um jogo de imagens que confronta a existência de alguém com a existência do outro que o ameaça de morte, estamos à beira de um jogo de tudo ou nada, em que a identidade nacional da Coreia do Norte, forjada no culto dinástico da sucessão dos ditadores, espelha-se na massa que os apoia e no aparato bélico que solda essa identidade imaginária num espelho de aço. Nesse sentido, a afirmação do potencial bélico contra o inimigo passa a ser, além de um desafio lançado ao outro, uma necessidade de reconhecimento fusional interno, de natureza hipnótica, entre o jovem líder aprendiz de feiticeiro e a massa.

Uma ou outra das leituras, simbólica ou imaginária, vai bater no real, porque a separação entre essas instâncias, quando postas à prova, é na verdade acadêmica. A retórica com fogo atômico, alimentada de imaginário, fica a um triz da explosão literal. No fundo, é isso que tem sido dito em meio à perplexidade, pela China, pela ONU, pelas ações militares norte-americanas ou por comentaristas variados.

A mim impressiona, a título de indício, um elemento aparentemente fortuito: os quepes do alto comando que cerca Kim Jong-un. São quepes altos e gorduchos, quase em forma de cogumelos, como que ciosos, no nível subliminar, do poder atômico que sustentam. Ninguém tira da minha cabeça que são cifras simbólicas e imaginárias do desejo real que os alimenta. O balanço menos visível disso tudo, no interior daqueles cérebros propriamente ditos, permanece como a incógnita e a interrogação sobre o desenrolar da novela.

Uma mulher cuja intuição eu admiro, e que não é militante feminista, me diz que todo esse alarde atômico da Coreia do Norte se deve ao fato de que uma mulher, Park Geun-hye, subiu recentemente ao poder na Coreia do Sul (também ela filha de um ex-ditador). Nessa hipótese, Kim Jong-un teria elevado o tom, inconscientemente ou não, movido por uma obscura guerra de gêneros, num campo político atomicamente armado, falocêntrico e refratário à ascensão do feminino ao poder, que tem acontecido em várias partes do mundo ocidental, chegando agora ao Oriente. O pouco que se fala da presidente sul-coreana, no contexto da crise, não deixa de ser um índice silenciado e silencioso desse fato, e da dificuldade de identificá-lo.

Volto ao cérebro: “Ser humano é cerebral /cerebral o caralho”. A palavra “cerebral” significou tradicionalmente o que é racional, equilibrado, não movido por impulsos e instintos. Essa distinção, que a canção de Arrigo e Tatit põe e dispõe com vigor espetacular, numa espécie de desabafo, também pode ser vista pelo seu avesso: as ciências têm mostrado que o cérebro não é totalmente “cerebral”. Ele manipula, esconde, premia com o prazer como se fôssemos cobaias dele, e nos leva a crer no que “ele” prefere que creiamos. Cerebral e o caralho. Como a novela atômica da península coreana.

sábado, 6 de abril de 2013

Ordem na casa - José Miguel Wisnik


 O Globo - 06/04/2013


PEC das domésticos mexe com hábitos muito arraigados na história da vida privada no Brasil

Todo mundo sabe, confesse-o ou não, que o estatuto precário dos empregados domésticos na vida brasileira é uma das marcas escravistas resistentes em nosso cotidiano. E que, por isso mesmo, a Proposta de Emenda Constitucional regulando horas de trabalho, horas de descanso e pagamento de horas extras, que entrou em vigor esta semana, é um marco prático e simbólico que estabelece um patamar mínimo de civilidade no tratamento da questão. Outros direitos (fundo de garantia por tempo de serviço, multa por demissão sem justa causa, seguro-desemprego, creche e pré-escola, salário-família), que completariam a inclusão desses trabalhadores na ordem regular do trabalho formal, esperam regulamentação. Tudo isso mexe com um mercado de trabalho já em processo de mudança, dado o sintomático decréscimo da oferta de mão de obra, e mexe com hábitos muito arraigados na história da vida privada no Brasil. 

A ambivalência dessa história também é conhecida. As relações interpessoais na esfera doméstica, com suas tonalidades próximas e afetivas, são tradicionalmente muito diferentes, no Brasil, das relações impessoais vigentes entre patrões e empregados na Europa e nos Estados Unidos, onde o trabalho doméstico custa caro e é raríssimo. A informalidade brasileira, que entranha muito da nossa sociabilidade e muitas das nossas criações mais preciosas, é a mesma que dá lugar às formas mais perversas do arbítrio, do privilégio, da exploração insidiosa e da truculência. O Brasil é uma droga, no sentido positivo e negativo do termo. É desejável que o melhor dessa informalidade seja capaz de se transformar em algo mais alto, se a mais básica formalização emancipadora começar a pôr ordem na casa.

Não posso deixar de pensar, junto com isso, e por mais estranho que pareça, em Clarice Lispector. Por acaso estou relendo-a pela enésima vez, sempre com prazer e renovado espanto, por causa de um curso que inventei de dar para isso mesmo — para poder ler de novo seus livros. Ela é conhecida como uma escritora que vai aos meandros mais sutis da subjetividade, mas a gente muitas vezes esquece os caminhos que a levam a isso, e que são da percepção social mais aguda.

A empregada doméstica está no vértice supremo da obra de Clarice, que é “A paixão segundo G.H.”, publicado em 1964. Presente por ausência, mas uma ausência que define tudo. Uma mulher independente, livre de laços familiares, que vive numa cobertura em Copacabana, vai até o quarto da empregada — Janair — que trabalhou em sua casa por seis meses, quarto ao qual ela nunca foi durante esse tempo, e encontra, em vez do esperado pardieiro, um quadrilátero límpido em cuja parede caiada se estampa um desenho riscado a carvão. Nesse mural cru, de aparência quase rupestre, deixado por Janair, em que aparecem uma mulher e um homem, nus, e um cachorro, a narradora se vê através dos olhos da outra, os únicos olhos capazes de vê-la de um modo que não seja a projeção de si mesma dada pelos membros de sua classe social. Começa ali a mais vertiginosa das viagens à experiência da estranheza do outro absoluto como descoberta de si. Não será despropositado dizer que, se Guimarães Rosa fez do jagunço o transporte para o seu entendimento do enigma do Brasil e do sertão-mundo, em Clarice a passagem, no caso dela secreta, para todos os enigmas, se faz através da empregada doméstica.

Numa crônica encantadora, ou perturbadora, se quiserem, chamada “O chá”, ela imagina uma cerimônia de reencontro com todas as empregadas que teve na vida. “As que esqueci marcariam a ausência com uma cadeira vazia, assim como estão dentro de mim. As outras, sentadas, de mãos cruzadas no colo. Mudas — até o momento em que cada uma abrisse a boca e, rediviva, morta-viva, recitasse o que eu me lembro. Quase um chá de senhoras, só que nesse não se falaria de criadas”.

E “A menor mulher do mundo”? Um explorador francês descobre no mais remoto coração da África a menor tribo de pigmeus, e, entre eles, a menor mulher adulta do mundo, grávida e nua, medindo quarenta e cinco centímetros. A foto em tamanho natural é estampada numa página dupla do Jornal do Brasil, onde fica exposta a um rodízio de fantasias de classe média, entre as quais a de tê-la como empregadinha uniformizada servindo a mesa. O conto reflete, entre outras coisas, sobre o nosso desejo de posse, de deter o poder de ter alguém só para nós, sobre a ferocidade com que queremos brincar de possuir alguém.
Clarice faz ver algo que o Brasil mal começa a aprender: que ter alguém a seu serviço pessoal é um luxo a ser correspondido com todas as gratificações, limites e formas da praxe. Mais que isso: que a existência, de si e do outro, é o grande luxo.


sábado, 30 de março de 2013

Engenharia do Engenhão - José Miguel Wisnik


 O GLOBO - 30/03/2013

 

A realização da Copa das Confederações e da Copa do Mundo, bem como das Olimpíadas, no Brasil, põe à prova capacidades fundamentais como as de criar e de gerir

Todos sabemos que a realização da Copa das Confederações e da Copa do Mundo, bem como das Olimpíadas, no Brasil, põe à prova capacidades fundamentais como as de criar e de gerir, de potencializar os talentos e de administrar as condições de sua realização em benefício público. É por isso mesmo que o futebol está no centro da interrogação sobre os atravessados destinos da modernização brasileira. Corresponderemos à nossa inventividade lúdica e invejável de pentacampeões mundiais? Somos capazes de sustentar consequentemente a gestão das estruturas necessárias e de incorporá-las como um legado? As duas perguntas cairão como meteoros pré-datados sobre o nosso atraso atual, no qual se confundem o atraso histórico imemorial com o atraso da construção das obras e o da construção do time (que está mais atrasada do que a dos estádios). A ruptura visível na estrutura do Engenhão soa a essa altura do campeonato como o sintoma incômodo que põe tudo isso a nu, como a gafe de mau gosto que desvela a incompetência cósmica.

Os arcos que sustentam o teto do estádio inaugurado no Pan de 2007 não se acomodaram na estrutura como previa o projeto, e podem desabar. O laudo de uma empresa de consultoria alemã recomenda a interdição. Começa a brasileiríssima dança das denegações: Cesar Maia, prefeito na ocasião da obra, declara categoricamente que o problema não é de projeto nem de execução, mas de manutenção; o engenheiro responsável afirma que o laudo alemão é “brilhante”, mas parte de “premissas diferentes” das do projeto, razão pela qual apresenta um resultado que ele não compartilha, completando que iria tranquilo com a família, se fosse o caso, para assistir a um jogo no Engenhão. Tudo se passa como se não tivesse existido o descarrilamento do bonde de Santa Teresa, nem o desabamento dos três prédios junto do Municipal, nem a tragédia da boate Kiss.

A cultura da irresponsabilidade — que consiste em não responder pelo que se faz — é corrente no Brasil. Na Europa e nos Estados Unidos é costume que alguém pague pelos desmandos e pelos erros; no Japão, o engenheiro praticaria o haraquiri. Aqui, é de praxe que os envolvidos finjam que nada está acontecendo. Para completar, o contrato assinado, até onde entendi, libera o consórcio construtor de responsabilidade sobre problemas que se revelem após o término da construção, ficando tudo na conta da prefeitura.

A opção brasileira para a realização dos novos estádios da Copa não foi a do convite a arquitetos autorais, como os do Ninho de Pássaro em Pequim, projetado por Herzog e De Meuron com participação do artista chinês Ai Weiwei. O novo estádio de Wembley, por sua vez, é da autoria de Norman Foster, importante arquiteto inglês e, curiosamente, contendo uma evidente citação do projeto não realizado de Oscar Niemeyer para o Maracanã, que era também baseado num imenso arco do qual penderiam finos cabos de aço, sustentando a cobertura. O pouco conhecido projeto de Niemeyer apontava pioneiramente, nos anos 1940, para os vários estádios atirantados contemporâneos, isto é, com a cobertura suspensa por cabos, como é o caso também do Stade de France, construído para a Copa de 1998. O Engenhão é uma versão pouco elegante e low-tech dessa tendência, onde a estrutura se baseia não em cabos, mas em perfis tubulares largos e pesados, halterofilísticos, que, ao que parece, não aguentaram o levantamento de peso.

Não escolher arquitetos de renome, pertencentes ao star system da arquitetura espetacularizada, poderia ser visto como uma virtude, se não fosse pelo fato de que os projetos foram entregues na maioria a conglomerados internacionais de construtoras com empreiteiras, aparecendo os arquitetos como parte secundária do pacote dos negócios. No mesmo bolo, as duas maiores e principais cidades-símbolos do Brasil, Rio e São Paulo, comparecem vexaminosamente com um estádio baleado, herdado do Pan e com importante papel projetado para as Olímpiadas, o Engenhão, com o Maracanã atrasado e o Itaquerão corintiano, suposto estádio do jogo de abertura da Copa, travado por um imbróglio financeiro.

Construir uma seleção, por sua vez, é mais difícil do que construir vinte estádios. Não há espaço aqui para desenvolver esse tema. Só quero dizer que eu, que sou santista, que fui um entusiasta da permanência de Neymar no Brasil e que sou seu fã total, acho que ele tem que ir o quanto antes para o Barcelona, testar o seu tamanho real, temperar o seu talento no contato com marcações futebolísticas diferentes do cerco e do circo de mídia, de publicidade e de futebol precário que se criou em torno dele aqui.


sábado, 16 de março de 2013

Sem papas na língua - José Miguel Wisnik


 O Globo - 16/03/2013

 

A renúncia de Bento XVI e a crise atual da Igreja Católica

O curto pontificado de Joseph Ratzinger como Bento XVI teve um enorme valor sintomático. Ele fez vir à tona as contradições e as crises que envolvem o lugar da Igreja católica no mundo. Quis confrontar a filosofia dos “mestres da suspeita”, Marx, Nietzsche, Freud e Foucault, intervindo no debate contemporâneo com a força tradicional da instituição. Quis sustentar sibilinamente que o cristianismo católico é a religião superior aos outros monoteísmos (e foi defendido nisso por René Girard, o autor de “A violência e o sagrado”). Estava no papel que escolheu, mas por isso mesmo o desfecho é tão significativo, tanto pelo seu ineditismo quanto pelas suas implicações filosóficas. Ao mesmo tempo, o pensador político de currículo implacável, no plano doutrinário, deixou a política interna e os subterrâneos do Vaticano ao sabor dos apetites da Cúria e da incúria.

Nada que uma renúncia não engrandeça. A sua figura ambivalente de lobo inquisitorial em pele de ovelha sai santificada pelo gesto moral do desapego, pela confissão de fraqueza e pelo descortino com que fez as cartas serem reembaralhadas e o jogo recomeçar. Os sinais dos tempos passaram a soar, no entanto, de maneira nova e indisfarçável.

Um dos meus profetas é Oswald de Andrade (que une de maneira original Marx, Nietzsche, Freud e o pensamento selvagem). De um ponto de vista oswaldiano, a crise atual da igreja pode ser vista como um capítulo da longa “crise da filosofia messiânica” que atravessa os séculos. O patriarcado, a negação da sexualidade, a concentração das riquezas, dos poderes e a postergação da felicidade para um futuro pós-morte são formas da evitação da felicidade na terra, zeladas por uma casta sacerdotal que se formou em condições já longínquas no tempo, e que vem passando pela erosão dos processos históricos.

Oswald reconhece que o poder de Roma se plasmou na síntese política, filosófica e religiosa “do arbítrio judaico, do motor imóvel de Aristóteles e da experiência mística alexandrina”. Sem Roma, diz ele, “Cristo não teria ocupado por vinte séculos os cimos messiânicos do Patriarcado”. E sem Paulo, “o escravo não teria pleiteado a dignidade individual em Cristo que foi a longínqua semente da revolução burguesa”. Assim, o cristianismo é uma religião de vocação revolucionária, que apontou para a revolução burguesa, para a revolução social e para os direitos humanos. Mas a burguesia já “estornou” há vários séculos a dívida messiânica, convertendo-a em extratos bancários e finalmente em cartões de crédito, e o protestantismo já legitimou esse estorno como modalidade da graça. A adaptação do cristianismo ao espírito do capitalismo encontra sua vertente popular nos evangélicos, que crescem entre aquelas populações que acusam na prática o esvaziamento anacrônico dos ritos católicos, quando incapazes de responder a essas realidades. Nesse quadro, a Igreja romana, com suas pompas hierárquicas e seu imobilismo, tende a converter-se numa relíquia patriarcal a figurar, como peça de museu, entre aquelas que ela mesma colecionou.

Fazem parte essencial da crise das formas de poder patriarcal a emancipação feminina, a liberação da sexualidade como direito e como expressão individual, as reivindicações pelo reconhecimento universal dos direitos dos gays, pelo direito ao aborto e demais decorrências. Mas seria então o grande papel restante dessa instituição milenar, o de contrapor-se a qualquer preço ao avanço desses sinais da modernidade, como queria Bento XVI? Pergunta-se também como se sustenta eticamente essa ciosa denegação do desejo sexual por parte de uma instituição que enfrenta mal seus casos de pedofilia, e que pretenderia aplicar essa mesma denegação a seu bilhão de fieis. A Igreja que tinha isolado os contágios marxistas da Teologia da Libertação ficou às voltas com os rebotes freudianos das suas pulsões e dos seus recalques.

Como estava previsto, a bússola do poder romano teve que inverter seu prumo, apontar para o sul, para o “fim do mundo”, para um lugar onde as bases do catolicismo fossem mais autênticas e numerosas, além de postas em risco de diminuição. Mas a fumaça branca revelou “a zebra do ano”, como disse Tom Zé, aquele que nenhum vaticanista adivinhou. O rito é poderoso em si, quando faz-se o nada e da sacada surge o ser, dessa vez na forma do primeiro não europeu, jesuíta e Francisco. E pelo menos sem a voz melíflua do antecessor. Oswald chama isso de “sentimento órfico”, o poder carismático que a religião divide com a arte, o espetáculo, o esporte. A Igreja na defensiva está agora jogando, desde Roma, pelos flancos do grande tabuleiro. Até que ponto mudará o jogo?


sábado, 9 de março de 2013

Mazurca fogo - José Miguel Wisnik


 O GLOBO 09/03/2012

 

A Polônia pulsa nas ‘Mazurcas’ de Chopin e no ‘Príncipe Roman’ de Joseph Conrad

Minha amiga Rachel Gutierrez me deu de presente as “Mazurcas” de Chopin tocadas por Antonio Guedes Barbosa. É uma gravação do selo Kuarup. Rachel, escritora e musicista que eu vim a conhecer graças a esta coluna, que ela acompanha à distância com comentários infalíveis, sabe que eu estou escrevendo um longo ensaio sobre Chopin e me municiou com vários toques sobre o assunto, sendo este o mais precioso e surpreendente. A interpretação do pianista paraibano, morto prematuramente em 1993, está com certeza ente as melhores que já foram feitas, em qualquer lugar do mundo, dessas peças vivazes e profundas, enigmáticas, inspiradas livremente na memória das danças populares polonesas da região que circunda Varsóvia.

A escuta me animou a levar adiante umas ideias que eu venho associando faz tempo. Há muitos anos um amigo me mandou um conto de Conrad chamado “Príncipe Roman”. Conrad, como sabemos, chamava-se Jan Korzeniowski, polonês de nascimento que saiu pelo mundo como marinheiro e que se tornou um dos maiores escritores em língua inglesa. “Principe Roman” é a história de um aristocrata polonês que rompe com o compromisso de sua classe e de sua família com o Czar, durante o longo período em que a Polônia ficou sob o domínio da Rússia, da Prússia e da Áustria, e que adere à luta antirrussa durante o fracassado levante de 1831 (o mesmo ano em que Chopin partia definitivamente da Polônia em direção a Paris). Ao se engajar como voluntário nas fileiras do exército resistente, esconde a sua condição de nobre, recusando os privilégios que pudessem resultar disso. Mais ainda, assume a identidade do camponês que o acompanhava como servo, quando este morre em combate, fazendo-se passar por ele até o fim da guerra, que o leva como prisioneiro para a Sibéria durante anos.

Fiquei convencido de que a história do príncipe camponês era uma fábula representativa da mitologia polonesa, mesmo que Conrad a tivesse extraído de acontecimentos contados por seu avô como verídicos. Imagino que num país de forte tradição feudal e camponesa, riscado do mapa durante todo o século XIX, a burguesia nacional não teve papel relevante a representar no imaginário nacional, ao contrário dessa conjunção de nobre e camponês lutando contra o dominador estrangeiro. Ano passado, vasculhando uma livraria no bairro polaco de Chicago, topei com uma biografia do herói nacional Tadeuz Kosciuszko, que liderou por sua vez o fracassado levante antirrusso de 1794. O livro se chama “The peasant prince”, o príncipe camponês, e como nada indica que seu autor tenha pensado no conto de Conrad quando escreveu o livro, este vinha como mais um indício confirmador da insistência do mito. Curiosamente, Kosciuszko participara também como voluntário, em 1776, das lutas pela independência norte-americana, nas quais fez-se reconhecer pelo mérito, em curiosa analogia com o personagem de Conrad, do qual talvez seja uma espécie de modelo. É sabido que Kosciuszko deixou a Thomas Jefferson um considerável legado em dinheiro, a que tinha direito, para libertar e educar escravos negros norte-americanos.

A aura do nobre camponês acompanha as refinadas e cintilantes “Mazurcas” de Chopin. Nietszche fala, a propósito dele, de uma “liberdade principesca” que consiste em dançar entre as cadeias da convenção como só o pode “o espírito mais livre e mais gracioso”. A definição combina com outra, a do aristocrata estetizado (aristocrata democrata “que alcança a nobreza por um processo de autoeducação”) capaz de deslizar “sobre o chão em que nós afundamos” graças a uma leveza conquistada e livre de esforço visível. É como Lorenzo Mammì fala de Fred Astaire, sem deixar de mencionar Chopin. E é essa fluida liberdade dançante toda feita de gestos sonoros da memória camponesa que nós ouvimos de maneira rara nas “Mazurcas” tocadas por Antonio Guedes Barbosa.
Enquanto isso, acaba de ser lançada a “Poesia toda” de Paulo Leminski, acontecimento auspicioso. No seu livro “Polonaises”, incorporado a essa poesia completa, ele traduzia um poema-fragmento de Adam Mickiewicz, contemporâneo de Chopin, que podemos ler no espírito das mazurcas ou dos prelúdios chopinianos: “Choveram-me lágrimas limpas, ininterruptas,/ Na minha infância campestre, celeste,/ Na mocidade de alturas e loucuras,/ Na minha idade adulta, idade de desdita;/ Choveram-me lágrimas limpas, ininterruptas...”.

Limpidez cintilante é o que eu ouvi ontem no show de Jussara Silveira no Sesc Anchieta, aqui em São Paulo, mazurca-fogo de canções brasileiras, angolanas e portuguesas, presentes respectivamente nos seus mais recentes CDs, o maravilhoso “Ame ou se mande”, “Flor bailarina” e “Água lusa”, este último a sair em breve.


sábado, 2 de março de 2013

Verdade - José Miguel Wisnik


Elson Costa é um dos militantes de esquerda desaparecidos na ditadura

Acabo de chegar de uma sessão da Comissão da Verdade “Rubens Paiva”, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, onde fui, junto com outros familiares, dar um depoimento sobre meu tio Elson Costa, sequestrado, torturado e assassinado pelo aparato paramilitar da ditadura em 1975. Algumas comissões estaduais estão acontecendo, em contraponto com a Comissão Nacional da Verdade. Em São Paulo, a Comissão tem levantado, por exemplo, elementos importantes sobre a participação de empresários no esquema da Operação Bandeirantes. Já falei sobre Elson Costa em uma das minhas primeiras colunas aqui. Ainda é cedo para retornar ao assunto, enquanto aguardamos para saber a que verdades as Comissões chegarão ou não. Quero fazer isso para valer, e no momento certo. Mas ao mesmo tempo os nervos estão agitados, e é difícil para mim falar hoje de algum assunto que não seja este.

Elson Costa fez parte do grupo de dirigentes do Partido Comunista Brasileiro que foram mortos quando a guerrilha tinha sido vencida e a força repressiva correspondente passou a ser aplicada sobre grupos, como o PCB, que não tinham optado pela força armada, e que acreditavam ser possível isolar a ditadura entrando em todos os nichos que representassem vias democráticas. Meu tio editava um órgão de imprensa operária cuja gráfica funcionava numa caixa d’água. A desproporção entre essas ações políticas e o modo como seus agentes foram eliminados com requintes de perversidade (dos quais vou poupá-los agora) diz tudo sobre o caráter fascista da máquina repressiva da ditadura militar. Tratou-se de um rito de erradicação sumária que se realimentava pela tortura.

É possível elucubrar sobre a lógica que comandou essa “obra tardia” da repressão militar, quando esta não pareceria mais tão necessária militarmente. Cálculo frio do golpe final sobre o inimigo, “racionalidade” levada à última instância no exame das forças adversas, extensão “natural” da luta contra a luta armada? Ou gozo da violência em seu estado quimicamente “puro”, a máquina de tortura e morte replicando a si mesma, infinita enquanto dura, aspirante ao mal absoluto? O grupo que vivia disso quis mostrar serviço, como que a provar a necessidade de sua própria sobrevivência funcional? O sucesso subiu-lhe à cabeça?
Ou constatou que o PCB era o verdadeiro detentor da verdade histórica, que nele estava o fermento que levaria ao final da ditadura pela via não da luta armada mas da pressão das forças democráticas, como preferiu sustentar, hoje, uma militante partidária?

Só a arte consegue sondar a verdade das múltiplas versões, atravessar o seu entrelaçamento não acabado, dar-lhe a volta paradoxal, paródica, trágica, oxigenando a constatação perturbadora de que não há, a rigor, uma Verdade final sobre a verdade, sem nem por isso deixar de aplicar golpes certeiros. Felizmente li, faz pouco tempo, a novela “Estrela distante”, de Roberto Bolaño, depois de ouvir falar tanto dele. É uma narrativa alucinante, hilariante, contundente, terrível, sinistra, sobre os desaparecimentos de pessoas no Chile de Pinochet. Como se trata de um país letrado, tudo ali envolve o literário: oficinas de poesia cujos frequentadores e frequentadoras vão sumindo e reaparecendo ou não, sob formas que estão entre o rumor, o rebate falso, a controvérsia, o exílio presumido, o esconderijo, o assassinato político. A mudança de identidade obrigada assombra as relações, mas salta em meio a elas a do impostor infame, o artista fascista que se transmuta de falso poeta autodidata chavecando frequentadoras de oficinas de poesia em ícone espetaculoso da direita, e cuja “obra de arte total” é feita das acrobacias aéreas com que desenha no céu versos patéticos de fumaça, complementados com torturas, crimes seriais e fotografias. Num coquetel constrangedor entre seus pares, em que leva ao limite a sua poética radical de estetização do mal, expõe fotos de corpos mutilados assassinados pela ditadura e por ele mesmo, pegando-os de surpresa com a visão inominável daquilo que todos sabem que não devem admiti-lo. Uma espécie de Exposição da Verdade pela culatra.

Quase todos os países que passaram pelos crimes da ditadura passaram, em contexto democrático, por alguma maneira de admissão, elaboração e simbolização da verdade. O Brasil, para variar, vem na rabeira do processo. Porque o torturador é também uma forma grave de desaparecido político, com a diferença de que os mortos da ditadura sustentam a sua verdade, na sua ausência, enquanto que a ausência pública do torturador é uma mentira histórica. Sabemos que não há Verdade, com maiúscula. A não ser quando há mentira maiúscula.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Vira-ser - José Miguel Wisnik


A música da América Latina é discutida sob a neve carnavalesca de Nova York

Na quinta-feira da semana passada, como sempre nesses últimos três anos, eu escrevia minha coluna de sábado, sobre a nevasca em Nova York, onde estive no carnaval, quando caiu a tempestade sobre a zona Oeste de São Paulo, tempestade violenta, ciumenta, mais imprevisível e incontrolável do que a neve que eu vira lá. A energia elétrica do bairro foi para o espaço e só retornou de madrugada. Ilhado pela chuva, com o texto salvo mas perdido dentro do computador inacessível, eu fiquei sem ter como começá-lo todo de novo em algum outro lugar, e faltei ao meu lugar aqui. A chuva do meu bairro, o rio da minha aldeia, quis falar mais alto e calar, de alto a baixo, meus devaneios sobre a neve alheia.

Mas a neve não era tão alheia assim. Na verdade eu estava dizendo que a visão de um grupo de marinheiros brasileiros, mulatos e cafuzos, andando penosamente na neve em Nova York, nos anos 1920, percebidos angustiadamente como “caricaturas de homens”, estava entre os momentos originários de toda a obra de Gilberto Freyre. A interpretação é de Ricardo Benzaquen de Araújo na abertura de seu
“Guerra e paz: Casa grande & senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30”. Freyre se lembra com incômodo, a partir da visão, da frase de um viajante americano ou inglês que enxergara um aspecto de “vira-lata” na população brasileira. Todo o seu esforço ensaístico pode ser compreendido, segundo Ricardo Benzaquen, como a tarefa de refutação e reversão dessa imagem, que coincide aliás com a do famoso “complexo de vira-latas” de Nelson Rodrigues.

Eu não tinha me lembrado disso enquanto enfrentava nas calçadas a nevasca de carnaval em Nova York, embora me sentisse um polaco mulato e cafuzo diante da primeira neve real (as do inverno parisiense sempre me foram leves e passageiras). Fui para um colóquio na Universidade de Columbia, que se propunha a pensar a música e o som na América Latina e no Caribe. A coluna da semana retrasada, que eu deixei pronta quando viajei, cumpria a dupla função de ser uma crônica nostálgica de sábado de carnaval, literalmente de “saudades do Brasil”, ao mesmo tempo que um ensaio para o que ia fazer lá, isto é, falar sobre o “pequeno nada” rítmico, impossível de escrever, que Darius Milhaud sentiu nas músicas de Ernesto Nazareth quando executadas pelo autor, e que podia ser visto como um índice das transformações pelas quais passou a música europeia nas Américas, transformada pela presença da África.

O colóquio revelou-se uma imersão fascinante e pouco acadêmica (se tomarmos a palavra no mau sentido, o de formalidade estéril) no pensamento e nas experiências musicais das Américas, entre músicas eletrônicas e indígenas, salsa e jazz, poesia e canção, em meio às quais a ideia do “pequeno nada” encontrou múltiplas ressonâncias. O compositor equatoriano de origem indígena conta como trabalhou com Stockhausen e volta à música indígena, o crítico paraguaio confronta o som e o silêncio nos ritos guaranis com o pensamento ocidental, os porto-riquenhos (com os quais eu descubro cada vez mais afinidades pessoais e culturais) falam sobre batuques transpostos para a linguagem poética, sobre a “jíbara” camponesa na salsa e as relações desta com o jazz (a palestra entusiástica era feita instintivamente em ritmo de salsa) ou sobre Ruth Fernández, cantora porto-riquenha do tempo de Celia Cruz, Pedro Vargas e Libertad Lamarque. E ainda, a música latina no Harlem ou a música erudita argentina fazendo a paráfrase borgeana do museu sonoro europeu, com a proverbial desincompatibilização portenha da África. As cubanas foram impedidas de vir.
A reunião ia de manhã à noite no último andar do International Affairs Building de Columbia, de onde se via a neve cair, suave e contínua, sobre a cidade mais e mais branca em ritmo minimalista e em escala de land art. Acredito não estar delirando se disser que havia ali um cosmopolitismo concentrado e consciente do grande contraponto de diferenças que fez da América o continente do encontro dos continentes (“Que continente loco!”, me exclamou o venerando Mesías Maiguashca, o índio equatoriano de Stockhausen, enquanto ele saía e eu entrava no banheiro), e que tudo isso encontra seu corpo material e imaterial na música. Digo mais: a recente confirmação do poder de fogo do voto latino na eleição presidencial norte-americana, e o rumo apontando para a inevitável inclusão dos trabalhadores informais e irregulares na realidade dos Estados Unidos, dava às discussões uma nova, mesmo que difusa, sensação de autoridade.
O Brasil também desfruta dessa difusa nova sensação de autoridade. Nada como aquela que eu senti, intimamente, quando Claudia Neiva de Matos mostrou Geraldo Pereira cantando “A dama ideal”, com a entoação tão relaxada e o show de pequenos nadas na voz, sambando soberano sobre a neve de Nova York.


sábado, 9 de fevereiro de 2013

José Miguel Wisnik - ‘O boi no telhado’


Colunista comenta o livro 'O boi no telhado — Darius Milhaud e a música brasileira no modernismo francês'



“Qualquer um pode dizer o que bem entender do Brasil, mas não tem como negar que se trata de um desses países pungentes, que impregnam a alma e a deixam com um certo tom, um vezo, um tempero de que ela nunca mais conseguirá se ver livre.” As palavras são de Paul Claudel, poeta notável e embaixador da França no Brasil durante a Primeira Guerra Mundial, em 1917-1918. O seu secretário no período foi Darius Milhaud, importantíssimo compositor do modernismo francês que se apaixonou então pela música brasileira, que sacudiu Paris em 1920 com o balé “Le boeuf sur le toit” (“O boi no telhado”), uma colagem vanguarda feita de maxixes e tanguinhos brasileiros, e que escreveu também a suíte “Saudades do Brasil”, evocando lugares do Rio de Janeiro, onde se inclui uma quase pré-bossa nova “Ipanema”.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Django e Lincoln - José Miguel Wisnik


A combinação dos dois filmes, que tratam de maneiras muito diferentes da mesma coisa, parece dizer em linguagem cifrada e óbvia de carta enigmática: um negro na Casa Branca

Que “Django livre”, de Tarantino, e “Lincoln”, de Spielberg, estejam ao mesmo tempo em cartaz deve ser uma dessas coincidências sintomáticas em que, por obra do acaso objetivo, uma questão ao mesmo tempo muito atual e muito antiga vem à tona. A questão atual é a polarização da sociedade norte-americana, que a divide e paralisa em impasses políticos agudos. A questão antiga é o correspondente histórico dessa polarização e seus fantasmas: a escravidão e a Guerra Civil, que se ligam na origem e no fim (acabar com a guerra acabando com a escravidão, diz o filme de Spielberg, foi uma obra de manipulação política, pura e suja, suja e pura, de Lincoln). A combinação dos dois filmes, que tratam de maneiras muito diferentes da mesma coisa, parece dizer em linguagem cifrada e óbvia de carta enigmática: um negro na Casa Branca.