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quarta-feira, 19 de junho de 2013

Enigma para todos, sociólogos e políticos - ROSÂNGELA BITTAR

Valor Econômico - 19/06/2013

Diante da eclosão dos atuais movimentos de protesto, com temas difusos e participação de grupos desintegrados - as três tribos densas e extensas da passeata de segunda, em São Paulo, são exemplos de tal configuração-, sabe-se que é menos caso de procurar as ainda inexistentes explicações sociológicas e sim de observar bem os fatos e dar à sociedade as respostas adequadas. Os sociólogos, os psicólogos, os doutores, os filósofos, os partidos políticos, as organizações sindicais, os governos federal, estaduais e municipais estão no mesmo plano: ainda nada entenderam dos acontecimentos pelos quais foram totalmente surpreendidos embora não possam deixar de ser responsabilizados. Os investidores, então, se estrangeiros pior, compreenderam menos ainda. A quantidade de telefonemas trocados para todos os lados é uma tradução dessa perplexidade.

O melhor, no momento, é abandonar as teorias e, da parte dos governos, constatar o que esses movimentos não são para, por aí, lhes dar um retorno aceitável. Não são baderneiros, partidários, ideológicos, venais. São estudantes, seus pais, punks, quilombolas, sem teto, sem terra, adolescentes, funcionários públicos. Não há líderes formais orientando slogans e percursos. Embora possa haver, e há, uma representação de todos esses tipos no meio da massa insatisfeita com as tarifas e qualidade do transporte coletivo, com os gastos públicos excessivos em estádios de futebol, com a cara de pau dos políticos e governantes, com a precária situação dos hospitais e das escolas, com a repressão aos corintianos presos na Bolívia, torcidas organizadas e revoltados com a impunidade, saturados em geral com a corrupção.

O desconhecimento, a falta de informação segura e antecipada - os arapongas e estrategistas do governo andam atrás de potenciais adversários eleitorais, não de perscrutar insatisfações sociais- sobre o caldeirão cuja fervura se avizinhava, levou os governos a reagir de forma reconhecidamente equivocada a essa aglutinação de sentimentos negativos.

Somente a partir da noite de segunda, diante das manifestações amazônicas em doze Estados e oito cidades do interior de São Paulo, os governos começaram a mudar seu discurso. Mas não saíram dele para a ação, ainda.

Quem tem experiência em manifestações do tipo, quem liderou e participou dos movimentos pela anistia e pelas diretas já, os dois maiores da história recente, sabe que a mobilização cresce com a repressão. Mas ninguém percebeu o que acontecia, de fato, e recorreu-se às velhas fórmulas: violência, acusações de exploração eleitoral, manipulação.

O tema do reajuste de passagens alcançou o governador de São Paulo e o prefeito da capital em Paris. Se quem estava aqui não tinha ideia do que se tratava, imagine-se quem estava na França disputando o privilégio de sediar a Expo-2020, uma abstração em si. Governado naquele momento pelo ministro petista e vice-governador tucano Afif Domingos, o Estado se escondeu. Sob o comando de Nádia Campeão, a Prefeitura emudeceu. E o festival de besteiras assolou os titulares em declarações à distância.

Numa das manifestações de uma terça, um grupo mais radical destacou-se da massa pacífica, gerando a revanche da polícia, contra tudo e contra todos, na quinta seguinte. Os policiais bateram muito, numa reação desproporcional, maior, segundo testemunhos de pais que acompanhavam seus filhos, que os embates de 68. Naquela época eram raros os equipamentos como os de hoje: escudo, gás de pimenta, bala de borracha, milhares de homens na repressão dura e violenta. Resultado: cresceu a adesão e aumentaram as inadequações dos governantes.

Gilberto Carvalho e José Eduardo Cardozo, no governo federal, Geraldo Alckmin e Fernando Haddad, em São Paulo, Sérgio Cabral e sua tática avestruzeira, não houve um que acertasse o passo. As manifestações colheram em dois dos principais governos envolvidos, o federal com Dilma Rousseff e o municipal com Fernando Haddad, duas pessoas sem a manha da urgência, do diálogo imediato, da experiência em mediar. Foram candidatos saídos de gabinete e, vencedores, ainda não conquistaram a liderança necessária para aplacar dissabores em massa. Alckmin, que tinha alguma, comeu a bola jogada pelo ministro da Justiça, potencial candidato a seu cargo, acreditou que era uma manifestação ao modelo de politicagem infiltrada e partiu para elogiar a polícia.

Em algumas horas, na noite de segunda-feira, foram todos obrigados a dar voltas nas próprias palavras. Uma das situações mais constrangedoras foi a de Gilberto Carvalho, ministro da Secretaria Geral da Presidência, encarregado de fazer a ponte entre Dilma e os movimentos sociais, doutor na relação com sindicalistas: a polícia identificou três funcionários seus, e mais um de sala contígua, na condução das manifestações de Brasília.

As considerações sobre os acontecimentos foram refluindo, aos policiais ordenou-se discrição, o prefeito tornou-se melífluo, o governador, tangido pelos fatos, dispôs-se ao diálogo, a presidente aproveitou o discurso do lançamento do dia, ontem, para traduzir o que os manifestantes querem: mais cidadania e repúdio à corrupção.

Isso significa que compreenderam, finalmente, o que se passa? Claro que não. Mas tentam dar uma resposta mais adequada a esse mundo desconhecido, sem assumir muito as posições definitivas. Alguns mais experientes em movimentos de massa orientam agora o PT a controlar seus governantes, levá-los a oferecer duas respostas à sociedade: uma é diálogo; outra, explicações. Se não podem reduzir o preço da passagem, expliquem à exaustão. Façam autocrítica, peçam desculpas.

O PT está interessado em encontrar saídas também por uma razão que prescinde de pesquisas de opinião mais amplas para ser identificada. Esse tipo de insatisfação terá reflexos nas eleições. Por isso houve reunião, ontem, do grupo da reeleição, coordenado pelo ex-presidente Lula, com a presença de Dilma, do ministro Aluizio Mercadante, do publicitário João Santana, do presidente do partido, Rui Falcão. Sabem que é numa situação como esta que surge alguém com muita força, correndo por fora, e leva. Embora não tenham, hoje, ainda, essas manifestações, com certeza, terão expressão político-eleitoral.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

O 'chefão' do cinema brasileiro

 Valor Econômico - 03/06/2013

Por Bruno Ghetti | Para o Valor, do Rio

 

É quase impossível falar do cinema brasileiro dos últimos 50 anos sem passar, direta ou indiretamente, pelo nome de Luiz Carlos Barreto. O produtor foi peça chave do cinema novo, nos anos 1960, e teve importância decisiva na criação da Embrafilme, distribuidora estatal de filmes nas duas décadas seguintes. Viabilizou obras essenciais de Glauber Rocha (1939-1981), Nelson Pereira dos Santos e Carlos Diegues, ao mesmo tempo em que produzia longas-metragens que levavam milhões às salas. Nos anos 1990, emplacou duas produções brasileiras entre os indicados ao Oscar de filme estrangeiro. E em todos esses anos, participou ativamente das discussões de políticas culturais no Brasil.

Aos 85 anos, Barretão, como é conhecido no meio artístico, celebra os 50 anos de fundação da produtora LC Barreto. A empresa financiou mais de 80 filmes, marcos históricos do cinema brasileiro, como "Terra em Transe" (1967), de Glauber, e "Bye Bye, Brasil" (1979), de Diegues, e muitos sucessos de público, como "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1976), do filho Bruno Barreto, o primeiro longa nacional a superar a marca dos 10 milhões de espectadores - recorde batido apenas em 2010 com "Tropa de Elite 2", de José Padilha.

Hoje em dia, embora com produções mais modestas em termos estéticos e de bilheteria - o mais recente foi "Lula, o Filho do Brasil" (2009), dirigido por Fábio, filho mais novo do produtor -, a LC Barreto segue em plena atividade. O próximo filme a ser lançado é "Flores Raras", de Bruno Barreto, que estreia em 16 de agosto, sobre a história de amor entre a poeta americana Elisabeth Bishop e a arquiteta e paisagista carioca Lota de Macedo Soares.

A longevidade da empresa mostra que, em alguns casos, é possível viver de cinema no Brasil. O segredo do sucesso? "Não acho que podemos dizer que somos um sucesso...", diz Barreto, sem muita convicção na própria modéstia. Em seguida, explica melhor: "Somos eficientes. Nossa preocupação é fazer, mas fazer sempre o melhor. E entregar, porque filme que fica parado no meio do caminho é nosso fantasma. Então a palavra é "entregar"", diz, agora em tom mais convincente.

A disciplina é marca forte no estilo de produção de Barreto. Ele costuma dizer que cinema é uma "operação artístico- militar". "Uma equipe precisa trabalhar com uma hierarquia que tem de ser respeitada - do diretor ao boy. Existe uma autodisciplina [entre os profissionais], e tudo tem que ser feito com consciência. Há até, como nos quartéis, uma ordem do dia que precisa ser seguida."

Para falar de sua empresa, Barreto recebeu a reportagem em seu apartamento, no bairro de Laranjeiras (zona sul carioca), com vista para oo de Açúcar. Em um ponto da sala, uma mesa expõe símbolos religiosos e foto do filho Fabio, em "estado de consciência mínima" desde 2009, quando sofreu acidente de carro e teve traumatismo craniano - ele receberá novo tratamento em breve.

Antes de a entrevista começar, Barreto pede desculpas ao repórter para fazer uma ligação. Ao telefone, confirma um jantar em sua casa com o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo. A ligação com o poder não é de hoje: Barreto conheceu e manteve conversas políticas com vários presidentes, quase sempre em relações amistosas. Seus detratores, aliás, já o reprovaram exatamente por sua capacidade de "ficar bem" com quem está no poder - foi criticado, por exemplo, ao produzir uma biografia de Lula na época da eleição de Dilma Rousseff. Mas seu bom trânsito nas altas cúpulas já teve efeitos positivos para o cinema como um todo. Seu prestígio diante dos militares permitiu a criação da Embrafilme, que deu um impulso à produção cinematográfica nacional nos anos 1970.

"Lançamos mão de recursos próprios e de financiamentos bancários. Em 50 anos de empresa, nunca paramos por um dia."

"A ditadura pregava o nacionalismo. Os militares queriam formar uma empresa de exportação de filmes brasileiros - mas isso ia virar uma agência de turismo. Nós conseguimos convencer o governo de que aquiloo era o que o cinema brasileiro precisava naquele momento, que era se solidificar e se impor no próprio mercado", afirma.

Barreto nasceu na cidade cearense de Sobral, em 1928, e foi criado com dificuldades pela mãe (o pai deixou a família quando ele tinha três anos). Até a adolescência, só pensava em jogar bola, mas com os anos foi se interessando por política (foi comunista na juventude) e pelo jornalismo. Aos 19 anos, mudou-se para o Rio, onde conseguiu um emprego que mudaria sua vida: repórter fotográfico para a lendária revista "O Cruzeiro". Ali, conheceu e clicou personalidades de diversas áreas, de Pelé a Che Guevara (1928-1967), passando por Marlene Dietrich (1901-1992). Conheceu também o dono da revista, Assis Chateaubriand (1892-1968), de quem absorveu o espírito empreendedor, a tendência à polêmica e o carisma. "Poderia fazer um filme sobre ele só com as minhas lembranças."

No início dos anos 1950, conheceu uma jovem pianista, Lucy, de quem jamais se separou. Com sua outra grande paixão, o cinema, só se ligaria com força após 1961, quando conheceu Glauber Rocha. O cineasta baiano incentivou o novo amigo a entrar para a área, e Barreto logo assinaria o roteiro de "O Assalto ao Trem Pagador" (1962), de Roberto Farias, e a inovadora direção de fotografia de "Vidas Secas" (1963), de Nelson Pereira dos Santos.

Barreto se interessava por filmes voltados para a realidade brasileira, principal diretriz do cinema novo, e virou um dos mais atuantes do movimento. Largou o jornalismo em 1963, quando se lançou como produtor para viabilizar o documentário "Garrincha, Alegria do Povo" (1963), do amigo Joaquim Pedro de Andrade (1932 - 1988).

"Na época, produzíamos muitas coisas ao mesmo tempo. "Vidas Secas", "Garrincha", "A Hora e a Vez de Augusto Matraga" [1965, de Roberto Santos] e "O Padre e a Moça" [1966, de Joaquim Pedro] foram feitos quase simultaneamente. Hoje, a fórmula econômica adotada no cinema brasileiro é ineficaz e até prejudicial, porque é filme a filme. Empresas com vários projetos, que poderiam tocá-los, têm de parar e esperar", diz, referindo-se à dependência de muitos produtores de recursos públicos.

Barreto também faz captação em editais, mas é um dos poucos que podem se dar ao luxo de concluir filmes mesmo sem dinheiro público (caso de "Lula"). Nem tanto por dinheiro em caixa, mas por seu crédito na praça. "Tenho capacidade de endividamento da minha empresa. Quando vejo que o processo de captaçãoo está dando suficientemente para levar o filme nos [nossos] parâmetros de qualidade artística e industrial, aí recorro a linhas de crédito de bancos." Em muitos filmes, usou economia familiar - caso de "Flores Raras", que custou R$ 13 milhões. "Lançamos mão de recursos próprios e de financiamentos bancários. Em 50 anos de empresa, nunca paramos por um dia que fosse as filmagens."

Desde o início, a LC Barreto funciona em esquema familiar. Barreto e Lucy comandaram a empresa até os anos 2000, quando Paula, filha do casal, se uniu a eles na chefia da produtora. "Trabalhar em família é mais difícil porque você acaba trabalhando no escritório e em casa. Tem horas que cansa, a gente quer se desligar. Não deu nem tempo de a gente transformar essa firma familiar em uma empresa propriamente dita", diz. "Já era tempo de tentar torná-la mais profissionalizada do ponto de vista de gestão. Sob a perspectiva da qualidade, está altamente profissionalizada; mas a gestão, não digo que seja amadora, mas é autodidata."
A família também controla outra razão social, a Filmes do Equador, que trabalha em conjunto com a LC Barreto (a primeira capta recursos, enquanto a segunda executa a produção). Hoje, produzem longas, filmes institucionais e especiais de TV. A sede funciona em um casarão de dois andares em Botafogo, zona sul carioca. O acervo da empresa fica em outro local, na zona oeste da cidade. "A casa de Botafogo é área preservada. Queremos fazer um centro cultural com espaço para receber alunos de cinema e estagiários, mostrar como se faz um planejamento de um filme."

No mês passado, Bruno Barreto começou as filmagens do longa "Crô", com o personagem cômico da novela da Rede Globo "Fina Estampa" (2011- 2012). No momento, a produtora tem também quatro salas alugadas em São Paulo. No total, a LC Barreto tem cerca de 25 funcionários fixos, a maior parte na administração. Mas o número aumenta muito na época de filmagens. "Em "Flores Raras", tivemos 120 pessoas trabalhando, entre motoristas, cozinheiros, técnicos... Contando com os indiretos, um filme gera de 300 a 400 empregos."

A renda dos filmes nas bilheterias conta muito, mas a fonte de renda da produtora é basicamente a exploração de seu (vasto) acervo, sobretudo na exibição para a TV a cabo. Barreto tem o copyright de 45 dos longas que produziu. "Isso é uma renda vegetativa, digamos assim. Às vezes dá para segurar [as despesas] só com isso, outras vezes não. O mercado internacional deveria ser não uma prioridade total, mas uma coisa importante para a gente. No exterior, você nãoo dinheiro: é quase sempre roubado. Se tivesse recebido tudo o que "Dona Flor" rendeu pelo mundo, eu estaria até emprestando para o Fundo Setorial [risos]".

O produtor conseguiu controlar a renda do longa apenas na Argentina e nos EUA porque abriu escritórios locais. "Fundamos uma empresa nos EUA, a Carnaval Films, em 1978. Lançamos o filme nós mesmos no mercado. Com o dinheiro, conseguimos produzir outros filmes, como o "Bye Bye, Brasil"."

Barreto também é um dos sócios do Canal Brasil, mas se dedica na maior parte do tempo à sua produtora. Ali, às vezes as tarefas se misturam, mas geralmente Lucy se ocupa da análise dos roteiros. Barreto fica mais atento às outras etapas. "Acredito mais é na coisa do "fazer". O produtor tem que estar presente permanentemente. Não é só um assinador de cheque: tem que ser um coautor."

Barreto acredita em cinema autoral - grande parte dos longas que produziu na vida seguem essa linha -, mas não pensa em um filme como atividade individual. "É algo artístico, mas também industrial. Um escritor pode se isolar e escrever. Um cineasta, por mais que queira ser apenas artista, no fundo é uma peça fundamental de um processo maior."

A filosofia produtiva de Barreto sempre caminhou no rumo do estabelecimento de uma indústria cinematográfica brasileira. Defende um cinema nacional competitivo, capaz de ganhar o mercado externo. "[Franklin] Roosevelt dizia: "Onde vão nossos filmes vão nossos produtos". O cinema é a grande arma interna de formação de consciência nacional nos EUA e de difusão e assimilação de costumes americanos pelo mundo. Issoo é culpa deles: é nossa, a gente permite isso. Não é questão de proibi-los, mas de impor coisas nossas."

Barreto diz que gasta 70% do seu tempo na militância da política do setor. No ano passado, defendeu até o fim a polêmica gestão da ex-ministra da Cultura Ana de Hollanda. "A irmã do Chico [Buarque]? Sofreu sabotagem por parte do corpo de funcionários do ministério. Não tinha experiência, mas estava levando as coisas." Também aprova a sucessora, Marta Suplicy. "Está tendo uma atuação brilhante, cobra coisas básicas que estão lá paradas há muito tempo."

Ao rever a própria trajetória, Barreto tem alguns arrependimentos. Um deles é não ter produzido a cinebiografia sobre Cazuza (que ele viu crescer). Outro foi ter perdido a chance de contar a história da Cidade de Deus antes de Fernando Meirelles. Orgulha-se, porém, que dois filmes dos filhos, "O Quatrilho" (1995), de Fabio, e "O que É Isso, Companheiro?" (1997), de Bruno, tenham ficado entre os cinco finalistas no Oscar de filme estrangeiro. Ele afirma que o interesse pela estatueta seria, antes de tudo, estratégico. "O Oscar é uma jogada de marketing, não um certificado de qualidade. Ele te dá um trânsito maior, para negociar os direitos etc. Se um dia conseguirmos, ótimo. Mas issoo vai querer dizer que o cinema brasileiro melhorou."

terça-feira, 28 de maio de 2013

Personagens comuns em ricas histórias - Marcelo Lyra

 Valor Econômico - 28/05/2013

Este é o segundo livro de contos do moçambicano Mia Couto, um dos mais importantes autores africanos da atualidade, conhecido principalmente pelo belíssimo romance "Terra Sonâmbula". Nas histórias curtas os personagens perdem um pouco em densidade, quando comparados aos do romance, mais por falta de tempo para um aprofundamento. Em compensação, sua imaginação e habilidade na ambientação seguem intactos. São 11 histórias, a maioria com protagonistas mulheres, em narrativas que oscilam ora entre o realismo mágico das lendas africanas, ora em meio à dura repressão das autoridades do Terceiro Mundo, sempre retratadas de modo patético.

Uma das mais belas e interessantes é sem dúvida a que abre o livro, "A Rosa Caramela", uma jovem corcunda, de rosto belíssimo, que enlouqueceu depois de ser abandonada no altar, desenvolvendo o hábito de conversar com estátuas. O mistério que essa mulher inspira nos moradores do pequeno vilarejo é proporcional à comoção causada por sua arbitrária prisão, simplesmente porque conversava demais com a estátua de um antigo líder deposto e proscrito pelo novo regime, o que foi considerado pelas autoridades como subversivo. A surpresa com a revelação do desconhecido noivo e o desfecho da trama são dessas coisas que fazem a literatura valer a pena.


"Rosalinda, a Nenhuma" mostra uma mulher que sofre anos com as traições e espancamentos do marido, um alcoólatra que vive às custas dela. Só quando ele morre ela se sente capaz de apaixonar-se por ele, enciumando-se de outra que também vem chorar no túmulo do marido. Novamente, aqui, por trás da trama singela é possível notar o registro de um cotidiano machista, no qual as mulheres são submetidas aos desmandos do marido e a libertação só vem com a morte dele.
Entre os contos masculinos, destaca-se o do Tio Geguê, que mostra o terror que as milícias impõem nos povoados por intermédio de uma história romântica de um rapaz órfão, criado pelo tio, que de repente começa a ter sonhos com a mãe que nunca conheceu. Há também o barbeiro Beruberu, pobre e querido em seu povoado, que procura valorizar sua barbearia garantindo que cortou o cabelo do ator americano Sidney Poitier. Seus problemas começam quando as autoridades acham que esse culto aos estrangeiros pode ser subversivo.


Como em quase todo livro de contos, o resultado é desigual, já que um ou outro relato não atinge o bom nível da maioria. Mas a poesia delicada e romântica que emana dos personagens está presente em todos, e o que mais impressiona é a habilidade de Couto na construção de frases. Elas são reduzidas ao mínimo e compreendidas muitas vezes pela sonoridade, à maneira de Guimarães Rosa. Couto parece esculpir cada palavra de modo que se encaixem nas frases como pedras de uma pirâmide. Fosse só esse seu mérito, já estaríamos diante de um escritor de destaque. Mas seus personagens são tão ricos em sua simplicidade cotidiana, tão humanos em seu sofrimento obstinado, que, para além do estilo, se tornam marcantes e acabam permanecendo por muito tempo na memória.
O livro vem com um oportuno glossário ao final, uma vez que Couto usa muitas expressões comuns ao vocabulário moçambicano, e recomenda-se uma leitura prévia, para familiarizar-se com elas e assim não quebrar o ritmo das deliciosas histórias.

"Cada Homem É uma Raça"

Mia Couto Companhia das Letras 198 págs, R$ 35,00 

Um empresário que fez seu tempo - Ivo Ribeiro

Valor Econômico - 28/05/2013


Um homem obcecado pelo trabalho, simples nos costumes, cercado de forte admiração popular. Respeitado nos meios empresariais e entre os políticos, Antônio Ermírio de Moraes era constantemente assediado pela mídia, pois não tinha travas na língua ao expressar seus pensamentos e convicções. Esse extrato está no perfil traçado pelo amigo José Pastore, muito mais o relato de uma convivência de 35 anos do que uma biografia. A aproximação, que se transformou em grande amizade, começou em 1979, nos bastidores do Ministério do Trabalho, em Brasília.

A convivência se estreitou e tornou-se quase diária. "O trabalho, para ele, era quase uma religião e estava sempre mais preocupado em fazer mais para o Brasil do que para si próprio", diz Pastore. Antônio Ermírio criticava o governo, mas, acima de tudo, era um otimista com o futuro do Brasil, apesar dos vários momentos em que, por razões econômicas ou políticas, os negócios de seu grupo e toda a indústria passaram por dificuldades. Era preocupado com as causas sociais. No teatro, como autor, buscou um caminho alternativo para expressar sua visão de temas críticos da vida nacional. Como representante de um dos maiores conglomerados industriais e empresariais do país, sua voz tinha ressonância nos meios políticos e entre seus pares. O grupoVotorantim chegou a ter mais de 90 empresas e a empregar cerca de 60 mil pessoas.

Pastore, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP, especializado na área de relações do trabalho e recursos humanos, reuniu nos últimos três anos tudo que observou de Antônio Ermírio no dia a dia da longa convivência, nas conversas que mantinham, nas entrevistas que concedeu aos jornais, revistas, rádio e TV e nos seus arquivos pessoais e da família. Desse rico material surgiu o livro agora publicado. A data escolhida para o lançamento, 4 de junho, não foi casual. É quando Antônio Ermírio vai completar 85 anos de vida. "É a melhor forma de homenagem e um presente ao meu amigo", diz Pastore.

O envolvimento do jovem Antônio Ermírio com o trabalho na empresa começou aos 21 anos, na volta dos Estados Unidos ao Brasil. Lá obtivera o diploma de engenheiro metalúrgico na Escola de Minas do Colorado. O pai, José Ermírio de Moraes, o chamou e informou que, durante um ano, iria trabalhar sem salário na Votorantim, para comprovar se teria competência para assumir parte dos negócios. Iniciou-se, naquele momento, um longo período de 60 anos anos dedicados integralmente ao grupo. Antônio Ermírio só parou na passagem de 2007 para 2008, impedido por problemas de saúde que começaram a aparecer em 1998 e foram se agravando. A combinação de hidrocefalia e mal de Alzheimer, detectada em 2006, já não permitia que trabalhasse.

O livro de Pastore retrata a trajetória de vida do empresário, com riqueza de detalhes profissionais e do seu modo de ser - que lhe trouxe também desilusões, na cena empresarial e também na política, com iniciativas em que se aventurou para nunca mais voltar. Lembrava o que o pai lhe dissera um dia: "Filho, jamais entre na política. Só tive decepções". José Ermirio de Moraes fora senador por Pernambuco e ministro da Agricultura por alguns meses, em 1963.

O livro começa com a infância da Antônio Ermírio na cidade de São Paulo e passa por sua formação profissional e intelectual. Mostra sua intensa participação na vida econômica do país, a fracassada aventura na vida partidária, como candidato a governador do Estado de São Paulo, a incursão na dramaturgia, ao escrever três peças teatrais, e a presença em obras sociais - o hospital da Beneficência Portuguesa, em São Paulo, do qual cuidava com esmero de gestor muito atento, como se fosse uma das suas empresas, era quase sua segunda casa. A primeira, no escritório do grupo Votorantim, onde chegava religiosamente entre 7 horas e 7h30 e saía já noite adentro. E muitas vezes aos sábados.

Antônio Ermírio conduziu o grupo com mãos de ferro, ao lado do irmão José Ermírio de Moraes Filho, dois anos mais velho. E a própria família. Rigoroso, fez quatro dos cinco filhos homens, de uma prole de nove, cursarem a mesma Faculdade de Minas do Colorado, nos Estados Unidos, por onde passou, e levou todos a trabalhar desde cedo nas empresas do grupo. "Tinha horror à ideia de que crescessem e se acostumassem ao luxo e à vida mansa", relata Pastore.

Algumas coisas o decepcionaram profundamente. Por exemplo, a disputa pelo cargo de governador paulista, em 1986, quando perdeu a eleição praticamente ganha para Orestes Quércia (PMDB). Isso lhe deixou amargas lembranças do meio político e da prática de conchavos, que não condiziam com sua retidão e caráter. Devia ter o seguido o conselho do pai, costumava dizer.

Outro caso foi a acirrada batalha da privatização da então Vale do Rio Doce (hoje Vale), em 1997, da qual saiu como perdedor para um consórcio comandado pelo quase desconhecido e jovem empresário Benjamin Steinbruch, que tinha vindo do setor têxtil e ganhara a siderúrgica CSN poucos anos antes. Foi uma derrota que o entristeceu. A Vale era uma empresa que tinha muitos dos seus negócios similares aos do grupo Votorantim, principalmente em mineração e metais.

Outra coisa, confirma Pastore, que o deixava por demais incomodado: o fato de o grupo ter criado um banco, inicialmente convencido que seria só para aplicar recursos próprios e que, ao longo dos anos, veio a representar 30% dos negócios. Antônio Ermírio era um fervoroso crítico dos bancos. Dizia que praticavam juros exorbitantes, sufocando as empresas e ganhando dinheiro fácil na ciranda financeira, enquanto a indústria sofria com a inflação alta e outros problemas. Certa vez, afirmou, em uma entrevista: "É isso mesmo, o Brasil só tem dois partidos: os banqueiros e o resto".

Pastore registra que, até 1986, teve contatos esporádicos com Antônio Ermírio. A amizade se aprofundou quando foi convidado a organizar um plano de governo para São Paulo, dentro da campanha ao governo do Estado. "Ele entrou muito animado e foi assim até o fim, apesar do bombardeio dos adversários, o que o deixou muito sentido. Atingiu a conduta ética dele". Pastore colaborou também com o amigo na elaboração dos cerca de 900 artigos semanais, aos domingos, que escreveu para a "Folha de São Paulo" durante 17 anos.

"Ele era muito fissurado por temas sociais e queria dados profundos. Por isso, tinha de pesquisar muito, inclusive em áreas que não eram de minha seara, como as de energia e meio ambiente", diz. Seu apreço era por questões que lhe pareciam prioritárias e mal cuidadas, como produtividade, qualificação de mão de obra, competitividade, e outras, de cunho social, nas quais encontrava oportunidade para opinar sobre drogas, jogo, criminalidade e prostituição, sempre com palavras fortes.

Isso incomodava muita gente, na economia e na política. Suas análises ressoavam entre os políticos, influenciando-os nos debates. Levaram o falecido Antônio Carlos Magalhães a pedir que parasse de "pautar" o Congresso Nacional, quando o político baiano era presidente do Senado.

O Brasil e muitos desses assuntos forneceram a matéria-prima de suas peças teatrais - "Brasil S.A." (1995), "SOS Brasil" (1999) e "Acorda, Brasil" (2002) - dirigidas e encenadas por grandes nomes do teatro. Não se considerava um dramaturgo. Mas, diz Pastore, a atividade autoral fez com que Antônio Ermírio se tornasse uma pessoa menos fechada e carrancuda. Ficou mais alegre e aberto a brincadeiras.

Segundo Pastore, desde o início de 2008 o empresário não tomou mais ciência das atividades do grupo que ajudou a crescer e a se tornar um dos mais importantes do Brasil. Diz que Antônio Ermírio não fez menções a ele sobre os problemas financeiros que o grupo passou a enfrentar a partir da crise global de setembro de 2008. Foi preciso vender, nos anos seguintes, alguns ativos e metade do seu banco ao Banco do Brasil, para se reequilibrar.

Pastore afirma que o que agravou a saúde de Antônio Ermírio foi a morte de dois filhos, Mário e Carlos Ermírio, o primeiro em agosto de 2009 e o segundo dois anos depois. Ambos, de câncer. "Ele se abateu demais com essas duas perdas."

"Antônio Ermírio de Moraes - Memórias de um Diário Confidencial"
José Pastore. Editora: Planeta. 360 págs., R$ 39,90

sexta-feira, 3 de maio de 2013

A Primavera na sombra - Yan Boechat e Dubes Sônego

Para o Valor, de Túnis e Cairo 

Valor Econômico - 03/05/2013


 Dois anos após os levantes no mundo árabe, a economia patina, a política não avança e há quem tenha saudade da ditadura.



Meia dúzia de toalhas puídas descansam em um varal de chão em frente à barbearia. Secam sob o sol ainda tímido. Lá dentro, a luz fraca, no teto baixo, ilumina a saleta onde mal cabem duas cadeiras de barbeiro, decorada com versos do Corão emoldurados nas paredes e bancos de madeira nas laterais. Merhez Zouri usa uma máquina preta pequena e barulhenta para fazer os últimos ajustes no cabelo do cliente, cortado bem curto nas laterais e com volume em cima, como gostam os jovens tunisianos. Fala pouco, mas segue o ritual universal dos barbeiros. Espelho a 45 graus de cada lado da orelha para checar como está o corte na nuca, escovinha no pescoço para retirar os pelos, batida nos ombros para não deixar que os fios de cabelo se juntem à roupa. Tudo muito cerimonioso, tudo em silêncio.

Aos 21 anos, Zouri é um veterano das batalhas de rua que incendiaram a Tunísia e deram início ao movimento que ficou conhecido como Primavera Árabe. Assim como milhares de jovens de sua idade, em janeiro de 2011 ele foi às ruas da capital, Túnis, para atirar paus, pedras e tudo o que encontrassem pela frente contra as forças de repressão, nos protestos que acabaram por derrubar o ditador Zine el Abidine Ben Ali. A desilusão com os resultados do levante, no entanto, o tornaram saudosista.

"Sabem quem é esse?", pergunta, apontando para a foto de um homem de terno preto, uma faixa roxa repleta de medalhas grandes a cruzar-lhe o peito, postado ao lado da bandeira da Tunísia, que faz as vezes de tela de fundo de seu telefone celular. "É Ben Ali. Deixo a foto dele aqui para mostrar para todo mundo que eu queria que ele voltasse", diz, olhando para a imagem clássica do ex-ditador, que por décadas decorou os prédios públicos do país.

Zine el Abidine Ben Ali, o homem que comandou a Tunísia com mão de ferro por 23 anos, partiu no dia 14 de janeiro de 2011. Acuado por maciços protestos populares, reuniu a família, juntou os pertences mais valiosos e embarcou em um jatinho particular com direção à Arábia Saudita. Com a queda do ex-general do exército que conquistara o poder por meio de um golpe de Estado, chegava ao fim um ciclo de seis décadas de ditaduras caracterizadas pela combinação de valores seculares e brutal repressão política e religiosa neste pequeno país do Norte da África, famoso por suas praias paradisíacas e por seus cenários desérticos exuberantes nas dunas do Saara.

Foi a queda de Ben Ali, muito mais do que as manifestações de rua iniciadas em 18 de dezembro de 2010, após a auto-imolação de Mohammed Bouazizi, um jovem vendedor de frutas no interior do país, que serviu como estopim para as revoltas que tomaram o mundo árabe no inverno de 2011. A queda do tirano diante de protestos populares foi o catalisador para que jovens reunissem coragem suficiente para ir às ruas do Egito, da Líbia, da Síria e de outros países para enfrentar ditadores. Mas muito mais do que um movimento ideológico, a Primavera Árabe foi uma resposta às condições econômicas e sociais que entraram em um processo de decadência ainda mais acelerada após a crise financeira de 2008. Merhez Zouri foi à rua por isso. Nos meses que antecederam a chamada Revolução de Jasmim, não conseguiu entrar em uma das universidades financiadas pelo Estado. Sem conhecer quem tivesse boas relações no governo, viu suas repetidas tentativas de conquistar um emprego no serviço público frustradas. "Eu me arrisquei na revolução porque não havia chances para mim e para praticamente ninguém aqui do meu bairro. Acreditávamos que tirando Ben Ali deixaríamos de ser pobres", diz.

Manifestante registra com tablet imagens de protesto pró-governo em Túnis; a tecnologia digital foi empregada amplamente nos primeiros meses da Primavera Árabe

Zouri é um jovem moreno, de cabelos quase lisos e de cara fechada, que facilmente passaria por brasileiro. Vive com os pais no Ibn Khal Doun, bairro operário como muitos das periferias das grandes cidades brasileiras, distante pouco mais de uma dezena de quilômetros do centro de Túnis. Por ali, é fácil encontrar grafitado o tradicional "A.C.A.B.", anagrama para "All Cops Are Bastards" (todos os policiais são "bastardos"). Nos cafés, dezenas de jovens passam o dia tomando chá, vendo futebol e fumando shisha, o narguilé.

Nos últimos dois anos, pouca coisa mudou no Ibn Khal Doun. "Só piorou. Os preços estão mais altos e os empregos, que já eram poucos, sumiram", diz. A única ocupação que Zouri encontrou foi na pequena barbearia de um conhecido, nas proximidades de casa, onde garante a principal renda da família: "Foi tudo um erro, queria mesmo que a revolução nunca tivesse acontecido". A frustração que acompanha o jovem barbeiro tunisiano é compartilhada por milhões de pessoas no Norte da África, no Oriente Médio em boa parte dos países ocidentais, que viam a chamada Primavera Árabe como um momento de transformação profunda nessa que é uma das regiões mais conturbadas do planeta. As decepções não são homogêneas. Longe disso.

Há jovens pouco politizados que esperavam uma melhora rápida e significativa nas condições econômicas. Há a elite educada desses países, que acreditava estar colocando fim a décadas de controle social e cultural por parte dos ditadores. E, por fim, havia toda a expectativa da comunidade internacional de que os países árabes entrassem em um ciclo de democratização aos moldes ocidentais.

Nada disso ocorreu. Dois anos após o que muitos analistas políticos chamaram de "a queda do muro de Berlim árabe", os países que derrubaram seus ditadores vivem momentos de crise profunda. Seja ela política, econômica ou sectária. No fim, com exceção da Síria, onde o futuro ainda é uma incógnita, Tunísia, Egito e Líbia avançam em direção ao cenário menos esperado quando das revoluções: o acirramento conservador proporcionado pelos movimentos islâmicos, os grandes vencedores políticos da Primavera Árabe.

"Os movimentos islâmicos saíram-se vencedores não exatamente por serem islâmicos. Ganharam as eleições porque, no fim das contas, eram os únicos verdadeiramente organizados politicamente", diz Stacey Gutowski, professora do Programa de Estudos sobre Oriente Médio e Mediterrâneo do King"s College, em Londres. No caos pós-revolução, nenhum grupo político era tão organizado, tão capilarizado quanto os movimentos islâmicos, que passaram boa parte das últimas cinco décadas atuando no subterrâneo. O egípcio Hosni Mubarak, o líbio Muamar Gadafi, Ben Ali e mesmo o sírio Bashar Al Assad reprimiram com rigor todos os movimentos políticos que tinham base islâmica. No Egito, a Irmandade Muçulmana, apesar de muito ativa, estava na ilegalidade há quase quatro décadas. Na Tunísia, o Ennahda, cópia independente do movimento egípcio, foi banido e boa parte de seus principais líderes foi para o exílio.


Mas, em comum, todos eles montaram uma rede de assistencialismo, tendo como base as mesquitas. Em países onde um quarto da população vive abaixo da linha da pobreza, como no Egito, qualquer auxílio material ou econômico é sinônimo de poder.

"Os secularistas sempre foram mais ligados às forças sociais e culturais internacionais, sempre foram mais cosmopolitas, mas ao mesmo tempo estavam longe da população mais simples", diz James Reilly, professor de história moderna do Departamento de Estudos das Civilizações do Oriente Médio da Universidade de Toronto. "Quando chegou o momento das eleições, a histórica organização dos movimentos islâmicos permitiu que eles mobilizassem os eleitores de forma muito mais eficiente", diz.

No Egito, maior e mais importante país da região, o vencedor das eleições - democráticas e limpas, atestam observadores internacionais - foi a Irmandade Muçulmana, o principal movimento islâmico de todo o mundo árabe, nascido nos anos 1920. Desde que Mohammed Morsi se tornou o presidente do país, o Egito aprofundou ainda mais sua crise. Seja por causa da oposição, que não aceita o fato de Morsi tentar promulgar uma nova Constituição que lhe dá poderes quase ditatoriais e tem muitos pontos baseados na sharia, a lei do Corão, seja por causa de uma profunda crise econômica. Na Líbia, o cenário é ainda mais complexo. Após uma guerra civil sangrenta, que terminou com a morte brutal do ex-ditador Muamar Gadafi, o país tenta evitar que divisões históricas façam surgir um novo confronto. Como nos tempos de Gadafi, o Leste, principalmente a região de Benghazi, reclama de não receber a atenção que merece do Oeste, onde está a capital, Trípoli.

A diferença agora é que o país está armado, com divisões tribais mais acirradas e com crescente participação de grupos islâmicos extremistas. Um ataque orquestrado pela Al Qaeda matou o embaixador Chris Stevens no consulado dos Estados Unidos em Benghazi, em setembro. Na semana passada, um carro bomba explodiu na frente da embaixada francesa em Trípoli, na Líbia, deixando dois guardas feridos.
Grupos islâmicos radicais também têm tido participação importante na Síria, onde a guerra civil, que já matou mais de 70 mil pessoas, parece distante do fim. Desde que uma jihad foi decretada por clérigos sunitas, combatentes ligados a movimentos radicais de todo o mundo árabe seguiram para a Síria para combater as forças do ditador Bashar Al Assad, que pertence à corrente minoritária Alauita e é apoiado pelos xiitas do Irã. Bem armados e experientes, esses combatentes estão ganhando espaço na guerra civil e já há quem preveja que, em caso de derrota do regime, ocorra uma tentativa de instalar um Estado islâmico radical no país. É na Tunísia, no entanto, que a vitória dos movimentos islâmicos e da crescente onda de conservadorismo é mais emblemática. E não só pelo fato de ter sido ali o berço da Primavera Árabe. Nenhum país no mundo árabe tinha uma relação tão distante entre Estado e igreja quanto a Tunísia, que, ao longo das últimas seis décadas, se transformou em uma ilha de secularismo, imposto pela mão pesada do Estado.

"Antes da revolução, o uso do véu e da barba eram até malvistos. Hoje, já se escutam histórias de famílias que pressionam as filhas a usar o véu, com medo de que sejam discriminadas ou tenham dificuldade para arrumar um namorado e casar", diz o embaixador brasileiro em Túnis, Luiz Antônio Fachini Gomes, que chegou ao país em setembro de 2010, três meses antes do estouro da revolução.

Túnis ainda tenta ser uma pequena Paris. Na avenida Habib Bourguiba, que homenageia o ex-ditador que garantiu às mulheres liberdades como o direito de escolher o marido e a participação ativa em todas as áreas da vida civil, há dezenas de cafés em estilo francês, com pequenas mesas redondas e cadeiras de vime. São pontos de encontro onde os tunisianos se reúnem para conversar, tomar café e beber cerveja, uma liberdade impensável na vizinha Líbia ou na distante Arábia Saudita. Mulheres elegantes ainda caminham sobre saltos altos por entre as árvores de copas aparadas desta alameda de prédios em estilo neoclássico do século XIX. Mas, lentamente, os véus, antes proibidos, vão ganhando as ruas.


Pela força e por políticas públicas, a Tunísia coibia manifestações religiosas que ameaçassem interferir na estrutura social de um país que se vê, ainda, mais europeu que árabe. Durante os últimos governos ditatoriais do país, mulheres que usassem o véu e homens que ostentassem a barba no estilo muçulmano eram convidados a dar explicações à polícia. A liberação só era feita depois da assinatura de um documento em que se comprometiam a tirar o véu e cortar a barba. A recusa poderia significar a perda de documentos e dificuldades para encontrar emprego, estudar e usar serviços públicos básicos. O ex-jogador de futebol Anis Hamrouni, ponta-direita promissor que chegou à seleção sub-20 da Tunísia, foi vítima de situações como essa inúmeras vezes.

Desde que parou de jogar, há sete anos, por causa de uma meningite, Hamrouni se aproximou da religião e se tornou salafista, membro da corrente muçulmana que advoga uma interpretação mais radical do Corão e que pretende implantar a sharia em todo o mundo árabe. Salafistas como ele foram duramente perseguidos no governo de Ben Ali. "Fui preso inúmeras vezes, só porque mantinha a barba grande, como agora, ou porque simplesmente não queria usar roupas ocidentais", conta. "Não podíamos ser o que nosso profeta Maomé nos ensinou a ser."

Hamrouni frequenta uma das 500 - de um total de 5 mil - mesquitas tunisianas que passaram a ser dominadas por salafistas após a queda de Ben Ali, há dois anos. Ele, como todos os que seguem a mesma linha religiosa, acredita que não há espaço para democracia na Tunísia, assim como não há espaço para direitos das mulheres ou mesmo a necessidade de criar uma nova constituição. "Alá nos deu tudo, está tudo no Corão, não precisamos de novas leis, não precisamos de homens nos governando, quem nos lidera é Alá", diz ele, profundo admirador de Osama Bin Laden.

São homens como Anis Hamrouni que representam, ao menos para a população mais ocidentalizada da Tunísia, a maior ameaça a décadas de contínuas conquistas liberalizantes. "Essa não é a Tunísia que conheço. Não consigo acreditar que mulheres sem véu estão sendo xingadas nas ruas, e que pessoas que defendem a sharia têm voz na sociedade", diz o jovem Ashraf Ayadi. Ele, como uma parcela importante da população urbana da Tunísia, é um muçulmano não muito praticante. Vai à mesquita vez ou outra, mas tem um estilo de vida muito ligado ao Ocidente. "Aqui na Tunísia, não somos 100% árabes, somos uma mistura de povos. Por isso somos essa ilha de secularismo", afirma, em inglês impecável. "Mas se os islamistas continuarem a ganhar força, as coisas vão piorar", diz ele, que, aos 22 anos, trabalha como tradutor e radialista em Túnis.

Para as mulheres, as coisas já pioraram. No Egito, onde em 2010 a maior parte da população (54%) era a favor da segregação por gêneros no ambiente de trabalho e 82% apoiavam a adoção da pena de morte por apedrejamento em caso de adultério, o retrocesso em relação a conquistas femininas consolidadas no Ocidente é imenso. Não só a promessa de campanha de uma vice-presidente mulher não vingou, como a cota parlamentar de mulheres, que existia, foi removida.

Entre mulheres de classe média, muitas das quais são muçulmanas e foram às ruas ajudar a derrubar o governo em 2011, o medo agora é que uma nova constituição legalize práticas que são regra em áreas mais pobres, como o casamento a partir dos 13 anos - a Irmandade Muçulmana defende a idade de 9 anos.


No Egito, até a descriminalização da mutilação do clitóris, da qual escapa somente um terço das meninas egípcias, chegou a ser cogitada pelo atual presidente, ligado à Irmandade Muçulmana. Mas acabou descartada. O número de casos de violência sexual também aumentou significativamente, mesmo em áreas que eram frequentadas livremente por mulheres nos protestos de 2011, como a Praça Tahrir, território proibido para mulheres sozinhas, em especial à noite. A área ficou tão perigosa que, só no aniversário do início dos protestos, em 25 de janeiro, foram confirmados 18 casos, muito deles de estupros coletivos.
Na Líbia, onde um dispositivo de lei que garantia igualdade de direito às mulheres foi removido da constituição redigida após a guerra civil, a situação é semelhante, segundo informações da Anistia Internacional.

Na Tunísia, onde até a queda do antigo regime as mulheres iam à praia em biquínis, Amina Tyler, uma jovem de 19 anos, foi condenada à morte por apedrejamento por um clérigo radical depois de postar na internet uma foto em que aparecia fazendo topless, com a frase "F... a sua moral" pintada no corpo, em árabe. O protesto contra a crescente repressão às mulheres no país repercutiu mundialmente e terminou com o rompimento de Amina com a família religiosa. Ela está escondida e quer fugir para a França. Teme ser violentada por policiais ou morta por salafistas.

Os salafistas fazem parte do grupo mais extremo dos movimentos islâmicos. Ao contrário da Irmandade Muçulmana ou do Ennahda, na Tunísia, advogam que todo o mundo árabe precisa voltar a ser um califado. De origem sunita e surgido em sua versão moderna no século XVIII, o salafismo passou a ganhar mais força nos anos 1960 e veio a desaguar em movimentos radicais como a Al Qaeda.

Apesar de os partidos moderados islâmicos, como a Irmandade Muçulmana, no Egito, ou o Ennahda, na Tunísia, não compartilharem da visão desses movimentos, nenhum deles teve força suficiente para impedir o avanço dos salafistas no período pós-revolução. Para esses grupos não há espaço para negociação e o uso da força tem sido sistemático em defesa de suas ideias. "Há um crescente descrédito nas instituições que deveriam proteger os direitos humanos", diz o vice-diretor da Anistia Internacional para o Oriente Médio e Norte da África, Hassiba Hadj Sahraoui.

O auge dessa política de medo ocorreu em 6 de fevereiro na Tunísia, quando o líder da oposição Chokri Belaid foi assassinado com quatro tiros. Belaid era crítico feroz dos salafistas e acusava o Ennahda de não tomar nenhuma ação para controlar os mais radicais. A morte de Belaid pode muito bem ter sepultado o sonho de que um novo mundo de democracia e liberdade floresceria nos países árabes. A pergunta que ficou no ar foi: se não deu certo na Tunísia, o mais secular dos países da região, onde mais poderá dar?


"As próximas eleições vão definir se os islamitas vão consolidar o poder que conquistaram. Agora, mais do que antes, a questão econômica será crucial para definir quem sairá vitorioso", diz Amel Saffar, professor do Instituto de Altos Estudos Econômicos de Cartago e integrante da Associação Tunisiana para a Democracia, um dos grupos responsáveis pela observação das disputas eleitorais.

As próximas eleições parlamentares no Egito e na Tunísia estão marcadas para outubro, apesar de não haver certeza se elas de fato ocorrerão. No Egito, estavam programadas para o mês passado, mas os protestos violentos do início do ano no Cairo e em cidades próximas ao canal de Suez, somados às promessas da oposição de boicote, levaram Morsi a adiá-las para outubro. Agora o presidente dá sinais de que haverá novo adiamento. A razão, segundo ele, é que precisa de mais tempo para negociar um acordo de auxílio financeiro com o FMI (Fundo Monetário Internacional).

Muito mais que a Tunísia ou a Líbia, que passa por um momento de reconstrução pós-guerra civil, é o Egito o país mais pressionado pela decadência econômica que tomou conta dos países da região. Desde a queda de Hosni Mubarak, há dois anos, o processo de deterioração do cenário econômico se acelerou rapidamente. O PIB, que crescera 5,14% em 2010, decepcionou, com 1,7% em 2011; no ano passado, teve apenas uma leve recuperação, fechando em 2,21%.

Mas o problema mais grave está no balanço de pagamentos. Desde janeiro de 2011, as reservas em moeda forte caíram de US$ 36 bilhões para cerca de US$ 13 bilhões. O problema é grave para um país que mantém uma política de subsídios agressiva em produtos que precisa importar, como o trigo, do qual é o maior importador mundial, e o petróleo. Hoje o pão comercializado nas ruas do Cairo, por exemplo, custa o equivalente a menos de US$ 0,10, enquanto o litro da gasolina é vendido nas bombas a US$ 0,20. O gás de cozinha chega ao consumidor egípcio a meros 7% do valor internacional de mercado. Sem ajuda externa, os US$ 13 bilhões em caixa são suficientes para apenas três meses de importações.

A inflação disparou nos últimos meses. A taxa anual, que em dezembro estava em 5%, pulou para 8% em fevereiro. Ao mesmo tempo, a libra egípcia perdeu mais de 10% de seu valor apenas neste ano, tornando a missão do governo de abastecer o país com commodities importadas ainda mais difícil. A taxa de desemprego oficial saiu de 9% em 2010 para 12,3% no ano passado. O FMI, no entanto, projeta que os desempregados serão 13,5% da população economicamente ativa ao fim deste ano e 14,2% em 2014.
O Egito não quer aceitar o acordo com o Fundo para receber um pacote de auxílio de US$ 4,8 bilhões porque sabe que terá de adotar medidas de austeridade duras, como o corte de subsídios e o aumento de impostos, como exige o FMI. Os reflexos de um acirramento econômico em um país já dividido e instável são imprevisíveis.


Para não quebrar, o Egito anda de pires na mão. O Catar já deu US$ 5 bilhões e prometeu mais US$ 3 bilhões. A Turquia se comprometeu a transferir em dois meses US$ 1 bilhão, dos US$ 2 bilhões que prometeu no ano passado. Mesmo a Líbia, que se transformou em pouco mais que um punhado de cidades autônomas ricas em petróleo, anunciou no mês passado ajuda de US$ 2 bilhões.

A Tunísia também sofre com uma economia que caminha a passos lentos. Mas foi mais rápida nas negociações com o Fundo e garantiu, na semana passada, crédito de US$ 1,75 bilhão em caso de necessidade. O valor ficará disponível por 24 meses, segundo anunciou no dia 19 a diretora-gerente do Fundo, Christine Lagarde. Na lista de exigências do Fundo estão velhas recomendações conhecidas dos brasileiros, como políticas para a contenção da inflação, ajustes de despesas públicas, garantias à estabilidade do setor bancário e maior flexibilidade do câmbio, para que o país possa ganhar competitividade, melhorar suas contas externas e reservas internacionais.

Na praça Tahrir, na região central do Cairo, talvez o maior símbolo da Primavera Árabe, ainda estão as tendas montadas pelos manifestantes para marcar território e resistir às investidas das forças de segurança do governo. Um museu foi improvisado com paus e lonas plásticas para homenagear os mártires dos conflitos. Lá estão expostas charges políticas, pequenos textos e fotos de jovens desfigurados pela violência, de batalhas, de momentos de heroísmo e alegria. Há carcaças de carros incendiados, fezes nas entradas do metrô e muita poeira cobrindo a rua. Suja, decadente e insegura, ela, de certa forma, se transformou em um símbolo também do período atual.

"Os egípcios que fizeram a revolução estão cheios de perguntas sem resposta", diz Mohamad Shinnewy, jovem documentarista egípcio que vive na Tahrir desde o início dos protestos. Magro, a barba por fazer, os cabelos sem corte presos em um rabo de cavalo, Shinnewy é o retrato dos manifestantes de hoje. Está ali sem saber muito o que fazer, e diz: "Continuamos aqui para defender a revolução".

A rotina modorrenta e desesperançada é quebrada pelos constantes choques com a polícia. Eles ocorrem, em geral, nas proximidades da embaixada americana, a cerca de 500 metros da Tahrir. Sob as luzes fortes da avenida que margeia o Nilo, os manifestantes avançam e recuam em ondas, atirando paus, pedras e coquetéis molotov. Os mais destemidos à frente, alguns deles crianças, de peito aberto, se arriscando a receber tiros com munição para matar passarinhos. Do outro lado, a polícia responde também com pedras e bombas de gás lacrimogêneo. Depois de dois anos de enfrentamentos, um ar de normalidade toma conta do cenário.

O caos controlado atrai uma leva de vendedores ambulantes que se acostumaram a ganhar a vida em meio a conflitos como esse, que neste ano já fizeram mais de 70 mortos e cerca de 1.400 feridos. Misturados aos manifestantes, no meio da avenida, eles comercializam pães, lenços de pano - bastante úteis para respirar no ar saturado de gás lacrimogêneo -, água, sucos e chás. Alguns, como o dono de um grande carrinho de metal, já têm até slogans para desbancar a concorrência: "Aqueça-se com um chá para derrubar Morsi".