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domingo, 14 de julho de 2013

Escapismo - CAETANO VELOSO


 O GLOBO

14/07/2013

Pedro Almodóvar, ao optar escancaradamente pela comédia nesse seu “Amantes passageiros”, disse que era natural querer rir das coisas, quando a Espanha está com problemas tão difíceis de resolver

Quando eu escrevia crítica de cinema em Salvador — e só andava com cinéfilos — a gente ouvia sempre que, durante a depressão dos anos 1930, Hollywood se voltou para as comédias: era um modo de fugir da realidade sombria. Pedro Almodóvar, ao optar escancaradamente pela comédia nesse seu “Amantes passageiros”, disse que era natural querer rir das coisas, quando a Espanha está com problemas tão difíceis de resolver (embora ele tenha enfatizado o aspecto alegórico da trama em que um punhado de gente não sabe onde vai parar). O filme foi mal recebido pela crítica, tanto aqui quanto na Espanha natal — e, quem sabe, em outras paragens —, mas eu fui assistir e gostei.

Não diria que tenho motivos para defendê-lo criticamente. Apenas gostei de como ele é filmado. As cores são fotografadas de modo incrivelmente elegante. O movimento de câmera que vai da visão do avião de meio-perfil (e em contre-plongé) até a espiral que gira no centro da turbina é muito bonito — e essa firmeza de composição, por incrível que pareça, se mantém por todo o filme. É verdade que a gente ri mais no que resulta engraçado em meio aos melodramas do diretor do que nesta comédia que finge gritar “eu sou uma comédia” desde as primeiras imagens. Digo que finge porque a estilização irrealista e as caracterizações caricatas são pensadas para dar esse grito, mas o gosto refinado com que elas são realizadas (um ultracolorido diferente do ultracolorido dos outros filmes de Almodóvar) o amortece. Não de todo — e seguramente não de modo desagradável. Ao contrário: os debruados das poltronas do avião e das roupas dos aeromoços compõem sempre visões relaxantes e doces ao olhar. Mas a unidade com que isso se mantém através do filme, invadindo ruas e casas de Madri, aonde a película desce através de telefonemas de passageiros que falam com amantes em terra (na parte que talvez seja a mais quente de um filme suavemente frio), não ajuda a produzir gargalhadas.

Estou em Curitiba, onde acabo de fazer show num teatro muito bom de acústica. Depois saí para jantar com os caras da banda. Na TV do restaurante (é muito comum hoje em dia restaurantes terem aparelhos de televisão nas salas) vi imagens de pneus sendo queimados em estradas, líderes do MTST e da Força Sindical dando entrevistas, reincidência de truculência da polícia carioca, nesta quinta-feira de greve geral. Os pensamentos que se esboçavam em minha mente diante dessas imagens me faziam lembrar da tese do escapismo do cinema diante de crises. Pensei em Almodóvar e no que senti diante do filme dele. Mas pensei no sucesso de “Minha mãe é uma peça”, filme muito mais engraçado do que o do meu amigo espanhol, que vem reafirmando a tendência do público brasileiro para fruir comédias. Terá tal tendência prefigurado uma crise que parecia não existir faz um mês? Que, na verdade, parecia impossível de eclodir? Nada no filme de Pedro me deixou triste. Não é um bom filme, mas, mais importante, não é um filme mau. É bondoso. Mas tudo me deixa alegre no filme de André Pellenz. As risadas espontâneas que ele provoca, o sucesso que faz, a surpresa que é ver Paulo Gustavo fazer uma mulher na telona e nunca o fato de ser um cara travestido se sobrepor à credibilidade das situações, mesmo as mais naturalistas. E Niterói! Que beleza ver Niterói tão poeticamente captada num filme! Fiquei emocionado e me lembrei de quando conheci Paulo Gustavo, por intermédio de Luana Piovani, atuando ao lado de Fábio Porchat. E, bem depois, de quando vi “Minha mãe é uma peça” ainda no teatro, aonde fui mais de uma vez com meu filho Tom, que era ainda bem pequenininho e adorava o espetáculo (hoje ele tem 16 anos: já foi ver o filme e me disse que gostou e achou engraçadaço). Tudo isso me enternece. Se é para escapar das preocupações que a pergunta sobre a entrada dos sindicatos e dos grupos sociais organizados na onda de protestos põe para os políticos, as novas cores de Almodóvar servem de calmante, mas as falas da mãe niteroiense (e de seus irresistíveis filhos, amigos, parentes, ex-marido e desafetos) nos arrancam da cadeira e nos sacodem (no sentido pernambucano da palavra) os grilos fora.

No caso Ecad, só digo que Fernando Brant, na reunião, sentou-se com conforto, ao lado da advogada que foi com ele, em posição central, com visão ampla de todos os que estavam na sala. Inverdade o que ele diz quanto a isso no texto que espalhou. Eu já disse isso a ele. Tendo agora a crer que a ida de minha turma a Brasília afina mais com o clamor das ruas do que contrasta com ele. Mas não quero tratar aqui de coisas complicadas. Só quero pensar em Paulo Gustavo, Niterói, Tom e o cinema que faz rir.


domingo, 7 de julho de 2013

Ritmo - Caetano Veloso


O GLOBO

07/07/2013

Decidi aderir à campanha de apoio ao PLS129 porque, engolfado pelo entusiasmo de tantos colegas, percebi que a situação amadurecera muito em muito pouco tempo

Os compositores e cantores que vieram a Brasília para apoiar o PLS 129 estavam muito cheios de vida. De Roberto Carlos a Emicida, de Nando Reis a Gaby Amarantos, de Rogério Flausino a Carlinhos Brown, todos pareciam dotados de uma grande energia, o que para mim era surpreendente. Suponho que é porque eu próprio tenha estado tanto tempo remoendo dúvidas e buscando uma concórdia entre os colegas que sentem a necessidade de questionar o Ecad e os que atuam nas sociedades arrrecadadoras a que ele serve de guarda-chuva. Dias antes, no Rio, Lenine me disse que minha dúvida é que o tinha motivado a agir na direção da aprovação do PLS. Ontem, na sala da presidência do Senado, ele, utilizando a melodia do refrão da irresistível canção de Roberto, liderava o coro: “Esse Ecad sou eu”.

Decidi aderir à campanha porque, engolfado pelo entusiasmo de tantos colegas, percebi que a situação amadurecera muito em muito pouco tempo: insatisfações acumuladas chegaram a um ponto que meus chamados ao diálogo se tornaram irrealistas. Cheguei a conseguir ouvir as duas partes discutindo. Mas a essa altura já estava mais dedicado a entender os motivos dos questionamentos do que a deplorar a discórdia entre amigos criadores. Temos no Brasil uma entidade que, tendo sido criada por lei, detém o monopólio da arrecadação e distribuição de direitos. Essa entidade foi criada juntamente com o Conselho Nacional de Direito Autoral, que a fiscalizava. Este foi extinto (sob Collor) e nada veio ocupar o seu lugar.
Ou seja: há um monopólio sem regulação. Daí, zero transparência. O grande pleito dos autores não é receber mais, é poder saber por que recebem o que recebem — e, mais sério, por que tantos colegas seus não recebem nada. Para mim, esse tema ressurgiu quando, ao receber um manifesto intitulado “Vivo de música” — em que compositores eram convidados a assinar um texto em defesa cega do Ecad, contra a condenação, de parte do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, por formação de cartel — senti, sem conversar com ninguém sobre o assunto, que devia esperar, pensar mais, enfim, não assinar automaticamente. Não foi uma intuição sobrenatural. Foi instantânea lembrança de várias conversas mantidas ao longo dos anos. Nesse clima, recebi um e-mail de Fernando Salem com apenas uma pergunta: “Você entende isso?” e a cópia de um artigo de Sérgio Ricardo, dizendo que a suspeita de que a condenação do Ecad pelo Cade fosse do interesse de grandes grupos de mídia não poderia impedi-lo de reafirmar as queixas que ele próprio tinha contra o órgão de arrecadação. E indicava a leitura de um texto de Ivan Lins, em que este dava conta de quanto desaprovava o Ecad em seus modos de operar. Fiquei de orelha em pé.

A ministra Marta pediu ao senador Randolfe (que eu já conhecia da campanha do Freixo e que foi estimulado pelo grupo Fora do Eixo) que contactasse Paula Lavigne. O senador foi a ela com membros do Gap (Leoni, Fernanda Abreu, Tim Rescala, Frejat e outros). Depois recebi Marta no meu camarim em Sampa. Todas as conversas que se seguiram foram muito racionais por parte deles e muito inquietantes para mim: havia colegas nos dois lados. Eu desejava que os dois grupos dialogassem antes de eu me posicionar. E foi isso que escrevi aqui na coluna. O mero fato de eu dizer que não tinha assinado o manifesto e de sugerir tal diálogo fez com que, de um lado, a turma do Gap marcasse encontros para explicar que se tratava de exigir transparência, e, de outro, a turma do Ecad me enviasse e-mails alertando contra o perigo de “estatização” e de “caos”.

Quando fui ao Senado (em cujo plenário ninguém faz silêncio, o que me causou mal-estar) e acompanhei meus amigos num encontro com a presidente Dilma, eu já estava seguro de que não havia risco de “estatização”: os artistas definirão a estrutura do órgão, e a presidente concorda que este tem de ser composto por maioria de autores.

Houve reuniões na casa de Gil e de Paula Lavigne. Chico Buarque, que tinha assinado o manifesto do Ecad, foi a três delas. Pensei que ele fosse ser meu companheiro de dúvidas e exigências intermináveis. Mas ele chegou em casa e pediu que seu nome fosse retirado do manifesto. Daí em diante só vi crescer a vontade de mudança. Djavan mostrou tanto entusiasmo que queria que fôssemos à Cinelândia e fizéssemos um show-protesto. As manifestações de rua ainda não tinham começado. Lenine acha que tem tudo a ver. Há quem tema o contrário. Penso no ritmo das coisas no tempo. Os Racionais MCs tiveram seus créditos retidos pelo Ecad. É hora de mudar.


Eu teria mesmo de vir a Brasília: tenho show marcado aqui hoje. Meu destino eu não traço.


domingo, 30 de junho de 2013

Gás - Caetano Veloso


O Globo

30/06/203

 

Qual é a lógica da ação policial nas manifestações do Rio?

É quinta-feira. Sentei-me aqui para escrever e, antes que eu abrisse o computador, Neide, minha empregada, veio até a porta do meu quarto e me perguntou se eu sabia que ia haver uma greve geral na segunda-feira. O filho dela tinha telefonado: “Vai parar tudo”. Saio com amigos adorados. Nosso plano é ir ver o show do grande Pedro Miranda no centro da cidade. No carro, meus amigos me contam que estavam na manifestação da quinta passada. Com restos de entusiasmo e cargas de ansiedade, eles narram o que tiveram de enfrentar. São muito mais jovens do que eu e, na marcha, estavam com amigos de sua idade. No fim da Avenida Presidente Vargas, já perto do “Piranhão” (que é um velho apelido que o prédio da prefeitura tem, dizem que tanto pelo histórico da área em que foi construído quanto pela sua atual ocupação), na linha de frente da passeata, meus amigos observam que, em meio a tantos grupos diferentes e reivindicações variadas, a caminhada nem segue em frente nem decide dispersar-se: os caminhantes apenas param por ali. A chegada ao Piranhão era, parece, a meta. Meus amigos são um casal. Ele comenta o quanto ficou impressionado com um grupo representativo do movimento negro, formado de habitantes da Baixada, cujos cartazes exibiam estatísticas sobre a posição de desvantagem em que vivem os negros no Brasil. Ela reclama de ainda estar mal da garganta por causa do gás lacrimogêneo. Ambos descrevem as cenas que viram com muita vivacidade, ainda sob a pressão dos acontecimentos.

Como a multidão estava ordeira e não os imprensasse — permitindo, portanto, que eles vissem os outros manifestantes que estavam no abre-alas — estão seguros de que não houve nenhum gesto que detonasse o começo da agressividade policial. Bombas de gás e tiros cuja natureza eles não podiam no momento definir assustaram a multidão. Mas não houve pânico, a ordem “não corre” sendo espalhada com firmeza e rapidez. A essa altura, temperamentos mais combativos queriam enfrentar a força policial e atacar o Piranhão. Impressionou meu amigo que o grupo de negros — que, além dos cartazes, exibiam marra de rappers e panos amarrados no rosto que deixavam apenas os olhos à mostra — tenha sido firme em dissuadir de praticar qualquer tipo de violência aqueles que tendiam a fazê-lo. Andando, meus amigos começaram a voltar, buscando uma rua lateral pela qual fazer a aglomeração escoar, no que foram seguidos pelos que vinham atrás. Para espanto deles (e de todos) uma parede de policiais com escudos e bombas de gás fechava a saída no outro extremo da rua. O gás e o medo faziam muitos quererem livrar-se da emboscada. O risco de pânico e de pisoteamento os angustiou. Mas a discreta palavra de ordem “não corre” virou um grito uníssono e intenso, que deu calma e coragem para que se fizesse o equilíbrio possível entre recuar e enfrentar os policiais.

Eles tinham visto muitos manifestantes prenderem seus cartazes nas grades do Campo de Santana (os policiais, a essa altura, os tinham enxotado até a altura da Central do Brasil e do prédio do antigo Ministério da Guerra — e assim o nomeio aqui porque foi assim que meu amigo, tão moço ainda, se referiu ao Palácio Duque de Caxias). Eles tinham achado bonita a improvisada exposição. Agora, em seu caminho de volta, viam que alguns baderneiros lhe tinham ateado fogo. Essa definição de baderneiros vinha, na conversa, temperada de perguntas não feitas. A atitude de tentar invadir a prefeitura, segundo eles viram, foi posterior e não anterior à ofensiva policial. Além disso, como explicar o cerco ao conjunto dos manifestantes quando estes tentaram sair por uma rua lateral? E, pior, como justificar — sobretudo quando o que eles viram foi a ausência da polícia em cenas de arruaça — a invasão da Lapa, para onde muitos grupos que tinham participado da passeata tinham ido? Relembro aqui a narração de outro amigo, um americano que vive no Rio, do horror que foi ficar acuado no restaurante Nova Capela. Confirmando o que me disseram meus amigos brasileiros, o americano contou que a Lapa ficou como uma praça de guerra, com bombas sendo jogadas para afugentar as pessoas. Todos se perguntam: qual a lógica da ação policial? Como Beltrame tem planejado a segurança nesses dias exuberantes e complexos? Que ideia fazem do que vem se passando as autoridades? A correria no Congresso e os pactos de Dilma estão em sintonia rítmica com os eventos? Meus amigos me dizem que viram na redes sociais discussões por causa do boato de greve geral. O filho da minha empregada já a tinha como certa. No carro, recebemos mensagem de Pedro Miranda: cancelado o show. Nova marcha no centro da cidade.


domingo, 23 de junho de 2013

Bonito - Caetano Veloso


 O Globo  

 23/06/2013

Os recuos — primeiro na repressão e, depois, no preço das tarifas dos ônibus — reafirmam, em vez de desmentir, a falta de inspiração dos governantes

Acabo de chegar a Natal e, ao abrir o Yahoo para ler e-mails, fico sabendo que Dilma não vai ao Japão agora porque as movimentações das ruas brasileiras demandam sua presença. Um amigo me escreve que ela vai reunir-se com os ministros. Outro me reenvia um longo texto em que uma moça de São Paulo mostra-se paranoica com os usos a que o movimento está se prestando: para ela, palavras de ordem “vazias”, tipo “abaixo a corrupção”, revelam um conservadorismo velho conhecido. Pelo que ela diz, a agenda do MPL foi esquecida, afogada no estilo anódino que as manifestações ganharam desde que a mídia decidiu incentivá-las em vez de rechaçá-las, como tinham feito a princípio. Ela descreve aspectos nada anódinos do fenômeno: nota que ninguém agredia o governador Alckmin, enquanto muitos insultavam os nomes de Dilma e Haddad. Diz-se de esquerda e teme um golpe, alertando para o fato de que a embaixadora dos Estados Unidos no Brasil é a mesma que servia no Paraguai quando do “golpe contra Lugo”. Lendo rápido, observo, de cara, que ela nada diz sobre os cartazes de protesto contra a PEC 37. Para não falar de frases como “Meu cu é laico”.

É interessante ler o que ela narra de suas andanças pelas ruas, pontes e estações de metrô de Sampa. E a desconfiança de que as manifestações podem estar sendo roubadas por forças da direita não soa absurda. Mil posturas podem aparecer em meio a essas multidões. E uma saída às ruas de tão grande número de pessoas (e a simpatia da maioria da população por elas) pode produzir efeitos importantes. E isso mais no Brasil (e nos países árabes) do que nos EUA ou na Inglaterra. É o monstro de Gaspari/Juscelino. Até aqui, os governantes imediatamente atingidos reagiram mal. Alckmin e Haddad, num primeiro momento, mostraram fazer a mais errada das avaliações. Os recuos — primeiro na repressão e, depois, no preço das tarifas dos ônibus — reafirmam, em vez de desmentir, a falta de inspiração deles e dos outros que os seguiram. Vimos ruas demagogicamente despoliciadas e rebaixamento dos preços oferecidos como ameaça aos serviços de saúde.

Três outros textos que li (e, tal como o da paulistana, nem sequer pude digerir direito) falam igualmente da domesticação do grande acontecimento pela apenas um pouco tardia conversão da mídia (sobretudo a Rede Globo) a seu favor. Mas esses são textos mais intelectualizados. Neles encontrei, não um esboço de defesa do PT e dos governos “de esquerda” da América Latina, mas um depoimento do transe que foi ser arrastado pela imprevisível mobilidade flexível dos corpos na ruas do Rio. Um dos autores se vê sendo levado até a Alerj, sem que tenha tido tempo de pensar. Toda a sua linguagem exala um apaixonado foucaultianismo, a veraz narração de sua experiência (realmente forte como texto) vem eivada de palavras-chave do pós-estruturalismo francês: o “corpo” nietzscheano retomado por Deleuze e pela “política do corpo”, que ecoa nos livros de Toni Negri. A impressão que dá é de que o autor carioca deslumbra-se por estar vivenciando tudo aquilo que ele amava na literatura desses filósofos. Mas não que isso destrua a força da reavaliação dos atos ditos vândalos, praticados por aqueles encapuzados que vimos na TV, que seu texto sugere. Não. A gente percebe que a violência da destruição direta das ferramentas concretas do poder instituído tem papel propriamente político importante — e não apenas o de ser pretexto arranjado para justificar golpes.

Estamos no meio dessa complexidade fascinante, exaltante e aterradora. Vi os atos violentos em Salvador, direcionados sobretudo ao estádio de futebol. A polícia afastou os manifestantes das imediações da Arena Fonte Nova (que, com meia casa, torcia acaloradamente pelo time da Nigéria), mas no centro da cidade o tema dos gastos com os eventos esportivos dava a tônica. Na véspera, eu tinha assistido àquele passe de Neymar que resultou no segundo gol do Brasil contra o México. Neymar saiu do armário. O drible que ele deu nos adversários antes de passar, com precisão absoluta, a bola para Jô golear, foi tudo o que desejamos que qualquer coisa produzida por brasileiros seja. Com os ânimos divididos, dentro da gente, com relação à preparação do país para a Copa, entre simplesmente apoiar o gesto que esboça demolir os estádios (pelos modos suspeitos como foram erguidos, pela omissão de possível contaminação de áreas a eles adjacentes, pelo, enfim, mero fato de que outras prioridades gritam) e torcer pelo renascimento da grandeza de nosso futebol, o jogo de Neymar ensina que o movimento emaranhado das ruas tem de achar o jeito inspirado de acertar no melhor. Que saibamos chegar ao mais bonito.


domingo, 16 de junho de 2013

Carminho e o nosso passarinho - Caetano Veloso


O GLOBO 

 
16/06/2013

A cantora portuguesa, ‘Sabiá’ e o Prêmio da Música Brasileira

Sempre gostei de ver a festa do Prêmio da Música. Desde que ela levava um nome de empresa e eu a defendia das investidas de Xexéo. Agora — além de ver Cauby dar show de comportamento de estrela alto astral em passagem fugaz pelo palco (sob ovação com o público de pé); Ney Matogrosso, ao final de um solene “Se todos fossem iguais a você”, voltar-se para uma foto de Tom Jobim e, dando assim as costas para a plateia, citar, no ponto exato entre contenção e relaxamento, seus característicos movimentos andróginos de quase-dança; Leny Andrade, Tulipa Ruiz e Leila Pinheiro darem show de musicalidade a três vozes em suingue perfeito; João Bosco ir em cada nota de “Dindi” com a felicidade total de quem vive dentro da Música; Céu cantando “Insensatez” com um vestido a céu aberto; Nana fazendo-nos desmoronar como só pode uma força extraordinária da natureza; os arranjos de Jaquinho em elegância de frases e de timbres incomparáveis; tudo isso — e mais um pouco, que não estou listando tudo — depois de uma abertura com vários pianos arranjados por Wagner Tiso; sobretudo Rosa Passos, a mais bela expressão de musicalidade brasileira da noite, a espontaneidade mais sobrenatural no entendimento da função de cada nota cantada ou por cantar, de cada nota que, não sendo as que aparecem no canto, na superfície, se agrupam em blocos harmônicos — tivemos Carminho, prefaciada pela discrição mesoatlântica de António Zambujo, levando o sabiá de Tom Jobim e Chico Buarque ao lugar alto que lhe é de direito na história da língua portuguesa.

Foi uma noite de vários aplausos de pé. Mas o que saudou o evento Carminho/“Sabiá” dizia coisas de que as mesmas pessoas que se levantavam não tinham tempo de conscientizar-se. Carminho é a mais nova e a mais bela floração desse renascimento do fado entre jovens portugueses que já faz agora mais de década. Ouvi-la cantar essa canção de exílio brasileira com voz de quem mal atravessou o oceano para vir aqui nos ensinar tanto, foi de fazer chorar. A plateia se levantou crendo ser levada a isso pela exuberância vocal e musical da jovem cantora. Seria um aplauso entusiástico diante de uma interpretação virtuosística. Justo. Mas era claro que havia mais. Muito mais. As pessoas repassaram (era perceptível), num instante, a história da canção (que lutou com o tempo para ser devidamente amada), a história do Brasil, a história da nossa língua. A voz e a pronúncia de Zambujo eram mesoatlânticas. O canto de Carminho era purissimamente lusitano. Mas o acontecimento Carminho cantando assim nosso passarinho (nos dois gêneros: “uma sabiá” e “o meu sabiá”, como o dicionarismo de Tom conversou com o de Chico, trazendo de volta minhas lembranças de uso do nome da ave, em minha Santo Amaro natal, tanto no masculino quanto no feminino) era, no auge do arrebatamento das notas altas com arabescos ibéricos, a consolidação desse mesoatlântico que busco e que Zambujo anunciou. Não seria preciso conscientizar-se de tudo isso para vivenciar o todo da experiência: cada pessoa que foi arrebatada pelo momento desse breve milagre sabia, em sua carne, que todas essas implicações estavam em jogo.

A parte de que menos gosto em premiações são os prêmios propriamente ditos. Acompanho com interesse o suspense dos concorrentes e me animo com a alegria comovida de muitos que se descobrem premiados. Mas para mim isso é apenas o pretexto para que aconteçam coisas que realmente me interessam. Tanto é assim, que os momentos de entrega dos prêmios aos agraciados são os momentos de relativa desanimação da plateia. Há, claro, as comemorações particulares de grupos de amigos, parentes e apoiadores dos premiados. Mas as apresentadoras (ou os apresentadores, a depender de como está organizada a festa em cada ano), as pessoas que fisicamente entregam os troféus e os que os recebem, protagonizam instantes de mera espera — para que as pessoas saiam do palco, para que se rearrume a continuidade do show. Esses “buracos” não atrapalham o brilho da festa (embora possam ser mais bem planejados para evitar quebra de ritmo): eles são a motivação para que ela exista.

Quando Xexéo (e outros ainda menos engraçados) ridicularizavam os prêmios de música brasileira, eu chiava. Achava que uma noite em que eu podia apresentar Herivelto Martins a Cassiano era algo sagrado cuja grandeza só os tolos não viam. Hoje esse tipo de prêmio já é respeitado. O Brasil não precisa mais se depreciar para se aguentar. E Carminho elevou a festa modesta à sua verdadeira altura histórica. É claro que a música entranhada de Rosa Passos já continha tudo sem precisar dizer. Mas o sabiá de Carminho disse.


domingo, 9 de junho de 2013

NSA e IMS - Caetano Veloso


 O GLOBO - 09/06/2013

Bush, Obama, Prism e o (nem tão) admirável mundo novo

Obama foi conversar com o premier chinês sobre a presença do Estado na internet justo quando o jornal “The Guardian” noticiou que o governo americano pode entrar nos e-mails, chats e redes sociais da Google, da Apple, da Yahoo. Pelo menos é o que acabo de ler aqui, na madrugada da quinta para a sexta-feira. Quando este errático artigo estiver impresso todo mundo já vai estar sabendo mais e melhor sobre isso do que posso saber agora. Os americanos que escrevem comments sobre a matéria do “New York Times” (os jornais americanos não pareciam saber antes de o britânico “Guardian” noticiar) se dividem entre os que se penitenciam por terem votado em Obama (às vezes com um subtexto de antiga agressividade reprimida contra ele), os que acham que, com as decisões do governo Bush sobre segurança nacional depois do 11 de setembro de 2001, estão vivendo um orwelliano 1984, e os que consideram desarrazoadas as queixas dos que cobram eficiência do governo contra atentados tipo maratona de Boston e, ao mesmo tempo, se mostram cheios de pruridos de resguardo da privacidade dos cidadãos e das liberdades individuais.

Mautner, que me mandou os links, sente (e diz naquele tom sempre mítico com que se expressa) o terror e a maravilha desse mundo novo nem sempre tão admirável. Eu não me sinto maduro o suficiente (não passou tempo bastante entre a leitura das reportagens e os comentários que me vejo escrevendo: na verdade, acabei de lê-las) para esboçar uma apreciação. Sobretudo porque não sei se dá para entender exatamente o que está se passando. Quem me lê aqui, em pleno domingo, já deve saber bem melhor. Está claro que a NSA (que em pouco tempo deverá tornar-se mais famosa do que a CIA) tem um programa chamado PRISM (prisma: nome bonito) que pode entrar nos textos, fotos, conversas, de qualquer habitante de qualquer país que não sejam os Estados Unidos (mas parece que podem entrar, com mais moderação, nos arquivos dos americanos e residentes também). A Google, a Apple e o Facebook podem ser varridos pela agência nacional de segurança. Esses e, segundo o “Guardian”, outros gigantes da internet. Cada um de nós pode se perguntar: será que algum curioso, em momentos de folga da busca de terroristas, vai ler segredos meus?

Sou um existencialista francês dos anos 1950: adolescente, gostava de ler Sartre dizendo que não queria ter segredos e que, no reino da liberdade, todos os homens deveriam dizer-se tudo uns aos outros. É claro que é uma maluquice. Mas eu era adolescente e morava em Santo Amaro. Isso me lembra também que o primeiro livro que li sobre o filósofo, “Sartre par lui même”, escrito por Francis Jeanson, um outro francês cujo nome eu tinha esquecido mas busquei no Google, continha uma recriminação a um livro americano que, estudando o estilo de Sartre (por exemplo: contando o número de interrogações etc.), concluía que se tratava de um exibicionista com alguma tendência homossexual. O francês desanca o psicólogo americano — e com razão (não li esse livro, mas a descrição que dele faz o ensaísta mostra tratar-se de algo bem americano, no mau sentido da palavra: psicologista, infantilmente direto e seguro de si). Mas a acusação de exibicionismo nunca foi por mim esquecida. E, nas minhas horas desatentas, ela volta como se fosse um insight. Pois bem: acho que não me incomodaria se um maluco desses lesse tudo o que já escrevi sobre mim para pessoas íntimas. Suponho que o exibicionismo é o verdadeiro traço que me atraiu, por semelhança, ao ex-famosíssimo filósofo francês.

Mas que feio para Obama herdar esse esquema de Bush e, em vez de criticá-lo, ampliá-lo. Bem, parece que política é assim. O poder ensina coisas que eu não gostaria de aprender. Como pensar esse mundo em que estamos vivendo? Nunca houve tanta fartura e liberdade para tanta gente em toda a história da Humanidade. No entanto, as dispariades são exasperantes, há fome e miséria, a concentração das riquezas e das oportunidades cresceu em anos recentes. E, mais assombroso, ninguém sabe como as forças do mundo — o modo de crescerem as economias e a violência das convicções religiosas — mover-se-ão para rearranjarem tudo de modo a podermos prosseguir. Não consigo imaginar que não prossigamos. Mas as mais variadas hipóteses são fantasiadas por essa minha cabeça insone e desorganizada.

A internet sempre acenou com uma liberdade imensa e com uma total possibilidade de controle. Como se desatará esse nó? Não há quem saiba e possa dizer de modo inteligível. No entanto, a alegria de estar no mundo permanece. Obama ainda é bonito nas fotos. Consultar o Google ainda é bom. Consultar o site do IMS às vezes é ainda melhor.


domingo, 2 de junho de 2013

O centro - Caetano Veloso


 O GLOBO - 02/06/2013

Uberlândia, palavra inventada a partir do começo do nome da outra, juntou “uber” a “lândia”, ecoando uma inexistente (mas não impossível) palavra inglesa “uberland”

De repente me vi no centro do Brasil. Vim fazer uma apresentação em Uberlândia e, misteriosamente, entre cidades brilhando na noite de céu claro, apenas Uberlândia estava sob neblina tão densa que o aeroporto estava fechado. Tivemos de aterrissar em Uberaba. As cidades trazem à cabeça o prefixo “uber”, com o qual, é claro, seus nomes nada têm a ver, sendo Uberaba palavra indígena que, vejo no Google, significa “água cristalina”. Em outra busca, “água brilhante”. Lembrei-me logo de um amigo paraguaio que vive na Bahia e está sempre nas festas de Santo Amaro. Ele me corrige a pronúncia de Ypacaraí na gravação que fiz dos “Recuerdos” para o disco “Fina estampa”: o Y guarani é pronunciado como um U francês, só que com os lábios menos arredondados. É um U francês com menos bico. Esse U é a água, “beraba” é que é “brilhante”. No lugar onde achei “água brilhante”, o nome da cidade vem descrito como tendo se originado do tupi Y’beraba. A gente sempre soube que I, em tupi, é água. Esse Y deve ser uma vogal intermediária entre o I e o U, como no guarani paraguaio.

Uberlândia, no entanto, palavra inventada a partir do começo do nome da outra, juntou “uber” a “lândia”, ecoando uma inexistente (mas não impossível) palavra inglesa “uberland”. Há uma explicação que diz ser “uber” uma corruptela de “úbere”, conotando fartura. Mas a cidade tem tudo para merecer (também) o sentido que “uberland” sugere. Para quem vem de uma cidadezinha recolhida no Recôncavo Baiano, as cidades do Triângulo Mineiro parecem superurbes. Uma amiga mineira se disse curiosa sobre como reagiriam os “caubóis” de Uberlândia ao nosso “Abraçaço”. Na verdade, havia até mesmo uma sensação de cosmopolitismo no ar da sala durante o show.

Filhos de fazendeiros ricos, muitos jovens do Triângulo têm intimidade com festivais da vanguarda pop da Europa. Alguns foram estudar em universidades de primeira no primeiro mundo. E, se na própria Uberlândia a música sertaneja (agora sobretudo e sua vertente “universitária”) é que reúne as plateias mais multitudinárias, a juventude de Araguari é especializada em rock (com bandas indie locais). E Araguari é colada a Uberlândia. Assim, a plateia de “Abraçaço” tinha um jeito de plateia informada e atualizada. Os muitos casais adultos eram educadamente receptivos ao que tínhamos a oferecer — e ninguém parecia estar frustrado por “O leãozinho”, “Sozinho” ou “Você é linda” não constarem do repertório. E a garotada que já dançava um pouco, lá no fundo, desde o começo — e que veio, em pequenas representações, sentar-se no chão perto do palco — conhecia as músicas novas.

Ronaldo Lemos tinha me dito que há em Uberlândia uma igreja projetada por Lina Bo Bardi, a igrejinha do Espírito Santo do Cerrado (lindo nome), que, segundo ele, era a obra favorita da arquiteta italiana-brasileira que foi tão importante para mim e para Bethânia (sem falar em Glauber e todo o resto) na Bahia. Mas não tive tempo de ir ver nada: o atraso que a neblina provocou me pôs para correr do avião para o carro e deste para o palco. A sofisticação nascida da abundância dessa uber-teta (que fica na parte do mapa de Minas que corresponde ao nariz de Getúlio — que, quando eu era menino, nós víamos esse mapa como um retrato do fundador do Brasil moderno) se manifestou numa menina que estuda medicina, toca guitarra, já teve uma banda e conhece todos os grupos de rock da atualidade, além dos que se mantêm atuais pela sua importância histórica.

Escrevo estas palavras ao chegar a Goiânia. Voei de Uberlândia para cá, passando por cima de Brasília. Tendo tido de ir a Uberaba e encontrado com nativos de Araguari, fiquei com a impressão de ver muito do Centro do Brasil. O Centro. Saímos aqui para tentar comer num japonês que é tido como um dos melhores que há fora de Tóquio, mas este estava tão cheio (e com garotos e garotas bonitos sentados à porta, que nos pediram, a mim, a Ricardo Dias Gomes, Marcelo Callado e Pedro Sá, que tirássemos fotos com eles) que nós tivemos que ir à (excelente) churrascaria de Chitãozinho e Xororó. Tudo deu o gosto exato de onde estávamos. Mais que tudo, a conversa que tive com um casal maduro de Uberlândia, que se sente atraído pela novidade política que é Eduardo Campos, teme que a permanência de Dilma signifique a permanência daquilo que Mangabeira chama de “presidencialismo de coalizão” (embora ele seja pró-Dilma e descarte as opções). Era uma conversa “de centro”. Essa palavra, em política, ficou, no Brasil, muito desqualificada. Mas eu gosto quando se pode dizer que alguém é de “centro-esquerda”, “centro-direita”, “centro”. Às vezes assim a conversa fica mais clara.


domingo, 26 de maio de 2013

No rádio do carro - Caetano Veloso


 O Globo - 26/05/2013

Os caminhos e as relações de ritmos como o funk, o maculelê, o Olodum e as baterias de escolas de samba

No rádio do carro ouço o que pinta, dentro do que, em parte, procuro. Acabo de ouvir Fernanda Abreu cantando “Baile da pesada” com o Monobloco. Penso nos caminhos que vem percorrendo a percussão brasileira de rua, a carnavalesca, sobretudo desde que os blocos afro de Salvador ganharam a definição e a notoriedade que cresceram a partir do final dos anos 1970. Passando pelo mangue-beat, ou bit, como se chamava originalmente (ou talvez devamos dizer que há um mangue-beat, que caracteriza a levada de ao menos um dos grupos do movimento mangue-bit), pelo samba-reggae e pelo samba-merengue do Olodum (que Neguinho do Samba não tinha conseguido impor ao Ilê-Aiyê), pelo Monobloco e pelo polêmico “funk” da bateria da Viradouro, essas formações têm mais proximidade com as bandas estudantis americanas do que em geral imaginamos. Podem ser vistas em alguns filmes: são bandas de percussão informais, que reproduzem em instrumentação marcial as levadas de funk, rhythm&blues, soul e outras modalidades de música negra dos Estados Unidos. Há parentesco estreito entre essas bandas e a percussão brasileira contemporânea. Mas a influência das baterias de escolas de samba como modalidade de reprodução marcial de ritmos nascidos da música mão-no-couro dos terreiros de candomblé sobre o imaginário internacional está por ser avaliada. Lembro-me de ter lido, lá pelos anos 1980, comentário de um criador americano de disco music sobre os brasileiros não saberem o quanto a invenção do gênero devia ao carnaval do Brasil. Ele se referia às marchinhas e a tudo o mais.

O caminho do baile funk, ou funk carioca, é fascinante. Hermano Viana tem milênios de crédito por ter escrito sobre o fenômeno na fase embrionária — e vendo já tudo o que de essencial podemos ver com clareza agora. Da eleição do repertório de hits se dando de forma totalmente independente da programação radiofônica e dos interesses das gravadoras à predominância da batida umbanda-maculelê sobre o Miami bass, o funk carioca é uma história de liberdade inventiva cuja importância ainda havemos de saber reconhecer. Ouço funk no rádio do carro com meu filho mais novo. Ele gosta. Tem 16 anos. O fascínio cresce pelo fato (em princípio às vezes irritante para mim) de não serem gravações que vou encontrar em discos na livraria mais próxima da Zona Sul, cuja comercialização não é como a tradicional. Sendo ela também um fenômeno de inventividade, parece que devo manter num mundo algo inatingível as peças que ela distribui. Como minha memória não é mais lá essas coisas, fico com fragmentos de frases chulas e de sons incomuns, tudo excitando minha capacidade de fruir e de julgar.

No começo, era o Miami bass, sobre o qual uma tumbadora aguda gritava, ao longe, a célula do maculelê. E logo o maculelê, exclusividade da minha cidade de nascimento (como os festejos do 13 de Maio), foi tomando conta. Trata-se de uma forma de dança e luta que se desenvolveu em Santo Amaro, onde e apenas onde era conhecida, até alguns grupos folclóricos de Salvador a adicionarem às apresentações de capoeira que mostravam ao mundo.

Os negros na diáspora e sua conversa com o mundo. Sou um mulato nato e repito que a bossa nova é foda. Ao som do rádio do carro, sou arrastado a sentir essas movimentações sugestivas. Jobim/Nestrovski, Fernanda e Monobloco, Seu Jorge e um certo surdo, Olodum, americanos, Viradouro, baile funk. Que lugar ou momento dessas danças estamos vivendo cada vez que votamos em eleições, abordamos questões setoriais ou imaginamos como decidir sobre nossas vidas?

Ouço na Rádio MEC três temas de Tom Jobim com Arthur Nestrovski ao violão e fico impressionado com a sonoridade do instrumento. Parece que a nitidez e a limpidez das notas nascem do sentimento que o violonista experimenta ao defrontar-se com as ideias musicais do autor, não um conseguimento técnico devido a treinamento exaustivo — embora treinamento exaustivo tenha naturalmente sido necessário para que o resultado fosse esse. Ouço na MPB FM Seu Jorge cantando divinamente um samba de andamento médio em que um surdo sobrenatural comenta toda a história de tristeza e superação que marca o gênero. Como é tarde, a emissora não dá os créditos: terei de encontrar a gravação ouvindo várias outras do cantor. Posso também simplesmente perguntar a ele ou a pessoas que conheçam bem seu trabalho. Mas será uma pergunta vaga. Apenas a descrição desse surdo e a definição do andamento, já que, embora na hora tenham me impressionado também, as palavras e as frases melódicas não ficaram registradas nessa memória já tão fraca, se comparada ao que era quando eu tinha 26 anos.


domingo, 19 de maio de 2013

Quase nada - Caetano Veloso


 O GLOBO - 19/05/2013

Alegra-me repetir o nome de Marina Silva quando esperneiam para que o apaguemos

As palavras de Marina Silva sobre o caso Feliciano são sensatas e dizem o que deve ser dito. A imprensa deu um tom suspeito nas manchetes e os malucos das redes sociais (segundo me contam) entraram em surto. Meu amigo Rafael Rodriguez acha que querem desqualificar Marina para que se mantenha a disputa eleitoral ente PT e PSDB. Isso parece com o que eu dizia quando o nome de Mangabeira Unger era limado de minhas entrevistas, algumas eleições atrás: os jornalistas são petistas e os donos dos jornais são tucanos, não há lugar para terceiros nomes. Mas Mangabeira é uma referência incontornável e Marina é um peso político-eleitoral difícil de destruir. Não estou nem aí.

Gostei muito foi do comentário de Elio Gaspari sobre cotistas. A reportagem que parecia comprovar que cotas só servem para destruir a meritocracia revela-se vazia de conteúdo diante da pesagem das estatísticas feita pelo grande jornalista. Aliás, o artigo dele sobre a substituição, pelo governo Dilma, do secretário executivo do Ministério da Fazenda é de leitura obrigatória (eu, que pouco sei sobre essas coisas, fiquei mais inteligente ao lê-lo).

Voltando: será que alguém crê que Marina Silva está assinando embaixo de declarações inaceitáveis feitas por Feliciano só porque ele é evangélico? Esses doidos não podem fingir que acreditam nisso. De repente é como se Marina apoiasse a interpretação do assassinato de John Lennon feita pelo pastor. Impossível. Ele disse que o crime era uma manifestação da Santíssima Trindade. Que queria estar lá quando acharam o corpo do cantor e dizer: “Este primeiro tiro é em nome do Pai, o segundo é em nome do Filho e o terceiro é em nome do Espírito Santo”. O “Não matarás” da Bíblia fica assim desvalorizado, submetido à ideia de um Deus ciumento e vingativo, tão pré-cristão e tão anticristão, como se os nossos valores morais se baseassem nas punições contra quem, na conquista da Terra Prometida, deixasse de matar, por piedade, mesmo “uma criança de peito”. O pecado ingênuo de um adolescente (dizer que seu grupo de rock estava mais popular do que Jesus Cristo) é tido, assim, como mais grave do que o assassinato a sangue frio. Como a compassiva Marina iria compactuar com essa interpretação dos ensinamentos bíblicos? O que ela diz é que Feliciano não representa o pensamento de todos os evangélicos. Nem mesmo da maioria. Marina defende o Estado laico. E o diz com todas as letras. Por que querer criar confusão onde há tanta clareza?

Outro dia li um jornalista reclamando que falo sobre tudo e mais alguma coisa. A piada da “Piauí”, em que apareço com uma capa de magistrado do STF (que, aliás, na montagem fotográfica me caiu muito bem), sob uma manchete que dava conta de que uma decisão momentosa ia ser arbitrada por mim, é engraçadaça. Me mostraram um vídeo no YouTube em que estou dizendo a alguém “Você é burro, cara”. Eu repetia que o cara era burro e dizia que ele formulara a pergunta de modo tão burro que eu não conseguia sequer memorizar. Meu amigo Eduardo Sá achou de onde tiraram esse clipe. Foi de um programa de TV chamado “Vox Populi”. É dos anos 1970. Eu tinha o cabelo muito longo, muito preto e muito cacheado (esses dois últimos atributos sendo os de que tenho mais saudade). E falava com uma mistura um tanto estranha de moleza e arrogância. O quadro do período explica minha atitude. Eu tinha começado o trabalho com A Outra Banda da Terra sob apedrejamento crítico. O disco “Muito” foi achincalhado como sendo a prova final de minha inépcia e falta de inspiração. “Sampa” e “Terra” estavam sendo lançadas nesse disco. Anteontem reli um artigo de Tárik de Souza em que ele avalia, com forte espírito de corpo jornalístico, minhas brigas com a imprensa da fase que se seguiu a esse lançamento. Quem eu tinha chamado de burro era Geraldo Mayrink, da “Veja”, que destacava frases de músicas de Ary Barroso, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, que eu citara em minhas letras, como exemplos de maus versos, crendo que eram meus (eram de músicas muito conhecidas por quem atentasse para a MPB). Sei que eu estava certo, mas não me senti bem vendo o vídeo. Valeu para eu poder mostrar a meu filho mais novo meu pai falando (ele aparece fazendo pergunta íntima). Mas meu desejo de desprezar as opiniões negativas sobre meu trabalho me irritou um pouco. Preferi ver um “Roda Viva” em que eu, mais velho (com o cabelo já liso mas ainda todo preto), falo “de tudo”, mas em tom mais modesto.

O que vale o que eu penso sobre Gaspari ou Marina? Creio que quase nada. Mas alegra-me poder repetir o nome de Marina Silva quando páginas de jornal e telas de computadores esperneiam para que o apaguemos.


domingo, 12 de maio de 2013

O passado - Caetano Veloso


Eu queria somente dizer que me fez mal ter visto um filme português legendado em português brasileiro no Canal Brasil

No domingo passado escrevi aqui de modo tão confuso que peço desculpas a quem me leu; peço a quem não leu que não leia; e resumo: eu queria somente dizer que me fez mal ter visto um filme português legendado em português brasileiro no Canal Brasil (as legendas não reproduziam as frases ditas pelos atores, mas as substituíam pelo que os tradutores acreditavam ser o equivalente em português brasileiro coloquial). O resto eram digressões na maioria das vezes impertinentes. Recebi alguns e-mails por causa disso. Só posso dizer que eu gostaria de escrever do modo desencanado de Daniel Galera, ou com a organização de nível acadêmico de Zé Miguel Wisnik, ou com a argumentação bem esquematizada à Francisco Bosco. Para não falar na inveja que tenho do humor rápido de Verissimo ou da verve sintática de Ubaldo. Bem, não vou falar mais nomes porque seriam muitos, sobretudo entre aqueles que são precípua ou exclusivamente jornalistas. Mas não posso negar que amo advérbios de modo, parênteses, travessões e períodos longos. Jorge Mautner sempre me diz que, num artigo sobre a tradução americana de “Verdade tropical”, algum resenhista anglófono citou Faulkner a meu respeito. Eu não me lembro de ter lido nada disso. Sigo Mautner como a um mestre, mas isso não quer dizer que acredito que tudo o que ele diz seja fato. Ele está sempre no nível do mito.

Viajando muito por causa do show do “Abraçaço”, não tenho visto os filmes que quero ver. Se eu pudesse, ia ao cinema todos os dias. Na verdade, eu fazia isso quando tinha 18, 19, 20 anos. Também quando tinha 12, 14, 15 (não é que pulei os 13 como fazem os hotéis americanos ou americanizados, por uma superstição chocante num mundo tão exibidamente desencantado como é o mundo dos hotéis de muitos andares. Não. Pulei os 13 porque correspondem ao ano que passei no Rio, quando ia pouco ao cinema, talvez menos do que ao auditório da Rádio Nacional: não havia cinema em Guadalupe, e eu não saía sozinho nesta cidade enorme). Se eu tivesse visto algum filme, escreveria aqui sobre ele. Gosto de escrever sobre cinema. Posso ter opiniões peculiares, para não dizer esquisitas, mas sei falar sobre o que se vê na tela, se ouve na sala e se sente (eu sinto) no coração. Dos livros que estou lendo não dá para falar. Além de ler e reler Bessa-Luís (e aqui aproveito para pedir desculpas a meus amigos portugueses que porventura tenham lido meu artigo sobre as legendas, já que para eles minhas elucubrações devem ter parecido ainda menos compreensíveis), acabei de ler um livro de Mangabeira Unger que tem o provocativo título “A religião do futuro”. Na verdade já terminei essa leitura há mais de um mês, mas ainda volto a alguns trechos para conferir e estudar, de modo que é como se estivesse ainda acabando de ler. E estou lendo um outro, chamado “A nova mente da máquina”, uma série de ensaios que falam de cosmologia e física quântica mas que são, na verdade, sobre psicanálise. O autor é Aristides Alonso. Ambos os livros são difíceis. Não posso comentar aqui como quem comenta o filme que viu ontem. Curiosamente certas questões cosmológicas aparecem nas duas diferentíssimas obras de maneira similar. (Aliás, li também a introdução de um outro livro de Mangabeira, que trata exclusivamente de cosmologia, sobre o qual seria mais difícil falar do que sobre “A nova mente da máquina” ou “A religião do futuro”.)

Por falar nisso, quando eu aprendi a ler e a escrever, sobretudo quando aprendi coisas mais complexas sobre leitura e escrita, as palavras de um título vinham, como ainda vêm em inglês, todas com iniciais maiúsculas. Ainda hoje às vezes sigo essa antiga regra que não sei quando foi abolida. Assim como nomes comuns que compunham nomes próprios, como Avenida Delfim Moreira, que, não percebi quando, virou avenida Delfim Moreira. Mesmo no meio de uma frase, escrevia-se Dr. Fulano, Sr. Beltrano, Padre Sicrano. Hoje (eu acho) é tudo com minúscula. Será que a gente escreve mesmo santo Tomás de Aquino? Sou um menino dos anos 1950, me assusto com isso. Mas não quero falar de língua e regras de escrita: estou traumatizado com o artigo do último domingo. Penso que, se eu deixar, vou escorregar pelas observações minuciosas mas cheias de erros. Bagno vai rir mais de mim.

Se eu não fosse cantar no dia 15, no Circo Voador, pela diversidade sexual, eu iria, antes do “Abraçaço” na Concha Acústica de Salvador, para Santo Amaro, participar da festa do 13 de Maio, que se estende até o dia 18. Um dos maiores orgulhos de minha vida é Santo Amaro festejar a abolição da escravatura desde 1889. Dia 18 canto no Recife. Vou tentar correr até minha cidade no dia 16. Se não der, terei cantado pela diversidade sexual aqui. É sempre a abolição.


domingo, 5 de maio de 2013

Percebes? - Caetano Veloso


 O Globo - 05/05/2013

 

Há uma evidente razão para que o português brasileiro seja mais inteligível a ouvidos lusitanos do que o português europeu a nossos ouvidos: nós pronunciamos as vogais das palavras

É o contrário do que senti ao ler Agustina Bessa-Luís. Toda a densidade da vida luso-brasileira se vê negada. Diante da TV, assistindo a um filme português no Canal Brasil, me deparei com uma experiência que já conhecia de antes mas que pensei que tivesse esquecido. O filme era falado em português europeu e estava legendado em português brasileiro. Foi vendo uma obra de Manuel de Oliveira no cinema que eu tinha passado pela mesma situação. Revivendo-a ao assistir televisão, pensei com mais convencimento que, dado o fato de os brasileiros em geral terem dificuldade de entender a fala lusitana, deve ser aceitável que filmes portugueses passem com legendas no Brasil.

Isso não é uma constatação que me traga alegria. Enchi-me de felicidade quando, por exemplo, ouvi José Saramago falar numa entrevista dada a um programa daqui e me pareceu que qualquer brasileiro o pudesse entender. (O mesmo, aliás, se dá no filme sobre Bessa-Luís que pode ser visto no YouTube: a fala da grande escritora é clara e pode ser entendida do Oiapoque ao Chuí.) Já no documentário que foi feito sobre Saramago e sua mulher, Pilar, o mesmo processo de legendas que me exasperou foi utilizado. Ocorreu-me que é impensável que filmes ingleses precisem ser legendados nos Estados Unidos ou no Canadá — ou que filmes espanhóis exijam subtítulos na Argentina ou no México. O caso do Brasil é diferente. Os portugueses veem novelas brasileiras na TV e ouvem música popular brasileira desde sempre. Quando eu era criança, em Santo Amaro, ouviam-se fados no rádio, e Ester de Abreu era uma estrela da Rádio Nacional. Eu próprio gostava de tentar imitar a pronúncia lusitana em shows amadores no Ginásio Teodoro Sampaio. Havia a força da colônia portuguesa no Rio. Mas há já décadas que os brasileiros perderam contato com o linguajar luso. Não me consta que em Portugal os filmes brasileiros tenham tido a receptividade que as novelas e as canções têm. Nem mesmo fenômenos como “Cidade de Deus” ou “Pixote”. Mas os portugueses mantêm contato com nosso modo de falar.

Há uma evidente razão para que o português brasileiro seja mais inteligível a ouvidos lusitanos do que o português europeu a nossos ouvidos: nós pronunciamos as vogais das palavras. Quando cheguei a Portugal, na fase inicial do nosso exílio durante a ditadura, Gil e eu fomos, com Roberto Pinho, amigo conhecedor e amante da cultura portuguesa, a Évora. Ele era apaixonado por essa cidade do Alentejo e queria que nós a conhecêssemos. Andamos pelas ruas e praças dessa bela cidade e, a certa altura, um jovem local, louro e bonito, com cabelos mais longos do que a maioria dos jovens portugueses de então, mostrou-se curioso a nosso respeito. Entramos num bar para tomar refrigerante, e ele, conversando conosco, nos dizia que entendia muito bem o nosso espanhol. Insisti em que nós falávamos português, mas ele não ficou convencido. Eram as vogais. Se alguém pronunciar todas (mas todas mesmo) as vogais das palavras portuguesas à espanhola (ou seja, com os és átonos finais soando ê e os ós átonos finais soando ô, ao invés dos respectivos i e u de nossa fala) nós entenderemos tudo. Já se alguém pronunciar todas as palavras espanholas com os sons do português brasileiro, ou seja, os jotas soando j, os tês e dês palatalizados diante da vogal i, os esses intervocálicos soando z, etc., um ouvinte de língua espanhola não entenderia nada. O português brasileiro está para o português lusitano um pouco como o espanhol está para o português em geral.

Mas há o fator exposição, que contribui para que os portugueses, que ouvem canções brasileiras desde os anos 1930 ou 40 do século passado (e mesmo antes) e veem novelas brasileiras desde que a TV Globo modernizou o gênero nos anos 1970, entendam as formas sintáticas usuais no Brasil, além das gírias e expressões do português americano. Não nos adestramos para ouvir o português europeu. E falta-nos o midatlantic que está esboçado na fala de Saramago e de Agustina.

Muito se deve ao poder que cerca as outras duas grandes línguas europeias que se transplantaram para as Américas: o inglês e o espanhol. Vendo essas legendas que, pelo mero fato de estarem ali, gritam que não nos entendemos — e, o que é pior, não sendo nem mesmo legendas que reproduzem o que está sendo dito pelos atores lusos (com o que nos familiarizaríamos com a sintaxe e o vocabulário deles), mas “traduções” para a sintaxe e o vocabulário nossos (por exemplo: “Percebes?” vem legendado como “Você está entendendo?”), sentimos nossa impotência histórica, nossa irrelevância política. Notamos que é demasiado o que tem que ser feito. E assim parece que nada faremos.


domingo, 28 de abril de 2013

Leminski! - Caetano Veloso


 O GLOBO - 28/04/2013

 

O fenômeno Leminski e os encontros com o poeta que sempre atraiu jovens leitores

Vim de Petrolina para Porto Alegre com uma escala prolongada em Salvador e outra relâmpago no Rio. Daqui sigo para Belo Horizonte. Estou em aeroportos e hotéis, além de palcos, quase o tempo todo. Mas uma conversa rápida com Jorge Furtado aqui na quinta à noite me pôs um pensamento na cabeça que é muito apaixonante. Ele me disse que o livro de poesias reunidas de Leminski está entre os mais vendidos. Na verdade, ele afirmou que esse livro chegou a passar à frente do mais vendido das listas. Ouvir dizer que um livro de poemas está vendendo assim no Brasil é escândalo. Tínhamos aprendido que poesia não vende. Exceto talvez na Rússia. No Brasil então… Mas Leminski!... Fico pensando no significado desse fenômeno, mas sobretudo me vêm as lembranças dos encontros com o poeta. Saber disso aqui no Sul do país torna tudo mais vívido.

A primeira vez em que estive com Leminski foi em sua Curitiba natal. Aliás, por muito tempo eu o encontrava lá. Ele vivia com Alice Ruiz numa casa de madeira sem aquecimento. Eu aguentava o frio das altas horas depois dos shows empacotado em casacos grossos, camisetas sob as camisas de manga comprida, ceroulas, meias de lã e, às vezes, luvas. Acho que já não bebia nada. Ou talvez ainda bebesse um pouco nas primeiras vezes. Leminski bebia muito. Mas o que aquecia o ambiente eram suas palavras, seus olhares de profundo carinho desconfiado, sua risada rouca e o milagre de algumas canções que ele compunha com parcos acordes de violão. A primeira vez que ouvi “Verdura” (“De repente me lembro do verde/ A cor verde, a mais verde que existe/ A cor mais alegre, a cor mais triste/ O verde que vestes, o verde que vestiste/ No dia em que te vi, no dia em que me viste./ De repente vendi meus filhos/ A uma família americana/ Eles têm carro, eles têm grana/ Eles têm casa e a grama é bacana/ Só assim eles podem voltar e tomar um sol em Copacabana”) senti a força da poesia a um tempo como piada e fundo lamento virando canção caipira urbana. Resolvi gravá-la — e até hoje, se me lembro dela, me dá um nó na garganta. Mas era muito mais intenso e muito mais bonito ouvi-la cantada pelo autor numa casa de madeira sem lareira.

Leminski foi um menino prodígio do concretismo (os concretos o publicaram na revista “Invenção”, depois de um encontro literário em Belo Horizonte onde Haroldo de Campos o conheceu, ele ainda adolescente), entusiasta dos beatniks, personagem autoirônico da contracultura. Ele lutava caratê. Tinha uma cara de Europa Oriental. Mais oriental do que Europa. Tinha lido muito e continuava lendo muito. Era culto e apaixonado pelas letras. Creio que quando o conheci ele estava escrevendo o “Catatau”, uma aventura literária joyciana em que Descartes vem com Maurício de Nassau (coisa que poderia ter acontecido) para Pernambuco e entra em contato com a luz dos trópicos, os bichos e árvores exóticos — e os psicotrópicos naturais. Ele o tinha como a obra central de sua vida literária. Desde a escolha do título até o modo como ele se referia ao livro, sentia-se que ele o via fisicamente maior do que era. Esta é uma observação curiosa, meio maluca. Mas é o que sempre me vinha à cabeça. O tamanho do objeto “Catatau” parecia desmentir a imagem que Leminski tinha na cabeça quando se referia a ele. Sua força literária é outra história. Leminski gostava de repetir que um criador tem apenas uma ideia — e que a dele tinha sido o “Catatau”, Descartes no Brasil e a subversão da lógica cartesiana. As primeiras páginas empolgam pela inventividade vocabular e pelo sentido de ritmo. É um livro que, depois de ler as poesias reunidas, que são outra onda, preciso voltar a ler. Preciso também assistir ao filme “Ex-isto” (grande título!), em que João Miguel faz Descartes.
Depois, um tanto decepcionado com o destino do “Catatau”, Leminski escreveu um romance mais convencional, chamado “Agora é que são elas”, sobre o qual conversei muito com Boris Schneiderman, ficando com a impressão de que esse grande tradutor e eu éramos os únicos a admirar essa incursão do poeta curitibano pela prosa propriamente narrativa e pela fabulação tipo novela policial.

Mas a poesia! Leminski sempre atraiu jovens leitores para a poesia. Jovens de várias gerações. Reunida, sua obra poética parece ter juntado toda essa vontade de poesia que estava enrustida há décadas. Nem quero falar sobre os versos, os poemas curtos, os hai-kais, o tom de eterna circunstância de suas tiradas poéticas. Só depois de reler tudo junto e misturado. Por ora, basta celebrar a virada de jogo que representa essa boa nova. Que poesia volte a vender livros no Brasil é uma revolução. Que esta esteja sendo feita por Leminski é sinal de que ela é profunda.

domingo, 21 de abril de 2013

Bessa-Luís, Ecad etc. - Caetano Veloso


 O GLOBO

21/04/2013

Suponho que seja hora de amadurecer a conversa sobre direitos autorais: não é 'se mexer, desaba'; é 'se não pode mexer, não anda'

Sou grato ao colunista da “Folha de S.Paulo” João Pereira Coutinho por ter sugerido que atentássemos para Agustina Bessa-Luís. E a Maria Helena Guimarães por ter me presenteado com a preciosidade que é o “Breviário do Brasil”, dessa autora impressionante, cuja publicação em terras brasileiras é uma exigência do nosso projeto de nação: ou edita-se por aqui esse livro magnífico ou os brasileiros avisados devem começar a importá-lo de Portugal. Uma estilista como há poucos, em qualquer língua, Agustina dá-nos um retrato imediato e profundo do nosso país — e uma lição de bem escrever.

Os cariocas merecem (e necessitam) ler o que o Rio a levou a compor com palavras. Não são os elogios e as queixas costumeiros. São revelações múltiplas, frases de perfeita elegância e naturalidade que descrevem como que imediatamente as revelações que foram feitas à autora e que se tornarão revelações para cada possível leitor da cidade. De minha parte, arrebata-me saber que somos um povo trágico disfarçado. E comove-me ler Agustina citando Walfrido Moraes, autor que conheci pessoalmente, por ser pai de minha amiga de adolescência Jussara, mas de cujo belo “Jagunços e heróis” devo o conhecimento a Vitor Gradim. Os trechos de Walfrido citados por Agustina ganham ainda mais beleza em razão do gosto literário de quem os escolheu. A citação escolhida (e glosada) dentre os versos de João Cabral de Melo Neto é reveladora da profundeza a que ela chega com as palavras.

Ainda estou no meio do “Breviário” de Agustina. Mas já estou apaixonado e recomendo enfaticamente. Brasília, Manaus, João Pessoa, Recife, Feira de Santana (o retrato do pintor Raimundo Oliveira é arrasador, com uma metáfora sobre o jeito de sua mãe, que, por sua vez, resulta em comentário sobre metáforas), tudo o que diz o país. Lampião e Maria Bonita são recontados nas mais surpreendentes frases, que se tornam assombrosas à medida que vão se mostrando indicadoras de observações sobre o que somos socialmente. E a versão bessa-luisiana da unicidade, originalidade e especialidade do Brasil é a mais forte de quantas há, já que não nasce de enganos de grandeza (nem de desejo de tê-los) mas de evidências experimentadas e detalhista olho crítico. É de tirar o fôlego. Eu tinha guardado em algum lugar da mente o nome Agustina Bessa-Luís. Seguramente já lera algo sobre “A sibila”, seu romance mais famoso. Mas nunca tinha lido nada escrito por ela. Estou impressionado.
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A carta assinada por muitíssimos compositores, músicos e cantores, em tom de defesa do Ecad contra uma suposta manobra sinistra para destruí-lo, não contou com minha assinatura, e eu ia escrever e-mails para, pelo menos, Fernando Brant, Ronaldo Bastos e Abel Silva, mas a estreia do “Abraçaço” em Sampa, logo em seguida à estreia carioca no Circo Voador e a uma apresentação em Fortaleza, não me deixaram cabeça nem energia para nada. Quando eu ia escrever, a carta ainda não tinha as assinaturas que exibe hoje. Eu ia explicar minha pausa para ponderação. Como o assunto é notório, faço-o aqui.

Há um projeto de lei no Senado esperando para ser votado em urgência. O Ministério da Cultura tem uma proposta que é bastante próxima da que é feita no PLS129. Falei brevemente com a ministra em São Paulo; ouvi demoradamente, já no Rio, um assessor seu que me pareceu muito claro. Conversei com Leoni, Tim Rescala, Gil, Emicida, li os artigos de Ivan Lins e Sérgio Ricardo. Os manifestos dos defensores da manutenção do modus operandi atual do Ecad são pouco ou nada técnicos — e são alarmistas: querem acabar com o Ecad e deixar tudo voltar ao caos que era antes, tal como Ipojuca Pontes fez com a Embrafilme. “O Ecad e o Direito do Autor: mexeu nisso, tudo desaba”, diz Abel. Tendo a pensar que é hora de arrefecer os ânimos e tentar pôr Leoni e Bastos pensando juntos, para ver se aproveitamos a oportunidade de andar com o tema. Nem o Ministério nem o PL propõem a extinção do Ecad. Ambos enfatizam a necessidade de supervisão (o PLS129 propunha que feita pelo Ministério da Justiça; o Minc tomaria a tarefa para si). Não creio que Abel ou Fernando estejam protegendo vantagens indevidas; tampouco creio que Tim Rescala e Ivan Lins estejam lutando pelo poder das emissoras de TV. Suponho que seja hora de amadurecer a conversa. Nunca fui bom nisso de contas, administração, leis. Mas tenho vocação para o centro e, eu que já pedi que Silas Malafaia intermediasse um diálogo entre quem não admite que o assassino de Lennon seja louvado como o enviado da Santíssima Trindade e o pastor que propôs isso, acho que posso pedir que Sérgio Ricardo e Fernando Brant se entendam. Não é “se mexer, desaba”; é “se não pode mexer, não anda”.


domingo, 14 de abril de 2013

Ainda Feliciano? - Caetano Veloso

O GLOBO

14/04/2013


Por que mentir tão descaradamente sobre fatos conhecidos?

Nem estou acreditando que volto ao assunto do pastor/deputado/presidente da CDHM. Mas, como muitos devem ter visto, ele mentiu reiterada e estridentemente sobre mim. Há um vídeo no YouTube em que Feliciano, esbravejando de modo descontrolado, diz-se com Deus contra o diabo e, para provar isso, mente e mente mais. As pessoas religiosas deveriam observar o quanto ele está dominado pela soberba. Faz pouco, ele se sentiu no direito de julgar os vivos e os mortos, explicando por meio de uma teologia grotesca a morte dos garotos dos Mamonas e sagrando-se justiçador de John Lennon. Agora, aferra-se à mentira. Meu colega Wanderlino Nogueira notava, com ironia histórica sobre as espertezas da igreja católica, que a mentira não está entre os sete pecados capitais. Mas sabemos que “levantar falso testemunho” é condenado pelo Deus de Moisés. Por que mentir tão descaradamente sobre fatos conhecidos? Será que minha calma observação, aqui neste espaço, de que sua persona pública é inadequada ao cargo para o qual foi escolhido (matizada pela esperança no papel das igrejas evangélicas) o ameaça tão fortemente? Eu diria a pastores, padres, rabinos ou imãs — sem falar em pais de santo e médiuns espíritas, que são diretamente agredidos por ele — que atentassem para o comportamento de Feliciano: como pode falar em nome de Deus quem mente com tão evidente consciência de que está mentindo?

Sim, porque não há, dentre aqueles que prestam atenção no meu trabalho, quem não saiba que, ao cantar a genial canção de Peninha “Sozinho” num show, eu indefectivelmente dizia não apenas que me apaixonara por ela através das gravações de Sandra de Sá e de Tim Maia: eu afirmava que cantá-la ao violão era só um modo de chamar a atenção para aquelas gravações. Como pode Feliciano dizer que “a imprensa foi rastrear” e descobriu que a música já tinha sido gravada por Sandra e Tim? Essas duas gravações eram sucessos radiofônicos. E como pode ele, sem piedade daqueles que com tanta confiança o ouvem em seu templo, afirmar que eu disse em entrevista coisa que nunca disse e nunca diria, ou seja, que o êxito inesperado de minha versão de “Sozinho” se deveu a eu ter mostrado a faixa a Mãe Menininha e esta ter-lhe posto uma bênção que, para Feliciano, seria trabalho do diabo? Mãe Menininha, figura importante da história cultural brasileira, já tinha morrido fazia cerca de dez anos quando gravei a canção.

É muita loucura demais. E muita desonestidade. Aprendi com meu pai os gestos da honestidade — e tomei o ensinamento de modo radical. Me enoja ver a improbidade. Feliciano sabe que eu nunca dei tal entrevista. Mas não se peja de impressionar seus ouvintes gritando que eu o fiz. Ele, no entanto, não sabe que eu jamais sequer mostrei qualquer canção minha à famosa ialorixá. Nem a Nossa Senhora da Purificação eu peço sucesso na carreira. Nunca pedi. Nem a Deus, nem aos deuses, e muito menos ao diabo. Decepciono muitos amigos por não ser religioso. Mas respeito cada vez mais as religiões. Vejo mesmo no cristianismo algo fundamental do mundo moderno, algo inescapável, que é pano de fundo de nossas vidas. Mas não sou ligado a nenhuma instituição religiosa. Eu me dirigiria aqui àqueles que o são. Os homens crentes devem tomar atitude mais séria em relação a episódios como esse. O que menos desejo é ver o Brasil dividido por uma polaridade idiota, em que, de um lado, se unem os que querem avanços nos costumes, e de outro, os que necessitam fundamentos de fé, ambos gritando mais do que o conveniente, e alguns, como Feliciano, saindo dos limites do respeito humano. Eu preferiria dialogar com crentes honestos (ou ao menos lúcidos). Não aqueles que já se põem a uma distância segura da onda neopentecostal. Eu gostaria de dialogar com um Silas Malafaia, de quem tanto discordo, mas que respeita regras da retórica e da lógica. Marina Silva seria ideal, mas poupemo-la. Não é preocupante, eu perguntaria a alguém assim, que um dos seus minta de modo tão escancarado? É fácil provar que nunca fiz aquelas declarações e é fácil provar que Sandra e Tim tiveram êxito com a obra-prima de Peninha. E que eu louvei esse êxito ao cantar a canção. Foram dezenas de milhares de brasileiros que ouviram. Se Feliciano precisa, para afirmar sua postura religiosa, criar uma caricatura caluniosa dos baianos e da Bahia, algo é muito frágil em sua fé. A maré montante do evangelismo não dá direito à soberba irrefreada. O boneco tem pés de barro. E cairá. Eu creio na justiça e na verdade. Esses valores atribuídos a Deus têm minha adesão irrestrita. Não sei que Deus sustenta a injustiça e a mentira. Ou será que é aí que o diabo está?

domingo, 7 de abril de 2013

Sonho meu - Caetano Veloso

O GLOBO - 07/04/2013

Por causa de uma viagem pelo verso de ‘Volver’, entrei, sozinho, numa meditação sobre a importância do português na construção da forma samba


Escrevi: “Dolores Duran era uma glória da língua portuguesa, sem a qual o samba não existiria”. É no que dá escrever com pressa. Houve quem pensasse (com razão) que eu estava dizendo que o samba não existiria sem Dolores, quando eu queria dizer que era sem a língua portuguesa que ele não existiria. É uma ideia que já deu mil voltas na minha cabeça: eu não deveria tê-la resumido tão ligeiramente numa frase que resultaria dúbia.

Faz tempo, eu estava num apart-hotel em Ipanema, cantando o tango “Volver”, só com meu violão. É muito comum acontecer de eu imaginar como seria em português uma frase de canção estrangeira que repito. Sobretudo se a frase me encanta. Parei em “Que es un soplo la vida”. Estava emocionado, e logo minha mente foi procurar como é que isso poderia ser dito em português. Mais: cantado em português. Fiquei surpreso ao ver o tamanho da dificuldade. Afinal era uma canção em espanhol, língua tão próxima à nossa. Mas “Que é um sopro a vida” não funciona. Depois de algumas tentativas, inverti a ordem das palavras e “Que a vida é um sopro” se mostrou natural e sonora. Mas muito longe da força do original. Acima de tudo, nada tango. A imponência, a solenidade da frase castelhana se desfez totalmente. Num primeiro momento, pareceu-me que não restava nenhuma beleza. Mas, afastando-me do tango e do tom aristocrático do espanhol, comecei a achar graça na frase curta e despojada que o português me ofertava. Espontaneamente liguei as sílabas “da”, “é” e “um” (além de, claro, fazer de “que” e “a” também uma sílaba única — como fazemos sempre, cantando ou conversando) e passei a repetir a frase com quatro sílabas poéticas: “Q(ue)a-vi-d(é)um-sopro”. Em poucos segundos eu tinha uma marcação de samba nascida da repetição da frase (que sugeria uma pausa regular entre as repetições). Mas isso era uma brincadeira que, em princípio, poderia ser feita com uma frase qualquer, em qualquer língua. Tudo ficou mais forte quando isolei a frase e a “cantei” (sem a melodia do tango e mesmo sem uma nova melodia muito definida): era uma frase de samba.

Era uma boa frase de samba-canção (para não dizer que estávamos assim tão longe de Dolores — e sem esquecer de que a brevidade da vida é tema central da biografia e do cancioneiro da carioca bochechuda). Era uma boa frase de samba de carnaval dos anos cinquenta, de samba de Paulinho da Viola, de Cartola, de Carlos Lyra, de Arlindo Cruz. De samba. Mas o clima que a envolve é enormemente diferente do clima da frase portenha. Não há solenidade e, portanto, o que se diz é algo ao mesmo tempo mais concreto e menos pesado do que o que se depreende do verso castelhano. Parece coisa mais banal, dita em tom mais pedestre e desimportante. No entanto, se sentido como trecho de samba, revela outros aspectos da constatação de que não passa de um sopro essa nossa vida. É menos bonita, mas há um realismo particular nesse despojamento estético.

Por causa dessa viagem pelo verso de “Volver”, entrei, sozinho, numa meditação sobre a importância do português na construção da forma samba. É frequente o tributo histórico que se presta à contribuição africana para o nascimento desse gênero que, por razões tanto autênticas quanto suspeitas, se tornou o centro da musicalidade popular brasileira. Mas ninguém fala (que eu ouça) do papel da língua portuguesa nesse processo. Sempre me fascinou o fato de falarmos português. Quanto mais eu crescia e ia aprendendo a geografia do nosso hemisfério ocidental, mais misterioso e atraente se tornava para mim que esse imenso pedaço de América fosse habitado por lusófonos. Que fosse o único país das Américas em que isso se deu só aumentava o fascínio. Ser um país uno concorria para que eu formasse dentro de mim uma imagem de claro enigma.

Não podemos conceber o samba sem a língua portuguesa. Não o teríamos concebido sem ela. Quando João Gilberto foi cantar em Lisboa escrevi que aquele era um grande acontecimento na história da língua portuguesa. Mas ainda não tinha pensado o que a tentativa de tradução de um verso de “Volver” me levou a formular. Lembro tudo isso quando ouço António Zambujo. Outro dia ouvi uma moça que estava com Xande do Revelação cantar “Não deixe o samba morrer” e, embora sua pronúncia soasse totalmente brasileira, havia algo de sentimento fadista na voz. Fiquei comovido. Logo soube que ela era portuguesa. Ao ouvi-la cantar outros sambas/pagodes, pensei que ali se estava realizando meu sonho antigo de haver grupos de pagode portugueses, fazendo sotaque brasileiro e sucesso internacional. Isso, desde os primeiros pagodes comerciais. Pagode, funk e axé lusitanos. Sonho meu.


Fonte

domingo, 31 de março de 2013

O grande mito - Caetano Veloso


 Publicado em:


O GLOBO

 

Se a Comissão fizer algo útil e justo, mesmo sob Feliciano, aplaudirei a Comissão. O que não quer dizer que aplaudo a escolha do seu presidente.

A pauta da primeira reunião da Comissão de Direitos Humanos e Minorias sob a presidência de Marco Feliciano foi o grave caso da contaminação por chumbo na cidade de Santo Amaro da Purificação, no estado da Bahia. Feliciano disse aos reclamantes que eles teriam sucesso em suas demandas se tivessem o apoio de ruidosos manifestantes, como os que desejam destituí-lo. Bem, ele não o disse nessas palavras, mas redigi como pude o que captei do sentido de sua fala. Participei de uma manifestação pela saída de Feliciano e já mencionei brevemente aqui que acho inapropriada a escolha do seu nome para o cargo. Mas usei muito mais espaço quando, faz algum tempo, tratei da questão do chumbo em minha cidade. Nossas respostas públicas ao andamento dos fatos políticos são quase inevitavelmente desproporcionais. Nesse caso, a minha não foi: dou muito maior importância à questão da violência ambiental que Santo Amaro sofreu e sofre do que ao disparate que é a escolha do presidente da Comissão. Não estou dizendo que aquela questão é objetivamente mais importante do que esta (talvez o seja), mas que pessoalmente dou muito maior importância à questão santamarense. Se a Comissão fizer algo útil e justo a respeito, mesmo sob Feliciano, aplaudirei a Comissão. O que não quer dizer que aplaudo a escolha do seu presidente.

Vi Feliciano no programa “Agora é tarde”, de Danilo Gentili. Achei boa a entrevista. Tanto o apresentador quanto o entrevistado se saíram bem. Gentili foi irreverente e um tanto obsceno (parece que é esse o tom do programa), e Feliciano foi firme (sem deixar de ser levado pela ousadia de Gentili, tendo chegado, na ânsia de mostrar que não se assombrava com coisa nenhuma, a soar um tanto obsceno ele próprio). Gentili conseguiu dizer diretamente a ele coisas que a maioria das pessoas que veem seu programa (e muitas que não veem) gostariam de poder dizer. Numa determinada altura, por causa da história de não admitir que suas filhas se expusessem a ver “dois homens barbados e com as pernas raspadas se beijando”, Feliciano disse que a sociedade brasileira não está preparada para isso. Bom, o passo seguinte seria: então preparemo-la. De fato, a frase do pastor esconde um “ainda”. O diálogo aberto entre Gentili e ele, na TV, pareceu contribuir consideravelmente para essa preparação. O melhor momento do pastor foi quando ele disse que é um deputado eleito com muitos votos e, portanto, representa um aspecto da mentalidade do povo. O pior foi quando, tendo de responder sobre sexo anal heterossexual (que Gentili chamou de “transar pela bunda”, expressão que foi, pelo menos em parte, repetida por Feliciano), ele se saiu com uma restrição higiênica, chamando o ânus de “um esgoto”. Agostinho já notara, com muito maior elegância, que nascemos “entre fezes e urina”.

Vi hoje na internet (estou gripado) uma briga bastante feia entre, de um lado, Marco Feliciano e Silas Malafaia, e, de outro, Edir Macedo. O bispo editou imagens de umbanda (que ele chama de “sessão espírita”) ao lado de cenas de possessão pelo Espírito Santo de fiéis de igrejas pentecostais. Estampando a pergunta: “Qual a diferença?” Com isso dizendo que esses rodopios e esse lançar-se ao chão dos evangélicos é algo tão suspeitamente demoníaco quanto os rituais afro-brasileiros. As respostas dos dois pastores são muito bem articuladas. Vale a pena ver no YouTube: basta escrever “Feliciano responde a Edir Macedo” (Silas aparece logo ao lado). Ambos dizem que a Universal de Macedo já fez e faz muita coisa igualmente parecida com aqueles ritos. Mais sério: Moisés faz o galho virar serpente, os feiticeiros do faraó também fazem, mas a serpente de Moisés engole as deles: Deus é maior que quaisquer manifestações do demônio. Os três líderes religiosos parecem estar lutando por clientela. Para um homem não religioso como eu, é o que fica evidente.

Vi Mautner no Jô. Sou um homem não religioso? Ouvi-o dizer que o Brasil e sua amálgama são a nova coisa, que salvaremos o mundo. Na luta contra os malditos que envenenaram minha terra, invoquei Nossa Senhora da Purificação. Lendo “O mundo líquido”, de Bauman, aprendi que os países em desenvolvimento estão fadados à desgraça. Mas tendo a pensar que a política econômica mal explicada de Dilmantega (sugestões como as de André Nassif , Carmem Feijó e Eliane Araújo sendo cruamente rejeitadas) nos atrasa em relação aos outros países para nos resguardar de um sucesso dentro do que ainda não é o que devemos ser. Nossa Senhora da Purificação de Santo Amaro, o Jesus de Nazaré do Mautner, o Dom Sebastião de Agostinho, é isso que minha alma intui que nos guia a algo acima dessa lixeira.


domingo, 24 de março de 2013

Dolores e Eric - Caetano Veloso


Publicado em:

FALA CAETANO

O GLOBO

 

Colunista responde autora que escreve biografia da cantora sobre artigo publicado esta semana no Segundo Caderno

Fiquei surpreso com o artigo de Angela de Almeida publicado aqui ao lado na quarta-feira. O título era “Em defesa de Dolores Duran” mas, apesar da redação sóbria, não se entende de que a articulista está defendendo a cantora. Pela citação direta de comentário feito aqui nesta coluna, pareceria que ela quer defender Dolores de mim. Ela acha mesmo que diminuí Dolores ao reconhecer que “Por causa de você” é uma canção de amor afirmativa e que “Estrada do sol” resplandece de contraste com o pessimismo amoroso dos sambas-canções dos anos 1950? Angela reclama de eu ter dito que a figura vital e engraçada que aparece na biografia escrita por Rodrigo Faour não me surpreende. Mas por que diabos isso estaria na contramão da admiração pela personalidade artística da compositora que exponho no parágrafo precedente? Na verdade, toda a angustiante história da cardiopatia que acabou matando nossa adorada artista está narrada no livro de Faour. Se Angela tem críticas a fazer ao livro desse autor, que as faça. Mas essa velada acusação não procede: Faour não omite, nega ou desmente a tensão que acompanhou Dolores por toda a sua curta vida.

De minha parte, sempre tive e tenho a sensação nítida de que Dolores não era uma moça triste, nem mesmo uma autora especialmente pra baixo dentre os fazedores de baladas brasileiras daqueles tempos. Eu a vi de perto no auditório da Rádio Nacional e senti uma simpatia imediata, passando a achar que a conhecia. Deplorarei sempre não ter podido encontrá-la quando finalmente vim para o Rio. Lendo o livro de Faour, eu me encontrei com a pessoa que intuía a partir da aparência, da voz e das músicas. As canções de Dolores são as mais convincentes, sinceras e diretas que se podem escrever. Todas as referências ao “tempo passando” e à certeza terrível da mortalidade entrelaçada com a sede sem fim de ser amada que aparecem em suas composições são registradas por Faour. Pode-se não gostar (eu não gosto) do tom demasiado jocoso e do coloquialismo extravagante do autor, mas a pesquisa sobre quem foi a mulher que ganhou o nome Dolores Duran é abrangente e honesta. Dolores aparece como uma menina excepcionalmente inteligente, que gostava de curtir a vida e que sentia alegria com a própria inteligência. O jeito de ela cantar os baiões engraçados de Chico Anysio e os não menos engraçados sambas de Billy Blanco mostra bem que tipo de piadista ela era. As lembranças dos seus ex-amantes coincidem em descrever uma mulher apaixonada e sensual, com grande culto do amor físico. A irmã e as amigas descrevem uma pessoa reconhecível. Uma personagem vívida sai das páginas do livro. Nenhum dos seus próximos desmente as características da personalidade brincalhona. Faour sempre parece perfeitamente honesto na transcrição dos depoimentos. Se Angela está escrevendo uma biografia mais aprofundada da compositora, ótimo. Que ela a publique o quanto antes. Mas não venha ralhar comigo pelo que eu não fiz.

.Dolores é o máximo. Sem ela eu não estaria tão firme contra Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos; eu não teria entendido nem um décimo do que entendo da linguagem da canção popular; o Brasil não seria o que, a duras penas, consegue ser. Dolores é uma glória da língua portuguesa, sem a qual o samba não existiria.

Estou escrevendo quase sem usar a cabeça. Em meio aos preparativos para a estreia do show “Abraçaço” (quando este artigo sair, já terei feito três dos quatro shows que anunciei fazer no Circo Voador), só tenho na mente as palavras e as notas embaralhadas de “Um comunista”, “Alexandre” (que vou ler, pois nunca a cantei em público, já que não decorei a letra) e “Funk melódico” (que gravei lendo e nunca mais cantei). Gosto de música popular. Sempre gostei. Há algo aí. Quando, em suas análises da formação social do jazz, Eric Hobsbawm fala com desprezo de Tin Pan Alley (a rua que deu nome à produção de canções americanas nos anos 1920, 30 e 40), ou seja, de Irvin Berlin, George Gershwin e Cole Porter, eu me sinto mal. Não é que eu queira a aprovação dele para a canção pop (como ele já chama o tipo de música feita por essa gente): é que eu acho que há algo errado em não se captar a grandeza desse gênero. Hobsbawm é que fica sem minha aprovação. Sou mais Dolores.

É simpático que Hobsbawm não embarque no ódio ao jazz que Adorno nutria. Apesar da crítica do capitalismo (Hobsbawm também era marxista), ele não desqualifica uma forma de expressão complexa como o jazz. (Embora eu ache que têm graça algumas arengas de Adorno: ele entendia mais de música do que Hobsbawm.) Mas nada de “Night and day”, “The man I love” ou “Por causa de você” com ele

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Para ler o artigo de Angela de Almeida :



Em defesa de Dolores Duran - ANGELA DE ALMEIDA


domingo, 17 de março de 2013

Um pouco de sensatez - Caetano Veloso


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Fala Caetano

O Globo

 

Felizmente a ministra Marta Suplicy recuou da decisão de incluir as TVs a cabo no rol dos produtores de cultura beneficiados pelo ministério

Felizmente a ministra Marta Suplicy recuou da decisão de incluir as TVs a cabo no rol dos produtores de cultura beneficiados por mecanismos do ministério. O artigo de Cacá Diegeues na semana passada deixava claro o absurdo que seria a aplicação da nova norma. TVs a cabo fazem dinheiro grande, são dinheiro grande, e nem traduzem os títulos ingleses das séries, quase todas americanas, que apresentam. Um ministério que deseje incentivar a criação cultural no Brasil não tem por que incluí-las em seus programas de incentivo.

Será crível que Marco Feliciano tenha sido escolhido presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias? Na explicação que ele ofereceu aos fiéis da sua igreja, a África é citada várias vezes como “essse país”, o que mostra ignorância a respeito do assunto que tratou com tanta veemência. Nitidamente ele vê a África como um todo unitário. Bem, a maldição dos que, miticamente, foram popular a África já foi usada antes pelos racistas de vários lugares para justificar a escravidão. Feliciano a usa, sem cuidado, para explicar Idi Amin, a Aids, as faminas etc. Uma autoridade responsável por uma comissão de direitos humanos não pode basear suas falas e atitudes em dogmas religiosos. Menos ainda se ele demonstra simplismo grosseiro na interpretação destes.

É difícil admitir que presida uma comissão que supostamente protege as minorias um homem que grita, irado, que se os homossexuais querem fazer “suas porcarias”, que as façam escondidos dentro de seus quartos, em suas casas, nunca se beijando em locais onde suas filhas possam ver “dois homens barbados, de pernas raspadas, aos beijos”. O pleito de casamento gay é um pleito de minoria representada que deve ser estudado por comissões parlamentares que tratem do assunto com calma, lucidez e isenção. Você pode seguir uma fé que determina que os atos homoafetivos são pecado (na verdade, são O PECADÃO, como observou alguém que meditou sobre o assunto, já que é um pecado que, dentre todos, costumava despertar a ira até dos incréus, sendo incomparável com o falso testemunho, a gula ou mesmo a atividade sexual livre entre pessoas de sexos opostos), mas essa maldição religiosa lançada sobre um tema não pode entrar aos berros num grêmio de legisladores que deveria acompanhar o movimento da sociedade auscultando suas forças e tendências. Há religiosos e ateus que odeiam atos homoafetivos e consideram os africanos uns amaldiçoados, mas isso não representa o movimento da sociedade como um todo. As pesquisas na maioria dos países do Ocidente (inclusive o Brasil) não dizem isso. E, mais importante, para além do aspecto democrático dessas auscultações, há de haver princípios de direitos inegociáveis, como é o direito de igualdade de respeito e de oportunidades. É simplesmente grotesco que um religioso que fala em tom tão fanático se eleja presidente de uma comissão que deveria proteger os que têm carência de respeitabilidade e de oportunidades.

Espero que a menção feita por Marina Silva, a quem tanto admiro, à troca “de um preconceito pelo outro”, no caso da discussão sobre a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, não signifique que opor-se à escolha de Feliciano, nos termos em que o faço, é uma mera troca de preconceitos. Contra quê, aliás, seriam os preconceitos de quem discute a escolha? Contra evangélicos? Contra pastores? Contra religiosos em geral? Sim, sem dúvida há. Vejo em filmes e piadas de TV, em conversas e em textos publicados, intolerância contra a vitalidade com que as igrejas neopentecostais se impõem no Brasil. A hipocrisia dos pregadores, a ganância de dinheiro, enfim, tudo o que se pode apontar em toda organização religiosa é quase sempre o aspecto ressaltado. Mas eu nunca me identifiquei com essa atitude. Vejo o crescimento das igrejas evangélicas como uma forma de progresso no nosso caminho para onde devemos ir. Não admiti nunca as campanhas anticandomblé que elas alardeavam. Mas isso serenou. Religião é assunto imenso. Leio Mangabeira. Penso. Acompanho pessoas íntimas que são profundamente religiosas. Umas católicas, outras evangélicas e ainda outras espíritas ou candomblezeiras. Eu próprio não sigo religião. Mas, mesmo que seguisse, teria de entender que Comissão de Direitos Humanos deve tratar dos temas pertinentes de modo não sectário.

Será que o Brasil, além do mini-PIB, terá que passar agora por papagaiadas como essas? São muitas maluquices que podem atrasar nossa caminhada. Ao contrário do que diz Feliciano, o continente africano está se erguendo. O Brasil, tão cheio de promessas desde sempre, será que vai ficar entalado?
Pelo menos Marta viu a luz.


domingo, 10 de março de 2013

Dois Mulatos - Caetano Veloso


O pranto de Marighella e as queixas de Dolores Duran

Lendo a biografia de Dolores Duran, escrita por Rodrigo Faour, revivi toda a minha frustração por não ter podido encontrar essa cantora e compositora excepcional quando de minha vinda para o Rio com Bethânia. Dolores tinha morrido, aos 29 anos, cinco anos antes de eu chegar aqui com minha irmã. Na noite do dia em que ela morreu, eu e Chico Motta, meu melhor amigo de infância e adolescência (e irmão para sempre), fizemos uma homenagem à sua memória: percorremos as ruas de Santo Amaro na madrugada, em silêncio, tendo inclusive nos separado, cada um para sua casa quando chegamos à esquina mais próxima das duas, sem dizer nem “té manhã”. O fato é que estávamos profundamente comovidos com a notícia sobre aquela mulher que tinha cantado “Não se avexe não” e escrito “Por causa de você”.

Chico sabia que eu a tinha visto em carne e osso, no auditório da Rádio Nacional, três anos antes. Mas quando isso se deu eu tinha 13 anos: admirava a cantora e sentia simpatia extrema pela pessoa, apenas já quase sabia que a amaria tanto. Seja como for, a figura vital e engraçada que surge da pesquisa de Faour não me surpreende: a “fossa” dos sambas-canções era uma exigência, por assim dizer, natural; a letra de “Estrada do Sol” representava o mais radical contraste com essa exigência; “Por causa de você” é exceção pioneira de canção de amor otimista em português; o canto cômico dos baiões de Chico Anysio e dos sambas de Billy Blanco — assim como a voz heterônima das canções americanas que ela gravou — provinha de uma alma amante da vida.

Uma cena me emocionou de forma única na narrativa (sempre em tom quase exageradamente informal) de Faour: a presença de Dolores numa palestra de Marighella em reunião organizada por Jorge Goulart e Nora Ney. Esse casal — de quem tive a sorte de me fazer amigo nos anos que se seguiram à explosão de Bethânia no cenário nacional, amizade que perdurou até minha prisão e exílio em 1968/69 — era comunista e atuava no ambiente de músicos e artistas como divulgadores e propagandistas do projeto do socialismo mundial. Dolores era simpatizante da causa. Por essa razão (e por seus dotes vocais e cênicos) foi convidada a unir-se ao grupo de músicos brasileiros que iriam (inclusive por interesse do presidente JK) se apresentar na União Soviética.

Imagino essa sala na Zona Sul do Rio em que os dois mulatos coincidiram. Já contei aqui que Marighella chorou copiosamente ao tomar conhecimento dos horrores do stalinismo, mas, como se sabe, ele nunca abandonou o sonho comunista e terminou morrendo por ele. Dolores (que, tal como ele, na época nem tinha sua condição de mulata como informação que viesse pegada a seu nome) não era ligada diretamente ao Partidão. Voltou da União Soviética indignada com o que viu. E era a URSS de Kruschev. Um texto de Jorge Goulart defendeu o mundo comunista das acusações de Dolores. E no depoimento que dá a Faour critica branda mas maliciosamente Dolores: diz que ela reagiu mal à experiência russa por preferir beber na embaixada americana a fazer os passeios e visitas propostos pelos organizadores soviéticos. As entrevistas de Dolores publicadas à época soam um tanto irresponsáveis. A má vontade com o que viu pode confirmar algo daquilo que Goulart insinua: que ela, identificada com o mundo decadente do Ocidente capitalista, ouviu a versão corrente na embaixada dos Estados Unidos. A acusação que vem velada na fala de Goulart, mas tem semelhança com o que esquerdistas de então e de hoje dizem de críticos e dissidentes de países socialistas. Segundo Faour, Paulo Moura (que também voltou da Rússia antes do previsto) compartilhava do desconforto de Dolores.

Imagino essa moça talentosa e boêmia, aos 27 anos, vendo a vida acinzentada do socialismo do Leste europeu. Orgulho-me de que ela tenha sido desabrida ao expor sua decepção na volta. Mas sempre vejo a complexidade de situações como essa. Os membros do Conjunto Farroupilha dizem que adoraram tudo na URSS e que Dolores estava fora de sintonia. Nora Ney nunca mais foi sua amiga. O socialismo jamais desaparecerá do horizonte: lutamos com o mundo pela justiça e pela grandeza. Mas o pranto de Marighella e as queixas de Dolores continuam tendo muito a dizer. Dolores, uma das maiores artistas que temos tido. Uma suburbana carioca descendente de nordestinos semi-iletrados que exibiu de modo exuberante a potência criativa deste país. Quando penso nesse conjunto de coisas, em Dolores e Marighella na mesma sala, em Nora e Jorge versus Paulo Moura, sinto o quanto o Brasil tem que fazer. Capto a energia de uma reviravolta suave ou brusca mas imensa que devemos cobrar deste país.

FONTE: 

FALA CAETANO

O GLOBO