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Se
a Comissão fizer algo útil e justo, mesmo sob Feliciano, aplaudirei a
Comissão. O que não quer dizer que aplaudo a escolha do seu presidente.
A pauta da primeira reunião da Comissão de Direitos Humanos e
Minorias sob a presidência de Marco Feliciano foi o grave caso da
contaminação por chumbo na cidade de Santo Amaro da Purificação, no
estado da Bahia. Feliciano disse aos reclamantes que eles teriam sucesso
em suas demandas se tivessem o apoio de ruidosos manifestantes, como os
que desejam destituí-lo. Bem, ele não o disse nessas palavras, mas
redigi como pude o que captei do sentido de sua fala. Participei de uma
manifestação pela saída de Feliciano e já mencionei brevemente aqui que
acho inapropriada a escolha do seu nome para o cargo. Mas usei muito
mais espaço quando, faz algum tempo, tratei da questão do chumbo em
minha cidade. Nossas respostas públicas ao andamento dos fatos políticos
são quase inevitavelmente desproporcionais. Nesse caso, a minha não
foi: dou muito maior importância à questão da violência ambiental que
Santo Amaro sofreu e sofre do que ao disparate que é a escolha do
presidente da Comissão. Não estou dizendo que aquela questão é
objetivamente mais importante do que esta (talvez o seja), mas que
pessoalmente dou muito maior importância à questão santamarense. Se a
Comissão fizer algo útil e justo a respeito, mesmo sob Feliciano,
aplaudirei a Comissão. O que não quer dizer que aplaudo a escolha do seu
presidente.
Vi Feliciano no programa “Agora é tarde”, de Danilo
Gentili. Achei boa a entrevista. Tanto o apresentador quanto o
entrevistado se saíram bem. Gentili foi irreverente e um tanto obsceno
(parece que é esse o tom do programa), e Feliciano foi firme (sem deixar
de ser levado pela ousadia de Gentili, tendo chegado, na ânsia de
mostrar que não se assombrava com coisa nenhuma, a soar um tanto obsceno
ele próprio). Gentili conseguiu dizer diretamente a ele coisas que a
maioria das pessoas que veem seu programa (e muitas que não veem)
gostariam de poder dizer. Numa determinada altura, por causa da história
de não admitir que suas filhas se expusessem a ver “dois homens
barbados e com as pernas raspadas se beijando”, Feliciano disse que a
sociedade brasileira não está preparada para isso. Bom, o passo seguinte
seria: então preparemo-la. De fato, a frase do pastor esconde um
“ainda”. O diálogo aberto entre Gentili e ele, na TV, pareceu contribuir
consideravelmente para essa preparação. O melhor momento do pastor foi
quando ele disse que é um deputado eleito com muitos votos e, portanto,
representa um aspecto da mentalidade do povo. O pior foi quando, tendo
de responder sobre sexo anal heterossexual (que Gentili chamou de
“transar pela bunda”, expressão que foi, pelo menos em parte, repetida
por Feliciano), ele se saiu com uma restrição higiênica, chamando o ânus
de “um esgoto”. Agostinho já notara, com muito maior elegância, que
nascemos “entre fezes e urina”.
Vi hoje na internet (estou
gripado) uma briga bastante feia entre, de um lado, Marco Feliciano e
Silas Malafaia, e, de outro, Edir Macedo. O bispo editou imagens de
umbanda (que ele chama de “sessão espírita”) ao lado de cenas de
possessão pelo Espírito Santo de fiéis de igrejas pentecostais.
Estampando a pergunta: “Qual a diferença?” Com isso dizendo que esses
rodopios e esse lançar-se ao chão dos evangélicos é algo tão
suspeitamente demoníaco quanto os rituais afro-brasileiros. As respostas
dos dois pastores são muito bem articuladas. Vale a pena ver no
YouTube: basta escrever “Feliciano responde a Edir Macedo” (Silas
aparece logo ao lado). Ambos dizem que a Universal de Macedo já fez e
faz muita coisa igualmente parecida com aqueles ritos. Mais sério:
Moisés faz o galho virar serpente, os feiticeiros do faraó também fazem,
mas a serpente de Moisés engole as deles: Deus é maior que quaisquer
manifestações do demônio. Os três líderes religiosos parecem estar
lutando por clientela. Para um homem não religioso como eu, é o que fica
evidente.
Vi Mautner no Jô. Sou um homem não religioso? Ouvi-o
dizer que o Brasil e sua amálgama são a nova coisa, que salvaremos o
mundo. Na luta contra os malditos que envenenaram minha terra, invoquei
Nossa Senhora da Purificação. Lendo “O mundo líquido”, de Bauman,
aprendi que os países em desenvolvimento estão fadados à desgraça. Mas
tendo a pensar que a política econômica mal explicada de Dilmantega
(sugestões como as de André Nassif , Carmem Feijó e Eliane Araújo sendo
cruamente rejeitadas) nos atrasa em relação aos outros países para nos
resguardar de um sucesso dentro do que ainda não é o que devemos ser.
Nossa Senhora da Purificação de Santo Amaro, o Jesus de Nazaré do
Mautner, o Dom Sebastião de Agostinho, é isso que minha alma intui que
nos guia a algo acima dessa lixeira.