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domingo, 14 de julho de 2013

O capitão Horácio - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

ESTADÃO - 14/07/2013



Tive um caso com o capitão Horácio por anos. Até resolver me curar

— Esta é a minha esposa, Rute...

— Humm. Simpática. — Ela é uma mulher fantástica. Estamos casados há 25 anos.

— E estes são...— Os filhos. Gustavo e Leinha. Foi a Leinha que nos deu a única neta. Olha só, que amor...

— Que beleza!

— Maria Rita. Três anos. A queridinha do vovô.

— E este?

— Ah, este é o capitão Horácio.— Capitão Horácio?— O amor da minha vida.

— O quê?— Do tempo em que eu era homossexual. Tivemos um caso durante sete anos, até eu resolver me curar.

— Você era homossexual e se curou?— Sim. Foram sete anos intensos com o capitão Horácio, mas senti que aquilo não era pra mim.

— E como você se curou?— Não foi fácil. Procurei psicólogos, psicanalistas, grupos de apoio, orientação religiosa... Finalmente me sugeriram que experimentasse a homeopatia.

— Homeopatia?!— Chá de cipó amarelo. — E deu certo?— Tiro e queda.— Esse chá...

— Tomo todos os dias, depois do almoço. O cipó amarelo vem da Amazônia. Os índios tomam desde pequenos, para prevenir.

— Mas...você carrega uma foto do capitão Horácio na carteira...

— Foi um período importante na minha vida, que eu não quero esquecer.— E como foi a separação?

— Amigável. Ele era uma pessoa muito distinta. Espiritual. E atlético, maratonista. Ou era, quando nos conhecemos.

— Não foi um rompimento traumático, então?

— Não. Ele entendeu minha posição, nos despedimos... E nunca mais se viram?

— Nunca. Não sei que fim ele levou. Ou que cara tem hoje. Certamente não é mais a da foto.

— Quer dizer que existe cura para o homosexualismo? — Existe. As pessoas ficam fazendo pouco desse deputado Feliciano, mas existe. Chá de cipó amarelo da Amazônia. Dou a receita para quem quiser.

— E é tiro e queda?

— Tiro e queda.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Encontros - Lígia Cortez

"Por ser uma atividade de corpo presente, o teatro provoca embates"

 Direto da Fonte - Sônia Racy

 O Estado de S. Paulo - 24/06/2013

 

Lígia Cortez arranca, há pouco mais de quinze dias, aplausos do público no Sesc Pinheiros. O motivo é sua atuação em A Dama do Mar, de Henrik Johan Ibsen - peça adaptada por Susan Sontag e dirigida por Bob Wilson, que fica em cartaz em São Paulo até o dia 7.

O diretor norte-americano está em um relacionamento sério com o Brasil desde o ano passado, quando começou a trazer seus espetáculos para cá. A Dama do Mar foi o primeiro realizado com atores brasileiros. Para Lígia, a experiência foi intensa. A preparação da personagem Élida exigiu da atriz oito horas diárias. "Foi um processo diferente do que eu estou acostumada", conta. "Mas tem sido maravilhoso.”

O desafio de interpretar o papel moveu a atriz a mergulhar em reflexões colocadas pelo autor. "A peça aborda a questão de um desejo de liberdade que é universal", diz. "Élida é uma mulher desambientada, que não foi aceita. Ninguém se debruçou sobre o universo dela, ela que tinha que se adaptar".

Além de atriz e diretora, teatral Lígia também é diretora artística da Escola Superior de Artes Célia Helena, do Célia Helena Teatro-escola e da Casa do Teatro. "Sou uma pessoa do teatro. Meus pais eram atores", ressalta, lembrando o legado de seus pais, Raul Cortez e Célia Helena.

Uma das principais educadoras da área teatral do País, ela acredita que é preciso ter uma política cultural para esse incentivo. "As universidades públicas, em todo o País, estão abrindo um departamento de artes cênicas. Isso vai mudar, a médio prazo, todo o panorama cultural no Brasil", explica. E defende: “O teatro mexe com estruturas. Nesse sentido, acho que mantém uma linha, sim, de contravenção, mas também tem uma linha muito forte: a de que o ser humano precisa ouvir histórias. E quando uma história é bem. contada ao vivo, ninguém esquece. É muito difícil esquecermos de uma peça de teatro boa".

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Ibsen escreveu a peça em 1887, Susan Sontag adaptou para a década de 90. As questões apresentadas no texto, sobre os conflitos do casamento, o desejo de liberdade, o senso de família ainda assombram as mulheres?

Muito. Acho que a peça trata de um desejo de liberdade que é universal. Esse sentimento talvez não exista, senão na forma de desejo. A liberdade, é algo bem discutível, mas a questão da mulher ainda está muito presente como um conflito. As mulheres conquistaram muitas coisas, mas, em diversas situações, ainda são um apêndice social do homem. Falar sobre desejo também não é uma questão fácil para ninguém, tanto homens quanto mulheres. Acho que a peça, de alguma forma, aborda tudo isso de uma maneira bastante profunda.

O conflito de sua personagem, Élida, é recorrente em várias obras, literárias e cinematográficas. Você acredita que o desejo na figura da mulher reflete algo pejorativo?

Muitas vezes. Realmente tem uma coisa extremamente pejorativa quando entra nessa relação com a mulher. Às vezes - a peça fala um pouco disso também -, a questão com que o homem precisa manifestar o seu poder. Élida é uma mulher desambientada, que não foi aceita. Ninguém se debruçou sobre o universo dela, ela que tinha que se adaptar.

Como foi a preparação para interpretar esse papel?

Foi muito intensa e diferente do que eu estou acostumada. Além disso, a parte coreográfica é essencial para o Bob - a limpeza, a rigidez de movimentos. Foram oito horas de preparação diária. Mas esta foi uma experiência maravilhosa. Porque ele é um diretor que deixa ator trabalhar.

E a sinergia do elenco?

Demais. Eu já conhecia alguns integrantes do elenco. Todos têm uma trajetória enorme no teatro. Então, foi criativamente muito intenso.

Bob Wilson tem desenvolvido e apresentado muitos trabalhos no Brasil. Há uma tendência de diretores estrangeiros virem para cá mostrar sua arte?

Antigamente tínhamos poucas oportunidades de ver coisas estrangeiras. Hoje temos o Sesc, que é um grande fomentador das artes cênicas em SP. Política cultural de nenhum governo fez o que Sesc faz.
Como foi o trabalho com ele?

Eu já tinha visto muitas coisas do Bob. Isso me deu uma sensação engraçada, de que eu já o conhecia. O artista, às vezes, se coloca tanto, que a gente se sente um pouco íntimo dele. O trabalho foi muito bom. Entramos em uma sintonia ótima. E meu trabalho é diferente, venho de uma linha de muita interioridade. Então, quando me chamaram para o teste eu pensei: "será?" Mas foi um encontro maravilhoso.

Gostar de teatro é uma questão de educar o olhar?

Totalmente. Quem nunca foi ao teatro nunca vai “precisar ir”. Cultura é algo que você passa a precisar depois que tem um contato com ela.

Você acredita que ainda existe, no Brasil, um estereótipo do teatro como uma arte considerada “marginal”?

Existem duas vertentes: o teatro enquanto linguagem artística - que pode trazer muito crescimento na formação de uma pessoa. E, neste sentido, existir uma formação sólida é fundamental, que proporcione a parte técnica e conceitual. É essa preocupação que temos na faculdade. A outra questão é artística. O teatro lida com coisas que são novas, que são caóticas. O teatro desorganiza. E, por ser uma atividade de corpo presente, existe um embate, que muitas vez pode ser de ideias, ou político, ou de questões de comportamento. Não há como dizer que o teatro não é uma arte.

Provocativa.

Exatamente. Que mexe com estruturas. Acho que mantém uma linha, sim, de contravenção. No entanto, também tem uma linha muito forte: a de que o ser humano precisa ouvir histórias. Quando essa história é bem contada ao vivo, ninguém esquece. É muito difícil esquecermos uma peça de teatro boa. A gente esquece filme, mas peça nunca.

Fala-se muito nos preços dos espetáculos. O que você acha da meia-entrada?

Há um abuso da meia-entrada, que faz com que todo mundo pague um preço. Por conta disso, o ingresso fica mais caro. É tanta meia-entrada que a meia-entrada vira quase o valor do ingresso. Acredito que, antes de discutir isso, temos que levantar a dificuldade que é sustentar um espetáculo sem apoios. Precisamos de uma política cultural de governo, de novos espaços, de novas propostas. Hoje o espetáculo tem que estrear pago, senão toma prejuízo.

E o que acha da nossa política cultural voltada para o teatro? Existe algum formato de incentivo que poderia ser implementado no País?

Acho que tem coisas muito boas acontecendo. A Lei do Fomento, por exemplo, fez com que muitos grupos novos aparecessem. Entretanto, a verba destinada à cultura ainda é muito baixa. É necessário um incentivo aos grupos que estão começando. Em São Paulo, acredito que faltem espaços públicos, teatros bem cuidados. A boa perspectiva é que universidades públicas, em todo o País, estão abrindo um departamento de artes cênicas. Isso vai mudar, a médio prazo, todo o panorama cultural no Brasil.

domingo, 23 de junho de 2013

Entrevista: Eduardo Giannetti da Fonseca

O Estado de S.Paulo - 23/06/2013

‘O BRASILEIRO TEM ESPINHA DORSAL E ELA NÃO É UMA MARIA-MOLE’

País estaria dando uma resposta à sucessão de desacertos da política econômica que somam inflação em alta, baixo crescimento, ressaca de consumo e infraestrutura precária

Alexa Salomão

O economista e cientista social Eduardo Giannetti da Fonseca acredita que há um nítida ligação entre as manifestações que tomaram conta do Brasil e a má gestão da economia. “O governo represou o aumento da tarifa e, quando liberou, coincidiu que a inflação está alta.” Na entrevista a seguir, Giannetti explica como o governo terá de rever a condução da política econômica e a relação com o cidadão, hoje muito distante, se quiser reverter a situação.

O que provocou as manifestações?
Muitos elementos se combinaram. O primeiro deles foi retardar o reajuste da tarifa de transporte público para segurar a inflação. O governo represou o aumento e, quando liberou, coincidiu com o momento em que a inflação está em alta e as pessoas estão endividadas. Como os serviços tiveram uma alta grande, a inflação para as famílias é muito maior do que a inflação oficial. Há restrição orçamentária neste momento. A aposta desastrada no carro particular também pesou. O governo fez um movimento agressivo para estimular a venda do automóvel com a crise, em 2008, mas não investiu na infraestrutura para acomodar o aumento da frota. Para quem comprou, o carro era para ser o instrumento de liberdade individual, mas virou um cárcere privado e uma câmara de estresse. Com mais carros, as cidades vivem a angústia diária da mobilidade imóvel. Outro elemento foi a truculência da repressão na quinta-feira passada (13/06) em São Paulo. Muita gente que não estava disposta a se engajar aderiu porque ficou indignada A visibilidade do Brasil na Copa das Confederações ajudou. O Brasil está na vitrine, o que abre espaço para se constranger os governantes e maximizar a reivindicação. Junte tudo isso e teremos um ambiente propício para a revolta.

Qual é a alternativa do governo para
amenizar as manifestações se elas
continuarem?

Eu acho que uma reforma ministerial é inevitável. Os protestos, sem dúvida, reforçam as fragilidade na condução da política econômica. Lula (ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva), um pragmático, já fala abertamente isso.

Faltou, então, visão ao governo?
Faltou estratégia. Esse governo reage caso a caso. Criou tantas incertezas em relação às regras do jogo
que é temerário investir no País hoje. Os empresários se perguntam: ‘Será que a isenção que recebi vale daqui a quatro anos? Será que a proteção tarifária que eu consegui no lobby em Brasília permanece? Será que o crédito subsidiário que estão me oferecendo fica?’. Ninguém sabe. A política econômica
não tem um norte. Para controlar a inflação e favorecer a compra do carro, o governo eliminou a Cide, a contribuição cobrada sobre o preço da gasolina para financiar a infraestrutura de transporte. Eu fui olhar os números. No acumulado, deixamos de arrecadar R$ 22 bilhões desde 2008. O custo acumulado do não reajuste da tarifa de ônibus em São Paulo, até o final da gestão Haddad (Fernando Haddad, prefeito de São Paulo), será de R$ 2,6 bilhões – um décimo. Se o dinheiro da Cide tivesse sido investido na infraestrutura de transporte público, estaríamos em outro patamar.

Faltou, então, visão ao governo?
Faltou estratégia. Esse governo reage caso a caso. Criou tantas incertezas em relação às regras do jogo
que é temerário investir no País hoje. Os empresários se perguntam: ‘Será que a isenção que recebi vale daqui a quatro anos? Será que a proteção tarifária que eu consegui no lobby em Brasília permanece? Será que o crédito subsidiário que estão me oferecendo fica?’. Ninguém sabe. A política econômica não tem um norte. Para controlar a inflação e favorecer a compra do carro, o governo eliminou a Cide, a contribuição cobrada sobre o preço da gasolina para financiar a infraestrutura de transporte. Eu fui olhar os números. No acumulado, deixamos de arrecadar R$ 22 bilhões desde 2008. O custo acumulado do não reajuste da tarifa de ônibus em São Paulo, até o final da gestão Haddad (Fernando Haddad, prefeito de São Paulo), será de R$ 2,6 bilhões – um décimo. Se o dinheiro da Cide tivesse sido investido na infraestrutura de transporte público, estaríamos em outro patamar.

A classe C foi beneficiada pelo governo porque teve aumento de renda e ascendeu no consumo, mas também está nas ruas protestando. Ela não deveria estar satisfeita?
Cerca de 37 milhões de brasileiros mudaram de categoria de renda em 10 anos. É ótimo. Mas agora começamos a sentir o que isso representa. O governo esqueceu que essa nova classe média ascendeu ao consumo, mas também tem mais acesso à informação. Tem internet. Tem uma consciência mais clara de que paga impostos e pode cobrar serviços compatíveis com essa contribuição. Esse novo grupo demanda automóveis, transporte aéreo, eletrodomésticos, educação. Veja só: cresceu a demanda por automóveis e o governo ajudou, reduzindo o IPI, facilitando o crédito. Mas não foi feita a outra parte, os investimentos na infraestrutura urbana para suportar o aumento da frota. Transporte aéreo: há mais pessoas com dinheiro para viajar de avião, mas sem a estrutura aeroportuária é um caos embarcar e desembarcar. Eletrodomésticos: o Brasil se tornou um dos cinco mercados de aparelhos elétricos do mundo – vendemos mais geladeiras, microondas, freezers. Mas se a economia tivesse crescido no ano passado, tinha tido apagão. A sorte – se é que isso é sorte – foi que o baixíssimo crescimento evitou um colapso. Moradia: o Minha Casa, Minha Vida é a cereja no bolo do PAC, e onde está o saneamento básico? E há ainda o caso grave da educação. A nova classe média vê na educação uma credencial para continuar ascendendo socialmente, mas se não houver um controle de qualidade, as escolas privadas vão virar um balcão de negócios. Percebe que há um padrão? A demanda infla, mas não há consistência na oferta. Aquilo que exige poupança e investimento, que não seja um anseio imediato, não está sendo atendido.

As manifestações vêm em um momento já complicado para o governo: os indicadores econômicos estão piorando e há eleição no ano que vem...
O governo já vinha perdendo popularidade e agora isso se acentua. O capital político do governo da Dilma está em depreciação.

Apenas o da Dilma?
Pega principalmente o governo federal. No fundo é a democracia brasileira e os órgãos de poder que estão se desgastando. Deixaram de nos representar. Temos um Executivo tecnocrata e um pouco autista, com 39 ministérios, inoperante, que não consegue fazer as concessões acontecerem e tem muita dificuldade de deslanchar os investimentos prometidos. Eu chamo o PAC de Plano de Abuso da Credulidade. O Congresso Nacional virou um balcão de negócios de onde só saem coisas ruins, sem compromisso com o País.

O que ocorre se o mercado de trabalho
virar e houver desemprego?

Já temos crescimento baixo, inflação pressionada e deterioração das contas externas. Se acrescentarmos o desemprego, haverá um estress social adicional e o quadro piora. Poderíamos ter tido políticas de geração de emprego mais inteligentes durante a crise. Por exemplo, investir em infraestrutura para criar as bases de um crescimento sustentado.

O fim dos 20 centavos de reajuste
da passagem vai tirar a força das manifestações
ou elas tendem a migrar
para outras causas?

O Brasil é pródigo em explosões efêmeras de indignação. Mas minha intuição me diz fortemente que tende amigrar para outras causas. Os manifestantes foram vitoriosos. Os protestos, basicamente, mostraram que o brasileiro tem espinha dorsal e que ela não é flexível. Não é uma maria-mole.

Mas o governo vai ter caixa para
atender novas demandas, em áreas
como saúde e educação?

Vai ter de ter. A carga tributária do Brasil é de 36% do PIB. Cerca de 40% da renda gerada pelo trabalho dos brasileiros transita pelo governo – União, estados e municípios. Como é que os nossos serviços públicos são o que são? Essa é a pergunta fundamental dessa brincadeira toda. Gasta-se muito mal.

Criou-se um novo cenário eleitoral?
O cenário ficou bem mais aberto.

O sr. apoia a Marina Silva. Como a
situação repercute para eventuais
candidatos fora do poder?

Acredito que os 20 milhões de votos que a Marina recebeu foram apenas o prenúncio da insatisfação que hoje vemos nas ruas.

Eduardo Giannetti da Fonseca Economista associa temas cotidianos com teoria econômica
Mineiro de Belo Horizonte, cursou economia e ciência social na Universidade de São Paulo e o doutorado em economia na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Foi professor em ambas instituições. Seus artigos e livros têm a peculiaridade de estabelecer relações entre temas cotidianos e psicológicos com a teoria econômica

Opiniões - Fábio Porchat


sábado, 4 de maio de 2013

Vanzolini e a biodiversidade da Amazônia - Fernando Reinach

Fernando Reinach - O Estado de S.Paulo
 
 
"Perdemos Vanzo." Me veio à mente Paulo Vanzolini em sua enorme sala no Museu de Zoologia. Sobre a bancada, inúmeros vidros contendo lagartos. Em 1975, na faculdade, eu estudava o epitélio da cloaca de uma cobra. Vanzolini queria me conhecer. Fui ao museu e lá estava ele, vestindo um avental cinza, sem camisa por baixo, unhas sujas, cercado de répteis. Nunca soube por que me chamou, suspeito que ele tenha julgado minha primeira bolsa de iniciação científica. Queria ver a cara do jovem que se interessava por cloacas de cobra.

Vanzolini deixou uma primorosa coleção de sambas. Algumas rimas revelam seu humor irônico e debochado:

"Mulher que se vira pro outro lado
Tá convocando a suplente
Mulher que não ri não precisa dente".

Vanzolini deixou uma das maiores coleções de répteis. Mas sua maior contribuição foi a descoberta de como surgiu parte da biodiversidade amazônica.

Durante sua viagem a bordo do Beagle, Darwin ficou impressionado com a enorme diversidade de plantas e animais. Como teriam surgido tantas espécies? No livro A Origem das Espécies, Darwin descreve o processo de seleção natural, que ao longo de bilhões de anos deu origem a todos os seres vivos que conhecemos.

Quando a população de uma espécie é dividida em dois grupos, separados por um acidente geográfico (imagine uma população de pássaros que passa a habitar duas ilhas), existe a chance de surgir uma nova espécie. Impedidos de se encontrar, esses dois grupos deixam de acasalar (o que chamamos de isolamento reprodutivo). Como os dois grupos passam a viver em ambientes diferentes (ilhas com diferentes espécies de frutas), aos poucos, sob pressão de diferentes ambientes, sobrevivem os pássaros mais adaptados a cada um dos ambientes (em uma ilha, os bicos ficam mais longos; na outra, mais curtos). Com passar do tempo, essas diferenças aumentam até que os dois grupos deixam de ser capazes de acasalar. Pronto, uma espécie deu origem a duas outras. Esse processo, repetido milhões de vezes, gerou toda a biodiversidade do planeta.

Mas como explicar a origem de espécies em ambientes sem barreiras geográficas? É o caso da Amazônia, uma das regiões com maior biodiversidade. A Amazônia é uma imensa planície, sem montanhas, com uma floresta aparentemente contínua e homogênea. Como teriam surgido as espécies nesse ambiente em que o isolamento reprodutivo parece ser impossível? Foi esse problema que Vanzolini ajudou a resolver.

Vanzolini organizava longas expedições para coletar répteis. Desenhava uma linha reta no mapa da Amazônia e se embrenhava no mato, seguindo trilhas e rios, coletando todos os répteis que podia encontrar. Foi assim que conheceu o Brasil, milhares de quilômetros coletando répteis. De volta ao museu, analisava os animais, classificando cada exemplar, contando escamas, medindo e pesando. Desse modo é possível descobrir como uma espécie varia ao longo de cada uma dessas retas e como a frequência das diferentes espécies varia de região para região. Vanzolini descobriu uma Amazônia mais heterogênea do que imaginava. A distribuição das espécies parecia estar centrada em algumas regiões da Amazônia, como se essas regiões tivessem sido ilhas isoladas no passado.

Com a ajuda de Aziz Ab'Saber, da USP, e Ernest Williams, de Harvard, Vanzolini propôs uma explicação para a origem da biodiversidade amazônica: no passado, a Floresta Amazônica teria encolhido e se expandido diversas vezes. Durante os períodos glaciais, o clima árido fez com que parte da floresta desaparecesse. Nesses períodos, somente algumas ilhas ricas em vegetação teriam se mantido. Nos períodos interglaciais, com o aumento da umidade, as ilhas teriam se juntado, reformando a cobertura florestal. Cada vez que se formavam as ilhas, as populações de plantas e animais se isolavam e novas espécies se formavam. Com o espalhamento da floresta nos períodos úmidos, as espécies se misturavam. Juntando os dados de Aziz Ab'Saber que descreviam essas mudanças climáticas e a localização das ilhas de florestas com a distribuição atual das espécies de lagartos, os três cientistas demonstraram como teria se formado parte da biodiversidade que hoje encontramos na Amazônia.

Esse é o grande legado científico de Vanzolini. Ele desvendou parte do mistério que cerca a origem da biodiversidade amazônica.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

“Eu sou de um país que se chama Pará” - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

 O Estado de S.Paulo - 03/05/2013

Por que tanta gente de talento não chega ao Sul? Onde fica o muro que nos separa?

BELÉM

Quando a mediadora Renata Ferreira disse que o meu conto o homem que viu a osga comer meu filho a tinha aterrorizado, assustei-me. Não tenho este conto. Ela riu e explicou:“O que vocês chamam de lagarto ou lagartixa, chamamos de osga.Aliás, está no Aurélio”. Estava certa, o conto existe.
Quando ouvi a fotógrafa Elza Lima contar uma história minha em que os olhos dos cavalos do carrossel de meu avô eram petecas, reagi: “Como petecas? Eram bolas de gude”. Elza: “Pois aqui, petecas são as bolasde gude”.Caminhava pelo Espaço Palmeira, um feirão popular, no centro da cidade.Aqui foi uma tradicional fábrica de bolachas, biscoitos e doces, fundada em 1892. Demolida, restou uma área de piso concretada sobre a qual se armam as barracas.Então,ouvi: “Vamos fazer nossa sombra aqui”, disse o mulato de chapéu branco. E sentou-se com dois amigos num canto. Não havia sombra alguma, ao contrário, era um solão, mas gostei da expressão. Porque grande e diverso é o Brasil.

Vim para a 17.ª Feira Pan-Amazônica do Livro, que no ano passado vendeu 850 mil livros, me contou Paulo Chaves Fernandes, secretário de Cultura, arquiteto que criou as Docas e o Mangal das Garças, imperdíveis. A Pan-Amazônica deste ano termina no próximo domingo com Affonso Romano de Sant’Anna. Pelo palco principal passaram Ziraldo,Tony Bellotto, Cristovão Tezza, Guilherme Fiuza, Tiago Santana e José Castello. Para terem ideia, o folheto com a programação tem 74 páginas com oficinas, seminários, aulas, lançamentos, mesas-redondas, salão do humor.

Tudo acontece no Hangar, um centro de convenções moderno e funcional. Ao falarmos,temos à nossa disposição auditórios variadosque vãode300 a 1.500 espectadores. Distante daqueles espaços fechados por divisórias de eucatex da Bienal do Livro de São Paulo, ondea barulheira do salão penetra e ninguém ouve o que se fala.

Lembrei-me que estive na primeira Pan-Amazônica, ainda no centro, sufocada, apertada, mas cheia de gente. Assim como me lembro de uma casa de sucos da terra, onde havia um de pinha que era puro regalo. A casa fechou, virou loja. Por outro lado,nas sorveterias você mergulha a colher em taças de sorvete de tapioca (deslumbrante), buriti, bacuri, cupuaçu, açaí, graviola, manga.

Quem me indicou a Cairu como o melhor sorvete da cidade foi Fafá de Belém. Opinião considerável.O Pará é terra da Fafá, da Gaby Amarantos, da Dira Paes, da Olga Savary (que está na cidade em que nasceu, emocionada,há muito não vinha), Leah Soares. E de Dalcídio Jurandir, um dos grandes escritores brasileiros de todos os tempos.

A feira deste ano foi dedicada a Ruy Barata, poeta, compositor, jornalista, político progressista, ícone paraense, homem que navegou em todas as águas. Dele é a frase epígrafe desta 17.ª Pan-Amazônica: “Eu sou de um país que se chama Pará”. Milhares de crianças vagando entre centenas de estandes. Perguntando: “O senhor é escritor?”. Correndo atrás do Ziraldo, que se intitula “o velhinho maluquinho”. Vi Ziraldo, com tremenda luxação no ombro, cheio de dores, sentar-se e autografar centenas de livros. Mais do que profissional, ele ama o que fez e adora ver ameninada em torno.

Certa noite,fomos jantar nas Docas, olhando  o rio de frente.Chegavam homens feitos querendo tirar uma foto com o “menino maluquinho”. Chegavam também jovens querendo uma foto com TonyBellotto, que tinha acabado de fazer uma bela fala sobre seu romance Machu Picchu.Depois,elas viravam para mim:“ E o senhor é alguma coisa?”.Respondi com a maior seriedade: “Não, sou apenas pai do Bellotto”. E elas: “Não precisamos tirar fotos do senhor, não?”. Felizes com minha negativa, partiam, ruidosas, enquanto voltávamos ao filé de filhote, peixe delicioso, com risoto de pupunha e jambu, e ao pato com tucupi. Belém é sabor e é necessário comer, de preferência à noite, no Mangal das Garças, parque nascido à beira- rio,cheio de pássaros, tartarugas, borboletário. Iguanas verdes, figuras pré-históricas, vagueiam pelos gramados.

Tomei um avião e cheguei a Marabá 50 minutos depois. O nome da cidade vem de um poema de Gonçalves Dias. Região ligada à siderurgia e celebrizada pela Serra Pelada. Estudantes e professores se juntaram no Cine Marrocos para conversar com escritores. É a Pan-Amazônica expandida. A feira não acontece apenas em Belém, vai ao interior, agrega, abre-se às populações. A ideia avança pelo Brasil. A fotógrafa Elza Limame contou que esta “feira fora de feira” nasceu após a leitura de uma crônica, aqui, minha no jornal, falando de Fortaleza, da bienal fora da bienal, quando autores vão aos bairros e às cidades do interior. Andressa Malcher, coordenadora,apanhou a ideia no ar e desenvolveu.

Sentei-me no palco ao lado de Ademir Brás, jornalista, advogado e poeta de primeira linha. Ele descreve sua terra, a gente, as paisagens, o Rio Tocantins,manso e largo, silencioso. Pequenas casas coloridas inclinam se para as águas. A poesia de Ademir oscila entre a ternura e a indignação, com ritmo e afeto. Por ele e pelos jovens, soube do Pará.E contei das coisas de cá. Porque tanta gente de talento como Ademir não chega ao Sul? Onde fica o muro que nos separa?

sábado, 27 de abril de 2013

Darwin e a prática da 'Salami Science' - FERNANDO REINACH

O ESTADO DE S.PAULO - 27/04/2013

Em 1985, ouvi pela primeira vez no Laboratório de Biologia Molecular a expressão "Salami Science". Um de nós estava com uma pilha de trabalhos científicos quando Max Perutz se aproximou. Um jovem disse que estava lendo trabalhos de um famoso cientista dos EUA. Perutz olhou a pilha e murmurou: "Salami Science, espero que não chegue aqui". Mas a praga se espalhou pelo mundo e agora assola a comunidade científica brasileira.

"Salami Science" é a prática de fatiar uma única descoberta, como um salame, para publicá-la no maior número possível de artigos científicos. O cientista aumenta seu currículo e cria a impressão de que é muito produtivo. O leitor é forçado a juntar as fatias para entender o todo. As revistas ficam abarrotadas. E avaliar um cientista fica mais difícil. Apesar disso, a "Salami Science" se espalhou, induzido pela busca obsessiva de um método quantitativo capaz de avaliar a produção acadêmica.

No Laboratório de Biologia Molecular, nossos ídolos eram os cinco prêmios Nobel do prédio. Publicar muitos artigos indicava falta de rigor intelectual. Eles valorizavam a capacidade de criar uma maneira engenhosa para destrinchar um problema importante. Aprendíamos que o objetivo era desvendar os mistérios da natureza. Publicar um artigo era consequência de um trabalho financiado com dinheiro público, servia para comunicar a nova descoberta. O trabalho deveria ser simples, claro e didático. O exemplo a ser seguido eram as duas páginas em que Watson e Crick descreveram a estrutura do DNA. Você se tornaria um cientista de respeito se o esforço de uma vida pudesse ser resumido em uma frase: Ele descobriu... Os três pontinhos teriam de ser uma ou duas palavras: a estrutura do DNA (Watson e Crick), a estrutura das proteínas (Max Perutz), a teoria da Relatividade (Einstein). Sabíamos que poucos chegariam lá, mas o importante era ter certeza de que havíamos gasto a vida atrás de algo importante.

Hoje, nas melhores universidade do Brasil, a conversa entre pós-graduandos e cientistas é outra. A maioria está preocupada com quantos trabalhos publicou no último ano - e onde. Querem saber como serão classificados. "Fulano agora é pesquisador 1B no CNPq. Com 8 trabalhos em revistas de alto impacto no ano passado, não poderia ser diferente." "O departamento de beltrano foi rebaixado para 4 pela Capes. Também, com poucas teses no ano passado e só duas publicações em revistas de baixo impacto..." Não que os olhos dessas pessoas não brilhem quando discutem suas pesquisas, mas o relato de como alguém emplacou um trabalho na Nature causa mais alvoroço que o de uma nova maneira de abordar um problema dito insolúvel.

Essa mudança de cultura ocorreu porque agora os cientistas e suas instituições são avaliados a partir de fórmulas matemáticas que levam em conta três ingredientes, combinados ao gosto do freguês: número de trabalhos publicados, quantas vezes esses trabalhos foram citados na literatura e qualidade das revistas (medida pela quantidade de citações a trabalhos publicados na revista). Você estranhou a ausência de palavras como qualidade, criatividade e originalidade? Se conversar com um burocrata da ciência, ele tentará te explicar como esses índices englobam de maneira objetiva conceitos tão subjetivos. E não adianta argumentar que Einstein, Crick e Perutz teriam sido excluídos por esses critérios. No fundo, essas pessoas acreditam que cientistas desse calibre não podem surgir no Brasil. O resultado é que em algumas pós-graduações da USP o credenciamento de orientadores depende unicamente do total de trabalhos publicados, em outras o pré-requisito para uma tese ser defendida é que um ou mais trabalhos tenham sido aceitos para publicação.

Não há dúvida de que métodos quantitativos são úteis para avaliar um cientista, mas usá-los de modo exclusivo, abdicando da capacidade subjetiva de identificar pessoas talentosas, criativas ou simplesmente geniais, é caminho seguro para excluir da carreira científica as poucas pessoas que realmente podem fazer descobertas importantes. Essa atitude isenta os responsáveis de tomar e defender decisões. É a covardia intelectual escondida por trás de algoritmos matemáticos.

Mas o que Darwin tem a ver com isso? Foi ele que mostrou que uma das características que facilitam a sobrevivência é a capacidade de se adaptar aos ambientes. E os cientistas são animais como qualquer outro ser humano. Se a regra exige aumentar o número de trabalhos publicados, vou praticar "Salami Science". É necessário ser muito citado? Sem problema, minhas fatias de salame vão citar umas às outras e vou pedir a amigos que me citem. Em troca, garanto que vou citá-los. As revistas precisam de muitas citações? Basta pedir aos autores que citem artigos da própria revista. E, aos poucos, o objetivo da ciência deixa de ser entender a natureza e passa a ser publicar e ser citado. Se o trabalho é medíocre ou genial, pouco importa. Mas a ciência brasileira vai bem, o número de mestres aumenta, o de trabalhos cresce, assim como as citações. E a cada dia ficamos mais longe de ter cientistas que possam ser descritos em uma única frase: Ele descobriu...

sábado, 20 de abril de 2013

A ARTE DE EDITAR ARTE

UM EDITOR E A ARTE DE ANDAR NA CONTRA MÃO DO MERCADO



Quando não era hábito publicar monografias de artistas, Charles Cosac editou há 16 anos um livro de Tunga; hoje, na era digital, ele vai criar um selo para lançar edições exclusivas destinadas a leitores e colecionadores exigentes

O Estado de S.Paulo - 20/04/2013

ANTONIO GONÇALVES FILHO
MARIA FERNANDA RODRIGUES

Em junho de 1997, o mercado viu chegar às livrarias um volume inusual com mais de dez tipos de papel e duas centenas de ilustrações. Não era exatamente a espécie de livro de arte que circulava entre os leitores brasileiros. Compreensível. Nem o artista que assinava o livro Barroco de Lírios, Tunga, nem seu editor, Charles Cosac, eram tipos convencionais. Tunga, um dos vetores da arte contemporânea brasileira, trabalha com chumbo e materiais corrosivos em suas obras. Charles está longe de ser um editor burocrático. Colecionador de arte, sua editora, criada para publicar livros da área, viria a se tornar uma referência ao lançar monografias de outros artistas contemporâneos, sozinha ou em parceria com instituições como a Bienal de São Paulo. Foi a primeira editora latino-americana a coeditar um título com o Museu de Arte Moderna de Nova York (o catálogo da exposição Tangled Alphabets, deMira Schendel e Leon Ferrari).

Em seus 16 anos de existência, a editora passou 15 deles no vermelho, inicialmente bancando livros de arte sem o amparo de leis de incentivos. Michael Naify, o sócio americano e cunhado de Charles Cosac, socorreu financeiramente a editora que, ao enveredar por outras áreas – literatura, antropologia, filosofia, arquitetura, moda, cinema –, obteve melhores resultados financeiros. Isso permitiu a expansão do catálogo e a publicação de livros infantojuvenis de temas complexos – foi a primeira editora a lançar um livro gay para crianças, Meu Amigo Jim. Caracterizada pela ousadia de seus projetos gráficos, a Cosac Naify já recebeu mais de 50 prêmios nacionais e internacionais, tendo no catálogo ficcionistas como Enrique Vila-Matas e ensaístas como Arthur Danto. Charles Cosac recebeu a reportagem do Sabático para conversar sobre o passado e os planos da editora.

Por que Tunga foi escolhido o primeiro autor da editora e como era manter um negócio então voltado exclusivamente para a edição de livros de arte?

Voltei da Inglaterra com a ideia de abrir uma editora e sabia que ela só iria crescer no momento em que eu sentisse alguma segurança. Estava havia muitos anos fora, tive de reaprender o Brasil. Não conhecia São Paulo, não conhecia ninguém aqui. Existia também o entusiasmo do início, eu tinha 32, 33 anos. Tunga e sua obra são muito importantes para mim, pautando, de certa forma, o início e o aniversário de 10 anos da editora – quando fizemos a caixa Tunga. Ele é da casa. Consegui ao longo desses anos reunir um grupo fiel de artistas. Já vamos para o quarto livro do Tunga e do Arthur Omar, o quinto do Miguel Rio Branco e do Waltercio Caldas. É como se fosse uma galeria com a qual você tem uma relação não tão pontual. Apesar das dificuldades, é muito gratificante saber que vivo agora o terceiro ciclo da editora com os mesmos artistas com os quais comecei 15, 16 anos atrás.

No início sua ideia era publicar monografias de artistas ou foi uma consequência? 

Eu tinha muito contato com a Yale University Press, e ela abriu portas para mim. Licenciei vários livros da Yale quando John Nicoll estava lá. Como minha editora era pequenininha, era difícil quebrar nichos – e eu precisava de muitas cartas de referência e de crédito. Nicoll me ajudou muito, abrindo portas, inclusive em gráficas no exterior, mas sobretudo na relação com outras editoras. Depois vieram os livros da Tate Publishing. O primeiro livro que comprei de Nicoll foi Arte na América Latina, de Dawn Ades. Ao voltar ao Brasil, conheci Arthur Omar e fiz Antropologia da Face Gloriosa, depois do livro do Tunga. Enfim, ela começou como uma editora de história e teoria da arte. Começou assim porque eu me sentia seguro nesse campo. E, depois, não havia editora disposta a fazer os livros deles.

Antes de abrir a editora, você criou uma coleção de arte latina na Universidade de Essex, que depois virou um museu. Você tinha planos de trabalhar com museus antes de chegar ao Brasil?

Não. No momento em que saí da Inglaterra, eu já tinha aberto mão de todos os meus sonhos. Já sabia que não seria acadêmico, porque não tinha disciplina e temperamento para aquilo, e que não conseguiria trabalho em museu, porque sou brasileiro e não tinha visto de trabalho. Mas eu também queria muito desenvolver um projeto no Brasil.

Quando a Cosac Naify foi inaugurada, já existiam incentivos fiscais para publicação de livros, mas você se recusava a publicar um livro pela Lei Rouanet. Qual a razão?

Eu não diria que me nego, masmantenho o mesmo ponto de vista. Consegui estudar sem o CNPQ ou a Capes e não queria ficar dependente da Lei Rouanet, que é linda e maravilhosa, mas pode arquivar muitos projetos, como a Lei Sarney o fez. Eu não podia abrir uma editora alicerçada numa lei de incentivo à cultura. Tínhamos um capital para investir em livro. Nos casos dos livros da editora que foram patrocinados, eu fui procurado. Eu não procurei. São sempre as mesmas pessoas que ganham. E é um nicho que contamina. São duas tabelas – a do design para o livro patrocinado e a do livro não patrocinado. É uma coisa meio engessada: eles dão o dinheiro e impõem o título. E é muito difícil que combine, ou seja, que eu também queira fazer o livro. Eu não teria paciência de me aproximar de gerentes de marketing e donos de banco para conseguir patrocínio. Mas, paralelas às leis de incentivo à cultura, existem parcerias, as coedições, mais frutíferas.



● Saindo do apoio à edição e indo para a compra de livro. As compras governamentais são importantes no faturamento da editora?

Muito. Não saberia dizer em porcentual, mas o Brasil é o país que mais compra livros e isso tem atraído várias editoras estrangeiras. Essa é uma atividade que me incomoda menos porque existe a licitação. Mandamos o livro e eles escolhem, se gostarem. Você não se sente envolvido pessoalmente. É dinheiro público. Se eu perder dinheiro meu, perdi. Mas, se perder um que não é meu, é mais delicado.

● Quem era seu modelo de editor quando abriu a editora? Como convenceu seu cunhado Michael Naify a entrar na sociedade?

Meu ídolo é o inglês George Braziller, o editor que eu queria ter sido. Ele tinha uma visão extraordinária, competente, ousada e particular. Michael era um grande amigo que conheci em Londres. Só depois ele se casou com a minha irmã. Ele me ajudou muito financeiramente – agora não precisa mais. No início houve um envolvimento dos três: meu, do Michael e da Simone. Eles moravam em Florença e Simone participou dos primeiros anos, acompanhando a impressão, que era feita na Itália. No começo, teve um sabor familiar. Michael e Simone sugeriam livros infantis. A Árvore Generosa, de Shel Silverstein, era o livro favorito dele. Mas era uma coisa muito voltada para o nosso conhecimento pessoal, sem ter uma visão panorâmica e mais organizada do que seria o prelo editorial. Depois do quarto ano minha irmã começou a perder o interesse e eles foram se afastando.

● E como está a situação hoje?

As coisas não estão maravilhosas, mas estão bem. Depois de quatro, cinco anos, me vi sozinho com a editora. Nesses anos todos, quando precisei principalmente de ajuda monetária, foi a Michael a quem recorri. Ele sempre foi solícito em nos atender.

● Michael e Simone ainda são seus sócios?

Sim. A Cosac Naify pertence, desde o início, a uma editora americana. Quando se faz aporte de capital, ele vem oficialmente pelo Banco Central. O fato de ela não gerar lucro e não ter um fim lucrativo não muda o status dela: é capital estrangeiro. O papel dessa editora é, simplesmente, emitir verba. A questão é que você deve satisfação ao governo americano e no 15.º ano deficitário fomos auditados. Queriam saber para onde tinha ido todo aquele dinheiro que não gerou lucro nenhum em tantos anos. Suspeitas foram levantadas. Não fiquei mal porque sabia a verdade, mas foi um trabalho burocrático enorme provar que não éramos lucrativos e não estávamos escondendo lucro nenhum. A boa vontade do Michael e a minha de ter mantido a editora deficitária por 15 anos nem eu nem Michael sabemos explicar.

A editora, hoje, é autossustentável?

O ano de 2012 foi o primeiro que não fizemos nenhum aporte e que a editora terminou no azul. Claro que isso não contempla o passado, mas olhar o passado não é a solução. A partir de um certo momento tive de começar a pensar o futuro da editora. Foi quando a diretoria se uniu para que a editora se tornasse autossustentável.

● A entrada de livros de literatura no catálogo da editora foi uma tentativa de sanear a saúde econômica?

A Cosac Naify começou como uma editora de arte por eu ter essa limitação. Mesmo antes da era Augusto Massi, que começou em 2001, eu já tinha convidado Ismail Xavier para desenvolver uma série de cinema e teatro no fim dos anos 1990. Nessa ocasião, Rodrigo Lacerda desenvolveu a série de João Antonio. Mas a mudança determinante foi a chegada de Augusto – ele ficou na editora por dez anos.

● Qual é o livro mais vendido da editora?

Do catálogo adulto é Clarice, de Benjamin Moser. O segundo, vocês vão desmaiar: é o Histórias Fantásticas, de Bioy Casares. Eu nunca diria que esse é o segundo livro que mais vende – e olha que eu fundei a editora. Entre os infantis, de um a dez é o Capitão Cueca. E A Árvore Generosa é um livro que é sempre, sempre reimpresso.

Você já disse que tem vergonha do Capitão Cueca. Por que, se as crianças gostam tanto?

Porque não gosto. Eu não teria feito esse livro. Quem indicou o Capitão Cueca foi a minha irmã. Tenho de dizer que a série ajudou muito monetariamente nestes anos todos, mas foi uma coisa entre irmãos. Se eu dissesse não, estaria dizendo não para ela e não para o livro. O Capitão Cueca entrou de gaiato na editora. Nessa ocasião, estávamos negociando esse, a série Clifford e Harry Potter. Não saberia dizer qual é pior.

● Você tem algum arrependimento editorial?

Choro lágrimas de crocodilo por não ter comprado a obra do Lezama Lima. Ele esteve aí o tempo todo e ninguém olhava. Mas insisto que não há nenhuma perda significativa, porque a bibliografia ainda é deficiente.
É difícil chorar o leite derramado de um leite que não existiu. Não somos uma editora best-seller. Nunca vamos dizer que, se tivéssemos escolhido determinado título, teríamos feito bastante dinheiro. Ocorre um movimento contrário. Quando voltei ao Brasil, conheci a obra do arquiteto Paulo Mendes da Rocha. Três editoras tentaram tirar o livro de mim e eu falei: vocês estão aqui há milhões de anos e não viram. Foi meu olhar estrangeiro que me permitiu ver aquilo que quem estava aqui não via. E este foi também o primeiro título que vendi. Uma editora estrangeira vir e comprar um livro nosso é melhor do que qualquer prêmio. É aí que acontece o intercâmbio cultural que eu busco.

● A Cosac Naify também faz livros bilíngues.

Isso é um problema, pois não conseguimos distribuir. No início eu vendia para uma distribuidora que ficava em Nova York, mas não estava feliz. Nunca pensei no mercado fora do País. Já é complicado vender para a Bahia, por que vou tentar a Espanha? Eu preferiria vender no Brasil inteiro. Já fiz milhões de livros bilíngues e isso não gerou fruto positivo nenhum.

Com o custo dos direitos das fotografias e os livros de arte dependendo às vezes da boa vontade dos herdeiros de artistas, deve ser difícil publicar uma obra desse segmento no Brasil. Como a Cosac Naify tem conseguido editar esses livros? 

Nestes 15 anos, o que mais cresceu foram os bancos de imagem. Para fazer um livro de moda, você precisa da autorização da modelo, que já perdeu a silhueta, do fotógrafo, dos mil fotógrafos que estavam no desfile. Isso criou um novo departamento de direitos autorais, que gera muito papel. Em contrapartida, também fomos testemunhas de uma evolução tecnológica impressionante. As gráficas evoluíram muito, o livro ficou mais barato e espero acreditar que uma coisa compensou a outra. Hoje, fazer um livro não é tão caro como era há 10, 20 anos, graças aos recursos tecnológicos.

● Você ainda imprime na Itália? Imprime também na China e na Índia?

Imprimimos aqui, em vários polos gráficos de São Paulo, que sempre foram bons, mas que têm um velho problema: são muito mais caros. A segunda opção é Singapura ou China. Como estamos trabalhando com um prelo mais adiantado, podemos fazer isso. Não somos os únicos. E é claro que isso afeta o mercado gráfico local. Existe o temor de que um dia façam sanções que não nos permitam mais imprimir na China.

Algumas editoras estão criando selos para diversificar o catálogo com obras comerciais e disputar as listas de mais vendidos. A Cosac Naify tem planos nessa direção?

Coincidentemente, abrimos uma nova razão social com uma ideia contrária a isso. Com essa questão do livro eletrônico, tenho de encontrar um nicho para mim e minhas atividades. Não que eu ache que o livro de arte vá morrer, mas queria fazer edições ex-libris sem o compromisso de publicar uma quantidade determinada por ano.

Com o e-book ganhando importância no mercado de literatura comercial, as edições mais caprichadas podem ser um futuro para o livro impresso? O que pensa sobre o e-book?

Essas edições caprichadas sempre existiram, mas é indiscutível que com a digitalização o livro está se coisificando. As editoras têm de se esmerar – não para vender mais, mas para que o livro não morra. Quanto ao e-book, eu não tenho interesse nenhum no assunto, mas a editora está pensando nisso.

Você é mais ligado em artes visuais do que em literatura. Mas a Cosac Naify tem lançado bons jovens autores. O que você leu recentemente que mais chamou sua atenção?

O Valter Hugo Mãe é um amor de pessoa, mas acho que gostei mais dele do que dos seus livros. Adorei José Donoso. Tive muita dificuldade com a leitura de Angélica Freitas. Não sei se é antiético falar a verdade sobre os livros de minha editora, mas quero dizer que nem tudo o que é feito nela eu amo. A vinda da Heloísa Jahn e da Marta Garcia, editoras seniores com contatos, pode ajudar. Heloísa vai cuidar da nova série de poesia brasileira contemporânea, uma iniciativa dela. Marta vai trazer novos autores. E tem o lado que me interessa mais que são os livros paradidáticos. Fizemos Luto e Melancolia do Freud e fiquei fascinado. Por causa dele estamos publicando O Avesso do Imaginário – Arte e Psicanálise, de Tania Rivera, do qual gostei muito.

● A editora publicou alguns livros de artista,entre eles Ethers, de Tunga, e algumas edições especiais para colecionadores. Esse é um segmento que poderá ser ampliado? 

Sim. Para isso estamos criando um novo selo que ainda não tem nome. Gostaria que fosse um nome russo, algo como Dom Knigi (Casa dos Livros), que é uma livraria que eu adoro em São Petersburgo, na Nevsky Prospekt. Vivi lá e gostaria de carregar algo da Rússia comigo. Além disso, sempre achei que uma editora tem de ter “casa” no nome. Acho lindo “casa editorial”. Também pensei em colocar o nome de meu bisavô, Felipe Salomão.

● Como é que você decide que um livro tem vocação para ser publicado em edição normal ou de colecionador?

O pessoal da produção na editora fica louco comigo quando chego lá com alguma ideia de livro especial, como o de Sérvulo Esmeraldo, que tinha ampolas de água, terra. Depois, eles acabam se entusiasmando. Há cinco anos descobri por meio de um amigo a obra da pintora Eleonore Koch, cujo livro sai agora em maio. Quando vi pela primeira vez uma tela sua, me deu um frio na espinha. O livro de Lore Koch estava com outra editora e não entraria jamais em concorrência para ter o direito de publicá-lo. Felizmente, o advogado da artista me procurou oferecendo o título.

● Como imagina a Cosac Naify em 10 anos?

Quando abri, meu cunhado irmão me falava que eu devia saber onde iria querer estar em 2, 4, 5 anos e eu falava “Nossa Senhora!”. Quando eu tinha 5 anos, pensava 30 anos à frente. Aos 50, que é quase a minha idade, você pensa 10 minutos adiante. Mas como a editora não sou eu – são 80 pessoas comigo e um público leitor crescente –, tenho criado dispositivos para que ela coexista. Tenho uma mentalidade parlamentarista. A editora tem hoje uma diretoria, que se reúne a cada 15 dias. Os assuntos são discutidos, a ata é feita, metas são atribuídas e depois de 15 dias conversamos de novo. Esse método tem funcionado muito bem, mas não porque tira a responsabilidade das minhas mãos – a responsabilidade legal é só minha. É um trabalho de equipe. Neste momento da editora, o que é muito gratificante para mim é ver meninos e meninas de 20, 25 anos bem mais preparados do que eu era. Sempre achei que os jovem tivessem razão – essa frase é da Maria Martins e ela estava certa. Um dia vou morrer e não quero que ela seja enterrada comigo. A editora foi repensada e enxugada. Havia mais de 400 títulos comprados. Muitos deles foram reciclados; outros, vendidos ou devolvidos. A gente não apagou o passado. Tentamos reciclar o melhor dele para tentar ter uma frequência em arquitetura, literatura internacional, literatura contemporânea brasileira e estrangeira, artes visuais, ensaios.

● Qual foi o momento mais crítico da editora?

Abri a editora porque eu quis, ninguém me pediu, minha família não tem tradição editorial. Me sinto um homem realizado. Dos meus colegas de escola, fui um dos poucos que fazem o que gosta de fazer. Sou feliz, faria tudo de novo. Os momentos mais críticos foram quando Rodrigo Lacerda e Augusto Massi saíram da editora. Eram pessoas com uma visão muito paternalista. Eu não os via só como uma pessoa indo embora. Via como uma separação, uma ruptura. E isso machuca.Osilêncio também machuca. É como fim de ano na escola: todo mundo chora.

Como foi voltar para o dia a dia da editora?

Quando o Augusto entrou, fiquei dois anos trabalhando de casa. Vou à editora porque me faz bem. Gosto de ficar em casa, de solidão, mas gosto de ir lá, conversar com as pessoas. Saio de lá revitalizado, feliz. Saio xingando às vezes, também. Ela é um remédio e me faz muito bem.

Quando você vai publicar o seu livro?

Já fiz mil documentos proibindo essa publicação. O meu Confesso Que Vivi nunca vai sair. Tenho consciência de não ser ninguém. Graças a Deus tenho essa consciência. Temos de construir como as cidades que são soterradas. Não posso ter essa vaidade.




domingo, 14 de abril de 2013

Oásis - Luis Fernando Verissimo

Luis Fernando Verissimo
 
Numa recente London Review of Books o escritor irlandês Colm Toíbín desenvolve uma tese instigante sobre três autores, Fernando Pessoa, Jorge Luis Borges e Flann O'Brien, este último um contemporâneo de James Joyce que passou a vida inteira ao mesmo tempo venerando e cutucando o autor de Ulysses. Os três são de cidades - Lisboa, Buenos Aires e Dublin - situadas à margem da literatura mundial, cidades que Toíbín descreve como desertos culturais, em contraste com os centros de criação da sua época como Paris e Londres. É estranho Toíbín dizer isto sobre a Irlanda, que, além de Joyce, produziu Beckett, Shaw, Swift, Yeats, etc. e mais prêmios Nobel de Literatura por metro quadrado do que qualquer outro país do mundo. Mas a criação na Irlanda, de um jeito ou de outro, sempre foi um reflexo do domínio inglês, tanto da sua política quanto da sua cultura, e os premiados irlandeses foram todos fazer sua reputação e ganhar sua vida em Londres enquanto Dublin ficava como a capital da memória, como disse Lawrence Durrell de Alexandria, um lugar para ser evocado no exílio mais do que habitado.

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Aquele Joãozito - Humberto Werneck

HUMBERTO WERNECK - O Estado de S.Paulo
 
 
Um ano depois da morte do filho famoso, lá fui eu conhecer dona Chiquita, numa casa na Pampulha, em Belo Horizonte. Quando saí, horas depois, tratei de reter no papel um pouco do que me contara a mãe do Joãozito, quer dizer, João Guimarães Rosa, naquela tarde de 1968. Queixava-se da memória fraca - e no minuto seguinte se desmentia:

"Joãozito pegava o jornal e ficava perguntando ao pai o nome das letras. Ou os números pintados nos trens que passavam. O Florduardo achava uma graça, comprou lápis de cor e papel, fez assinatura do almanaque Tico-Tico. Quando abrimos os olhos, o Joãozito estava lendo e dando notícia de tudo. Tinha só 4 anos, um fenômeno."

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Exclusiva com o comandante Borges - João Ubaldo Ribeiro

João Ubaldo Ribeiro
 
-Comandante, ainda bem que você veio. Ontem me disseram que você não queria mais dar a entrevista.

- É, mas pensei melhor. Se eu prometi, está prometido. Alguém tem que manter a palavra neste país. Mas isso não impede, sem querer ofender ninguém, que eu ache esta entrevista uma palhaçada.

- Não entendi.

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sábado, 13 de abril de 2013

SABÁTICO

 

Lygia Fagundes Telles, testemunha literária

A escritora relembra momentos marcantes de sua trajetória, como a amizade com Clarice Lispector e Hilda Hilst, a viagem à China em 1960, o encontro com Montero Lobato e a agonizante espera pela liberação de 'As meninas' pela censura


Ubiratan Brasil

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“QUAL O MISTÉRIO DESSA MULHER?”

Cronista do Caderno 2 narra casos saborosos envolvendo ambos e diz: “Quero envelhecer como ela, de bem com a vida”

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Conto do adeus à ilusão

Obra do chinês Mo Yan trata da distância entre o que a revolução prometeu e fez

 

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 O RISO PARA DEMOLIR IDEOLOGIAS E TABUS

 Em A Questão Finkler, Howard Jacobson tenta desvendar com humor e autoironia o enigma da experiência humana

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A literatura pop encontra a erudita

Fenômeno editorial que deu nome a uma geração, 'Nocilla Dream', primeiro volume da trilogia escrita pelo espanhol Agustin Fernández Mallo, chega ao Brasil e faz do autor o possível sucesssor de Bolaño

 

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domingo, 7 de abril de 2013

Viaduto Covas? É ali no Chá - JOSÉ DE SOUZA MARTINS

 O Estado de S.Paulo - 07/04/2013

Mudar nome de logradouros históricos talvez seja a parte mais fácil – difícil é convencer o povo a desistir da antiga denominação

Não parece boa ideia que o Viaduto do Chá mude de nome. Mesmo tendo sido Mário Covas um homem íntegro, um cidadão respeitável e um governante inesquecível. É justo que se dê seu nome a uma obra grandiosa. Mas, como já aconteceu em outros casos, o povo continuará chamando o Viaduto doChá de Viaduto do Chá. É um nome na memória dos paulistanos,um patrimônio da consciência coletiva, embora o homenageado seja o prosaico chá-da-china, que ali se cultivava no século 19. Chá famoso, de que gostava a família do poeta Álvares de Azevedo.

Nossos políticos,com as exceções de sempre, acham que tudo podem. Apresentar um projeto de lei parece mágica expressão de poder. Qualquer joão-dos-anzóis, uma vez eleito, pode propor até a mudança do nome do Corcovado. Na decadência política pela qual passamos,não seria estranho se alguém tentasse fazê-lo.E menos estranho que o Legislativo aprovasse a esdrúxula proposta. Nos anos 1970, um candidato a deputado por Goiás chegou a ter como bandeira eleitoral a revogação da Lei Áurea! Tem gente que já deu o nome da própria mãe a logradouro público. Do jeito que se xinga político neste país, não foi boa ideia.

Jovem, eu havia começado a trabalhar no jornal que veio a ser o Diário do Grande ABC, no fim dos anos 1950. Cabia-me cobrir assessões da Câmara Municipal de São Caetano do Sul. Numa das primeiras sessões de nova legislatura, um senhor muito simples, de pouca escolaridade, eleito pela população de um dos bairros pobres da cidade, evangélico, resolveu exercitar piamente seu poder. Queria marcar posição.Propôs ao plenário um“ voto de louvor ao autor da Bíblia”.O presidente da Câmara, que não estava culturalmente longe do proponente, pôs o projeto em votação: “Os vereadores que forem favoráveis,permaneçam como estão.Os contrários, que se manifestem”. “Aprovado!”, proclamou ele. E acrescentou: “Peço ao nobre edil que deixe na secretaria da Câmara o nome e o endereço do destinatário.” Até hoje o louvor não chegou ao destino.

Há alguns anos, foi proposto e aprovado que se desseonomedeumcidadãoprestante do bairro do Ipiranga ao Museu Paulista, da Universidade de SãoPaulo, popularmente conhecido como Museu do Ipiranga. É evidente que o nome não pegou, nem podia, pois o prédio do museu é oficialmente nosso monumento nacional da Independência. O cidadão prestante é agora oficialmente ignorado.

Um dos casos dolorosos de homenagem equivocada foi o da designação do histórico Túnel Nove de Julho com o nome de um dos mais ilustres cirurgiões brasileiros, o dr. Daher Elias Cutait. Foi eledestacado professor da Faculdade de Medicina, médico do Hospital das Clínicas e do Hospital Sírio-Libanês, merecedor, sem dúvida, de homenagem que lhe tornasse o nome lembrado para sempre. No entanto, a designação do túnel com seu nome criou enorme controvérsia. Nove de Julho, sabemos, é a data referencial
da Revolução Constitucionalista de 1932 e dos que nela morreram ou foram feridos. Um símbolo ligado a profundos sentimentos dos paulistas. Mudar o nome do túnel, em vez de fazer justiça ao nome do médico ilustre, acabou por expô-lo a sentimentos contraditórios que tiraram da homenagem o sentido que deveria ter.

Já tivemos outros episódios de denominação de rua que entrou em conflito com a tradição do povo. Por ter sido morto, em 1897, na Guerra de Canudos, no sertão da Bahia, no comando da Terceira Expedição Militar  para lá enviada para destruir o povoado sertanejo, de supostos monarquistas, a Câmara de São Paulo decidiu dar o nome do cel. Moreira César à Rua de São Bento. O nome chegou a ser incluído nos mapas da cidade. Mas não pegou. São Bento desde o século 16, não seria uma câmara qualquer do século 19 que lhe mudaria o nome, além do mais, nome de devoção.Nesse caso,Moreira César, aliás, não merecia que lhe dessem o nome a um lugar público nem aqui nem em canto nenhum. Militar violento e sanguinário, já havia executado sumariamente presos políticos nas revoluções do Sul. Gostava de mandar degolar os prisioneiros e com fama de degolador chegara ao sertão da Bahia. Era um carniceiro. Nem enterrado foi. Apodreceu por lá, comido pelos urubus, como tantos outros. Os sertanejos que fora combater e matar eram religiosos,seguidores do catolicismo popular e da monarquia do Divino Espírito  Santo. Não faziam mal a ninguém,passavam o dia em oração, não pretendiam derrubar o governo, embora Antônio Conselheiro não deixasse de reconhecer que o Império fizera justiça aos negros libertando-os da escravidão. Para ele, a deposiçãodafamília imperial fora uma injustiça.

Em São Paulo a população já estava cheia dos exageros republicanos.A Câmara Municipal do novo regime em poucas semanas trocara nomes de rua de membros da monarquia, que conhecia, por membros da República, que desconhecia: Benjamin Constant, Quintino Bocaiuva, Marechal Deodoro. Nem Moreira nem César.São Bento continuou a ser o santo nome da rua que há muito era o dele.


JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE SOCIOLOGIA DA FOTOGRAFIA
E DA IMAGEM (CONTEXTO)

sábado, 6 de abril de 2013

SABÁTICO

Janelas para a finitude

No romance 'Terra de Casas Vazias', André de Leones ratifica a morte e o elemento religioso como peças centrais de sua já madura ficção

 

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Uma chance para a paz em meio ao caos

Considerado uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela 'Time', o cientista Steven Pinker defende, em 'Os Anjos Bons da Nossa Natureza', que a violência está em declínio na sociedade

 

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Explicar o passado, sem prever o futuro

Estudo do canadense evita usar a história para fazer previsões

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Um singular libelo contra a hipocrisia

Em Junky, que ganha reedição, William Burroughs trata da vida na sociedade paralela dos dependentes e traficantes 

 

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A LITERATURA COMO O LUGAR DE “EXISTIR”

 

No breve A Vida Privada das Árvores, de Alejandro Zambra, é a convivência com a ficção que revela as personagens

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A história repetida, de fato, como farsa

De volta às livrarias, O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler, dialoga com Dostoievski ao enfocar o horror do stalinismo

 

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Em torno da construção de si

A Filosofia de Michel Foucault, de Esther Díaz, analisa o vigoroso pensamento do francês

 

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Um senhor operário da palavra

O cubano Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), cuja obra completa vem sendo editada na Espanha, buscou, ao longo de sua trajetória, a renovação da prática e da doutrina das narrativas literárias

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domingo, 31 de março de 2013

Arte e realidade - Lee Siegel

Lee Siegel
 
NOVA JERSEY - Ainda precisamos da arte? Embora me horrorize, a pergunta me ocorre cada vez mais. Primeiro, devo dizer que, sem a arte, minha vida não teria sentido. O que a leitura de literatura séria, o desfrute de artes plásticas e teatro sérios fizeram por mim quando eu era criança foi me ensinarem a não aceitar os dados concretos da vida. A arte é um testemunho de todas as barreiras que a sociedade erige diante do indivíduo. A arte nos diz que coisas não precisam ser do jeito que são. Ela nos diz que nada, nem classe, nem dinheiro, nem pedigree, pode esmagar um dom natural. Ela nos diz que, apesar de meros mortais, podemos criar do nada algo belo e duradouro.

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Peitos pelo progresso - João Ubaldo Ribeiro


JOÃO UBALDO RIBEIRO - O Estado de S.Paulo

Como já tive oportunidade de comentar aqui diversas vezes, Itaparica sempre esteve na vanguarda e não raro puxou o bonde nacional. Assim foi quando, depois de os aturarmos durante quase um ano, na época do padre Vieira, enchemos o saco de tantos vanderdiques e vanderleis e botamos os holandeses da ilha para fora - e tudo às carreiras, tanto assim que vários ficaram para trás, para usufruto das conterrâneas mais necessitadas ou mais assanhadinhas, assim se originando as flores que são nossas mulatas de olhos verdes, as quais vem gente de todo o mundo para conhecer. Quase dois séculos mais tarde, se não fosse a ilha, talvez não houvesse independência, pois a convicção dos historiadores sérios é de que o grito do Ipiranga não passou de gogó e sair mesmo no tapa com os portugueses foi na ilha e redondezas.

domingo, 24 de março de 2013

Você tem nome de quê? - HUMBERTO WERNECK

Rendeu marola a conversa da semana passada, em torno de nomes de gente que são também nomes de coisa, bicho ou vegetal. Como o guilherme que o Guilherme usa na carpintaria. Poucas reclamações: um Bernardo não gostou de se saber xará daquele berloque da anatomia masculina, e uma Cecília, ao ver-se no balaio das serpentes, só faltou me picar. Duas Betes perguntaram que jogo é esse originado do beisebol. Talvez o "bete (ou bente) altas" da minha infância, em que o desafio era derrubar com a bolinha a base adversária, tripé armado com gravetos. Não tem no Houaiss, mas eu estive nos anos 50 e dou fé.

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O Plano Borges - João Ubaldo Ribeiro

João Ubaldo Ribeiro - O Estado de S.Paulo
 
Pouco mais de meio-dia, no aclamado boteco Tio Sam, tudo parece estar de acordo com a filosofia do proprietário do estabelecimento, ou seja, a normalidade. O domingo não se apresenta dos mais gloriosos, mas não chove e, a cada trinta segundos, passa uma bela moça ou formosa senhora, a caminho da praia. Às mesas do Tio Sam e do boteco que lhe é vizinho, os coroas de sempre - nenhum dos quais jamais precisou de Viagra ou semelhante, mas sempre tem um amigo que precisa - se postam tão perto quanto possível da calçada, para desfrutar da paisagem e comentar as qualidades organolépticas das desfilantes. Amavelmente cafajestes, denominam isso "apreciar o cânter" - e o cânter aqui desta calçada leblonina nunca decepciona os aficionados.

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Baboseiras - Luis Fernando Verissimo

O Estado de S.Paulo

O motoboy entregou o pacote de cartas e disse:
- Ele falou que tinha resposta.
- Espera - disse ela. E pôs-se a examinar as cartas. Procurava uma em especial, que não encontrou. Fez um sinal para o motoboy aguardar enquanto telefonava.
- Alô...
- Amauri, cadê a carta do ursinho?
Era uma das primeiras cartas que ela tinha lhe mandado. Ainda eram namorados. Uma carta toda escrita como se fosse de uma criança para o seu ursinho de pelúcia.
- Eu mandei. Não mandei?
- Não. E se você não mandar a carta do ursinho eu não mando as suas.
- Heleninha...
- Não tem "Heleninha", Amauri. Ou você manda todas as minhas cartas ou eu começo a mostrar as suas. Sou capaz até de publicá-las. Quero ver como fica a sua reputação no meio.
- Eu pensei em guardar pelo menos uma carta sua, Heleninha.
- Logo a mais ridícula? Devolve a minha carta, Amauri. Nosso trato foi esse.
Todas as cartas.
- Deixa eu ficar só com esta. É a minha favorita.
- Eu sei o que você está pensando, Amauri. Quer ficar com a carta para me chantagear depois.
- Chantagear, Heleninha?!
- Chantagear. Eu conheço você.
- Heleninha! Eu acho esta carta linda. Uma lembrança do tempo em que a gente se amava.
- Não banca o sentimental comigo, Amauri. Essa carta é só um exemplo das baboseiras que e gente diz e escreve quando acha que o amor nunca vai acabar. Mas o amor acaba e fica a baboseira. Me devolve essa carta, Amauri!
- Heleninha, você lembra de como eu chamava você? Na cama?
- Eu não quero ouvir!
- Lembra? Está certo, era baboseira. Mas era bonito. Era carinhoso. Eu era o seu ursinho e você era a minha...
- Amauri, manda essa carta ou eu publico as suas. Já sei exatamente para quem mandar a primeira.
- Está bem, Heleninha. Manda o motoboy de volta.

Zuneide pensou: não dá mais. Morar nesta cidade, não dá mais. Não vejo mais o Ique, não sei nada da vida dele. E todas as noites é este suplício, nunca sei se ele vai voltar pra casa ou não, se está vivo ou morto. Dizem que morre um motoboy por dia na cidade. Todos os dias uma mãe perde um filho nesta cidade. Se o Ique ainda fosse procurar outra coisa pra fazer. Mas não. Trata aquela moto como se fosse um bicho de estimação. À noite, a moto fica ao lado da cama dele. Dorme com ele. Vou tentar convencer o Ique a voltar para São Carlos. Respirar outros ares. Antes que ele morra e me deixe.

- Não dá mais, doutor Amauri. Esta cidade está me deixando maluco. Sabe que no outro dia, quando me dei conta, estava correndo pela calçada e buzinando? A pé, na calçada, e buzinando para os outros pedestres saírem da frente. Bi, bi, bi. Olha que loucura.
- Você acha que isso pode ter alguma coisa a ver com os problemas em casa. Com a Mercedes?
- Não sei. Nosso amor acabou, doutor. Não tem mais sexo, não tem mais nada. Na outra noite eu chamei ela por um apelido que a gente usava quando era recém-casados, eu era Pimpão e ela era Pimpinha, e ela deu uma gargalhada. Não se lembrava mais. E ela também está enlouquecendo, doutor. Agora deu para dizer que se eu não comprar uma TV digital ela se mata. Vou dizer para ela vir consultar com o senhor tam...
Tocou o telefone e Amauri pediu licença para atender.
- Alô? Sim, Helena. Não chegou? Eu mandei pelo motoboy perto do meio-dia. Mandei, Helena. Por que eu iria mentir? Deve ter acontecido alguma coisa com o motoboy.

Só em casa, depois de deixar o Ique no hospital, Zuneide descobriu a carta no bolso do blusão do filho. Uma carta carinhosa, que começava assim: "Querido Ursinho". Ele tinha uma namorada e ela não sabia! O nome dela era Heleninha. Uma boa menina, ingênua, pura, que obviamente o amava muito, a julgar pela carta. Preciso encontrar um jeito de avisá-la de que o Ique teve um acidente, pensou Zuleide. Será uma maneira de conhecê-la, também. De conversarmos, de combinarmos a ida deles para São Carlos, para outros ares, depois do casamento. Zuneide leu e releu a carta várias vezes. Que coisa bonita. Que coisa carinhosa. No dia seguinte ela diria ao Ique que ainda não conhecia a Heleninha mas já gostava dela.

- Amauri, você pediu. Vou começar a distribuir as suas cartas.
- Heleninha...
- Você mentiu. O tal motoboy não apareceu com a minha carta.
- Heleninha...
- Prepare-se para o pior, Amauri.

sábado, 23 de março de 2013

SABÁTICO

 
A ARTE COMO UM JOGO DE ESPELHOS

Coletânea reúne textos nos quais Milan Kundera aborda música, literatura, pintura ou teatro para definir a si mesmo


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REFLEXÕES SOBRE UMA REVOLUÇÃO


Em Mercadores de Cultura, que sai no País no fim de abril, John B. Thompson traça um vasto painel do mercado editorial americano e inglês; aqui ele discute o tema de forma ampla, incluindo o Brasil


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A INDÚSTRIA DE ‘CISNES NEGROS


Leia trecho de um capítulo no qual o autor analisa o funcionamento das editoras comerciais


 

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UMA RARA COLEÇÃO, FEITA COM ALEGRIA


Com 45 mil volumes, num extraordinário conjunto de primeiras edições, manuscritos, mapas, revistas, etc., a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin abre neste sábado sua nova sede


 

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