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domingo, 14 de julho de 2013

O capitão Horácio - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

ESTADÃO - 14/07/2013



Tive um caso com o capitão Horácio por anos. Até resolver me curar

— Esta é a minha esposa, Rute...

— Humm. Simpática. — Ela é uma mulher fantástica. Estamos casados há 25 anos.

— E estes são...— Os filhos. Gustavo e Leinha. Foi a Leinha que nos deu a única neta. Olha só, que amor...

— Que beleza!

— Maria Rita. Três anos. A queridinha do vovô.

— E este?

— Ah, este é o capitão Horácio.— Capitão Horácio?— O amor da minha vida.

— O quê?— Do tempo em que eu era homossexual. Tivemos um caso durante sete anos, até eu resolver me curar.

— Você era homossexual e se curou?— Sim. Foram sete anos intensos com o capitão Horácio, mas senti que aquilo não era pra mim.

— E como você se curou?— Não foi fácil. Procurei psicólogos, psicanalistas, grupos de apoio, orientação religiosa... Finalmente me sugeriram que experimentasse a homeopatia.

— Homeopatia?!— Chá de cipó amarelo. — E deu certo?— Tiro e queda.— Esse chá...

— Tomo todos os dias, depois do almoço. O cipó amarelo vem da Amazônia. Os índios tomam desde pequenos, para prevenir.

— Mas...você carrega uma foto do capitão Horácio na carteira...

— Foi um período importante na minha vida, que eu não quero esquecer.— E como foi a separação?

— Amigável. Ele era uma pessoa muito distinta. Espiritual. E atlético, maratonista. Ou era, quando nos conhecemos.

— Não foi um rompimento traumático, então?

— Não. Ele entendeu minha posição, nos despedimos... E nunca mais se viram?

— Nunca. Não sei que fim ele levou. Ou que cara tem hoje. Certamente não é mais a da foto.

— Quer dizer que existe cura para o homosexualismo? — Existe. As pessoas ficam fazendo pouco desse deputado Feliciano, mas existe. Chá de cipó amarelo da Amazônia. Dou a receita para quem quiser.

— E é tiro e queda?

— Tiro e queda.

domingo, 9 de junho de 2013

Texto e contexto - LUIS FERNANDO VERISSÍMO

O GLOBO - 09/06/2013
Na peça "Ricardo II", de Shakespeare, há uma fala famosa que é muito citada como um hino patriótico à InglaterraQuem a diz é o duque John de Gount, tio do rei Ricardo II e pai de Henry Bolingbroke, desafeto exilado do rei, que acabará derrubando do trono. John de Gount, à beira da morte, exalta as riquezas e as glórias do seu país ("este outro Eden", "esta pedra preciosa posta no mar prateado", a salvo "da inveja de terras menos felizes", "este lote abençoado, este chão, este reino, esta Inglaterra") num tom de entusiasmo crescente que empolga até quem não é inglês - se lido até a metade. O resto da fala, raramente citada, é um lamento pelo declínio desta maravilha, cuja grandeza o rei está dilapidando. "Esta Inglaterra acostumada a conquistar, hoje é vergonhosamente derrotada por si mesma", diz Gount, que termina desejando que "o escândalo desapareça junto com a minha vida, alegrando minha morte iminente".    
Já contei (umas cem vezes) que vi o Millôr Fernandes levantar uma plateia num encontro literário em Passo Fundo com a leitura de um texto de candente defesa da democracia e dos direitos humanos, e depois da ovação revelar que acabara de ler o discurso de posse do general Médici na Presidência da República, quando se inaugurava o período mais escuro da ditadura. Um período em que com frequência o discurso do poder contrastava com a realidade à sua volta, e o texto era desmentido pelo contexto. A aula do Millôr foi sobre a força autônoma da retórica, capaz de mobilizar uma multidão que ignora seu contexto.

Mas pior do que isto é quando o contexto é conhecido e mesmo assim as palavras compõem outra realidade, e empolgam e mobilizam do mesmo jeito. A história brasileira está cheia de exemplos do triunfo da oratória bacharelista sobre a realidade do momento, do dito sem a menor relação com o feito. Para ser justo com o Médici e o autor do seu discurso, é preciso reconhecer que em todo discurso de posse presidencial há um desencontro parecido entre intenção e realidade.

Quem não se lembra do discurso de posse do Collor? Shakespeare tem outros exemplos de textos em que uma parte se vira contra a outra, como a exaltação que vira lamento de John de Gount.

O mais notório é a fala de Marco Antonio sobre o corpo de César assassinado, que começa dando razão aos assassinos e termina incitando a massa a matá-los. Em outro trecho da peça alguém diz que se deve ter muito, mas muito cuidado com os bons oradores.

domingo, 2 de junho de 2013

Touradas - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

O GLOBO - 02/06/2013

A alma ibérica se divide em duas, uma mais caliente e a outra menos. Portugal é uma Espanha ponderada. A divisão está evidente na tourada, essa metáfora para todas as dicotomias humanas. Na Espanha matam o touro, em Portugal apenas o irritam. Ainda não se chegou a um acordo sobre o quê, exatamente, toureiro e touro simbolizam. A metáfora não é clara. Razão x instinto? Cultura x natureza? Civilização x força bruta? Ou – como li em algum lugar – tudo não passa de um ritual de sedução, com o Homem subjugando a Mulher, a Besta Primeva e todos os seus terrores, numa espécie de tango sangrento em que não falta uma penetração no fim? Ou o toureiro gracioso é a mulher estilizada e o touro resfolegante uma paródia de homem? Enfim, seja o que for que se decide numa arena de touros, os espanhóis terminam o ritual, os portugueses deixam pra lá.

Na Argentina, os líderes militares da época da repressão foram processados e as atrocidades cometidas pela ditadura punidas, ou pelo menos amplamente discutidas. No Chile, aos poucos a história ainda mal contada do governo Pinochet se incorpora à história oficial do país – para ser reconhecida e expiada, para que reconciliação não signifique absolvição e para que nunca mais se repita. No Brasil, a repressão foi menos assassina do que na Argentina e no Chile – se é que se pode falar em graduações de barbaridade – e ninguém ainda teve que dar muitas explicações. No caso, a simpática irresolução portuguesa desserve a História. Pois, se o touro continua vivo, o que há para expiar? Aqui, até agora, venceu o deixa-pra-lá-ismo.

Já que temos que ser ibéricos, o que é melhor, ser português ou espanhol? Os espanhóis parecem viver mais perto do coração selvagem da vida. Os portugueses preferem menos drama e menos sangue. Voltando ao touro: uma tourada espanhola sempre acaba com o animal morto, com uma resolução. Uma tourada portuguesa pode ser um espetáculo emocionante, mas o touro sobrevive e nada se resolve. E ainda se discute se convém irritar o touro.

domingo, 14 de abril de 2013

Oásis - Luis Fernando Verissimo

Luis Fernando Verissimo
 
Numa recente London Review of Books o escritor irlandês Colm Toíbín desenvolve uma tese instigante sobre três autores, Fernando Pessoa, Jorge Luis Borges e Flann O'Brien, este último um contemporâneo de James Joyce que passou a vida inteira ao mesmo tempo venerando e cutucando o autor de Ulysses. Os três são de cidades - Lisboa, Buenos Aires e Dublin - situadas à margem da literatura mundial, cidades que Toíbín descreve como desertos culturais, em contraste com os centros de criação da sua época como Paris e Londres. É estranho Toíbín dizer isto sobre a Irlanda, que, além de Joyce, produziu Beckett, Shaw, Swift, Yeats, etc. e mais prêmios Nobel de Literatura por metro quadrado do que qualquer outro país do mundo. Mas a criação na Irlanda, de um jeito ou de outro, sempre foi um reflexo do domínio inglês, tanto da sua política quanto da sua cultura, e os premiados irlandeses foram todos fazer sua reputação e ganhar sua vida em Londres enquanto Dublin ficava como a capital da memória, como disse Lawrence Durrell de Alexandria, um lugar para ser evocado no exílio mais do que habitado.

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domingo, 24 de março de 2013

Baboseiras - Luis Fernando Verissimo

O Estado de S.Paulo

O motoboy entregou o pacote de cartas e disse:
- Ele falou que tinha resposta.
- Espera - disse ela. E pôs-se a examinar as cartas. Procurava uma em especial, que não encontrou. Fez um sinal para o motoboy aguardar enquanto telefonava.
- Alô...
- Amauri, cadê a carta do ursinho?
Era uma das primeiras cartas que ela tinha lhe mandado. Ainda eram namorados. Uma carta toda escrita como se fosse de uma criança para o seu ursinho de pelúcia.
- Eu mandei. Não mandei?
- Não. E se você não mandar a carta do ursinho eu não mando as suas.
- Heleninha...
- Não tem "Heleninha", Amauri. Ou você manda todas as minhas cartas ou eu começo a mostrar as suas. Sou capaz até de publicá-las. Quero ver como fica a sua reputação no meio.
- Eu pensei em guardar pelo menos uma carta sua, Heleninha.
- Logo a mais ridícula? Devolve a minha carta, Amauri. Nosso trato foi esse.
Todas as cartas.
- Deixa eu ficar só com esta. É a minha favorita.
- Eu sei o que você está pensando, Amauri. Quer ficar com a carta para me chantagear depois.
- Chantagear, Heleninha?!
- Chantagear. Eu conheço você.
- Heleninha! Eu acho esta carta linda. Uma lembrança do tempo em que a gente se amava.
- Não banca o sentimental comigo, Amauri. Essa carta é só um exemplo das baboseiras que e gente diz e escreve quando acha que o amor nunca vai acabar. Mas o amor acaba e fica a baboseira. Me devolve essa carta, Amauri!
- Heleninha, você lembra de como eu chamava você? Na cama?
- Eu não quero ouvir!
- Lembra? Está certo, era baboseira. Mas era bonito. Era carinhoso. Eu era o seu ursinho e você era a minha...
- Amauri, manda essa carta ou eu publico as suas. Já sei exatamente para quem mandar a primeira.
- Está bem, Heleninha. Manda o motoboy de volta.

Zuneide pensou: não dá mais. Morar nesta cidade, não dá mais. Não vejo mais o Ique, não sei nada da vida dele. E todas as noites é este suplício, nunca sei se ele vai voltar pra casa ou não, se está vivo ou morto. Dizem que morre um motoboy por dia na cidade. Todos os dias uma mãe perde um filho nesta cidade. Se o Ique ainda fosse procurar outra coisa pra fazer. Mas não. Trata aquela moto como se fosse um bicho de estimação. À noite, a moto fica ao lado da cama dele. Dorme com ele. Vou tentar convencer o Ique a voltar para São Carlos. Respirar outros ares. Antes que ele morra e me deixe.

- Não dá mais, doutor Amauri. Esta cidade está me deixando maluco. Sabe que no outro dia, quando me dei conta, estava correndo pela calçada e buzinando? A pé, na calçada, e buzinando para os outros pedestres saírem da frente. Bi, bi, bi. Olha que loucura.
- Você acha que isso pode ter alguma coisa a ver com os problemas em casa. Com a Mercedes?
- Não sei. Nosso amor acabou, doutor. Não tem mais sexo, não tem mais nada. Na outra noite eu chamei ela por um apelido que a gente usava quando era recém-casados, eu era Pimpão e ela era Pimpinha, e ela deu uma gargalhada. Não se lembrava mais. E ela também está enlouquecendo, doutor. Agora deu para dizer que se eu não comprar uma TV digital ela se mata. Vou dizer para ela vir consultar com o senhor tam...
Tocou o telefone e Amauri pediu licença para atender.
- Alô? Sim, Helena. Não chegou? Eu mandei pelo motoboy perto do meio-dia. Mandei, Helena. Por que eu iria mentir? Deve ter acontecido alguma coisa com o motoboy.

Só em casa, depois de deixar o Ique no hospital, Zuneide descobriu a carta no bolso do blusão do filho. Uma carta carinhosa, que começava assim: "Querido Ursinho". Ele tinha uma namorada e ela não sabia! O nome dela era Heleninha. Uma boa menina, ingênua, pura, que obviamente o amava muito, a julgar pela carta. Preciso encontrar um jeito de avisá-la de que o Ique teve um acidente, pensou Zuleide. Será uma maneira de conhecê-la, também. De conversarmos, de combinarmos a ida deles para São Carlos, para outros ares, depois do casamento. Zuneide leu e releu a carta várias vezes. Que coisa bonita. Que coisa carinhosa. No dia seguinte ela diria ao Ique que ainda não conhecia a Heleninha mas já gostava dela.

- Amauri, você pediu. Vou começar a distribuir as suas cartas.
- Heleninha...
- Você mentiu. O tal motoboy não apareceu com a minha carta.
- Heleninha...
- Prepare-se para o pior, Amauri.

domingo, 17 de março de 2013

Papa inesperado - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

 Publicado em:

O Globo - 17/03/2013

Eu sei que ninguém mais diz coisas como “Pelas barbas do profeta!”, mas acho que deveríamos ter uma expressão parecida pronta para os casos de grandes surpresas (minha sugestão: “Pelas coxas da Beyoncé!”) como a eleição de um papa inesperado. Guardadas as óbvias diferenças, a escolha do argentino Jorge Mario Bergoglio equivale a um daqueles prêmios Nobel de Literatura dados a um autor que só dezessete pessoas no mundo conhecem, e dez estão mentindo. Na Venezuela corre a versão de que a escolha de Bergoglio foi resultado de um pedido feito pessoalmente a Deus pelo Hugo Chávez. Pode ser verdade, mas o que não contam é que a primeira reação do Senhor ao ouvir o nome do argentino foi: “Quien?”. As piadas proliferam. Já ouvi que, junto com a euforia, nota-se um certo desapontamento na Argentina pelo fato do novo papa ter preferido se chamar Francisco e não Diego Armando. A eleição do Jorge Mario, junto com os gols do Messi, espalham um certo temor pelo mundo: o de que a certeza argentina da sua superioridade sobre todos nós pode não ser megalomania!

É um pouco injusto evocar agora o suposto apoio ao regime, ou a suposta omissão, do novo papa durante a ditadura militar no seu país. A Igreja argentina sempre teve um poder junto à classe conservadora e o pensamento dos seus líderes muito maior do que a Igreja brasileira junto à nossa elite, por exemplo. O que de certa forma a exime, se não a redime. É compreensível que ela tenha sido cautelosa na preservação do seu poder em meio à selvageria, e que hoje se confunda isto com colaboração. Mas também é verdade que um regime repressor tão extraordinariamente brutal como foi o argentino deveria ter excluído qualquer prurido ou desculpa. Mas, enfim, os generais da repressão estão sendo responsabilizados e os torturadores estão indo para a cadeia (na Argentina, pelo menos) e o papa Francisco tem acesso direto ao ouvido de Deus, se sentir a necessidade de contrição. E se conseguir que o Hugo Chávez se cale.

CRÔNICA VOVÔ

Nossa neta Lucinda tem quatro anos e meio e sabe tudo. Há dias ela me mostrava a maneira correta de comer uvas. Meu argumento, de que já comia uvas setenta anos antes de ela nascer, não convenceu. Eu comia errado.

A loucura de Deus - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Publicado em:
 
 
Pedro era a pedra sobre a qual se ergueria sua igreja, disse Jesus, no primeiro trocadilho registrado pela História, segundo o Millôr. Mas foi Paulo quem a construiu. O apóstolo propagador levou o cristianismo a todos os cantos do mundo conhecido e, na sua pregação, definiu o que havia de diferente na nova religião. Opondo-se a Pedro e aos cristãos primitivos de Jerusalém, Paulo marcou a distância entre a nova crença e suas raízes judaicas. E para marcar sua distância da filosofia grega dominante proclamou o cristianismo livre do racionalismo e do empirismo. "Sapientiam sapientum perdam" - destruirei a sabedoria dos sábios - disse Paulo, referindo-se a todas as formas de pensamento que a religião chegava para deslocar.

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Na sua primeira epístola aos Coríntios, Paulo escreveu, pelo menos na minha edição da Bíblia, que a "loucura" de Deus era mais sábia do que a sabedoria de todos os sábios, "loucura" significando o descompromisso da fé com a lógica. Nascia aí a discórdia entre a Igreja e a Ciência que atravessaria os séculos.

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Se Pedro foi o pai da Igreja como entidade mística, Paulo foi o pai da Igreja como entidade política e prática, e desde então as duas tradições competem ou se completam na luta contra o secularismo e a razão científica. É a força mística, a "loucura", da Igreja que a mantém viva até hoje, é a força política que ela mobiliza nas suas batalhas históricas para manter-se relevante. Suas lutas contra heréticos como Galileu eram menos para defender conceitos consagrados como o Universo geocêntrico e mais para preservar poder político ameaçado, o que equivale a dizer que em muitos casos o obscurantismo da Igreja era pragmatismo mal pensado.

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A Inquisição não aconteceu como terror contra agentes do Diabo e descrentes da Fé verdadeira, foi uma prolongada encenação de poder, uma mise-en-scène política com turnê internacional. A origem do terror não foi, portanto, a Igreja do simples e místico Pedro mas a do intelectual e craque em marquetchim Paulo

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O admirável é que a força mística da Igreja de Pedro tenha sobrevivido a todas as derrotas políticas da Igreja de Paulo. Agora mesmo se discute a relevância de uma Igreja que se posiciona contra o uso de preservativos que podem evitar doenças e morte e contra experiências genéticas que podem salvar vidas - em nome de uma sacralização da vida. Dá quase para dizer que a "loucura" de Deus, fora do contexto em que Paulo a usou como sabedoria superior à razão e à lógica, é loucura mesmo.

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Alguns dos novos pecados capitais publicados pelo Vaticano são surpreendentes. Agora é pecado ficar rico demais. O Vaticano só não especificou quanto é demais, talvez incerto sobre a sua própria riqueza. E perderam a oportunidade de transformar em pecado mortal, passível de uma eternidade no inferno, atender celular no cinema.

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As Igrejas de Pedro e de Paulo continuam competindo, como se viu na escolha do novo papa (estou escrevendo antes da fumaça branca) O que será mais temível, uma vitória de Pedro e dos simples em extinção ou uma vitória de Paulo e sua sede de relevância e poder, já que para as duas Igrejas o descompromisso com a lógica das "loucuras" de Deus é o mesmo?

domingo, 10 de março de 2013

Bolívar seria fã - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

O GLOBO - 10/03/2013

O baseball é aquele esporte em que os jogadores passam mais tempo ajustando o boné do que jogando. E o cricket consegue ser ainda mais chato. Claro, esta é a opinião de um preconceituoso assumido, que prefere a plasticidade e a ação contínua do futebol. E mesmo sendo jogos aborrecidos, o baseball e o cricket têm histórias curiosas, num contexto que tem menos a ver com esporte do que com política, imperialismo e os paradoxos do colonialismo cultural.

Os dois países americanos em que o baseball é mais popular, além dos Estados Unidos, são Cuba e Venezuela. Fidel foi jogador de baseball, Chávez não sei se jogou, mas era fã. Nos dois países mais anti-Estados Unidos da região o esporte nacional é o mais típico dos esportes dos Estados Unidos. É verdade que o gosto pelo baseball antecede os acidentes históricos que deram no antagonismo de hoje. O baseball de Cuba teve origem na ocupação do país pelos americanos no fim do século dezenove. Sobreviveu ao fim da ocupação e, mais tarde, ao fim da influência norte-americana, com a expulsão de Batista e a ascensão de Fidel. O baseball cubano nunca ligou para a História. Na Venezuela não houve ocupação norte-americana mas houve anos de intenso colonialismo cultural numa elite e numa classe média voltadas para exemplos e hábitos norte-americanos, parte da mentalidade desafiada pelo bolivarismo chavista. Mas a popularidade do baseball permaneceu intocada. Bolívar, presume-se, também seria fã.

O cricket e o futebol são – simplificando – os esportes da aristocracia e do proletariado inglês. Era de se esperar que em todo o “commonwealth” que restou do imperialismo britânico o cricket fosse execrado como símbolo da presença imperial e da prepotência do homem branco. Mas por toda a Ásia e a Oceania, até em lugares em que o império nunca esteve, o cricket é popular. Seus melhores jogadores são ídolos nacionais. Suas regras e excentricidades, como partidas que duram uma tarde inteira com intervalo para o chá, são as mesmas da ex-metrópole. E os times do ex-império constantemente humilham times ingleses, e ninguém chama de vingança. Vá entender.

Agora, que são chatos, são. 


FONTE

Uma ciência - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

O ESTADÃO - 10/02/2013

Decidiram fazer um churrasco para as famílias se conhecerem. Do lado da Bea havia seu pai, sua mãe, um irmão mais moço e uma tia solteira. Do lado do noivo, Carlos Alberto, mãe viúva, duas irmãs mais velhas, sendo uma com uma namorada, e um irmão com a mulher e dois filhos menores. O churrasco seria na casa da Bea, que tinha um pátio grande com churrasqueira, e o Carlos Alberto se prontificou: seria o assador.

Acertaram a logística do encontro. Os donos da casa forneceriam as saladas e a cerveja, os visitantes trariam a carne, a sobremesa e os refrigerantes, inclusive zeros para quem estivesse controlando a glicose. E o assador. Tudo transcorreu bem. 


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quinta-feira, 7 de março de 2013

Elefante na sala - Luis Fernando Veríssimo

 
 
A única maneira de conviver com um elefante na sala é fingir que ele não está ali. Ignorá-lo. Se algum visitante desavisado perguntar o que um elefante está fazendo na sua sala, a resposta padrão deve ser "Que elefante?". No Brasil nos acostumamos a conviver com elefantes na sala. Exemplo: só quase 30 anos depois do fim do período de exceção inaugurado em 1964 uma comissão começa a procurar a verdade sobre o que realmente aconteceu durante o período. Por quase 30 anos este elefante específico não mereceu atenção e viveu entre nós como um parente apenas vagamente incômodo. A tal comissão não vai punir, antes tarde do que nunca, os desmandos da época. Os criminosos de então estão anistiados, mesmo identificados não sofrerão castigo ou sequer reprimendas da sua própria corporação. Mas pelo menos o elefante está sendo reconhecido. E citado.

Outros elefantes continuam ignorados, e continuam na sala. Hoje não há nenhuma dúvida de que o cigarro mata e o fumo é a principal causa do câncer no Brasil e no mundo. No caso do Brasil só o volume de impostos que a indústria do fumo paga ao governo explica que não haja um combate mais aberto e decisivo ao vício assassino. Em alguns casos a indústria tem até vantagens fiscais. Já o volume de impostos não pagos pelas religiões organizadas explica a proliferação de Igrejas e seitas no País e a presença de pastores evangélicos brasileiros nas listas dos mais ricos do mundo. Mas a isenção dada ao negócio da religião é um dos assuntos intocáveis do País, um elefante enorme cuja presença na sala nem a imprensa nem ninguém se anima a reconhecer.

Potência. Contam que o Stalin, avisado de que determinada decisão iria desagradar ao Vaticano, teria perguntado "E quantas divisões tem o papa?". Descontando-se a Guarda Suíça, que só existe para fins decorativos, o papa, como se sabe, não tem tropas. Mas o Stalin se espantaria com a demonstração de poder do Vaticano dada pela cobertura da renúncia do papa e das especulações sobre o seu sucessor. Páginas e páginas de jornal, horas e horas de televisão - um triunfo de potência desarmada. A União Soviética tinha as divisões. Não tinha as relações públicas da Igreja.

domingo, 3 de março de 2013

Dama de computador -LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

O GLOBO - 03/03/2013

Depois de saber que o Chico Buarque também fica jogando paciência no computador em vez de trabalhar, me senti desagravado. Eu não estou perdendo tempo ou protelando o momento de começar a escrever, quando jogo paciência. Estou, digamos assim, fazendo alongamento do músculo cerebral. Ou distraindo o cérebro enquanto a verdadeira criação se dá em outro nível, no in-consciente. E, se isso parecer conversa de vagabundo para se justificar, agora tenho um argumento irrespondível: o Chico Buarque faz a mesma coisa!

Há muitos jogos no meu computador, com vá-rios graus de complexidade, mas até agora só aderi à paciência, o mais fácil. Um dia tentei jogar dama no computador. Eu fui bom em dama quando era garoto. Nunca progredi da dama para o xadrez, talvez pela mesma razão que me impediu de gostar de matemática, entrar em labirintos e pensar muito profundamente sobre os buracos negros. (Dizem que dama é xadrez para as almas simples). Joga-se dama de computador não contra o computador, mas contra outro jogador que esteja na linha, movimentando-se uma peça no tabuleiro e esperando que o adversário, em alguma parte do mundo, movimente uma sua. Mas não consegui ir além de duas ou três peças movimentadas. Estava jogando bem, mas tive que parar. Até agora não sei explicar minha sensação diante daquele adversário que eu não via, que não sabia onde estava ou que cara tinha, embora estivéssemos, para todos os efeitos, cara a cara. Era como jogar com um fantasma. Mais do que isto: era como ter minha casa invadida por um membro daquela estranha seita, talvez escrava, cuja única função na vida é ficar esperando desafios anônimos no jogo de dama. Era isto: a sensação de uma cidadela invadida e de uma intimidade indesejada cada vez que o outro movimentava uma peça.

Abandonei o dama no meio do jogo e cliquei no paciência. Jogando paciência você às vezes se sente sacaneado pelo computador, que geral-mente permite uma vitória a cada cinco ou seis tentativas. Mas pode ao menos ter certeza de que não é nada pessoal.

CRONICA-VOVÔ

A Lucinda, que tem quatro anos e meio, frequentemente nos premia com abraços e beijos extemporâneos. Mas também tem seus dias rebeldes, quando a qualquer aproximação de avô ou avó a fim de agarramento ordena: "Me deixem em paz."

No outro dia cheguei perto dela pensando num abraço e, se tivesse sorte, alguns beijos e ouvi seu aviso:

-Não se atreva.

Não se atreva! É claro que obedeci. l

Estou distraindo o cérebro enquanto a verdadeira criação se dá em outro nível. E, se isso parecer conversa de vagabundo, agora tenho um argumento irrespondível:
o Chico Buarque faz a mesma coisa! 


FONTE 

Bolero - LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

O ESTADÃO - 03/03/2013


“Dormir avec vous madame
Dormir avec vous
C´est um merveilleux programe
Demandant surtout
Um endroit discret madame”

Charles Aznavour

Enfim um bolero, nest pas madame? Fui eu que subornei a orquestra. Agora podemos dançar juntos, eu sentindo os seus seios contra o meu peito, você sentindo as minhas medalhas. O bolero favorece a minha perna mecânica, ao contrário do tango, que também cultivo, mas só em teoria, senão eu caio na primeira rabanada.

O bolero também nos permite falar um no ouvido do outro, ao contrário dessas danças modernas, nas quais a única comunicação possível entre os pares é o sinal metafórico. Nenhuma conversa é tão privada e discreta quanto a de um homem e uma mulher dançando um bolero, o homem cuidando para não engatar os lábios num brinco ao mordiscar o lóbulo, onde a mulher é mais tenra, a mulher se permitindo dizer baixinho tudo que jamais diria em público, principalmente ao alcance dos ouvidos do marido. Existe um marido, pois não, madame?

Deve haver um marido, senão nada disto este salão, este bolero, seus seios contra o meu peito e a minha ereção tem sentido. O essencial numa sedução não é o sedutor nem a seduzida, é o marido. Todo o drama, toda a aventura, toda a glória e o prazer de uma sedução está centralizada no marido enganado.

Um caso sem marido é como um merengue sem recheio, uma casca farofenta encobrindo o nada. Seu marido está nos vendo? Está seguindo nossos passos, salivando como um cão raivoso? Sinto seus olhos na minha nuca, talvez medindo-a para um golpe de cutelo, como o que mata os touros que se recusam a morrer pela espada. Sim, também já fui toureiro.

O que a gente não faz para impressioná-las, hein madame? Posso desafiar o marido para um duelo, se lhe convier. Sim, sou do tempo dos duelos, quando a honra se lavava com sangue, nem que fosse apenas o sangue de um arranhão. Madame já adivinhou que sou um homem antigo.

Para mim, nada é mais apropriado do que um bolero acabar num duelo. Posso mandar seu marido para um hospital. Assim nem ele ficaria sem sua honra nem nós ficaríamos sem um marido enganado vivo para apimentar nossa união.

Como eu perdi minha perna? Foi numa dessas guerras, não me lembro mais qual. Foi em Waterloo, foi no Somme, foi no desembarque em Omaha Beach, quem se lembra? E tudo para impressioná-la, madame. Eu ainda não a conhecia, nem sentira os seus seios contra o meu peito, e já estava matando e morrendo e construindo civilizações para impressioná-la. Esta sedução não começa aqui, madame, começou há milhares de anos, quando nós descemos das árvores para a savana e passamos a andar de pé, com a genitália exposta.

Como isto não as impressionou muito, recorremos a outros meios de sedução. Brigas, guerras, atos de bravura e audácia intelectual, boleros. Tudo para dormir com você, madame. Dormir com você. Fazermos um programa maravilhoso num lugar discreto. Champanhe, alguns canapês, cortinas de veludo cerradas, um disco de vinil na vitrola (sou um homem antigo). Não queremos outra coisa além de dormir com você. Nunca quisemos. E... glubz! Desculpe madame. Acho que engoli o seu brinco. 
 

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Slogans - Luis Fernando Veríssimo

Durante 15 anos trabalhei como redator na MPM Propaganda. No fim dos 15 anos sabia tanto sobre como funciona ou deixa de funcionar a publicidade quanto no meu primeiro dia. Amiúde (sempre quis usar a palavra "amiúde"!) me surpreendia com o resultado de uma campanha publicitária ou de marquetchim. Não entendia como, muitas vezes, boas campanhas não davam resultado enquanto outras, medíocres, tinham efeito imediato. Mas mesmo sem, literalmente, saber o que eu estava fazendo durante os 15 anos, foram 15 anos, e alguma coisa eu aprendi. 

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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Brigadeiros - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Cena: festa de aniversário de criança. Dois pais lado a lado.

— Você é o pai da...

— Da Laura. Você?

— Do Miguel. Aquele ali com a espada, batendo na... Miguel! Não se bate assim nas pessoas. Pede desculpa!

— Nós não nos vimos no...?

— No aniversário da Luiza.

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Família Brasil - Luis Fernando Verisimo

O Estado de S.Paulo
 
Senhoras e senhores, obrigado. Antes de mais nada quero pedir desculpas pelo atraso. Tivemos um pequeno problema nos bastidores, um desentendimento, e o resultado é o que veem aqui no palco, um quarteto de cordas reduzido a dois. Nosso violoncelista não concordou com a mudança do programa de hoje, parte do meu projeto de popularização da música de câmara, com a substituição do quarteto número 8 em si menor, opus 59 de Beethoven por um arranjo para cordas de Ai Se Eu Te Pego e se recusou a entrar no palco.

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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Bilhar - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Luis Fernando Verissimo - O Estado de S.Paulo
 
 
Da série Poesia numa Hora Dessas?!

"E essa agora?

Se o que explodiu sobre a

Rússia mostrou alguma coisa

foi que meteoro não tem hora."

O mais assustador do meteoro que cruzou o céu da Sibéria e explodiu no ar como várias bombas atômicas é que ele chegou sem ser anunciado. Com todas as atenções voltadas para o outro asteroide, o que passou de raspão, o asteroide da Sibéria entrou pela porta dos fundos sem ser detectado. A desculpa é que era pequeno demais para chamar a atenção e por isso os alarmes não funcionaram. Nossa ilusão, até agora, era que qualquer detrito espacial que se aproximasse de nós seria identificado e rotulado, e sua trajetória calculada até o último milímetro com grande antecedência, o que nos daria tempo para preparar o espírito - ou usar nossos cartões de crédito até o limite - no caso da colisão com a Terra ser inevitável. Agora sabemos que qualquer coisa menor do que meio campo de futebol pode chegar de surpresa e explodir sobre nossas cabeças. Só nos faltava essa.


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domingo, 17 de fevereiro de 2013

Para a lua de Saturno - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

O ESTADÃO - 17/02

A Natureza está finalmente reagindo e pretende nos varrer da face da Terra?

Há momentos na vida em que o Homem (aí subentendida a Mulher também) chega assim a um promontório filosófico, de onde avista o caminho que já percorreu e o caminho que ainda precisa andar ou, se ele tiver sorte e aparecer um táxi, rodar. São momentos de grave introspecção em que o Homem faz um inventário de si mesmo seus sonhos, suas desilusões, suas possibilidades, e onde diabo enfiei o antiácido? e se faz perguntas. Valeu a pena? Devo continuar? Aproveito o promontório e me atiro? Quem sou eu e por que estou aqui falando sozinho? 


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Deus hipotético - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

O GLOBO - 17/02/2013

Um religioso dirá que não faltam provas da existência de Deus e da sua influência em nossas vidas. Quem não tem a mesma convicção não pode deixar de se admirar com o poder do que é, afinal, apenas uma suposição. A hipótese de que haja um Deus que criou o mundo e ouve as nossas preces tem sobrevivido a todos os desafios da razão, independentemente de provas. Agora mesmo assistimos ao espetáculo de uma empresa multinacional às voltas com a sucessão do comando do seu vasto e rico império, e o admirável é que tudo – o império, a riqueza e o fascínio dos rituais e das intrigas da Igreja de Roma – seja baseado, há 2000 anos, em nada mais do que uma suposição. 


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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

'Drones' e o papa - Luis Fernando Verissimo

Luis Fernando Verissimo - O Estado de S. Paulo
 
 

O "Drone" é um sonho de arma. Realiza o ideal de qualquer soldado, que é o de matar inimigos sem o risco de morrer também. O "Drone" é controlado a distância, sua "tripulação" nunca sai do chão e seus ataques são guiados, imagino, por comandos parecidos com os de um videogame. Foguetes e bombas são disparados dos "Drones" com simples toques dos dedões e os resultados aparecem na tela para serem comemorados. Como nos videogames.

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domingo, 10 de fevereiro de 2013

Outra carta da Dorinha - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Recebo outra carta da ravissante Dora Avante. Dorinha, como se sabe, não confessa a idade mas diz ser absolutamente falso que o número do seu primeiro telefone era 2, porque o 1 era do Alexander Graham Bell. Ela desistiu de desfilar como madrinha de bateria neste Carnaval depois do lamentável incidente, ainda não devidamente esclarecido, do ano passado, quando seu tapa-sexo engatou num agogô. Dorinha ainda não sabe o que vai fazer no carnaval, só sabe que quer manter uma distância segura de qualquer desfile, inclusive porque ainda não recuperou o tapa-sexo. Ela está até pensando em... Mas deixemos que a própria Dorinha nos conte. Sua carta veio, como sempre, escrita com tinha lilás em papel azul, cheirando a Oui! Oui!, um perfume banido em vários países.

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