Mostrando postagens com marcador HUMBERTO WERNECK. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador HUMBERTO WERNECK. Mostrar todas as postagens

domingo, 14 de abril de 2013

Aquele Joãozito - Humberto Werneck

HUMBERTO WERNECK - O Estado de S.Paulo
 
 
Um ano depois da morte do filho famoso, lá fui eu conhecer dona Chiquita, numa casa na Pampulha, em Belo Horizonte. Quando saí, horas depois, tratei de reter no papel um pouco do que me contara a mãe do Joãozito, quer dizer, João Guimarães Rosa, naquela tarde de 1968. Queixava-se da memória fraca - e no minuto seguinte se desmentia:

"Joãozito pegava o jornal e ficava perguntando ao pai o nome das letras. Ou os números pintados nos trens que passavam. O Florduardo achava uma graça, comprou lápis de cor e papel, fez assinatura do almanaque Tico-Tico. Quando abrimos os olhos, o Joãozito estava lendo e dando notícia de tudo. Tinha só 4 anos, um fenômeno."

LEIA AQUI

domingo, 24 de março de 2013

Você tem nome de quê? - HUMBERTO WERNECK

Rendeu marola a conversa da semana passada, em torno de nomes de gente que são também nomes de coisa, bicho ou vegetal. Como o guilherme que o Guilherme usa na carpintaria. Poucas reclamações: um Bernardo não gostou de se saber xará daquele berloque da anatomia masculina, e uma Cecília, ao ver-se no balaio das serpentes, só faltou me picar. Duas Betes perguntaram que jogo é esse originado do beisebol. Talvez o "bete (ou bente) altas" da minha infância, em que o desafio era derrubar com a bolinha a base adversária, tripé armado com gravetos. Não tem no Houaiss, mas eu estive nos anos 50 e dou fé.

LEIA AQUI

domingo, 17 de março de 2013

Xará de coisa - Humberto Werneck

Publicado em:

O Estado de S.Paulo

Se você se chama Lúcio e ouvir dizer que sua carne é muito apreciada, não vá logo se sentindo o tal. Considere a possibilidade de que o objeto da consagradora observação seja um xará seu, o lúcio, cujo nome se escreve assim, com minúscula, não por modéstia mas por tratar-se de substantivo comum que designa um tipo de peixe, aliás de boa família, a dos esocídeos, encontrado em rios e lagos europeus - cuja carne, informa o dicionário Houaiss, "é muito apreciada", tanto ou mais, quem sabe, que a dos Lúcios com maiúscula.

Agora suponha que o camarada (você?) se chama Guilherme e alguém lhe conte que os carpinteiros fazem com o guilherme o que bem entendem. Não se ofenda. Guilherme, no caso, é uma "ferramenta usada para fazer os filetes das portas, das junturas das tábuas, frisos de caixilhos etc." Sem você, ou melhor, sem guilherme, a carpintaria não seria o que é.

Já contei como costumo me perder quando vou ao dicionário, e eis aqui uma ilustração de minhas errâncias lexicais. Fui saber o que é "guilho" (já esqueci) - e o que me apareceu imediatamente acima do verbete, no Houaiss eletrônico? O guilherme, substantivo proveniente do francês guillaume (que é como se chamam os Guilhermes de lá), incorporado à língua portuguesa desde o ano de 1713. Foi aí que me perdi de vez, na insana garimpagem de nomes próprios que, sem desdouro de seus portadores, sejam também comuns. Não sei se com isso ganhou alguma coisa a minha cultura, como se sabe escassamente mobiliada, mas pelo menos fiquei em condições de poupar você de se embrenhar também em tão vadia investigação - até porque ela desemboca às vezes em surpresas pouco agradáveis.

Se você se chama Bernardo, por exemplo, saiba que o nome escolhido por seus pais pode significar - quem diz é o Houaiss, não eu - "indivíduo gordo ou estúpido". Ou, em Portugal, ser sinônimo "jocoso" (qual a graça?) de pênis. Console-se com o Gregório, que carrega a mesma desdita e a quem, aliás, o dicionário reserva pecha ainda mais constrangedora, sobre a qual prefiro silenciar.

Estela, além de estrela, designa uma "coluna ou placa de pedra em que os antigos faziam inscrições, geralmente funerárias". Cecília pode ser um arbusto e, ao contrário de todas desse nome que conheço, as serpentes também chamadas "cobra-cega" e "cobra-de-capim". Já beatriz é um peixe - mas não, como o lúcio, de carnes abordáveis, possuidora que é de "espinhos venenosos nas nadadeiras dorsal, anal e pélvica". Cuidado com a beatriz, portanto. O gonçalo, por seu turno, vulgo "bagre-de-água-doce", não faz mal a ninguém.

Ainda quando não vegetem, ao reino vegetal pertencem a marcela, a carolina, a mariana e angélica, todas elas arbustos. Sabia que a mônica é uma variedade de mandioca? E que o polivalente filipe tanto pode ser duas sementes grudadas como uma ave pardacenta e, na Bahia, um "saco, geralmente pequeno e de couro, no qual se guarda comida"? Um saco, o filipe!

Bete é "certo jogo infantil originado do beisebol". O estevão, sem o circunflexo que o humanizaria, pertence a dois reinos, o vegetal e o animal, podendo ser arbusto ou ave, esta de "vocalização alta e maviosa" e conhecida também por uma dezena de outros nomes, entre os quais "esteves", "pixororém" e "tico-tico-guloso".

A marta, além do mamífero de pele tão valorizada, é uma uva, e não qualquer: americana. Quanto à maria, esta você não só conhece como, não me entenda mal, certamente já comeu: aquele biscoito "de formato redondo e espessura muito fina". Redondo como o luís, a conceição, o mauro e nicolau, que são moedas, as três primeiras de ouro, e a última, coitada, de ordinário níquel.

Antes que você pergunte: não há nada que se chame Humberto com minúscula. Mas me lembro do corretor ortográfico, lusitano, de meu primeiro computador, um 286 movido a lenha. Quando não reconhecia uma palavra, oferecia alternativas. No caso de "Humberto", a sugestão era... "jumento". Ainda não sei se fico arrasado ou envaidecido.

domingo, 10 de março de 2013

Meu livro fantasma - Humberto Werneck

HUMBERTO WERNECK - O Estado de S.Paulo -



Ghost writer eu conhecia, é claro. Mesmo porque já me propuseram vestir lençol branco e arrastar correntes literárias, bancando a primeira pessoa em lugar de uma terceira, menos disposta às chatices da escrita. O que eu não conhecia é ghost book - até que me aparecesse um. Não qualquer um: livro fantasma de "minha" autoria.

Falo sério: tempos atrás, soube na Estante Virtual que um sebo de Belo Horizonte tinha à venda, por R$ 10, algo intitulado "O perfil no jornalismo", de Humberto Werneck. O abantesma ficou um tempo ali, depois sumiu - e eis que agora surge outro (ou será o mesmo?) em Simões Filho, município grudado em Salvador, à disposição de quem vá ao site Todaoferta e pague 25 reais. Um consolo saber que na Bahia me valorizei 150%.

Eu achava que Humberto Werneck era eu. Na verdade, é também eu. Só no Facebook tem mais dois - e, sendo um deles Júnior, há de haver ou ter havido um Sênior. No caso de "O perfil no jornalismo", cheguei a pensar no homônimo de quem falei na crônica "O Céu pode esperar", sobre o dia em que ouvi no rádio a notícia do falecimento de Humberto Werneck. Por pouco não faleci também - no ato ou tempos depois, quando topei com "meu" túmulo no Bonfim, em Belo Horizonte. Mas é pouco provável que o ocupante da tumba 143 da quadra 49 tenha escrito livros. Como 2º sargento da Polícia Militar de Minas, tinha mais o que fazer.

Vai ver então que sou xará de mim mesmo, cogitei - e estava certo: na Estante Virtual, informava-se que a obra à venda consistia em material utilizado em workshop, e workshops tenho feito por aí. Impossível saber quem foi o malandro que pegou meus textos de trabalho, distribuídos numa dessas ocasiões, e os vendeu no sebo. Imagino que tenha juntado as folhas com espiral, para dar à coisa um ar de livro. E eu que me julgava merecedor de encadernação menos vulgar. Ou será que acabei, ai de mim, na brochura? Para sabê-lo, só se adquirir "O perfil no jornalismo", de Humberto Werneck.
Comprar livro meu seria algo inédito na minha vida de autor. Paciência, alguém teria de fazê-lo. Que meu gesto vos sirva de exemplo! Como a transação seria feita na internet, eu não teria de passar pela cruel experiência de me encontrar espremido numa estante, regurgitante de ácaros e assolado pelos fungos. Já me aconteceu tantas vezes que criei calo na alma. Estou até pensando em lançar meu próximo livro num sebo, para queimar etapas. A vantagem, para o leitor, é não precisar ler, pois nesse tipo de comércio o livro em princípio já vem lido.

A primeira vez no sebo um autor não esquece. Não há como não pensar em rejeição, em não sentir-se como o bebê Moisés a boiar nas águas num cestinho. Não, é pior do que isso, pois quem abandona um recém-nascido não quer nada em troca, sejam 25 ou mesmo 10 reais.

Decidido: vou comprar. Pode vir a ser um bom investimento, se depois de morto alguém jogar sobre mim esta pá de cal literária: "De tudo o que publicou o finado, salva-se apenas 'O Perfil no jornalismo'". Mas será que valho 25 reais, minha atual cotação em Simões Filho, Bahia?

Não é pergunta que um autor se faça. Algo mais valioso está em jogo. Conta-se a história de um literato do terceiro ou quarto time que se deparou num sebo com uma de suas obras-primas. Trêmulo, pescou o volume e caiu em cima da dedicatória que fizera para um confrade, também do terceiro ou quarto time, ao qual era ligado não só pela subliteratura como por um recíproco rancor empapado de inveja - sentimento que entre escribas muitas vezes toma a forma de sorrisos e amabilidades. O desapreço pelo concorrente transparecia na espinhenta gelidez do advérbio: "Para fulano de tal, atenciosamente..." Razão de sobra, convenhamos, para que o destinatário tenha posto o presente à venda. Ultrajado, o autor comprou o refugo e o despachou de volta para o desafeto, "com renovadas atenções".
Será que o ex-proprietário de "O Perfil no jornalismo" deixou nome e endereço na folha de rosto dessa maçaroca?

domingo, 3 de março de 2013

Assunto cabeludo - Humberto Werneck

HUMBERTO WERNECK - O Estado de S.Paulo
 
A prudência recomendaria pôr de molho as barbas que há muito não cultivo, mas devo admitir que de uns dias para cá estou emaranhado nesse felpudo assunto. O que pensaria disso a minha mãe, que tanto pelejou para que o filho, bacharel em Direito, passasse ao largo das irrelevâncias? Se viva estivesse, já estaria morta. Espero que me perdoe. A esta altura, sou o único limão de que disponho para fazer a minha limonada, no eterno afã de me espremer & me exprimir.

LEIA AQUI

domingo, 24 de fevereiro de 2013

O Pedrão, a Leo e a Melinha - Humberto Werneck

HUMBERTO WERNECK - O Estado de S.Paulo
 
Dona Alzira está passada desde que leu no jornal essa história da exumação de Dom Pedro I (furo de reportagem, lembro a ela, do Edison Veiga e do Vitor Hugo Brandalise aqui no Estadão). Não só de Dom Pedro mas também de Dona Leopoldina e Dona Amélia, com as quais, sabemos todos, ele subiu ao altar, uma de cada vez, é claro. Só faltou sacarem da cova uma terceira Dona, Domitília de Castro, a Marquesa de Santos, com a qual o imperador andou subindo, não ao altar, mas ao nirvana carnal.

LEIA AQUI

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Cinzas do vício - Humberto Werneck

Humberto Werneck - O Estado de S.Paulo 
 
Ameacei contar, dois domingos atrás, como foi que cortei, sem um pingo de heroísmo, meus três maços diários de cigarro, no remoto ano 81 do século 20. Mas tiene muchas ramas el árbol de mi conversación (esta é do Pablo Neruda), tantas que, desgarrado, acabei não desembuchando um episódio que pode ser assim resumido: parei de fumar porque fumei demais. Enjoei. Nos últimos tempos, acendia um cigarro sem ver que outro ardia no cinzeiro. Como esses amores vencidos que por inércia vão remanescendo, aquilo já não tinha gosto. De manhã, adiava o instante de acender o primeiro, por conhecer de sobra o mal-estar que me traria; a vontade era começar pelo segundo. 
 

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Suíte tabagística - Humberto Werneck

Na cela 3 do DOPS, em Belo Horizonte, onde aos 21 anos me trancafiaram por um mês, achei que a meu perfil de jovem intelectual insubmisso faltava um arremate visual. Podia não ter o cachecol e o olho torto do Sartre, porém o mais estava à mão. Pedi aos amigos que me arranjassem um cachimbo.

Fui atendido pelo José Márcio Penido, e, durante horas, encostado à grade (na cela em frente estava o sociólogo Bolívar - então oxítono: Bolivar - Lamounier), fiz o que pude para manter acesa, já não digo a flama revolucionária, mas a brasa do cachimbo. A outra, com o tempo, também arrefeceu, tanto quanto meu pique para desbravar a Introdução Sistemática ao Estudo da Sociologia, de Harry M. Johnson, que o vizinho de cana me recomendara. Bem mais adiante, tive uma fase de charuto, fumegante adereço que definitivamente não combinava com o meu temperamento bem pouco contemplativo. Repare: a não ser em filme de gângster, na permanente iminência da chegada dos pneus cantantes da lei, você não vê ninguém pitando nervosamente um puro, talhado, ao contrário, para ser saboreado em sossego, de preferência ao pé de uma lareira e com um cálice de conhaque na outra mão.

LEIA AQUI

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Insensatez sem filtro - Humberto Werneck

Se você não leu, sugiro que recupere e leia a crônica em que Ruy Castro, na Folha de S. Paulo, dia 25 de janeiro, registrou seus 25 anos sem álcool. Não vou recontar aqui o que esse baita escritor e jornalista contou lá, num depoimento capaz de encorpar ainda mais a admiração não só literária e jornalística que por ele tenho. Digo apenas que em lugar de trombetas, a que o Ruy teria direito, o que se ouve ali é a surdina da humildade de quem, depois de tanta luta, não dá a fatura por liquidada.

Além de me emocionar, a crônica avivou em mim a lembrança de outro aniversário, bem mais modesto, no mesmo 25 de janeiro: meus 32 anos sem cigarro. Se o Ruy não o fez por vitória tão maior, não sou eu quem vai posar de herói. Até porque, confesso, não me custou tanto assim cortar de uma hora para outra o hábito insensato de acender 60 cigarros por dia. Não foi penoso como alguns anos antes, quando, fumando a metade disso, parei por nove meses, num daqueles rompantes em que, sobranceiro, o insuspeitado paladino da temperança entrega o maço para um e o isqueiro para outro.

LEIA AQUI