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sexta-feira, 3 de maio de 2013

“Eu sou de um país que se chama Pará” - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

 O Estado de S.Paulo - 03/05/2013

Por que tanta gente de talento não chega ao Sul? Onde fica o muro que nos separa?

BELÉM

Quando a mediadora Renata Ferreira disse que o meu conto o homem que viu a osga comer meu filho a tinha aterrorizado, assustei-me. Não tenho este conto. Ela riu e explicou:“O que vocês chamam de lagarto ou lagartixa, chamamos de osga.Aliás, está no Aurélio”. Estava certa, o conto existe.
Quando ouvi a fotógrafa Elza Lima contar uma história minha em que os olhos dos cavalos do carrossel de meu avô eram petecas, reagi: “Como petecas? Eram bolas de gude”. Elza: “Pois aqui, petecas são as bolasde gude”.Caminhava pelo Espaço Palmeira, um feirão popular, no centro da cidade.Aqui foi uma tradicional fábrica de bolachas, biscoitos e doces, fundada em 1892. Demolida, restou uma área de piso concretada sobre a qual se armam as barracas.Então,ouvi: “Vamos fazer nossa sombra aqui”, disse o mulato de chapéu branco. E sentou-se com dois amigos num canto. Não havia sombra alguma, ao contrário, era um solão, mas gostei da expressão. Porque grande e diverso é o Brasil.

Vim para a 17.ª Feira Pan-Amazônica do Livro, que no ano passado vendeu 850 mil livros, me contou Paulo Chaves Fernandes, secretário de Cultura, arquiteto que criou as Docas e o Mangal das Garças, imperdíveis. A Pan-Amazônica deste ano termina no próximo domingo com Affonso Romano de Sant’Anna. Pelo palco principal passaram Ziraldo,Tony Bellotto, Cristovão Tezza, Guilherme Fiuza, Tiago Santana e José Castello. Para terem ideia, o folheto com a programação tem 74 páginas com oficinas, seminários, aulas, lançamentos, mesas-redondas, salão do humor.

Tudo acontece no Hangar, um centro de convenções moderno e funcional. Ao falarmos,temos à nossa disposição auditórios variadosque vãode300 a 1.500 espectadores. Distante daqueles espaços fechados por divisórias de eucatex da Bienal do Livro de São Paulo, ondea barulheira do salão penetra e ninguém ouve o que se fala.

Lembrei-me que estive na primeira Pan-Amazônica, ainda no centro, sufocada, apertada, mas cheia de gente. Assim como me lembro de uma casa de sucos da terra, onde havia um de pinha que era puro regalo. A casa fechou, virou loja. Por outro lado,nas sorveterias você mergulha a colher em taças de sorvete de tapioca (deslumbrante), buriti, bacuri, cupuaçu, açaí, graviola, manga.

Quem me indicou a Cairu como o melhor sorvete da cidade foi Fafá de Belém. Opinião considerável.O Pará é terra da Fafá, da Gaby Amarantos, da Dira Paes, da Olga Savary (que está na cidade em que nasceu, emocionada,há muito não vinha), Leah Soares. E de Dalcídio Jurandir, um dos grandes escritores brasileiros de todos os tempos.

A feira deste ano foi dedicada a Ruy Barata, poeta, compositor, jornalista, político progressista, ícone paraense, homem que navegou em todas as águas. Dele é a frase epígrafe desta 17.ª Pan-Amazônica: “Eu sou de um país que se chama Pará”. Milhares de crianças vagando entre centenas de estandes. Perguntando: “O senhor é escritor?”. Correndo atrás do Ziraldo, que se intitula “o velhinho maluquinho”. Vi Ziraldo, com tremenda luxação no ombro, cheio de dores, sentar-se e autografar centenas de livros. Mais do que profissional, ele ama o que fez e adora ver ameninada em torno.

Certa noite,fomos jantar nas Docas, olhando  o rio de frente.Chegavam homens feitos querendo tirar uma foto com o “menino maluquinho”. Chegavam também jovens querendo uma foto com TonyBellotto, que tinha acabado de fazer uma bela fala sobre seu romance Machu Picchu.Depois,elas viravam para mim:“ E o senhor é alguma coisa?”.Respondi com a maior seriedade: “Não, sou apenas pai do Bellotto”. E elas: “Não precisamos tirar fotos do senhor, não?”. Felizes com minha negativa, partiam, ruidosas, enquanto voltávamos ao filé de filhote, peixe delicioso, com risoto de pupunha e jambu, e ao pato com tucupi. Belém é sabor e é necessário comer, de preferência à noite, no Mangal das Garças, parque nascido à beira- rio,cheio de pássaros, tartarugas, borboletário. Iguanas verdes, figuras pré-históricas, vagueiam pelos gramados.

Tomei um avião e cheguei a Marabá 50 minutos depois. O nome da cidade vem de um poema de Gonçalves Dias. Região ligada à siderurgia e celebrizada pela Serra Pelada. Estudantes e professores se juntaram no Cine Marrocos para conversar com escritores. É a Pan-Amazônica expandida. A feira não acontece apenas em Belém, vai ao interior, agrega, abre-se às populações. A ideia avança pelo Brasil. A fotógrafa Elza Limame contou que esta “feira fora de feira” nasceu após a leitura de uma crônica, aqui, minha no jornal, falando de Fortaleza, da bienal fora da bienal, quando autores vão aos bairros e às cidades do interior. Andressa Malcher, coordenadora,apanhou a ideia no ar e desenvolveu.

Sentei-me no palco ao lado de Ademir Brás, jornalista, advogado e poeta de primeira linha. Ele descreve sua terra, a gente, as paisagens, o Rio Tocantins,manso e largo, silencioso. Pequenas casas coloridas inclinam se para as águas. A poesia de Ademir oscila entre a ternura e a indignação, com ritmo e afeto. Por ele e pelos jovens, soube do Pará.E contei das coisas de cá. Porque tanta gente de talento como Ademir não chega ao Sul? Onde fica o muro que nos separa?

sexta-feira, 22 de março de 2013

Solidão e silêncio no fundo da agulha - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

O Estado de S.Paulo


Todos os domingos, à meia-noite, quando Nabor cantava "Quizás, quizás, quizás", eu sabia que a domingueira tinha acabado e aquelas meninas de Araraquara desceriam as escadas, passariam por mim, nem me olhando, e iriam para casa. Algumas com os pais, várias sozinhas (não havia perigo), outras acompanhadas pelos namorados. Inveja daqueles namorados, tinham dançado com as moças mais lindas, colado o rosto (apesar da vigilância materna), conseguido um beijo furtivo. Dali a pouco, nos portões, viriam os "amassos", porque mais do que carinhos, os namorados se amassavam com sofreguidão. Em que estado iam dormir.

Dia desses, indo para uma reunião na Fundação Carlos Chagas, ouvi no táxi ouvi o bolero siempre que te pregunto, que quando, donde y como. Comentei na reunião: "Ali estou, sentado no banco gelado, sabendo que o domingo acabou". Sandra e Mariana Lapeiz, condutoras do projeto maravilhoso que é o Livro para Todos, (que este ano tem Milton Hatoum como padrinho, assim como Lygia Fagundes Telles e eu fomos nos dois últimos anos), indagou: "O que isso quer dizer?" E eu: "Há canções que me provocam, volto no tempo". Ela: "Já escreveu sobre isso? Não é um livro?"

Era. É. Nove meses depois, o livro estava terminado. Tempo de gestação de um ser humano. Vim arrancando de dentro desde aquela canção Amado Mio, do filme Gilda, ainda na minha infância, até Alfonsina y el Mar, com Mercedes Sosa, que Irina e eu ouvíamos em Hanabanilla, Cuba, pouco antes dela, jovem jornalista mexicana, linda, partir para a Nicarágua para lutar com os sandinistas contra o ditador Somoza. Fui reencontrando Valsinha, de Chico e Vinicius, que embala duas mulheres solitárias numa sala a tecerem bordados de uma vida, bem como Patricia, bolero para ser dançado cheek to cheek nas festinhas da adolescência, mas que Fellini usou para a orgia final em A Doce Vida, filme que marcou uma geração. "Quero, quero ser chamada de querida", lembram-se?

Uma noite, no Recife, no Sesc, vi e ouvi no palco uma mulher que me impressionou ao falar sobre educação e ao contar sobre seus textos, Viviane Mosé. Dela retirei o título de meu livro, Solidão no Fundo da Agulha, porque me trouxe minhas tias e primas em tardes araraquarenses, me trouxe mulheres que conheci e se encerraram no silêncio do fundo da agulha. Mulheres que esperaram ou ainda esperam que ele chegue um dia com um jeito diferente daquele jeito que ele tinha ao chegar. Nossas vidas são atravessadas e marcadas por músicas, por canções que nos devolvem momentos, felizes ou não. Recuperei algumas, mas a cada dia acumulo outras.

Por que uma americana que vi certa manhã, uma única vez, em Roma, perto da Praça de Espanha, eu voltaria a reencontrar 17 anos depois, mulher madura, numa palestra em San Diego, Estados Unidos, ligada por uma carta que ela recebeu e eu nunca li? Ligada ainda por Antonio Tabucchi, o escritor italiano falecido ano passado, um grande amigo. Mais, ligada por Isaura Garcia a cantar: "Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com uma carta na mão". Como e por que a vida estende linhas misteriosas, unido ou desunindo pedaços de nós?

A primeira entrevista de sua vida, capa do caderno de variedades do jornal Última Hora, fui eu que fiz com Dina Sfat, quando ela começou no Teatro de Arena, em 1962. Naquela tarde, nos fundos do teatro vazio, alguém cantava Estrela do Mar. Quem não conhece? Um pequenino grão de areia. Dina ficou de descobrir quem era a cantora. Descobriu? Um mistério que continua. Dina morreu três meses do dia em que, indo a Israel, me vi na cidade de Sfat, terra dos cabalistas. Sfat que lhe deu o nome.

Solidão no Fundo da Agulha está pronto e será lançado terça-feira, dia 26, no bar Vianna, em Pinheiros. O bar vizinho à minha casa, onde vou certos fins de tarde e sento-me na mesma mesa, lendo, anotando coisas, ou simplesmente esperando a noite chegar ao meu bairro, porque com ela chegam Marcia e Rita para sentar comigo. O livro está saindo pelo selo Livro para Todos, um dos projetos que tornam diferenciada a Fundação Carlos Chagas, a que estrutura todos os grandes concursos públicos deste Brasil. Projeto que dá a ela um plus.

Paulo Melo Jr., um fotógrafo pernambucano, leu os textos e, câmera em punho, saiu para capturar o espírito de Araraquara, ou de lugares de São Paulo: Rua Javari, Livraria Francesa, ruas do centro, bancas de frutas ao sol, estação da Luz, Avenida 23 de Maio vazia, um pastel de feira sendo frito, o teatrinho de Arena, o relógio do Mappin, debaixo do qual gerações marcaram encontros. O que é este livro? Minhas memórias? Mas são as suas também. Minha músicas? São as de todos. É realidade, lembrança, é ficção. E tanto é um livro de gerações mais velhas ou atuais, que a jovem Rita Gullo interpreta as 11 canções do livro (porque haverá um CD dentro) como se fossem dela, do tempo dela. Ela se comprometeu com cada nota, cada palavra. Tocaremos todas as canções na noite do dia 26, na Rua Cristiano Vianna, 315, e beberemos, e falaremos, porque será um encontro de todos nós, a partir de 19 horas.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Aos 81 anos, Beatriz disse: deixem comigo! - Ignácio de Loyola Brandão

Dia desses, uma amiga do interior me ligou, queria me passar umas informações. Eu disse: "Vou te dar meu e-mail, você passa tudo. E ela: "Acha que sei trabalhar com isso? Sabe quantos anos tenho? Sou de outra geração. Não temos nada a ver com essas coisas". Sei quantos anos ela tem: 73. Porque três anos atrás o marido fez uma bela festa para os 70 anos dela. Lembrei-me que meu tio José ficou fascinado com o computador que ganhou dos filhos. E ainda não havia mouse, imaginem, era tudo controlado pelo teclado. E José estava com quase 80.

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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Sou uma mistura de antigo e novo - Ignácio de Loyola Brandão

Não creio que Ruy Castro se irrite ao ver que entro de carona no seu barco. Esta semana, em sua crônica na Folha, ele se referiu à invasão tecnológica do mundo, concluindo: me incluam fora. Não tem medo de ser chamado de jurássico, assim como não tenho medo de ser considerado anacrônico, por compartilhar ideias. A verdade é que todo esse aparato não me tem feito mais feliz. Assim como não tem acrescentado tanto à vida dos que têm mil aplicativos no celular, os que possuem Instagram, os que acessam internet no meio da rua, no metrô, no táxi, no estádio. Falando em estádio, dia desses, estava no Pacaembu e vi um sujeito com um smartphone (ou o que seja) assistindo a um jogo. Quando percebi, ele estava vendo pela televisão o jogo que se desenrolava ao vivo à sua frente. Fiquei perplexo!

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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

No Bonete, ganhei o BBB - Ignácio de Loyola Brandão

Como nas quermesses da infância, quando comprávamos números e ficávamos com o coração nas mãos, torcendo para ganhar na roleta um frango assado, um bolo, um brinquedo, Jair, o cantador das pedras, ia anunciando os números. Eu ouvia e me lembrava também do tempo em que jogava tombola na juventude: dois patinhos na lagoa, 22; dois machados num pau só, 11; idade de Cristo, 33; quá-quá-quá, 44; o mesmo número de qualquer lado, 8; começo do jogo, 1. Naquela época havia um número que provocava risos: é ele ou é ela? 24. O veado no jogo de bicho.

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