A primeira frase da
crônica é quase sempre a mais difícil, mas quando as palavras aparecem
no papel, a mão que segura a caneta fica mais leve e envereda para um
lugar desconhecido...
Mas basta surgir um inseto para mudar toda a história: o
movimento da mão é interrompido pelo intruso, que voa em círculos e zoa
com insistência, uma picada no pescoço ou no braço pode acabar com a
alegria de escrever uma crônica, mesmo sabendo que vou reescrevê-la
quatro ou sete vezes; talvez seja melhor espantá-lo com uma revista, ou
esperar que ele se canse de girar e zumbir como um louco nesse espaço
pequeno.
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sexta-feira, 1 de março de 2013
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Os corvos e a nossa língua - Milton Hatoum
Nos últimos dias de janeiro, apaguei, com pesar, o nome e o número de
telefone de amigos e conhecidos que passaram para o outro lado do
espelho. Não foi um ato de morbidez. Fiz isso porque sou distraído, tão
distraído que, certa vez, liguei para um amigo e, quando a mulher dele
atendeu, começou a chorar. E antes de lhe perguntar a razão do choro,
ela me disse: você foi ao enterro dele, não se lembra?
Só então me lembrei daquela triste tarde de junho; pedi desculpa pela gafe e disse que a memória é um mistério, às vezes as lembranças aparecem com nitidez, outras vezes ficam guardadas, teimosamente escondidas, ou em estado de latência.
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Só então me lembrei daquela triste tarde de junho; pedi desculpa pela gafe e disse que a memória é um mistério, às vezes as lembranças aparecem com nitidez, outras vezes ficam guardadas, teimosamente escondidas, ou em estado de latência.
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