Zero Hora - 23/06/2013
A garota que parou o Congresso em 2001 ao sair nua contra o governo FHC ainda espera construir um Brasil socialista
Na semana em que caras, pintadas ou não, ajudaram a desenhar o maior
movimento da juventude brasileira dos últimos 20 anos, alguém aí se
lembra da "bunda-pintada"?
Carla Taís dos Santos, 33, ou Carlinha, para os mais chegados,
recorda-se como se fosse ontem do dia em que "parou tudo" em Brasília,
ao desfilar nua em frente ao Congresso Nacional.
Era 2001. A garota tinha 21 aninhos --e atributos típicos da idade,
por exemplo os bem distribuídos 56 quilos, um generoso painel para
abrigar frases do tipo "CPI Já".
Ao tirar a roupa contra o segundo governo de FHC (1999-2002), Carla,
então presidente da Ubes (União Brasileira dos Estudantes
Secundaristas), ganhou fama nacional de "bunda-pintada".
Na semana passada, ela participou de uma manifestação em Novo Hamburgo (RS) que fechou a BR 116.
Dessa vez, ou seja, 12 anos depois da nudez, de roupa.
Considera a redução das tarifas uma grande vitória que deve ser
comemorada e "servir de impulso para mais organização e novas
conquistas", embora "ainda não inverta a lógica das máfias do
transporte". Rechaça a proibição ou hostilidade às bandeiras de partidos
nos atos.
"É um absurdo. Lutamos por 21 anos contra uma ditadura que fez
exatamente o mesmo. Está na contramão da liberdade de expressão tão
defendida nos protestos."
Acha que a depredação de bancos, grandes redes de lojas e ônibus não
se justifica, mas "se explica". "Serão os empresários que mais lucram
que pagarão a conta."
Já a do patrimônio público, "não faz o menor sentido, pois, além de
ser mais um dinheiro que deixará de ser investido na educação e na
saúde, divide e afasta o movimento". Só serve ao "prazer egoísta de quem
se acha ultrarrevolucionário".
'TAPA-TETA'
Formada em letras pela USP, Carla hoje assessora uma das diretoras
da Ancine (Agência Nacional do Cinema), Rosana dos Santos Alcântara.
Jura que o cargo não é "boquinha", tampouco cota do PC do B, partido ao
qual ela é filiada. "Mandei meu currículo para diferentes pessoas, e a
Rosana conhecia minha história de orelhada."
Só de orelhada? "Hoje, sou uma outra mulher", diz, mas os sonhos
continuam os mesmos da época de "bunda-pintada". "Se mudanças não
começarem a acontecer, a rua continuará a aumentar o volume de seu
grito. E eu estarei em todas as manifestações com a perspectiva de
construir um Brasil socialista."
Ok, mas pretende ficar pelada de novo? "Tirar a roupa sempre me
pareceu um gesto natural", filosofa Carla, que hoje só se despe para o
namorado, com quem está há três meses, ou numa praia de nudismo, "pra
extravasar".
Recorda-se, então, daquele momento que precedeu à nudez de Brasília.
"Diante do Congresso, os manifestantes da Ubes precisavam de um
desfecho para o protesto." Uns sugeriram velas; outros cogitaram
"enterrar" um boneco de FHC, ideias que demandavam tempo e, é claro, uma
corridinha ao mercado.
"Me lembrei de protestos na Europa em que as pessoas tiravam a
roupa. Vamos ficar pelados", disse, para o espanto dos garotos. "Eu
fico!" O carro de som virou camarim. Em cinco minutos, estava pintada de
guache.
Quando saiu, surpresa! Cadê os peladões? "Rodei a baiana. Agora que estou aqui, vou até o final", disse.
A imagem estampada nos principais jornais do Brasil e do mundo
derrubou a máxima de Andy Warhol: em vez dos 15 minutos de fama, o
espetáculo de Carlinha na capital do país durou 20.
Com uma bandeirinha da Ubes cobrindo os seios, entrou no
espelho-d'água do Congresso e organizou os estudantes para formar a
palavra CPI deitados no gramado.
E por que raios escondeu os peitos? "Desde menina, tenho complexo
dos meus seios. O que me incomoda é a forma. Acho caído. Nunca gostei
dessa parte do meu corpo", diz Carla, em sua casa, numa vilinha no
centro do Rio, onde vive desde março.
COMUNISTA TEEN
Apesar dessa relação, digamos, delicada, foram os seios que
"empurraram" Carlinha para a política. Gaúcha de Campo Bom (RS), a
"menina da roça", então com 11 anos, não curtia o uniforme da escola. A
blusa apertava os peitos, motivo para ela organizar um abaixo-assinado.
Assistia à aula de matemática, quando foi chamada à diretoria para
ser expulsa sob a alcunha de "comunista", baita palavrão na época.
Demorou menos de um ano para a "comunista" se infiltrar em grupos
culturais, se amarrar na história de Olga Benário e assumir de fato a
verdadeira identidade. Em novembro de 1999, Carlinha, que, quando
menina, sonhava ser bailarina do Bolshoi, finalmente livra-se das aspas e
torna-se comunista ao ingressar no PC do B.
Assim como o primeiro sutiã, que soltou a alça e machucou a menina
aos 12 anos, o primeiro "livro comunista", ela nunca esquece: "30 Anos
de Confronto Ideológico: Marxismo x Revisionismo".
Sem entender ao certo o que tudo aquilo significava, pintou, antes
do corpo, a cara em protesto contra o presidente Collor. "Até meus pais,
que votaram nele, me incentivaram a participar da passeata", lembra a
gaúcha.
Filha de um mecânico e de uma comerciante, Carlinha tem uma irmã mais nova, de 29 anos, que é modelista.
Mas a guria mais velha sempre foi uma "rebelde com causas". No final
de 99, já como presidente da Ubes, fugiu de casa, ao inventar que iria a
um seminário de educação em Goiânia. Veio parar em São Paulo, onde
dividiu uma república com 11 rapazes no bairro da Aclimação. Vivia na
pindaíba, dura que só, à base de doações da entidade.
A "bunda-pintada" repercutiu, mas o que pintou de concreto?
"Pintaram umas baixarias", brinca Carlinha, que chegou a ser assediada à
época por congressistas. "Virei motivo de gozação: a peladona do PC do
B, a banda pelada do partido", conta.
Qualquer bunda com outro sentido estava valendo, mas a dela era um
problema. "Preconceito contra uma bunda politizada. Nunca quis virar
celebridade. Meu sonho sempre foi e continua sendo fazer revolução no
Brasil."
Como filiada a um partido que faz parte da base aliada do governo,
acha que o PT está "fazendo uma revolução ao criar condições para isso".
Lula é o "melhor presidente que o país já teve". Dilma representa "as
mulheres no poder", mas "precisa de mais diálogo com os movimentos
sociais". Mensalão? "Não há provas concretas nos autos."
"Libertária comunista" --assim se define--, é a favor do aborto, da
legalização da maconha e da união homoafetiva. Não esconde discreto
orgulho ao assumir que ainda desperta nos homens um "fetiche de pegar a
Carlinha", aquela da "bunda-pintada".
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domingo, 23 de junho de 2013
sábado, 1 de junho de 2013
Nós, os que não somos como os outros - CARLOS ANDRÉ MOREIRA
Zero Hora - 01/06/2013
Nova edição do Dicionário de Saúde Mental da Associação Americana de Psiquiatria abre discussão sobre os critérios para separar doença e sanidade
A utilidade de um dicionário é normatizar para esclarecer dúvidas, mas por vezes uma publicação do gênero provoca questionamentos mais sérios e mais preocupados do que respostas. Ainda mais se o dicionário em questão lida com um tema tão delicado e espinhoso quanto o próprio limite entre sanidade e distúrbio.
Com a divulgação, em maio, da quinta edição do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual Estatístico e Diagnóstico de Distúrbios Mentais, em tradução livre), ou DSM-5, como vem sendo chamado pelos especialistas, abriu uma nova e acalorada discussão sobre o quanto o objetivo, necessário, de graduar de modo científico os sintomas de doenças mentais não está criando a sociedade da hiperdiagnose, em que a normalidade é conceito cada vez mais rarefeito.
– Classificações como essa são importantes, são válidas para unificar a linguagem e melhorar a comunicação entre profissionais, mas um dos problemas desse tipo de classificação é a criação de diagnósticos excessivos, que não levam em conta a subjetividade – comenta o psiquiatra e psicanalista Celso Gutfreind.
A polêmica teve início com a divulgação das principais alterações na quinta edição do DSM. A publicação é elaborada pela American Psychiatric Association (APA, Associação Americana de Pisquiatria), e é um dos mais conhecidos e utilizados manuais diagnósticos do mundo. É um dicionário no qual se encontram os critérios para que determinado comportamento seja classificado como transtorno ou distúrbio mental e, assim, tratado de acordo com o entendimento do médico, o que pode (embora não necessariamente deva) incluir a administração de medicamentos.
– Ainda há uma grande discussão a respeito das mudanças desta nova edição aqui nos Estados Unidos. Alguns especialistas manifestaram discordância dessa abordagem mais biológica de diagnóstico – comenta o psiquiatra Rodrigo Machado-Vieira, residente em Maryland, nos Estados Unidos, e diretor do Centro de Pesquisa Translacional em Transtornos de Humor do Instituto Nacional de Saúde Mental, nos EUA.
Um dos mais acirrados críticos da quinta edição do manual, ironicamente, é o homem que ajudou a elaborar a edição anterior do documento, o psiquiatra Allen Frances, professor emérito da Universidade Duke. Em posts que vem publicando com regularidade em seu blog no portal Huffington Post (www.huffingtonpost.com/allen-frances), ele vem apontando o que considera erros conceituais e técnicos nos critérios adotados pelo dicionário. De acordo com ele, o novo manual é composto de “uma mistura irresponsável de novos diagnósticos que podem estigmatizar e submeter pessoas normais a tratamentos desnecessários”:
“A publicação do DSM-5 é um momento triste para a psiquiatria e perigoso para os pacientes. Minha recomendação para os clínicos é simples. Não usem o DSM-5”, escreveu Frances.
– Minha opinião sobre o DSM parafraseia a de Winston Churchill, que dizia que a democracia era o pior sistema de governo, com exceção de todos os outros. O DSM está longe de ser perfeito, mas é a melhor ferramenta que se tem em diagnósticos de psiquiatria – pondera Machado-Vieira.
A discussão a respeito de um manual de saúde mental publicado por uma associação de profissionais dos Estados Unidos não é, como se poderia pensar à primeira vista, distante da realidade brasileira – até porque o dicionário tem uma influência que se alastra para além das fronteiras americanas e que pode ser verificada mesmo no Brasil (leia o texto na página ao lado).
As críticas ao DSM também não são coisa recente ou restrita especificamente a esta quinta edição. Já a versão anterior havia sido alvo de polêmica por apresentar, com o rótulo de distúrbios, comportamentos que poderiam, com gradações, ser incluídos na estranheza nossa de cada um.
Não é coincidência que, desde os anos 1980, o número de diagnósticos de distúrbios mentais tenha se ampliado de tal forma que, de acordo com um estudo conduzido pelo Instituto Nacional de Saúde Mental no início dos anos 2000, 46% dos adultos pesquisados se encaixavam em alguma das categorias do DSM – e isso na quarta edição, antes das atuais modificações.
A nova encarnação do manual amplia a classificação de determinados distúrbios e modifica outros. Em um primeiro momento, chamaram a atenção as definições de distúrbios aplicados a manifestações extremas de birra infantil e apego a quinquilharias mesmo ciente de seu mínimo ou nenhum valor.
A própria idade de controle para o aparecimento de sintomas de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade em crianças, pela nova publicação, agora é de 12 anos. Em uma das mais criticadas medidas, o luto pela perda de um ente querido, se ultrapassar duas semanas, pode ser considerado um indício de depressão – embora o texto seja mais aberto neste caso, a medicação estaria indicada. Mesmo o luto, expressão tão individual de sentimentos, estaria sujeita a um controle de “normalidade”?
– Quando eu estudava Medicina, o tempo que se acreditava apropriado para um luto durava de três a seis meses. No tempo do capitalismo avançado, parece que o tempo é um bem cada vez mais restrito para as pessoas – comenta o psiquiatra e psicanalista Sergio Eduardo Nick, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro.
Nessa imbricação entre arte, criatividade e normalidade, reside também outro grande paradoxo da catalogação minuciosa de distúrbios em um mundo capitalista que exige, ao mesmo tempo, originalidade, criatividade e eficiência maquinal.
– Precisamos romper a identidade que há na sociedade contemporânea entre normalidade, eficácia e velocidade. Estamos lidando hoje, em vários níveis, com conceitos de maquinização do ser humano. O sujeito precisa estar pronto o mais rápido possível para produzir, para voltar ao trabalho. É uma espécie de psiquismo herdeiro da Revolução Industrial – comenta a psicanalista Diana Corso.
Como pano de fundo da discussão está também uma questão técnica debatida pelos profissionais: a suposta ação rápida de medicamentos versus terapias mais longas e com menos recursos químicos.
– No fundo, há uma guerra ideológica entre os profissionais da área sobre como ver o ser humano. O DSM é um manual orientado pela ideologia comportamental, que não dá tanta importância a fatores menos fáceis de aferir, como o ambiente, as emoções, os sentimentos do paciente – salienta Nick.
O fenômeno da chamada “terapia química” ganhou amplo espaço nos consultórios a partir da segunda metade dos anos 1980, quando novas e potentes drogas se mostraram eficientes para ajustar desequilíbrios químicos do organismo – o Prozac, em especial, foi a primeira droga do gênero a ganhar espaço não apenas nas salas de consultório, mas no imaginário público e mesmo na cultura pop.
No âmbito da cultura, a ampla aplicação da terapia medicamentosa provocou reflexões a respeito da diagnose excessiva ou da sedação coletiva. Em seu ensaio Receituário da Dor para Uso Pós-Moderno, o português João Barrento arrisca uma definição da sociedade contemporânea, para quem a dor e o sofrimento haviam sido transformadas em “fantasmas”, com efeitos nem sempre positivos para o conjunto da humanidade:
“No mundo das paixões que era o da tragédia antiga, a dor – tal como a beleza e a alegria, o canto e o Êxtase –, é matéria-prima da vida ritualizada. Depois, a vida foi-se dessacralizando, tornou-se mais confortável, mais baça... e mais longa. Ficamos mais sós. Sós, não porque nos faltassem os outros, muito pelo contrário. Ficamos sós porque fomos amputados de alguma coisa que era parte de nós. O homem civilizado olha para o mundo, o mundo está em estado de dor quase permanente, e em vez de responder com um lamento (...), fica em silêncio.”
Com atuação tanto como terapeuta quanto como artista, Gutfreind publicou, em seu mais recente livro, Em Defesa de Certa Desordem, um poema no qual critica a prevalência da farmacologia sobre a arte na sociedade contemporânea: “Afastem a Deusa química, / as mulheres têm a arte, a ciência não sustenta / a falta, a falta preenche, / música podem deixar / – Deusa houvesse, era ela –, / tirem certezas, substâncias / que a presença da palavra / com melodia cantada / pelo outro bastará”.
– No fundo, o ser humano tem medo do desconhecido e da dor. A dor é o que nos desestrutura, mas também é uma experiência que faz parte do que nos define, a nossa própria subjetividade. Ao acreditar que a resposta tem de ser sempre rápida, estamos perdendo a dimensão do tempo, de viver, de criar, de perder tempo – diz Gutfreind.
Associada à questão da nomenclatura cada vez mais ampla de comportamentos desviantes, há também a questão do próprio conceito de normalidade, que acaba cada vez mais restrito no momento em que exotismos e excentricidades se assemelham a gradações de distúrbios mentais.
– Todos temos sintomas de compulsão ou obsessão, coisas que nos tornam quem somos. É preciso cuidar para que isso não seja tomado como doença, o que seria desumanizador – diz Nick.
Nova edição do Dicionário de Saúde Mental da Associação Americana de Psiquiatria abre discussão sobre os critérios para separar doença e sanidade
A utilidade de um dicionário é normatizar para esclarecer dúvidas, mas por vezes uma publicação do gênero provoca questionamentos mais sérios e mais preocupados do que respostas. Ainda mais se o dicionário em questão lida com um tema tão delicado e espinhoso quanto o próprio limite entre sanidade e distúrbio.
Com a divulgação, em maio, da quinta edição do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual Estatístico e Diagnóstico de Distúrbios Mentais, em tradução livre), ou DSM-5, como vem sendo chamado pelos especialistas, abriu uma nova e acalorada discussão sobre o quanto o objetivo, necessário, de graduar de modo científico os sintomas de doenças mentais não está criando a sociedade da hiperdiagnose, em que a normalidade é conceito cada vez mais rarefeito.
– Classificações como essa são importantes, são válidas para unificar a linguagem e melhorar a comunicação entre profissionais, mas um dos problemas desse tipo de classificação é a criação de diagnósticos excessivos, que não levam em conta a subjetividade – comenta o psiquiatra e psicanalista Celso Gutfreind.
A polêmica teve início com a divulgação das principais alterações na quinta edição do DSM. A publicação é elaborada pela American Psychiatric Association (APA, Associação Americana de Pisquiatria), e é um dos mais conhecidos e utilizados manuais diagnósticos do mundo. É um dicionário no qual se encontram os critérios para que determinado comportamento seja classificado como transtorno ou distúrbio mental e, assim, tratado de acordo com o entendimento do médico, o que pode (embora não necessariamente deva) incluir a administração de medicamentos.
– Ainda há uma grande discussão a respeito das mudanças desta nova edição aqui nos Estados Unidos. Alguns especialistas manifestaram discordância dessa abordagem mais biológica de diagnóstico – comenta o psiquiatra Rodrigo Machado-Vieira, residente em Maryland, nos Estados Unidos, e diretor do Centro de Pesquisa Translacional em Transtornos de Humor do Instituto Nacional de Saúde Mental, nos EUA.
Um dos mais acirrados críticos da quinta edição do manual, ironicamente, é o homem que ajudou a elaborar a edição anterior do documento, o psiquiatra Allen Frances, professor emérito da Universidade Duke. Em posts que vem publicando com regularidade em seu blog no portal Huffington Post (www.huffingtonpost.com/allen-frances), ele vem apontando o que considera erros conceituais e técnicos nos critérios adotados pelo dicionário. De acordo com ele, o novo manual é composto de “uma mistura irresponsável de novos diagnósticos que podem estigmatizar e submeter pessoas normais a tratamentos desnecessários”:
“A publicação do DSM-5 é um momento triste para a psiquiatria e perigoso para os pacientes. Minha recomendação para os clínicos é simples. Não usem o DSM-5”, escreveu Frances.
– Minha opinião sobre o DSM parafraseia a de Winston Churchill, que dizia que a democracia era o pior sistema de governo, com exceção de todos os outros. O DSM está longe de ser perfeito, mas é a melhor ferramenta que se tem em diagnósticos de psiquiatria – pondera Machado-Vieira.
A discussão a respeito de um manual de saúde mental publicado por uma associação de profissionais dos Estados Unidos não é, como se poderia pensar à primeira vista, distante da realidade brasileira – até porque o dicionário tem uma influência que se alastra para além das fronteiras americanas e que pode ser verificada mesmo no Brasil (leia o texto na página ao lado).
As críticas ao DSM também não são coisa recente ou restrita especificamente a esta quinta edição. Já a versão anterior havia sido alvo de polêmica por apresentar, com o rótulo de distúrbios, comportamentos que poderiam, com gradações, ser incluídos na estranheza nossa de cada um.
Não é coincidência que, desde os anos 1980, o número de diagnósticos de distúrbios mentais tenha se ampliado de tal forma que, de acordo com um estudo conduzido pelo Instituto Nacional de Saúde Mental no início dos anos 2000, 46% dos adultos pesquisados se encaixavam em alguma das categorias do DSM – e isso na quarta edição, antes das atuais modificações.
A nova encarnação do manual amplia a classificação de determinados distúrbios e modifica outros. Em um primeiro momento, chamaram a atenção as definições de distúrbios aplicados a manifestações extremas de birra infantil e apego a quinquilharias mesmo ciente de seu mínimo ou nenhum valor.
A própria idade de controle para o aparecimento de sintomas de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade em crianças, pela nova publicação, agora é de 12 anos. Em uma das mais criticadas medidas, o luto pela perda de um ente querido, se ultrapassar duas semanas, pode ser considerado um indício de depressão – embora o texto seja mais aberto neste caso, a medicação estaria indicada. Mesmo o luto, expressão tão individual de sentimentos, estaria sujeita a um controle de “normalidade”?
– Quando eu estudava Medicina, o tempo que se acreditava apropriado para um luto durava de três a seis meses. No tempo do capitalismo avançado, parece que o tempo é um bem cada vez mais restrito para as pessoas – comenta o psiquiatra e psicanalista Sergio Eduardo Nick, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro.
Nessa imbricação entre arte, criatividade e normalidade, reside também outro grande paradoxo da catalogação minuciosa de distúrbios em um mundo capitalista que exige, ao mesmo tempo, originalidade, criatividade e eficiência maquinal.
– Precisamos romper a identidade que há na sociedade contemporânea entre normalidade, eficácia e velocidade. Estamos lidando hoje, em vários níveis, com conceitos de maquinização do ser humano. O sujeito precisa estar pronto o mais rápido possível para produzir, para voltar ao trabalho. É uma espécie de psiquismo herdeiro da Revolução Industrial – comenta a psicanalista Diana Corso.
Como pano de fundo da discussão está também uma questão técnica debatida pelos profissionais: a suposta ação rápida de medicamentos versus terapias mais longas e com menos recursos químicos.
– No fundo, há uma guerra ideológica entre os profissionais da área sobre como ver o ser humano. O DSM é um manual orientado pela ideologia comportamental, que não dá tanta importância a fatores menos fáceis de aferir, como o ambiente, as emoções, os sentimentos do paciente – salienta Nick.
O fenômeno da chamada “terapia química” ganhou amplo espaço nos consultórios a partir da segunda metade dos anos 1980, quando novas e potentes drogas se mostraram eficientes para ajustar desequilíbrios químicos do organismo – o Prozac, em especial, foi a primeira droga do gênero a ganhar espaço não apenas nas salas de consultório, mas no imaginário público e mesmo na cultura pop.
No âmbito da cultura, a ampla aplicação da terapia medicamentosa provocou reflexões a respeito da diagnose excessiva ou da sedação coletiva. Em seu ensaio Receituário da Dor para Uso Pós-Moderno, o português João Barrento arrisca uma definição da sociedade contemporânea, para quem a dor e o sofrimento haviam sido transformadas em “fantasmas”, com efeitos nem sempre positivos para o conjunto da humanidade:
“No mundo das paixões que era o da tragédia antiga, a dor – tal como a beleza e a alegria, o canto e o Êxtase –, é matéria-prima da vida ritualizada. Depois, a vida foi-se dessacralizando, tornou-se mais confortável, mais baça... e mais longa. Ficamos mais sós. Sós, não porque nos faltassem os outros, muito pelo contrário. Ficamos sós porque fomos amputados de alguma coisa que era parte de nós. O homem civilizado olha para o mundo, o mundo está em estado de dor quase permanente, e em vez de responder com um lamento (...), fica em silêncio.”
Com atuação tanto como terapeuta quanto como artista, Gutfreind publicou, em seu mais recente livro, Em Defesa de Certa Desordem, um poema no qual critica a prevalência da farmacologia sobre a arte na sociedade contemporânea: “Afastem a Deusa química, / as mulheres têm a arte, a ciência não sustenta / a falta, a falta preenche, / música podem deixar / – Deusa houvesse, era ela –, / tirem certezas, substâncias / que a presença da palavra / com melodia cantada / pelo outro bastará”.
– No fundo, o ser humano tem medo do desconhecido e da dor. A dor é o que nos desestrutura, mas também é uma experiência que faz parte do que nos define, a nossa própria subjetividade. Ao acreditar que a resposta tem de ser sempre rápida, estamos perdendo a dimensão do tempo, de viver, de criar, de perder tempo – diz Gutfreind.
Associada à questão da nomenclatura cada vez mais ampla de comportamentos desviantes, há também a questão do próprio conceito de normalidade, que acaba cada vez mais restrito no momento em que exotismos e excentricidades se assemelham a gradações de distúrbios mentais.
– Todos temos sintomas de compulsão ou obsessão, coisas que nos tornam quem somos. É preciso cuidar para que isso não seja tomado como doença, o que seria desumanizador – diz Nick.
segunda-feira, 11 de março de 2013
Algo de podre no reino do petróleo - PAULO BROSSARD
ZERO HORA - 11/03/2013
Repito a sentença do Padre Vieira, "a omissão é um pecado que se faz não fazendo"
No início de 2005 a refinaria Pasadena Refining System, de Pasadena, no Texas, foi adquirida pela empresa belga Astra Oil Company, pela quantia de US$ 42,5 milhões; em setembro de 2006 a Astra alienou à Petrobras 50% da refinaria mediante o pagamento de US$ 360 milhões, ou seja, vendeu metade da refinaria por mais de oito vezes o que pagara pela refinaria inteira, um ano e meio antes. Não seria de estranhar, por conseguinte, que a Astra Oil Co. pretendesse vender os 50% que permaneciam no seu patrimônio. Ocorre que, por desentendimentos cuja natureza ignoro, a Astra ajuizou ação contra a Petrobras e nela a Petrobras teria sido condenada e, mercê de acordo extrajudicial, pagou à Astra US$ 820 milhões, pondo fim ao litígio.
Somadas as duas parcelas, US$ 360 milhões em setembro de 2006 e US$ 820 milhões em junho de 2009, a Astra Oil Co. embolsou da Petrobras US$ 1,180 bilhão por uma refinaria que em 2005 lhe custara US$ 42,5 milhões.
Este o resumo do caso, do começo ao fim, havido entre a Astra Oil Co. e a Petrobras. Inépcia? Leviandade? Gestão temerária? Prevaricação? Outras causas? Não sei, o que sei é que o insólito fenômeno rompe todos os critérios atinentes a qualquer negócio e particularmente em relação a uma empresa que, embora de natureza privada pertence à nação, sua maior acionista.
Ora, não é de supor-se que o representante de uma das maiores empresas do país, afeita a lidar com milhões e bilhões, pudesse ser um parvo, um bonifrate, um pateta. No entanto, os números são constrangedores. De uma refinaria adquirida por US$ 42,5 milhões, em 2005, 50% dela no ano seguinte foi alienada por US$ 360 milhões e os outros 50% também transferida à Petrobras mediante o pagamento de US$ 820 milhões; somados os dois pagamentos, vale a repetição, atingem a US$ 1,180 bilhão. Dir-se-á que para zerar todos os litígios, teria entrado o "valor estratégico"... capaz de assegurar a duplicação da capacidade da refinaria, e revelar os segredos do fundo do mar no Golfo do México, mas sabe a chacota. Não surpreende que quando se conheceram os números do negócio, estes como o valor "estratégico" passavam a ser contestados.
Este o caso até onde sei e o que sei é o que tem sido divulgado. Com efeito, ele vem sendo abordado pelos meios de comunicação e até agora não se sabe de nenhuma providência que tivesse sido tomada. O assunto não é agradável, mas nem por isso pode ser mantido sob o comodismo do silêncio. Repito a sentença do Padre Vieira, "a omissão é um pecado que se faz não fazendo". É evidente que a senhora presidente da República tem todas as condições para o cabal esclarecimento da singular operação. Entre nós quando se fala em comissão esta terá de ser de "alto nível" e quando se trata de inquérito ele há de ser "rigoroso". Ora, quando o substantivo precisa da bengala do adjetivo o remédio é outro. Sempre entendi que os inquéritos não podem nem devem ser "rigorosos", nem flácidos; respeitadas as garantias de defesa, a diligência, a isenção, a tempestividade e a obediência aos prazos legais, substituem com vantagem o rigor. Nada de rigorismo ou lassidão, bastam legalidade e pontualidade; em uma palavra: a exação.
PS.: Estava a escrever este artigo, quando fui lembrado da passagem dos 60 anos da morte de Stalin, fato que mereceria uma reflexão.
Repito a sentença do Padre Vieira, "a omissão é um pecado que se faz não fazendo"
No início de 2005 a refinaria Pasadena Refining System, de Pasadena, no Texas, foi adquirida pela empresa belga Astra Oil Company, pela quantia de US$ 42,5 milhões; em setembro de 2006 a Astra alienou à Petrobras 50% da refinaria mediante o pagamento de US$ 360 milhões, ou seja, vendeu metade da refinaria por mais de oito vezes o que pagara pela refinaria inteira, um ano e meio antes. Não seria de estranhar, por conseguinte, que a Astra Oil Co. pretendesse vender os 50% que permaneciam no seu patrimônio. Ocorre que, por desentendimentos cuja natureza ignoro, a Astra ajuizou ação contra a Petrobras e nela a Petrobras teria sido condenada e, mercê de acordo extrajudicial, pagou à Astra US$ 820 milhões, pondo fim ao litígio.
Somadas as duas parcelas, US$ 360 milhões em setembro de 2006 e US$ 820 milhões em junho de 2009, a Astra Oil Co. embolsou da Petrobras US$ 1,180 bilhão por uma refinaria que em 2005 lhe custara US$ 42,5 milhões.
Este o resumo do caso, do começo ao fim, havido entre a Astra Oil Co. e a Petrobras. Inépcia? Leviandade? Gestão temerária? Prevaricação? Outras causas? Não sei, o que sei é que o insólito fenômeno rompe todos os critérios atinentes a qualquer negócio e particularmente em relação a uma empresa que, embora de natureza privada pertence à nação, sua maior acionista.
Ora, não é de supor-se que o representante de uma das maiores empresas do país, afeita a lidar com milhões e bilhões, pudesse ser um parvo, um bonifrate, um pateta. No entanto, os números são constrangedores. De uma refinaria adquirida por US$ 42,5 milhões, em 2005, 50% dela no ano seguinte foi alienada por US$ 360 milhões e os outros 50% também transferida à Petrobras mediante o pagamento de US$ 820 milhões; somados os dois pagamentos, vale a repetição, atingem a US$ 1,180 bilhão. Dir-se-á que para zerar todos os litígios, teria entrado o "valor estratégico"... capaz de assegurar a duplicação da capacidade da refinaria, e revelar os segredos do fundo do mar no Golfo do México, mas sabe a chacota. Não surpreende que quando se conheceram os números do negócio, estes como o valor "estratégico" passavam a ser contestados.
Este o caso até onde sei e o que sei é o que tem sido divulgado. Com efeito, ele vem sendo abordado pelos meios de comunicação e até agora não se sabe de nenhuma providência que tivesse sido tomada. O assunto não é agradável, mas nem por isso pode ser mantido sob o comodismo do silêncio. Repito a sentença do Padre Vieira, "a omissão é um pecado que se faz não fazendo". É evidente que a senhora presidente da República tem todas as condições para o cabal esclarecimento da singular operação. Entre nós quando se fala em comissão esta terá de ser de "alto nível" e quando se trata de inquérito ele há de ser "rigoroso". Ora, quando o substantivo precisa da bengala do adjetivo o remédio é outro. Sempre entendi que os inquéritos não podem nem devem ser "rigorosos", nem flácidos; respeitadas as garantias de defesa, a diligência, a isenção, a tempestividade e a obediência aos prazos legais, substituem com vantagem o rigor. Nada de rigorismo ou lassidão, bastam legalidade e pontualidade; em uma palavra: a exação.
PS.: Estava a escrever este artigo, quando fui lembrado da passagem dos 60 anos da morte de Stalin, fato que mereceria uma reflexão.
domingo, 10 de março de 2013
Quem governa quem governa? - CARLOS AYRES BRITTO
ZERO HORA - 10/03/2013
A Constituição governa quem governa. Governa de modo permanente quem governa de modo transitório
Comecemos por uma afirmação óbvia: o Poder Executivo de qualquer das quatro unidades da nossa federação tem um chefe. Estrutura-se ele, Poder Executivo, sob a chefia ou autoridade máxima de um agente político. Prefeito, governador, presidente da República, todos dirigem superiormente uma dada Administração Pública e daí se postam aos olhos do povo como a própria encarnação do governo. A face mais visível do poder público.
Estamos a falar, portanto, de um tipo de agente que é popularmente eleito para ficar no topo de um dos poderes elementares do Estado. Poder, esse, mais fisicamente próximo do conjunto da população, por lhe competir implementar as políticas públicas mais cotidianamente significativas dos interesses e valores juridicamente qualificados como próprios dessa população mesma. Interesses e valores que mais de perto viabilizam a sobrevivência, o equilíbrio e a evolução do conjunto da sociedade, por conseguinte. Donde a instantânea identificação entre chefe do Poder Executivo e o governo de toda pessoa estatal-federada: União, Estados, Distrito Federal e municípios.
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A Constituição governa quem governa. Governa de modo permanente quem governa de modo transitório
Comecemos por uma afirmação óbvia: o Poder Executivo de qualquer das quatro unidades da nossa federação tem um chefe. Estrutura-se ele, Poder Executivo, sob a chefia ou autoridade máxima de um agente político. Prefeito, governador, presidente da República, todos dirigem superiormente uma dada Administração Pública e daí se postam aos olhos do povo como a própria encarnação do governo. A face mais visível do poder público.
Estamos a falar, portanto, de um tipo de agente que é popularmente eleito para ficar no topo de um dos poderes elementares do Estado. Poder, esse, mais fisicamente próximo do conjunto da população, por lhe competir implementar as políticas públicas mais cotidianamente significativas dos interesses e valores juridicamente qualificados como próprios dessa população mesma. Interesses e valores que mais de perto viabilizam a sobrevivência, o equilíbrio e a evolução do conjunto da sociedade, por conseguinte. Donde a instantânea identificação entre chefe do Poder Executivo e o governo de toda pessoa estatal-federada: União, Estados, Distrito Federal e municípios.
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domingo, 3 de março de 2013
Entreouvidos por aí - MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 03/03/2013
“De todas as pessoas que eu conhecia, ela era a candidata menos provável de eu vir a ter uma história. Extremamente carola, cheia de nove horas, o oposto do meu estilo. Sou um cara moderno, livre, desimpedido em todos os sentidos.
Sempre gostei de mulheres bem resolvidas, e ela me parecia uma menininha à espera de um anjo salvador. No entanto, quando dei por mim, ela estava sob as minhas asas. Não era o que eu buscava na vida, não era mesmo. Não sei como chamar isso”.
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“De todas as pessoas que eu conhecia, ela era a candidata menos provável de eu vir a ter uma história. Extremamente carola, cheia de nove horas, o oposto do meu estilo. Sou um cara moderno, livre, desimpedido em todos os sentidos.
Sempre gostei de mulheres bem resolvidas, e ela me parecia uma menininha à espera de um anjo salvador. No entanto, quando dei por mim, ela estava sob as minhas asas. Não era o que eu buscava na vida, não era mesmo. Não sei como chamar isso”.
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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
MARTHA MEDEIROS - Infiltrações
Zero Hora - 27/02/2013
“Aqui tudo parece que é ainda construção, e já é ruína”.
Conversava com um amigo sobre o vexame que foi a abertura daquele buraco no conduto Álvares Chaves na semana passada, durante um dos temporais mais enérgicos ocorridos em Porto Alegre, e nos veio à lembrança essa parte da letra da música Fora da Ordem, do Caetano Veloso.
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“Aqui tudo parece que é ainda construção, e já é ruína”.
Conversava com um amigo sobre o vexame que foi a abertura daquele buraco no conduto Álvares Chaves na semana passada, durante um dos temporais mais enérgicos ocorridos em Porto Alegre, e nos veio à lembrança essa parte da letra da música Fora da Ordem, do Caetano Veloso.
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domingo, 24 de fevereiro de 2013
Diana Lichtenstein Corso - Sede de vingança
ZERO HORA - 24/02/2013
Não mais nos reunimos em praça pública para ver a cabeça dos culpados rolar ou pender. Mas, sempre que possível, fazemos isso no noticiário e, principalmente, nos cinemas. Nos antigos filmes de caubói, um catártico tiroteio garantia a punição dos bandidos e a saída incólume do herói.
Duros de matar, esses homens a cavalo foram logo substituídos por policiais igualmente solitários. Final feliz requer o chão coberto de corpos dos maus. Em Django Livre, como já fizera em Bastardos Inglórios e em Kill Bill, o diretor Quentin Tarantino arma seu roteiro a partir da nossa sede de vingança contra escravocratas, nazistas e machistas violentos.
Duros de matar, esses homens a cavalo foram logo substituídos por policiais igualmente solitários. Final feliz requer o chão coberto de corpos dos maus. Em Django Livre, como já fizera em Bastardos Inglórios e em Kill Bill, o diretor Quentin Tarantino arma seu roteiro a partir da nossa sede de vingança contra escravocratas, nazistas e machistas violentos.
MARTHA MEDEIROS - Afinados
ZERO HORA - 24/02/2013
Uma vez, em uma conversa entre amigos, alguém comentou que jamais conseguiria casar com quem ouvisse Celine Dion. Casar? Eu não conseguiria pegar uma carona com alguém que ouvisse Celine Dion, retruquei, exagerando. E foi nesse tom de brincadeira que continuamos falando sobre nossos eu nunca poderia me relacionar com alguém que....
Puro blábláblá, pois, na hora em que a paixão se apresenta, nossos gostos se adaptam rapidinho, e a gente se pega dançando forró quando queria mesmo era estar num show do Pearl Jam. Ainda assim, essa questão de ter afinidade musical não é absolutamente tola. Gostar de gêneros musicais diferentes não impede um relacionamento, mas, quando há compatibilidade, dois amantes evoluem e transformam-se em dois cúmplices.
Puro blábláblá, pois, na hora em que a paixão se apresenta, nossos gostos se adaptam rapidinho, e a gente se pega dançando forró quando queria mesmo era estar num show do Pearl Jam. Ainda assim, essa questão de ter afinidade musical não é absolutamente tola. Gostar de gêneros musicais diferentes não impede um relacionamento, mas, quando há compatibilidade, dois amantes evoluem e transformam-se em dois cúmplices.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
MARTHA MEDEIROS - Fim de férias
ZERO HORA - 20/02/2013
Passei duas semanas à beira-mar, caminhando, pedalando, rindo com os amigos e mergulhada em boas leituras. Aproveitei o descanso para me extasiar com Os Enamoramentos, de Javier Marias, para conhecer a ironia cativante de David Foster Wallace em seu Ficando Longe do Fato de já Estar meio que Longe de Tudo e voltei a consultar o filósofo Cioran, cuja amargura não deixa de ter um lado divertido.
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Passei duas semanas à beira-mar, caminhando, pedalando, rindo com os amigos e mergulhada em boas leituras. Aproveitei o descanso para me extasiar com Os Enamoramentos, de Javier Marias, para conhecer a ironia cativante de David Foster Wallace em seu Ficando Longe do Fato de já Estar meio que Longe de Tudo e voltei a consultar o filósofo Cioran, cuja amargura não deixa de ter um lado divertido.
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LETICIA WIERZCHOWSKI - Dois livraços
ZERO HORA - 21/02/2013
A minha biblioteca costuma guardar lugar de honra para os romances, mas, neste verão, picada por algum bichinho, curiosamente eu me pus a ler uma série de livros de memórias, e dois deles me emocionaram muitíssimo – A Lebre com Olhos de Âmbar (ed. Intrínseca) e Só Garotos (Cia. das Letras).
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A minha biblioteca costuma guardar lugar de honra para os romances, mas, neste verão, picada por algum bichinho, curiosamente eu me pus a ler uma série de livros de memórias, e dois deles me emocionaram muitíssimo – A Lebre com Olhos de Âmbar (ed. Intrínseca) e Só Garotos (Cia. das Letras).
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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
FABRÍCIO CARPINEJAR - O piano da sala
Não fica com dó ao enxergar um piano parado, totalmente sem uso, num apartamento?
Não sente um remorso? Não considera um desperdício?
Tão caro e tão abandonado. Tão valioso e tão calado.
sábado, 16 de fevereiro de 2013
DIOGO OLIVIER - A Copa do Mundo é nossa
Toda vez que o secretário-geral da Fifa cobra agilidade nas obras para a
Copa de 2014, um espírito nacionalista ultrapassado e velho brota dos
rincões mais profundos. O papel de Jérôme Valcke é este mesmo, o de
xerife da organização do Mundial. Se ele não puder exigir tudo dentro
dos conformes em um evento patrocinado pela entidade que gerencia, então
o melhor a fazer é pedir para sair, como diria o Capitão Nascimento.
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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
PAULO SANT’ANA - Ressuscitação
Anunciaram anteontem na internet que eu morri.
O Nílson Souza me telefonou aflito: “Que coisa boa te ouvir. A internet está bombando, estão dizendo que morreste. Acho melhor tu falares na Gaúcha para desmentir”.
As pessoas telefonavam para a rádio e ficavam sabendo que eu ainda não morrera.
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O Nílson Souza me telefonou aflito: “Que coisa boa te ouvir. A internet está bombando, estão dizendo que morreste. Acho melhor tu falares na Gaúcha para desmentir”.
As pessoas telefonavam para a rádio e ficavam sabendo que eu ainda não morrera.
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
PAULO SANT’ANA - Um papa jovem
O que se verifica com a renúncia do Papa não passa de uma singela aposentadoria.
O direito à aposentadoria é universal e humanitarista.
Verifica-se agora um defeito no Direito Canônico por não ter previsto a aposentadoria dos papas.
Muitos papas terminaram seus mandatos caindo aos pedaços.
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O direito à aposentadoria é universal e humanitarista.
Verifica-se agora um defeito no Direito Canônico por não ter previsto a aposentadoria dos papas.
Muitos papas terminaram seus mandatos caindo aos pedaços.
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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
PAULO SANT’ANA - O lugar dos bêbados
Não se pode esperar de quem é rasteiro outra coisa que não seja baixeza.
Não se pode esperar erudição de quem é analfabeto.
Do mau-caráter só se pode esperar maus-caratismos.
Grandeza só se pode esperar de quem é grande, erudição só se pode esperar de quem é culto.
Por isso é que se criou o ditado de que “ali de onde menos se espera é que nunca sai nada mesmo”.
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Não se pode esperar erudição de quem é analfabeto.
Do mau-caráter só se pode esperar maus-caratismos.
Grandeza só se pode esperar de quem é grande, erudição só se pode esperar de quem é culto.
Por isso é que se criou o ditado de que “ali de onde menos se espera é que nunca sai nada mesmo”.
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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Paulo Brossard - E a presidente riu dos críticos
A senhora presidente da República, em 11 de setembro passado,
estabeleceu a redução da tarifa elétrica em 16% para residências e 28%
para a indústria e a medida agradou a meio mundo para não dizer mundo e
meio, pois sempre é bem-vinda a redução de ônus, seja qual for, e é
notória a exagerada tarifa em causa; se isto vale em relação a
brasileiros e estrangeiros residentes no país, quanto ao consumo em suas
residências, o mesmo vale quanto à indústria, que na energia tem um dos
fatores que compromete a competitividade dela nos mercados interno e
externo. Pouco depois, a redução foi majorada para 18% e 32%,
respectivamente, aliás, usada para maior gabo à chefe do Executivo. Há
quem entenda que a redução se explicaria por estarem previstos
reajustamentos de tarifa a várias concessionárias no ano em curso, de
fevereiro a dezembro, ou poderia explicar-se pela munificência do
governo, já em aberta campanha eleitoral, embora a destempo à luz da
lei.
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domingo, 10 de fevereiro de 2013
Trincadura da alma - CARLOS AYRES BRITTO
Esta fase do gerenciamento das perdas afetivas é a mais difícil, até por uma questão de cultura
A tragédia atual de Santa Maria, Rio Grande do Sul, traz à tona uma expressão antiga: "há crimes que clamam aos céus e pedem a Deus castigo". O brado de indignação é tanto mais compartilhado quanto proferido por essa dimensão do ser humano a que chamamos de cidadania. No caso, cidadania que submete as coisas à lupa da razão mais dedutiva ou cartesiana para escancarar a desrazão dos causadores da hecatombe em que se traduz a morte de quase duas centenas e meia de seres humanos.
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A tragédia atual de Santa Maria, Rio Grande do Sul, traz à tona uma expressão antiga: "há crimes que clamam aos céus e pedem a Deus castigo". O brado de indignação é tanto mais compartilhado quanto proferido por essa dimensão do ser humano a que chamamos de cidadania. No caso, cidadania que submete as coisas à lupa da razão mais dedutiva ou cartesiana para escancarar a desrazão dos causadores da hecatombe em que se traduz a morte de quase duas centenas e meia de seres humanos.
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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
PAULO SANT’ANA - O chato missivista
Quando topo com um sujeito muito chato, insuportavelmente chato, sempre penso no seguinte: pobre coitada da mulher dele.
Se eu me encontro com um chato uma vez por semana ou por quinzena – e ele sistematicamente me chateia –, calculem então o que deve chatear à sua mulher, com quem ele mora, com quem ele dorme, almoça e janta todos os dias há muitos anos!
Toda mulher de chato é uma heroína. O que devem sofrer os filhos de um chato...
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Se eu me encontro com um chato uma vez por semana ou por quinzena – e ele sistematicamente me chateia –, calculem então o que deve chatear à sua mulher, com quem ele mora, com quem ele dorme, almoça e janta todos os dias há muitos anos!
Toda mulher de chato é uma heroína. O que devem sofrer os filhos de um chato...
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LETICIA WIERZCHOWSKI - A história dos caroços
ZERO HORA - 07/02/2013
Quando minhas irmãs e eu éramos crianças, o pai fazia questão de que comêssemos frutas. Muitas. Ele tinha o hábito de trazer caixas de fruta para casa, enchendo a geladeira de uvas, pêssegos, mangas e ameixas. Eu sempre gostei de frutas, mas era difícil dar cabo das quantidades que o pai trazia.
No verão, quando a família ia para o Litoral, e o pai passava a semana trabalhando na cidade, ele chegava na praia com o carro cheio de frutas, e a nossa obrigação era comer aquilo até a próxima sexta-feira.
Nunca dávamos conta... Até que o pai criou o subterfúgio de pagar por caroços e sementes. Talvez hoje, neste mundo asséptico onde o politicamente correto tornou tudo meio chato, alguns torçam o nariz para a ideia do pai – mas garanto que, nos anos 1980, foi uma sacada genial.
Naquele verão, caroços e sementes passaram a valer grana. Éramos várias crianças – eu e minhas duas irmãs, mais os dois filhos do meu tio que passavam as férias conosco. O pai chamou-nos e, muito sério, informou a cotação vigente.
Era mais ou menos assim: 20 centavos por caroço de pêssego, 15 centavos por caroço de ameixa. Sementes de uva valiam cinco centavos. A gente deveria comer as frutas durante a semana, guardando os caroços para que o pai nos pagasse proporcionalmente na sexta-feira. Nunca comemos tantas frutas na vida!
Os caroços viraram a moeda oficial daquele verão: um picolé se comprava com três caroços de pêssego, um sorvete de duas bolas necessitava cinco pêssegos, 10 ameixas e um cacho de uvas. E a gente dê-lhe comer. Meu primo economizava caroços para comprar revistinhas, minha irmã torrava tudo em picolés.
Na sexta, o pai chegava e, coitado, antes de se estirar na cadeira da varanda, tinha que sentar à mesa da sala e fazer a contabilidade dos caroços (e os caroços eram guardados em sacos, e ali ficavam fermentando durante dias e dias, no calor do verão).
Contar aquilo era um nojo e uma trabalheira, mas o pai seguia firme. E cada vez trazia mais frutas para casa. Até que um dia, a minha prima resolveu juntar sementes para comprar alguma coisa grande, acho que era uma boneca. Era uma guria obstinada, e naquela semana comeu ameixas dia e noite, até que amanheceu na sexta-feira com febre, vômitos e diarreia.
A mãe ficou fula. Fruta demais soltava o intestino, foi o que ela disse para o pai quando ele chegou naquela tarde com suas ameixas e pêssegos. Diante do estado da sobrinha, o pai capitulou. Recebemos o nosso último pagamento, consternados: acabava-se ali a mina de ouro. Eu sigo adorando frutas, mas, como naquele verão, nunca mais.
Quando minhas irmãs e eu éramos crianças, o pai fazia questão de que comêssemos frutas. Muitas. Ele tinha o hábito de trazer caixas de fruta para casa, enchendo a geladeira de uvas, pêssegos, mangas e ameixas. Eu sempre gostei de frutas, mas era difícil dar cabo das quantidades que o pai trazia.
No verão, quando a família ia para o Litoral, e o pai passava a semana trabalhando na cidade, ele chegava na praia com o carro cheio de frutas, e a nossa obrigação era comer aquilo até a próxima sexta-feira.
Nunca dávamos conta... Até que o pai criou o subterfúgio de pagar por caroços e sementes. Talvez hoje, neste mundo asséptico onde o politicamente correto tornou tudo meio chato, alguns torçam o nariz para a ideia do pai – mas garanto que, nos anos 1980, foi uma sacada genial.
Naquele verão, caroços e sementes passaram a valer grana. Éramos várias crianças – eu e minhas duas irmãs, mais os dois filhos do meu tio que passavam as férias conosco. O pai chamou-nos e, muito sério, informou a cotação vigente.
Era mais ou menos assim: 20 centavos por caroço de pêssego, 15 centavos por caroço de ameixa. Sementes de uva valiam cinco centavos. A gente deveria comer as frutas durante a semana, guardando os caroços para que o pai nos pagasse proporcionalmente na sexta-feira. Nunca comemos tantas frutas na vida!
Os caroços viraram a moeda oficial daquele verão: um picolé se comprava com três caroços de pêssego, um sorvete de duas bolas necessitava cinco pêssegos, 10 ameixas e um cacho de uvas. E a gente dê-lhe comer. Meu primo economizava caroços para comprar revistinhas, minha irmã torrava tudo em picolés.
Na sexta, o pai chegava e, coitado, antes de se estirar na cadeira da varanda, tinha que sentar à mesa da sala e fazer a contabilidade dos caroços (e os caroços eram guardados em sacos, e ali ficavam fermentando durante dias e dias, no calor do verão).
Contar aquilo era um nojo e uma trabalheira, mas o pai seguia firme. E cada vez trazia mais frutas para casa. Até que um dia, a minha prima resolveu juntar sementes para comprar alguma coisa grande, acho que era uma boneca. Era uma guria obstinada, e naquela semana comeu ameixas dia e noite, até que amanheceu na sexta-feira com febre, vômitos e diarreia.
A mãe ficou fula. Fruta demais soltava o intestino, foi o que ela disse para o pai quando ele chegou naquela tarde com suas ameixas e pêssegos. Diante do estado da sobrinha, o pai capitulou. Recebemos o nosso último pagamento, consternados: acabava-se ali a mina de ouro. Eu sigo adorando frutas, mas, como naquele verão, nunca mais.
Embate nas redes sociais
Utilizadas logo depois do incêndio em Santa Maria como canal de lamentos
e homenagens, as redes sociais se firmam agora como palco de um embate
digital entre os envolvidos na tragédia, simpatizantes de cada lado e
interessados no desfecho do caso.
A tentativa de somar pontos com a opinião pública leva à publicação de manifestos, fotos, vídeos e comentários ora absolvendo, ora condenando autoridades, os donos da boate e músicos do grupo Gurizada Fandangueira.
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A tentativa de somar pontos com a opinião pública leva à publicação de manifestos, fotos, vídeos e comentários ora absolvendo, ora condenando autoridades, os donos da boate e músicos do grupo Gurizada Fandangueira.
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