quarta-feira, 19 de junho de 2013

Quanto mais Wilder, melhor - Por LUIZ CARLOS MERTEN

 O Estado de S.Paulo - 19/06/2013



Billy Wilder ganhou duas vezes o Oscar de direção - por Farrapo Humano, em 1945, e Se Meu Apartamento Falasse, de 1960. Por mais merecidos que tenham sido os prêmios, onze entre dez críticos serão capazes de jurar que Wilder merecia mais - ou que a Academia de Hollywood errou. Se era para premiar um de seus clássicos noir, Pacto de Sangue e Crepúsculo dos Deuses teriam sido escolhas mais certeiras. E, quanto às comédias, se Quanto Mais Quente Melhor foi escolhida pelo American Film Institute como a melhor de todos os tempos, como - sim, como - foi ignorada pela mesma Academia?

Quando Wilder morreu - de pneumonia, em 2002, aos 95 anos -, não dirigia havia mais de uma década. Buddy, Buddy/Amigos, Amigos, Negócios à Parte é de 1981. Não foi um fecho de ouro para uma carreira tão brilhante, mas o grande diretor passou seus últimos anos recebendo honrarias e homenagens - e também trabalhando, com espartana dedicação a projetos que nunca mais se concretizaram. Seu nome virou sinônimo de humor crítico, corrosivo. Wilder como diretor de comédias era uma consequência de seu começo como roteirista de Ernst Lubitsch. Mas Wilder fez um atalho e, antes de se estabelecer como rei do humor, exercitou-se no cinema noir.

Todo Wilder estará agora de volta na grande retrospectiva que o Cinesesc dedica ao grande artista e que começa amanhã. Todo Wilder! Para cada uma de suas fases,teve um colaborador – Charles Brackett para
os filmes noir; I.A.L. Diamond para as comédias. Wilder nasceu em Viena, filho de um hoteleiro,em 1906.Foi jornalista e roteirista de Robert Siodmak. Conta a lenda que teria tentado entrevistar o próprio Sigmund Freud. O advento do nazismo levou-o a fugir e, antes dos EUA, ele passou pela França, onde fez o primeiro longa, La Mauivaise Graine, com Danielle Darrieux, em 1933. Nos EUA, estreou com A Incrível Suzana, nove anos mais tarde. O filme conta a história deumhomem que se envolve com uma garota disfarçada de menino, num trem. O jovem Wilder já abordava temas um tanto escabrosos, como pedofilia e homossexualismo, mas Ginger Rogers, que fazia a travesti, já era mulher,e isso saltava aos olhos.

Pacto de Sangue, baseado numa história de James M. Cain, é considerado o mais noir dos filmes noir. A mulher fatal Barbara Stanwyck induz Fred Mac- Murray a matar seu marido, mas Edward G. Robinson, como o agente da seguradoras, não se deixa enganar.Com Farrapo Humano, investigando a mente enferma de um alcoólatra, durante um fim de semana de abstinência, Wilder ganhou o primeiro Oscar. O filme é o protótipo do que ficou conhecido como “problem movie”, o filme-problema, consciente de sua dimensão social. Exagera, talvez, nos efeitos de luz e sombra – a herança expressionista e,com certeza, não é um grande Wilder,um dos melhores, pelo menos. Crepúsculo dos Deuses, com seu olhar arguto sobre os bastidores de Hollywood, é melhor.

A estrela Norma Desmond contrata um roteirista para escrever o filme que marcará seu retorno triunfal à tela. Gloria Swanson cria uma personagem maior que a vida – e lamenta para William Holden como os filmes ficaram pequenos. O desfecho é antológico a enlouquecida Norma, depois de matar o roteirista, prepara-se para o “close”. Pedro Almodóvar, que é fã de Billy Wilder, diz que só aquilo já vale a existênciadocinema. O diretor ainda fez A Montanha dos Sete Abutres em 1951, mas seu ataque à imprensa sensacionalista – no personagem de Kirk Douglas –, foi muito avançado para a época e o público rejeitou o filme (que hoje é cult). Wilder deu então a grande guinada para o humor,com uma comédia desenrolada num campo de prisioneiros, durante a 2.ª Guerra Mundial, Inferno 17.

Veio o interregno romântico de Sabrina – o que quer a personagem de Audrey Hepburn? O marido rico ou o príncipe encantado? O humor impôs-se com dois tributos a Marilyn Monroe, o Pecado Mora ao Lado e Quanto Mais Quente Melhor. De novo o travestismo: Tony Curtis e Jack Lemmon vestem-se  de mulher. E tem ainda a frase que entrou para a história,“Ninguém é perfeito”. Wilder nunca parou de surpreender. Antecipou a débâcle do comunismo (o jogo imperialista de Cupido Não Tem Bandeira), fez o mais hitchcockiano dos filmes de suspense que Alfred Hitchcock não assinou (A Vida Íntima de Sherlock Holmes), voltou aos bastidores da imprensa (A Primeira Página) e do cinema (Fedora). O ciclo vai exibir cópias novas de longas com o Crepúsculo, Quanto Mais Quente e Pacto de Sangue. Wilder não gostaria do chavão,mas não há como fugir. A roupa nova só vai ajudar a mostrar que Wilder talvez só se tenha enganado uma vez. Ninguém é perfeito, mas não nada. O cinema dele é (perfeito).

Ecos de segunda

Foto: Paulo Giandalia/Estadão

Não foi só na internet que os artistas demonstraram seu apoio aos atos de anteontem. Muitos fizeram questão de ir ao Largo da Batata, em São Paulo. Ná Ozzetti, que participou da campanha pelas Diretas Já, contou à coluna que, na década de 80, o Brasil era outro. “Mas estou muito orgulhosa desses jovens de hoje. É importante sair às ruas e temos de aproveitar o benefício da internet”, disse a cantora.

Já a atriz Nathália Rodrigues, paulistana, considera o dia 17 de junho um marco de sua geração. “Estou aqui contra tudo o que acontece nessa politicagem e também para apoiar o movimento”, disparou, em meio a gritos de “veeeeem, veeeem, vem para rua, veeeem, contra o aumento!”.

Claudia Missura estava com um grupo de amigos, entre eles Gero Camilo, agachados e com maços de flores nas mãos. A atriz, que fez o papel de Janaína em Avenida Brasil, contou que mora em São Paulo há 20 anos e que são necessárias melhorias na cidade. “Estou achando linda essa demonstração de democracia, sem partido”, contou. Também participaram da passeata Criolo e Laerte.

 /MARILIA NEUSTEIN

Estadão - 19/06/2013

Editoriais 19/06/2013

O Globo 

Corrupção é o foco

 Mesmo que as reivindicações sejam várias e muitos cartazes exibam anseios mal explicados ou utopias inalcançáveis, há um ponto comum nessas manifestações dos últimos dias: a luta contra a corrupção. A vontade de que o dinheiro público seja gasto com transparência e que as prioridades dos governos sejam questões que afetam o dia a dia do cidadão, como saúde, educação, transportes, está revelada em cada palavra de ordem, até mesmo nas que parecem nada ter a ver com o fulcro das reivindicações, como no protesto contra a PEC 37.

Nele está contido o receio da sociedade de que, com o Ministério Público impedido de investigar, o combate à corrupção seja prejudicado. Todas as questões giram em torno do dinheiro público gasto sem controle, como nos estádios da Copa do Mundo, todos com acusações de superfaturamento. O dinheiro que sobra para construção de "elefantes brancos" falta na construção de hospitais ou sistemas de transportes que realmente facilitem a vida do cidadão.

O mundo político está de cabeça para baixo tentando digerir as mensagens que chegam da voz rouca das ruas, como dizia Ulysses Guimarães, que dizia também que "a única coisa que mete medo em político é o povo na rua". Ninguém entende, por exemplo, por que houve esse verdadeiro estouro da boiada agora, e não há um mês ou mesmo há um ano.

Tenho um palpite: assim como as manifestações na Tunísia, as primeiras da Primavera Árabe, começaram com o suicídio de Mohamed Bouazizi, de 26 anos, vendedor ambulante que ateou fogo ao corpo depois de proibido de trabalhar nas ruas por não ter documentos nem dinheiro para pagar propinas aos fiscais, as manifestações aqui foram grandemente impulsionadas pela reação violenta da polícia em SP semana passada.

O movimento contra o aumento das passagens de ônibus poderia não ter a amplitude que ganhou se não houvesse uma reação nas redes sociais à atitude da polícia, como se todos sentissem a opressão do Estado na sua pele, e de repente liberassem os diversos pleitos que estavam latentes na sociedade.
Creio que foi a partir do entendimento de que uma reivindicação justa como a da redução das tarifas de ônibus estava sendo tratada simplesmente como um pretexto para arruaças e vandalismos que a sociedade passou a se mobilizar para ampliar suas reivindicações.

Isso nada tem a ver com comparações entre as mobilizações que ganham as principais cidades do país e a Primavera Árabe, pois estamos em uma democracia e não se trata de derrubar governos, mas de mudar a maneira de geri-los, política e administrativamente. E também não é possível considerar que os abusos de um dia impedem as polícias de reprimir a parte radicalizada das manifestações, que vandaliza cidades ou tenta invadir prédios públicos ou residências das autoridades.

Creio mesmo que no Rio e em São Paulo as autoridades ficaram paralisadas diante da violência de parte dos manifestantes e não agiram com o rigor devido nessas ocasiões. O que demonstra falta de bom senso. Um detalhe que define bem a divisão desses movimentos foi o grupo de jovens que foi ao Centro do Rio ontem tentar limpar e consertar em parte o que os vândalos fizeram no dia anterior. E em São Paulo, em frente ao Palácio dos Bandeirantes, enquanto um grupo tentava derrubar o portão de entrada, outros o recolocavam no lugar.

O ambiente econômico também deve ter contribuído para quebrar aquela falsa sensação de bem-estar. E é impressionante que o imenso aparato de informações de que cada governo dispõe, especialmente a Presidência da República, e as pesquisas de opinião não detectaram a indignação que explodiu nas ruas.
O dono de um desses institutos de opinião que vende seus serviços para o PT, e acrescenta a eles, como um bônus, comentários em revistas chapas-brancas, chegou a ironizar as oposições e analistas que criticavam o governo, afirmando que viviam em uma realidade paralela, que nada tinha a ver com a vida do cidadão comum, que estava muito satisfeito. Segundo ele, não havia sinal de mudança de ventos que suas pesquisas pudessem captar.

Também o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência, que anunciou que "o bicho vai pegar", parece estar atordoado com o bicho novo que está pegando sem que ele ou o PT dominem a situação.

 O Globo 


Decifrar as mensagens da rua

 

Aestimativa de que cerca de 240 mil pessoas estavam nas ruas, no início da noite de terça-feira, em 11 capitais, para protestar já é algo significativo. Mais do que isso, são as imagens e o sentido do que aconteceu anteontem neste país que colocam a data de 17 de junho de 2013 no calendário dos grandes acontecimentos políticos e sociais dos últimos 28 anos, desde o início da redemocratização, em 1985, com a posse de José Sarney na Presidência.

As cenas de violência e vandalismo - ocorridas principalmente no Rio, na tentativa de invasão da Assembleia Legislativa, e na não menos criminosa depredação de bancos e estabelecimentos comerciais na área, além da pichação do Paço, patrimônio nacional - não conseguem reduzir o peso das mensagens que as ruas têm transmitido nestes últimos dias a governos, políticos e partidos da situação e da oposição.
A partir da descontrolada ação da PM paulista, na quinta-feira da semana passada, o movimento pelo "passe livre" no transporte público, deflagrado com o último aumento de tarifas, recebeu maciças adesões em escala nacional e passou a ganhar outra dimensão.

Não que a chamada (i)mobilidade urbana já não criasse imensas dificuldades para as pessoas, principalmente as de renda mais baixa, a grande maioria. E não só em função do custo, mas pelo crescente sacrifício físico que milhões de pessoas passam diariamente nas capitais brasileiras para se locomover. É que o movimento, deflagrado e organizado por meio das redes sociais, tem a questão do transporte público apenas como uma chave que destampa e coloca nas ruas a insatisfação acumulada nos últimos anos com uma sucessão de distorções. É a tal sensação difusa de desconforto com "tudo isso que está aí", amplificada pela volta da inflação.

A mobilização política ressurge no Brasil de um movimento subterrâneo, surdo, invisível, mas bastante ativo, a partir da rede mundial de computadores. O fenômeno não é novo, acontece em escala planetária. Mas há peculiaridades regionais. Onde existe liberdade, redes sociais facilitam a organização de grupos na defesa de pautas específicas. Em ditaduras, ajudam a driblar censores, a repressão política.

No Brasil, país democrático, vivia-se um longo período de inércia política. A situação, confortável no poder, e a oposição, também passiva, incapaz de metabolizar a fermentação das insatisfações que há tempos trafegam nas redes. As ruas acabam de atropelar ambas - má notícia para a democracia representativa, ruim para a estabilidade institucional.

É míope a tentativa de capitalização político-eleitoral desta espécie de erupção vulcânica. A questão é tão mais ampla quanto profunda. Devem ser entendidos por suas excelências do Executivo e do Legislativo gestos de manifestantes contra cartazes e bandeiras de partidos nas passeatas, mesmo os identificados com a extrema-esquerda. O representante da juventude do PT em Brasília foi escorraçado na tentativa de participar do comando da manifestação à frente do Congresso.

Toda esta mobilização conseguiu atravessar fronteiras geracionais, etárias e sociais. Pode ser que lá na origem de tudo tenham atuado grupos politizados, sem identificação com o estado de coisas na política brasileira. Não importa. Quando casais com filhos pequenos vão às ruas, ao lado de idosos, gente de toda idade, é porque apareceu algo novo no radar da sociedade. Maurício Matheus, a mulher, Thaís, com o filho João, de um ano e meio, foram entrevistados pelo GLOBO, em São Paulo. Preso ao macacão de João, o cartaz: "Não é por 0,20, é por direitos". Explicou o pai: "É um grito de socorro, precisamos de união e força para vetar os abusos ao povo." E existem diversas formas de abusos. No desprezo de políticos e governantes pela ética, por exemplo.

Se era urgente, diante do ronco das ruas tornou-se emergencial retomar a reforma da moralização do degradado quadro político-partidário. A Lei da Ficha Limpa foi vitória histórica, conquistada por grande mobilização, também pela internet, em torno de um projeto de origem popular. A vigilância continua necessária, agora para a sua aplicação correta.

É hora de voltar a atacar a pulverização partidária. Por erro técnico de encaminhamento - não pode ser por projeto de lei simples, mas emenda constitucional -, o Supremo rejeitou cláusula de barreira a legendas de rarefeito apoio entre os eleitores, mecanismo usado em democracias maduras. A fórmula elaborada é boa, basta resgatá-la das gavetas: para ter representação no Congresso, toda legenda necessita de, no mínimo, 5% dos votos nacionais e 2% em pelo menos nove estados.

Acabada a pulverização partidária, facilita-se a formação de alianças e reduz-se a margem para o uso de meios espúrios para a obtenção de maiorias. Um antídoto contra mensalões. Outra medida, também disponível nos escaninhos do Congresso - basta vontade política para resgatá-la -, é o fim da coligação em eleições proporcionais, pela qual o eleitor pode ser vítima de uma fraude, por ter o voto contabilizado para quem ele não conhece e em quem talvez não votasse. A conjugação dessas duas reformas ajudará a restabelecer uma seriedade mínima no jogo partidário. Se vigorassem há algum tempo, o político não teria sido transformado no Judas predileto de manifestantes.

O ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, setorista de "movimentos sociais", confessou, na manhã de ontem, ainda não compreender o que acontece. Foi honesto. Seu mundo é o das organizações formais, em que há líderes visíveis, conversáveis e cooptáveis. A presidente Dilma Rousseff, ex-militante, presa política, não poderia ter outra reação: o governo "está ouvindo essas vozes pela mudança". E, entre as vozes, a presidente identificou o "repúdio à corrupção e ao uso indevido do dinheiro público". Parece na pista certa a presidente.

Ao se investir contra a Copa das Confederações, ensaio para a Copa do Mundo, no ano que vem, com suas amplas e modernas "arenas", critica-se a incapacidade de o governo federal colocar os bilhões que arrecada de um contribuinte cada vez mais sobrecarregado de impostos naquilo que atenda às necessidades diretas da população: educação, saúde, transporte urbano, segurança.

Em vez disso, o poder público não para de ampliar os gastos em custeio, sem privilegiar os investimentos. E, quando investe, escolhe, por exemplo, projetos faraônicos como o do trem-bala entre Rio e São Paulo, dinheiro que poderia vir a ser aplicado na malha de transporte sobre trilhos nas grandes regiões metropolitanas, para promover de fato a mobilidade urbana.

As mensagens são várias. A torcida é para que os políticos, no poder e fora dele, as decifrem de maneira correta. A estabilidade institucional, em alguma medida, dependerá disso.

Correio Braziliense

Visão do Correio :: Manifestação sem vandalismo

 

O Brasil voltou a sentir orgulho de sua juventude que, desmentindo todas as suposições e até estudos profundos de especialistas, foram às ruas protestar, primeiro contra o aumento das tarifas de ônibus em São Paulo, depois pela péssima qualidade do transporte público. Em seguida, engrossaram o movimento com mais gente e mais bandeiras de insatisfação, lotando ruas, avenidas e praças nas principais cidades brasileiras.

Muita coisa que vinha povoando o desgosto das pessoas nos últimos anos entrou na lista, como as humilhantes filas do serviço de saúde, a cachoeira de denúncias de corrupção, as macabras estatísticas de mortos e feridos nas rodovia precárias, tudo sob a alegação da escassez de verbas, apesar dos gastos exorbitantes com a construção a toque de caixa de monumentais estádios, mesmo em cidades em que os melhores times não alcançam as divisões de elite do futebol brasileiro.

Melhor ainda foi constatar que os cerca de 250 mil que foram às ruas, a maioria jovens, não foram recrutados por partido algum. Pelo contrário, repeliram as toscas tentativas de agremiações políticas que tentaram pegar carona na energia contagiante dos manifestantes que fizeram da quinta-feira uma dia inesquecível. “Desculpem o transtorno. Estamos mudando o Brasil”, dizia uma das faixas levadas por jovens que demonstravam saber que faziam algo para ficar marcado na história de cada um e de todo o país.

Os protestos, face às vezes incômoda, mas sempre saudável da democracia, foram claramente mobilizados pelas redes sociais da internet com o propósito de chamar a atenção das autoridades, todas elas, e dos políticos para o esgotamento da paciência da cidadania em relação à falta de soluções para velhas questões. São problemas revoltantes, mas nem por isso os manifestantes pretendiam tirar sua mobilização da condição de protesto pacífico, até porque essa é uma das condições que o tornam respeitável.

Mas foi aí que apareceram os vândalos, os baderneiros, os incivilizados, sempre prontos a manchar com a sua estupidez tudo que a boa-fé produz. São eles que provocam a reação violenta — nem sempre justificável — dos policiais chamados a guardar bens públicos, bem como a garantir o mínimo de segurança e mobilidade para os cidadãos não envolvidos nas manifestações. Em Brasília, tentaram levar sua fúria destruidora para o espaço interno do Congresso. No Rio de Janeiro, agiram como um bando de selvagens descontrolados ao violarem e depredarem parte do histórico prédio da Assembleia Legislativa, causando ao povo prejuízo calculado em R$ 2 milhões. Em Belo Horizonte, apedrejaram lojas na Região da Pampulha e, em Porto Alegre, incendiaram um ônibus. Ontem, em São Paulo, voltaram a aprontar em frente à prefeitura da cidade.

É certo que são minoria e não devem ser confundidos com o grosso dos manifestantes. Mas nem por isso podem ficar impunes. Precisam ser identificados, punidos e levados à execração pública, não apenas pelos danos ao patrimônio alheio, mas também por terem atirado contra a democracia.

 O ESTADO DE S. PAULO

 VONTADE DE FALAR 

 Das dezenas de frases de participantes e entusiastas das manifestações da segunda-feira em 12 capitais brasileiras, citadas pela imprensa para dar uma ideia do espírito dos protestos, provavelmente a mais expressiva tenha sido a da ex-voleibolista Ana Beatriz Moser. "O importante é esse coro, essa vontade de falar. Os governantes têm de ouvir."

Em um País onde a última vez em que centenas de milhares de pessoas saíram de casa para se fazer ouvir pelos governantes foi em 1992, com o coro "Fora Collor", não é fácil de explicar a presumível acomodação da juventude, em contraste com o histórico de proliferação de atos públicos de massa no exterior (contra alvos diversos como a globalização, os transgênicos, a invasão do Iraque, o poder de Wall Street, as políticas recessivas na Europa, as tiranias árabes e, agora, o autoritarismo do governo livremente eleito na Turquia).


Pode-se argumentar que, desde o Plano Real no governo Itamar Franco, que assumiu no lugar de Collor, o Brasil amealhou mais notícias boas do que más - embora não raras entre essas tenham se tornado péssimas, a exemplo da criminalidade. O ciclo virtuoso de 18 anos - das administrações Fernando Henrique e Lula à primeira metade do mandato da presidente Dilma Rousseff - promoveu o crescimento e generalizados aumentos de renda real, principalmente entre os mais pobres. O consumo explodiu e só não atordoou os grupos engajados nas causas chamadas "pós-materialistas", como a defesa do meio ambiente, a proteção das comunidades indígenas, os direitos dos negros, mulheres e minorias sexuais. É tentador, mas arriscado, estabelecer uma relação direta e exclusiva entre a volta da inflação e os pibinhos, de um lado, e a eclosão do descontentamento, de outro. Mas seria míope negar qualquer nexo entre a economia em baixa e a insatisfação em alta.


De fato, foi o aumento das passagens de ônibus em São Paulo, na esteira dos de Porto Alegre e outras cidades, que fez o trânsito parar de vez. Na capital paulista, a brutalidade policial que se seguiu aos atos de vandalismo registrados na primeira passeata, no começo da semana passada, acirrou a indignação, deu nova motivação para a ida às ruas e remeteu a segundo plano (mas sem eliminar) as reclamações contra o preço dos bilhetes.


Esse é o dado crucial da onda de protestos que juntou anteontem mais de 230 mil pessoas do Pará ao Rio Grande do Sul - só no Rio foram cerca de 100 mil, com a Avenida Rio Branco tomada por compacta multidão fazendo lembrar as marchas pelas Diretas Já em 1984.


Deu uma vontade de falar que não se sabe como, quando ou se será aplacada: contra os padecimentos que o Estado impõe ao povo com os seus serviços de terceira e indiferença de primeira, a começar da saúde e educação públicas; contra os políticos e autoridades em geral que so cuidam dos seus interesses e são tidos como corruptos por definição; contra a selvageria do cotidiano por toda parte; contra a truculência das PMs; contra a lambança dos gastos com a Copa, que pegou de surpresa a cartolagem e seus parceiros no governo federal - e tudo o mais que se queira denunciar. Afinal, os jovens não se sentem representados por nenhuma instituição e desconfiam de todas. Tampouco a imprensa lhes merece crédito.


Consideram-se mais bem informados pelos seus pares das redes sociais do que pela mídia. É também na internet que . encontram argumentos para as suas críticas, colhem e se prestam solidariedade, cimentando a coesão grupal.


Entre a quarta-feira passada e a noite da última segunda, 79 milhões de mensagens sobre as marchas foram trocadas pelos internautas. O senso de autocongratulação - "a juventude acordou" - e a natureza difusa de suas queixas combinam-se para dificultar a discussão de pautas específicas de mudança em eventuais encontros com agentes públicos. Como se diz, faz parte: o protesto precede à proposta. O lado bom das jornadas dos últimos dias, além do caráter em geral pacífico das manifestações, foi a preocupação com o País. "Parem de falar que é pela passagem", comentou um jovem. "É por um Brasil melhor."



VALOR ECONÔMICO

 DIFUSAS INSATISFAÇÕES TOMAM AS RUAS DO PAÍS

 A juventude brasileira está em pé de guerra e avisou isso claramente aos governantes nas passeatas que reuniram centenas de milhares de pessoas em 11 capitais. O sistema de transporte público e seus preços foram os alvos imediatos das manifestações, que ganharam impulso a partir de São Paulo, mas são um símbolo dos péssimos serviços oferecidos pelas três esferas de governo em outras áreas vitais para o bem-estar dos cidadãos - saúde, educação, e segurança, por exemplo.

Outros simbolismos desfilaram pelas ruas das capitais na segunda-feira. A relativa espontaneidade do movimento e seu comando refratário a partidos indicam, no mínimo, uma primeira condenação implícita dos objetivos, ações e resultados das legendas que governam o país. O PT, o partido que saiu das ruas no passado, foi deixado de lado e a reação do governo, ora de estupefação, ora de indignação, deixa no ar a possibilidade de o auge do partido ter ficado para trás. Símbolos também, estudantes e jovens catalisam, mais uma vez na história, insatisfações disseminadas por vastas camadas sociais.


Há dois momentos do movimento que desaguou com força nas capitais e a distinção é importante. O Movimento do Passe Livre paulistano sempre protestou toda vez que as passagens aumentaram, mas a adesão a seus protestos era pequena, e os resultados, nulos. Sua insistência, após várias derrotas, e seu propósito simples e claro, o qualificou como um dos poucos canais de protesto em potencial de reivindicações que interessam à maioria do público urbano e diferentes categorias profissionais. Embora este ano houvesse mais pessoas nos primeiros atos contra o aumento das passagens, o movimento não tinha ultrapassado ainda o estágio de uma minoria barulhenta, incapaz de controlar, como é frequente, a violência de setores que o apoiam.


Até que - o segundo momento - uma passeata inicialmente pacífica no dia 13 de junho foi dissolvida com requintes de crueldade e selvageria pela polícia do governo paulista, a quem cabe a responsabilidade pela agressão a um direito democrático. Não houve dúvidas de que a polícia atacou primeiro e estava ali para expulsar brutalmente cidadãos que protestavam.


A partir daí, diante de cidadãos atônitos e revoltados com a atitude da polícia paulista, a adesão ao movimento cresceu exponencialmente porque uma outra questão, mais importante que o preço da passagem de ônibus, estava em jogo - a da liberdade de reunião e manifestação. Os brasileiros se tornaram ciosos dela desde quando forçaram, igualmente nas ruas, a queda da ditadura militar. A causa do Passe Livre ganhou a simpatia popular e intergeracional que até então não havia conseguido.


Para as manifestações de segunda-feira, primeiro movimento de grandes massas convocado pelas redes sociais, confluíram por gravidade todas as demandas sociais a que os governos deveriam atender e para as quais mostram, ano após ano, partido após partido, uma inépcia desconcertante. Não por acaso, as manifestações ocorridas em São Paulo (pelo menos 65 mil pessoas), no Rio (100 mil) e em Brasília (mais de 10 mil) buscaram o Legislativo - o Congresso Nacional e a Assembleia Legislativa do Rio. Os protestos apontaram também a responsabilidade pelo estado atual das coisas dos políticos, cuja omissão, no caso dos Legislativos estaduais e municipais, tornou-se uma lamentável tradição.


O PT, o único partido de massas do país, fica mal na história após o 17 de junho. Ainda que não tenha sido diretamente rechaçado, a rapidez com que se metamorfoseou em um partido como os outros, interessado no poder e suas benesses, e a facilidade com que jogou fora sua ideologia para formar bases de apoio governistas com o que de pior há na política brasileira, fizeram com que fosse olhado com desconfiança por alguns movimentos sociais que antes tinham com ele afinidades eletivas.


Movimentos difusos como o capitaneado pelo Passe Livre podem obter vitórias em suas reivindicações, para depois sumirem do mapa político. Mesmo que haja muito deslumbramento com o poder das redes sociais, a política continua sendo uma velha senhora rabugenta. Ou surgem novos líderes que aceitem conviver com ela, ou os movimentos exercerão pressão de fora, com mobilizações pontuais e pressão permanente das ruas - uma novidade por aqui. A terceira via possível é o desânimo.


 ESTADO DE MINAS

 MANIFESTAÇÃO SEM VÂNDALOS

 Protestos que lotam as ruas não podem ser manchados pela minoria

O Brasil voltou a sentir orgulho de sua juventude que, desmentindo todas as suposições e até estudos profundos de especialistas, foi às ruas protestar, primeiro contra o aumento das tarifas de ônibus em São Paulo, depois pela péssima qualidade do transporte público. Em seguida, engrossou o movimento com mais gente e mais bandeiras de insatisfação, lotando ruas, avenidas e praças nas principais cidades brasileiras. Muita coisa que vinha povoando o desgosto das pessoas nos últimos anos entrou na lista, como as humilhantes filas do serviço de saúde, a cachoeira de denúncias de corrupção, as macabras estatísticas de mortos e feridos nas rodovias precárias, tudo sob a alegação da escassez de verbas, apesar dos gastos exorbitantes com a construção a toque de caixa de monumentais estádios, mesmo em cidades em que os melhores times não alcançam as divisões de elite do futebol brasileiro.


Melhor ainda foi constatar que os cerca de 250 mil que foram às ruas, a maioria jovens, não foram recrutados por partido algum. Pelo contrário, repeliram as toscas tentativas de agremiações políticas que tentaram pegar carona na energia contagiante dos manifestantes que fizeram da segunda-feira um dia inesquecível. "Desculpem o transtorno. Estamos mudando o Brasil", dizia uma das faixas levadas por jovens que demonstravam saber que faziam algo para ficar marcado na história de cada um e de todo o país. Os protestos, face às vezes incômoda, mas sempre saudável da democracia, foram claramente mobilizados pelas redes sociais da internet com o propósito de chamar a atenção das autoridades, todas elas, e dos políticos para o esgotamento da paciência da cidadania em relação à falta de soluções para velhas questões. São problemas revoltantes, mas nem por isso os manifestantes pretendiam tirar sua mobilização da condição de protesto pacífico, até porque essa é uma das condições que o tornam respeitável.


Mas foi aí que apareceram os vândalos, os baderneiros, os incivilizados, sempre prontos a manchar com a sua estupidez tudo que a boa-fé produz. São eles que provocam a reação violenta – nem sempre justificável – dos policiais chamados a guardar bens públicos, bem como a garantir o mínimo de segurança e mobilidade para os cidadãos não envolvidos nas manifestações. Em Brasília, tentaram levar sua fúria destruidora para o espaço interno do Congresso. No Rio de Janeiro, agiram como um bando de selvagens descontrolados ao violarem e depredarem parte do histórico prédio da Assembleia Legislativa, causando ao povo prejuízo calculado em R$ 2 milhões, além de invadirem e roubarem comida de um restaurante, com dano de valor inestimável à imagem da Cidade Maravilhosa. Em Belo Horizonte, apedrejaram lojas na Região da Pampulha, e em Porto Alegre, incendiaram um ônibus. Ontem, em São Paulo, voltaram a aprontar em frente à prefeitura.
É certo que eles são minoria e não devem ser confundidos com o grosso dos manifestantes. Mas nem por isso podem ficar impunes. Precisam ser identificados, punidos e levados à execração pública, não apenas pelos danos ao patrimônio alheio, mas também por terem atirado contra a democracia.


 GAZETA DO POVO (PR)

 BRASILEIROS NAS RUAS

 Na segunda-feira, os cidadãos rejeitaram as tentativas de direcionar ou monopolizar a pauta das manifestações, e sentiram-se livres para mostrar seu descontentamento com as mais diversas situações

Nunca o bordão “contra tudo isso que está aí” foi tão verdadeiro quanto nas manifestações que tomaram o Brasil na noite de segunda-feira, e se repetiram ontem em algumas cidades. O movimento que começou na semana anterior, motivado por aumentos na tarifa do transporte público em várias capitais e marcado por atos de vandalismo, sofreu uma metamorfose: dezenas de milhares de brasileiros protestaram pacificamente e apresentaram reivindicações as mais variadas possíveis – de temas locais (em Curitiba, por exemplo, a falta de táxis estava entre os temas observados nos cartazes) aos grandes assuntos nacionais, como a corrupção e a PEC 37, que deve ser votada até o fim do mês e que retira o poder de investigação do Ministério Público.
É verdade que ainda tem havido casos inaceitáveis de vandalismo, especialmente no Rio de Janeiro, onde a Assembleia Legislativa e prédios no entorno foram atacados anteontem; e em São Paulo, ontem, com depredação no prédio da Prefeitura e um carro de reportagem incendiado. Mas essas foram exceções; o tom das manifestações de segunda-feira foi pacífico a ponto de muitos pais terem levado até as crianças para presenciar um momento incomum da história brasileira, e os exemplos positivos, como o silêncio dos manifestantes curitibanos ao passar diante da Santa Casa, são os que merecem divulgação. O poder público também percebeu que não pode agir com violência contra as passeatas. A lição foi especialmente aprendida em São Paulo, depois das cenas de excesso policial da quinta-feira passada.


Em várias ocasiões, a Gazeta do Povo louvou o exemplo de nossos vizinhos argentinos, que não hesitam em tomar as ruas para protestar contra os desmandos de seus governantes. Embora ainda seja cedo para concluir que o brasileiro finalmente venceu a apatia que lhe é atribuída, os protestos revelam que o cidadão tem, sim, uma sede de participação política que vai além do voto a cada dois anos – aliás, é interessante perceber como outro bordão, o “não me representa”, dessa vez dirigido aos partidos políticos como um todo, também foi uma característica marcante das manifestações de anteontem. Ao impedir que as agremiações de esquerda monopolizassem ou direcionassem a pauta dos protestos, os brasileiros puderam mostrar livremente seu descontentamento com uma série de situações.


Mas é justamente nesse caráter difuso do movimento popular que reside uma de suas fraquezas. Se as reivindicações se mantiverem em um nível mais abstrato, a falta de um projeto consistente pode levar a uma ausência de resultados que frustre todos aqueles que tanto se empenharam – trazendo de volta a apatia, dessa vez com muito mais força. Outro risco é o de que radicais e aventureiros se aproveitem do clima de indignação generalizada para propor soluções de cunho inclusive antidemocrático, ou que se apropriem do movimento sem efetivamente representar os anseios da população que vai às ruas. É fácil comparar os protestos brasileiros com a Revolução Francesa nas mídias sociais, como se fez semana passada; difícil é lembrar que a revolta dos franceses do século 18 degringolou até chegar ao Terror.


O que estamos presenciando é uma grande oportunidade de aprendizado para o brasileiro: para que ele procure conhecer as causas e pense em soluções para as situações que o revoltam; para que ele desenvolva seu interesse pela coletividade e abandone o individualismo que tanto mal faz à sociedade; para que ele aprenda a dialogar e entender o ponto de vista de quem pensa diferente. Se a insatisfação crescente do brasileiro for canalizada para boas causas, ela será frutífera. Dissemos acima que a participação política transcende o exercício do voto, mas também as urnas oferecerão uma oportunidade para que a indignação se transforme em ação concreta. Exercer o voto consciente e se mobilizar por uma autêntica reforma político-eleitoral, baseada nos princípios republicanos e não nas conveniências da classe política, são atitudes que não deixarão os protestos nas ruas terminarem no vazio.


 ZERO HORA (RS)

 O RECADO DOS JOVENS 

 A história está repleta de datas que sintetizam espíritos e épocas. Sem esperar pelo veredicto da posteridade, já é possível afirmar que o 17 de Junho é o retrato de um novo Brasil. O país que foi para as ruas protestar na segunda-feira reflete um novo estado de ânimo de uma ampla parcela da população: rejeição à corrupção e ao descaso com a coisa pública, desconfiança de governantes e partidos, indignação com a desproporção entre os gastos com grandes eventos, por um lado, e com saúde, educação e transporte, por outro. O país que tomou praças e avenidas sente os efeitos da alta de preços de alimentos e serviços. A nação que tomou a palavra antevê, para além dos sinais incipientes de turbulência econômica, os percalços de um futuro que parece menos auspicioso do que há alguns anos. Sua voz ergue-se também contra governos, parlamentares, corporações e meios de comunicação. Pode-se saudar ou rejeitar a emergência desse Brasil do 17 de Junho. Mas não se pode ignorá-lo.

É utópico imaginar que dezenas de milhares de pessoas decidam se manifestar por fora dos canais até hoje existentes no interior do Estado de direito, por meio de ida massiva às ruas, sem que isso implique riscos para a segurança e até mesmo distúrbios isolados. É preciso separar a manifestação legítima e democrática da maioria das depredações, incêndios e pichações promovidos por uma ínfima minoria oportunista. Toda sorte de vandalismo pode e deve ser investigada, e os envolvidos, enquadrados criminalmente na forma da lei. O fato de tais atitudes terem prosperado nos primeiros dias do movimento reflete o fato de não haver objetivos, líderes e organização claras.


O mais importante é que a nação seja capaz de retirar ensinamentos dos acontecimentos. Em síntese, os jovens nas ruas estão enviando um recado para toda a sociedade, incluindo governantes, políticos, empresários e imprensa. O sentimento da maioria é, como bem sublinhou a presidente Dilma Rousseff ao citar o cartaz "Desculpem o transtorno, estamos mudando o Brasil", carregado de civismo e boas intenções. É positivo que milhões de pessoas com menos de 30 anos estejam se dispondo a assumir um papel de protagonistas na história. Trata-se de uma geração que jamais viveu períodos de exceção ou de cerceamento de liberdades. Para o bem do país, esse aprendizado deve ocorrer de forma serena. A sociedade tem de saudar e acolher esse verdadeiro despertar jovem, zelando para que fortaleça o Estado democrático de direito. Não resta dúvida de que todos seremos testemunhas dos reflexos concretos do que está acontecendo hoje daqui a pouco mais de um ano, nas eleições presidenciais de 2014. É desejável que a experiência histórica de cada geração se reflita na participação eleitoral por meio do embate entre ideias, programas e concepções.



Hoje serenada, amanhã casada - Maria Stella de Azevedo Santos

A Tarde/BA
19/06/2013

Enigma para todos, sociólogos e políticos - ROSÂNGELA BITTAR

Valor Econômico - 19/06/2013

Diante da eclosão dos atuais movimentos de protesto, com temas difusos e participação de grupos desintegrados - as três tribos densas e extensas da passeata de segunda, em São Paulo, são exemplos de tal configuração-, sabe-se que é menos caso de procurar as ainda inexistentes explicações sociológicas e sim de observar bem os fatos e dar à sociedade as respostas adequadas. Os sociólogos, os psicólogos, os doutores, os filósofos, os partidos políticos, as organizações sindicais, os governos federal, estaduais e municipais estão no mesmo plano: ainda nada entenderam dos acontecimentos pelos quais foram totalmente surpreendidos embora não possam deixar de ser responsabilizados. Os investidores, então, se estrangeiros pior, compreenderam menos ainda. A quantidade de telefonemas trocados para todos os lados é uma tradução dessa perplexidade.

O melhor, no momento, é abandonar as teorias e, da parte dos governos, constatar o que esses movimentos não são para, por aí, lhes dar um retorno aceitável. Não são baderneiros, partidários, ideológicos, venais. São estudantes, seus pais, punks, quilombolas, sem teto, sem terra, adolescentes, funcionários públicos. Não há líderes formais orientando slogans e percursos. Embora possa haver, e há, uma representação de todos esses tipos no meio da massa insatisfeita com as tarifas e qualidade do transporte coletivo, com os gastos públicos excessivos em estádios de futebol, com a cara de pau dos políticos e governantes, com a precária situação dos hospitais e das escolas, com a repressão aos corintianos presos na Bolívia, torcidas organizadas e revoltados com a impunidade, saturados em geral com a corrupção.

O desconhecimento, a falta de informação segura e antecipada - os arapongas e estrategistas do governo andam atrás de potenciais adversários eleitorais, não de perscrutar insatisfações sociais- sobre o caldeirão cuja fervura se avizinhava, levou os governos a reagir de forma reconhecidamente equivocada a essa aglutinação de sentimentos negativos.

Somente a partir da noite de segunda, diante das manifestações amazônicas em doze Estados e oito cidades do interior de São Paulo, os governos começaram a mudar seu discurso. Mas não saíram dele para a ação, ainda.

Quem tem experiência em manifestações do tipo, quem liderou e participou dos movimentos pela anistia e pelas diretas já, os dois maiores da história recente, sabe que a mobilização cresce com a repressão. Mas ninguém percebeu o que acontecia, de fato, e recorreu-se às velhas fórmulas: violência, acusações de exploração eleitoral, manipulação.

O tema do reajuste de passagens alcançou o governador de São Paulo e o prefeito da capital em Paris. Se quem estava aqui não tinha ideia do que se tratava, imagine-se quem estava na França disputando o privilégio de sediar a Expo-2020, uma abstração em si. Governado naquele momento pelo ministro petista e vice-governador tucano Afif Domingos, o Estado se escondeu. Sob o comando de Nádia Campeão, a Prefeitura emudeceu. E o festival de besteiras assolou os titulares em declarações à distância.

Numa das manifestações de uma terça, um grupo mais radical destacou-se da massa pacífica, gerando a revanche da polícia, contra tudo e contra todos, na quinta seguinte. Os policiais bateram muito, numa reação desproporcional, maior, segundo testemunhos de pais que acompanhavam seus filhos, que os embates de 68. Naquela época eram raros os equipamentos como os de hoje: escudo, gás de pimenta, bala de borracha, milhares de homens na repressão dura e violenta. Resultado: cresceu a adesão e aumentaram as inadequações dos governantes.

Gilberto Carvalho e José Eduardo Cardozo, no governo federal, Geraldo Alckmin e Fernando Haddad, em São Paulo, Sérgio Cabral e sua tática avestruzeira, não houve um que acertasse o passo. As manifestações colheram em dois dos principais governos envolvidos, o federal com Dilma Rousseff e o municipal com Fernando Haddad, duas pessoas sem a manha da urgência, do diálogo imediato, da experiência em mediar. Foram candidatos saídos de gabinete e, vencedores, ainda não conquistaram a liderança necessária para aplacar dissabores em massa. Alckmin, que tinha alguma, comeu a bola jogada pelo ministro da Justiça, potencial candidato a seu cargo, acreditou que era uma manifestação ao modelo de politicagem infiltrada e partiu para elogiar a polícia.

Em algumas horas, na noite de segunda-feira, foram todos obrigados a dar voltas nas próprias palavras. Uma das situações mais constrangedoras foi a de Gilberto Carvalho, ministro da Secretaria Geral da Presidência, encarregado de fazer a ponte entre Dilma e os movimentos sociais, doutor na relação com sindicalistas: a polícia identificou três funcionários seus, e mais um de sala contígua, na condução das manifestações de Brasília.

As considerações sobre os acontecimentos foram refluindo, aos policiais ordenou-se discrição, o prefeito tornou-se melífluo, o governador, tangido pelos fatos, dispôs-se ao diálogo, a presidente aproveitou o discurso do lançamento do dia, ontem, para traduzir o que os manifestantes querem: mais cidadania e repúdio à corrupção.

Isso significa que compreenderam, finalmente, o que se passa? Claro que não. Mas tentam dar uma resposta mais adequada a esse mundo desconhecido, sem assumir muito as posições definitivas. Alguns mais experientes em movimentos de massa orientam agora o PT a controlar seus governantes, levá-los a oferecer duas respostas à sociedade: uma é diálogo; outra, explicações. Se não podem reduzir o preço da passagem, expliquem à exaustão. Façam autocrítica, peçam desculpas.

O PT está interessado em encontrar saídas também por uma razão que prescinde de pesquisas de opinião mais amplas para ser identificada. Esse tipo de insatisfação terá reflexos nas eleições. Por isso houve reunião, ontem, do grupo da reeleição, coordenado pelo ex-presidente Lula, com a presença de Dilma, do ministro Aluizio Mercadante, do publicitário João Santana, do presidente do partido, Rui Falcão. Sabem que é numa situação como esta que surge alguém com muita força, correndo por fora, e leva. Embora não tenham, hoje, ainda, essas manifestações, com certeza, terão expressão político-eleitoral.

Lembrando 68 - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 19/06/2013
Uma das perguntas que mais ouvi nestes últimos dias foi sobre as semelhanças e diferenças entre as manifestações de agora e as de 1968. Seria a reedição 45 anos depois de um modelo-matriz ou um fenômeno de massa inteiramente novo? Ou seria um pouco de cada coisa? Talvez isso. Começando pelas mudanças: o país não vive mais numa ditadura (embora a polícia às vezes tenha agido como se vivesse); os jovens não pertencem mais a uma só geração, mas a diferentes tribos. E, sobretudo, existe hoje a onipresente internet, capaz da mobilização instantânea, viral e sem limites. Distantes os tempos em que a organização de uma passeata exigia longa preparação e intermináveis discussões em assembleias.
De semelhante entre os dois momentos, permanece a disposição estudantil que parecia anestesiada, como também naquela época (na França, um sociólogo perguntava: "Por que não acontece nada por aqui?" No dia seguinte, Paris pegou fogo). De igual ainda, o sentimento difuso de insatisfação, que é cumulativo e não depende apenas de uma única motivação ou pretexto.

Vem vindo, vem vindo até que uma gota (ou alguns centavos) no pote até aqui de mágoa provoca o transbordamento. Os sinais emitidos nem sempre são captados, porque parecem desconectados, quando na verdade estão formando uma rede com poder de contágio. Só o governo talvez não tenha percebido que o fantasma da inflação, a corrupção desenfreada, a incerteza econômica, a alta no custo de vida, a queda de oito pontos na popularidade de Dilma, a vaia no estádio Mané Garrincha, tudo isso fazia parte do mesmo e crescente caldo de rejeição. Pelo menos uma lição de 68 não foi aprendida e assim não se evitou o incidente mais lamentável das manifestações do Rio: coquetéis molotov atirados contra a Alerj e carros incendiados na marcha dos 100 mil anteontem. Em julho de 68, na lendária Passeata dos 100 Mil, Vladimir Palmeira, o líder do movimento no Rio, convidou os participantes a se sentarem no chão, o que proporcionou a Nelson Rodrigues uma fina gozação. Segundo ele, médicos, poetas, atrizes, sacerdotes, todos obedeceram.

"A única que permaneceu de pé e assim ficou foi uma grã-fina, justamente a que lera as orelhas de Marcuse".

Muito tempo depois, Vladimir explicou o que pretendeu com o gesto: demonstrar as "intenções pacíficas da manifestação para a polícia e para alguns companheiros". Assim, os "porraloucas" desistiram de invadir rádios, como queriam, e os policiais não ousaram bater em pessoas sentadas no chão, inclusive freirinhas.

domingo, 16 de junho de 2013

Carminho e o nosso passarinho - Caetano Veloso


O GLOBO 

 
16/06/2013

A cantora portuguesa, ‘Sabiá’ e o Prêmio da Música Brasileira

Sempre gostei de ver a festa do Prêmio da Música. Desde que ela levava um nome de empresa e eu a defendia das investidas de Xexéo. Agora — além de ver Cauby dar show de comportamento de estrela alto astral em passagem fugaz pelo palco (sob ovação com o público de pé); Ney Matogrosso, ao final de um solene “Se todos fossem iguais a você”, voltar-se para uma foto de Tom Jobim e, dando assim as costas para a plateia, citar, no ponto exato entre contenção e relaxamento, seus característicos movimentos andróginos de quase-dança; Leny Andrade, Tulipa Ruiz e Leila Pinheiro darem show de musicalidade a três vozes em suingue perfeito; João Bosco ir em cada nota de “Dindi” com a felicidade total de quem vive dentro da Música; Céu cantando “Insensatez” com um vestido a céu aberto; Nana fazendo-nos desmoronar como só pode uma força extraordinária da natureza; os arranjos de Jaquinho em elegância de frases e de timbres incomparáveis; tudo isso — e mais um pouco, que não estou listando tudo — depois de uma abertura com vários pianos arranjados por Wagner Tiso; sobretudo Rosa Passos, a mais bela expressão de musicalidade brasileira da noite, a espontaneidade mais sobrenatural no entendimento da função de cada nota cantada ou por cantar, de cada nota que, não sendo as que aparecem no canto, na superfície, se agrupam em blocos harmônicos — tivemos Carminho, prefaciada pela discrição mesoatlântica de António Zambujo, levando o sabiá de Tom Jobim e Chico Buarque ao lugar alto que lhe é de direito na história da língua portuguesa.

Foi uma noite de vários aplausos de pé. Mas o que saudou o evento Carminho/“Sabiá” dizia coisas de que as mesmas pessoas que se levantavam não tinham tempo de conscientizar-se. Carminho é a mais nova e a mais bela floração desse renascimento do fado entre jovens portugueses que já faz agora mais de década. Ouvi-la cantar essa canção de exílio brasileira com voz de quem mal atravessou o oceano para vir aqui nos ensinar tanto, foi de fazer chorar. A plateia se levantou crendo ser levada a isso pela exuberância vocal e musical da jovem cantora. Seria um aplauso entusiástico diante de uma interpretação virtuosística. Justo. Mas era claro que havia mais. Muito mais. As pessoas repassaram (era perceptível), num instante, a história da canção (que lutou com o tempo para ser devidamente amada), a história do Brasil, a história da nossa língua. A voz e a pronúncia de Zambujo eram mesoatlânticas. O canto de Carminho era purissimamente lusitano. Mas o acontecimento Carminho cantando assim nosso passarinho (nos dois gêneros: “uma sabiá” e “o meu sabiá”, como o dicionarismo de Tom conversou com o de Chico, trazendo de volta minhas lembranças de uso do nome da ave, em minha Santo Amaro natal, tanto no masculino quanto no feminino) era, no auge do arrebatamento das notas altas com arabescos ibéricos, a consolidação desse mesoatlântico que busco e que Zambujo anunciou. Não seria preciso conscientizar-se de tudo isso para vivenciar o todo da experiência: cada pessoa que foi arrebatada pelo momento desse breve milagre sabia, em sua carne, que todas essas implicações estavam em jogo.

A parte de que menos gosto em premiações são os prêmios propriamente ditos. Acompanho com interesse o suspense dos concorrentes e me animo com a alegria comovida de muitos que se descobrem premiados. Mas para mim isso é apenas o pretexto para que aconteçam coisas que realmente me interessam. Tanto é assim, que os momentos de entrega dos prêmios aos agraciados são os momentos de relativa desanimação da plateia. Há, claro, as comemorações particulares de grupos de amigos, parentes e apoiadores dos premiados. Mas as apresentadoras (ou os apresentadores, a depender de como está organizada a festa em cada ano), as pessoas que fisicamente entregam os troféus e os que os recebem, protagonizam instantes de mera espera — para que as pessoas saiam do palco, para que se rearrume a continuidade do show. Esses “buracos” não atrapalham o brilho da festa (embora possam ser mais bem planejados para evitar quebra de ritmo): eles são a motivação para que ela exista.

Quando Xexéo (e outros ainda menos engraçados) ridicularizavam os prêmios de música brasileira, eu chiava. Achava que uma noite em que eu podia apresentar Herivelto Martins a Cassiano era algo sagrado cuja grandeza só os tolos não viam. Hoje esse tipo de prêmio já é respeitado. O Brasil não precisa mais se depreciar para se aguentar. E Carminho elevou a festa modesta à sua verdadeira altura histórica. É claro que a música entranhada de Rosa Passos já continha tudo sem precisar dizer. Mas o sabiá de Carminho disse.


sábado, 15 de junho de 2013

O peso da política ambiental - CARLOS MINC

O Globo - 15/06/2013

Ambientalistas idealizavam o Parque
Fortaleza: a melhor defesa seria o não
uso. A proteção efetiva é bom uso. O
Rio de Janeiro passou de maior a menor
desmatador da Mata Atlântica, criando parque,
corredor de biodiversidade, instituindo
unidades de proteção, inéditas no país.

Há que conceder licenças rigorosas, com padrão
de emissão de poluentes mais restritivos do que os
do Conama, tecnologia limpa, condicionantes
ambientais, como saneamento, investimentos para
catadores e pescadores. O Rio é o único estado
que obriga à redução de emissões de CO2 e à
Compensação Energética: um percentual em
energia renovável para usinas com energia fóssil.

Há também que dizer “não” à duplicação do
Terminal da Petrobras vizinho ao Parque da Ilha
Grande, à Térmica a Carvão em Itaguaí , ao Porto
Off Shore em Arraial do Cabo, ao Terminal de Minério
da Brasore na Ilha de Itacuruçá, e à dragagem
do Rio Guaxindiba, no manguezal de Guapimirim,
para passar equipamento do Comperj.

Lixo é questão do município? Sim, mas não lavamos
as mãos em chorume: construimos aterros
consorciados; licenciamos privados; criamos
subsídio para os que destinem o lixo corretamente;
aprovamos lei do ICMS Verde: sem aumentar
imposto, distribui mais recurso ao município
que crie parque, trate esgoto, acabe com
lixão e amplie coleta seletiva.

Em 2006, lixões eram destino de 90% do lixo e
aterros de 10%. Em 2013, 92% do lixo vão para
aterros e 8% para lixões. Fechamos os lixões da
Baía: Itaoca (SG), Babi (BR), Gramacho (DC):
menos um Maracanã semanal de chorume nas
águas da Guanabara.

Saneamento é o melhor investimento para
defender praia, turismo, pesca. O saneamento/
dragagem na Lagoa de Araruama reabriu peixarias,
pousadas, trouxe festival do camarão, campeonato
de Windsurf. Nas lagoas da Barra/Jacarepaguá
o tratamento de esgoto em 2006 era 0%.
Com ETE, emissário de 5 kms e 22 elevatórias,
60% são tratados.

A Baía de Guanabara é o desafio maior: desde
2006 triplicou o volume de esgoto tratado — era
12% passou para 36%. Mas 64% ainda poluem a
baía. Até novembro, a unidade de tratamento
do Rio Irajá retirará 12% da poluição da baía.
Política ambiental pode gerar desenvolvimento
sustentável. Isto se dá por tensões, avanços
legislativos e sociais, tecnologias limpas. E,
sobretudo, por aumento de consciência e mudanças
de atitude. l

Carlos Minc foi ministro do Meio Ambiente
(2008/2010) e é secretário do Ambiente do Estado
do Rio

Método confuso - ZUENIR VENTURA

 O GLOBO - 15/06

Uma forma sofisticada de castigo
intelectual capaz de afastar
qualquer um de Nietzsche
e da filosofia

Quando minha neta Alice desiste de explicar alguma coisa ao interlocutor, ela não perde tempo e diz, resignada: "(não adianta) Você não entende." Esta semana me senti assim, quando minha empregada pediu ajuda para um dever de casa. Ela tem 48 anos, trabalha conosco há 20, mora na Baixada Fluminense e estuda à noite, mesmo acordando de madrugada para viajar quase três horas em ônibus e trem. Cursa o primeiro ano do Segundo Grau num colégio particular de Belford Roxo e a tarefa que tinha de realizar na disciplina de Filosofia era "Nietzsche: vontade de poder". Como único subsídio, o professor escreveu no quadro:

"O racionalismo ético não é a única concepção filosófica da moral. A moral racionalista foi erguida com finalidade repressora e não para garantir o exercício da liberdade. Não existem fenômenos morais, mas apenas uma interpretação moral dos fenômenos." Paro por aqui porque o texto continuava igualmente hermético. E também porque ouvi os ecos de Alice martelando na minha cabeça: "Você não entende." Realmente tira-ria zero com o que entendi.

Lembrei-me então do Veríssimo agradecendo ao Google por ter-lhe ensinado a escrever Nietzsche. Corri para o novo "pai dos burros" na esperança de que, além da ortografia certa, eu aprenderia tudo o que o professor queria. O primeiro choque foi esbarrar com a definição: "A vontade de poder não é um ser, nem um devir, é um pathos." Entendeu? Havia, porém, um consolo: "O legado da obra de Nietzsche foi e continua sendo ainda hoje de difícil e contraditória compreensão. Ele se apresenta como alvo de muitas críticas na história da filosofia moderna, pelas dificuldades de entendimento na forma de apresentação das figuras e/ou categorias ao leitor ou estudioso, causando confusões devido principalmente aos paradoxos dos conceitos de realidade ou verdade."

Se até onde há resposta para tudo é difícil explicar o pensamento do filósofo alemão, quem sou eu para ajudar no trabalho de minha amiga? Ali-ce tinha razão: "Você não entende." E entendo menos ainda esse método confuso de ensino. Seria uma orientação oficial ou uma opção do professor? De qualquer maneira, uma forma sofisticada de castigo intelectual capaz de afastar qualquer um de Nietzsche e da filosofia.

Entrega de prêmios costuma não ter graça, a não ser para os premiados. Mas o 24º Prêmio da Música Brasileira foi um espetáculo à altura do homenageado, Tom Jobim, esse gênio que o Brasil exportou para o mundo. Ouvir suas obras-primas na voz (e instrumentos) de vários de nossos melhores intérpretes foi uma bênção. Entendi tudo, Alice.

Coronelismo e futebol - JC Teixeira Gomes

A Tarde/BA
15/06/2013

domingo, 9 de junho de 2013

Texto e contexto - LUIS FERNANDO VERISSÍMO

O GLOBO - 09/06/2013
Na peça "Ricardo II", de Shakespeare, há uma fala famosa que é muito citada como um hino patriótico à InglaterraQuem a diz é o duque John de Gount, tio do rei Ricardo II e pai de Henry Bolingbroke, desafeto exilado do rei, que acabará derrubando do trono. John de Gount, à beira da morte, exalta as riquezas e as glórias do seu país ("este outro Eden", "esta pedra preciosa posta no mar prateado", a salvo "da inveja de terras menos felizes", "este lote abençoado, este chão, este reino, esta Inglaterra") num tom de entusiasmo crescente que empolga até quem não é inglês - se lido até a metade. O resto da fala, raramente citada, é um lamento pelo declínio desta maravilha, cuja grandeza o rei está dilapidando. "Esta Inglaterra acostumada a conquistar, hoje é vergonhosamente derrotada por si mesma", diz Gount, que termina desejando que "o escândalo desapareça junto com a minha vida, alegrando minha morte iminente".    
Já contei (umas cem vezes) que vi o Millôr Fernandes levantar uma plateia num encontro literário em Passo Fundo com a leitura de um texto de candente defesa da democracia e dos direitos humanos, e depois da ovação revelar que acabara de ler o discurso de posse do general Médici na Presidência da República, quando se inaugurava o período mais escuro da ditadura. Um período em que com frequência o discurso do poder contrastava com a realidade à sua volta, e o texto era desmentido pelo contexto. A aula do Millôr foi sobre a força autônoma da retórica, capaz de mobilizar uma multidão que ignora seu contexto.

Mas pior do que isto é quando o contexto é conhecido e mesmo assim as palavras compõem outra realidade, e empolgam e mobilizam do mesmo jeito. A história brasileira está cheia de exemplos do triunfo da oratória bacharelista sobre a realidade do momento, do dito sem a menor relação com o feito. Para ser justo com o Médici e o autor do seu discurso, é preciso reconhecer que em todo discurso de posse presidencial há um desencontro parecido entre intenção e realidade.

Quem não se lembra do discurso de posse do Collor? Shakespeare tem outros exemplos de textos em que uma parte se vira contra a outra, como a exaltação que vira lamento de John de Gount.

O mais notório é a fala de Marco Antonio sobre o corpo de César assassinado, que começa dando razão aos assassinos e termina incitando a massa a matá-los. Em outro trecho da peça alguém diz que se deve ter muito, mas muito cuidado com os bons oradores.

NSA e IMS - Caetano Veloso


 O GLOBO - 09/06/2013

Bush, Obama, Prism e o (nem tão) admirável mundo novo

Obama foi conversar com o premier chinês sobre a presença do Estado na internet justo quando o jornal “The Guardian” noticiou que o governo americano pode entrar nos e-mails, chats e redes sociais da Google, da Apple, da Yahoo. Pelo menos é o que acabo de ler aqui, na madrugada da quinta para a sexta-feira. Quando este errático artigo estiver impresso todo mundo já vai estar sabendo mais e melhor sobre isso do que posso saber agora. Os americanos que escrevem comments sobre a matéria do “New York Times” (os jornais americanos não pareciam saber antes de o britânico “Guardian” noticiar) se dividem entre os que se penitenciam por terem votado em Obama (às vezes com um subtexto de antiga agressividade reprimida contra ele), os que acham que, com as decisões do governo Bush sobre segurança nacional depois do 11 de setembro de 2001, estão vivendo um orwelliano 1984, e os que consideram desarrazoadas as queixas dos que cobram eficiência do governo contra atentados tipo maratona de Boston e, ao mesmo tempo, se mostram cheios de pruridos de resguardo da privacidade dos cidadãos e das liberdades individuais.

Mautner, que me mandou os links, sente (e diz naquele tom sempre mítico com que se expressa) o terror e a maravilha desse mundo novo nem sempre tão admirável. Eu não me sinto maduro o suficiente (não passou tempo bastante entre a leitura das reportagens e os comentários que me vejo escrevendo: na verdade, acabei de lê-las) para esboçar uma apreciação. Sobretudo porque não sei se dá para entender exatamente o que está se passando. Quem me lê aqui, em pleno domingo, já deve saber bem melhor. Está claro que a NSA (que em pouco tempo deverá tornar-se mais famosa do que a CIA) tem um programa chamado PRISM (prisma: nome bonito) que pode entrar nos textos, fotos, conversas, de qualquer habitante de qualquer país que não sejam os Estados Unidos (mas parece que podem entrar, com mais moderação, nos arquivos dos americanos e residentes também). A Google, a Apple e o Facebook podem ser varridos pela agência nacional de segurança. Esses e, segundo o “Guardian”, outros gigantes da internet. Cada um de nós pode se perguntar: será que algum curioso, em momentos de folga da busca de terroristas, vai ler segredos meus?

Sou um existencialista francês dos anos 1950: adolescente, gostava de ler Sartre dizendo que não queria ter segredos e que, no reino da liberdade, todos os homens deveriam dizer-se tudo uns aos outros. É claro que é uma maluquice. Mas eu era adolescente e morava em Santo Amaro. Isso me lembra também que o primeiro livro que li sobre o filósofo, “Sartre par lui même”, escrito por Francis Jeanson, um outro francês cujo nome eu tinha esquecido mas busquei no Google, continha uma recriminação a um livro americano que, estudando o estilo de Sartre (por exemplo: contando o número de interrogações etc.), concluía que se tratava de um exibicionista com alguma tendência homossexual. O francês desanca o psicólogo americano — e com razão (não li esse livro, mas a descrição que dele faz o ensaísta mostra tratar-se de algo bem americano, no mau sentido da palavra: psicologista, infantilmente direto e seguro de si). Mas a acusação de exibicionismo nunca foi por mim esquecida. E, nas minhas horas desatentas, ela volta como se fosse um insight. Pois bem: acho que não me incomodaria se um maluco desses lesse tudo o que já escrevi sobre mim para pessoas íntimas. Suponho que o exibicionismo é o verdadeiro traço que me atraiu, por semelhança, ao ex-famosíssimo filósofo francês.

Mas que feio para Obama herdar esse esquema de Bush e, em vez de criticá-lo, ampliá-lo. Bem, parece que política é assim. O poder ensina coisas que eu não gostaria de aprender. Como pensar esse mundo em que estamos vivendo? Nunca houve tanta fartura e liberdade para tanta gente em toda a história da Humanidade. No entanto, as dispariades são exasperantes, há fome e miséria, a concentração das riquezas e das oportunidades cresceu em anos recentes. E, mais assombroso, ninguém sabe como as forças do mundo — o modo de crescerem as economias e a violência das convicções religiosas — mover-se-ão para rearranjarem tudo de modo a podermos prosseguir. Não consigo imaginar que não prossigamos. Mas as mais variadas hipóteses são fantasiadas por essa minha cabeça insone e desorganizada.

A internet sempre acenou com uma liberdade imensa e com uma total possibilidade de controle. Como se desatará esse nó? Não há quem saiba e possa dizer de modo inteligível. No entanto, a alegria de estar no mundo permanece. Obama ainda é bonito nas fotos. Consultar o Google ainda é bom. Consultar o site do IMS às vezes é ainda melhor.


segunda-feira, 3 de junho de 2013

O 'chefão' do cinema brasileiro

 Valor Econômico - 03/06/2013

Por Bruno Ghetti | Para o Valor, do Rio

 

É quase impossível falar do cinema brasileiro dos últimos 50 anos sem passar, direta ou indiretamente, pelo nome de Luiz Carlos Barreto. O produtor foi peça chave do cinema novo, nos anos 1960, e teve importância decisiva na criação da Embrafilme, distribuidora estatal de filmes nas duas décadas seguintes. Viabilizou obras essenciais de Glauber Rocha (1939-1981), Nelson Pereira dos Santos e Carlos Diegues, ao mesmo tempo em que produzia longas-metragens que levavam milhões às salas. Nos anos 1990, emplacou duas produções brasileiras entre os indicados ao Oscar de filme estrangeiro. E em todos esses anos, participou ativamente das discussões de políticas culturais no Brasil.

Aos 85 anos, Barretão, como é conhecido no meio artístico, celebra os 50 anos de fundação da produtora LC Barreto. A empresa financiou mais de 80 filmes, marcos históricos do cinema brasileiro, como "Terra em Transe" (1967), de Glauber, e "Bye Bye, Brasil" (1979), de Diegues, e muitos sucessos de público, como "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1976), do filho Bruno Barreto, o primeiro longa nacional a superar a marca dos 10 milhões de espectadores - recorde batido apenas em 2010 com "Tropa de Elite 2", de José Padilha.

Hoje em dia, embora com produções mais modestas em termos estéticos e de bilheteria - o mais recente foi "Lula, o Filho do Brasil" (2009), dirigido por Fábio, filho mais novo do produtor -, a LC Barreto segue em plena atividade. O próximo filme a ser lançado é "Flores Raras", de Bruno Barreto, que estreia em 16 de agosto, sobre a história de amor entre a poeta americana Elisabeth Bishop e a arquiteta e paisagista carioca Lota de Macedo Soares.

A longevidade da empresa mostra que, em alguns casos, é possível viver de cinema no Brasil. O segredo do sucesso? "Não acho que podemos dizer que somos um sucesso...", diz Barreto, sem muita convicção na própria modéstia. Em seguida, explica melhor: "Somos eficientes. Nossa preocupação é fazer, mas fazer sempre o melhor. E entregar, porque filme que fica parado no meio do caminho é nosso fantasma. Então a palavra é "entregar"", diz, agora em tom mais convincente.

A disciplina é marca forte no estilo de produção de Barreto. Ele costuma dizer que cinema é uma "operação artístico- militar". "Uma equipe precisa trabalhar com uma hierarquia que tem de ser respeitada - do diretor ao boy. Existe uma autodisciplina [entre os profissionais], e tudo tem que ser feito com consciência. Há até, como nos quartéis, uma ordem do dia que precisa ser seguida."

Para falar de sua empresa, Barreto recebeu a reportagem em seu apartamento, no bairro de Laranjeiras (zona sul carioca), com vista para oo de Açúcar. Em um ponto da sala, uma mesa expõe símbolos religiosos e foto do filho Fabio, em "estado de consciência mínima" desde 2009, quando sofreu acidente de carro e teve traumatismo craniano - ele receberá novo tratamento em breve.

Antes de a entrevista começar, Barreto pede desculpas ao repórter para fazer uma ligação. Ao telefone, confirma um jantar em sua casa com o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo. A ligação com o poder não é de hoje: Barreto conheceu e manteve conversas políticas com vários presidentes, quase sempre em relações amistosas. Seus detratores, aliás, já o reprovaram exatamente por sua capacidade de "ficar bem" com quem está no poder - foi criticado, por exemplo, ao produzir uma biografia de Lula na época da eleição de Dilma Rousseff. Mas seu bom trânsito nas altas cúpulas já teve efeitos positivos para o cinema como um todo. Seu prestígio diante dos militares permitiu a criação da Embrafilme, que deu um impulso à produção cinematográfica nacional nos anos 1970.

"Lançamos mão de recursos próprios e de financiamentos bancários. Em 50 anos de empresa, nunca paramos por um dia."

"A ditadura pregava o nacionalismo. Os militares queriam formar uma empresa de exportação de filmes brasileiros - mas isso ia virar uma agência de turismo. Nós conseguimos convencer o governo de que aquiloo era o que o cinema brasileiro precisava naquele momento, que era se solidificar e se impor no próprio mercado", afirma.

Barreto nasceu na cidade cearense de Sobral, em 1928, e foi criado com dificuldades pela mãe (o pai deixou a família quando ele tinha três anos). Até a adolescência, só pensava em jogar bola, mas com os anos foi se interessando por política (foi comunista na juventude) e pelo jornalismo. Aos 19 anos, mudou-se para o Rio, onde conseguiu um emprego que mudaria sua vida: repórter fotográfico para a lendária revista "O Cruzeiro". Ali, conheceu e clicou personalidades de diversas áreas, de Pelé a Che Guevara (1928-1967), passando por Marlene Dietrich (1901-1992). Conheceu também o dono da revista, Assis Chateaubriand (1892-1968), de quem absorveu o espírito empreendedor, a tendência à polêmica e o carisma. "Poderia fazer um filme sobre ele só com as minhas lembranças."

No início dos anos 1950, conheceu uma jovem pianista, Lucy, de quem jamais se separou. Com sua outra grande paixão, o cinema, só se ligaria com força após 1961, quando conheceu Glauber Rocha. O cineasta baiano incentivou o novo amigo a entrar para a área, e Barreto logo assinaria o roteiro de "O Assalto ao Trem Pagador" (1962), de Roberto Farias, e a inovadora direção de fotografia de "Vidas Secas" (1963), de Nelson Pereira dos Santos.

Barreto se interessava por filmes voltados para a realidade brasileira, principal diretriz do cinema novo, e virou um dos mais atuantes do movimento. Largou o jornalismo em 1963, quando se lançou como produtor para viabilizar o documentário "Garrincha, Alegria do Povo" (1963), do amigo Joaquim Pedro de Andrade (1932 - 1988).

"Na época, produzíamos muitas coisas ao mesmo tempo. "Vidas Secas", "Garrincha", "A Hora e a Vez de Augusto Matraga" [1965, de Roberto Santos] e "O Padre e a Moça" [1966, de Joaquim Pedro] foram feitos quase simultaneamente. Hoje, a fórmula econômica adotada no cinema brasileiro é ineficaz e até prejudicial, porque é filme a filme. Empresas com vários projetos, que poderiam tocá-los, têm de parar e esperar", diz, referindo-se à dependência de muitos produtores de recursos públicos.

Barreto também faz captação em editais, mas é um dos poucos que podem se dar ao luxo de concluir filmes mesmo sem dinheiro público (caso de "Lula"). Nem tanto por dinheiro em caixa, mas por seu crédito na praça. "Tenho capacidade de endividamento da minha empresa. Quando vejo que o processo de captaçãoo está dando suficientemente para levar o filme nos [nossos] parâmetros de qualidade artística e industrial, aí recorro a linhas de crédito de bancos." Em muitos filmes, usou economia familiar - caso de "Flores Raras", que custou R$ 13 milhões. "Lançamos mão de recursos próprios e de financiamentos bancários. Em 50 anos de empresa, nunca paramos por um dia que fosse as filmagens."

Desde o início, a LC Barreto funciona em esquema familiar. Barreto e Lucy comandaram a empresa até os anos 2000, quando Paula, filha do casal, se uniu a eles na chefia da produtora. "Trabalhar em família é mais difícil porque você acaba trabalhando no escritório e em casa. Tem horas que cansa, a gente quer se desligar. Não deu nem tempo de a gente transformar essa firma familiar em uma empresa propriamente dita", diz. "Já era tempo de tentar torná-la mais profissionalizada do ponto de vista de gestão. Sob a perspectiva da qualidade, está altamente profissionalizada; mas a gestão, não digo que seja amadora, mas é autodidata."
A família também controla outra razão social, a Filmes do Equador, que trabalha em conjunto com a LC Barreto (a primeira capta recursos, enquanto a segunda executa a produção). Hoje, produzem longas, filmes institucionais e especiais de TV. A sede funciona em um casarão de dois andares em Botafogo, zona sul carioca. O acervo da empresa fica em outro local, na zona oeste da cidade. "A casa de Botafogo é área preservada. Queremos fazer um centro cultural com espaço para receber alunos de cinema e estagiários, mostrar como se faz um planejamento de um filme."

No mês passado, Bruno Barreto começou as filmagens do longa "Crô", com o personagem cômico da novela da Rede Globo "Fina Estampa" (2011- 2012). No momento, a produtora tem também quatro salas alugadas em São Paulo. No total, a LC Barreto tem cerca de 25 funcionários fixos, a maior parte na administração. Mas o número aumenta muito na época de filmagens. "Em "Flores Raras", tivemos 120 pessoas trabalhando, entre motoristas, cozinheiros, técnicos... Contando com os indiretos, um filme gera de 300 a 400 empregos."

A renda dos filmes nas bilheterias conta muito, mas a fonte de renda da produtora é basicamente a exploração de seu (vasto) acervo, sobretudo na exibição para a TV a cabo. Barreto tem o copyright de 45 dos longas que produziu. "Isso é uma renda vegetativa, digamos assim. Às vezes dá para segurar [as despesas] só com isso, outras vezes não. O mercado internacional deveria ser não uma prioridade total, mas uma coisa importante para a gente. No exterior, você nãoo dinheiro: é quase sempre roubado. Se tivesse recebido tudo o que "Dona Flor" rendeu pelo mundo, eu estaria até emprestando para o Fundo Setorial [risos]".

O produtor conseguiu controlar a renda do longa apenas na Argentina e nos EUA porque abriu escritórios locais. "Fundamos uma empresa nos EUA, a Carnaval Films, em 1978. Lançamos o filme nós mesmos no mercado. Com o dinheiro, conseguimos produzir outros filmes, como o "Bye Bye, Brasil"."

Barreto também é um dos sócios do Canal Brasil, mas se dedica na maior parte do tempo à sua produtora. Ali, às vezes as tarefas se misturam, mas geralmente Lucy se ocupa da análise dos roteiros. Barreto fica mais atento às outras etapas. "Acredito mais é na coisa do "fazer". O produtor tem que estar presente permanentemente. Não é só um assinador de cheque: tem que ser um coautor."

Barreto acredita em cinema autoral - grande parte dos longas que produziu na vida seguem essa linha -, mas não pensa em um filme como atividade individual. "É algo artístico, mas também industrial. Um escritor pode se isolar e escrever. Um cineasta, por mais que queira ser apenas artista, no fundo é uma peça fundamental de um processo maior."

A filosofia produtiva de Barreto sempre caminhou no rumo do estabelecimento de uma indústria cinematográfica brasileira. Defende um cinema nacional competitivo, capaz de ganhar o mercado externo. "[Franklin] Roosevelt dizia: "Onde vão nossos filmes vão nossos produtos". O cinema é a grande arma interna de formação de consciência nacional nos EUA e de difusão e assimilação de costumes americanos pelo mundo. Issoo é culpa deles: é nossa, a gente permite isso. Não é questão de proibi-los, mas de impor coisas nossas."

Barreto diz que gasta 70% do seu tempo na militância da política do setor. No ano passado, defendeu até o fim a polêmica gestão da ex-ministra da Cultura Ana de Hollanda. "A irmã do Chico [Buarque]? Sofreu sabotagem por parte do corpo de funcionários do ministério. Não tinha experiência, mas estava levando as coisas." Também aprova a sucessora, Marta Suplicy. "Está tendo uma atuação brilhante, cobra coisas básicas que estão lá paradas há muito tempo."

Ao rever a própria trajetória, Barreto tem alguns arrependimentos. Um deles é não ter produzido a cinebiografia sobre Cazuza (que ele viu crescer). Outro foi ter perdido a chance de contar a história da Cidade de Deus antes de Fernando Meirelles. Orgulha-se, porém, que dois filmes dos filhos, "O Quatrilho" (1995), de Fabio, e "O que É Isso, Companheiro?" (1997), de Bruno, tenham ficado entre os cinco finalistas no Oscar de filme estrangeiro. Ele afirma que o interesse pela estatueta seria, antes de tudo, estratégico. "O Oscar é uma jogada de marketing, não um certificado de qualidade. Ele te dá um trânsito maior, para negociar os direitos etc. Se um dia conseguirmos, ótimo. Mas issoo vai querer dizer que o cinema brasileiro melhorou."