Para antropólogo, governo tem dificuldade em implantar uma política cultural, mas a anticultural é corriqueira
Salada. No barracão da Vila Isabel, funcionário vistoria carro alegórico. ‘Este carnaval é do sertanejo, do arrocha, do funk paulistano’, diz autor
IVAN MARSIGLIA
Com a sua peculiar
estridência, a assim chamada "nova classe média" ocupa, além de
aeroportos e manchetes de economia, o centro da cena cultural brasileira. É o Carnaval
do Ai se eu te Pego, do tche-rerê-tche-tchê, da Beyoncé paraense Gaby
Amarantos, da redenção do funk carioca e também da tragédia da Gurizada Fandangueira.
Nessa explosão de sentidos figurados e literais, que marcas deixarão impressas
na cultura nacional os cerca de 40 milhões de "ex-pobres" - na jocosa
definição de MC Papo - que ascenderam ao mercado na última década?
Na opinião do
antropólogo Hermano Vianna, antes de mais nada vale a pena remeter para a
discussão da cultura a crítica feita pelo ex-presidente FHC ao termo nova
classe média. "Há de tudo nela: pastores de igrejas evangélicas, DJs de
tecnobrega, militantes de coletivos periféricos, donos de lan houses", diz
o irmão mais velho do guitarrista Herbert Vianna, dos Paralamas, e um dos mais
importantes pesquisadores musicais do País. "O rótulo impreciso tenta dar
conta de uma grande transformação da sociedade brasileira ainda não analisada devidamente."
Aos que denunciam um
suposto empobrecimento geral das manifestações artísticas no País, o doutor em
antropologia social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ) - que também é consultor do programa Esquenta!, de Regina Casé,
na Globo lança mão de uma metáfora, a do disco voador: trata-se de um olhar que
sobrevoa o País sem conexão com o mundo de baixo que agora penetra a fuselagem
da nave, incomodando seus finos tripulantes. E reedita, em tom de provocação, a
enfática defesa que faz há anos da música mais popular dos morros cariocas.
"Encontro no funk muitos elementos que o tornam superior a uma sub-MPB que
tentam me empurrar como música de qualidade."
Na entrevista a seguir,
Hermano Vianna desvenda a origem moderna do Carnaval carioca, vê com bons olhos
a chegada do baiano Juca Ferreira à paulistaníssima prefeitura de Fernando
Haddad, afirma não morrer de amores pelo Vale Cultura encampado pela ministra
Marta Suplicy e reitera aos puristas que, assim como já declarou Gilberto Gil,
"raiz para mim só de mandioca".
Na última década, o
Brasil vive a ascensão de uma nova classe média e a chamada inclusão pelo
consumo. De que forma essa transformaçao se expressa no âmbito da cultura?
Em seu artigo de domingo
passado no Estado, Fernando Henrique Cardoso escreveu que "a dissolução do
conceito de classes em "categorias de renda" chamadas classes A, B,
C, D, ou nesta "nova classe média", dificilmente se sustenta
teoricamente". Falou mais como sociólogo do que como ex-presidente ou
político da oposição. Eu, como antropólogo, orientando de Gilberto Velho - por
sua vez orientando de Ruth Cardoso, corajosa o suficiente para, durante a
ditadura militar, aceitar que Gilberto fizesse tese sobre o consumo de drogas
entre jovens da velha classe média posso afirmar que tal dissolução também não
se sustenta culturalmente. Quando dizemos "nova classe média" estamos
pensando num grupo extremamente heterogêneo em termos de estilos de Vida e
visões de mundo. Há de tudo nela: pastores de igrejas evangélicas, DJs de
tecnobrega, militantes de coletivos periféricos, donos de lan houses, etc. O
rótulo impreciso tenta dar conta de uma grande transformação da sociedade
brasileira, ainda não analisada devidamente.
Em que termos falta
analisá-la?
Ela não é apenas uma
transformação econômica. Aconteceu ao mesmo tempo em que outras mudanças
profundas se processavam. Na cultura, as conseqüências da revolução digital
foram imediatas. O modelo de negócios da "indústria cultural", que
funciona na base do broadcast, poucos-para-muitos, ainda não conseguiu se
adaptar ao mundo das redes, muitos-para-muitos. Por exemplo, o mundo das
gravadoras de discos, que comandava o mercado mundial de música popular,
praticamente desmoronou. Milhares de pequenos estúdios surgiram em todas as
periferias. Seus produtos são distribuídos via internet e fazem sucesso sem
precisar de rádio, imprensa, TV. Em 2006, quando escrevi o texto para
lançamento do programa Central da Periferia, na Globo, deixei claro: somos a
mídia de massa correndo atrás da música mais popular nas ruas brasileiras que
nunca esteve na TV antes. Descrevi a grande mídia como um disco voador,
sobrevoando o País, sem conexão com o mundo "de baixo". De lá para
cá, nada mudou tanto assim: apenas o barulho de fora (Ai se eu te Pego),
amplificado por milhões de alto-falantes de som automotivo ou de celulares
ligados em redes sociais, já penetra a fuselagem da nave, incomodando seus
finos tripulantes.
O sr. quer dizer que há
um incômodo com a democratização da cultura?
O melhor texto sobre
isso é o do Otávio Velho dizendo que não há mais grotões no Brasil. Ele
criticava a opinião de que os votos que elegeram Lula vinham de grotões
ignorantes e sem conexão com a realidade contemporânea. Quem não viaja pelo
interior não deve se dar conta disso. Quando piso em qualquer biboca, longe das
capitais, logo encontro grupos articuladíssimos, tocando projetos sociais e
culturais muitas vezes com repercussão internacional. E há também uma
politizaçào geral nesse interior que não é só de esquerda, e quase sempre não
tem lugar definido no espectro ideológico tradicional. Ela é alternativa a vida
político-partidária, parte do "disco voador", e produziu importantes
organizações como a Cufa (Central Única de Favelas) e o AfroReggae. O pop periférico
e a politizaçào cultural periférica - que não mantêm relações harmoniosas entre
si - são as principais novidades culturais brasileiras das duas últimas
décadas.
E as políticas de
cultura do País, estão dando o melhor a essa população ou apenas reforçando
estereótipos?
Políticas de cultura não
devem "dar" nada para a população. Isso se parece com promessa velha
de político acostumado ao ar condicionado no disco voador: "Vou levar
cultura para as favelas". A imagem tradicional era a favela como vazio cultural
que devia ser iluminada com arte de fora. Os próprios favelados já deram a
resposta: "Qual é, mané, o que não falta aqui é cultura". As
políticas de cultura, então, precisam trabalhar junto com o que já acontece em
cada lugar, possibilitando uma melhor circulação de informações e contribuindo
para ampliações de horizontes de maneiras de fazer arte, que foram criadas
muitas vezes aos trancos e barrancos (ou dentro de barracos). Outro dia vi um
censo cultural realizado com jovens de áreas "ex-pobres" - expressão
inventada pelo MC Papo rei do reggaeton mineiro - do Rio revelando uma maioria
absoluta que nunca tinha ido a um show musical. Conheço bem as áreas onde a
pesquisa foi aplicada e sei que essa rapaziada freqüenta baile funk com muitas
apresentações ao vivo. Aquilo não é considerado show musical? Por quem, o
pesquisador ou o pesquisado? Show musical é o quê? Só o que acontece no
Citibank Hall?
O sr. foi um defensor
dos CEUs e dos Telecentros da então prefeita Marta Suplicy. O que achou do Vale
Cultura, apresentado pela agora ministra?
O Vale Cultura não foi
inventado pelo ministério Marta. Tem longa história de formulação e debate,
anterior até à data de 2009, quando foi para o Congresso. Na época, o então
ministro Juca Ferreira já precisou atacar a opinião de que o dinheiro "não
deveria ser usado em baile funk"". Juca seguiu o pensamento de
Gilberto Gil, que numa de suas melhores frases como ministro disse:
"Cultura ruim também é cultura". E isso, não tenho o que acrescentar
porque sei que Gil e Juca sabem que funk não é cultura ruim. Gil até já cantou,
em declaração de amor para o Rio, "quero ser teu funk".
Então o sr. concorda com
a resposta da ministra aos críticos do Vale Cultura: ‘Se quiser comprar revista
de quinta categoria, pode’ e ‘compra porcaria quem quiser’?
É engraçado: quando a política deixa o mercado decidir como o incentivo vai ser
usado, é acusada de sustentar cultura de mercado com dinheiro público. Quando
quer corrigir “distorções do mercado”, como o fato de a região Sudeste acabar
com a maior porcentagem do dinheiro da Lei Rouanet, é acusada de dirigismo
cultural Parece que todos preferem o imobilismo, que o ministério não proponha
política nenhuma. Não morro de amores pelo Vale Cultura, mas encaro sua
implementação como uma experiência. Por que, de antemão, achar que ele vai ser
usado só em porcaria? Essa é a imagem que temos do tal “povo”, coitadinho, que precisa de nossa orientação para saber o que é bom. E se for assim, por que esses críticos não partem para a porta das fábricas para ensinar ao povo o que é bom, com serviço de van grátis direto para a Sala São Paulo? Essa é a imagem que temos do tal “povo”, coitadinho, que precisa de nossa
orientação para saber o que é bom. E se for assim, por que esses críticos não
partem para a porta das fábricas para ensinar ao povo o que é bom, com serviço
de van grátis direto para a Sala São Paulo?
A ida de Juca Ferreira, um baiano, para a Secretaria de Cultura paulistana de
Fernando Haddad, lhe agradou?
Confesso que fiquei surpreso. Estamos acostumados a pensar a política estadual
ou municipal de forma paroquial, como se só os locais pudessem lidar com
realidades locais. Então foi surpresa boa: uma pessoa de fora pode descobrir
maneiras novas para resolver velhos problemas já naturalizados pelos nativos.
Mesmo quando entende as coisas de forma errada. Lembro a descoberta do
tropicalismo pelos críticos estrangeiros nos anos 1990: eles falaram muita
besteira, não captavam as sutilezas do nosso contexto, terrivelmente complexo
para gringos. Mas aquilo me fez entender nosso passado musical com novos olhos,
e tudo ficou ainda mais interessante. Espero que o mesmo aconteça com o diálogo
entre o baiano Juca e os paulistanos, que sempre souberam acolher bem os
baianos, a ponto de ninguém poder dizer com certeza se o tropicalismo é baiano
ou paulistano. Mandei até uma sugestão, de que uma das primeiras ações do novo
secretário deveria ser um encontro com a grande comunidade do samba paulistano.
E como vai a cultura em sua cidade, o Rio?
No Rio acontecem outras surpresas: uma pessoa de fora, o gaúcho Beltrame,
impulsionou o projeto das UPPs. Por anos fui defender o funk e a possibilidade
de realização dos bailes na Secretaria de Segurança -já que a Secretaria de
Cultura nunca se pronunciava. Hoje, há uma nova era de projetos culturais. Bom
sinal para a cidade, que agora, pós-tragédia em Santa Maria, terra do Beltrame,
percebe como as coisas estavam descontroladas. Havia a tal da Resolução 013 que
era sempre usada por policiais quando queriam fechar um baile. Tudo podia ser
motivo: falta de saídas de emergência, banheiros, isolamento acústico, etc.
Agora sabemos que mesmo os espaços culturais da prefeitura ou do Estado
funcionavam contrariando regras de segurança. Por que só os bailes eram
fechados?
E o Carnaval? Nessa semana de exaltação e júbilo país afora, temos o que
comemorar?
Este Carnaval é do sertanejo, do arrocha, do funk paulistano. Ela é Top, do
paulistano MC Bola, é a música mais tocada no rádio em Salvador, com versão bem
local. Essa é a brincadeira musical preferida atualmente: os sucessos ganham
versões em todos os ritmos do momento. E os estilos se misturam. Quem diria que
o sertanejo iria virar música de balada? Quem diria que Campo Grande, Mato Grosso
do Sul, iria se transformar na capital do pop brasileiro? Eu não entendia muito
bem o mundo do sertanejo. Até que fui numa festa de fundo de quintal, bem
familiar, em Campo Grande. Uma dupla tocava canções que eu nunca ouvira antes e
todo mundo fazia coro, com emoção tão explosiva quanto no momento mais animado
do bumbódromo de Parintins. Foi minha rendição: gosto de pop fake, mas também
não resisto diante da autenticidade. Naquele momento, gostei por motivos
antropológicos, o que me encantava era o amor que aquelas pessoas sentiam por
aquela música. Estava claro que algo grande iria acontecer dali. Hoje gosto
também por motivos musicais. Mas há outro aspecto interessante nessa
brincadeira, que é bem mais que música. Ninguém, nem mesmo o fã mais “inculto”,
acha que Ai se eu te Pego é um clássico de Tom Jobim. Aquilo é outra coisa: um
mote para festa, para animação coletiva. Começou com uma cantoria de meninas
paraibanas viajando para a Disney, virou refrão para animar turistas em Porto
Seguro e depois forró em Feira de Santana. Michel Teló transformou o resultado
em canção pop, que já foi apropriada em vídeos em todo o planeta, como Gangnam
Style. O que importa aí é o processo, a diversão agora, o riso solto, e não a
obra-prima para ser venerada como fuga de Bach. É preciso julgar as duas coisas
com critérios diferentes.
O sr. parece otimista, mas há alguns dias o sambista Zeca Pagodinho criticou o Carnaval
no Rio, disse que ‘tudo foi roubado’ e não se vê mais nem enfeites nas ruas de
periferia. Sambas-enredo falam de países distantes e cavalos manga-larga por
exigência de patrocinadores. E até o elogiado renascimento dos bloquinhos de
rua, em contraponto ao mega-show mercantilizado do sambódromo, já é promovido
por marcas de cerveja. A massificação põe em risco a riqueza da festa?
O Carnaval é uma festa moderna, que cresceu mesmo a partir do final do século
19. O primeiro desfile de escola de samba aconteceu em 1929, e o patrocínio dos
jornais foi importante para sua popularização e “oficialização”. Antes era algo
menor no calendário cultural do Rio. A grande festa da cidade era o Divino, que
ocupava o Campo de Santana durante várias semanas. Desapareceu. Nem por isso o
Rio deixou de ser o Rio. Tudo muda. E muitas novidades importantes têm origem
em desrespeito a tradições. O baiano Hilário queria botar seu terno de Reis nas
ruas cariocas. Notando que o 6 de janeiro não era dia de folia no Rio, resolveu
sair no Carnaval. Deu nos ranchos, nas escolas de samba e assim por diante. Se
fosse fiel às regras tradicionais, a cultura da cidade hoje seria bem
diferente. Eu adorava o Carnaval no Centro do Rio no início dos anos 80.
Cacique de Ramos e Bafo da Onça desfilavam gigantescos, empolgadíssimos. Aquilo
foi minguando, melancolicamente. Houve ano que não escutei nenhum som de blocos
na rua. Hoje há cada dia mais blocos, cada vez maiores. A garotada carioca, de
todas as classes, voltou a ter no Carnaval sua melhor festa. Você não gosta de
blocos comerciais? Não se preocupe, há muitos outros que fogem do comércio. Neste
ano vai ter até bloco que só canta marchinhas baseadas em tragédias gregas.
Há quem veja, no entanto, um empobrecimento nas manifestações artísticas de
hoje, especialmente se lembrarmos do samba de raiz de Cartola e Pixinguinha,
por exemplo. Não há em seu discurso uma certa correção política que impede a
crítica?
Cito mais uma vez Gil: raiz para mim só de mandioca. Samba é música moderna,
criada no início do século 20, inclusive com a invenção de instrumentos novos,
como o surdo, criado a partir de tonéis industriais. Tudo muda, o tempo todo.
Ficou mais pobre? A partir de que critério? Sei que o relativismo está fora de
moda. Nem ligo: sou relativista incorrigível, cada vez mais radical.
Constantemente me pego fazendo coro para Hêmon brigando com seu pai Creonte, em
Antígona: “Guarda-te, pois, de te apegares a um só modo de pensar, crendo que o
que dizes, e por sères tu que o dizes, exclui qualquer outra possibilidade de
ver e sentir as coisas”. Não tem quem me convença que há um fundamento estético
único a partir do qual podemos decretar o empobrecimento ou o enriquecimento
das criações humanas. Mas digamos que há: então encontro no funk muitos
elementos que o tornam superior a uma sub-MPB que tentam me empurrar como
música de qualidade. O tamborzão do funk salvou a música brasileira na virada
do século 20 para o 21. E vanguarda mesmo, concretismo eletrônico
afro-brasileiro. Mas para quem acha que hip hop não é música, ou que
Stockhausen não é música, o que estou falando é delírio. Um consolo é saber que
a produção da gravadora Motown um dia foi considerada por todos os críticos
como lixo comercial sem futuro.
A que servem iniciativas suas como o programa Esquenta!, com Regina Casé?
Antes de qualquer outra coisa queremos fazer uma boa festa. Nas gravações do
programa, os momentos que mais nos agradam são quando a platéia assume o
controle e viramos espectadores da farra coletiva, Como em qualquer outra festa
boa, para isso acontecer é preciso reunir gente que pensa diferente e não tenha
preconceito diante das diferenças. Reunião só com gente que pensa igual não tem
graça.
O Brasil deveria apostar num programa de inclusão social pela cultura?
Detesto a palavra inclusão por motivos que já comentei nas respostas
anteriores: parece que a salvação do excluído - que não tem nada, é um vazio a
ser preenchido por bom conteúdo - está na sua captura por um mundo que não é
dele, não sua transformação em Outro. Partindo dessa premissa, a política
cultural já seria de grande valor se não atrapalhasse o que já existe. O
governo tem enorme dificuldade para criar e implantar política cultural. Mas
política anti-cultural é corriqueira. Como a proibição dos bailes funk quando a
música estava nascendo, empurrando-a para dentro de morros controlados pelo
tráfico armado. O “funk proibidão” foi produto dessa ação an-ticultural do
poder público.