sábado, 25 de maio de 2013

Twitter.BR - Cora Rónai

O Globo - 25/05/2013
 
Direção da rede no país procura
popularizar mais uso das hashtags e
também investir nos vídeos do Vine


Ferramenta de chat, rede social, microblog —
até hoje há quem não saiba direito a que veio
o Twitter, sobretudo no Brasil, onde, significativamente,
sua maior concorrência, até outro dia,
era o Orkut. Somos expansivos, gostamos de bater
papo e de jogar conversa fora, dois conceitos que
não combinam com a brevidade imposta pelos 140
caracteres do passarinho azul.

— As pessoas ainda fazem confusão —reconhece
Guilherme Ribenboim, diretor geral da empresa no
país. — O Twitter não é propriamente uma rede social;
é, sobretudo, uma rede de informação.

O desafio de Guilherme, que assumiu o posto há
seis meses, é ampliar a presença do Twitter no Brasil
e botar os pingos nos ii. Para isso, ele tem conversado
com formadores de opinião e com os VITs,
Very Important Twitters, em geral celebridades
com grande número de seguidores. Tem também
fechado parcerias com empresas. A mais emblemática,
até aqui, foi a presença no Camarote da
Brahma, no Carnaval. Ao mesmo tempo, ele é uma
espécie de evangelista das hashtags, as etiquetas
precedidas de jogo da velha que viraram sinônimo
universal do Twitter.

Hashtags são muito úteis para identificar assuntos
e são, em princípio, elementos de escrita pragmáticos.
Na hora da novela, por exemplo, quem
quer entrar no papo geral marca os seus tuites com
#amoravida; já quem quer ver o que os outros estão
achando, dá uma busca em #amoravida para encontrar
todos os comentários.

Com o tempo, porém, as hashtags ganharam
também uma aura metafísica, que define o sentimento
da vida num certo momento. Quem é que
ainda não viu um #prontofalei, hoje clássica identificação
de desabafo? Ontem mesmo usei um
#pyongyangfeelings quando twittei sobre o apagão
que me deixou sem luz e, consequentemente, sem
internet: afinal, nada mais Coreia do Norte do que
falta de luz e de conexão...

Outra missão de Guilherme Ribenboim é difundir
o uso do Vine, espécie de cruzamento entre
YouTube, Instagram e Twitter que, com um ano,
começa a bombar nas paradas. O Vine, comprado
pelo Twitter em outubro do ano passado, e lançado
em fins de janeiro deste ano, é um aplicativo que
faz e compartilha filmetes de seis segundos. Ele
tem dois grandes trunfos: os seis segundos, justamente,
equivalentes aos 140 caracteres em palavras
e perfeitos para quem vê, e a absoluta facilidade
de uso. Para gravar, basta tocar na tela; para parar
de gravar, é só tirar o dedo. Os filmetes são praticamente
fotos em vários tempos: toca, tira, toca, tira...
simples assim.

O desafio é fazer videos interessantes. Loops e bichos
de estimação têm se provado populares. Há
pessoas super criativas que fazem autênticos milagres
com tão poucos recursos; o resto da humanidade
se contenta em mostrar o que vai comer. E,
claro, os gatos. Muitos gatos!

O maior entrave à popularização do Vine é que,
por enquanto, ele só funciona em iOS, o sistema
operacional do iPhone. Nos Estados Unidos, porém,
onde o smartphone da Apple domina o mercado,
o Vine já tem massa crítica: há fins de semana
em que mais de 100 mil videos são postados, e até
Sir Paul McCartney aderiu à brincadeira.

— A velocidade com que as pessoas aderem às
novas redes é impressionante — observa Guilherme
Ribenboim. — Ashton Kutcher levou três anos
para chegar a um milhão de seguidores no Twitter.
Os usuários mais seguidos do Vine devem chegar a
isso nos próximos três meses, se não antes

Um fogão para Dilma - JORGE BASTOS MORENO

O GLOBO - 25/05/2013

Um dia depois de ser eleita a segunda mulher
mais poderosa do mundo, a presidente
Dilma Rousseff revela uma inusitada frustração
de dona de casa — a de não ter um fogão
para ela mesma preparar suas refeições rápidas.
O que hoje já é uma realidade na maioria
dos lares de baixa renda, para a presidente,
não passa de um sonho: “Eu preciso ter
um fogão, urgentemente!”.
Desconfio que, talvez, seja por isso que o governo
esteja pensando em lançar um novo e
impactante projeto do Minha Casa Minha Vida,
sobre o qual estou impedido de falar, para
não estragar a surpresa: o cartão de crédito para
a aquisição de móveis e eletrodomésticos.
Pronto, falei. Mas eu não soube disso pela presidente,
e sim por fontes da área social.
Tudo sobre o fogão e a constatação de que,
se fosse mais nova e com filhos pequenos, não
conseguiria exercer em plenitude o cargo de
presidente da República, você vai saber agora,
neste relato sobre meu encontro com a Dilma:
Preocupado com as últimas semanas de estresse
vividas pela presidente Dilma, por causa
do comportamento do PMDB da Câmara na
votação da MP dos Portos, levei para ela o livro
“Te cuida!”, do meu cardiologista Cláudio Domênico.
Expliquei-lhe que a obra enfatiza a
qualidade de vida como foco da moderna
“medicina comportamental” e, nesse sentido,
inclui até a espiritualidade como elemento de
vida saudável, desde que não se sobreponha
ao tratamento convencional. Ela adorou e botou
na bagagem para ler no avião, durante a viagem
que está fazendo à África.
— Que coincidência. Acabam de me recomendar
esse tipo de tratamento, a busca da
medicina comportamental. Sugeriram que
eu tentasse algum tipo de concentração logo
ao acordar, uma coisa zen, desligando-me
dos problemas. Você consegue me ver assim,
desligada de tudo, com tudo isso que acontece
à minha volta?
Pronto, era a deixa de que eu precisava para
entrar nos assuntos mundanos:
— Realmente, não consigo imaginá-la levitando
no meio desse barulho todo do PMDB,
do combate à inflação e da oposição lançando
candidatos.

PALANQUES

Mas a alegre presidente que estava à minha
frente não queria saber de mais problemas,
além dos que já enfrenta dentro de casa. E não
foi por falta de insistência que ela deixou de falar
de política e de economia. Dilma, habilmente,
fugiu de todos os assuntos relacionados às
eleições de 2014. E eu não sou suficientemente
idiota para pressioná-la a falar de sucessão presidencial,
na hora do expediente, dentro do gabinete
presidencial. Não sou, repito, suficientemente,
apenas razoavelmente: tentei falar das
eleições dos outros, ou seja, das dos candidatos
a governadores. Mas nem por aí consegui arrancar
nada, a não ser o reconhecimento de
que a disputa entre o PT e o PMDB em alguns
estados é o mais grave da aliança. Como eu vinha
de um almoço com o seu vice-presidente,
que estava muito animado, apostando que, à
exceção deste osso de pescoço que é o Rio, as
demais brigas estaduais não deverão afetar a
eleição principal, provoquei:
— O seu vice diz que todos os governadores
do PMDB em litígio com o PT repetem
“Michel, aconteça o que acontecer, nosso palanque
é seu e da Dilma”. Isso mostra a segurança
dele em relação à preservação da aliança,
com a mesma chapa. Existe algum risco
ou isso é matéria vencida?
— É matéria vencida! — limitou-se a responder
a presidente.

SAUDADE DO AROUCHE
É necessário situar o leitor sobre o clima e
as circunstâncias em que fui recebido pela
chefa da Nação, no seu gabinete no Palácio
do Planalto. Uma quinta-feira muito movimentada
pelo fim da novela da nomeação —
ufa! — do novo ministro do Supremo e por
outras questões importantes, fui recebido
quase duas horas antes da viagem da Dilma à
Etiópia. Recebeu-me assim:
— Sinta-se um privilegiado! Fiz de tudo para
encaixá-lo na agenda!
Não deixei por menos:
— E eu que tive que encurtar uma conversa
com a Carolina Dieckmann para estar aqui!
— Nossa! Você abandonou a bela Carolina
Dieckmann por minha causa e da ministra
Helena?
— As senhoras merecem!
E aí entramos no nosso assunto favorito:
televisão.
A presidente contou que se diverte revendo
o “Sai de baixo”, no canal Viva:
— É meu programa favorito. Sei os horários
todos. Vejo e ainda gravo. E fico torcendo para
que o episódio da semana seja um daqueles
antológicos que nunca saíram da minha
memória. Vendo o “Sai de baixo”, depois de
ter visto a Adriana Esteves em “Avenida Brasil”,
é que a gente tem a dimensão da genialidade
dessa atriz.
Dilma explica por que Viva é o seu canal favorito:
— Porque nesse canal revejo também os personagens
do Jô Soares no “Viva o Gordo”. Todos
os personagens do Jô eram ótimos, mas eu me
divertia com os Bombeiros Encanadores. Eram
ele e o seu companheiro Jefferson, feito por
aquele outro humorista sensacional, um moreno,
de cujo nome não me lembro agora.
— É o Eliezer Motta — socorri.
A presidente manifesta o desejo de um dia poder
ter um encontro descontraído com esses
ídolos da televisão:
— Esse encontro tem que ter as duas Fernandas,
mãe e filha. A Fernanda Torres tem um texto
inteligente, maravilhoso. É uma excelente
cronista. Gosto de ler seus artigos em jornais e
revistas. Como atriz, nem se fala.

FERNANDINHA COR DE ABÓBORA

Não desisto e tento inserir política na pauta:
— Concordo com a senhora de que a Fernanda
Torres tem um dos melhores textos da mídia
brasileira, tanto que vivo fazendo campanha
para ela entrar para a Academia Brasileira de
Letras. E agora vem esse Fernando Henrique
atrapalhar meus planos.
Dilma finge que não ouviu esse último nome e
continua falando da atriz:
— E a Fernanda Torres está impagável neste
que acho um dos melhores programas da televisão
brasileira, o “Tapas e beijos”. Eu me divirto
muito com ela e com a outra sensacional atriz
que é a Andréa Beltrão. E aquele uniforme das
duas, cor de abóbora, se não me engano?!

CORAÇÃO DE MÃEZONA

Sobre novelas, Dilma, já sobre a estreante
“Amor à vida”, acredita que o drama da personagem
de Paola Oliveira em busca da sua filha tem
tudo para comover os telespectadores. E foi nesse
momento, citando a forte relação entre mães
e filhos, que a presidente fez esta reflexão:
— Tenho a certeza de que, se fosse mais nova e
tivesse filhos pequenos ou adolescentes, eu não
conseguiria exercer em plenitude a presidência da
República. Por exemplo, estou embarcando agora
para a Etiópia. Se, na minha ausência, acontecesse
qualquer coisa com um filho pequeno, eu abandonaria
tudo e voltaria correndo. O sentimento
materno é muito maior do que qualquer outra coisa.
Graças a Deus, tenho uma filha adulta, independente,
responsável, capaz de enfrentar
qualquer adversidade na minha ausência.
— E o seu neto, Gabriel?
— Aí eu me enlouqueceria! Se bem que não
tiro o poder da mãe. Não sou uma avó possessiva,
dessas que tentam invadir o espaço da mãe.
Minha filha é uma mãe muito responsável. Ela
sabe cuidar do meu neto melhor que eu.

ELOGIO INSULTUOSO

Procuro outro caminho torto de voltar ao
tema político e finjo constrangimento:
— Para mim, a melhor definição do papel
dos avós foi feita por personagem que não deve
ser citável neste gabinete: o José Serra. Diz
que avós só estragam os netos porque têm certeza
de que os pais estão aí para consertá-los.
A reação é surpreendente:
— E quem falou para o senhor que José
Serra não pode ser citado aqui? Não é porque
ele foi meu adversário na eleição que eu vou
deixar de reconhecer sua importância, sua
inteligência! Posso discordar, como discordo,
do Serra, mas não deixo de reconhecer sua
capacidade, sua inteligência.
(Meu Deus! Como Serra reclama até de nota
a favor, certamente vai pedir direito de resposta
para o insultuoso elogio presidencial. Para
ele, que não ouve uma palavra amiga do Aécio,
ser elogiado pela Dilma é quase humilhação).
Indago se, quando sua única filha, Paula,
era criança, ela tinha algum sentimento de
culpa, por trocá-la pelo trabalho.
— E como!!! Mas esse sentimento não era exclusividade
minha já naquela época em que a
mulher começava a assumir e se impor em
funções executivas. Nos dias de hoje, nem se
fala! É coisa cultural, normal, a presença maciça
da mulher no mercado de trabalho. Por
mais que a mãe monte uma infraestrutura para
os filhos, durante as horas em que passa no
trabalho, por mais amor e carinho que tenha
por eles, o sentimento de culpa sempre vai
existir. Ele é inevitável.

FOME MADRUGADORA

Na verdade, eu deveria ter começado o relato
sobre a conversa com a Dilma compartilhando
com vocês o grande drama que vive a nossa
presidente da República e que foi o motivo
principal da minha convocação ao Palácio.
A gente pensa que vida de presidente da
República é fácil, cheio de mordomias.
Ledo engano!
É pior que a nossa. Pelo menos da minha e
de milhares de brasileiros que, como a Dilma,
costumam sentir fome de madrugada:
— Eu preciso de um fogão, urgentemente.
Mas não querem me dar um fogão. A cozinha
fica muito longe dos meus aposentos. Às vezes,
quero comer um omelete, um mexido. E
não tenho fogão.
Eu quis saber:
— Por que não botam um fogão mais perto
da senhora?
— Alegam que é por segurança e, também,
por falta de exaustores.
— Micro-ondas pode ser uma solução —
sugeri.
A presidente rebate:
— Nem pensar. Eu quero fazer minha própria
comida quando eu tiver fome à noite.
Não resisti:
— Com todo o respeito, presidente. Mas a
sua fama na cozinha é péssima. Suas colegas
de prisão que faziam rodízio com a senhora no
fogão dizem que seus mexidos eram horrorosos.
Que nem salada a senhora sabia fazer: ralava
os legumes crus e jogava um em cima do
outro, botava um litro de limão e salgava tudo.
E ela:
— Já até sei quem te falou. Ela não deixa de
ter razão. No início, eu cozinhava mal. Depois
fui aprendendo. Aprendi a fazer molho
branco, cozinhar os legumes, fazer arroz direitinho.
Hoje cozinho bem, mas nem tanto
quanto a sua chef, mas dá para o gasto.
— E a senhora cozinhava só para as suas
colegas de cela?
— Eu cozinhava para 20 a 25 pessoas. Claro
que tinha gente que cozinhava melhor que
eu. Mas, por exemplo, a minha sopa de beterraba
era imbatível.

TORCEDORA COMPULSIVA

Sobre Copa do Mundo, perguntei-lhe qual
estádio desses que estão prontos é o mais bonito.
Dilma respondeu que não só ela, mas os
dirigentes da Fifa e as pessoas envolvidas
com a Copa acham que, por fora, o mais lindo
é o de Brasília, mas reconhece:
— Por dentro, é o Maracanã. Mas os de Salvador,
Recife e de outras capitais são muito
bonitos também.
E, sem querer, a presidente bota a bola nos
meus pés para eu fazer o golaço da conversa:
— Em Recife, o jogo foi entre dois times de
operários. Eu não posso ver um jogo que acabo
escolhendo logo um time para torcer. Quando
me dei conta, já estava torcendo para um deles.
Não tive dúvidas e chutei a bola:
— Aposto que a senhora torceu para o time
que não era o do Eduardo Campos.
Depois da resposta que tive, só me restou
encerrar a conversa e partir para o abraço.
Com um sorriso nos lábios, Dilma pensou,
pensou e disse:
— Olha, para dizer a verdade, nem reparei para
que time o governador Eduardo Campos estava
torcendo. Se é que ele torceu por alguém.

Nem é bom lembrar. Ou é - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 25/05/2013

No momento em que a Comissão da Verdade confirma que a tortura já era amplamente utilizada pelos militares em 1964, e não a partir de 1968, como resposta à luta armada, não se pode deixar de lembrar um episódio de muita repercussão na época e que se tornou emblemático por ter ocorrido em praça pública e com direito a plateia, como se fosse um daqueles espetáculos bárbaros de antigamente. Nos primeiros dias do golpe, o líder comunista Gregório Bezerra, depois de selvagemente espancado dentro de um quartel do Exército em Recife, foi puxado para a rua, onde aconteceu o que ele contou ao "Pasquim" em 1978, numa entrevista nunca desmentida. "O coronel Vilocq (Darcy Viana) gritava para a massa: "Lincha esse bandido, matem, joguem garrafas, pedaços de ferro, pedras nesse monstro que queria incendiar o bairro para queimar crianças"." Horrorizadas, as pessoas viravam o rosto. "Saíram me arrastando até o jardim da Casa Forte, onde Vilocq fez outro comício concitando a me linchar. Mais uma vez ninguém atendeu, o que me encorajava, me dava uma vontade louca de resistir."

A cena, presenciada pela então jovem advogada Mércia Albuquerque, foi assim descrita por ela: "Gregório, vestindo apenas calção preto, com a cabeça fraturada sangrando, banhado de suor, com os pés que haviam sido mergulhados em soda cáustica e os pulsos feridos pelas algemas, tinha uma corda de três pontas amarrada no pescoço e era arrastado por um grupo de soldados, seguido por um carro de combate." Segundo ainda seu relato, "o tenente-coronel Darcy Vilocq ensandecido agitava uma vareta de ferro e gritava, apoplético, injúrias contra o velho militante comunista, seu prisioneiro. Como se dirigisse um ato de fé da Inquisição, conclamava os espectadores tomados de pânico: "Venham ver o enforcamento do comunista Gregório Bezerra!""

Enquanto o cortejo sádico circundava a Praça da Casa Forte, com transmissão ao vivo por uma rádio e um canal de televisão, religiosos liderados por uma freira acionaram Dom Lamartine, bispo auxiliar, que telefonou para o general Justino Alves Bastos solicitando sua interferência. O então comandante do 4º Exército interveio, impedindo que a barbárie fosse coroada com o anunciado enforcamento.

Enfim, nem é bom lembrar essas coisas. Ou é - para que não se repitam. A História, já se disse, não deve servir de exemplo, mas pode servir de lição. É o que a Comissão da Verdade está tentando fazer.

Por falar em passado, vou parodiar os adversários de Richard Nixon: você compraria um carro usado do atual presidente do Brasil?

Não ouvir - José Miguel Wisnik


O Globo - 25/05/2013

O pianista André Mehmari é um dos maiores fenômenos da música instrumental surgida no Brasil nos últimos tempos

O pianista André Mehmari é um dos maiores fenômenos da música instrumental surgida no Brasil nos últimos tempos. Quem acompanha o gênero conhece certamente a sua técnica espantosa, sua fluência única e sua capacidade de transitar com sobra entre os estilos da música popular e da música de concerto. Seu recital recente na Sala São Paulo remetia, sem medo do paralelo, a uma versão brasileira do paradigma Keith Jarrett, o pianista que tem o instrumento como uma extensão total do corpo e que improvisa numa zona sem fronteiras entre as formas que o piano acumulou. Mehmari relata no Facebook uma experiência recentíssima e a seu modo chocante, que desafia a nossa capacidade de ler o estado atual das coisas.
Antes de passar a ela, uma observação a mais sobre a comparação entre Jarrett e Mehmari, marcando agora não a semelhança mas uma diferença estética, para não deixar a comparação de passagem num plano muito simplista. Jarrett é angustiado, problematiza o silêncio que o ronda, envereda pelo fragmento e pelo choque, entre o jazz, a música clássica e os impasses da arte moderna. Mehmari é de uma musicalidade sem dramas, de fundo romântico, que jorra nos moldes daquela que a lenda consagrou como sendo a de Villa-Lobos, que não conhece nem coloca limites à sua inesgotável capacidade de expressão.

Vamos aos fatos. André foi participar de um espetáculo para 600 crianças de escolas públicas, com idades entre 10 e 12 anos, num dos teatros municipais de Campinas, no bairro da Vila Industrial. Acho que o programa se chama “Ouvir para crescer”, e se iniciava com uma parte em que atores apresentavam de maneira divertida, caracterizados como palhaços, as características da linguagem musical. Até aí o roteiro pedagógico-cultural transcorria sem sustos. Em seguida entrava André, que apresentaria músicas de Ernesto Nazareth, fazendo as pontes, que ele é mestre em fazer, com outros repertórios. Ao começar uma explicação sobre a sua participação, e mesmo antes de tocar, começou a receber vaias e xingamentos pesados, intensivos, que se multiplicaram e continuaram ao longo de toda a apresentação.

Mehmari é uma pessoa sem pose, suas apresentações são informais e guiadas pela vontade sincera de contribuir. A rejeição não se aplicava a eventuais pompas ou a alguma ostentação de atitude. Imagino que ela se dá, primeiro, na passagem do tom divertido da primeira parte ao tom mais sério e concentrado que ele imprimia. Junto com este vêm certamente, misturados na reação cega da massa de xingamentos, o peso oficial da escola desacreditada, confundido com o estranhamento de classe social, que o pianista deve ter encarnado involuntariamente naquela situação ao mesmo tempo específica e sintomática.

Antes de qualquer outra consideração, é preciso dizer que a reação cega e coletiva ao outro, informe, não elaborada, dada de antemão e deixando sem ação os monitores do programa ironicamente intitulado “Ouvir para crescer”, com o agravante de que vinha de pré-púberes, é um sinal, entre outros, de pontos de ruptura no tecido civilizatório que passa pela escola. Notícias recentes, vindas de muitas partes, de violências no espaço escolar, dentro ou fora da sala de aula, indicam essa espécie de liberação do ataque físico ou verbal, a colegas ou a professores, como uma prática disseminada da qual a plateia referida pode ser vista como um corpo de aprendizes já em plena atividade.

Mais que isso, eles estão imitando procedimentos que estão se dando de muitas formas e em muitos lugares, não só nas chamadas classes C e D, como era o caso, mas nas A e B, na escola, nos debates, nas instituições, na rua. Gozar mais a derrota do time adversário do que a vitória do próprio time é um dos sintomas dessa síndrome. Quem quiser entender isso precisa escapar da lamentação moral de classe média sobre a falta de educação nas famílias. Não que ela não exista, e não seja um dos focos da questão, mas é que ela faz parte de uma rede de identidades que se constituem precariamente sobre a relação rivalitária de indivíduos e grupos cuja afirmação de existência depende da negação frontal do outro. É uma queda do laço simbólico que supõe a troca e a aceitação da própria fragilidade, das próprias insuficiências e das próprias contradições.

A cultura alta levada para jovens plateias pobres (no caso, Nazareth!), pode fazer o papel de ingênua, nesse contexto em que os muros e os fossos reais e imaginários prevalecem. Mas a questão, para mim, continua sendo a de ultrapassar os muros e os fossos, nas duas direções.


domingo, 19 de maio de 2013

Colunista Convidado - JOSÉ DE ABREU

O Globo - 19/05/2013

Twitter, a nova fronteira

“Costumo dizer que o que se fala
no ‘Tuinto’ não se fala nem no
boteco mais chinfrim, com todo
mundo bêbado, porque dá crime
de morte. Mas agora me dei mal”

A primeira entrada na rede foi através do BBS (Bulletin Board System), uma
pré-internet que permitia a ligação de computadores através de uma linha
telefônica utilizando uma caixinha chamada modem (modulador-demodulador),
que era ligada na parede, na linha telefônica de um lado e de outro
numa entrada do PC ou, no meu caso, do Brother Office Organizator,
um pré-notebook. E lá pelos 1994, 95, comecei a usar o tal de chat. E não
parei mais. Veio a internet, com seus vários caminhos (o www era apenas
um deles), e o IRC-Internet Relay Chat tomou conta da rede, principalmente
com o software mIRC, no qual fundei o canal #barril, com um monte de
gente do Brasil todo. Em 95, fiz uma estreia de teatro aqui no Rio (com a
peça “Os amantes da comédia ou A comédia dos amantes” só com gente do
#barril, evento até hoje único, creio). Fez parte da origem dos encontros
dos participantes pelo país afora, os “Mircontros”.

Depois veio o primeiro chat com vídeo, com uma camerazinha que parecia
uma bolinha de golf com a qual pude usar o “CU-SeeMe”, software
de transferência simultânea de vídeo desenvolvido pelo departamento
de tecnologia da informação da Cornell University, de onde provinha o
“CU” inicial que era lido como “see you”, pra dar liga pro “see me”. Mas
que aqui no Brasil era chamado de “cussimi” mesmo. Lembro-me de
uma noite inteira de idiotice aguda num teste que fizemos num programinha
de chat da Microsoft chamado Comic Chat, onde cada um tinha
um avatar engraçado, tipo com saco de supermercado na cabeça, e andava
com seu avatar de corpo inteiro por um cenário virtual, com o texto
teclado aparecendo dentro de um “balão”, como nos gibis. Hilário.

Com o predomínio do canal com interface gráfica, o “www”, na rede, o IRC
(assim como TFP, canal para transferência de arquivos) foi perdendo força,
até que deixei de usar quando surgiu o ICQ ou, noutro jogo de palavras, “I
Seek You”, que revolucionou o chat com sua simplicidade e praticidade e que
durou bastante, até ser substituído pelo MSN Messenger, com voz e vídeo,
pop demais, que me afastou de vez dessa forma de comunicação.

Só voltei, depois de um tempo sendo leitor assíduo e colaborador bissexto
de alguns blogs, com o Twitter. E lá tomei assento. A facilidade com
que me adaptei aos 140 toques me fez crer que era um número “natural”
e não criado por uma limitação física. Na verdade, era o limite de toques
do velho telex — 160 menos 20 pro @seu_nome.

No ‘Tuinto’, como chamamos na intimidade, com a chegada da eleição de
2010 — já um pouco antes se revelava —, os limites do razoável foram superados
numa velocidade cada vez maior, e, parece, sem volta. Trolls de direita
jogando sempre abaixo da linha da cintura, provocando, é esse seu papel,
né? Com a chegada do tal guru indiano na campanha do Serra, então, a
coisa virou uma lama só. Hoje costumo dizer que o que se fala no ‘Tuinto’
não se fala nem no boteco mais chinfrim, com todo mundo bêbado, porque
dá crime de morte. Mas agora me dei mal. Levei dois processos por difamação-
injúria-calúnia e levei um susto. Me retratei, vou dar um tempo.

Direitos por força do martelo - José Reinaldo de Lima Lopes

O Estado de S.Paulo - 19/05/2013 


Com um Parlamento omisso, Supremo e CNJ tomam a frente na aprovação
do casamento gay – e suas decisões, se forem mantidas, terão peso de lei


Há décadas os homossexuais do Brasil lutam por reconhecimento e pela eliminação de um velado, difuso e constante clima de desrespeito e ameaças a seus direitos básicos. Esse preconceito sustentava-se em leis e interpretações de leis que tomavam por natural o tratamento diferenciado e menos favorecido a essas pessoas. Contra elas, houve projetos de legislação para estender direitos iguais aos núcleos familiares formados por pessoas de mesmo sexo. Tais propostas encontraram no Congresso Nacional ouvidos moucos. Não chegaram a ser discutidas e serviram mais de uma vez como moeda de troca em acordos políticos. Como o Judiciário também é parte do poder soberano e é o lugar constitucionalmente privilegiado da defesa dos direitos fundamentais de grupos minoritários, foi por ali que avançou a luta pela igualdade,como de resto já se dera em outras partes do mundo e em outros momentos da história do Brasil. Lembremos que foi nos tribunais que as famílias constituídas por heterossexuais desquitados, antes de haver o divórcio no Brasil, foram pouco a pouco encontrando reconhecimentoe proteção.

Tanto o Supremo Tribunal Federal quanto o Superior Tribunal de Justiça, para não falar de outras instâncias,vinham eliminando o tratamento discriminatório direto e indireto ainda abrigado na legislação brasileira. Por meio de interpretação, vinham alterando nossa maneira de compreender a família no âmbito do direito e o faziam assumindo que não equiparar héteros e homos equivalia a distribuir diferentemente as liberdades civis por causa de atividades absolutamente privadas, que não causam dano a ninguém e não repercutem no patrimônio ou na liberdade alheios.

Porque,afinal de contas,não entender as uniões homossexuais como uniões familiares? Os que têm memória lembram-sebem que no auge da epidemia de aids em meados dos anos 80, foram os homossexuais, travestis e transgêneros que em primeiro lugar organizaram sistemas de apoio mútuo e tratamento para os afetados. Em não poucos casos as famílias heterossexuais das quais procediam os doentes os abandonavam e rejeitavam, assim como essas famílias muitas vezes os haviam humilhado e desprezado pelo caráter de seus afetos. Por que, então, o Estado mesmo não assumiria o dever que lhe compete de impedir essas violências físicas e morais contra uma parte de seus cidadãos? Fechadas as portas do Parlamento, por que não buscar na Justiça o que lhes era devido por justiça?

O Conselho Nacional de Justiça resolveu agora pôr fim a certo estado de incerteza. Uma vez reconhecida a equivalência jurídica da união estável de parceiros do mesmo sexo à união estável de parceiros de sexo
diferente, poderia ainda assim haver resistências localizadas ao processamento de pedidos junto aos sistemas de registro. Já em janeiro de 2013, a Instrução Normativa nº14 indicara o procedimento que os cartórios deveriam adotar, especialmente porque em diversos estados os respectivos Tribunais de Justiça haviam tentado ordenar a matéria por suas corregedorias. A Resolução nº 175, de 14 demaio de 2013, tomou a si transformar a negativa de registro ou celebração de casamento de pessoas do mesmo sexo em ato indisciplinar dos encarregados dos registros públicos no Brasil.

Haverá os que criticarão a decisão dizendo tratar- se de verdadeira emenda ao Código Civil. Como toda decisão, esta também poderá ser impugnada judicialmentee, se for o caso,revista pelo Supremo, porque, dirão,uma coisa é união estável e outra casamento. Entretanto, como a união estável pode ser transformada em casamento, o que o CNJ fez foi dar um passo adiante: uniões estáveis são uma forma de estabelecer família e esta forma pode converter-se em casamento, logo a resolução antecipou-se a objeções e instruiu os cartórios a aceitarem desde já o casamento igualitário, visto que a decisão do STF sobre o assunto na ADPF132 foi vinculante.

Se é constitucionalmente obrigatório aceitar uniões entre pessoas do mesmo sexo, e se elas podem converter-se em casamento, por quenão deveria ser permitido o casamento diretamente? Essa é a racionalidade da Resolução. Enquanto vigorar, a resolução equivale à plena equiparação dos casos, o que gera automaticamente todos os direitos e deveres inerentes a qualquer casamento, inclusive quanto a filiação e adoção.Talvez haja mais batalhas pela frente. Nessa semana, tivemos a prova de que o Parlamento, numa sociedade democrática e liberal, não deveria abdicar de sua função de discutir os temas, tomar decisões e pagar o preço que for necessário.

JOSÉ REINALDO DE LIMA LOPES É PROFESSOR DA
FACULDADE DE DIREITO DA USP E DA DIREITO GV

Quase nada - Caetano Veloso


 O GLOBO - 19/05/2013

Alegra-me repetir o nome de Marina Silva quando esperneiam para que o apaguemos

As palavras de Marina Silva sobre o caso Feliciano são sensatas e dizem o que deve ser dito. A imprensa deu um tom suspeito nas manchetes e os malucos das redes sociais (segundo me contam) entraram em surto. Meu amigo Rafael Rodriguez acha que querem desqualificar Marina para que se mantenha a disputa eleitoral ente PT e PSDB. Isso parece com o que eu dizia quando o nome de Mangabeira Unger era limado de minhas entrevistas, algumas eleições atrás: os jornalistas são petistas e os donos dos jornais são tucanos, não há lugar para terceiros nomes. Mas Mangabeira é uma referência incontornável e Marina é um peso político-eleitoral difícil de destruir. Não estou nem aí.

Gostei muito foi do comentário de Elio Gaspari sobre cotistas. A reportagem que parecia comprovar que cotas só servem para destruir a meritocracia revela-se vazia de conteúdo diante da pesagem das estatísticas feita pelo grande jornalista. Aliás, o artigo dele sobre a substituição, pelo governo Dilma, do secretário executivo do Ministério da Fazenda é de leitura obrigatória (eu, que pouco sei sobre essas coisas, fiquei mais inteligente ao lê-lo).

Voltando: será que alguém crê que Marina Silva está assinando embaixo de declarações inaceitáveis feitas por Feliciano só porque ele é evangélico? Esses doidos não podem fingir que acreditam nisso. De repente é como se Marina apoiasse a interpretação do assassinato de John Lennon feita pelo pastor. Impossível. Ele disse que o crime era uma manifestação da Santíssima Trindade. Que queria estar lá quando acharam o corpo do cantor e dizer: “Este primeiro tiro é em nome do Pai, o segundo é em nome do Filho e o terceiro é em nome do Espírito Santo”. O “Não matarás” da Bíblia fica assim desvalorizado, submetido à ideia de um Deus ciumento e vingativo, tão pré-cristão e tão anticristão, como se os nossos valores morais se baseassem nas punições contra quem, na conquista da Terra Prometida, deixasse de matar, por piedade, mesmo “uma criança de peito”. O pecado ingênuo de um adolescente (dizer que seu grupo de rock estava mais popular do que Jesus Cristo) é tido, assim, como mais grave do que o assassinato a sangue frio. Como a compassiva Marina iria compactuar com essa interpretação dos ensinamentos bíblicos? O que ela diz é que Feliciano não representa o pensamento de todos os evangélicos. Nem mesmo da maioria. Marina defende o Estado laico. E o diz com todas as letras. Por que querer criar confusão onde há tanta clareza?

Outro dia li um jornalista reclamando que falo sobre tudo e mais alguma coisa. A piada da “Piauí”, em que apareço com uma capa de magistrado do STF (que, aliás, na montagem fotográfica me caiu muito bem), sob uma manchete que dava conta de que uma decisão momentosa ia ser arbitrada por mim, é engraçadaça. Me mostraram um vídeo no YouTube em que estou dizendo a alguém “Você é burro, cara”. Eu repetia que o cara era burro e dizia que ele formulara a pergunta de modo tão burro que eu não conseguia sequer memorizar. Meu amigo Eduardo Sá achou de onde tiraram esse clipe. Foi de um programa de TV chamado “Vox Populi”. É dos anos 1970. Eu tinha o cabelo muito longo, muito preto e muito cacheado (esses dois últimos atributos sendo os de que tenho mais saudade). E falava com uma mistura um tanto estranha de moleza e arrogância. O quadro do período explica minha atitude. Eu tinha começado o trabalho com A Outra Banda da Terra sob apedrejamento crítico. O disco “Muito” foi achincalhado como sendo a prova final de minha inépcia e falta de inspiração. “Sampa” e “Terra” estavam sendo lançadas nesse disco. Anteontem reli um artigo de Tárik de Souza em que ele avalia, com forte espírito de corpo jornalístico, minhas brigas com a imprensa da fase que se seguiu a esse lançamento. Quem eu tinha chamado de burro era Geraldo Mayrink, da “Veja”, que destacava frases de músicas de Ary Barroso, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, que eu citara em minhas letras, como exemplos de maus versos, crendo que eram meus (eram de músicas muito conhecidas por quem atentasse para a MPB). Sei que eu estava certo, mas não me senti bem vendo o vídeo. Valeu para eu poder mostrar a meu filho mais novo meu pai falando (ele aparece fazendo pergunta íntima). Mas meu desejo de desprezar as opiniões negativas sobre meu trabalho me irritou um pouco. Preferi ver um “Roda Viva” em que eu, mais velho (com o cabelo já liso mas ainda todo preto), falo “de tudo”, mas em tom mais modesto.

O que vale o que eu penso sobre Gaspari ou Marina? Creio que quase nada. Mas alegra-me poder repetir o nome de Marina Silva quando páginas de jornal e telas de computadores esperneiam para que o apaguemos.


sábado, 18 de maio de 2013

Flagrando a corrupção - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 18/05/2013

Entre as 17 reportagens que se destacaram este ano no 14º Prêmio Imprensa Embratel, duas chamaram a atenção pela forma como produziram provas contra a corrupção, um processo que em geral só é descoberto depois do fato consumado, quando se torna difícil incriminar os culpados e recolher provas materiais de seu envolvimento. Nas duas matérias premiadas, ambas para a televisão, houve o uso de criatividade e tecnologia. A primeira, ganhadora do maior troféu, revelou o que acontecia em um gabinete onde eram fechados contratos com dinheiro público. Durante dois meses o repórter Eduardo Faustini, do "Fantástico", conseguiu fazer-se passar por gestor de compras em um hospital público federal. Convidou empresas que vendem serviços e materiais médicos e, com câmeras escondidas, flagrou como são feitas licitações com cartas marcadas, combinação de suborno e simulações para fugir da fiscalização do governo. A trapaça, mostrada de maneira incontestável, foi justificada por uma das personagens envolvidas, uma mulher apanhada com a mão na massa: "É a ética do mercado." O trabalho de Faustini (com André Luiz Azevedo e Renato Nogueira) recebeu o título de "A cara da corrupção" e impediu que as empresas corruptoras embolsassem na época R$ 250 milhões.

A outra matéria se chama "Madeira chipada" (TV Centro América), que, usando um expediente inédito, descobriu o destino da madeira arrancada ilegalmente de uma área de floresta do tamanho de vinte mil campos de futebol, em União do Sul, no Norte de Mato Grosso. "Nossa equipe instalou chips localizadores em algumas toras nos principais pontos da retirada ilegal." Fez isso cortando um pedaço da casca do tronco, introduzindo o aparelhinho no buraco e colando de novo a casca. O resultado foi que, graças ao rastreamento, o Ibama fechou a serraria que recebeu o produto do roubo e prendeu o gerente em flagrante.

Os demais trabalhos premiados também ajudam a demonstrar como a imprensa está privilegiando a investigação. No Sul, a repórter Letícia Duarte, da "Zero Hora", acompanhou por três anos os passos de um menino para revelar a sucessão de falhas que gesta uma criança de rua. No Rio, os repórteres da Globo News, tendo à frente Rodrigo Carvalho Gomes, percorreram o país acompanhando o dia a dia de juízes ameaçados de morte. No Paraná, o repórter Mauri König e equipe viajaram 5 mil quilômetros em cinco meses para comprovar o desvio de R$ 22 milhões em delegacias fantasmas. Em outro caso, Antônio Gois e uma equipe de dez colegas do GLOBO identificaram no país 82 escolas que, mesmo atendendo alunos de baixíssima renda, conseguiram colocá-los no topo do ranking de aprendizado do MEC.

E há mais uma dezena de exemplos que, por falta de espaço, não são citados.

Alê - José Miguel Wisnik


 O Globo - 18/05/2013

Alê conhece profundamente os procedimentos estruturadores da música de Bach à de Stockhausen

Como sempre acontece, entrego a coluna na quinta-feira. É a data limite do jornal e a minha também, porque jamais consigo escrever com antecedência. Hoje faço um show no Espaço Tom Jobim, e como já contei outras vezes, tenho que fazer a proeza de não me consumir aqui, e evitar a minha tendência a demorar demais na escrita. Para começar, nada de dissertações.

Cheguei na terça-feira para uma aula-show com Arthur Nestrovski no Real Gabinete Português de Leitura, que comemorava 176 anos de existência Eram canções comentadas indo de Martin Codax (canções galego-portuguesas do século XIII) a Fernando Pessoa, passando por Gregório de Matos, Drummond e Vinicius. Tivemos problemas de som, compensados pela reverberação e a maravilha do lugar, essa espantosa biblioteca a olhos nus plantada no centro do Rio de Janeiro como uma epifania surreal de Portugal. Nunca é demais lembrar que Machado de Assis, que não frequentou escola senão a primária, formou boa parte do seu repertório literário universal no Gabinete Português, antes da existência do prédio atual, que data do fim do século XIX.

Na quarta-feira fiquei trabalhando o dia inteiro com Jussara Silveira e Rita Ribeiro num futuro CD delas, que será um disco centrado o mais possível na autossuficiência das vozes. Nosso produtor é Alê Siqueira, eu faço uma espécie de direção artística que é mais propriamente uma parceria de ideias com ele e com elas, e ficávamos trocando canções que nos lembravam canções, feitas de outras canções desembocando em ainda outras. O melhor dos mundos.

Para que se entenda, eu preciso explicar um pouco Alê Siqueira, esse paulistano de Santana que resolveu há anos morar na Bahia para entender os ritmos, a última coisa que faltava na sua formação de quem cresceu ouvindo rap, dominou a música pop, mergulhou na linguagem da música erudita em toda a sua extensão histórica e trabalhou cinco anos com Flô Menezes no estúdio Panaroma de música eletroacústica. Alê conhece profundamente os procedimentos estruturadores da música de Bach à de Stockhausen.
Temperou tudo isso com a sua convivência com a canção popular, da chamada vanguarda paulista (ele é uma espécie de vanguarda paulista mutante, de última geração) ao panteão da canção pop (coproduziu o disco dos Tribalistas e acaba de produzir boa parte do próximo de Ana Carolina, entre muitos outros).
Dizendo assim, e como não estamos acostumados com tal amplitude e solidez de repertórios, pode ficar parecendo que Alê participa do clima de vale-tudo estético em que se mistura aleatoriamente tudo com tudo. Não haveria engano maior. Quando escrevi o livro “O som e o sentido”, em 1989, fiz no final a única profecia do livro, que era em parte uma piada, um jogo de palavras mas também uma previsão a se colocar no plano das ideias: a da formação de um novo tipo de músico a ocupar o lugar transformador que se deu historicamente com os filhos de Bach, que desenvolveram a forma-sonata e a forma-concerto, em contraponto com os filhos de Stockhausen, que eu ouvia dizer que faziam jazz e música pop. Falei então no surgimento de “filhos de Stockhausen”, não os literais, mas o de músicos capazes de transitar sem barreiras, e com completo conhecimento de causa, por todas as formas possíveis da música, como se tivessem decodificado o monolito dos tons e dos pulsos.

Essa figura virtual tomou corpo no mundo, ela pode ser reconhecida por exemplo em Björk, mas eu não imaginava uma encarnação completa tão perto de mim, como a de Alê Siqueira. Estão aí Rita Ribeiro e Jussara Silveira que não me deixam mentir. Alê é desses músicos capazes de radiografar a música que escuta, de distinguir imediatamente os pontos nodais que a diferenciam e que permitem a sua compatibilidade com outras. No campo melódico-harmônico e no campo rítmico (cujas claves africanas e cubanas ele domina, depois de ter trabalhado com as percussões baianas, o candomblé e com Omara Portuondo em Cuba). Um daró africano, uma peça de Béla Bartók sobre danças búlgaras, um samba de roda e uma fanfarra romena podem tocar juntos quando ele os acessa com facilidade espantosa no seu arquivo digital e as sincroniza imediatamente, não porque — repito — esteja fazendo uma maionese musical mas porque conhece os caminhos das pedras e os atalhos que compatibilizam essas tradições nas suas afinidades e nas suas diferenças.

Afinal as músicas, com seu travos próprios e suas cores, com seus sabores e dicções locais inconfundíveis, não deixam de ser uma negociação interna com os números e as frequências, no tempo e no espaço, um castelo de cartas que se monta passando do 2 ao 3, daí ao 5, ao 7, ao 12 e ao infinito.


domingo, 12 de maio de 2013

O passado - Caetano Veloso


Eu queria somente dizer que me fez mal ter visto um filme português legendado em português brasileiro no Canal Brasil

No domingo passado escrevi aqui de modo tão confuso que peço desculpas a quem me leu; peço a quem não leu que não leia; e resumo: eu queria somente dizer que me fez mal ter visto um filme português legendado em português brasileiro no Canal Brasil (as legendas não reproduziam as frases ditas pelos atores, mas as substituíam pelo que os tradutores acreditavam ser o equivalente em português brasileiro coloquial). O resto eram digressões na maioria das vezes impertinentes. Recebi alguns e-mails por causa disso. Só posso dizer que eu gostaria de escrever do modo desencanado de Daniel Galera, ou com a organização de nível acadêmico de Zé Miguel Wisnik, ou com a argumentação bem esquematizada à Francisco Bosco. Para não falar na inveja que tenho do humor rápido de Verissimo ou da verve sintática de Ubaldo. Bem, não vou falar mais nomes porque seriam muitos, sobretudo entre aqueles que são precípua ou exclusivamente jornalistas. Mas não posso negar que amo advérbios de modo, parênteses, travessões e períodos longos. Jorge Mautner sempre me diz que, num artigo sobre a tradução americana de “Verdade tropical”, algum resenhista anglófono citou Faulkner a meu respeito. Eu não me lembro de ter lido nada disso. Sigo Mautner como a um mestre, mas isso não quer dizer que acredito que tudo o que ele diz seja fato. Ele está sempre no nível do mito.

Viajando muito por causa do show do “Abraçaço”, não tenho visto os filmes que quero ver. Se eu pudesse, ia ao cinema todos os dias. Na verdade, eu fazia isso quando tinha 18, 19, 20 anos. Também quando tinha 12, 14, 15 (não é que pulei os 13 como fazem os hotéis americanos ou americanizados, por uma superstição chocante num mundo tão exibidamente desencantado como é o mundo dos hotéis de muitos andares. Não. Pulei os 13 porque correspondem ao ano que passei no Rio, quando ia pouco ao cinema, talvez menos do que ao auditório da Rádio Nacional: não havia cinema em Guadalupe, e eu não saía sozinho nesta cidade enorme). Se eu tivesse visto algum filme, escreveria aqui sobre ele. Gosto de escrever sobre cinema. Posso ter opiniões peculiares, para não dizer esquisitas, mas sei falar sobre o que se vê na tela, se ouve na sala e se sente (eu sinto) no coração. Dos livros que estou lendo não dá para falar. Além de ler e reler Bessa-Luís (e aqui aproveito para pedir desculpas a meus amigos portugueses que porventura tenham lido meu artigo sobre as legendas, já que para eles minhas elucubrações devem ter parecido ainda menos compreensíveis), acabei de ler um livro de Mangabeira Unger que tem o provocativo título “A religião do futuro”. Na verdade já terminei essa leitura há mais de um mês, mas ainda volto a alguns trechos para conferir e estudar, de modo que é como se estivesse ainda acabando de ler. E estou lendo um outro, chamado “A nova mente da máquina”, uma série de ensaios que falam de cosmologia e física quântica mas que são, na verdade, sobre psicanálise. O autor é Aristides Alonso. Ambos os livros são difíceis. Não posso comentar aqui como quem comenta o filme que viu ontem. Curiosamente certas questões cosmológicas aparecem nas duas diferentíssimas obras de maneira similar. (Aliás, li também a introdução de um outro livro de Mangabeira, que trata exclusivamente de cosmologia, sobre o qual seria mais difícil falar do que sobre “A nova mente da máquina” ou “A religião do futuro”.)

Por falar nisso, quando eu aprendi a ler e a escrever, sobretudo quando aprendi coisas mais complexas sobre leitura e escrita, as palavras de um título vinham, como ainda vêm em inglês, todas com iniciais maiúsculas. Ainda hoje às vezes sigo essa antiga regra que não sei quando foi abolida. Assim como nomes comuns que compunham nomes próprios, como Avenida Delfim Moreira, que, não percebi quando, virou avenida Delfim Moreira. Mesmo no meio de uma frase, escrevia-se Dr. Fulano, Sr. Beltrano, Padre Sicrano. Hoje (eu acho) é tudo com minúscula. Será que a gente escreve mesmo santo Tomás de Aquino? Sou um menino dos anos 1950, me assusto com isso. Mas não quero falar de língua e regras de escrita: estou traumatizado com o artigo do último domingo. Penso que, se eu deixar, vou escorregar pelas observações minuciosas mas cheias de erros. Bagno vai rir mais de mim.

Se eu não fosse cantar no dia 15, no Circo Voador, pela diversidade sexual, eu iria, antes do “Abraçaço” na Concha Acústica de Salvador, para Santo Amaro, participar da festa do 13 de Maio, que se estende até o dia 18. Um dos maiores orgulhos de minha vida é Santo Amaro festejar a abolição da escravatura desde 1889. Dia 18 canto no Recife. Vou tentar correr até minha cidade no dia 16. Se não der, terei cantado pela diversidade sexual aqui. É sempre a abolição.


sábado, 11 de maio de 2013

News 11/05/2013

VIAGENS » Passagens aéreas ficam mais baratas

Trabalhadores que recebem acima de R$ 1.503 já são incluídos na classe A-Zulmira Furbino‏  

HIV altera funções cognitivas-Augusto Pio‏  

DOSES QUE MATAM-Guilherme Paranaiba‏ 

ABOLIÇÃO 125 ANOS » A marcha da liberdade-Renata Mariz e Ivan Iunes‏  

 
Eduardo Almeida Reis-Jornalismo‏

 Lei de Cotas e antipropaganda oficial - Luciano Mendes de Faria Filho‏

 ENTREVISTA/EVA FURNARI » "Os professores são heróis"‏

O show e o esgoto [Paul McCartney] - João Paulo‏  

 
Olhar que vem do Sul [René Armand Dreifuss] -Otavio Dulci‏

Quem é o dono da voz - Ailton Magioli‏  

 
Álvaro Pereira Júnior - A hora e a vez do digital-popular

 Painel das Letras: 50 anos mais cinco - Raquel Cozer

 O negócio da crítica - Raquel Cozer e Fernanda Ezabella

 Dos males, o menor - José Miguel Wisnik

 Uma outra receita de mulher - Arnaldo Bloch

 Crítico lança estudo de fôlego sobre Machado e Henry James - IDELBER AVELAR

 Uma noite com Gilberto Gil - via

 Urbanismo de oportunidades - LUIZ FERNANDO JANOT

 A saúde dos olhos - Miguel Ângelo Padilha

Dos males, o menor - José Miguel Wisnik


O Globo - 11/05/2013

 

Argumentos do sociólogo José de Souza sobre redução da maioridade penal são abalizados e bem postos, mas não me convencem

O suplemento Aliás, do jornal “O Estado de S.Paulo”, publicou no domingo passado alguns artigos sobre a discussão em torno da maioridade penal: diminuí-la para 16 anos ou não? Entre eles, o do sociólogo José de Souza Martins rebate a alegação de que levar jovens de 16 anos para a cadeia seria inseri-los de vez na escola do crime. Segundo Martins, há criminosos notórios nessa faixa de idade, agentes de barbáries em estado puro, que não precisaram de nenhuma escola para sê-lo, e a sociedade deve equipar-se para combater o mal que medra nessa zona juridicamente descoberta da existência humana, reduzindo a maioridade penal. Diferentemente da posição reativa e direta dos amedrontados, os argumentos são abalizados e bem postos, mas não me convencem.

Martins sabe que a redução da maioridade penal não resolveria “o problema grave das causas da criminalidade juvenil”. Diz com muita razão que a retórica jurídica do Estado brasileiro, sustentando o estatuto atual, apenas gira em falso no seu não saber o que fazer. Acha que a impossibilidade de punir na justa medida os crimes hediondos praticados por jovens (além da evaporação prática do cumprimento das penas entre adultos, a que ele não se refere diretamente) estimula a iniquidade do justiçamento popular, acrescentando que “o Brasil está entre os países que mais lincham no mundo”, promovendo a indistinção entre a cultura do crime e a punição do crime, entre “maus” e “bons”.

Reconheço a enormidade desse “defeito estrutural”, presente fora e também dentro das cadeias, na própria iniquidade do sistema carcerário, que o Ministro da Justiça deixou escapar outro dia. O diagnóstico supõe um mal-estar difuso e generalizado, exposto no enorme descompasso entre a extensão do problema e as providências apontadas, incluindo esta, a da redução da maioridade penal, que, também ela, mais encobre e aprofunda o problema, com seu simulacro de justiça, do que encara a sua extensão.

Diante do mal-estar, da emergência do mal que desponta em crimes inomináveis e do sentimento de impotência correspondente, as posições têm quase que inevitavelmente muito de sintoma de quem as toma, e de uma aposta implícita na destinação do seu desejo. No caso da posição exposta com propriedade por José de Souza Martins, trata-se de resgatar o funcionamento de um rito jurídico ali onde ele está faltando, e onde essa falta clama por uma reparação simbólica, para o bem das instituições. Sabemos também que esse mesmo clamor pode esconder, em outros casos, a sombra de um desejo coletivo não enunciado senão pelos mais exaltados e frenéticos: universalizar a potência criminosa do adolescente pobre é jogá-lo fora no esgoto das prisões, desejando, mais fundo, que ele seja sugado no imaginário ou no real pela treva do extermínio.
Algo do Brasil atual, com seus emergentes e suas zonas de exclusão, com sua indecisão entre o arranque e a regressão, dá sinais de uma aproximação galopante e não consciente à verdade de sua história escravista através de confrontos não politicamente formalizados nem simbolicamente elaborados, que se expressam no conflito entre os poderes de Estado, na loucura religiosa, nos tribunais do Facebook, nas facções discursivas, no alarde das opiniões, nos fla-flus sem beleza, sem perspectiva e sem regras. São a marca viciosa daquilo que na nossa sociedade vai mudando sem mudar, que se transforma sem transformar, e que resiste a encarar tanto o real de suas violências constitutivas e de suas desigualdades profundas quanto o real de sua potência inovadora.

Por isso tudo, nesse quadro, e para mim, escolher a antecipação da maioridade penal não é resolver problemas, mas encolher o país virtual, decretar o fosso social e, em nome de uma resposta à ocorrência do mal absoluto, recusar-se a olhar para essa zona crucial de passagem onde se decidem destinos pessoais e coletivos. É verdade que infância, adolescência e idade adulta estão tão confusas e embaralhadas, hoje, em todas as classes sociais, que existem crianças simulacros de adultos (pequenos bandidos, pequenas prostitutas, pequenos empresários), e adultos eternos adolescentes, para o bem ou para o mal. O crivo da maioridade como o lugar do sujeito autônomo, datado aos 18 anos, tornou-se problemático em todos os sentidos, mas não se trata de encontrar o responsável nessa faixa limítrofe: dos males, o menor. Continuo me lembrando de Luiz Eduardo Soares (onde está ele?) quando diz que tudo se decide no lugar e no instante frágil em que o ser humano pede sem saber o que todo ser humano pede: olhar, reconhecimento e consideração.


terça-feira, 7 de maio de 2013

Nós, as pessoas físicas, e o poderoso Fisco - Eugênio Bucci

Época - 06/05/2013

Na terça-feira passada, quando deu meia-noite, a Receita Federal tinha recebido 26.034.621 declarações de Imposto de Renda de brasileiros como você ou eu, gente de carne e osso ou, no linguajar do Fisco, simplesmente "pessoa física". O número ultrapassou com folga a marca do ano passado, de 25,2 milhões.
Boa parte dessa multidão passou dias e noites gramando diante de uma tela de computador, suando para decifrar os comandos de um idioma estranhíssimo, cujo vocabulário inclui "declaração de ajuste", "tributação suspensa" ou "extrato Dirpf". Passar por isso é passar por um ritual de humilhação. O poder parece entrar em êxtase quando obriga todo mundo a falar a língua cla tecnocracia. O software da Receita Federal funciona assim como um exercício de "opressão idiomática": popularizou à força siglas absurdas como Darf e fez da expressão "malha fina" uma entidade mais temida que o inferno. Para uma pobre pessoa física, anônima, trabalhadora e mortal, preencher o formulário da Receita a cada mês de abril equivale a um purgatório. Só serve para evitar o inferno da "malha fina". Atrás da tela do computador, lá está o Grande Irmão Tributarista que tudo sabe sobre os caraminguás de cada um de nós, que enfia as mãos no nosso bolso, vasculha nossas contas bancárias, pergunta detalhes da nossa condição conjugal, separa nossos centavos de um lado para outro e, depois, pega a bolada que bem entende. Durante a sessão de tortura simbólica, a pessoa física, atônita, liga desesperada para o cunhado que entende disso: "O programa não aceita gravar minha declaração! O que eu faço?".

Finalmente, depois de obedecer mecanicamente, por horas e horas, às ordens cibernéticas da autoridade fazendária virtual, a pessoa física expira prostrada, nocauteada, desvalida e frágil como um paciente que acaba de sair de uma cirurgia. Ainda festeja, iludida: "Ufa, acabou!"

Acabou mesmo? Não: o jogo sádico ainda seguirá. No dia seguinte, na vã empreitada de tentar recobrar a auto estima e deixar para trás a ressaca de tanto estresse, a pessoa física começa a pensar 110 destino fiscal de suas parcas economias. Nessa nova fase do jogo, há lances que causam males mais sérios à saúde da pessoa física. Pensar que seu dinheiro poderia ser gasto pelo governo do Distrito Federal em capas de chuva para os policiais de Brasília trabalharem durante a Copa do Mundo provoca náuseas, tonturas, pranto convulsivo c depressão. Felizmente, o governo cancelou na quarta-feira essa medida descabida, dado que a Copa está agendada para um período de rigorosa seca no Distrito Federal - e economizou RS 5 milhões do contribuinte.

Aqui na planície, a gente sabe quanto custou ganhar os reais que vão embora para Brasília na velocidade da luz. Em Brasília, no entanto, parece que eles não têm a mesma noção. Desde burocratas que viajam de classe executiva para frequentar seminários diletantes, até outros burocratas que não fiscalizam (e não deixam fiscalizar) os dispêndios pantagruélicos sob sua responsabilidade, as fórmulas de torrar sem cerimônia as horas de trabalho de milhões de brasileiros são inesgotáveis. Entre todas, uma das mais criativas é essa nova modalidade de patrimonialismo, um patrimonialismo pós-moderno, que consiste em empenhar recursos do Erário para financiar publicidade de governo. Sc pensar muito nisso, a pessoa física tentará arrancar os minguados cabelos que lhe restam.

A cada ano, os governos todos, municipais, estaduais e federal, numa raríssima unanimidade suprapartidária, consomem em conjunto alguns bilhões de reais para promover espetacularmente o que consideram seus grandes feitos. Fazem publicidade paga de si mesmos, com o único objetivo de ganhar votos. Quem paga a conta são os milhões de pessoas físicas com trabalho honesto. Pense bem: quantos brasileiros enfrentaram jornadas extenuantes para financiar esses filmetes que a gente vê 11a TV, nos quais as autoridades públicas posam alegres e saltitantes como se fossem um elenco de novela das 6? F. justo que as economias de tantos milhões de pessoas físicas sejam consumidas assim, sem a menor cerimônia, para atender a interesses meramente partidários de tão poucos?

Fazer o quê? Nada. Envie logo sua declaração. Resigne-se. Declarar imposto, às vezes, é como dizer amém a um coletor medieval, que pega nossas moedas e some. O jogo é cruel. A pessoa física é forçada a preencher um formulário exaustivo e invasivo, enquanto os governantes se esquivam. Ainda bem que só pensaremos nisso de novo daqui a um ano.

domingo, 5 de maio de 2013

Pedra 90 - Artur Xexéo

 O Globo - 05/05/2013

O percurso não era muito longo. De Copacabana, ali na Figueiredo Magalhães, até o Jardim de Alá. Se o trânsito na Lagoa estivesse bom, chegaria em pouco mais de dez minutos. Foi o que aconteceu. Mas a viagem naquele táxi, de mais ou menos dez minutos, foi uma viagem no tempo.

A viagem começou pela trilha sonora promovida pelo motorista. Boleros. Ouvi uma versão em português de “Besame mucho”, que acho que não conhecia. Meu analfabetismo musical fez com que eu emitisse a mais ridícula das perguntas:
— É Altemar Dutra?
O motorista deu um risinho superior e me corrigiu:
— Não. É o Trio Irakitan.

A viagem foi mais longe. Trio Irakitan! Meus contemporâneos devem se lembrar deles — Edinho, Paulo Gilvan e Joãozinho. Eram simpaticíssimos. Brilhavam como nenhum outro grupo na televisão. Cada um tocava um instrumento: um violão, uma maraca e um tantã. Cantavam qualquer coisa. De baiões (eles eram do Rio Grande do Norte) a bossa nova. Lá em casa tinha um disco deles, “Os sambas que gostamos de cantar”. Tocou até furar. Foi nesse disco que conheci alguns clássicos da música brasileira, como “No tabuleiro da baiana”, de Ary Barroso, “Agora é cinza”, de Bide e Marçal, e “O samba da minha terra”, de Dorival Caymmi. No meu hit parade, as gravações de João Gilberto só vieram muito depois.

Não duvido que o Trio Irakitan tenha sido uma porta de entrada para as crianças de um tempo atrás conhecerem o melhor da música brasileira. O sucesso do grupo junto ao público infantil só aumentou quando eles estrelaram uma chanchada. Em “Três colegas de batina”, o trio contracenava com Eliana.
O motorista interrompeu minha viagem.
— Eu tive uma certa intimidade com o Trio Irakitan. Era colega do filho do Edinho. O Edinho foi o primeiro a morrer. Ele era Pedra 90.

Vem cá, isso era um táxi ou um túnel do tempo? Pedra 90? Há quanto tempo não ouvia essa expressão. Meu pai a empregava quando queria elogiar um amigo. Para quem está chegando agora, Pedra 90 significava algo como o atual “gente fina”. Será que “gente fina” é mesmo atual? Enfim, alguém em quem se podia confiar era Pedra 90.

Nunca soube a origem da expressão. Ainda estava no táxi, agora ouvindo o Irakitan cantar uma versão para “Quizas, quizas, quizas”, quando consultei o Google para saber de onde vinha a gíria. Descubro que vem do jogo de tômbola. Ninguém sabe mais o que é tômbola? Então, substituo a palavra por víspora. Ainda estão boiando? E loto. Não, não pronuncia-se “lóto”. É “lôto”. Nada feito. Tudo bem: e bingo? Agora nos entendemos. Tômbola era o jogo de víspora, de loto, de bingo, que a gente jogava em casa. Um bingo familiar, com um saco cheio de pedras numeradas que eram “cantadas” (dois patinhos na lagoa, a idade de Cristo...), enquanto os jogadores preenchiam suas cartelas com grãos de feijão. A diferença é que a tômbola tinha um número maior de pedras do que a víspora. A Pedra 90 era a mais valiosa. Daí...

Cheguei ao Jardim de Alá nos anos 60. Ouvindo boleros, jogando tômbola, elogiando as pessoas chamando-as de Pedra 90. Não durou muito tempo. O século XXI me esperava.

Percebes? - Caetano Veloso


 O Globo - 05/05/2013

 

Há uma evidente razão para que o português brasileiro seja mais inteligível a ouvidos lusitanos do que o português europeu a nossos ouvidos: nós pronunciamos as vogais das palavras

É o contrário do que senti ao ler Agustina Bessa-Luís. Toda a densidade da vida luso-brasileira se vê negada. Diante da TV, assistindo a um filme português no Canal Brasil, me deparei com uma experiência que já conhecia de antes mas que pensei que tivesse esquecido. O filme era falado em português europeu e estava legendado em português brasileiro. Foi vendo uma obra de Manuel de Oliveira no cinema que eu tinha passado pela mesma situação. Revivendo-a ao assistir televisão, pensei com mais convencimento que, dado o fato de os brasileiros em geral terem dificuldade de entender a fala lusitana, deve ser aceitável que filmes portugueses passem com legendas no Brasil.

Isso não é uma constatação que me traga alegria. Enchi-me de felicidade quando, por exemplo, ouvi José Saramago falar numa entrevista dada a um programa daqui e me pareceu que qualquer brasileiro o pudesse entender. (O mesmo, aliás, se dá no filme sobre Bessa-Luís que pode ser visto no YouTube: a fala da grande escritora é clara e pode ser entendida do Oiapoque ao Chuí.) Já no documentário que foi feito sobre Saramago e sua mulher, Pilar, o mesmo processo de legendas que me exasperou foi utilizado. Ocorreu-me que é impensável que filmes ingleses precisem ser legendados nos Estados Unidos ou no Canadá — ou que filmes espanhóis exijam subtítulos na Argentina ou no México. O caso do Brasil é diferente. Os portugueses veem novelas brasileiras na TV e ouvem música popular brasileira desde sempre. Quando eu era criança, em Santo Amaro, ouviam-se fados no rádio, e Ester de Abreu era uma estrela da Rádio Nacional. Eu próprio gostava de tentar imitar a pronúncia lusitana em shows amadores no Ginásio Teodoro Sampaio. Havia a força da colônia portuguesa no Rio. Mas há já décadas que os brasileiros perderam contato com o linguajar luso. Não me consta que em Portugal os filmes brasileiros tenham tido a receptividade que as novelas e as canções têm. Nem mesmo fenômenos como “Cidade de Deus” ou “Pixote”. Mas os portugueses mantêm contato com nosso modo de falar.

Há uma evidente razão para que o português brasileiro seja mais inteligível a ouvidos lusitanos do que o português europeu a nossos ouvidos: nós pronunciamos as vogais das palavras. Quando cheguei a Portugal, na fase inicial do nosso exílio durante a ditadura, Gil e eu fomos, com Roberto Pinho, amigo conhecedor e amante da cultura portuguesa, a Évora. Ele era apaixonado por essa cidade do Alentejo e queria que nós a conhecêssemos. Andamos pelas ruas e praças dessa bela cidade e, a certa altura, um jovem local, louro e bonito, com cabelos mais longos do que a maioria dos jovens portugueses de então, mostrou-se curioso a nosso respeito. Entramos num bar para tomar refrigerante, e ele, conversando conosco, nos dizia que entendia muito bem o nosso espanhol. Insisti em que nós falávamos português, mas ele não ficou convencido. Eram as vogais. Se alguém pronunciar todas (mas todas mesmo) as vogais das palavras portuguesas à espanhola (ou seja, com os és átonos finais soando ê e os ós átonos finais soando ô, ao invés dos respectivos i e u de nossa fala) nós entenderemos tudo. Já se alguém pronunciar todas as palavras espanholas com os sons do português brasileiro, ou seja, os jotas soando j, os tês e dês palatalizados diante da vogal i, os esses intervocálicos soando z, etc., um ouvinte de língua espanhola não entenderia nada. O português brasileiro está para o português lusitano um pouco como o espanhol está para o português em geral.

Mas há o fator exposição, que contribui para que os portugueses, que ouvem canções brasileiras desde os anos 1930 ou 40 do século passado (e mesmo antes) e veem novelas brasileiras desde que a TV Globo modernizou o gênero nos anos 1970, entendam as formas sintáticas usuais no Brasil, além das gírias e expressões do português americano. Não nos adestramos para ouvir o português europeu. E falta-nos o midatlantic que está esboçado na fala de Saramago e de Agustina.

Muito se deve ao poder que cerca as outras duas grandes línguas europeias que se transplantaram para as Américas: o inglês e o espanhol. Vendo essas legendas que, pelo mero fato de estarem ali, gritam que não nos entendemos — e, o que é pior, não sendo nem mesmo legendas que reproduzem o que está sendo dito pelos atores lusos (com o que nos familiarizaríamos com a sintaxe e o vocabulário deles), mas “traduções” para a sintaxe e o vocabulário nossos (por exemplo: “Percebes?” vem legendado como “Você está entendendo?”), sentimos nossa impotência histórica, nossa irrelevância política. Notamos que é demasiado o que tem que ser feito. E assim parece que nada faremos.


sábado, 4 de maio de 2013

Seis meses para o fim do sufoco na Biblioteca Nacional

O Globo - 04/05/2013

André Miranda

Novo presidente diz que ar-condicionado só volta em 120 dias 

 Dirigente da instituiçã também critica gastos assumidos pelo governo brasileiro para a participação na Feira de Frankfurt, que acontecerá em outubro

Quando foi anunciado que o cientista político Renato Lessa, de 58 anos, seria o novo presidente da Fundação Biblioteca Nacional, uma amiga mandou a ele uma mensagem: "Que Deus e o governo ajudem você". Pelos problemas que o esperam, Lessa realmente vai precisar de ajuda. Em entrevista, ele disse que serão necessários mais 120 dias para que o ar-condicionado, desligado há um ano, volte a funcionar. Lessa também lamenta os gastos assumidos pelo governo para a Feira de Frankfurt, em outubro, por acreditar que a homenagem feita ao Brasil deveria ser assumida pelo setor privado. Ele discorda, ainda, de Galeno Amorim, que esteve no cargo nos últimos dois anos, quanto à quantidade de municípios sem bibliotecas no Brasil: "É um número vergonhoso".


Há um ano a Biblioteca Nacional está sem um sistema de ar-condicionado. Ainda falta muito para que isso seja resolvido?

 No pico do verão, me disseram que a temperatura no armazém de obras gerais bateu 50 graus. O ideal é 23 graus, 22 graus. Mas, infelizmente, ainda está longe de chegarmos lá. Começamos agora um processo de recuperação de um sistema antigo de ar-condicionado, e a estimativa que me deram é que a obra termine em 120 dias. Então a expectativa é que enfrentemos o verão com esse sistema antigo em funcionamento. Já o sistema geral de refrigeração vai depender de um projeto de reforma, e seria irresponsável eu dizer quando isso vai ficar pronto.

 Outra questão muito discutida é a participação brasileira na Feira de Frankfurt, em outubro, quando o país será homenageado. Com a mudança na diretoria da Biblioteca Nacional, muda algo na organização da feira? 

Acho importante desfazer um pouco a ideia de que a Feira de Frankfurt é a Biblioteca Nacional. Não é. A homenagem em Frankfurt significa que o governo brasileiro aceitou e entendeu que essa é uma oportunidade de promoção brasileira no exterior. O projeto é gerido por um comitê gestor, e a Biblioteca faz parte desse comitê, mas há outros integrantes, como a Funarte e o Ministério das Relações Exteriores.

 Mas a biblioteca tem um papel grande na organização. 

Tem um papel grande, sim. Mas, na minha perspectiva, não é um papel compatível com as funções próprias da biblioteca. Como a Feira de Frankfurt tem uma dimensão econômica muito forte, algumas questões deveriam estar a cuidado dos editores do setor privado. Mas o modelo atual foi decidido em 2010, com comprometimentos financeiros e com o comprometimento da biblioteca em algumas decisões, e isso será mantido. Estamos discutindo, hoje, que esse paradigma não se repita em outros eventos dessa natureza. E ainda tenho uma reserva aos custos assumidos para a viabilização de negócios, sobretudo numa indústria que tem pujança e muita qualidade.

Quanto vai ser o gasto do governo em Frankfurt? 

O orçamento total não vai passar de R$ 18 milhões. Desses, R$ 15 milhões vêm do orçamento do Estado brasileiro, pelo Fundo Nacional de Cultura. Já a Câmara Brasileira do Livro teve autorização para captar, via Lei Rouanet, R$ 13 milhões, dos quais nada ainda foi captado. Então, o que temos garantido hoje são R$ 15 milhões, e ainda faltam R$ 3 milhões para fechar o orçamento. Esse dinheiro virá ou de renúncia fiscal ou de patrocínio.

Uma pergunta que é feita há anos e cuja resposta sempre foi um pouco nebulosa é sobre o número de municípios brasileiros ainda sem bibliotecas. O senhor sabe quantos são? 

Eu não sei o número, mas sei que é vergonhoso. A questão não é apenas o número de municípios sem biblioteca. Temos que nos perguntar que bibliotecas existem e que pessoas trabalham nessas bibliotecas. A leitura no Brasil ainda é muito pequena, precisamos aumentar a familiaridade do brasileiro com o livro. Temos que ver isso realisticamente, como um obstáculo e desafio. A democratização do país não é só poder votar e ter liberdade para dizer o que pensa. Democratização é a população ter acesso à cultura. E a biblioteca é um espaço fundamental desse processo.

Vanzolini e a biodiversidade da Amazônia - Fernando Reinach

Fernando Reinach - O Estado de S.Paulo
 
 
"Perdemos Vanzo." Me veio à mente Paulo Vanzolini em sua enorme sala no Museu de Zoologia. Sobre a bancada, inúmeros vidros contendo lagartos. Em 1975, na faculdade, eu estudava o epitélio da cloaca de uma cobra. Vanzolini queria me conhecer. Fui ao museu e lá estava ele, vestindo um avental cinza, sem camisa por baixo, unhas sujas, cercado de répteis. Nunca soube por que me chamou, suspeito que ele tenha julgado minha primeira bolsa de iniciação científica. Queria ver a cara do jovem que se interessava por cloacas de cobra.

Vanzolini deixou uma primorosa coleção de sambas. Algumas rimas revelam seu humor irônico e debochado:

"Mulher que se vira pro outro lado
Tá convocando a suplente
Mulher que não ri não precisa dente".

Vanzolini deixou uma das maiores coleções de répteis. Mas sua maior contribuição foi a descoberta de como surgiu parte da biodiversidade amazônica.

Durante sua viagem a bordo do Beagle, Darwin ficou impressionado com a enorme diversidade de plantas e animais. Como teriam surgido tantas espécies? No livro A Origem das Espécies, Darwin descreve o processo de seleção natural, que ao longo de bilhões de anos deu origem a todos os seres vivos que conhecemos.

Quando a população de uma espécie é dividida em dois grupos, separados por um acidente geográfico (imagine uma população de pássaros que passa a habitar duas ilhas), existe a chance de surgir uma nova espécie. Impedidos de se encontrar, esses dois grupos deixam de acasalar (o que chamamos de isolamento reprodutivo). Como os dois grupos passam a viver em ambientes diferentes (ilhas com diferentes espécies de frutas), aos poucos, sob pressão de diferentes ambientes, sobrevivem os pássaros mais adaptados a cada um dos ambientes (em uma ilha, os bicos ficam mais longos; na outra, mais curtos). Com passar do tempo, essas diferenças aumentam até que os dois grupos deixam de ser capazes de acasalar. Pronto, uma espécie deu origem a duas outras. Esse processo, repetido milhões de vezes, gerou toda a biodiversidade do planeta.

Mas como explicar a origem de espécies em ambientes sem barreiras geográficas? É o caso da Amazônia, uma das regiões com maior biodiversidade. A Amazônia é uma imensa planície, sem montanhas, com uma floresta aparentemente contínua e homogênea. Como teriam surgido as espécies nesse ambiente em que o isolamento reprodutivo parece ser impossível? Foi esse problema que Vanzolini ajudou a resolver.

Vanzolini organizava longas expedições para coletar répteis. Desenhava uma linha reta no mapa da Amazônia e se embrenhava no mato, seguindo trilhas e rios, coletando todos os répteis que podia encontrar. Foi assim que conheceu o Brasil, milhares de quilômetros coletando répteis. De volta ao museu, analisava os animais, classificando cada exemplar, contando escamas, medindo e pesando. Desse modo é possível descobrir como uma espécie varia ao longo de cada uma dessas retas e como a frequência das diferentes espécies varia de região para região. Vanzolini descobriu uma Amazônia mais heterogênea do que imaginava. A distribuição das espécies parecia estar centrada em algumas regiões da Amazônia, como se essas regiões tivessem sido ilhas isoladas no passado.

Com a ajuda de Aziz Ab'Saber, da USP, e Ernest Williams, de Harvard, Vanzolini propôs uma explicação para a origem da biodiversidade amazônica: no passado, a Floresta Amazônica teria encolhido e se expandido diversas vezes. Durante os períodos glaciais, o clima árido fez com que parte da floresta desaparecesse. Nesses períodos, somente algumas ilhas ricas em vegetação teriam se mantido. Nos períodos interglaciais, com o aumento da umidade, as ilhas teriam se juntado, reformando a cobertura florestal. Cada vez que se formavam as ilhas, as populações de plantas e animais se isolavam e novas espécies se formavam. Com o espalhamento da floresta nos períodos úmidos, as espécies se misturavam. Juntando os dados de Aziz Ab'Saber que descreviam essas mudanças climáticas e a localização das ilhas de florestas com a distribuição atual das espécies de lagartos, os três cientistas demonstraram como teria se formado parte da biodiversidade que hoje encontramos na Amazônia.

Esse é o grande legado científico de Vanzolini. Ele desvendou parte do mistério que cerca a origem da biodiversidade amazônica.

Rotunda - José Miguel Wisnik


O Globo - 04/05/2013

 

Na roda da fortuna do futebol, sobe o Bayern de Munique e caem o Barcelona e a Seleção Brasileira

O Bayern de Munique impôs ao Barcelona uma derrota surpreendente e rotunda, somando 7 x 0 nos dois jogos pelas semifinais da Liga dos Campeões da Europa. Derrota rotunda quer dizer categórica, indiscutível, insofismável. A palavra rotunda está na origem da palavra redonda, e a derrota foi também líquida, esférica e na bola. Associando livremente, lembro-me de uma visita ao Museu Pérgamo, em Berlim, durante a Copa de 2006, quando era exibida uma exposição sobre as figurações da esfera na história humana. O único jogador citado era Garrincha: num filme em loop na entrada do museu, ele bailava um drible infinito, convidando o seu marcador para dançar, sem tocar a bola, como se o tempo, parado, girasse em círculos aos pés de uma criança (“Como se o ritmo do nada/ Fosse, sim, todos os ritmos por dentro”).

Há dois anos o Barcelona dava demonstrações do mais completo domínio de jogo, de uma posse de bola sem precedentes, de uma superioridade avassaladora sobre os adversários, como se tivesse descoberto a fórmula do futebol que os outros desconhecem, como se tivesse decodificado a própria quadratura do círculo que está na base secreta do futebol. Contando ainda com a eficácia absurda de Messi, despida de qualquer estrelismo (em contraste com a petulância irreprimível de seu rival máximo, Cristiano Ronaldo), o efeito estava próximo de uma condição supra-humana.

Mas a Roda da Fortuna, que aparecia na exposição berlinense como uma alegoria medieval, gira acelerada num futebol turbinado pela preparação atlética, exigido pela ocupação intensiva de todos os espaços, cobrado em toda linha por uma concorrência publicitária sem trégua, sugado rapidamente pelo tempo. O Barcelona, que não usa publicidade na camisa, e cujo futebol totalizante, que alguns consideraram totalitário, parecia pairar soberano acima das periclitantes economias europeias, sucumbe, junto com o Real Madri, à envolvente ascensão do futebol alemão, que parece, pelo menos por um momento, equalizar o poder futebolístico com o poder econômico nacional. Como já tem sido comentado, o futebol desses times alemães, o Bayern e o Borussia Dortmund, combina qualidades do Barcelona com mais volúpia, intensidade e verticalidade atacante. O giro de bola paciente, meticuloso, calculado e às vezes tedioso do time catalão, é contrastado por uma explosão sôfrega de contra-ataque. A inteligência tática se combina com técnica, dribles e vitalidade interna.

Não acredito que o ciclo do Barcelona esteja terminado. Acredito, isso sim, que esteja se dando uma espécie de revolução dentro da revolução de um futebol europeu jogado compactamente, e no qual, por uma espécie de aceleração, o feitiço reverte contra o próprio feiticeiro, aplicado por um outro feiticeiro da vez. Longe desse futebol estranhamente vivo, pela intensidade com que se supera, o brasileiro não tem sabido como sair da condição de espectro de si mesmo.

O Brasil jogou com o Chile num Mineirão renovado, mas num gramado castigado, segundo li, por shows realizados nos dias anteriores. A bola era essa usada na Copa do Brasil, que parece uma pipoca doce pela sua mistura informe de preto, amarelo e vermelho, distribuídos entre figuras meio geométricas e pinceladas indistintas que não dão leitura e não oferecem uma boa diferenciação de figura e fundo. Os detalhes, altamente sintomáticos, podem parecer desimportantes, mas só para uma cultura futebolística degradada que esqueceu o que é o campo e a bola. Não ouvi nenhum comentário a respeito disso na transmissão da Globo, entre os elogios irrestritos ao estádio. A esfera parecia pipocar continuamente no terreno mais irregular do que deveria ser, e queimava mais nos pés brasileiros do que nos chilenos.

Luiz Felipe Scolari substituiu o meio-campista Jadson pelo atacante Osvaldo caindo pela direita, que era imediatamente anulado por três adversários quando pegava na bola. O time, que não estava mal na partida naquele momento, perdeu o meio-campo, abandonado a um Ronaldo Gaúcho solitário. Esse tipo de situação (jogadores isolados pela ponta, na ilusão de que somam mais um elemento ao ataque destituído de alimentação) não existe mais no futebol contemporâneo, nem nas seleções medianas. A torcida começa com o “sou brasileiro com muito orgulho” e não espera muito para começar as vaias. Neymar desenha-se como o possível bode expiatório dessas velhas síndromes, se a Roda da Fortuna não girar a favor de um renascimento, enquanto João Havelange foge pela porta dos fundos.