Zero Hora - 01/06/2013
Nova edição do Dicionário de Saúde Mental da Associação Americana de
Psiquiatria abre discussão sobre os critérios para separar doença e
sanidade
A utilidade de um dicionário é normatizar para esclarecer dúvidas,
mas por vezes uma publicação do gênero provoca questionamentos mais
sérios e mais preocupados do que respostas. Ainda mais se o dicionário
em questão lida com um tema tão delicado e espinhoso quanto o próprio
limite entre sanidade e distúrbio.
Com a divulgação, em maio, da quinta edição do Diagnostic and
Statistical Manual of Mental Disorders (Manual Estatístico e Diagnóstico
de Distúrbios Mentais, em tradução livre), ou DSM-5, como vem sendo
chamado pelos especialistas, abriu uma nova e acalorada discussão sobre o
quanto o objetivo, necessário, de graduar de modo científico os
sintomas de doenças mentais não está criando a sociedade da
hiperdiagnose, em que a normalidade é conceito cada vez mais rarefeito.
– Classificações como essa são importantes, são válidas para
unificar a linguagem e melhorar a comunicação entre profissionais, mas
um dos problemas desse tipo de classificação é a criação de diagnósticos
excessivos, que não levam em conta a subjetividade – comenta o
psiquiatra e psicanalista Celso Gutfreind.
A polêmica teve início com a divulgação das principais alterações na
quinta edição do DSM. A publicação é elaborada pela American
Psychiatric Association (APA, Associação Americana de Pisquiatria), e é
um dos mais conhecidos e utilizados manuais diagnósticos do mundo. É um
dicionário no qual se encontram os critérios para que determinado
comportamento seja classificado como transtorno ou distúrbio mental e,
assim, tratado de acordo com o entendimento do médico, o que pode
(embora não necessariamente deva) incluir a administração de
medicamentos.
– Ainda há uma grande discussão a respeito das mudanças desta nova
edição aqui nos Estados Unidos. Alguns especialistas manifestaram
discordância dessa abordagem mais biológica de diagnóstico – comenta o
psiquiatra Rodrigo Machado-Vieira, residente em Maryland, nos Estados
Unidos, e diretor do Centro de Pesquisa Translacional em Transtornos de
Humor do Instituto Nacional de Saúde Mental, nos EUA.
Um dos mais acirrados críticos da quinta edição do manual,
ironicamente, é o homem que ajudou a elaborar a edição anterior do
documento, o psiquiatra Allen Frances, professor emérito da Universidade
Duke. Em posts que vem publicando com regularidade em seu blog no
portal Huffington Post (www.huffingtonpost.com/allen-frances), ele vem
apontando o que considera erros conceituais e técnicos nos critérios
adotados pelo dicionário. De acordo com ele, o novo manual é composto de
“uma mistura irresponsável de novos diagnósticos que podem estigmatizar
e submeter pessoas normais a tratamentos desnecessários”:
“A publicação do DSM-5 é um momento triste para a psiquiatria e
perigoso para os pacientes. Minha recomendação para os clínicos é
simples. Não usem o DSM-5”, escreveu Frances.
– Minha opinião sobre o DSM parafraseia a de Winston Churchill, que
dizia que a democracia era o pior sistema de governo, com exceção de
todos os outros. O DSM está longe de ser perfeito, mas é a melhor
ferramenta que se tem em diagnósticos de psiquiatria – pondera
Machado-Vieira.
A discussão a respeito de um manual de saúde mental publicado por
uma associação de profissionais dos Estados Unidos não é, como se
poderia pensar à primeira vista, distante da realidade brasileira – até
porque o dicionário tem uma influência que se alastra para além das
fronteiras americanas e que pode ser verificada mesmo no Brasil (leia o
texto na página ao lado).
As críticas ao DSM também não são coisa recente ou restrita
especificamente a esta quinta edição. Já a versão anterior havia sido
alvo de polêmica por apresentar, com o rótulo de distúrbios,
comportamentos que poderiam, com gradações, ser incluídos na estranheza
nossa de cada um.
Não é coincidência que, desde os anos 1980, o número de diagnósticos
de distúrbios mentais tenha se ampliado de tal forma que, de acordo com
um estudo conduzido pelo Instituto Nacional de Saúde Mental no início
dos anos 2000, 46% dos adultos pesquisados se encaixavam em alguma das
categorias do DSM – e isso na quarta edição, antes das atuais
modificações.
A nova encarnação do manual amplia a classificação de determinados
distúrbios e modifica outros. Em um primeiro momento, chamaram a atenção
as definições de distúrbios aplicados a manifestações extremas de birra
infantil e apego a quinquilharias mesmo ciente de seu mínimo ou nenhum
valor.
A própria idade de controle para o aparecimento de sintomas de
Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade em crianças, pela nova
publicação, agora é de 12 anos. Em uma das mais criticadas medidas, o
luto pela perda de um ente querido, se ultrapassar duas semanas, pode
ser considerado um indício de depressão – embora o texto seja mais
aberto neste caso, a medicação estaria indicada. Mesmo o luto, expressão
tão individual de sentimentos, estaria sujeita a um controle de
“normalidade”?
– Quando eu estudava Medicina, o tempo que se acreditava apropriado
para um luto durava de três a seis meses. No tempo do capitalismo
avançado, parece que o tempo é um bem cada vez mais restrito para as
pessoas – comenta o psiquiatra e psicanalista Sergio Eduardo Nick,
vice-presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de
Janeiro.
Nessa imbricação entre arte, criatividade e normalidade, reside
também outro grande paradoxo da catalogação minuciosa de distúrbios em
um mundo capitalista que exige, ao mesmo tempo, originalidade,
criatividade e eficiência maquinal.
– Precisamos romper a identidade que há na sociedade contemporânea
entre normalidade, eficácia e velocidade. Estamos lidando hoje, em
vários níveis, com conceitos de maquinização do ser humano. O sujeito
precisa estar pronto o mais rápido possível para produzir, para voltar
ao trabalho. É uma espécie de psiquismo herdeiro da Revolução Industrial
– comenta a psicanalista Diana Corso.
Como pano de fundo da discussão está também uma questão técnica
debatida pelos profissionais: a suposta ação rápida de medicamentos
versus terapias mais longas e com menos recursos químicos.
– No fundo, há uma guerra ideológica entre os profissionais da área
sobre como ver o ser humano. O DSM é um manual orientado pela ideologia
comportamental, que não dá tanta importância a fatores menos fáceis de
aferir, como o ambiente, as emoções, os sentimentos do paciente –
salienta Nick.
O fenômeno da chamada “terapia química” ganhou amplo espaço nos
consultórios a partir da segunda metade dos anos 1980, quando novas e
potentes drogas se mostraram eficientes para ajustar desequilíbrios
químicos do organismo – o Prozac, em especial, foi a primeira droga do
gênero a ganhar espaço não apenas nas salas de consultório, mas no
imaginário público e mesmo na cultura pop.
No âmbito da cultura, a ampla aplicação da terapia medicamentosa
provocou reflexões a respeito da diagnose excessiva ou da sedação
coletiva. Em seu ensaio Receituário da Dor para Uso Pós-Moderno, o
português João Barrento arrisca uma definição da sociedade
contemporânea, para quem a dor e o sofrimento haviam sido transformadas
em “fantasmas”, com efeitos nem sempre positivos para o conjunto da
humanidade:
“No mundo das paixões que era o da tragédia antiga, a dor – tal como
a beleza e a alegria, o canto e o Êxtase –, é matéria-prima da vida
ritualizada. Depois, a vida foi-se dessacralizando, tornou-se mais
confortável, mais baça... e mais longa. Ficamos mais sós. Sós, não
porque nos faltassem os outros, muito pelo contrário. Ficamos sós porque
fomos amputados de alguma coisa que era parte de nós. O homem
civilizado olha para o mundo, o mundo está em estado de dor quase
permanente, e em vez de responder com um lamento (...), fica em
silêncio.”
Com atuação tanto como terapeuta quanto como artista, Gutfreind
publicou, em seu mais recente livro, Em Defesa de Certa Desordem, um
poema no qual critica a prevalência da farmacologia sobre a arte na
sociedade contemporânea: “Afastem a Deusa química, / as mulheres têm a
arte, a ciência não sustenta / a falta, a falta preenche, / música podem
deixar / – Deusa houvesse, era ela –, / tirem certezas, substâncias /
que a presença da palavra / com melodia cantada / pelo outro bastará”.
– No fundo, o ser humano tem medo do desconhecido e da dor. A dor é o
que nos desestrutura, mas também é uma experiência que faz parte do que
nos define, a nossa própria subjetividade. Ao acreditar que a resposta
tem de ser sempre rápida, estamos perdendo a dimensão do tempo, de
viver, de criar, de perder tempo – diz Gutfreind.
Associada à questão da nomenclatura cada vez mais ampla de
comportamentos desviantes, há também a questão do próprio conceito de
normalidade, que acaba cada vez mais restrito no momento em que
exotismos e excentricidades se assemelham a gradações de distúrbios
mentais.
– Todos temos sintomas de compulsão ou obsessão, coisas que nos
tornam quem somos. É preciso cuidar para que isso não seja tomado como
doença, o que seria desumanizador – diz Nick.
sábado, 1 de junho de 2013
Crônicas de hospital - ZUENIR VENTURA
O GLOBO - 01/06/2013
Já constitui uma espécie de subgênero de autoajuda o relato de experiências com doenças e hospitais - quando, bem entendido, se sobrevive para contar. Rubem Braga falou do pulmão que perdeu para o câncer: "Quem quiser que se fume." Verissimo contou como foi parar numa emergência com uma infecção generalizada. João Ubaldo descreveu como escapou por milagre de uma pancreatite. Eu mesmo publiquei aqui há tempos a crônica "Com o autor na UTI", onde lembrava como em menos de uma semana fora parar duas vezes na Unidade de Tratamento Intensivo da Casa de Saúde São José, com direito ao susto de uma septicemia, por causa de uma pedrinha no rim.
A lição era: "para qualquer sinal de alteração no organismo, o melhor remédio é procurar um médico correndo. Nada de automedicação ou de protelação, de deixar para amanhã." Agora, foi a vez do colega Denis Cavalcante, de Belém do Pará, com o texto "Sírio & Libanês 1211", relatando suas peripécias durante o mês em que esteve hospitalizado. Sua pressão chegou a 6 x 3, ficou doze dias em jejum, as "dores atrozes" só passavam com morfina e emagreceu doze quilos, mas tudo bem: "Quanto mais excesso de bagagem, mais curta a viagem." Ele seguiu à risca o princípio de que um cronista pode perder até parte do estômago, parte do intestino, mas não pode perder o humor. A exemplo de um companheiro de corredor, com quem travou o seguinte diálogo: - Você sabia que esse andar é o dos pacientes desenganados? Qual foi a sua cirurgia? - Operei o intestino - respondeu Denis.
- Fala sério! Isso é fichinha. O intestino eu fiz no Natal. Agora retirei o baço, um pedaço do pâncreas e outro do fígado.
"Tudo num hospital de grande porte", ele escreveu, "se resume a uma abominável palavra: protocolo.
Um simples cotonete pode demorar horas para chegar. Um picolé de abacaxi nem se fala! Em contrapartida, recebia regularmente um catatau de antibióticos e medicamentos de última geração, a fim de evitar uma infecção que, naquele momento, poderia ser fatal." Denis termina sua crônica pra cima. "Uma coisa é certa: em momento algum ousei desistir. Grande parte da cura é o desejo de ser curado." Quem já passou por experiência parecida sabe o quanto isso é verdadeiro. A vontade pode não resolver tudo, mas ajuda muito.
A Justiça tarda, mas não falha. Demorou, mas mandou soltar quatro réus do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria. O advogado deles comemorou, debochando dos que reclamaram da decisão: "Isso é choro de perdedor." De fato, é o choro indignado dos que perderam 242 inocentes, vítimas da irresponsabilidade dos acusados.
Machado - Jose Miguel Wisnik
O GLOBO - 01/06/2013
A revanche de Machado em Moscou e um raio luminoso na Comissão da Verdade
Em 2007 participei de uma Semana da Língua Portuguesa em Moscou. O evento era uma iniciativa das embaixadas do Brasil e de Portugal e desenrolava-se na Biblioteca de Literaturas Estrangeiras, em cujo pátio aconteceria o momento áureo e mais solene do evento: a inauguração do busto de Machado de Assis. Bustos, estátuas e efígies de escritores, meditativos, eloquentes ou simplesmente de perfil para a posteridade, espalham-se por toda parte em Moscou. Lá, os encontros costumam ser marcados aos pés de Pushkin. Maiacovski ocupa uma praça em cujo subterrâneo está a estação de metrô com seu nome, no teto da qual se inscrevem poemas seus. Dostoievski e Tchecov são colossais. A entrada em cena do busto de Machado era um passo modesto, mas curioso, e bem à moda russa, do lento reconhecimento que vem se dando do nosso escritor maior no plano da literatura mundial.Mais curioso ainda, e no entanto nada modesto, se revelou quando nos deparamos com o lugar que o nosso marco literário ocupava no átrio povoado pelos vultos de Goethe, Proust, Joyce, Pirandello. É que o representante da embaixada, um animado nissei brasileiro, em contato com os funcionários da biblioteca, tinha perguntado a eles sobre a localização do busto a ser instalado. Como a Rússia se parece com o Brasil na admissão de uma razoável margem de indeterminação, a resposta foi a de que ele podia escolher onde lhe parecesse melhor. O resultado irônico, ao descerrar-se o véu inaugural, é que Machado reluzia nada mais nada menos do que no centro geométrico do pátio, no epicentro das forças literárias do ocidente, tendo à sua volta o que parecia ser por um momento um irlandês bêbado, um alemão altivo e deslocado, um francês blasé, um italiano à procura de lugar, sem falar numa legião de outras expressões nacionais, todos convertidos por um efeito ótico instantâneo em orla periférica da inesperada centralidade machadiana.
Por obra de um acaso objetivo que não deixava de ser cômico e iluminador, o “mestre na periferia do capitalismo”, em Moscou, ocupava o centro. É significativo lembrar que o próprio Roberto Schwarz chamou a atenção, em “Ideias fora de lugar”, para as enormes afinidades entre as literaturas do Brasil e da Rússia, esses países continentais historicamente ligados ao escravismo e à servidão, na periferia do centro europeu. Por uma espécie de inadvertida revanche contra o pouco reconhecimento internacional de sua grandeza, o fora de lugar encontrava neste lugar de fora um equívoco mas não descabido lugar máximo. Não sei se a biblioteca russa corrigiu ou não, depois, o gesto soberano do nosso representante diplomático, que, sem saber, fez justiça com as próprias mãos: justiça, refiro-me, ao que sustentara Susan Sontag em 1990, confessando-se “espantada de que um escritor de tamanha grandeza ainda não ocupe o lugar que merece no palco da literatura mundial”. Na mesma passagem, ela constatava o quanto o centro pode ser periférico, e a periferia, central.
Lembro tudo isso por causa da tese de Hélio Guimarães, de cuja banca fiz parte, e que rastreia mais de um século da recepção crítica de Machado de Assis, os caminhos enviesados da sua conversão em monumento e as surpresas desconcertantes que ele não cessa de fazer pelas bordas e no miolo. Pelo quanto uma obra literária pode demandar, suportar e desafiar leituras ao longo dos tempos. Pelo quanto somos esquisitos aos olhos do mundo, e aos nossos, se nos admitíssemos nos ver. Lembro os textos de José Antonio Pasta que flagram a luta de morte como constante estrutural insidiosa no romance brasileiro, onde os antagonistas se confundem e se anulam sem a possibilidade de um salto dialético.
Penso no fato de que, desde a minha última coluna, na qual crianças xingavam André Mehmari, um morador de condomínio de luxo matou o casal vizinho por causa de som e fúria, significando nada, o prefeito do Rio esmurrou um artista que o xingava, mas que não sustentou o que dizia e o golpe que sofreu, e mais um dentista teve o corpo queimado por bandidos, atestando que o crime também segue, a seu modo, tendências e moda.
Hoje, no entanto, tudo isso é atravessado por um raio luminoso, o depoimento da historiadora Dulce Pandolfi à Comissão da Verdade, sobre as torturas que sofreu durante a ditadura militar. Da violência nós sabemos, de maneira genérica. Da sordidez e da minúcia sádica, da covardia e dos meandros mais mesquinhos e sinistros do mal, confundidos com a vida oficial brasileira, ela nos diz de maneira elevada, cristalina e irrespondível. Esse depoimento precisa ser conhecido na íntegra, não direi como uma lição moral e cívica, que não deixa de ser, mas como um testemunho da nossa humanidade.
terça-feira, 28 de maio de 2013
Já para o armário - Guilherme Fiuza
Época - 28/05/2013
A causa gay, como todo
mundo sabe, virou um grande mercado - comercial e eleitoral. Hoje,
qualquer político, empresário ou vendedor de qualquer coisa tem orgulho
gay desde criancinha. Se você quer parecer legal perante seu grupo ou
seu público, defenda o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Você
ganhará imediatamente a aura do libertário, do justiceiro moderno. Você
é do bem. Em nome dessa bondade de resultados, o Brasil acaba de
assistir a um dos atos mais autoritários dos últimos tempos. Se é que o
Brasil notou o fato, em meio aos confetes e serpentinas do proselitismo
pansexual.
O Conselho Nacional de
Justiça decidiu obrigar os cartórios brasileiros a celebrar o casamento
civil entre pessoas do mesmo sexo. Tudo ótimo, viva a liberdade de
escolha, que cada um case com quem quiser e se separe de quem não
quiser mais. Só que a bondade do CNJ é ilegal. Trata-se de um órgão
administrativo, sem poder de legislar - e o casamento, como qualquer
direito civil, é uma instituição fundada em lei. O CNJ não tem direito
de criar leis, mas tem Joaquim Barbosa.
Joaquim Barbosa -
presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de
Justiça - é o super-herói social. Homem do povo, representante de
minoria, que chegou ao topo do Estado para “dizer as verdades que as
pessoas comuns querem dizer”. O Brasil é assim, uma mistura de novela
com jogo de futebol. Se o sujeito está no papel do mocinho, ou vestindo
a camisa do time certo, ele pode tudo. No grito.
Justiceiro, Joaquim
liberou o casamento gay na marra e correu para o abraço. Viva o herói
progressista! Se a decisão de proveta for mantida, o jeito será rezar
para que o CNJ seja sempre bonzinho e não acorde um dia mal-humorado,
com vontade de inventar uma lei que proíba jornalistas de criticar suas
decisões. Se “o que o povo quer” pode ser feito no grito, o que o povo
não quiser também pode. O Brasil já cansou de apanhar do
autoritarismo, mas não aprende.
E lá vai Joaquim, o
redentor, fazendo justiça com as próprias cordas vocais. Numa palestra
para estudantes de Direito, declarou que os partidos políticos
brasileiros são “de mentirinha”. Uma declaração absolutamente
irresponsável para a autoridade máxima do Poder Judi-
ciário, que a platéia
progressista aplaude ruidosamente. Se os partidos não cumprem programas
e ideias claras, raciocinam os bonzinhos, pedrada neles. Por que então
não dizer também que o Brasil tem uma Justiça “de mentirinha”? Juizes
despreparados, omissos e corruptos é que não faltam. Quantos políticos
criminosos militam tranquilamente nos partidos “de mentirinha”, porque a
Justiça não fez seu papel?
A democracia
representativa é baseada em partidos políticos. Com todas as suas
perversões - e são muitas eles garantem seu funcionamento. E também
legitimam a ação de gente séria que cumpre programas e ideias, pois, se
fosse tudo de mentira, um chavista mais esperto já teria mandado
embrulhar o pacote todo para presente, com Joaquim e tudo.
A resolução do CNJ sobre o
casamento entre homossexuais é uma aberração, um atropelo às
instituições pelo arrastão politicamente correto. A defesa da causa gay
está ultrapassando a importante conquista de direitos civis para virar
circo, explorado pelos espertos. Um jogador de basquete americano
anuncia que é homossexual, e isso se torna um espetáculo mundial, um
frisson planetário. Como assim? A esta altura? A relação estável entre
parceiros do mesmo sexo já não é aceita na maior parte do Ocidente? Por
que, então, a decisão do jogador é uma bomba? Simples: a panfletagem
pró-gay virou um tiro certo. O presidente dos Estados Unidos, Barack
Obama, dá declaração solene até sobre a opção sexual dos escoteiros.
Talvez, um dia, os gays percebam que foram usados demagogicamente, por
um presidente com sustentação política precária, que quer se safar como
herói canastrão das minorias.
Ser gay não é orgulho nem
vergonha, não é ideologia nem espetáculo, não é chique nem brega. Não é
revanche. Não é moderno. Não é moda. É apenas humano.
A luta contra o
preconceito precisa ser urgentemente tirada das mãos dos mercadores da
bondade. Eles semeiam, sorridentes, a intolerância e o autoritarismo.
Já para o armário!
DE SUPLICY PARA LULA
Veja - 28/05/2013
Em uma carta encaminhada ao ex-presidente, o senador reclama do isolamento político e mostra as contradições enfrentadas pelo PT quando o assunto é ética
O senador Eduardo Suplicy, do PT de São Paulo, é um político excêntrico. Ele já botou chapéu de Robin Hood, já vestiu uma cueca vermelha e destilou pelos corredores do Congresso e, vez por outra, canta no plenário para chamar atenção sobre algum assunto. O0 parlamentar também já esteve na linha de frente de causas importantes. Contrariando a orientação do seu partido, ele apoiou a CPI que desmascarou a quadrilha do mensalão. Mais recentemente, esteve ao lado da blogueira cubana Yoani Sánchez, quando os petistas a hostilizavam país afora. Na semana passada. Suplicy subiu ao palco durante um show em São Paulo e implorou a ladrões que devolvessem sua carteira, furtada minutos antes. Ele nem queria de volta o dinheiro que havia nela, cerca de 400 reais. Bastava que devolvessem os cartões e os documentos. Foi ovacionado pela multidão. Esse comportamento autêntico garante ao senador uma imensa legião de admiradores — e uns poucos, mas poderosos, desafetos. Há mais de vinte anos, esses admiradores renovam o mandato de Suplicy a cada eleição. Os desafetos, pela primeira vez, apostam que esse ciclo acabou.
Nos planos da cúpula do PT, Suplicy foi escolhido para o sacrifício eleitoral. Para viabilizarem uma coligação ampla que permita ao partido disputar o governo de São Paulo em 2014, os petistas planejam entregar a vaga do senador a outra agremiação. Pode ser ao PMDB, ao PSD ou até mesmo ao PR do mensaleiro Valdemar Costa Neto. Feito isso, a menos que mude de partido, Suplicy não poderia disputar sua recondução ao Senado. A estratégia petista prevê, no máximo, a possibilidade de ele concorrer a uma vaga na Câmara dos Deputados. "Ele seria o nosso Tiririca", conta uma liderança petista, Suplicy identificou a origem do plano e, durante os últimos meses, tentou uma audiência com o ex-presidente Lula para tratar do assunto. Ligou para a secretária, pediu a ajuda de companheiros, enviou recados. Nada. No último dia 6, sem receber nenhuma resposta, o senador foi ao Instituto Lula e entregou uma carta ao ex-presidente. Uma carta cheia de ponderações e desabafos — uma sutil lição de moral.
Desde que chegou ao poder, em 2003, o PT abandonou o que se imaginava ser o mais sólido pilar de sustentação do partido: o compromisso com a ética. Na cana a Lula, Suplicy recorda esse propósito: "Sempre teríamos na transparência de nossos atos e na ética na s ida política os valores fundamentais do PT". E depois alfineta: "Foi o que muitas vezes ouvi de você". O senador, com elegância, mas sem esconder a mágoa de saber que o seu futuro político está sendo definido pelos companheiros à sua revelia, disparou: "Há apenas uma hipótese de eu abrir mão de disputar o Senado em 2014: caso você tLitUit queira disputar". Ninguém cogita a hipótese de o ex-presidente se candidatar ao Parlamento. Ainda assim, o senador escreveu: "Li com atenção uma entrevista sua em que lembrava de como Darcy Ribeiro costuma dizer que entrar no Senado era como entrar no céu (...) Acredito que considere algo positivo tornar-se senador". Ironia pura.
A carta teve algum efeito prático. Depois de tentar uma audiência por mais de quatro meses, Suplicy foi recebido pelo ex-presidente. Quebrando o protocolo, o encontro não foi documentado pelo fotógrafo oficial de Lula. Ficou por conta do próprio senador registrar a reunião em seu celular. Na cena, aparece um Suplicy sorridente ao lado de um Lula aparentemente constrangido. De acordo com o senador, a imagem não reflete o clima do encontro. Lula teria sido simpático e categórico: "Eduardo, não existe hipótese de o PT impedir que você seja o candidato". Na política, o que se fala muitas vezes não se escreve. Mas para o senador está tudo resolvido. Ele conseguiu a garantia da maior liderança petista de que o partido não vai mais lhe bater a carteira nas eleições. Os ladrões também devolveram os documentos e os cartões.
São Paulo, 6 de maio de 2013
"Caro presidente Luiz Inácio Lula da Silva:"
"Sempre teríamos na transparência de nossos atos e na ética na vida política os valores fundamentais do PT, foi o que muitas vezes ouvi de você. Nesses 33 anos de militância honrei esses valores e objetivos".
"Quero lhe transmitir pessoalmente a minha disposição de ser candidato ao Senado em 2014 e naquela casa continuar a honrar o PT. Tenho procurado marcar um encontro pessoal, há meses, mas por alguma razão tem sido sempre adiado".
"Gostaria de relembrar que, em 2011, quando éramos cinco os pré-candidatos a prefeito de São Paulo, você convocou os demais para dialogarem com você no Instituto Lula para que desistissem em favor de Fernando Haddad. Imagino que tenha avaliado que não precisava conversar comigo".
"Há cerca de duas semanas, conforme soube pela imprensa, houve reunião no Instituto Lula. em que estiveram presentes os presidentes nacional e estadual. Rui Falcão e Edinho Silva, outros importantes dirigentes e pelo menos oito prefeitos do PT. Não fui convidado, embora ali tenha se discutido a campanha de 2014, os procedimentos para a escolha de nosso candidato ao governo de São Paulo, ao Senado e possíveis coligações. Segundo o divulgado, os presentes teriam solicitado à direção organizar uma pesquisa de opinião para saber qual o candidato a governador mais viável. Ademais, cogitou-se a possibilidade de que eu pudesse ser candidato a deputado federal para fortalecer a legenda do PT, com a informação de que caberia a você convencer-me desta alternativa".
"Considero justo que o PT me aponte como candidato ao Senado. Por uma questão de respeito à minha contribuição para o PT desde a fundação e também por ter sido eleito por votações cada vez maiores para o Senado, em 1990 com 4 229 706 milhões de votos, 30%; em 1998 com 6718463,43,07%; em 2006, com 8986803 votos, 47,82%".
"Poderemos fazer uma prévia aberta a todos os filiados e eleitores interessados em participar como mais e mais se faz em todos os países democráticos. Lembro que José Dirceu certa vez defendeu que nossas prévias deveriam ser abertas a todos os eleitores".
"Há apenas uma hipótese de eu abrir mão de disputar o Senado em 2014: caso você queira disputar. Por respeito aos seus oito anos como Presidente da República, por já ter disputado uma prévia com você em 2002 e você ter ganho por larga margem".
"Sempre observei que você acompanhou com grande interesse tudo o que se passa ali, pois sempre comentou conosco que costumava assistir à TV Senado. Acredito que considere algo positivo tornar-se Senador".
"Eduardo Matarazzo Suplicy"
Em uma carta encaminhada ao ex-presidente, o senador reclama do isolamento político e mostra as contradições enfrentadas pelo PT quando o assunto é ética
O senador Eduardo Suplicy, do PT de São Paulo, é um político excêntrico. Ele já botou chapéu de Robin Hood, já vestiu uma cueca vermelha e destilou pelos corredores do Congresso e, vez por outra, canta no plenário para chamar atenção sobre algum assunto. O0 parlamentar também já esteve na linha de frente de causas importantes. Contrariando a orientação do seu partido, ele apoiou a CPI que desmascarou a quadrilha do mensalão. Mais recentemente, esteve ao lado da blogueira cubana Yoani Sánchez, quando os petistas a hostilizavam país afora. Na semana passada. Suplicy subiu ao palco durante um show em São Paulo e implorou a ladrões que devolvessem sua carteira, furtada minutos antes. Ele nem queria de volta o dinheiro que havia nela, cerca de 400 reais. Bastava que devolvessem os cartões e os documentos. Foi ovacionado pela multidão. Esse comportamento autêntico garante ao senador uma imensa legião de admiradores — e uns poucos, mas poderosos, desafetos. Há mais de vinte anos, esses admiradores renovam o mandato de Suplicy a cada eleição. Os desafetos, pela primeira vez, apostam que esse ciclo acabou.
Nos planos da cúpula do PT, Suplicy foi escolhido para o sacrifício eleitoral. Para viabilizarem uma coligação ampla que permita ao partido disputar o governo de São Paulo em 2014, os petistas planejam entregar a vaga do senador a outra agremiação. Pode ser ao PMDB, ao PSD ou até mesmo ao PR do mensaleiro Valdemar Costa Neto. Feito isso, a menos que mude de partido, Suplicy não poderia disputar sua recondução ao Senado. A estratégia petista prevê, no máximo, a possibilidade de ele concorrer a uma vaga na Câmara dos Deputados. "Ele seria o nosso Tiririca", conta uma liderança petista, Suplicy identificou a origem do plano e, durante os últimos meses, tentou uma audiência com o ex-presidente Lula para tratar do assunto. Ligou para a secretária, pediu a ajuda de companheiros, enviou recados. Nada. No último dia 6, sem receber nenhuma resposta, o senador foi ao Instituto Lula e entregou uma carta ao ex-presidente. Uma carta cheia de ponderações e desabafos — uma sutil lição de moral.
Desde que chegou ao poder, em 2003, o PT abandonou o que se imaginava ser o mais sólido pilar de sustentação do partido: o compromisso com a ética. Na cana a Lula, Suplicy recorda esse propósito: "Sempre teríamos na transparência de nossos atos e na ética na s ida política os valores fundamentais do PT". E depois alfineta: "Foi o que muitas vezes ouvi de você". O senador, com elegância, mas sem esconder a mágoa de saber que o seu futuro político está sendo definido pelos companheiros à sua revelia, disparou: "Há apenas uma hipótese de eu abrir mão de disputar o Senado em 2014: caso você tLitUit queira disputar". Ninguém cogita a hipótese de o ex-presidente se candidatar ao Parlamento. Ainda assim, o senador escreveu: "Li com atenção uma entrevista sua em que lembrava de como Darcy Ribeiro costuma dizer que entrar no Senado era como entrar no céu (...) Acredito que considere algo positivo tornar-se senador". Ironia pura.
A carta teve algum efeito prático. Depois de tentar uma audiência por mais de quatro meses, Suplicy foi recebido pelo ex-presidente. Quebrando o protocolo, o encontro não foi documentado pelo fotógrafo oficial de Lula. Ficou por conta do próprio senador registrar a reunião em seu celular. Na cena, aparece um Suplicy sorridente ao lado de um Lula aparentemente constrangido. De acordo com o senador, a imagem não reflete o clima do encontro. Lula teria sido simpático e categórico: "Eduardo, não existe hipótese de o PT impedir que você seja o candidato". Na política, o que se fala muitas vezes não se escreve. Mas para o senador está tudo resolvido. Ele conseguiu a garantia da maior liderança petista de que o partido não vai mais lhe bater a carteira nas eleições. Os ladrões também devolveram os documentos e os cartões.
São Paulo, 6 de maio de 2013
"Caro presidente Luiz Inácio Lula da Silva:"
"Sempre teríamos na transparência de nossos atos e na ética na vida política os valores fundamentais do PT, foi o que muitas vezes ouvi de você. Nesses 33 anos de militância honrei esses valores e objetivos".
"Quero lhe transmitir pessoalmente a minha disposição de ser candidato ao Senado em 2014 e naquela casa continuar a honrar o PT. Tenho procurado marcar um encontro pessoal, há meses, mas por alguma razão tem sido sempre adiado".
"Gostaria de relembrar que, em 2011, quando éramos cinco os pré-candidatos a prefeito de São Paulo, você convocou os demais para dialogarem com você no Instituto Lula para que desistissem em favor de Fernando Haddad. Imagino que tenha avaliado que não precisava conversar comigo".
"Há cerca de duas semanas, conforme soube pela imprensa, houve reunião no Instituto Lula. em que estiveram presentes os presidentes nacional e estadual. Rui Falcão e Edinho Silva, outros importantes dirigentes e pelo menos oito prefeitos do PT. Não fui convidado, embora ali tenha se discutido a campanha de 2014, os procedimentos para a escolha de nosso candidato ao governo de São Paulo, ao Senado e possíveis coligações. Segundo o divulgado, os presentes teriam solicitado à direção organizar uma pesquisa de opinião para saber qual o candidato a governador mais viável. Ademais, cogitou-se a possibilidade de que eu pudesse ser candidato a deputado federal para fortalecer a legenda do PT, com a informação de que caberia a você convencer-me desta alternativa".
"Considero justo que o PT me aponte como candidato ao Senado. Por uma questão de respeito à minha contribuição para o PT desde a fundação e também por ter sido eleito por votações cada vez maiores para o Senado, em 1990 com 4 229 706 milhões de votos, 30%; em 1998 com 6718463,43,07%; em 2006, com 8986803 votos, 47,82%".
"Poderemos fazer uma prévia aberta a todos os filiados e eleitores interessados em participar como mais e mais se faz em todos os países democráticos. Lembro que José Dirceu certa vez defendeu que nossas prévias deveriam ser abertas a todos os eleitores".
"Há apenas uma hipótese de eu abrir mão de disputar o Senado em 2014: caso você queira disputar. Por respeito aos seus oito anos como Presidente da República, por já ter disputado uma prévia com você em 2002 e você ter ganho por larga margem".
"Sempre observei que você acompanhou com grande interesse tudo o que se passa ali, pois sempre comentou conosco que costumava assistir à TV Senado. Acredito que considere algo positivo tornar-se Senador".
"Eduardo Matarazzo Suplicy"
Personagens comuns em ricas histórias - Marcelo Lyra
Valor Econômico - 28/05/2013
Este é o segundo livro de contos do moçambicano Mia Couto, um dos mais importantes autores africanos da atualidade, conhecido principalmente pelo belíssimo romance "Terra Sonâmbula". Nas histórias curtas os personagens perdem um pouco em densidade, quando comparados aos do romance, mais por falta de tempo para um aprofundamento. Em compensação, sua imaginação e habilidade na ambientação seguem intactos. São 11 histórias, a maioria com protagonistas mulheres, em narrativas que oscilam ora entre o realismo mágico das lendas africanas, ora em meio à dura repressão das autoridades do Terceiro Mundo, sempre retratadas de modo patético.
Uma das mais belas e interessantes é sem dúvida a que abre o livro, "A Rosa Caramela", uma jovem corcunda, de rosto belíssimo, que enlouqueceu depois de ser abandonada no altar, desenvolvendo o hábito de conversar com estátuas. O mistério que essa mulher inspira nos moradores do pequeno vilarejo é proporcional à comoção causada por sua arbitrária prisão, simplesmente porque conversava demais com a estátua de um antigo líder deposto e proscrito pelo novo regime, o que foi considerado pelas autoridades como subversivo. A surpresa com a revelação do desconhecido noivo e o desfecho da trama são dessas coisas que fazem a literatura valer a pena.
"Rosalinda, a Nenhuma" mostra uma mulher que sofre anos com as traições e espancamentos do marido, um alcoólatra que vive às custas dela. Só quando ele morre ela se sente capaz de apaixonar-se por ele, enciumando-se de outra que também vem chorar no túmulo do marido. Novamente, aqui, por trás da trama singela é possível notar o registro de um cotidiano machista, no qual as mulheres são submetidas aos desmandos do marido e a libertação só vem com a morte dele.
Entre os contos masculinos, destaca-se o do Tio Geguê, que mostra o terror que as milícias impõem nos povoados por intermédio de uma história romântica de um rapaz órfão, criado pelo tio, que de repente começa a ter sonhos com a mãe que nunca conheceu. Há também o barbeiro Beruberu, pobre e querido em seu povoado, que procura valorizar sua barbearia garantindo que cortou o cabelo do ator americano Sidney Poitier. Seus problemas começam quando as autoridades acham que esse culto aos estrangeiros pode ser subversivo.
Como em quase todo livro de contos, o resultado é desigual, já que um ou outro relato não atinge o bom nível da maioria. Mas a poesia delicada e romântica que emana dos personagens está presente em todos, e o que mais impressiona é a habilidade de Couto na construção de frases. Elas são reduzidas ao mínimo e compreendidas muitas vezes pela sonoridade, à maneira de Guimarães Rosa. Couto parece esculpir cada palavra de modo que se encaixem nas frases como pedras de uma pirâmide. Fosse só esse seu mérito, já estaríamos diante de um escritor de destaque. Mas seus personagens são tão ricos em sua simplicidade cotidiana, tão humanos em seu sofrimento obstinado, que, para além do estilo, se tornam marcantes e acabam permanecendo por muito tempo na memória.
O livro vem com um oportuno glossário ao final, uma vez que Couto usa muitas expressões comuns ao vocabulário moçambicano, e recomenda-se uma leitura prévia, para familiarizar-se com elas e assim não quebrar o ritmo das deliciosas histórias.
Este é o segundo livro de contos do moçambicano Mia Couto, um dos mais importantes autores africanos da atualidade, conhecido principalmente pelo belíssimo romance "Terra Sonâmbula". Nas histórias curtas os personagens perdem um pouco em densidade, quando comparados aos do romance, mais por falta de tempo para um aprofundamento. Em compensação, sua imaginação e habilidade na ambientação seguem intactos. São 11 histórias, a maioria com protagonistas mulheres, em narrativas que oscilam ora entre o realismo mágico das lendas africanas, ora em meio à dura repressão das autoridades do Terceiro Mundo, sempre retratadas de modo patético.
Uma das mais belas e interessantes é sem dúvida a que abre o livro, "A Rosa Caramela", uma jovem corcunda, de rosto belíssimo, que enlouqueceu depois de ser abandonada no altar, desenvolvendo o hábito de conversar com estátuas. O mistério que essa mulher inspira nos moradores do pequeno vilarejo é proporcional à comoção causada por sua arbitrária prisão, simplesmente porque conversava demais com a estátua de um antigo líder deposto e proscrito pelo novo regime, o que foi considerado pelas autoridades como subversivo. A surpresa com a revelação do desconhecido noivo e o desfecho da trama são dessas coisas que fazem a literatura valer a pena.
"Rosalinda, a Nenhuma" mostra uma mulher que sofre anos com as traições e espancamentos do marido, um alcoólatra que vive às custas dela. Só quando ele morre ela se sente capaz de apaixonar-se por ele, enciumando-se de outra que também vem chorar no túmulo do marido. Novamente, aqui, por trás da trama singela é possível notar o registro de um cotidiano machista, no qual as mulheres são submetidas aos desmandos do marido e a libertação só vem com a morte dele.
Entre os contos masculinos, destaca-se o do Tio Geguê, que mostra o terror que as milícias impõem nos povoados por intermédio de uma história romântica de um rapaz órfão, criado pelo tio, que de repente começa a ter sonhos com a mãe que nunca conheceu. Há também o barbeiro Beruberu, pobre e querido em seu povoado, que procura valorizar sua barbearia garantindo que cortou o cabelo do ator americano Sidney Poitier. Seus problemas começam quando as autoridades acham que esse culto aos estrangeiros pode ser subversivo.
Como em quase todo livro de contos, o resultado é desigual, já que um ou outro relato não atinge o bom nível da maioria. Mas a poesia delicada e romântica que emana dos personagens está presente em todos, e o que mais impressiona é a habilidade de Couto na construção de frases. Elas são reduzidas ao mínimo e compreendidas muitas vezes pela sonoridade, à maneira de Guimarães Rosa. Couto parece esculpir cada palavra de modo que se encaixem nas frases como pedras de uma pirâmide. Fosse só esse seu mérito, já estaríamos diante de um escritor de destaque. Mas seus personagens são tão ricos em sua simplicidade cotidiana, tão humanos em seu sofrimento obstinado, que, para além do estilo, se tornam marcantes e acabam permanecendo por muito tempo na memória.
O livro vem com um oportuno glossário ao final, uma vez que Couto usa muitas expressões comuns ao vocabulário moçambicano, e recomenda-se uma leitura prévia, para familiarizar-se com elas e assim não quebrar o ritmo das deliciosas histórias.
"Cada Homem É uma Raça"
Mia Couto Companhia das Letras 198 págs, R$ 35,00
Um empresário que fez seu tempo - Ivo Ribeiro
Valor Econômico - 28/05/2013
Um homem obcecado pelo trabalho, simples nos costumes, cercado de forte admiração popular. Respeitado nos meios empresariais e entre os políticos, Antônio Ermírio de Moraes era constantemente assediado pela mídia, pois não tinha travas na língua ao expressar seus pensamentos e convicções. Esse extrato está no perfil traçado pelo amigo José Pastore, muito mais o relato de uma convivência de 35 anos do que uma biografia. A aproximação, que se transformou em grande amizade, começou em 1979, nos bastidores do Ministério do Trabalho, em Brasília.
A convivência se estreitou e tornou-se quase diária. "O trabalho, para ele, era quase uma religião e estava sempre mais preocupado em fazer mais para o Brasil do que para si próprio", diz Pastore. Antônio Ermírio criticava o governo, mas, acima de tudo, era um otimista com o futuro do Brasil, apesar dos vários momentos em que, por razões econômicas ou políticas, os negócios de seu grupo e toda a indústria passaram por dificuldades. Era preocupado com as causas sociais. No teatro, como autor, buscou um caminho alternativo para expressar sua visão de temas críticos da vida nacional. Como representante de um dos maiores conglomerados industriais e empresariais do país, sua voz tinha ressonância nos meios políticos e entre seus pares. O grupoVotorantim chegou a ter mais de 90 empresas e a empregar cerca de 60 mil pessoas.
Pastore, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP, especializado na área de relações do trabalho e recursos humanos, reuniu nos últimos três anos tudo que observou de Antônio Ermírio no dia a dia da longa convivência, nas conversas que mantinham, nas entrevistas que concedeu aos jornais, revistas, rádio e TV e nos seus arquivos pessoais e da família. Desse rico material surgiu o livro agora publicado. A data escolhida para o lançamento, 4 de junho, não foi casual. É quando Antônio Ermírio vai completar 85 anos de vida. "É a melhor forma de homenagem e um presente ao meu amigo", diz Pastore.
O envolvimento do jovem Antônio Ermírio com o trabalho na empresa começou aos 21 anos, na volta dos Estados Unidos ao Brasil. Lá obtivera o diploma de engenheiro metalúrgico na Escola de Minas do Colorado. O pai, José Ermírio de Moraes, o chamou e informou que, durante um ano, iria trabalhar sem salário na Votorantim, para comprovar se teria competência para assumir parte dos negócios. Iniciou-se, naquele momento, um longo período de 60 anos anos dedicados integralmente ao grupo. Antônio Ermírio só parou na passagem de 2007 para 2008, impedido por problemas de saúde que começaram a aparecer em 1998 e foram se agravando. A combinação de hidrocefalia e mal de Alzheimer, detectada em 2006, já não permitia que trabalhasse.
O livro de Pastore retrata a trajetória de vida do empresário, com riqueza de detalhes profissionais e do seu modo de ser - que lhe trouxe também desilusões, na cena empresarial e também na política, com iniciativas em que se aventurou para nunca mais voltar. Lembrava o que o pai lhe dissera um dia: "Filho, jamais entre na política. Só tive decepções". José Ermirio de Moraes fora senador por Pernambuco e ministro da Agricultura por alguns meses, em 1963.
O livro começa com a infância da Antônio Ermírio na cidade de São Paulo e passa por sua formação profissional e intelectual. Mostra sua intensa participação na vida econômica do país, a fracassada aventura na vida partidária, como candidato a governador do Estado de São Paulo, a incursão na dramaturgia, ao escrever três peças teatrais, e a presença em obras sociais - o hospital da Beneficência Portuguesa, em São Paulo, do qual cuidava com esmero de gestor muito atento, como se fosse uma das suas empresas, era quase sua segunda casa. A primeira, no escritório do grupo Votorantim, onde chegava religiosamente entre 7 horas e 7h30 e saía já noite adentro. E muitas vezes aos sábados.
Antônio Ermírio conduziu o grupo com mãos de ferro, ao lado do irmão José Ermírio de Moraes Filho, dois anos mais velho. E a própria família. Rigoroso, fez quatro dos cinco filhos homens, de uma prole de nove, cursarem a mesma Faculdade de Minas do Colorado, nos Estados Unidos, por onde passou, e levou todos a trabalhar desde cedo nas empresas do grupo. "Tinha horror à ideia de que crescessem e se acostumassem ao luxo e à vida mansa", relata Pastore.
Algumas coisas o decepcionaram profundamente. Por exemplo, a disputa pelo cargo de governador paulista, em 1986, quando perdeu a eleição praticamente ganha para Orestes Quércia (PMDB). Isso lhe deixou amargas lembranças do meio político e da prática de conchavos, que não condiziam com sua retidão e caráter. Devia ter o seguido o conselho do pai, costumava dizer.
Outro caso foi a acirrada batalha da privatização da então Vale do Rio Doce (hoje Vale), em 1997, da qual saiu como perdedor para um consórcio comandado pelo quase desconhecido e jovem empresário Benjamin Steinbruch, que tinha vindo do setor têxtil e ganhara a siderúrgica CSN poucos anos antes. Foi uma derrota que o entristeceu. A Vale era uma empresa que tinha muitos dos seus negócios similares aos do grupo Votorantim, principalmente em mineração e metais.
Outra coisa, confirma Pastore, que o deixava por demais incomodado: o fato de o grupo ter criado um banco, inicialmente convencido que seria só para aplicar recursos próprios e que, ao longo dos anos, veio a representar 30% dos negócios. Antônio Ermírio era um fervoroso crítico dos bancos. Dizia que praticavam juros exorbitantes, sufocando as empresas e ganhando dinheiro fácil na ciranda financeira, enquanto a indústria sofria com a inflação alta e outros problemas. Certa vez, afirmou, em uma entrevista: "É isso mesmo, o Brasil só tem dois partidos: os banqueiros e o resto".
Pastore registra que, até 1986, teve contatos esporádicos com Antônio Ermírio. A amizade se aprofundou quando foi convidado a organizar um plano de governo para São Paulo, dentro da campanha ao governo do Estado. "Ele entrou muito animado e foi assim até o fim, apesar do bombardeio dos adversários, o que o deixou muito sentido. Atingiu a conduta ética dele". Pastore colaborou também com o amigo na elaboração dos cerca de 900 artigos semanais, aos domingos, que escreveu para a "Folha de São Paulo" durante 17 anos.
"Ele era muito fissurado por temas sociais e queria dados profundos. Por isso, tinha de pesquisar muito, inclusive em áreas que não eram de minha seara, como as de energia e meio ambiente", diz. Seu apreço era por questões que lhe pareciam prioritárias e mal cuidadas, como produtividade, qualificação de mão de obra, competitividade, e outras, de cunho social, nas quais encontrava oportunidade para opinar sobre drogas, jogo, criminalidade e prostituição, sempre com palavras fortes.
Isso incomodava muita gente, na economia e na política. Suas análises ressoavam entre os políticos, influenciando-os nos debates. Levaram o falecido Antônio Carlos Magalhães a pedir que parasse de "pautar" o Congresso Nacional, quando o político baiano era presidente do Senado.
O Brasil e muitos desses assuntos forneceram a matéria-prima de suas peças teatrais - "Brasil S.A." (1995), "SOS Brasil" (1999) e "Acorda, Brasil" (2002) - dirigidas e encenadas por grandes nomes do teatro. Não se considerava um dramaturgo. Mas, diz Pastore, a atividade autoral fez com que Antônio Ermírio se tornasse uma pessoa menos fechada e carrancuda. Ficou mais alegre e aberto a brincadeiras.
Segundo Pastore, desde o início de 2008 o empresário não tomou mais ciência das atividades do grupo que ajudou a crescer e a se tornar um dos mais importantes do Brasil. Diz que Antônio Ermírio não fez menções a ele sobre os problemas financeiros que o grupo passou a enfrentar a partir da crise global de setembro de 2008. Foi preciso vender, nos anos seguintes, alguns ativos e metade do seu banco ao Banco do Brasil, para se reequilibrar.
Pastore afirma que o que agravou a saúde de Antônio Ermírio foi a morte de dois filhos, Mário e Carlos Ermírio, o primeiro em agosto de 2009 e o segundo dois anos depois. Ambos, de câncer. "Ele se abateu demais com essas duas perdas."
"Antônio Ermírio de Moraes - Memórias de um Diário Confidencial"
José Pastore. Editora: Planeta. 360 págs., R$ 39,90
Um homem obcecado pelo trabalho, simples nos costumes, cercado de forte admiração popular. Respeitado nos meios empresariais e entre os políticos, Antônio Ermírio de Moraes era constantemente assediado pela mídia, pois não tinha travas na língua ao expressar seus pensamentos e convicções. Esse extrato está no perfil traçado pelo amigo José Pastore, muito mais o relato de uma convivência de 35 anos do que uma biografia. A aproximação, que se transformou em grande amizade, começou em 1979, nos bastidores do Ministério do Trabalho, em Brasília.
A convivência se estreitou e tornou-se quase diária. "O trabalho, para ele, era quase uma religião e estava sempre mais preocupado em fazer mais para o Brasil do que para si próprio", diz Pastore. Antônio Ermírio criticava o governo, mas, acima de tudo, era um otimista com o futuro do Brasil, apesar dos vários momentos em que, por razões econômicas ou políticas, os negócios de seu grupo e toda a indústria passaram por dificuldades. Era preocupado com as causas sociais. No teatro, como autor, buscou um caminho alternativo para expressar sua visão de temas críticos da vida nacional. Como representante de um dos maiores conglomerados industriais e empresariais do país, sua voz tinha ressonância nos meios políticos e entre seus pares. O grupoVotorantim chegou a ter mais de 90 empresas e a empregar cerca de 60 mil pessoas.
Pastore, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP, especializado na área de relações do trabalho e recursos humanos, reuniu nos últimos três anos tudo que observou de Antônio Ermírio no dia a dia da longa convivência, nas conversas que mantinham, nas entrevistas que concedeu aos jornais, revistas, rádio e TV e nos seus arquivos pessoais e da família. Desse rico material surgiu o livro agora publicado. A data escolhida para o lançamento, 4 de junho, não foi casual. É quando Antônio Ermírio vai completar 85 anos de vida. "É a melhor forma de homenagem e um presente ao meu amigo", diz Pastore.
O envolvimento do jovem Antônio Ermírio com o trabalho na empresa começou aos 21 anos, na volta dos Estados Unidos ao Brasil. Lá obtivera o diploma de engenheiro metalúrgico na Escola de Minas do Colorado. O pai, José Ermírio de Moraes, o chamou e informou que, durante um ano, iria trabalhar sem salário na Votorantim, para comprovar se teria competência para assumir parte dos negócios. Iniciou-se, naquele momento, um longo período de 60 anos anos dedicados integralmente ao grupo. Antônio Ermírio só parou na passagem de 2007 para 2008, impedido por problemas de saúde que começaram a aparecer em 1998 e foram se agravando. A combinação de hidrocefalia e mal de Alzheimer, detectada em 2006, já não permitia que trabalhasse.
O livro de Pastore retrata a trajetória de vida do empresário, com riqueza de detalhes profissionais e do seu modo de ser - que lhe trouxe também desilusões, na cena empresarial e também na política, com iniciativas em que se aventurou para nunca mais voltar. Lembrava o que o pai lhe dissera um dia: "Filho, jamais entre na política. Só tive decepções". José Ermirio de Moraes fora senador por Pernambuco e ministro da Agricultura por alguns meses, em 1963.
O livro começa com a infância da Antônio Ermírio na cidade de São Paulo e passa por sua formação profissional e intelectual. Mostra sua intensa participação na vida econômica do país, a fracassada aventura na vida partidária, como candidato a governador do Estado de São Paulo, a incursão na dramaturgia, ao escrever três peças teatrais, e a presença em obras sociais - o hospital da Beneficência Portuguesa, em São Paulo, do qual cuidava com esmero de gestor muito atento, como se fosse uma das suas empresas, era quase sua segunda casa. A primeira, no escritório do grupo Votorantim, onde chegava religiosamente entre 7 horas e 7h30 e saía já noite adentro. E muitas vezes aos sábados.
Antônio Ermírio conduziu o grupo com mãos de ferro, ao lado do irmão José Ermírio de Moraes Filho, dois anos mais velho. E a própria família. Rigoroso, fez quatro dos cinco filhos homens, de uma prole de nove, cursarem a mesma Faculdade de Minas do Colorado, nos Estados Unidos, por onde passou, e levou todos a trabalhar desde cedo nas empresas do grupo. "Tinha horror à ideia de que crescessem e se acostumassem ao luxo e à vida mansa", relata Pastore.
Algumas coisas o decepcionaram profundamente. Por exemplo, a disputa pelo cargo de governador paulista, em 1986, quando perdeu a eleição praticamente ganha para Orestes Quércia (PMDB). Isso lhe deixou amargas lembranças do meio político e da prática de conchavos, que não condiziam com sua retidão e caráter. Devia ter o seguido o conselho do pai, costumava dizer.
Outro caso foi a acirrada batalha da privatização da então Vale do Rio Doce (hoje Vale), em 1997, da qual saiu como perdedor para um consórcio comandado pelo quase desconhecido e jovem empresário Benjamin Steinbruch, que tinha vindo do setor têxtil e ganhara a siderúrgica CSN poucos anos antes. Foi uma derrota que o entristeceu. A Vale era uma empresa que tinha muitos dos seus negócios similares aos do grupo Votorantim, principalmente em mineração e metais.
Outra coisa, confirma Pastore, que o deixava por demais incomodado: o fato de o grupo ter criado um banco, inicialmente convencido que seria só para aplicar recursos próprios e que, ao longo dos anos, veio a representar 30% dos negócios. Antônio Ermírio era um fervoroso crítico dos bancos. Dizia que praticavam juros exorbitantes, sufocando as empresas e ganhando dinheiro fácil na ciranda financeira, enquanto a indústria sofria com a inflação alta e outros problemas. Certa vez, afirmou, em uma entrevista: "É isso mesmo, o Brasil só tem dois partidos: os banqueiros e o resto".
Pastore registra que, até 1986, teve contatos esporádicos com Antônio Ermírio. A amizade se aprofundou quando foi convidado a organizar um plano de governo para São Paulo, dentro da campanha ao governo do Estado. "Ele entrou muito animado e foi assim até o fim, apesar do bombardeio dos adversários, o que o deixou muito sentido. Atingiu a conduta ética dele". Pastore colaborou também com o amigo na elaboração dos cerca de 900 artigos semanais, aos domingos, que escreveu para a "Folha de São Paulo" durante 17 anos.
"Ele era muito fissurado por temas sociais e queria dados profundos. Por isso, tinha de pesquisar muito, inclusive em áreas que não eram de minha seara, como as de energia e meio ambiente", diz. Seu apreço era por questões que lhe pareciam prioritárias e mal cuidadas, como produtividade, qualificação de mão de obra, competitividade, e outras, de cunho social, nas quais encontrava oportunidade para opinar sobre drogas, jogo, criminalidade e prostituição, sempre com palavras fortes.
Isso incomodava muita gente, na economia e na política. Suas análises ressoavam entre os políticos, influenciando-os nos debates. Levaram o falecido Antônio Carlos Magalhães a pedir que parasse de "pautar" o Congresso Nacional, quando o político baiano era presidente do Senado.
O Brasil e muitos desses assuntos forneceram a matéria-prima de suas peças teatrais - "Brasil S.A." (1995), "SOS Brasil" (1999) e "Acorda, Brasil" (2002) - dirigidas e encenadas por grandes nomes do teatro. Não se considerava um dramaturgo. Mas, diz Pastore, a atividade autoral fez com que Antônio Ermírio se tornasse uma pessoa menos fechada e carrancuda. Ficou mais alegre e aberto a brincadeiras.
Segundo Pastore, desde o início de 2008 o empresário não tomou mais ciência das atividades do grupo que ajudou a crescer e a se tornar um dos mais importantes do Brasil. Diz que Antônio Ermírio não fez menções a ele sobre os problemas financeiros que o grupo passou a enfrentar a partir da crise global de setembro de 2008. Foi preciso vender, nos anos seguintes, alguns ativos e metade do seu banco ao Banco do Brasil, para se reequilibrar.
Pastore afirma que o que agravou a saúde de Antônio Ermírio foi a morte de dois filhos, Mário e Carlos Ermírio, o primeiro em agosto de 2009 e o segundo dois anos depois. Ambos, de câncer. "Ele se abateu demais com essas duas perdas."
"Antônio Ermírio de Moraes - Memórias de um Diário Confidencial"
José Pastore. Editora: Planeta. 360 págs., R$ 39,90
domingo, 26 de maio de 2013
No rádio do carro - Caetano Veloso
O Globo - 26/05/2013
Os caminhos e as relações de ritmos como o funk, o maculelê, o Olodum e as baterias de escolas de samba
No rádio do carro ouço o que pinta, dentro do que, em
parte, procuro. Acabo de ouvir Fernanda Abreu cantando “Baile da
pesada” com o Monobloco. Penso nos caminhos que vem percorrendo a
percussão brasileira de rua, a carnavalesca, sobretudo desde que os
blocos afro de Salvador ganharam a definição e a notoriedade que
cresceram a partir do final dos anos 1970. Passando pelo mangue-beat, ou
bit, como se chamava originalmente (ou talvez devamos dizer que há um
mangue-beat, que caracteriza a levada de ao menos um dos grupos do
movimento mangue-bit), pelo samba-reggae e pelo samba-merengue do Olodum
(que Neguinho do Samba não tinha conseguido impor ao Ilê-Aiyê), pelo
Monobloco e pelo polêmico “funk” da bateria da Viradouro, essas
formações têm mais proximidade com as bandas estudantis americanas do
que em geral imaginamos. Podem ser vistas em alguns filmes: são bandas
de percussão informais, que reproduzem em instrumentação marcial as
levadas de funk, rhythm&blues, soul e outras modalidades de música
negra dos Estados Unidos. Há parentesco estreito entre essas bandas e a
percussão brasileira contemporânea. Mas a influência das baterias de
escolas de samba como modalidade de reprodução marcial de ritmos
nascidos da música mão-no-couro dos terreiros de candomblé sobre o
imaginário internacional está por ser avaliada. Lembro-me de ter lido,
lá pelos anos 1980, comentário de um criador americano de disco music
sobre os brasileiros não saberem o quanto a invenção do gênero devia ao
carnaval do Brasil. Ele se referia às marchinhas e a tudo o mais.
O
caminho do baile funk, ou funk carioca, é fascinante. Hermano Viana tem
milênios de crédito por ter escrito sobre o fenômeno na fase
embrionária — e vendo já tudo o que de essencial podemos ver com clareza
agora. Da eleição do repertório de hits se dando de forma totalmente
independente da programação radiofônica e dos interesses das gravadoras à
predominância da batida umbanda-maculelê sobre o Miami bass, o funk
carioca é uma história de liberdade inventiva cuja importância ainda
havemos de saber reconhecer. Ouço funk no rádio do carro com meu filho
mais novo. Ele gosta. Tem 16 anos. O fascínio cresce pelo fato (em
princípio às vezes irritante para mim) de não serem gravações que vou
encontrar em discos na livraria mais próxima da Zona Sul, cuja
comercialização não é como a tradicional. Sendo ela também um fenômeno
de inventividade, parece que devo manter num mundo algo inatingível as
peças que ela distribui. Como minha memória não é mais lá essas coisas,
fico com fragmentos de frases chulas e de sons incomuns, tudo excitando
minha capacidade de fruir e de julgar.
No começo,
era o Miami bass, sobre o qual uma tumbadora aguda gritava, ao longe, a
célula do maculelê. E logo o maculelê, exclusividade da minha cidade de
nascimento (como os festejos do 13 de Maio), foi tomando conta. Trata-se
de uma forma de dança e luta que se desenvolveu em Santo Amaro, onde e
apenas onde era conhecida, até alguns grupos folclóricos de Salvador a
adicionarem às apresentações de capoeira que mostravam ao mundo.
Os
negros na diáspora e sua conversa com o mundo. Sou um mulato nato e
repito que a bossa nova é foda. Ao som do rádio do carro, sou arrastado a
sentir essas movimentações sugestivas. Jobim/Nestrovski, Fernanda e
Monobloco, Seu Jorge e um certo surdo, Olodum, americanos, Viradouro,
baile funk. Que lugar ou momento dessas danças estamos vivendo cada vez
que votamos em eleições, abordamos questões setoriais ou imaginamos como
decidir sobre nossas vidas?
Ouço na Rádio MEC
três temas de Tom Jobim com Arthur Nestrovski ao violão e fico
impressionado com a sonoridade do instrumento. Parece que a nitidez e a
limpidez das notas nascem do sentimento que o violonista experimenta ao
defrontar-se com as ideias musicais do autor, não um conseguimento
técnico devido a treinamento exaustivo — embora treinamento exaustivo
tenha naturalmente sido necessário para que o resultado fosse esse. Ouço
na MPB FM Seu Jorge cantando divinamente um samba de andamento médio em
que um surdo sobrenatural comenta toda a história de tristeza e
superação que marca o gênero. Como é tarde, a emissora não dá os
créditos: terei de encontrar a gravação ouvindo várias outras do cantor.
Posso também simplesmente perguntar a ele ou a pessoas que conheçam bem
seu trabalho. Mas será uma pergunta vaga. Apenas a descrição desse
surdo e a definição do andamento, já que, embora na hora tenham me
impressionado também, as palavras e as frases melódicas não ficaram
registradas nessa memória já tão fraca, se comparada ao que era quando
eu tinha 26 anos.
sábado, 25 de maio de 2013
Twitter.BR - Cora Rónai
O Globo - 25/05/2013
Direção da rede no país procura
popularizar mais uso das hashtags e
também investir nos vídeos do Vine
também investir nos vídeos do Vine
Ferramenta de chat, rede social, microblog —
até hoje há quem não saiba direito a que veio
o Twitter, sobretudo no Brasil, onde, significativamente,
sua maior concorrência, até outro dia,
era o Orkut. Somos expansivos, gostamos de bater
papo e de jogar conversa fora, dois conceitos que
não combinam com a brevidade imposta pelos 140
caracteres do passarinho azul.
até hoje há quem não saiba direito a que veio
o Twitter, sobretudo no Brasil, onde, significativamente,
sua maior concorrência, até outro dia,
era o Orkut. Somos expansivos, gostamos de bater
papo e de jogar conversa fora, dois conceitos que
não combinam com a brevidade imposta pelos 140
caracteres do passarinho azul.
— As pessoas ainda fazem confusão —reconhece
Guilherme Ribenboim, diretor geral da empresa no
país. — O Twitter não é propriamente uma rede social;
é, sobretudo, uma rede de informação.
O desafio de Guilherme, que assumiu o posto há
seis meses, é ampliar a presença do Twitter no Brasil
e botar os pingos nos ii. Para isso, ele tem conversado
com formadores de opinião e com os VITs,
Very Important Twitters, em geral celebridades
com grande número de seguidores. Tem também
fechado parcerias com empresas. A mais emblemática,
até aqui, foi a presença no Camarote da
Brahma, no Carnaval. Ao mesmo tempo, ele é uma
espécie de evangelista das hashtags, as etiquetas
precedidas de jogo da velha que viraram sinônimo
universal do Twitter.
Hashtags são muito úteis para identificar assuntos
e são, em princípio, elementos de escrita pragmáticos.
Na hora da novela, por exemplo, quem
quer entrar no papo geral marca os seus tuites com
#amoravida; já quem quer ver o que os outros estão
achando, dá uma busca em #amoravida para encontrar
todos os comentários.
Com o tempo, porém, as hashtags ganharam
também uma aura metafísica, que define o sentimento
da vida num certo momento. Quem é que
ainda não viu um #prontofalei, hoje clássica identificação
de desabafo? Ontem mesmo usei um
#pyongyangfeelings quando twittei sobre o apagão
que me deixou sem luz e, consequentemente, sem
internet: afinal, nada mais Coreia do Norte do que
falta de luz e de conexão...
Outra missão de Guilherme Ribenboim é difundir
o uso do Vine, espécie de cruzamento entre
YouTube, Instagram e Twitter que, com um ano,
começa a bombar nas paradas. O Vine, comprado
pelo Twitter em outubro do ano passado, e lançado
em fins de janeiro deste ano, é um aplicativo que
faz e compartilha filmetes de seis segundos. Ele
tem dois grandes trunfos: os seis segundos, justamente,
equivalentes aos 140 caracteres em palavras
e perfeitos para quem vê, e a absoluta facilidade
de uso. Para gravar, basta tocar na tela; para parar
de gravar, é só tirar o dedo. Os filmetes são praticamente
fotos em vários tempos: toca, tira, toca, tira...
simples assim.
O desafio é fazer videos interessantes. Loops e bichos
de estimação têm se provado populares. Há
pessoas super criativas que fazem autênticos milagres
com tão poucos recursos; o resto da humanidade
se contenta em mostrar o que vai comer. E,
claro, os gatos. Muitos gatos!
O maior entrave à popularização do Vine é que,
por enquanto, ele só funciona em iOS, o sistema
operacional do iPhone. Nos Estados Unidos, porém,
onde o smartphone da Apple domina o mercado,
o Vine já tem massa crítica: há fins de semana
em que mais de 100 mil videos são postados, e até
Sir Paul McCartney aderiu à brincadeira.
— A velocidade com que as pessoas aderem às
novas redes é impressionante — observa Guilherme
Ribenboim. — Ashton Kutcher levou três anos
para chegar a um milhão de seguidores no Twitter.
Os usuários mais seguidos do Vine devem chegar a
isso nos próximos três meses, se não antes
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