domingo, 23 de junho de 2013

Bonito - Caetano Veloso


 O Globo  

 23/06/2013

Os recuos — primeiro na repressão e, depois, no preço das tarifas dos ônibus — reafirmam, em vez de desmentir, a falta de inspiração dos governantes

Acabo de chegar a Natal e, ao abrir o Yahoo para ler e-mails, fico sabendo que Dilma não vai ao Japão agora porque as movimentações das ruas brasileiras demandam sua presença. Um amigo me escreve que ela vai reunir-se com os ministros. Outro me reenvia um longo texto em que uma moça de São Paulo mostra-se paranoica com os usos a que o movimento está se prestando: para ela, palavras de ordem “vazias”, tipo “abaixo a corrupção”, revelam um conservadorismo velho conhecido. Pelo que ela diz, a agenda do MPL foi esquecida, afogada no estilo anódino que as manifestações ganharam desde que a mídia decidiu incentivá-las em vez de rechaçá-las, como tinham feito a princípio. Ela descreve aspectos nada anódinos do fenômeno: nota que ninguém agredia o governador Alckmin, enquanto muitos insultavam os nomes de Dilma e Haddad. Diz-se de esquerda e teme um golpe, alertando para o fato de que a embaixadora dos Estados Unidos no Brasil é a mesma que servia no Paraguai quando do “golpe contra Lugo”. Lendo rápido, observo, de cara, que ela nada diz sobre os cartazes de protesto contra a PEC 37. Para não falar de frases como “Meu cu é laico”.

É interessante ler o que ela narra de suas andanças pelas ruas, pontes e estações de metrô de Sampa. E a desconfiança de que as manifestações podem estar sendo roubadas por forças da direita não soa absurda. Mil posturas podem aparecer em meio a essas multidões. E uma saída às ruas de tão grande número de pessoas (e a simpatia da maioria da população por elas) pode produzir efeitos importantes. E isso mais no Brasil (e nos países árabes) do que nos EUA ou na Inglaterra. É o monstro de Gaspari/Juscelino. Até aqui, os governantes imediatamente atingidos reagiram mal. Alckmin e Haddad, num primeiro momento, mostraram fazer a mais errada das avaliações. Os recuos — primeiro na repressão e, depois, no preço das tarifas dos ônibus — reafirmam, em vez de desmentir, a falta de inspiração deles e dos outros que os seguiram. Vimos ruas demagogicamente despoliciadas e rebaixamento dos preços oferecidos como ameaça aos serviços de saúde.

Três outros textos que li (e, tal como o da paulistana, nem sequer pude digerir direito) falam igualmente da domesticação do grande acontecimento pela apenas um pouco tardia conversão da mídia (sobretudo a Rede Globo) a seu favor. Mas esses são textos mais intelectualizados. Neles encontrei, não um esboço de defesa do PT e dos governos “de esquerda” da América Latina, mas um depoimento do transe que foi ser arrastado pela imprevisível mobilidade flexível dos corpos na ruas do Rio. Um dos autores se vê sendo levado até a Alerj, sem que tenha tido tempo de pensar. Toda a sua linguagem exala um apaixonado foucaultianismo, a veraz narração de sua experiência (realmente forte como texto) vem eivada de palavras-chave do pós-estruturalismo francês: o “corpo” nietzscheano retomado por Deleuze e pela “política do corpo”, que ecoa nos livros de Toni Negri. A impressão que dá é de que o autor carioca deslumbra-se por estar vivenciando tudo aquilo que ele amava na literatura desses filósofos. Mas não que isso destrua a força da reavaliação dos atos ditos vândalos, praticados por aqueles encapuzados que vimos na TV, que seu texto sugere. Não. A gente percebe que a violência da destruição direta das ferramentas concretas do poder instituído tem papel propriamente político importante — e não apenas o de ser pretexto arranjado para justificar golpes.

Estamos no meio dessa complexidade fascinante, exaltante e aterradora. Vi os atos violentos em Salvador, direcionados sobretudo ao estádio de futebol. A polícia afastou os manifestantes das imediações da Arena Fonte Nova (que, com meia casa, torcia acaloradamente pelo time da Nigéria), mas no centro da cidade o tema dos gastos com os eventos esportivos dava a tônica. Na véspera, eu tinha assistido àquele passe de Neymar que resultou no segundo gol do Brasil contra o México. Neymar saiu do armário. O drible que ele deu nos adversários antes de passar, com precisão absoluta, a bola para Jô golear, foi tudo o que desejamos que qualquer coisa produzida por brasileiros seja. Com os ânimos divididos, dentro da gente, com relação à preparação do país para a Copa, entre simplesmente apoiar o gesto que esboça demolir os estádios (pelos modos suspeitos como foram erguidos, pela omissão de possível contaminação de áreas a eles adjacentes, pelo, enfim, mero fato de que outras prioridades gritam) e torcer pelo renascimento da grandeza de nosso futebol, o jogo de Neymar ensina que o movimento emaranhado das ruas tem de achar o jeito inspirado de acertar no melhor. Que saibamos chegar ao mais bonito.


Entrevista: Eduardo Giannetti da Fonseca

O Estado de S.Paulo - 23/06/2013

‘O BRASILEIRO TEM ESPINHA DORSAL E ELA NÃO É UMA MARIA-MOLE’

País estaria dando uma resposta à sucessão de desacertos da política econômica que somam inflação em alta, baixo crescimento, ressaca de consumo e infraestrutura precária

Alexa Salomão

O economista e cientista social Eduardo Giannetti da Fonseca acredita que há um nítida ligação entre as manifestações que tomaram conta do Brasil e a má gestão da economia. “O governo represou o aumento da tarifa e, quando liberou, coincidiu que a inflação está alta.” Na entrevista a seguir, Giannetti explica como o governo terá de rever a condução da política econômica e a relação com o cidadão, hoje muito distante, se quiser reverter a situação.

O que provocou as manifestações?
Muitos elementos se combinaram. O primeiro deles foi retardar o reajuste da tarifa de transporte público para segurar a inflação. O governo represou o aumento e, quando liberou, coincidiu com o momento em que a inflação está em alta e as pessoas estão endividadas. Como os serviços tiveram uma alta grande, a inflação para as famílias é muito maior do que a inflação oficial. Há restrição orçamentária neste momento. A aposta desastrada no carro particular também pesou. O governo fez um movimento agressivo para estimular a venda do automóvel com a crise, em 2008, mas não investiu na infraestrutura para acomodar o aumento da frota. Para quem comprou, o carro era para ser o instrumento de liberdade individual, mas virou um cárcere privado e uma câmara de estresse. Com mais carros, as cidades vivem a angústia diária da mobilidade imóvel. Outro elemento foi a truculência da repressão na quinta-feira passada (13/06) em São Paulo. Muita gente que não estava disposta a se engajar aderiu porque ficou indignada A visibilidade do Brasil na Copa das Confederações ajudou. O Brasil está na vitrine, o que abre espaço para se constranger os governantes e maximizar a reivindicação. Junte tudo isso e teremos um ambiente propício para a revolta.

Qual é a alternativa do governo para
amenizar as manifestações se elas
continuarem?

Eu acho que uma reforma ministerial é inevitável. Os protestos, sem dúvida, reforçam as fragilidade na condução da política econômica. Lula (ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva), um pragmático, já fala abertamente isso.

Faltou, então, visão ao governo?
Faltou estratégia. Esse governo reage caso a caso. Criou tantas incertezas em relação às regras do jogo
que é temerário investir no País hoje. Os empresários se perguntam: ‘Será que a isenção que recebi vale daqui a quatro anos? Será que a proteção tarifária que eu consegui no lobby em Brasília permanece? Será que o crédito subsidiário que estão me oferecendo fica?’. Ninguém sabe. A política econômica
não tem um norte. Para controlar a inflação e favorecer a compra do carro, o governo eliminou a Cide, a contribuição cobrada sobre o preço da gasolina para financiar a infraestrutura de transporte. Eu fui olhar os números. No acumulado, deixamos de arrecadar R$ 22 bilhões desde 2008. O custo acumulado do não reajuste da tarifa de ônibus em São Paulo, até o final da gestão Haddad (Fernando Haddad, prefeito de São Paulo), será de R$ 2,6 bilhões – um décimo. Se o dinheiro da Cide tivesse sido investido na infraestrutura de transporte público, estaríamos em outro patamar.

Faltou, então, visão ao governo?
Faltou estratégia. Esse governo reage caso a caso. Criou tantas incertezas em relação às regras do jogo
que é temerário investir no País hoje. Os empresários se perguntam: ‘Será que a isenção que recebi vale daqui a quatro anos? Será que a proteção tarifária que eu consegui no lobby em Brasília permanece? Será que o crédito subsidiário que estão me oferecendo fica?’. Ninguém sabe. A política econômica não tem um norte. Para controlar a inflação e favorecer a compra do carro, o governo eliminou a Cide, a contribuição cobrada sobre o preço da gasolina para financiar a infraestrutura de transporte. Eu fui olhar os números. No acumulado, deixamos de arrecadar R$ 22 bilhões desde 2008. O custo acumulado do não reajuste da tarifa de ônibus em São Paulo, até o final da gestão Haddad (Fernando Haddad, prefeito de São Paulo), será de R$ 2,6 bilhões – um décimo. Se o dinheiro da Cide tivesse sido investido na infraestrutura de transporte público, estaríamos em outro patamar.

A classe C foi beneficiada pelo governo porque teve aumento de renda e ascendeu no consumo, mas também está nas ruas protestando. Ela não deveria estar satisfeita?
Cerca de 37 milhões de brasileiros mudaram de categoria de renda em 10 anos. É ótimo. Mas agora começamos a sentir o que isso representa. O governo esqueceu que essa nova classe média ascendeu ao consumo, mas também tem mais acesso à informação. Tem internet. Tem uma consciência mais clara de que paga impostos e pode cobrar serviços compatíveis com essa contribuição. Esse novo grupo demanda automóveis, transporte aéreo, eletrodomésticos, educação. Veja só: cresceu a demanda por automóveis e o governo ajudou, reduzindo o IPI, facilitando o crédito. Mas não foi feita a outra parte, os investimentos na infraestrutura urbana para suportar o aumento da frota. Transporte aéreo: há mais pessoas com dinheiro para viajar de avião, mas sem a estrutura aeroportuária é um caos embarcar e desembarcar. Eletrodomésticos: o Brasil se tornou um dos cinco mercados de aparelhos elétricos do mundo – vendemos mais geladeiras, microondas, freezers. Mas se a economia tivesse crescido no ano passado, tinha tido apagão. A sorte – se é que isso é sorte – foi que o baixíssimo crescimento evitou um colapso. Moradia: o Minha Casa, Minha Vida é a cereja no bolo do PAC, e onde está o saneamento básico? E há ainda o caso grave da educação. A nova classe média vê na educação uma credencial para continuar ascendendo socialmente, mas se não houver um controle de qualidade, as escolas privadas vão virar um balcão de negócios. Percebe que há um padrão? A demanda infla, mas não há consistência na oferta. Aquilo que exige poupança e investimento, que não seja um anseio imediato, não está sendo atendido.

As manifestações vêm em um momento já complicado para o governo: os indicadores econômicos estão piorando e há eleição no ano que vem...
O governo já vinha perdendo popularidade e agora isso se acentua. O capital político do governo da Dilma está em depreciação.

Apenas o da Dilma?
Pega principalmente o governo federal. No fundo é a democracia brasileira e os órgãos de poder que estão se desgastando. Deixaram de nos representar. Temos um Executivo tecnocrata e um pouco autista, com 39 ministérios, inoperante, que não consegue fazer as concessões acontecerem e tem muita dificuldade de deslanchar os investimentos prometidos. Eu chamo o PAC de Plano de Abuso da Credulidade. O Congresso Nacional virou um balcão de negócios de onde só saem coisas ruins, sem compromisso com o País.

O que ocorre se o mercado de trabalho
virar e houver desemprego?

Já temos crescimento baixo, inflação pressionada e deterioração das contas externas. Se acrescentarmos o desemprego, haverá um estress social adicional e o quadro piora. Poderíamos ter tido políticas de geração de emprego mais inteligentes durante a crise. Por exemplo, investir em infraestrutura para criar as bases de um crescimento sustentado.

O fim dos 20 centavos de reajuste
da passagem vai tirar a força das manifestações
ou elas tendem a migrar
para outras causas?

O Brasil é pródigo em explosões efêmeras de indignação. Mas minha intuição me diz fortemente que tende amigrar para outras causas. Os manifestantes foram vitoriosos. Os protestos, basicamente, mostraram que o brasileiro tem espinha dorsal e que ela não é flexível. Não é uma maria-mole.

Mas o governo vai ter caixa para
atender novas demandas, em áreas
como saúde e educação?

Vai ter de ter. A carga tributária do Brasil é de 36% do PIB. Cerca de 40% da renda gerada pelo trabalho dos brasileiros transita pelo governo – União, estados e municípios. Como é que os nossos serviços públicos são o que são? Essa é a pergunta fundamental dessa brincadeira toda. Gasta-se muito mal.

Criou-se um novo cenário eleitoral?
O cenário ficou bem mais aberto.

O sr. apoia a Marina Silva. Como a
situação repercute para eventuais
candidatos fora do poder?

Acredito que os 20 milhões de votos que a Marina recebeu foram apenas o prenúncio da insatisfação que hoje vemos nas ruas.

Eduardo Giannetti da Fonseca Economista associa temas cotidianos com teoria econômica
Mineiro de Belo Horizonte, cursou economia e ciência social na Universidade de São Paulo e o doutorado em economia na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Foi professor em ambas instituições. Seus artigos e livros têm a peculiaridade de estabelecer relações entre temas cotidianos e psicológicos com a teoria econômica

SEM VERGONHA... de protestar

 Zero Hora - 23/06/2013

A garota que parou o Congresso em 2001 ao sair nua contra o governo FHC ainda espera construir um Brasil socialista

Na semana em que caras, pintadas ou não, ajudaram a desenhar o maior movimento da juventude brasileira dos últimos 20 anos, alguém aí se lembra da "bunda-pintada"?

Carla Taís dos Santos, 33, ou Carlinha, para os mais chegados, recorda-se como se fosse ontem do dia em que "parou tudo" em Brasília, ao desfilar nua em frente ao Congresso Nacional.

Era 2001. A garota tinha 21 aninhos --e atributos típicos da idade, por exemplo os bem distribuídos 56 quilos, um generoso painel para abrigar frases do tipo "CPI Já".

Ao tirar a roupa contra o segundo governo de FHC (1999-2002), Carla, então presidente da Ubes (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas), ganhou fama nacional de "bunda-pintada".

Na semana passada, ela participou de uma manifestação em Novo Hamburgo (RS) que fechou a BR 116.

Dessa vez, ou seja, 12 anos depois da nudez, de roupa.

Considera a redução das tarifas uma grande vitória que deve ser comemorada e "servir de impulso para mais organização e novas conquistas", embora "ainda não inverta a lógica das máfias do transporte". Rechaça a proibição ou hostilidade às bandeiras de partidos nos atos.

"É um absurdo. Lutamos por 21 anos contra uma ditadura que fez exatamente o mesmo. Está na contramão da liberdade de expressão tão defendida nos protestos."

Acha que a depredação de bancos, grandes redes de lojas e ônibus não se justifica, mas "se explica". "Serão os empresários que mais lucram que pagarão a conta."

Já a do patrimônio público, "não faz o menor sentido, pois, além de ser mais um dinheiro que deixará de ser investido na educação e na saúde, divide e afasta o movimento". Só serve ao "prazer egoísta de quem se acha ultrarrevolucionário".

'TAPA-TETA'

Formada em letras pela USP, Carla hoje assessora uma das diretoras da Ancine (Agência Nacional do Cinema), Rosana dos Santos Alcântara. Jura que o cargo não é "boquinha", tampouco cota do PC do B, partido ao qual ela é filiada. "Mandei meu currículo para diferentes pessoas, e a Rosana conhecia minha história de orelhada."

Só de orelhada? "Hoje, sou uma outra mulher", diz, mas os sonhos continuam os mesmos da época de "bunda-pintada". "Se mudanças não começarem a acontecer, a rua continuará a aumentar o volume de seu grito. E eu estarei em todas as manifestações com a perspectiva de construir um Brasil socialista."

Ok, mas pretende ficar pelada de novo? "Tirar a roupa sempre me pareceu um gesto natural", filosofa Carla, que hoje só se despe para o namorado, com quem está há três meses, ou numa praia de nudismo, "pra extravasar".

Recorda-se, então, daquele momento que precedeu à nudez de Brasília. "Diante do Congresso, os manifestantes da Ubes precisavam de um desfecho para o protesto." Uns sugeriram velas; outros cogitaram "enterrar" um boneco de FHC, ideias que demandavam tempo e, é claro, uma corridinha ao mercado.

"Me lembrei de protestos na Europa em que as pessoas tiravam a roupa. Vamos ficar pelados", disse, para o espanto dos garotos. "Eu fico!" O carro de som virou camarim. Em cinco minutos, estava pintada de guache.

Quando saiu, surpresa! Cadê os peladões? "Rodei a baiana. Agora que estou aqui, vou até o final", disse.

A imagem estampada nos principais jornais do Brasil e do mundo derrubou a máxima de Andy Warhol: em vez dos 15 minutos de fama, o espetáculo de Carlinha na capital do país durou 20.

Com uma bandeirinha da Ubes cobrindo os seios, entrou no espelho-d'água do Congresso e organizou os estudantes para formar a palavra CPI deitados no gramado.

E por que raios escondeu os peitos? "Desde menina, tenho complexo dos meus seios. O que me incomoda é a forma. Acho caído. Nunca gostei dessa parte do meu corpo", diz Carla, em sua casa, numa vilinha no centro do Rio, onde vive desde março.

COMUNISTA TEEN

Apesar dessa relação, digamos, delicada, foram os seios que "empurraram" Carlinha para a política. Gaúcha de Campo Bom (RS), a "menina da roça", então com 11 anos, não curtia o uniforme da escola. A blusa apertava os peitos, motivo para ela organizar um abaixo-assinado.

Assistia à aula de matemática, quando foi chamada à diretoria para ser expulsa sob a alcunha de "comunista", baita palavrão na época.

Demorou menos de um ano para a "comunista" se infiltrar em grupos culturais, se amarrar na história de Olga Benário e assumir de fato a verdadeira identidade. Em novembro de 1999, Carlinha, que, quando menina, sonhava ser bailarina do Bolshoi, finalmente livra-se das aspas e torna-se comunista ao ingressar no PC do B.

Assim como o primeiro sutiã, que soltou a alça e machucou a menina aos 12 anos, o primeiro "livro comunista", ela nunca esquece: "30 Anos de Confronto Ideológico: Marxismo x Revisionismo".

Sem entender ao certo o que tudo aquilo significava, pintou, antes do corpo, a cara em protesto contra o presidente Collor. "Até meus pais, que votaram nele, me incentivaram a participar da passeata", lembra a gaúcha.

Filha de um mecânico e de uma comerciante, Carlinha tem uma irmã mais nova, de 29 anos, que é modelista.

Mas a guria mais velha sempre foi uma "rebelde com causas". No final de 99, já como presidente da Ubes, fugiu de casa, ao inventar que iria a um seminário de educação em Goiânia. Veio parar em São Paulo, onde dividiu uma república com 11 rapazes no bairro da Aclimação. Vivia na pindaíba, dura que só, à base de doações da entidade.

A "bunda-pintada" repercutiu, mas o que pintou de concreto? "Pintaram umas baixarias", brinca Carlinha, que chegou a ser assediada à época por congressistas. "Virei motivo de gozação: a peladona do PC do B, a banda pelada do partido", conta.

Qualquer bunda com outro sentido estava valendo, mas a dela era um problema. "Preconceito contra uma bunda politizada. Nunca quis virar celebridade. Meu sonho sempre foi e continua sendo fazer revolução no Brasil."

Como filiada a um partido que faz parte da base aliada do governo, acha que o PT está "fazendo uma revolução ao criar condições para isso". Lula é o "melhor presidente que o país já teve". Dilma representa "as mulheres no poder", mas "precisa de mais diálogo com os movimentos sociais". Mensalão? "Não há provas concretas nos autos."

"Libertária comunista" --assim se define--, é a favor do aborto, da legalização da maconha e da união homoafetiva. Não esconde discreto orgulho ao assumir que ainda desperta nos homens um "fetiche de pegar a Carlinha", aquela da "bunda-pintada".

Opiniões - Fábio Porchat


Dois chocolates e a conta com...HARRY LOUIS

O Globo - 22/06/2013

POR MARCELLA SOBRAL
marcella.sobral@oglobo.com.br


Harry Louis ficou conhecido por aqui quando
começou a namorar o estilista nova-iorquino Marc
Jacobs, em novembro de 2011. Mas, lá fora, o rapaz,
que nasceu numa cidade de Bambuí, de 20 mil
habitantes, em Minas Gerais, já era uma celebridade
— uma estrela da indústria de filmes adultos gays,
tendo participado de 32 produções. Há dois meses,
Harry saiu de seu apartamento em Londres para
abrir sua primeira loja de chocolates artesanais no
Rio, a HL Chocolates: “Não estou aqui de vez. Aliás,
eu não moro de vez mais em lugar algum.” Apesar
do pouco tempo na cidade, Harry poderia receber o
título honorário de Garoto de Ipanema. Tirando o
topete irretocável e um sotaque quase chegando à
Marginal Tietê, ele já aprendeu direitinho como ser
feliz no Rio de Janeiro. Trabalha em casa, vai à praia
todos os dias e tem um perfil bombado no
Instagram com quase 28 mil seguidores, repleto de
corpos sarados . A primeira coisa que ele fez, aliás,
foi tirar uma foto nossa — antes, teve que deletar
um dos 16 mil arquivos da memória do telefone.
Entre fotos, trocas de mensagens de voz e
filminhos, 4.162 são só com Marc.

REVISTA O GLOBO Onde você aprendeu a fazer chocolate?

HARRY LOUIS:
Os chocolates são uma receita caseira da minha avó,
Maria Celeste. Sempre gostei de cozinhar. Meus amigos me chamam
de Mama Harry. Sou superfamília, aliás. Tenho meus pilares,
que são a minha avó, a minha mãe, Kenia, minha irmã Cristiane
e Marilene, minha madrinha.

Seus chocolates hoje não têm nada de caseiros. São pequenas
joias. Dá até pena de comer.
 
Tem que comer, não pode ter pena. Assim vocês me quebram.
Foi na festa de aniversário do Lorenzo (ex de Marc) que as pessoas
ficaram sabendo dos meus dotes culinários. Fiz 300 chocolates
de cinco sabores diferentes, todos ficaram loucos. Para o Andrey
Leon Talley (editor da revista “Vogue”), naquele dia, era
Deus no céu e eu na terra. Quando ele viu que tinha mais, levou
um prato cheio de doces. Pensei que só brasileiro gostava de levar
quentinha.

Como você começou a fazer pornô?
 
Estava morando em Londres, tinha um perfil de pegação na internet,
me convidaram para fazer um casting, e eu fui. Em menos
de duas semanas, me chamaram. No primeiro filme, já tinha
feito meu nome. Todos queriam saber quem era aquele latino.

Foi a sua latinidade que mais chamou a atenção do público?
 
É lógico que foram os meus atributos. Acho que não foi a minha
carinha linda, não.

Tinha roteiro?
 
Não está escrito “ai-ai-ai”, “ui-ui-ui”. A única coisa que eu pedia
era que, se tivesse diálogo, que, pelo amor de Dadá, me entregassem
uns dois dias antes, porque na hora você tem que se preocupar
com outras coisas, né?

Você deixou a carreira quando começou a namorar o Marc?
 
Em 2011, eu já tinha decidido parar e abrir a minha própria produtora.
Mas meu sócio investidor era grego, e isso foi justamente
na época em que a Grécia quebrou.

Você mora no Rio e em Londres. Ele fica entre Paris e Nova
 
York. Dá para namorar assim?
A gente tem uma megaconfiança um no outro. Quando a gente
está away, sempre encontra tempo para ligar, mandar uma foto.
Ele está sempre me incluindo no que faz.

Você chegou aqui justamente na época do debate sobre a liberação
do casamento gay.
 
É uma sina. Sempre estou num lugar em que o casamento gay
está sendo aprovado. Cheguei na Espanha e liberaram o casamento
gay, em Londres, a mesma coisa. E agora aqui.

Você já encontrou alguém para cortar o cabelo por aqui?
Já, é do W, lá em São Paulo. Eu postei uma foto depois de cortar o
cabelo, e o David, o meu cabeleireiro lá de Londres, botou uma
carinha triste no Instgram. Sorry, David.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Quanto mais Wilder, melhor - Por LUIZ CARLOS MERTEN

 O Estado de S.Paulo - 19/06/2013



Billy Wilder ganhou duas vezes o Oscar de direção - por Farrapo Humano, em 1945, e Se Meu Apartamento Falasse, de 1960. Por mais merecidos que tenham sido os prêmios, onze entre dez críticos serão capazes de jurar que Wilder merecia mais - ou que a Academia de Hollywood errou. Se era para premiar um de seus clássicos noir, Pacto de Sangue e Crepúsculo dos Deuses teriam sido escolhas mais certeiras. E, quanto às comédias, se Quanto Mais Quente Melhor foi escolhida pelo American Film Institute como a melhor de todos os tempos, como - sim, como - foi ignorada pela mesma Academia?

Quando Wilder morreu - de pneumonia, em 2002, aos 95 anos -, não dirigia havia mais de uma década. Buddy, Buddy/Amigos, Amigos, Negócios à Parte é de 1981. Não foi um fecho de ouro para uma carreira tão brilhante, mas o grande diretor passou seus últimos anos recebendo honrarias e homenagens - e também trabalhando, com espartana dedicação a projetos que nunca mais se concretizaram. Seu nome virou sinônimo de humor crítico, corrosivo. Wilder como diretor de comédias era uma consequência de seu começo como roteirista de Ernst Lubitsch. Mas Wilder fez um atalho e, antes de se estabelecer como rei do humor, exercitou-se no cinema noir.

Todo Wilder estará agora de volta na grande retrospectiva que o Cinesesc dedica ao grande artista e que começa amanhã. Todo Wilder! Para cada uma de suas fases,teve um colaborador – Charles Brackett para
os filmes noir; I.A.L. Diamond para as comédias. Wilder nasceu em Viena, filho de um hoteleiro,em 1906.Foi jornalista e roteirista de Robert Siodmak. Conta a lenda que teria tentado entrevistar o próprio Sigmund Freud. O advento do nazismo levou-o a fugir e, antes dos EUA, ele passou pela França, onde fez o primeiro longa, La Mauivaise Graine, com Danielle Darrieux, em 1933. Nos EUA, estreou com A Incrível Suzana, nove anos mais tarde. O filme conta a história deumhomem que se envolve com uma garota disfarçada de menino, num trem. O jovem Wilder já abordava temas um tanto escabrosos, como pedofilia e homossexualismo, mas Ginger Rogers, que fazia a travesti, já era mulher,e isso saltava aos olhos.

Pacto de Sangue, baseado numa história de James M. Cain, é considerado o mais noir dos filmes noir. A mulher fatal Barbara Stanwyck induz Fred Mac- Murray a matar seu marido, mas Edward G. Robinson, como o agente da seguradoras, não se deixa enganar.Com Farrapo Humano, investigando a mente enferma de um alcoólatra, durante um fim de semana de abstinência, Wilder ganhou o primeiro Oscar. O filme é o protótipo do que ficou conhecido como “problem movie”, o filme-problema, consciente de sua dimensão social. Exagera, talvez, nos efeitos de luz e sombra – a herança expressionista e,com certeza, não é um grande Wilder,um dos melhores, pelo menos. Crepúsculo dos Deuses, com seu olhar arguto sobre os bastidores de Hollywood, é melhor.

A estrela Norma Desmond contrata um roteirista para escrever o filme que marcará seu retorno triunfal à tela. Gloria Swanson cria uma personagem maior que a vida – e lamenta para William Holden como os filmes ficaram pequenos. O desfecho é antológico a enlouquecida Norma, depois de matar o roteirista, prepara-se para o “close”. Pedro Almodóvar, que é fã de Billy Wilder, diz que só aquilo já vale a existênciadocinema. O diretor ainda fez A Montanha dos Sete Abutres em 1951, mas seu ataque à imprensa sensacionalista – no personagem de Kirk Douglas –, foi muito avançado para a época e o público rejeitou o filme (que hoje é cult). Wilder deu então a grande guinada para o humor,com uma comédia desenrolada num campo de prisioneiros, durante a 2.ª Guerra Mundial, Inferno 17.

Veio o interregno romântico de Sabrina – o que quer a personagem de Audrey Hepburn? O marido rico ou o príncipe encantado? O humor impôs-se com dois tributos a Marilyn Monroe, o Pecado Mora ao Lado e Quanto Mais Quente Melhor. De novo o travestismo: Tony Curtis e Jack Lemmon vestem-se  de mulher. E tem ainda a frase que entrou para a história,“Ninguém é perfeito”. Wilder nunca parou de surpreender. Antecipou a débâcle do comunismo (o jogo imperialista de Cupido Não Tem Bandeira), fez o mais hitchcockiano dos filmes de suspense que Alfred Hitchcock não assinou (A Vida Íntima de Sherlock Holmes), voltou aos bastidores da imprensa (A Primeira Página) e do cinema (Fedora). O ciclo vai exibir cópias novas de longas com o Crepúsculo, Quanto Mais Quente e Pacto de Sangue. Wilder não gostaria do chavão,mas não há como fugir. A roupa nova só vai ajudar a mostrar que Wilder talvez só se tenha enganado uma vez. Ninguém é perfeito, mas não nada. O cinema dele é (perfeito).

Ecos de segunda

Foto: Paulo Giandalia/Estadão

Não foi só na internet que os artistas demonstraram seu apoio aos atos de anteontem. Muitos fizeram questão de ir ao Largo da Batata, em São Paulo. Ná Ozzetti, que participou da campanha pelas Diretas Já, contou à coluna que, na década de 80, o Brasil era outro. “Mas estou muito orgulhosa desses jovens de hoje. É importante sair às ruas e temos de aproveitar o benefício da internet”, disse a cantora.

Já a atriz Nathália Rodrigues, paulistana, considera o dia 17 de junho um marco de sua geração. “Estou aqui contra tudo o que acontece nessa politicagem e também para apoiar o movimento”, disparou, em meio a gritos de “veeeeem, veeeem, vem para rua, veeeem, contra o aumento!”.

Claudia Missura estava com um grupo de amigos, entre eles Gero Camilo, agachados e com maços de flores nas mãos. A atriz, que fez o papel de Janaína em Avenida Brasil, contou que mora em São Paulo há 20 anos e que são necessárias melhorias na cidade. “Estou achando linda essa demonstração de democracia, sem partido”, contou. Também participaram da passeata Criolo e Laerte.

 /MARILIA NEUSTEIN

Estadão - 19/06/2013

Editoriais 19/06/2013

O Globo 

Corrupção é o foco

 Mesmo que as reivindicações sejam várias e muitos cartazes exibam anseios mal explicados ou utopias inalcançáveis, há um ponto comum nessas manifestações dos últimos dias: a luta contra a corrupção. A vontade de que o dinheiro público seja gasto com transparência e que as prioridades dos governos sejam questões que afetam o dia a dia do cidadão, como saúde, educação, transportes, está revelada em cada palavra de ordem, até mesmo nas que parecem nada ter a ver com o fulcro das reivindicações, como no protesto contra a PEC 37.

Nele está contido o receio da sociedade de que, com o Ministério Público impedido de investigar, o combate à corrupção seja prejudicado. Todas as questões giram em torno do dinheiro público gasto sem controle, como nos estádios da Copa do Mundo, todos com acusações de superfaturamento. O dinheiro que sobra para construção de "elefantes brancos" falta na construção de hospitais ou sistemas de transportes que realmente facilitem a vida do cidadão.

O mundo político está de cabeça para baixo tentando digerir as mensagens que chegam da voz rouca das ruas, como dizia Ulysses Guimarães, que dizia também que "a única coisa que mete medo em político é o povo na rua". Ninguém entende, por exemplo, por que houve esse verdadeiro estouro da boiada agora, e não há um mês ou mesmo há um ano.

Tenho um palpite: assim como as manifestações na Tunísia, as primeiras da Primavera Árabe, começaram com o suicídio de Mohamed Bouazizi, de 26 anos, vendedor ambulante que ateou fogo ao corpo depois de proibido de trabalhar nas ruas por não ter documentos nem dinheiro para pagar propinas aos fiscais, as manifestações aqui foram grandemente impulsionadas pela reação violenta da polícia em SP semana passada.

O movimento contra o aumento das passagens de ônibus poderia não ter a amplitude que ganhou se não houvesse uma reação nas redes sociais à atitude da polícia, como se todos sentissem a opressão do Estado na sua pele, e de repente liberassem os diversos pleitos que estavam latentes na sociedade.
Creio que foi a partir do entendimento de que uma reivindicação justa como a da redução das tarifas de ônibus estava sendo tratada simplesmente como um pretexto para arruaças e vandalismos que a sociedade passou a se mobilizar para ampliar suas reivindicações.

Isso nada tem a ver com comparações entre as mobilizações que ganham as principais cidades do país e a Primavera Árabe, pois estamos em uma democracia e não se trata de derrubar governos, mas de mudar a maneira de geri-los, política e administrativamente. E também não é possível considerar que os abusos de um dia impedem as polícias de reprimir a parte radicalizada das manifestações, que vandaliza cidades ou tenta invadir prédios públicos ou residências das autoridades.

Creio mesmo que no Rio e em São Paulo as autoridades ficaram paralisadas diante da violência de parte dos manifestantes e não agiram com o rigor devido nessas ocasiões. O que demonstra falta de bom senso. Um detalhe que define bem a divisão desses movimentos foi o grupo de jovens que foi ao Centro do Rio ontem tentar limpar e consertar em parte o que os vândalos fizeram no dia anterior. E em São Paulo, em frente ao Palácio dos Bandeirantes, enquanto um grupo tentava derrubar o portão de entrada, outros o recolocavam no lugar.

O ambiente econômico também deve ter contribuído para quebrar aquela falsa sensação de bem-estar. E é impressionante que o imenso aparato de informações de que cada governo dispõe, especialmente a Presidência da República, e as pesquisas de opinião não detectaram a indignação que explodiu nas ruas.
O dono de um desses institutos de opinião que vende seus serviços para o PT, e acrescenta a eles, como um bônus, comentários em revistas chapas-brancas, chegou a ironizar as oposições e analistas que criticavam o governo, afirmando que viviam em uma realidade paralela, que nada tinha a ver com a vida do cidadão comum, que estava muito satisfeito. Segundo ele, não havia sinal de mudança de ventos que suas pesquisas pudessem captar.

Também o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência, que anunciou que "o bicho vai pegar", parece estar atordoado com o bicho novo que está pegando sem que ele ou o PT dominem a situação.

 O Globo 


Decifrar as mensagens da rua

 

Aestimativa de que cerca de 240 mil pessoas estavam nas ruas, no início da noite de terça-feira, em 11 capitais, para protestar já é algo significativo. Mais do que isso, são as imagens e o sentido do que aconteceu anteontem neste país que colocam a data de 17 de junho de 2013 no calendário dos grandes acontecimentos políticos e sociais dos últimos 28 anos, desde o início da redemocratização, em 1985, com a posse de José Sarney na Presidência.

As cenas de violência e vandalismo - ocorridas principalmente no Rio, na tentativa de invasão da Assembleia Legislativa, e na não menos criminosa depredação de bancos e estabelecimentos comerciais na área, além da pichação do Paço, patrimônio nacional - não conseguem reduzir o peso das mensagens que as ruas têm transmitido nestes últimos dias a governos, políticos e partidos da situação e da oposição.
A partir da descontrolada ação da PM paulista, na quinta-feira da semana passada, o movimento pelo "passe livre" no transporte público, deflagrado com o último aumento de tarifas, recebeu maciças adesões em escala nacional e passou a ganhar outra dimensão.

Não que a chamada (i)mobilidade urbana já não criasse imensas dificuldades para as pessoas, principalmente as de renda mais baixa, a grande maioria. E não só em função do custo, mas pelo crescente sacrifício físico que milhões de pessoas passam diariamente nas capitais brasileiras para se locomover. É que o movimento, deflagrado e organizado por meio das redes sociais, tem a questão do transporte público apenas como uma chave que destampa e coloca nas ruas a insatisfação acumulada nos últimos anos com uma sucessão de distorções. É a tal sensação difusa de desconforto com "tudo isso que está aí", amplificada pela volta da inflação.

A mobilização política ressurge no Brasil de um movimento subterrâneo, surdo, invisível, mas bastante ativo, a partir da rede mundial de computadores. O fenômeno não é novo, acontece em escala planetária. Mas há peculiaridades regionais. Onde existe liberdade, redes sociais facilitam a organização de grupos na defesa de pautas específicas. Em ditaduras, ajudam a driblar censores, a repressão política.

No Brasil, país democrático, vivia-se um longo período de inércia política. A situação, confortável no poder, e a oposição, também passiva, incapaz de metabolizar a fermentação das insatisfações que há tempos trafegam nas redes. As ruas acabam de atropelar ambas - má notícia para a democracia representativa, ruim para a estabilidade institucional.

É míope a tentativa de capitalização político-eleitoral desta espécie de erupção vulcânica. A questão é tão mais ampla quanto profunda. Devem ser entendidos por suas excelências do Executivo e do Legislativo gestos de manifestantes contra cartazes e bandeiras de partidos nas passeatas, mesmo os identificados com a extrema-esquerda. O representante da juventude do PT em Brasília foi escorraçado na tentativa de participar do comando da manifestação à frente do Congresso.

Toda esta mobilização conseguiu atravessar fronteiras geracionais, etárias e sociais. Pode ser que lá na origem de tudo tenham atuado grupos politizados, sem identificação com o estado de coisas na política brasileira. Não importa. Quando casais com filhos pequenos vão às ruas, ao lado de idosos, gente de toda idade, é porque apareceu algo novo no radar da sociedade. Maurício Matheus, a mulher, Thaís, com o filho João, de um ano e meio, foram entrevistados pelo GLOBO, em São Paulo. Preso ao macacão de João, o cartaz: "Não é por 0,20, é por direitos". Explicou o pai: "É um grito de socorro, precisamos de união e força para vetar os abusos ao povo." E existem diversas formas de abusos. No desprezo de políticos e governantes pela ética, por exemplo.

Se era urgente, diante do ronco das ruas tornou-se emergencial retomar a reforma da moralização do degradado quadro político-partidário. A Lei da Ficha Limpa foi vitória histórica, conquistada por grande mobilização, também pela internet, em torno de um projeto de origem popular. A vigilância continua necessária, agora para a sua aplicação correta.

É hora de voltar a atacar a pulverização partidária. Por erro técnico de encaminhamento - não pode ser por projeto de lei simples, mas emenda constitucional -, o Supremo rejeitou cláusula de barreira a legendas de rarefeito apoio entre os eleitores, mecanismo usado em democracias maduras. A fórmula elaborada é boa, basta resgatá-la das gavetas: para ter representação no Congresso, toda legenda necessita de, no mínimo, 5% dos votos nacionais e 2% em pelo menos nove estados.

Acabada a pulverização partidária, facilita-se a formação de alianças e reduz-se a margem para o uso de meios espúrios para a obtenção de maiorias. Um antídoto contra mensalões. Outra medida, também disponível nos escaninhos do Congresso - basta vontade política para resgatá-la -, é o fim da coligação em eleições proporcionais, pela qual o eleitor pode ser vítima de uma fraude, por ter o voto contabilizado para quem ele não conhece e em quem talvez não votasse. A conjugação dessas duas reformas ajudará a restabelecer uma seriedade mínima no jogo partidário. Se vigorassem há algum tempo, o político não teria sido transformado no Judas predileto de manifestantes.

O ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, setorista de "movimentos sociais", confessou, na manhã de ontem, ainda não compreender o que acontece. Foi honesto. Seu mundo é o das organizações formais, em que há líderes visíveis, conversáveis e cooptáveis. A presidente Dilma Rousseff, ex-militante, presa política, não poderia ter outra reação: o governo "está ouvindo essas vozes pela mudança". E, entre as vozes, a presidente identificou o "repúdio à corrupção e ao uso indevido do dinheiro público". Parece na pista certa a presidente.

Ao se investir contra a Copa das Confederações, ensaio para a Copa do Mundo, no ano que vem, com suas amplas e modernas "arenas", critica-se a incapacidade de o governo federal colocar os bilhões que arrecada de um contribuinte cada vez mais sobrecarregado de impostos naquilo que atenda às necessidades diretas da população: educação, saúde, transporte urbano, segurança.

Em vez disso, o poder público não para de ampliar os gastos em custeio, sem privilegiar os investimentos. E, quando investe, escolhe, por exemplo, projetos faraônicos como o do trem-bala entre Rio e São Paulo, dinheiro que poderia vir a ser aplicado na malha de transporte sobre trilhos nas grandes regiões metropolitanas, para promover de fato a mobilidade urbana.

As mensagens são várias. A torcida é para que os políticos, no poder e fora dele, as decifrem de maneira correta. A estabilidade institucional, em alguma medida, dependerá disso.

Correio Braziliense

Visão do Correio :: Manifestação sem vandalismo

 

O Brasil voltou a sentir orgulho de sua juventude que, desmentindo todas as suposições e até estudos profundos de especialistas, foram às ruas protestar, primeiro contra o aumento das tarifas de ônibus em São Paulo, depois pela péssima qualidade do transporte público. Em seguida, engrossaram o movimento com mais gente e mais bandeiras de insatisfação, lotando ruas, avenidas e praças nas principais cidades brasileiras.

Muita coisa que vinha povoando o desgosto das pessoas nos últimos anos entrou na lista, como as humilhantes filas do serviço de saúde, a cachoeira de denúncias de corrupção, as macabras estatísticas de mortos e feridos nas rodovia precárias, tudo sob a alegação da escassez de verbas, apesar dos gastos exorbitantes com a construção a toque de caixa de monumentais estádios, mesmo em cidades em que os melhores times não alcançam as divisões de elite do futebol brasileiro.

Melhor ainda foi constatar que os cerca de 250 mil que foram às ruas, a maioria jovens, não foram recrutados por partido algum. Pelo contrário, repeliram as toscas tentativas de agremiações políticas que tentaram pegar carona na energia contagiante dos manifestantes que fizeram da quinta-feira uma dia inesquecível. “Desculpem o transtorno. Estamos mudando o Brasil”, dizia uma das faixas levadas por jovens que demonstravam saber que faziam algo para ficar marcado na história de cada um e de todo o país.

Os protestos, face às vezes incômoda, mas sempre saudável da democracia, foram claramente mobilizados pelas redes sociais da internet com o propósito de chamar a atenção das autoridades, todas elas, e dos políticos para o esgotamento da paciência da cidadania em relação à falta de soluções para velhas questões. São problemas revoltantes, mas nem por isso os manifestantes pretendiam tirar sua mobilização da condição de protesto pacífico, até porque essa é uma das condições que o tornam respeitável.

Mas foi aí que apareceram os vândalos, os baderneiros, os incivilizados, sempre prontos a manchar com a sua estupidez tudo que a boa-fé produz. São eles que provocam a reação violenta — nem sempre justificável — dos policiais chamados a guardar bens públicos, bem como a garantir o mínimo de segurança e mobilidade para os cidadãos não envolvidos nas manifestações. Em Brasília, tentaram levar sua fúria destruidora para o espaço interno do Congresso. No Rio de Janeiro, agiram como um bando de selvagens descontrolados ao violarem e depredarem parte do histórico prédio da Assembleia Legislativa, causando ao povo prejuízo calculado em R$ 2 milhões. Em Belo Horizonte, apedrejaram lojas na Região da Pampulha e, em Porto Alegre, incendiaram um ônibus. Ontem, em São Paulo, voltaram a aprontar em frente à prefeitura da cidade.

É certo que são minoria e não devem ser confundidos com o grosso dos manifestantes. Mas nem por isso podem ficar impunes. Precisam ser identificados, punidos e levados à execração pública, não apenas pelos danos ao patrimônio alheio, mas também por terem atirado contra a democracia.

 O ESTADO DE S. PAULO

 VONTADE DE FALAR 

 Das dezenas de frases de participantes e entusiastas das manifestações da segunda-feira em 12 capitais brasileiras, citadas pela imprensa para dar uma ideia do espírito dos protestos, provavelmente a mais expressiva tenha sido a da ex-voleibolista Ana Beatriz Moser. "O importante é esse coro, essa vontade de falar. Os governantes têm de ouvir."

Em um País onde a última vez em que centenas de milhares de pessoas saíram de casa para se fazer ouvir pelos governantes foi em 1992, com o coro "Fora Collor", não é fácil de explicar a presumível acomodação da juventude, em contraste com o histórico de proliferação de atos públicos de massa no exterior (contra alvos diversos como a globalização, os transgênicos, a invasão do Iraque, o poder de Wall Street, as políticas recessivas na Europa, as tiranias árabes e, agora, o autoritarismo do governo livremente eleito na Turquia).


Pode-se argumentar que, desde o Plano Real no governo Itamar Franco, que assumiu no lugar de Collor, o Brasil amealhou mais notícias boas do que más - embora não raras entre essas tenham se tornado péssimas, a exemplo da criminalidade. O ciclo virtuoso de 18 anos - das administrações Fernando Henrique e Lula à primeira metade do mandato da presidente Dilma Rousseff - promoveu o crescimento e generalizados aumentos de renda real, principalmente entre os mais pobres. O consumo explodiu e só não atordoou os grupos engajados nas causas chamadas "pós-materialistas", como a defesa do meio ambiente, a proteção das comunidades indígenas, os direitos dos negros, mulheres e minorias sexuais. É tentador, mas arriscado, estabelecer uma relação direta e exclusiva entre a volta da inflação e os pibinhos, de um lado, e a eclosão do descontentamento, de outro. Mas seria míope negar qualquer nexo entre a economia em baixa e a insatisfação em alta.


De fato, foi o aumento das passagens de ônibus em São Paulo, na esteira dos de Porto Alegre e outras cidades, que fez o trânsito parar de vez. Na capital paulista, a brutalidade policial que se seguiu aos atos de vandalismo registrados na primeira passeata, no começo da semana passada, acirrou a indignação, deu nova motivação para a ida às ruas e remeteu a segundo plano (mas sem eliminar) as reclamações contra o preço dos bilhetes.


Esse é o dado crucial da onda de protestos que juntou anteontem mais de 230 mil pessoas do Pará ao Rio Grande do Sul - só no Rio foram cerca de 100 mil, com a Avenida Rio Branco tomada por compacta multidão fazendo lembrar as marchas pelas Diretas Já em 1984.


Deu uma vontade de falar que não se sabe como, quando ou se será aplacada: contra os padecimentos que o Estado impõe ao povo com os seus serviços de terceira e indiferença de primeira, a começar da saúde e educação públicas; contra os políticos e autoridades em geral que so cuidam dos seus interesses e são tidos como corruptos por definição; contra a selvageria do cotidiano por toda parte; contra a truculência das PMs; contra a lambança dos gastos com a Copa, que pegou de surpresa a cartolagem e seus parceiros no governo federal - e tudo o mais que se queira denunciar. Afinal, os jovens não se sentem representados por nenhuma instituição e desconfiam de todas. Tampouco a imprensa lhes merece crédito.


Consideram-se mais bem informados pelos seus pares das redes sociais do que pela mídia. É também na internet que . encontram argumentos para as suas críticas, colhem e se prestam solidariedade, cimentando a coesão grupal.


Entre a quarta-feira passada e a noite da última segunda, 79 milhões de mensagens sobre as marchas foram trocadas pelos internautas. O senso de autocongratulação - "a juventude acordou" - e a natureza difusa de suas queixas combinam-se para dificultar a discussão de pautas específicas de mudança em eventuais encontros com agentes públicos. Como se diz, faz parte: o protesto precede à proposta. O lado bom das jornadas dos últimos dias, além do caráter em geral pacífico das manifestações, foi a preocupação com o País. "Parem de falar que é pela passagem", comentou um jovem. "É por um Brasil melhor."



VALOR ECONÔMICO

 DIFUSAS INSATISFAÇÕES TOMAM AS RUAS DO PAÍS

 A juventude brasileira está em pé de guerra e avisou isso claramente aos governantes nas passeatas que reuniram centenas de milhares de pessoas em 11 capitais. O sistema de transporte público e seus preços foram os alvos imediatos das manifestações, que ganharam impulso a partir de São Paulo, mas são um símbolo dos péssimos serviços oferecidos pelas três esferas de governo em outras áreas vitais para o bem-estar dos cidadãos - saúde, educação, e segurança, por exemplo.

Outros simbolismos desfilaram pelas ruas das capitais na segunda-feira. A relativa espontaneidade do movimento e seu comando refratário a partidos indicam, no mínimo, uma primeira condenação implícita dos objetivos, ações e resultados das legendas que governam o país. O PT, o partido que saiu das ruas no passado, foi deixado de lado e a reação do governo, ora de estupefação, ora de indignação, deixa no ar a possibilidade de o auge do partido ter ficado para trás. Símbolos também, estudantes e jovens catalisam, mais uma vez na história, insatisfações disseminadas por vastas camadas sociais.


Há dois momentos do movimento que desaguou com força nas capitais e a distinção é importante. O Movimento do Passe Livre paulistano sempre protestou toda vez que as passagens aumentaram, mas a adesão a seus protestos era pequena, e os resultados, nulos. Sua insistência, após várias derrotas, e seu propósito simples e claro, o qualificou como um dos poucos canais de protesto em potencial de reivindicações que interessam à maioria do público urbano e diferentes categorias profissionais. Embora este ano houvesse mais pessoas nos primeiros atos contra o aumento das passagens, o movimento não tinha ultrapassado ainda o estágio de uma minoria barulhenta, incapaz de controlar, como é frequente, a violência de setores que o apoiam.


Até que - o segundo momento - uma passeata inicialmente pacífica no dia 13 de junho foi dissolvida com requintes de crueldade e selvageria pela polícia do governo paulista, a quem cabe a responsabilidade pela agressão a um direito democrático. Não houve dúvidas de que a polícia atacou primeiro e estava ali para expulsar brutalmente cidadãos que protestavam.


A partir daí, diante de cidadãos atônitos e revoltados com a atitude da polícia paulista, a adesão ao movimento cresceu exponencialmente porque uma outra questão, mais importante que o preço da passagem de ônibus, estava em jogo - a da liberdade de reunião e manifestação. Os brasileiros se tornaram ciosos dela desde quando forçaram, igualmente nas ruas, a queda da ditadura militar. A causa do Passe Livre ganhou a simpatia popular e intergeracional que até então não havia conseguido.


Para as manifestações de segunda-feira, primeiro movimento de grandes massas convocado pelas redes sociais, confluíram por gravidade todas as demandas sociais a que os governos deveriam atender e para as quais mostram, ano após ano, partido após partido, uma inépcia desconcertante. Não por acaso, as manifestações ocorridas em São Paulo (pelo menos 65 mil pessoas), no Rio (100 mil) e em Brasília (mais de 10 mil) buscaram o Legislativo - o Congresso Nacional e a Assembleia Legislativa do Rio. Os protestos apontaram também a responsabilidade pelo estado atual das coisas dos políticos, cuja omissão, no caso dos Legislativos estaduais e municipais, tornou-se uma lamentável tradição.


O PT, o único partido de massas do país, fica mal na história após o 17 de junho. Ainda que não tenha sido diretamente rechaçado, a rapidez com que se metamorfoseou em um partido como os outros, interessado no poder e suas benesses, e a facilidade com que jogou fora sua ideologia para formar bases de apoio governistas com o que de pior há na política brasileira, fizeram com que fosse olhado com desconfiança por alguns movimentos sociais que antes tinham com ele afinidades eletivas.


Movimentos difusos como o capitaneado pelo Passe Livre podem obter vitórias em suas reivindicações, para depois sumirem do mapa político. Mesmo que haja muito deslumbramento com o poder das redes sociais, a política continua sendo uma velha senhora rabugenta. Ou surgem novos líderes que aceitem conviver com ela, ou os movimentos exercerão pressão de fora, com mobilizações pontuais e pressão permanente das ruas - uma novidade por aqui. A terceira via possível é o desânimo.


 ESTADO DE MINAS

 MANIFESTAÇÃO SEM VÂNDALOS

 Protestos que lotam as ruas não podem ser manchados pela minoria

O Brasil voltou a sentir orgulho de sua juventude que, desmentindo todas as suposições e até estudos profundos de especialistas, foi às ruas protestar, primeiro contra o aumento das tarifas de ônibus em São Paulo, depois pela péssima qualidade do transporte público. Em seguida, engrossou o movimento com mais gente e mais bandeiras de insatisfação, lotando ruas, avenidas e praças nas principais cidades brasileiras. Muita coisa que vinha povoando o desgosto das pessoas nos últimos anos entrou na lista, como as humilhantes filas do serviço de saúde, a cachoeira de denúncias de corrupção, as macabras estatísticas de mortos e feridos nas rodovias precárias, tudo sob a alegação da escassez de verbas, apesar dos gastos exorbitantes com a construção a toque de caixa de monumentais estádios, mesmo em cidades em que os melhores times não alcançam as divisões de elite do futebol brasileiro.


Melhor ainda foi constatar que os cerca de 250 mil que foram às ruas, a maioria jovens, não foram recrutados por partido algum. Pelo contrário, repeliram as toscas tentativas de agremiações políticas que tentaram pegar carona na energia contagiante dos manifestantes que fizeram da segunda-feira um dia inesquecível. "Desculpem o transtorno. Estamos mudando o Brasil", dizia uma das faixas levadas por jovens que demonstravam saber que faziam algo para ficar marcado na história de cada um e de todo o país. Os protestos, face às vezes incômoda, mas sempre saudável da democracia, foram claramente mobilizados pelas redes sociais da internet com o propósito de chamar a atenção das autoridades, todas elas, e dos políticos para o esgotamento da paciência da cidadania em relação à falta de soluções para velhas questões. São problemas revoltantes, mas nem por isso os manifestantes pretendiam tirar sua mobilização da condição de protesto pacífico, até porque essa é uma das condições que o tornam respeitável.


Mas foi aí que apareceram os vândalos, os baderneiros, os incivilizados, sempre prontos a manchar com a sua estupidez tudo que a boa-fé produz. São eles que provocam a reação violenta – nem sempre justificável – dos policiais chamados a guardar bens públicos, bem como a garantir o mínimo de segurança e mobilidade para os cidadãos não envolvidos nas manifestações. Em Brasília, tentaram levar sua fúria destruidora para o espaço interno do Congresso. No Rio de Janeiro, agiram como um bando de selvagens descontrolados ao violarem e depredarem parte do histórico prédio da Assembleia Legislativa, causando ao povo prejuízo calculado em R$ 2 milhões, além de invadirem e roubarem comida de um restaurante, com dano de valor inestimável à imagem da Cidade Maravilhosa. Em Belo Horizonte, apedrejaram lojas na Região da Pampulha, e em Porto Alegre, incendiaram um ônibus. Ontem, em São Paulo, voltaram a aprontar em frente à prefeitura.
É certo que eles são minoria e não devem ser confundidos com o grosso dos manifestantes. Mas nem por isso podem ficar impunes. Precisam ser identificados, punidos e levados à execração pública, não apenas pelos danos ao patrimônio alheio, mas também por terem atirado contra a democracia.


 GAZETA DO POVO (PR)

 BRASILEIROS NAS RUAS

 Na segunda-feira, os cidadãos rejeitaram as tentativas de direcionar ou monopolizar a pauta das manifestações, e sentiram-se livres para mostrar seu descontentamento com as mais diversas situações

Nunca o bordão “contra tudo isso que está aí” foi tão verdadeiro quanto nas manifestações que tomaram o Brasil na noite de segunda-feira, e se repetiram ontem em algumas cidades. O movimento que começou na semana anterior, motivado por aumentos na tarifa do transporte público em várias capitais e marcado por atos de vandalismo, sofreu uma metamorfose: dezenas de milhares de brasileiros protestaram pacificamente e apresentaram reivindicações as mais variadas possíveis – de temas locais (em Curitiba, por exemplo, a falta de táxis estava entre os temas observados nos cartazes) aos grandes assuntos nacionais, como a corrupção e a PEC 37, que deve ser votada até o fim do mês e que retira o poder de investigação do Ministério Público.
É verdade que ainda tem havido casos inaceitáveis de vandalismo, especialmente no Rio de Janeiro, onde a Assembleia Legislativa e prédios no entorno foram atacados anteontem; e em São Paulo, ontem, com depredação no prédio da Prefeitura e um carro de reportagem incendiado. Mas essas foram exceções; o tom das manifestações de segunda-feira foi pacífico a ponto de muitos pais terem levado até as crianças para presenciar um momento incomum da história brasileira, e os exemplos positivos, como o silêncio dos manifestantes curitibanos ao passar diante da Santa Casa, são os que merecem divulgação. O poder público também percebeu que não pode agir com violência contra as passeatas. A lição foi especialmente aprendida em São Paulo, depois das cenas de excesso policial da quinta-feira passada.


Em várias ocasiões, a Gazeta do Povo louvou o exemplo de nossos vizinhos argentinos, que não hesitam em tomar as ruas para protestar contra os desmandos de seus governantes. Embora ainda seja cedo para concluir que o brasileiro finalmente venceu a apatia que lhe é atribuída, os protestos revelam que o cidadão tem, sim, uma sede de participação política que vai além do voto a cada dois anos – aliás, é interessante perceber como outro bordão, o “não me representa”, dessa vez dirigido aos partidos políticos como um todo, também foi uma característica marcante das manifestações de anteontem. Ao impedir que as agremiações de esquerda monopolizassem ou direcionassem a pauta dos protestos, os brasileiros puderam mostrar livremente seu descontentamento com uma série de situações.


Mas é justamente nesse caráter difuso do movimento popular que reside uma de suas fraquezas. Se as reivindicações se mantiverem em um nível mais abstrato, a falta de um projeto consistente pode levar a uma ausência de resultados que frustre todos aqueles que tanto se empenharam – trazendo de volta a apatia, dessa vez com muito mais força. Outro risco é o de que radicais e aventureiros se aproveitem do clima de indignação generalizada para propor soluções de cunho inclusive antidemocrático, ou que se apropriem do movimento sem efetivamente representar os anseios da população que vai às ruas. É fácil comparar os protestos brasileiros com a Revolução Francesa nas mídias sociais, como se fez semana passada; difícil é lembrar que a revolta dos franceses do século 18 degringolou até chegar ao Terror.


O que estamos presenciando é uma grande oportunidade de aprendizado para o brasileiro: para que ele procure conhecer as causas e pense em soluções para as situações que o revoltam; para que ele desenvolva seu interesse pela coletividade e abandone o individualismo que tanto mal faz à sociedade; para que ele aprenda a dialogar e entender o ponto de vista de quem pensa diferente. Se a insatisfação crescente do brasileiro for canalizada para boas causas, ela será frutífera. Dissemos acima que a participação política transcende o exercício do voto, mas também as urnas oferecerão uma oportunidade para que a indignação se transforme em ação concreta. Exercer o voto consciente e se mobilizar por uma autêntica reforma político-eleitoral, baseada nos princípios republicanos e não nas conveniências da classe política, são atitudes que não deixarão os protestos nas ruas terminarem no vazio.


 ZERO HORA (RS)

 O RECADO DOS JOVENS 

 A história está repleta de datas que sintetizam espíritos e épocas. Sem esperar pelo veredicto da posteridade, já é possível afirmar que o 17 de Junho é o retrato de um novo Brasil. O país que foi para as ruas protestar na segunda-feira reflete um novo estado de ânimo de uma ampla parcela da população: rejeição à corrupção e ao descaso com a coisa pública, desconfiança de governantes e partidos, indignação com a desproporção entre os gastos com grandes eventos, por um lado, e com saúde, educação e transporte, por outro. O país que tomou praças e avenidas sente os efeitos da alta de preços de alimentos e serviços. A nação que tomou a palavra antevê, para além dos sinais incipientes de turbulência econômica, os percalços de um futuro que parece menos auspicioso do que há alguns anos. Sua voz ergue-se também contra governos, parlamentares, corporações e meios de comunicação. Pode-se saudar ou rejeitar a emergência desse Brasil do 17 de Junho. Mas não se pode ignorá-lo.

É utópico imaginar que dezenas de milhares de pessoas decidam se manifestar por fora dos canais até hoje existentes no interior do Estado de direito, por meio de ida massiva às ruas, sem que isso implique riscos para a segurança e até mesmo distúrbios isolados. É preciso separar a manifestação legítima e democrática da maioria das depredações, incêndios e pichações promovidos por uma ínfima minoria oportunista. Toda sorte de vandalismo pode e deve ser investigada, e os envolvidos, enquadrados criminalmente na forma da lei. O fato de tais atitudes terem prosperado nos primeiros dias do movimento reflete o fato de não haver objetivos, líderes e organização claras.


O mais importante é que a nação seja capaz de retirar ensinamentos dos acontecimentos. Em síntese, os jovens nas ruas estão enviando um recado para toda a sociedade, incluindo governantes, políticos, empresários e imprensa. O sentimento da maioria é, como bem sublinhou a presidente Dilma Rousseff ao citar o cartaz "Desculpem o transtorno, estamos mudando o Brasil", carregado de civismo e boas intenções. É positivo que milhões de pessoas com menos de 30 anos estejam se dispondo a assumir um papel de protagonistas na história. Trata-se de uma geração que jamais viveu períodos de exceção ou de cerceamento de liberdades. Para o bem do país, esse aprendizado deve ocorrer de forma serena. A sociedade tem de saudar e acolher esse verdadeiro despertar jovem, zelando para que fortaleça o Estado democrático de direito. Não resta dúvida de que todos seremos testemunhas dos reflexos concretos do que está acontecendo hoje daqui a pouco mais de um ano, nas eleições presidenciais de 2014. É desejável que a experiência histórica de cada geração se reflita na participação eleitoral por meio do embate entre ideias, programas e concepções.



Hoje serenada, amanhã casada - Maria Stella de Azevedo Santos

A Tarde/BA
19/06/2013

Enigma para todos, sociólogos e políticos - ROSÂNGELA BITTAR

Valor Econômico - 19/06/2013

Diante da eclosão dos atuais movimentos de protesto, com temas difusos e participação de grupos desintegrados - as três tribos densas e extensas da passeata de segunda, em São Paulo, são exemplos de tal configuração-, sabe-se que é menos caso de procurar as ainda inexistentes explicações sociológicas e sim de observar bem os fatos e dar à sociedade as respostas adequadas. Os sociólogos, os psicólogos, os doutores, os filósofos, os partidos políticos, as organizações sindicais, os governos federal, estaduais e municipais estão no mesmo plano: ainda nada entenderam dos acontecimentos pelos quais foram totalmente surpreendidos embora não possam deixar de ser responsabilizados. Os investidores, então, se estrangeiros pior, compreenderam menos ainda. A quantidade de telefonemas trocados para todos os lados é uma tradução dessa perplexidade.

O melhor, no momento, é abandonar as teorias e, da parte dos governos, constatar o que esses movimentos não são para, por aí, lhes dar um retorno aceitável. Não são baderneiros, partidários, ideológicos, venais. São estudantes, seus pais, punks, quilombolas, sem teto, sem terra, adolescentes, funcionários públicos. Não há líderes formais orientando slogans e percursos. Embora possa haver, e há, uma representação de todos esses tipos no meio da massa insatisfeita com as tarifas e qualidade do transporte coletivo, com os gastos públicos excessivos em estádios de futebol, com a cara de pau dos políticos e governantes, com a precária situação dos hospitais e das escolas, com a repressão aos corintianos presos na Bolívia, torcidas organizadas e revoltados com a impunidade, saturados em geral com a corrupção.

O desconhecimento, a falta de informação segura e antecipada - os arapongas e estrategistas do governo andam atrás de potenciais adversários eleitorais, não de perscrutar insatisfações sociais- sobre o caldeirão cuja fervura se avizinhava, levou os governos a reagir de forma reconhecidamente equivocada a essa aglutinação de sentimentos negativos.

Somente a partir da noite de segunda, diante das manifestações amazônicas em doze Estados e oito cidades do interior de São Paulo, os governos começaram a mudar seu discurso. Mas não saíram dele para a ação, ainda.

Quem tem experiência em manifestações do tipo, quem liderou e participou dos movimentos pela anistia e pelas diretas já, os dois maiores da história recente, sabe que a mobilização cresce com a repressão. Mas ninguém percebeu o que acontecia, de fato, e recorreu-se às velhas fórmulas: violência, acusações de exploração eleitoral, manipulação.

O tema do reajuste de passagens alcançou o governador de São Paulo e o prefeito da capital em Paris. Se quem estava aqui não tinha ideia do que se tratava, imagine-se quem estava na França disputando o privilégio de sediar a Expo-2020, uma abstração em si. Governado naquele momento pelo ministro petista e vice-governador tucano Afif Domingos, o Estado se escondeu. Sob o comando de Nádia Campeão, a Prefeitura emudeceu. E o festival de besteiras assolou os titulares em declarações à distância.

Numa das manifestações de uma terça, um grupo mais radical destacou-se da massa pacífica, gerando a revanche da polícia, contra tudo e contra todos, na quinta seguinte. Os policiais bateram muito, numa reação desproporcional, maior, segundo testemunhos de pais que acompanhavam seus filhos, que os embates de 68. Naquela época eram raros os equipamentos como os de hoje: escudo, gás de pimenta, bala de borracha, milhares de homens na repressão dura e violenta. Resultado: cresceu a adesão e aumentaram as inadequações dos governantes.

Gilberto Carvalho e José Eduardo Cardozo, no governo federal, Geraldo Alckmin e Fernando Haddad, em São Paulo, Sérgio Cabral e sua tática avestruzeira, não houve um que acertasse o passo. As manifestações colheram em dois dos principais governos envolvidos, o federal com Dilma Rousseff e o municipal com Fernando Haddad, duas pessoas sem a manha da urgência, do diálogo imediato, da experiência em mediar. Foram candidatos saídos de gabinete e, vencedores, ainda não conquistaram a liderança necessária para aplacar dissabores em massa. Alckmin, que tinha alguma, comeu a bola jogada pelo ministro da Justiça, potencial candidato a seu cargo, acreditou que era uma manifestação ao modelo de politicagem infiltrada e partiu para elogiar a polícia.

Em algumas horas, na noite de segunda-feira, foram todos obrigados a dar voltas nas próprias palavras. Uma das situações mais constrangedoras foi a de Gilberto Carvalho, ministro da Secretaria Geral da Presidência, encarregado de fazer a ponte entre Dilma e os movimentos sociais, doutor na relação com sindicalistas: a polícia identificou três funcionários seus, e mais um de sala contígua, na condução das manifestações de Brasília.

As considerações sobre os acontecimentos foram refluindo, aos policiais ordenou-se discrição, o prefeito tornou-se melífluo, o governador, tangido pelos fatos, dispôs-se ao diálogo, a presidente aproveitou o discurso do lançamento do dia, ontem, para traduzir o que os manifestantes querem: mais cidadania e repúdio à corrupção.

Isso significa que compreenderam, finalmente, o que se passa? Claro que não. Mas tentam dar uma resposta mais adequada a esse mundo desconhecido, sem assumir muito as posições definitivas. Alguns mais experientes em movimentos de massa orientam agora o PT a controlar seus governantes, levá-los a oferecer duas respostas à sociedade: uma é diálogo; outra, explicações. Se não podem reduzir o preço da passagem, expliquem à exaustão. Façam autocrítica, peçam desculpas.

O PT está interessado em encontrar saídas também por uma razão que prescinde de pesquisas de opinião mais amplas para ser identificada. Esse tipo de insatisfação terá reflexos nas eleições. Por isso houve reunião, ontem, do grupo da reeleição, coordenado pelo ex-presidente Lula, com a presença de Dilma, do ministro Aluizio Mercadante, do publicitário João Santana, do presidente do partido, Rui Falcão. Sabem que é numa situação como esta que surge alguém com muita força, correndo por fora, e leva. Embora não tenham, hoje, ainda, essas manifestações, com certeza, terão expressão político-eleitoral.

Lembrando 68 - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 19/06/2013
Uma das perguntas que mais ouvi nestes últimos dias foi sobre as semelhanças e diferenças entre as manifestações de agora e as de 1968. Seria a reedição 45 anos depois de um modelo-matriz ou um fenômeno de massa inteiramente novo? Ou seria um pouco de cada coisa? Talvez isso. Começando pelas mudanças: o país não vive mais numa ditadura (embora a polícia às vezes tenha agido como se vivesse); os jovens não pertencem mais a uma só geração, mas a diferentes tribos. E, sobretudo, existe hoje a onipresente internet, capaz da mobilização instantânea, viral e sem limites. Distantes os tempos em que a organização de uma passeata exigia longa preparação e intermináveis discussões em assembleias.
De semelhante entre os dois momentos, permanece a disposição estudantil que parecia anestesiada, como também naquela época (na França, um sociólogo perguntava: "Por que não acontece nada por aqui?" No dia seguinte, Paris pegou fogo). De igual ainda, o sentimento difuso de insatisfação, que é cumulativo e não depende apenas de uma única motivação ou pretexto.

Vem vindo, vem vindo até que uma gota (ou alguns centavos) no pote até aqui de mágoa provoca o transbordamento. Os sinais emitidos nem sempre são captados, porque parecem desconectados, quando na verdade estão formando uma rede com poder de contágio. Só o governo talvez não tenha percebido que o fantasma da inflação, a corrupção desenfreada, a incerteza econômica, a alta no custo de vida, a queda de oito pontos na popularidade de Dilma, a vaia no estádio Mané Garrincha, tudo isso fazia parte do mesmo e crescente caldo de rejeição. Pelo menos uma lição de 68 não foi aprendida e assim não se evitou o incidente mais lamentável das manifestações do Rio: coquetéis molotov atirados contra a Alerj e carros incendiados na marcha dos 100 mil anteontem. Em julho de 68, na lendária Passeata dos 100 Mil, Vladimir Palmeira, o líder do movimento no Rio, convidou os participantes a se sentarem no chão, o que proporcionou a Nelson Rodrigues uma fina gozação. Segundo ele, médicos, poetas, atrizes, sacerdotes, todos obedeceram.

"A única que permaneceu de pé e assim ficou foi uma grã-fina, justamente a que lera as orelhas de Marcuse".

Muito tempo depois, Vladimir explicou o que pretendeu com o gesto: demonstrar as "intenções pacíficas da manifestação para a polícia e para alguns companheiros". Assim, os "porraloucas" desistiram de invadir rádios, como queriam, e os policiais não ousaram bater em pessoas sentadas no chão, inclusive freirinhas.

domingo, 16 de junho de 2013

Carminho e o nosso passarinho - Caetano Veloso


O GLOBO 

 
16/06/2013

A cantora portuguesa, ‘Sabiá’ e o Prêmio da Música Brasileira

Sempre gostei de ver a festa do Prêmio da Música. Desde que ela levava um nome de empresa e eu a defendia das investidas de Xexéo. Agora — além de ver Cauby dar show de comportamento de estrela alto astral em passagem fugaz pelo palco (sob ovação com o público de pé); Ney Matogrosso, ao final de um solene “Se todos fossem iguais a você”, voltar-se para uma foto de Tom Jobim e, dando assim as costas para a plateia, citar, no ponto exato entre contenção e relaxamento, seus característicos movimentos andróginos de quase-dança; Leny Andrade, Tulipa Ruiz e Leila Pinheiro darem show de musicalidade a três vozes em suingue perfeito; João Bosco ir em cada nota de “Dindi” com a felicidade total de quem vive dentro da Música; Céu cantando “Insensatez” com um vestido a céu aberto; Nana fazendo-nos desmoronar como só pode uma força extraordinária da natureza; os arranjos de Jaquinho em elegância de frases e de timbres incomparáveis; tudo isso — e mais um pouco, que não estou listando tudo — depois de uma abertura com vários pianos arranjados por Wagner Tiso; sobretudo Rosa Passos, a mais bela expressão de musicalidade brasileira da noite, a espontaneidade mais sobrenatural no entendimento da função de cada nota cantada ou por cantar, de cada nota que, não sendo as que aparecem no canto, na superfície, se agrupam em blocos harmônicos — tivemos Carminho, prefaciada pela discrição mesoatlântica de António Zambujo, levando o sabiá de Tom Jobim e Chico Buarque ao lugar alto que lhe é de direito na história da língua portuguesa.

Foi uma noite de vários aplausos de pé. Mas o que saudou o evento Carminho/“Sabiá” dizia coisas de que as mesmas pessoas que se levantavam não tinham tempo de conscientizar-se. Carminho é a mais nova e a mais bela floração desse renascimento do fado entre jovens portugueses que já faz agora mais de década. Ouvi-la cantar essa canção de exílio brasileira com voz de quem mal atravessou o oceano para vir aqui nos ensinar tanto, foi de fazer chorar. A plateia se levantou crendo ser levada a isso pela exuberância vocal e musical da jovem cantora. Seria um aplauso entusiástico diante de uma interpretação virtuosística. Justo. Mas era claro que havia mais. Muito mais. As pessoas repassaram (era perceptível), num instante, a história da canção (que lutou com o tempo para ser devidamente amada), a história do Brasil, a história da nossa língua. A voz e a pronúncia de Zambujo eram mesoatlânticas. O canto de Carminho era purissimamente lusitano. Mas o acontecimento Carminho cantando assim nosso passarinho (nos dois gêneros: “uma sabiá” e “o meu sabiá”, como o dicionarismo de Tom conversou com o de Chico, trazendo de volta minhas lembranças de uso do nome da ave, em minha Santo Amaro natal, tanto no masculino quanto no feminino) era, no auge do arrebatamento das notas altas com arabescos ibéricos, a consolidação desse mesoatlântico que busco e que Zambujo anunciou. Não seria preciso conscientizar-se de tudo isso para vivenciar o todo da experiência: cada pessoa que foi arrebatada pelo momento desse breve milagre sabia, em sua carne, que todas essas implicações estavam em jogo.

A parte de que menos gosto em premiações são os prêmios propriamente ditos. Acompanho com interesse o suspense dos concorrentes e me animo com a alegria comovida de muitos que se descobrem premiados. Mas para mim isso é apenas o pretexto para que aconteçam coisas que realmente me interessam. Tanto é assim, que os momentos de entrega dos prêmios aos agraciados são os momentos de relativa desanimação da plateia. Há, claro, as comemorações particulares de grupos de amigos, parentes e apoiadores dos premiados. Mas as apresentadoras (ou os apresentadores, a depender de como está organizada a festa em cada ano), as pessoas que fisicamente entregam os troféus e os que os recebem, protagonizam instantes de mera espera — para que as pessoas saiam do palco, para que se rearrume a continuidade do show. Esses “buracos” não atrapalham o brilho da festa (embora possam ser mais bem planejados para evitar quebra de ritmo): eles são a motivação para que ela exista.

Quando Xexéo (e outros ainda menos engraçados) ridicularizavam os prêmios de música brasileira, eu chiava. Achava que uma noite em que eu podia apresentar Herivelto Martins a Cassiano era algo sagrado cuja grandeza só os tolos não viam. Hoje esse tipo de prêmio já é respeitado. O Brasil não precisa mais se depreciar para se aguentar. E Carminho elevou a festa modesta à sua verdadeira altura histórica. É claro que a música entranhada de Rosa Passos já continha tudo sem precisar dizer. Mas o sabiá de Carminho disse.


sábado, 15 de junho de 2013

O peso da política ambiental - CARLOS MINC

O Globo - 15/06/2013

Ambientalistas idealizavam o Parque
Fortaleza: a melhor defesa seria o não
uso. A proteção efetiva é bom uso. O
Rio de Janeiro passou de maior a menor
desmatador da Mata Atlântica, criando parque,
corredor de biodiversidade, instituindo
unidades de proteção, inéditas no país.

Há que conceder licenças rigorosas, com padrão
de emissão de poluentes mais restritivos do que os
do Conama, tecnologia limpa, condicionantes
ambientais, como saneamento, investimentos para
catadores e pescadores. O Rio é o único estado
que obriga à redução de emissões de CO2 e à
Compensação Energética: um percentual em
energia renovável para usinas com energia fóssil.

Há também que dizer “não” à duplicação do
Terminal da Petrobras vizinho ao Parque da Ilha
Grande, à Térmica a Carvão em Itaguaí , ao Porto
Off Shore em Arraial do Cabo, ao Terminal de Minério
da Brasore na Ilha de Itacuruçá, e à dragagem
do Rio Guaxindiba, no manguezal de Guapimirim,
para passar equipamento do Comperj.

Lixo é questão do município? Sim, mas não lavamos
as mãos em chorume: construimos aterros
consorciados; licenciamos privados; criamos
subsídio para os que destinem o lixo corretamente;
aprovamos lei do ICMS Verde: sem aumentar
imposto, distribui mais recurso ao município
que crie parque, trate esgoto, acabe com
lixão e amplie coleta seletiva.

Em 2006, lixões eram destino de 90% do lixo e
aterros de 10%. Em 2013, 92% do lixo vão para
aterros e 8% para lixões. Fechamos os lixões da
Baía: Itaoca (SG), Babi (BR), Gramacho (DC):
menos um Maracanã semanal de chorume nas
águas da Guanabara.

Saneamento é o melhor investimento para
defender praia, turismo, pesca. O saneamento/
dragagem na Lagoa de Araruama reabriu peixarias,
pousadas, trouxe festival do camarão, campeonato
de Windsurf. Nas lagoas da Barra/Jacarepaguá
o tratamento de esgoto em 2006 era 0%.
Com ETE, emissário de 5 kms e 22 elevatórias,
60% são tratados.

A Baía de Guanabara é o desafio maior: desde
2006 triplicou o volume de esgoto tratado — era
12% passou para 36%. Mas 64% ainda poluem a
baía. Até novembro, a unidade de tratamento
do Rio Irajá retirará 12% da poluição da baía.
Política ambiental pode gerar desenvolvimento
sustentável. Isto se dá por tensões, avanços
legislativos e sociais, tecnologias limpas. E,
sobretudo, por aumento de consciência e mudanças
de atitude. l

Carlos Minc foi ministro do Meio Ambiente
(2008/2010) e é secretário do Ambiente do Estado
do Rio

Método confuso - ZUENIR VENTURA

 O GLOBO - 15/06

Uma forma sofisticada de castigo
intelectual capaz de afastar
qualquer um de Nietzsche
e da filosofia

Quando minha neta Alice desiste de explicar alguma coisa ao interlocutor, ela não perde tempo e diz, resignada: "(não adianta) Você não entende." Esta semana me senti assim, quando minha empregada pediu ajuda para um dever de casa. Ela tem 48 anos, trabalha conosco há 20, mora na Baixada Fluminense e estuda à noite, mesmo acordando de madrugada para viajar quase três horas em ônibus e trem. Cursa o primeiro ano do Segundo Grau num colégio particular de Belford Roxo e a tarefa que tinha de realizar na disciplina de Filosofia era "Nietzsche: vontade de poder". Como único subsídio, o professor escreveu no quadro:

"O racionalismo ético não é a única concepção filosófica da moral. A moral racionalista foi erguida com finalidade repressora e não para garantir o exercício da liberdade. Não existem fenômenos morais, mas apenas uma interpretação moral dos fenômenos." Paro por aqui porque o texto continuava igualmente hermético. E também porque ouvi os ecos de Alice martelando na minha cabeça: "Você não entende." Realmente tira-ria zero com o que entendi.

Lembrei-me então do Veríssimo agradecendo ao Google por ter-lhe ensinado a escrever Nietzsche. Corri para o novo "pai dos burros" na esperança de que, além da ortografia certa, eu aprenderia tudo o que o professor queria. O primeiro choque foi esbarrar com a definição: "A vontade de poder não é um ser, nem um devir, é um pathos." Entendeu? Havia, porém, um consolo: "O legado da obra de Nietzsche foi e continua sendo ainda hoje de difícil e contraditória compreensão. Ele se apresenta como alvo de muitas críticas na história da filosofia moderna, pelas dificuldades de entendimento na forma de apresentação das figuras e/ou categorias ao leitor ou estudioso, causando confusões devido principalmente aos paradoxos dos conceitos de realidade ou verdade."

Se até onde há resposta para tudo é difícil explicar o pensamento do filósofo alemão, quem sou eu para ajudar no trabalho de minha amiga? Ali-ce tinha razão: "Você não entende." E entendo menos ainda esse método confuso de ensino. Seria uma orientação oficial ou uma opção do professor? De qualquer maneira, uma forma sofisticada de castigo intelectual capaz de afastar qualquer um de Nietzsche e da filosofia.

Entrega de prêmios costuma não ter graça, a não ser para os premiados. Mas o 24º Prêmio da Música Brasileira foi um espetáculo à altura do homenageado, Tom Jobim, esse gênio que o Brasil exportou para o mundo. Ouvir suas obras-primas na voz (e instrumentos) de vários de nossos melhores intérpretes foi uma bênção. Entendi tudo, Alice.

Coronelismo e futebol - JC Teixeira Gomes

A Tarde/BA
15/06/2013