sábado, 20 de abril de 2013

A ARTE DE EDITAR ARTE

UM EDITOR E A ARTE DE ANDAR NA CONTRA MÃO DO MERCADO



Quando não era hábito publicar monografias de artistas, Charles Cosac editou há 16 anos um livro de Tunga; hoje, na era digital, ele vai criar um selo para lançar edições exclusivas destinadas a leitores e colecionadores exigentes

O Estado de S.Paulo - 20/04/2013

ANTONIO GONÇALVES FILHO
MARIA FERNANDA RODRIGUES

Em junho de 1997, o mercado viu chegar às livrarias um volume inusual com mais de dez tipos de papel e duas centenas de ilustrações. Não era exatamente a espécie de livro de arte que circulava entre os leitores brasileiros. Compreensível. Nem o artista que assinava o livro Barroco de Lírios, Tunga, nem seu editor, Charles Cosac, eram tipos convencionais. Tunga, um dos vetores da arte contemporânea brasileira, trabalha com chumbo e materiais corrosivos em suas obras. Charles está longe de ser um editor burocrático. Colecionador de arte, sua editora, criada para publicar livros da área, viria a se tornar uma referência ao lançar monografias de outros artistas contemporâneos, sozinha ou em parceria com instituições como a Bienal de São Paulo. Foi a primeira editora latino-americana a coeditar um título com o Museu de Arte Moderna de Nova York (o catálogo da exposição Tangled Alphabets, deMira Schendel e Leon Ferrari).

Em seus 16 anos de existência, a editora passou 15 deles no vermelho, inicialmente bancando livros de arte sem o amparo de leis de incentivos. Michael Naify, o sócio americano e cunhado de Charles Cosac, socorreu financeiramente a editora que, ao enveredar por outras áreas – literatura, antropologia, filosofia, arquitetura, moda, cinema –, obteve melhores resultados financeiros. Isso permitiu a expansão do catálogo e a publicação de livros infantojuvenis de temas complexos – foi a primeira editora a lançar um livro gay para crianças, Meu Amigo Jim. Caracterizada pela ousadia de seus projetos gráficos, a Cosac Naify já recebeu mais de 50 prêmios nacionais e internacionais, tendo no catálogo ficcionistas como Enrique Vila-Matas e ensaístas como Arthur Danto. Charles Cosac recebeu a reportagem do Sabático para conversar sobre o passado e os planos da editora.

Por que Tunga foi escolhido o primeiro autor da editora e como era manter um negócio então voltado exclusivamente para a edição de livros de arte?

Voltei da Inglaterra com a ideia de abrir uma editora e sabia que ela só iria crescer no momento em que eu sentisse alguma segurança. Estava havia muitos anos fora, tive de reaprender o Brasil. Não conhecia São Paulo, não conhecia ninguém aqui. Existia também o entusiasmo do início, eu tinha 32, 33 anos. Tunga e sua obra são muito importantes para mim, pautando, de certa forma, o início e o aniversário de 10 anos da editora – quando fizemos a caixa Tunga. Ele é da casa. Consegui ao longo desses anos reunir um grupo fiel de artistas. Já vamos para o quarto livro do Tunga e do Arthur Omar, o quinto do Miguel Rio Branco e do Waltercio Caldas. É como se fosse uma galeria com a qual você tem uma relação não tão pontual. Apesar das dificuldades, é muito gratificante saber que vivo agora o terceiro ciclo da editora com os mesmos artistas com os quais comecei 15, 16 anos atrás.

No início sua ideia era publicar monografias de artistas ou foi uma consequência? 

Eu tinha muito contato com a Yale University Press, e ela abriu portas para mim. Licenciei vários livros da Yale quando John Nicoll estava lá. Como minha editora era pequenininha, era difícil quebrar nichos – e eu precisava de muitas cartas de referência e de crédito. Nicoll me ajudou muito, abrindo portas, inclusive em gráficas no exterior, mas sobretudo na relação com outras editoras. Depois vieram os livros da Tate Publishing. O primeiro livro que comprei de Nicoll foi Arte na América Latina, de Dawn Ades. Ao voltar ao Brasil, conheci Arthur Omar e fiz Antropologia da Face Gloriosa, depois do livro do Tunga. Enfim, ela começou como uma editora de história e teoria da arte. Começou assim porque eu me sentia seguro nesse campo. E, depois, não havia editora disposta a fazer os livros deles.

Antes de abrir a editora, você criou uma coleção de arte latina na Universidade de Essex, que depois virou um museu. Você tinha planos de trabalhar com museus antes de chegar ao Brasil?

Não. No momento em que saí da Inglaterra, eu já tinha aberto mão de todos os meus sonhos. Já sabia que não seria acadêmico, porque não tinha disciplina e temperamento para aquilo, e que não conseguiria trabalho em museu, porque sou brasileiro e não tinha visto de trabalho. Mas eu também queria muito desenvolver um projeto no Brasil.

Quando a Cosac Naify foi inaugurada, já existiam incentivos fiscais para publicação de livros, mas você se recusava a publicar um livro pela Lei Rouanet. Qual a razão?

Eu não diria que me nego, masmantenho o mesmo ponto de vista. Consegui estudar sem o CNPQ ou a Capes e não queria ficar dependente da Lei Rouanet, que é linda e maravilhosa, mas pode arquivar muitos projetos, como a Lei Sarney o fez. Eu não podia abrir uma editora alicerçada numa lei de incentivo à cultura. Tínhamos um capital para investir em livro. Nos casos dos livros da editora que foram patrocinados, eu fui procurado. Eu não procurei. São sempre as mesmas pessoas que ganham. E é um nicho que contamina. São duas tabelas – a do design para o livro patrocinado e a do livro não patrocinado. É uma coisa meio engessada: eles dão o dinheiro e impõem o título. E é muito difícil que combine, ou seja, que eu também queira fazer o livro. Eu não teria paciência de me aproximar de gerentes de marketing e donos de banco para conseguir patrocínio. Mas, paralelas às leis de incentivo à cultura, existem parcerias, as coedições, mais frutíferas.



● Saindo do apoio à edição e indo para a compra de livro. As compras governamentais são importantes no faturamento da editora?

Muito. Não saberia dizer em porcentual, mas o Brasil é o país que mais compra livros e isso tem atraído várias editoras estrangeiras. Essa é uma atividade que me incomoda menos porque existe a licitação. Mandamos o livro e eles escolhem, se gostarem. Você não se sente envolvido pessoalmente. É dinheiro público. Se eu perder dinheiro meu, perdi. Mas, se perder um que não é meu, é mais delicado.

● Quem era seu modelo de editor quando abriu a editora? Como convenceu seu cunhado Michael Naify a entrar na sociedade?

Meu ídolo é o inglês George Braziller, o editor que eu queria ter sido. Ele tinha uma visão extraordinária, competente, ousada e particular. Michael era um grande amigo que conheci em Londres. Só depois ele se casou com a minha irmã. Ele me ajudou muito financeiramente – agora não precisa mais. No início houve um envolvimento dos três: meu, do Michael e da Simone. Eles moravam em Florença e Simone participou dos primeiros anos, acompanhando a impressão, que era feita na Itália. No começo, teve um sabor familiar. Michael e Simone sugeriam livros infantis. A Árvore Generosa, de Shel Silverstein, era o livro favorito dele. Mas era uma coisa muito voltada para o nosso conhecimento pessoal, sem ter uma visão panorâmica e mais organizada do que seria o prelo editorial. Depois do quarto ano minha irmã começou a perder o interesse e eles foram se afastando.

● E como está a situação hoje?

As coisas não estão maravilhosas, mas estão bem. Depois de quatro, cinco anos, me vi sozinho com a editora. Nesses anos todos, quando precisei principalmente de ajuda monetária, foi a Michael a quem recorri. Ele sempre foi solícito em nos atender.

● Michael e Simone ainda são seus sócios?

Sim. A Cosac Naify pertence, desde o início, a uma editora americana. Quando se faz aporte de capital, ele vem oficialmente pelo Banco Central. O fato de ela não gerar lucro e não ter um fim lucrativo não muda o status dela: é capital estrangeiro. O papel dessa editora é, simplesmente, emitir verba. A questão é que você deve satisfação ao governo americano e no 15.º ano deficitário fomos auditados. Queriam saber para onde tinha ido todo aquele dinheiro que não gerou lucro nenhum em tantos anos. Suspeitas foram levantadas. Não fiquei mal porque sabia a verdade, mas foi um trabalho burocrático enorme provar que não éramos lucrativos e não estávamos escondendo lucro nenhum. A boa vontade do Michael e a minha de ter mantido a editora deficitária por 15 anos nem eu nem Michael sabemos explicar.

A editora, hoje, é autossustentável?

O ano de 2012 foi o primeiro que não fizemos nenhum aporte e que a editora terminou no azul. Claro que isso não contempla o passado, mas olhar o passado não é a solução. A partir de um certo momento tive de começar a pensar o futuro da editora. Foi quando a diretoria se uniu para que a editora se tornasse autossustentável.

● A entrada de livros de literatura no catálogo da editora foi uma tentativa de sanear a saúde econômica?

A Cosac Naify começou como uma editora de arte por eu ter essa limitação. Mesmo antes da era Augusto Massi, que começou em 2001, eu já tinha convidado Ismail Xavier para desenvolver uma série de cinema e teatro no fim dos anos 1990. Nessa ocasião, Rodrigo Lacerda desenvolveu a série de João Antonio. Mas a mudança determinante foi a chegada de Augusto – ele ficou na editora por dez anos.

● Qual é o livro mais vendido da editora?

Do catálogo adulto é Clarice, de Benjamin Moser. O segundo, vocês vão desmaiar: é o Histórias Fantásticas, de Bioy Casares. Eu nunca diria que esse é o segundo livro que mais vende – e olha que eu fundei a editora. Entre os infantis, de um a dez é o Capitão Cueca. E A Árvore Generosa é um livro que é sempre, sempre reimpresso.

Você já disse que tem vergonha do Capitão Cueca. Por que, se as crianças gostam tanto?

Porque não gosto. Eu não teria feito esse livro. Quem indicou o Capitão Cueca foi a minha irmã. Tenho de dizer que a série ajudou muito monetariamente nestes anos todos, mas foi uma coisa entre irmãos. Se eu dissesse não, estaria dizendo não para ela e não para o livro. O Capitão Cueca entrou de gaiato na editora. Nessa ocasião, estávamos negociando esse, a série Clifford e Harry Potter. Não saberia dizer qual é pior.

● Você tem algum arrependimento editorial?

Choro lágrimas de crocodilo por não ter comprado a obra do Lezama Lima. Ele esteve aí o tempo todo e ninguém olhava. Mas insisto que não há nenhuma perda significativa, porque a bibliografia ainda é deficiente.
É difícil chorar o leite derramado de um leite que não existiu. Não somos uma editora best-seller. Nunca vamos dizer que, se tivéssemos escolhido determinado título, teríamos feito bastante dinheiro. Ocorre um movimento contrário. Quando voltei ao Brasil, conheci a obra do arquiteto Paulo Mendes da Rocha. Três editoras tentaram tirar o livro de mim e eu falei: vocês estão aqui há milhões de anos e não viram. Foi meu olhar estrangeiro que me permitiu ver aquilo que quem estava aqui não via. E este foi também o primeiro título que vendi. Uma editora estrangeira vir e comprar um livro nosso é melhor do que qualquer prêmio. É aí que acontece o intercâmbio cultural que eu busco.

● A Cosac Naify também faz livros bilíngues.

Isso é um problema, pois não conseguimos distribuir. No início eu vendia para uma distribuidora que ficava em Nova York, mas não estava feliz. Nunca pensei no mercado fora do País. Já é complicado vender para a Bahia, por que vou tentar a Espanha? Eu preferiria vender no Brasil inteiro. Já fiz milhões de livros bilíngues e isso não gerou fruto positivo nenhum.

Com o custo dos direitos das fotografias e os livros de arte dependendo às vezes da boa vontade dos herdeiros de artistas, deve ser difícil publicar uma obra desse segmento no Brasil. Como a Cosac Naify tem conseguido editar esses livros? 

Nestes 15 anos, o que mais cresceu foram os bancos de imagem. Para fazer um livro de moda, você precisa da autorização da modelo, que já perdeu a silhueta, do fotógrafo, dos mil fotógrafos que estavam no desfile. Isso criou um novo departamento de direitos autorais, que gera muito papel. Em contrapartida, também fomos testemunhas de uma evolução tecnológica impressionante. As gráficas evoluíram muito, o livro ficou mais barato e espero acreditar que uma coisa compensou a outra. Hoje, fazer um livro não é tão caro como era há 10, 20 anos, graças aos recursos tecnológicos.

● Você ainda imprime na Itália? Imprime também na China e na Índia?

Imprimimos aqui, em vários polos gráficos de São Paulo, que sempre foram bons, mas que têm um velho problema: são muito mais caros. A segunda opção é Singapura ou China. Como estamos trabalhando com um prelo mais adiantado, podemos fazer isso. Não somos os únicos. E é claro que isso afeta o mercado gráfico local. Existe o temor de que um dia façam sanções que não nos permitam mais imprimir na China.

Algumas editoras estão criando selos para diversificar o catálogo com obras comerciais e disputar as listas de mais vendidos. A Cosac Naify tem planos nessa direção?

Coincidentemente, abrimos uma nova razão social com uma ideia contrária a isso. Com essa questão do livro eletrônico, tenho de encontrar um nicho para mim e minhas atividades. Não que eu ache que o livro de arte vá morrer, mas queria fazer edições ex-libris sem o compromisso de publicar uma quantidade determinada por ano.

Com o e-book ganhando importância no mercado de literatura comercial, as edições mais caprichadas podem ser um futuro para o livro impresso? O que pensa sobre o e-book?

Essas edições caprichadas sempre existiram, mas é indiscutível que com a digitalização o livro está se coisificando. As editoras têm de se esmerar – não para vender mais, mas para que o livro não morra. Quanto ao e-book, eu não tenho interesse nenhum no assunto, mas a editora está pensando nisso.

Você é mais ligado em artes visuais do que em literatura. Mas a Cosac Naify tem lançado bons jovens autores. O que você leu recentemente que mais chamou sua atenção?

O Valter Hugo Mãe é um amor de pessoa, mas acho que gostei mais dele do que dos seus livros. Adorei José Donoso. Tive muita dificuldade com a leitura de Angélica Freitas. Não sei se é antiético falar a verdade sobre os livros de minha editora, mas quero dizer que nem tudo o que é feito nela eu amo. A vinda da Heloísa Jahn e da Marta Garcia, editoras seniores com contatos, pode ajudar. Heloísa vai cuidar da nova série de poesia brasileira contemporânea, uma iniciativa dela. Marta vai trazer novos autores. E tem o lado que me interessa mais que são os livros paradidáticos. Fizemos Luto e Melancolia do Freud e fiquei fascinado. Por causa dele estamos publicando O Avesso do Imaginário – Arte e Psicanálise, de Tania Rivera, do qual gostei muito.

● A editora publicou alguns livros de artista,entre eles Ethers, de Tunga, e algumas edições especiais para colecionadores. Esse é um segmento que poderá ser ampliado? 

Sim. Para isso estamos criando um novo selo que ainda não tem nome. Gostaria que fosse um nome russo, algo como Dom Knigi (Casa dos Livros), que é uma livraria que eu adoro em São Petersburgo, na Nevsky Prospekt. Vivi lá e gostaria de carregar algo da Rússia comigo. Além disso, sempre achei que uma editora tem de ter “casa” no nome. Acho lindo “casa editorial”. Também pensei em colocar o nome de meu bisavô, Felipe Salomão.

● Como é que você decide que um livro tem vocação para ser publicado em edição normal ou de colecionador?

O pessoal da produção na editora fica louco comigo quando chego lá com alguma ideia de livro especial, como o de Sérvulo Esmeraldo, que tinha ampolas de água, terra. Depois, eles acabam se entusiasmando. Há cinco anos descobri por meio de um amigo a obra da pintora Eleonore Koch, cujo livro sai agora em maio. Quando vi pela primeira vez uma tela sua, me deu um frio na espinha. O livro de Lore Koch estava com outra editora e não entraria jamais em concorrência para ter o direito de publicá-lo. Felizmente, o advogado da artista me procurou oferecendo o título.

● Como imagina a Cosac Naify em 10 anos?

Quando abri, meu cunhado irmão me falava que eu devia saber onde iria querer estar em 2, 4, 5 anos e eu falava “Nossa Senhora!”. Quando eu tinha 5 anos, pensava 30 anos à frente. Aos 50, que é quase a minha idade, você pensa 10 minutos adiante. Mas como a editora não sou eu – são 80 pessoas comigo e um público leitor crescente –, tenho criado dispositivos para que ela coexista. Tenho uma mentalidade parlamentarista. A editora tem hoje uma diretoria, que se reúne a cada 15 dias. Os assuntos são discutidos, a ata é feita, metas são atribuídas e depois de 15 dias conversamos de novo. Esse método tem funcionado muito bem, mas não porque tira a responsabilidade das minhas mãos – a responsabilidade legal é só minha. É um trabalho de equipe. Neste momento da editora, o que é muito gratificante para mim é ver meninos e meninas de 20, 25 anos bem mais preparados do que eu era. Sempre achei que os jovem tivessem razão – essa frase é da Maria Martins e ela estava certa. Um dia vou morrer e não quero que ela seja enterrada comigo. A editora foi repensada e enxugada. Havia mais de 400 títulos comprados. Muitos deles foram reciclados; outros, vendidos ou devolvidos. A gente não apagou o passado. Tentamos reciclar o melhor dele para tentar ter uma frequência em arquitetura, literatura internacional, literatura contemporânea brasileira e estrangeira, artes visuais, ensaios.

● Qual foi o momento mais crítico da editora?

Abri a editora porque eu quis, ninguém me pediu, minha família não tem tradição editorial. Me sinto um homem realizado. Dos meus colegas de escola, fui um dos poucos que fazem o que gosta de fazer. Sou feliz, faria tudo de novo. Os momentos mais críticos foram quando Rodrigo Lacerda e Augusto Massi saíram da editora. Eram pessoas com uma visão muito paternalista. Eu não os via só como uma pessoa indo embora. Via como uma separação, uma ruptura. E isso machuca.Osilêncio também machuca. É como fim de ano na escola: todo mundo chora.

Como foi voltar para o dia a dia da editora?

Quando o Augusto entrou, fiquei dois anos trabalhando de casa. Vou à editora porque me faz bem. Gosto de ficar em casa, de solidão, mas gosto de ir lá, conversar com as pessoas. Saio de lá revitalizado, feliz. Saio xingando às vezes, também. Ela é um remédio e me faz muito bem.

Quando você vai publicar o seu livro?

Já fiz mil documentos proibindo essa publicação. O meu Confesso Que Vivi nunca vai sair. Tenho consciência de não ser ninguém. Graças a Deus tenho essa consciência. Temos de construir como as cidades que são soterradas. Não posso ter essa vaidade.




Da favela para Boston - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 

20/04/2013

Logo que soube dos atentados de Boston, meu primeiro pensamento foi para o sociólogo Caio Ferraz, personagem de meu livro "Cidade partida", que em 1996 foi levado pela Anistia Internacional para os EUA por estar ameaçado de morte pelos policiais da banda podre que executaram 21 inocentes na tristemente famosa "chacina de Vigário Geral". A foto dos caixões alinhados na entrada da favela correu o mundo como um anticartão-postal, e Caio, que liderou a reação da comunidade, foi considerado o primeiro exilado político da redemocratização. Partiu com a mulher e duas filhas pequenas, estudou, trabalhou como entregador de pizza e acabou se dando bem com uma empresa especializada em reforma de casas e apartamentos.

Testemunha de batalhas entre traficantes, Caio escapou por pouco dos atentados de agora, pois estava no lugar onde 15 minutos depois explodiu a primeira bomba. Só se salvou porque resolveu avançar 100 metros para ter uma visão melhor da chegada da maratona. Houve o estrondo e, em meio à fumaça, à correria e ao caos, ninguém entendia direito o que estava ocorrendo. "Tarimbado com as guerras insanas que vivi na minha infância na favela, não tive dúvidas de que a explosão era de bomba. O barulho parecia o de granada que eu ouvira várias vezes nos confrontos entre bandidos de Vigário Geral e Parada de Lucas pelo controle do tráfico local."

Caio confessa que o momento de maior desespero foi quando se lembrou que a filha mais velha, Maíra, trabalha numa cafeteria a cerca de 300 metros das explosões. "Tentei ligar, mas nenhum telefone funcionava. Até que ela respondeu por SMS informando que estava bem. Pedi que não saísse de lá, que eu furaria o bloqueio da polícia e iria buscá-la pra irmos juntos e em segurança para casa."

Embora acostumado a situações que o "deixaram sem chão" - tiroteios, invasão policial, chacina, ameaças de morte -, Caio continua traumatizado com o que presenciou: "Que sofrimento ver uma senhora ensanguentada abraçada ao filho adolescente sem saber o que fazer. Que estranho não poder ser útil numa hora dessas. Nunca havia me sentido assim em toda minha vida e essa experiência espero não repetir."

Para agravar, tudo isso aconteceu quando ele se prepara para voltar ao Brasil. "Não sei o que fazer, porque minhas filhas continuarão aqui com a mãe. Logo eu, que tive que sair do Brasil por motivo de segurança pessoal, encontro-me agora numa enorme insegurança existencial."

Pontos - José Miguel Wisnik


O Globo 

20/04/2013

Faltam nexos compreensivos capazes de dar conta dos acontecimentos culturais no Brasil

Se não me engano em fevereiro, há cerca de dois meses, travou-se uma polêmica sobre o “vazio cultural” brasileiro, lançada por um número da revista “Carta capital” que discutia o assunto. Por algum motivo circunstancial (acho que eu estava em viagem) só me dei conta da discussão posteriormente, através de seus ecos. Não tenho condições de recuperá-la agora, mas o meu “vazio cultural” particular de hoje, em que a coluna gira em falso à procura de seu ponto de apoio, me impele de volta à questão. Considerar o tema como “ultrapassado” seria prender-se a uma lógica imediatista. A redução, aliás, de toda cultura a pautas, ganchos jornalísticos e mercadológicos, efemérides e fenômenos virais, é uma das partes do problema.

Vou tentar expor a minha posição, mesmo sabendo que o assunto não cabe aqui. Acho o Brasil um país de grande vitalidade cultural. Essa vitalidade está na diversidade das práticas, no modo como elas se permeiam, nas soluções incomuns que resultam disso, em muitos níveis. Confesso que é difícil descrevê-la, porque ela se apresenta de maneira não usual, múltipla e heterogênea, extraindo a sua força exatamente disso. Ao mesmo tempo, essa vitalidade contracena com o baixo letramento médio brasileiro, que compromete sob muitos aspectos a sua organicidade e a sua capacidade de articulação. Apesar desse baixo letramento, no entanto, fomos capazes de reconhecer uma literatura na qual conviviam, a certo momento, Drummond, Rosa, Bandeira, Clarice, João Cabral e a poesia concreta, junto com teatro, música e cinema incandescentes. Isso não teria acontecido se não houvesse por sua vez uma atividade crítica de peso reconhecível, um campo crítico mapeado e exposto ao debate, um conjunto de publicações acompanhando a vida contemporânea.

As instituições da chamada alta cultura, ou das instituições letradas, sofreram abalos e deslocamentos em todo o mundo, nas últimas décadas, sob a pressão dos meios de massa articulados com a onipresença da publicidade e com uma considerável corrosão da escola tradicional frente a essas novas realidades. Mesmo assim, a literatura, os escritores, a crítica, tiveram ainda um papel determinante no acompanhamento de todas as transformações que se deram na Rússia ao longo do século XX, por exemplo, ou na Argentina ou em Portugal. O lugar do escritor, garantido por um certo lastro letrado, não se evaporou completamente no processo. Certamente não se pode dizer o mesmo do século XXI, mesmo lá.

No Brasil, a tendência a deslocar as pautas culturais do campo das ideias para o das vendagens, comportamento, moda e polêmica de superfície lavou o lastro frágil da vida literária acumulada, e acuou a atividade crítica num papel incômodo, impertinente e estigmatizado, substituído pela atividade dos agentes e assessores de imprensa, dos releases, das entrevistas e notas em colunas sociais, pela participação em eventos, num ambiente de coquetelização da cultura (estou lembrando de um artigo contundente de Flora Sussekind, “A crítica como papel de bala”, publicado no Prosa em 2010, algumas balas do qual sobram para mim, se não estou enganado).

É certamente a essa perda de articulação e a esse rebaixamento do papel crítico na esfera pública que Vladimir Safatle se referia, ao intervir no debate caucionando o mote do “vazio cultural”. Vazio cultural, nesse caso, significa a falta de um senso totalizante e de um tensionamento da linguagem que comprometa as produções com algo mais do que sua inserção num mercado ou o seu reconhecimento por um grupo de participantes consumidores. É exatamente o contrário do que pensa Hermano Vianna, para quem a cultura vive da força empenhada nela por seus agentes, que dão a cada cena cultural um sentido total auto-bastante. Onde para um há o vazio para outro sobra excedente. Os pressupostos são tão opostos que não dão lugar a uma conversa possível nem ao entendimento da impossibilidade disso.

Para mim este é o ponto. Não falta acontecimento cultural no Brasil, das mais complexas aventuras intelectuais às mais saudavelmente elementares manifestações do apetite de viver. Faltam, quando faltam, e como faltam, nexos compreensivos capazes de dar conta dessa complexidade, em meio à entropia de um mercado voraz e de um debate reduzido muitas vezes ao quiproquó, à faccionalização dos discursos e à simplificação jornalística.

Em muitos sentidos, “vazio cultural” é um estado do mundo, hoje. Em cada caso, a questão é saber onde estão os “pontos luminosos”, e o Brasil é um vazio cheio deles.


domingo, 14 de abril de 2013

Toca Daniela! - POR ROBERTO KAZ

O Globo - 14/04/2013

NA PRIMEIRA SEMANA ‘FORA DO ARMÁRIO’, CANTORA BAIANA GANHA SEGUIDORES NA REDE E É TOCADA EM FESTAS CARIOCAS, ENTRE NIRVANA E THE CURE

O DJ Dodô Azevedo foi surpreendido, no penúltimo sábado, quando tocava na festa “Fofoca”, na Enseada de Botafogo. Em meio a músicas do Nirvana, The Cure e Rage Against the Machine, uma moça lhe pediu que colocasse Daniela Mercury. O pedido tinha razão mais ética que estética: dias antes, na quarta-feira, dia 3, a cantora baiana publicara quatro fotos dela no Instagram ao lado de sua nova companheira, Malu Verçosa. As fotos vinham acompanhadas da legenda “Malu agora é minha esposa, minha família, minha inspiração pra cantar”. A frase e as imagens — vindas de uma mulher com cinco filhos, conhecida, até então, por ter relacionamentos heterossexuais — repercutiram nas pistas de dança.

— Eu nunca havia tocado Daniela Mercury na vida — afirma o DJ. — Tinha uma música dela no computador, que nem lembro o nome. Pensei em colocar apenas um trecho, para ser simpático. Mas quando começou, a festa veio abaixo. Isso porque antes estava tocando Nirvana... Foi uma loucura muito grande.

DJ especializada em música brasileira, Tati da Vila também colocou Daniela Mercury nos dois aniversários em que tocou, no fim de semana.

— Uma das coisas que havia sido proibida, pelos dois aniversariantes, era música baiana. A Daniela Mercury não faz parte do meu repertório — diz ela. — Mas na hora, não só toquei como foi um sucesso, especialmente com os casais gays. Esse tipo de homenagem costuma acontecer quando há uma polêmica ou quando um artista morre. Tenho certeza de que, se fosse fora desse contexto, as pessoas torceriam o nariz com relação a esse tipo de música.

Na festa Sopa, que aconteceu no Morro do Vidigal, o ator e DJ Armando Babaioff botou, entre Novos Baianos e Caetano Veloso, uma versão ao vivo de “O canto da cidade”:

— As pessoas entenderam o porquê daquela música naquele momento; foi uma euforia — lembra.

No Galeria Café, conhecido reduto gay da Rua Teixeira de Melo, em Ipanema, o DJ Rody Martins também escolheu “O canto da cidade” para o repertório da festa “X-Tudo”:

— Como na festa tem muita música brasileira, a gente de vez em quando toca Daniela. Sempre soube que ela era bissexual — diz. — Mas a partir de agora, as letras dela vão ter outra conotação. É uma renovada de público na carreira dela. “O canto da cidade” já virou um hino gay.

Não foi apenas nas pistas de dança que o anúncio da relação de Daniela e Malu se fez sentir. De acordo com dados do Google, no dia 3, o nome da cantora foi procurado 50 vezes mais do que nas datas anteriores. Além das palavras “letras” e “músicas”, a maior parte das buscas vinha acompanhada dos termos “namorada”, “casamento” e “assume”. No Twitter, ela ganhou, naquele dia, cinco mil novos seguidores — quantidade igual à que havia acumulado durante todo o mês de março. Tem, agora, 370 mil fãs no microblog.

No Facebook, pipocou uma fotografia d cantora, acrescida do brado “Menos Joelma, mais Daniela” (a frase é uma referência à vocalista da banda Calypso que, naquela semana, havia dito que mães de filhos gays sofrem tanto quanto a de “um drogado tentando se recuperar”). O humorista Hugo Gloss escreveu, em sua página no Twitter, que Daniela “nos enganou dizendo que era a cor da cidade”. Completou: “Mas você era o arco-íris inteiro, né, danada!”

Na Wikipedia — a enciclopédia virtual onde os verbetes crescem com informações acrescidas pelos usuários —, a página que resume a biografia de Daniela Mercury teve, desde então, 20 atualizações (as 20 anteriores haviam sido feitas ao longo de um ano inteiro). Dentre os novos dados, usuários acrescentaram o nome da cantora à categoria “Músicos LGBT do Brasil” (ficou entre Cazuza e Edson Cordeiro), colocaram informações sobre a “queda” que a escritora americana Camille Paglia, notória feminista, diz ter tido por ela, e incluíram detalhes sobre seu último disco, “Canibália”, lançado três anos atrás.

Perguntada se isso representa uma nova fase em sua carreira, Daniela Mercury respondeu:

— Canto a minha verdade, canto o que vem da minha alma e fica a critério.

Oásis - Luis Fernando Verissimo

Luis Fernando Verissimo
 
Numa recente London Review of Books o escritor irlandês Colm Toíbín desenvolve uma tese instigante sobre três autores, Fernando Pessoa, Jorge Luis Borges e Flann O'Brien, este último um contemporâneo de James Joyce que passou a vida inteira ao mesmo tempo venerando e cutucando o autor de Ulysses. Os três são de cidades - Lisboa, Buenos Aires e Dublin - situadas à margem da literatura mundial, cidades que Toíbín descreve como desertos culturais, em contraste com os centros de criação da sua época como Paris e Londres. É estranho Toíbín dizer isto sobre a Irlanda, que, além de Joyce, produziu Beckett, Shaw, Swift, Yeats, etc. e mais prêmios Nobel de Literatura por metro quadrado do que qualquer outro país do mundo. Mas a criação na Irlanda, de um jeito ou de outro, sempre foi um reflexo do domínio inglês, tanto da sua política quanto da sua cultura, e os premiados irlandeses foram todos fazer sua reputação e ganhar sua vida em Londres enquanto Dublin ficava como a capital da memória, como disse Lawrence Durrell de Alexandria, um lugar para ser evocado no exílio mais do que habitado.

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Aquele Joãozito - Humberto Werneck

HUMBERTO WERNECK - O Estado de S.Paulo
 
 
Um ano depois da morte do filho famoso, lá fui eu conhecer dona Chiquita, numa casa na Pampulha, em Belo Horizonte. Quando saí, horas depois, tratei de reter no papel um pouco do que me contara a mãe do Joãozito, quer dizer, João Guimarães Rosa, naquela tarde de 1968. Queixava-se da memória fraca - e no minuto seguinte se desmentia:

"Joãozito pegava o jornal e ficava perguntando ao pai o nome das letras. Ou os números pintados nos trens que passavam. O Florduardo achava uma graça, comprou lápis de cor e papel, fez assinatura do almanaque Tico-Tico. Quando abrimos os olhos, o Joãozito estava lendo e dando notícia de tudo. Tinha só 4 anos, um fenômeno."

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Exclusiva com o comandante Borges - João Ubaldo Ribeiro

João Ubaldo Ribeiro
 
-Comandante, ainda bem que você veio. Ontem me disseram que você não queria mais dar a entrevista.

- É, mas pensei melhor. Se eu prometi, está prometido. Alguém tem que manter a palavra neste país. Mas isso não impede, sem querer ofender ninguém, que eu ache esta entrevista uma palhaçada.

- Não entendi.

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Ainda Feliciano? - Caetano Veloso

O GLOBO

14/04/2013


Por que mentir tão descaradamente sobre fatos conhecidos?

Nem estou acreditando que volto ao assunto do pastor/deputado/presidente da CDHM. Mas, como muitos devem ter visto, ele mentiu reiterada e estridentemente sobre mim. Há um vídeo no YouTube em que Feliciano, esbravejando de modo descontrolado, diz-se com Deus contra o diabo e, para provar isso, mente e mente mais. As pessoas religiosas deveriam observar o quanto ele está dominado pela soberba. Faz pouco, ele se sentiu no direito de julgar os vivos e os mortos, explicando por meio de uma teologia grotesca a morte dos garotos dos Mamonas e sagrando-se justiçador de John Lennon. Agora, aferra-se à mentira. Meu colega Wanderlino Nogueira notava, com ironia histórica sobre as espertezas da igreja católica, que a mentira não está entre os sete pecados capitais. Mas sabemos que “levantar falso testemunho” é condenado pelo Deus de Moisés. Por que mentir tão descaradamente sobre fatos conhecidos? Será que minha calma observação, aqui neste espaço, de que sua persona pública é inadequada ao cargo para o qual foi escolhido (matizada pela esperança no papel das igrejas evangélicas) o ameaça tão fortemente? Eu diria a pastores, padres, rabinos ou imãs — sem falar em pais de santo e médiuns espíritas, que são diretamente agredidos por ele — que atentassem para o comportamento de Feliciano: como pode falar em nome de Deus quem mente com tão evidente consciência de que está mentindo?

Sim, porque não há, dentre aqueles que prestam atenção no meu trabalho, quem não saiba que, ao cantar a genial canção de Peninha “Sozinho” num show, eu indefectivelmente dizia não apenas que me apaixonara por ela através das gravações de Sandra de Sá e de Tim Maia: eu afirmava que cantá-la ao violão era só um modo de chamar a atenção para aquelas gravações. Como pode Feliciano dizer que “a imprensa foi rastrear” e descobriu que a música já tinha sido gravada por Sandra e Tim? Essas duas gravações eram sucessos radiofônicos. E como pode ele, sem piedade daqueles que com tanta confiança o ouvem em seu templo, afirmar que eu disse em entrevista coisa que nunca disse e nunca diria, ou seja, que o êxito inesperado de minha versão de “Sozinho” se deveu a eu ter mostrado a faixa a Mãe Menininha e esta ter-lhe posto uma bênção que, para Feliciano, seria trabalho do diabo? Mãe Menininha, figura importante da história cultural brasileira, já tinha morrido fazia cerca de dez anos quando gravei a canção.

É muita loucura demais. E muita desonestidade. Aprendi com meu pai os gestos da honestidade — e tomei o ensinamento de modo radical. Me enoja ver a improbidade. Feliciano sabe que eu nunca dei tal entrevista. Mas não se peja de impressionar seus ouvintes gritando que eu o fiz. Ele, no entanto, não sabe que eu jamais sequer mostrei qualquer canção minha à famosa ialorixá. Nem a Nossa Senhora da Purificação eu peço sucesso na carreira. Nunca pedi. Nem a Deus, nem aos deuses, e muito menos ao diabo. Decepciono muitos amigos por não ser religioso. Mas respeito cada vez mais as religiões. Vejo mesmo no cristianismo algo fundamental do mundo moderno, algo inescapável, que é pano de fundo de nossas vidas. Mas não sou ligado a nenhuma instituição religiosa. Eu me dirigiria aqui àqueles que o são. Os homens crentes devem tomar atitude mais séria em relação a episódios como esse. O que menos desejo é ver o Brasil dividido por uma polaridade idiota, em que, de um lado, se unem os que querem avanços nos costumes, e de outro, os que necessitam fundamentos de fé, ambos gritando mais do que o conveniente, e alguns, como Feliciano, saindo dos limites do respeito humano. Eu preferiria dialogar com crentes honestos (ou ao menos lúcidos). Não aqueles que já se põem a uma distância segura da onda neopentecostal. Eu gostaria de dialogar com um Silas Malafaia, de quem tanto discordo, mas que respeita regras da retórica e da lógica. Marina Silva seria ideal, mas poupemo-la. Não é preocupante, eu perguntaria a alguém assim, que um dos seus minta de modo tão escancarado? É fácil provar que nunca fiz aquelas declarações e é fácil provar que Sandra e Tim tiveram êxito com a obra-prima de Peninha. E que eu louvei esse êxito ao cantar a canção. Foram dezenas de milhares de brasileiros que ouviram. Se Feliciano precisa, para afirmar sua postura religiosa, criar uma caricatura caluniosa dos baianos e da Bahia, algo é muito frágil em sua fé. A maré montante do evangelismo não dá direito à soberba irrefreada. O boneco tem pés de barro. E cairá. Eu creio na justiça e na verdade. Esses valores atribuídos a Deus têm minha adesão irrestrita. Não sei que Deus sustenta a injustiça e a mentira. Ou será que é aí que o diabo está?

sábado, 13 de abril de 2013

SABÁTICO

 

Lygia Fagundes Telles, testemunha literária

A escritora relembra momentos marcantes de sua trajetória, como a amizade com Clarice Lispector e Hilda Hilst, a viagem à China em 1960, o encontro com Montero Lobato e a agonizante espera pela liberação de 'As meninas' pela censura


Ubiratan Brasil

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“QUAL O MISTÉRIO DESSA MULHER?”

Cronista do Caderno 2 narra casos saborosos envolvendo ambos e diz: “Quero envelhecer como ela, de bem com a vida”

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Conto do adeus à ilusão

Obra do chinês Mo Yan trata da distância entre o que a revolução prometeu e fez

 

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 O RISO PARA DEMOLIR IDEOLOGIAS E TABUS

 Em A Questão Finkler, Howard Jacobson tenta desvendar com humor e autoironia o enigma da experiência humana

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A literatura pop encontra a erudita

Fenômeno editorial que deu nome a uma geração, 'Nocilla Dream', primeiro volume da trilogia escrita pelo espanhol Agustin Fernández Mallo, chega ao Brasil e faz do autor o possível sucesssor de Bolaño

 

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É nosso, o Maraca? - Arnaldo Bloch


 O Globo - 13/04/2013

 

Ali era o centro do mundo. Será que voltará a ser? Ou será só um equipamento a mais a orbitar o estranho sol da Fifa e seus consórcios?

Na quinta-feira passada, dia de abertura dos envelopes para a concessão do novo Maracanã, o Escobar (Alex, apresentador do GloboEsporte), comentou, com sua careca e seu sorrisão, como todos estavam ansiosos para ver um grande jogo no estádio demolido e retrofitado (ou retrofifado, para os íntimos).
O programa exibia o quadro “O Maraca é nosso”, espécie de contagem regressiva com espírito otimista sobre o futuro do ex-maior do mundo, com um apelozinho patriótico que procura recuperar algo que um dia existiu, mas, hoje, soa como nova utopia.

Quem viu, viu, quem viveu, viveu: o nosso Maraca morreu. A vontade de ir ao Maraca, paradoxalmente, sobrevive e aumenta, reavivando memórias e criando estes sonhos ingênuos de redenção e amor renovado.
Mas o medo de entrar lá e ser assaltado por uma terrível e fatal saudade vai permancer até a hora de “adentrar” as arquibancadas e olhar o panorama da tarde azul.

Será que virá aquele susto de sempre? Aquela impressão de que, por mais nosso que fosse, o Maracanã era, a cada jogo, um acontecimento mítico, causador de um espanto estranho, metafísico.
Já dá para imaginar, daqui a uns meses, o pessoal, mais cedo, tomando cerveja em frente à mesma estátua do Bellini, só que cercada por equipamentos urbanos, shoppings, Mickeys e, talvez, um índio perdido nos entornos da Aldeia Maracanã, onde ficava o museu e que terá novo uso, ou abuso.
O torcedor vai ter ainda o privilégio de escalar as antigas rampas anguladas, que, felizmente, serão mantidas, não sei se em azul e branco ou com novos revestimentos.

As arquibancadas, lá adiante, surgirão como intrusas nascidas do vazio da demolição e estão a moldar novos ângulos e curvas, desconhecidos de quem durante décadas sentou no cimento e correu acima e abaixo pelos gigantes degraus livres de divisores, cadeiras, vidro.

Ali era o centro do mundo. Será que voltará a ser? Ou será só um equipamento a mais a orbitar o estranho sol da Fifa e seus consórcios?

Qual será o melhor envelope? A que estilo de exploração o Maraca será submetido? Com que preços o torcedor vai se confrontar? Há alguma rachadura incontornável no corpo reencarnado de Mário Filho?
Deve-se saudar quem houver decidido pela manutenção do nome que, junto com as rampas, e com os pedaços da antiga fachada que porventura se revelarem, formarão alguma massa de memória capaz de fazer o povo sentir-se, ao menos em parte, no “seu Maraca”.

Porque, lá dentro, é tudo novo, tudo, absolutamente tudo, um grande espetáculo de luz espera por todos, e todos esperam também que a nova cobertura fique mais bonita que a aparência de lona usada e suja que se tem visto nos jornais, nos sites e na TV. Coisa feia pra quem olhava o anel superior, majestoso, com suas janelas.

Faltará aquele gramado cujos vértices tocavam um piso circular que ficava ao centro do grande arco superior, e, lá no centro dos acontecimentos, o centro do gramado, e, acima do céu, o Rio, o Brasil, o Mundo, o Universo e o que mais houvesse a girar numa conjunção geocêntrica. Coisa de arrepiar os cabelos de Copérnico.

Todos estarão mais próximos do gramado, criando um intimismo que não existia no Maraca (a não ser no lindo caos da Geral), mas acabando com a monumentalidade que caracterizava o estádio e dava a ele um ar ancestral; que o fazia de todos e de ninguém, palco de guerras púnicas e batalhas romanas, Coliseu carioca e matéria de criação rodriguiana.

Naquele tempo o Maraca era nosso, apesar das incongruências da administração pública. Por mais caída que fosse, a voz de pato que saía dos alto-falantes dizendo “A Suderj informa” integrava um grande teatro formado por bandeirões, vibração no cimento, morteiros e massa humana de domingo, estática de rádio de pilha e assovios, batuques desencontrados esquentando o descompasso que precedia o jogo, como uma orquestra a afinar seus instrumentos.

O que virá no lugar dessa explosão dos sentidos? Terá restado, no espaço que o Maraca ocupa, algum ar essencial, uma energia de lenta dispersão, que, sorrateiramente, venha a reinstituir o diapasão da tribo que balançou-o por mais de meio século, evocando forças milenares, migratórias, brasileiras?

É possível que, num fenômeno, as novas estruturas sejam remodeladas, tendo como pivô o inconsciente da galera, de modo que da destruição nasça uma resultante cognitiva capaz de plugar corpo e alma na nuvem da memória: mesmo sem saber, estaremos, e nossos filhos, lá, suspensos, na onda do Maraca eterno.
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Depois de anos só trocando e-mails, tive a alegria de conhecer pessoalmente Aldir Blanc, no lançamento do bonito livro que o jornalista Luiz Fernando Vianna, o popular “Orelha”, escreveu sobre o poeta. Aldir apareceu-me como figura bíblica, mosaica, trágica e risonha. Abraçou-me com drama, chorou lamentos e celebrou a vida, como um deus.

E-mail: arnaldo@oglobo.com.br

Cerebral - José Miguel Wisnik

O Globo - 13/04/2013

Kim Jong-un fala literalmente, quando anuncia a iminência da guerra termonuclear?

Faz pouco tempo aconteceu em São Paulo o show de Arrigo Barnabé com Luiz Tatit. Pela primeira vez esses dois compositores da chamada vanguarda paulista fizeram parcerias — mais de uma dezena delas. É um assunto para quando sair o CD gravado ao vivo. Por ora, só quero citar alguns versos da canção final do show: “Ser humano é sempre igual/ é bem bom mas é falho/ ser humano é cerebral/ cerebral o caralho”. Essas palavras estão reboando no meu cérebro enquanto se desenrola a novela bélica da Coreia.

Escrevo na quinta sem saber o que ninguém sabe: Kim Jong-un fala literalmente, quando anuncia a iminência da guerra termonuclear? Está disposto, junto com seu comando militar, a desencadeá-la, ao mesmo tempo em que acusa o inimigo de fazê-lo? Ou fará alguma demonstração de poder balístico localizado, a título exemplar, para efeitos internos e externos? Com que raio de ação? Comemorará o centenário do avô, data cívica nacional máxima, na próxima segunda-feira, com algum fogo de artifício nuclear? Ou a manobra anunciada é toda de retórica verbal, com objetivos precisos? Em suma, seus mísseis serão, nesse momento, artefatos reais, imaginários ou simbólicos?

Todas as análises que leio esbarram na dificuldade de responder a essas perguntas. Se são mísseis simbólicos, fariam parte de uma diplomacia armada, a um tempo fria e fervente, capaz de considerar os fatores econômicos, políticos e militares envolvidos no tabuleiro asiático e de controlar os riscos levando-os ao limite, para firmar uma posição de força frente à Coreia do Sul, ao Japão e aos Estados Unidos. Se não estou enganado, a entrevista do embaixador brasileiro em Pyongyang, que li em “O Estado de S. Paulo”, há umas duas semanas, ia em boa parte nessa direção.

Se os mísseis são imaginários, não no sentido de irreais, mas como parte de um jogo de imagens que confronta a existência de alguém com a existência do outro que o ameaça de morte, estamos à beira de um jogo de tudo ou nada, em que a identidade nacional da Coreia do Norte, forjada no culto dinástico da sucessão dos ditadores, espelha-se na massa que os apoia e no aparato bélico que solda essa identidade imaginária num espelho de aço. Nesse sentido, a afirmação do potencial bélico contra o inimigo passa a ser, além de um desafio lançado ao outro, uma necessidade de reconhecimento fusional interno, de natureza hipnótica, entre o jovem líder aprendiz de feiticeiro e a massa.

Uma ou outra das leituras, simbólica ou imaginária, vai bater no real, porque a separação entre essas instâncias, quando postas à prova, é na verdade acadêmica. A retórica com fogo atômico, alimentada de imaginário, fica a um triz da explosão literal. No fundo, é isso que tem sido dito em meio à perplexidade, pela China, pela ONU, pelas ações militares norte-americanas ou por comentaristas variados.

A mim impressiona, a título de indício, um elemento aparentemente fortuito: os quepes do alto comando que cerca Kim Jong-un. São quepes altos e gorduchos, quase em forma de cogumelos, como que ciosos, no nível subliminar, do poder atômico que sustentam. Ninguém tira da minha cabeça que são cifras simbólicas e imaginárias do desejo real que os alimenta. O balanço menos visível disso tudo, no interior daqueles cérebros propriamente ditos, permanece como a incógnita e a interrogação sobre o desenrolar da novela.

Uma mulher cuja intuição eu admiro, e que não é militante feminista, me diz que todo esse alarde atômico da Coreia do Norte se deve ao fato de que uma mulher, Park Geun-hye, subiu recentemente ao poder na Coreia do Sul (também ela filha de um ex-ditador). Nessa hipótese, Kim Jong-un teria elevado o tom, inconscientemente ou não, movido por uma obscura guerra de gêneros, num campo político atomicamente armado, falocêntrico e refratário à ascensão do feminino ao poder, que tem acontecido em várias partes do mundo ocidental, chegando agora ao Oriente. O pouco que se fala da presidente sul-coreana, no contexto da crise, não deixa de ser um índice silenciado e silencioso desse fato, e da dificuldade de identificá-lo.

Volto ao cérebro: “Ser humano é cerebral /cerebral o caralho”. A palavra “cerebral” significou tradicionalmente o que é racional, equilibrado, não movido por impulsos e instintos. Essa distinção, que a canção de Arrigo e Tatit põe e dispõe com vigor espetacular, numa espécie de desabafo, também pode ser vista pelo seu avesso: as ciências têm mostrado que o cérebro não é totalmente “cerebral”. Ele manipula, esconde, premia com o prazer como se fôssemos cobaias dele, e nos leva a crer no que “ele” prefere que creiamos. Cerebral e o caralho. Como a novela atômica da península coreana.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

O Rio de altos e baixos - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 10/04/2013

O carioca é ciclotímico em relação ao Rio, que costuma ser para ele a melhor ou a pior cidade do mundo. Aqui não há lugar para vice (os vascaínos que o digam). Nossa percepção e humor variam entre a euforia e a depressão. Até outro dia era a melhor, estava bombando. Vivíamos um momento histórico. A paz urbana finalmente chegara, os investimentos também, os turistas estavam adorando, os hotéis iam ficar superlotados. A cotação estava lá em cima. Tudo parecia pronto para a nossa gente bronzeada mostrar o seu valor nos próximos eventos: Jornada Internacional da Juventude, Copa das Confederações, Copa do Mundo, Olimpíadas. O Brasil, o Rio principalmente, comemoraram antes da hora. Acreditou-se no fim da violência, no milagre das UPPs, festejou-se tanto os novos tempos que a Brahma resolveu neutralizar as vozes que advertiam para os problemas não resolvidos. Contra o bordão "Imagina na Copa", ela lançou a resposta euforizante do pilequinho cívico: "Vai ser a melhor festa já vista." Diante desse clima de exagerado otimismo, atos de barbárie como o inominável estupro da jovem americana na van foram um brutal choque de realidade que abalou nossa autoestima e manchou nossa imagem. O risco agora, para a população, é cair na depressão e, para as autoridades, atribuir tudo de ruim ao acaso e à fatalidade.

Recebi e-mail do prefeito com reparos à coluna do dia 3. Cedo-lhe a palavra. Sobre o Elevado do Joá, ele diz que o chamado "estudo da Coppe" é na verdade "um estudo da prefeitura que contratou a Coppe para fazer um levantamento aprofundado que nunca havia sido feito. Perguntei então: devo interditar o elevado? Resposta: não. O que devo fazer? Demoraram dois meses para me apresentar uma solução definitiva de R$ 70 milhões, que está em execução. Jamais economizaria em tema como esse."

Sobre a TransOeste: "A empresa responsável pelo lote 2 ganhou a licitação e executou mal a obra. A fiscalização da Secretaria de Obras apurou o defeito e exigiu que fosse refeito. Não estamos gastando um tostão. É como se estivesse na garantia. Óbvio que eu preferia que empresas incompetentes não pudessem participar de processos licitatórios."

Sobre o Engenhão: "Essa é uma herança que recebi (junto com a Cidade das Artes). Quem construiu me trouxe um laudo apontando risco (supostamente por erro do engenheiro e seu modelo matemático). Não tinha outra alternativa a não ser interditar. E quem fez é que vai ter que pagar o conserto."

Para terminar, Eduardo Paes deixa no ar uma dúvida: "Temos aqui nossos defeitos, mas diria que nos dois primeiros casos os problemas e/ou soluções são de engenharia. No caso do Engenhão, não posso afirmar."
 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Conversa na Catedral

REVISTA VEJA 08/04/2013

Religião

VEJA publica, com exclusividade, trechos dos diálogos entre Jorge Bergoglio, o então arcebispo de Buenos Aires e hoje papa Francisco, e o rabino Abraham Skorka. O resultado é um duelo de inteligências.
Não havia tema proibido nos encontros realizados semanalmente, ao longo de 2010, entre as duas maiores autoridades religiosas da Argentina — o então arcebispo de Buenos Aires, Jorge Bergoglio, e o rabino Abraham Skorka, doutor em química, professor de Bíblia e de literatura rabínica no Seminário Rabínico Latino-Americano. As conversas, quase sempre na catedral portenha, muitas vezes no escritório de Skorka, trataram de ateísmo, celibato, homossexualidade, aborto e divórcio. O resultado foi transformado no livro Sobre o Céu e a Terra (tradução de Sandra Manha Dolinsky; Paralela; 208 páginas: 24,90 reais). Não há guia mais adequado para entender a cabeça do papa Francisco, o jesuíta com comportamento franciscano.

Ateísmo

Jorge Bergoglio - Quando me encontro com pessoas ateias, compartilho com elas as questões humanas, mas não toco de cara no problema de Deus, exceto no caso de falarem comigo sobre o assunto. Quando isso acontece, eu lhes conto por que acredito. O humano é tão rico para compartilhar, para trabalhar, que tranquilamente podemos complementar mutuamente nossas riquezas. Como sou crente, sei que essas riquezas são um dom de Deus. Também sei que o outro, o ateu, não sabe disso. Não encaro a relação para fazer proselitismo com um ateu, eu o respeito e me mostro como sou. Na medida em que haja conhecimento, aparecem o apreço, o afeto, a amizade. Não tenho nenhum tipo de reticência, não diria que sua vida está condenada, porque tenho certeza de que não tenho direito de julgar a honestidade dessa pessoa. Muito menos quando me mostra virtudes humanas, essas que engrandecem as pessoas e me fazem bem. De qualquer forma, conheço mais gente agnóstica que ateia; o primeiro é mais dubitativo, o segundo está convencido. Temos de ser coerentes com a mensagem que recebemos da Bíblia: todo homem é imagem de Deus, seja crente ou não. Por essa única razão, ele conta com uma série de virtudes, qualidades, grandezas. E caso tenha baixezas, como eu também as tenho, podemos compartilhá-las para nos ajudar mutuamente a superá-las.

Abraham Skorka - Concordo com o que o senhor disse: o primeiro passo é respeitar o próximo. Mas eu acrescentaria um ponto de vista: quando uma pessoa diz "eu sou ateu", acredito que está assumindo uma postura arrogante. A posição mais rica é a daquele que duvida. O agnóstico pensa que ainda não encontrou a resposta, agora o ateu tem certeza, 100%, de que Deus não existe. Tem a mesma arrogância de quem garante que Deus existe, tal como existe esta cadeira sobre a qual estou sentado. Nós, religiosos, somos crentes, não damos por cena Sua existência. Podemos percebê-la em um encontro muito, muito, mas muito profundo, mas nunca O vemos. Recebemos respostas sutis. A única pessoa que, segundo a Torá, explicitamente falava com Deus, cara a cara, era Moisés. Aos outros — Jacó, Isaac —, a presença de Deus chegava em sonhos ou em refrações. Dizer que Deus existe, como se fosse mais uma certeza, também é uma arrogância, por mais que eu acredite que Deus existe. Não posso afirmar superficialmente Sua existência porque tenho de ter a mesma humildade que exijo do ateu. O exato seria dizer — como Maimônides enuncia em seus treze princípios da fé — "eu acredito com fé plena que Deus é o Criador". Seguindo a linha de Maimônides, podemos dizer o que Deus não é, mas não podemos assegurar o que Deus é. Podemos mencionar suas qualidades, seus atributos, mas de jeito nenhum podemos lhe dar forma. Eu recordaria ao ateu que há uma perfeição na natureza que está enviando uma mensagem: podemos conhecer suas fórmulas, mas nunca sua essência.

Celibato

Bergoglio - Faço um esclarecimento: o sacerdote católico não se casa na tradição ocidental, mas pode fazê-lo na oriental. Ali casa-se antes de receber a ordenação; se já foi ordenado, então não pode se casar. E o laico católico, que vive em plenitude, está metido no mundo até o pescoço, mas sem se deixar levar pelo espírito do mundo. E isso é muito difícil. Agora, o que acontece conosco, os consagrados? Somos tão fracos que sempre há a tentação da incoerência. Queremos tudo, o bom da consagração e o bom da vida laica. Antes de entrar no seminário, eu andava por esse caminho. Mas depois, quando se cultiva essa escolha religiosa, encontra-se força nesse outro caminho. Eu, pelo menos, vivo assim, o que não impede que se conheça uma garota por aí. Quando eu era seminarista, fiquei deslumbrado por uma garota que conheci no casamento de um tio. Fiquei surpreso com sua beleza, sua luz intelectual... e, bem, andei confuso um bom tempo, pensava sem parar. Quando voltei ao seminário, depois do casamento, não consegui rezar ao longo de uma semana inteira, porque, quando me dispunha a orar, a garota aparecia em minha cabeça. Tive de voltar a pensar no que estava fazendo. Ainda era livre porque era seminarista, podia voltar para casa e tchau. Tive de repensar a opção. Tomei a escolher — ou a me deixar escolher — o caminho religioso. Seria anormal se não acontecessem coisas desse tipo. Quando isso acontece, temos de nos situar novamente. Temos de ver se voltamos a escolher ou dizemos: "Não, isso que estou sentindo é maravilhoso, tenho medo de que depois eu não seja fiel a meu compromisso. Vou deixar o seminário". Quando acontece algo assim com algum seminarista, eu o ajudo a ir em paz, a ser um bom cristão e não um mau padre. Na Igreja ocidental, à qual pertenço, os padres não podem se casar como nas igrejas católicas bizantina, ucraniana. russa ou grega. Nelas, os sacerdotes podem se casar; os bispos não, têm de ser celibatários. Eles são muito bons padres. Às vezes debocho deles, digo que têm mulher em casa, mas que não perceberam que também compraram uma sogra. No catolicismo ocidental, o tema é discutido impulsionado por algumas organizações. Por enquanto, a disciplina do celibato se mantém firme. Há quem diga, com certo pragmatismo, que estamos perdendo mão de obra. Se, hipoteticamente, o catolicismo ocidental revisasse o tema do celibato, acredito que o faria por razões culturais (como no Oriente), não tanto como opção universal. Por ora, sou a favor de que se mantenha o celibato, com seus prós e contras, porque são dez séculos de boas experiências, mais que de falhas. O que acontece é que os escândalos se veem logo. A tradição tem peso e validez. Os ministros católicos foram escolhendo o celibato pouco a pouco. Até o ano 1100, havia quem optasse por ele e quem não. Depois, no Oriente se seguiu a tradição não celibatária como opção pessoal, e no Ocidente o contrário. É uma questão de disciplina, não de fé. Isso pode mudar. Pessoalmente, nunca passou por minha cabeça me casar. Mas há casos. Veja o do presidente paraguaio Fernando Lugo, um sujeito brilhante. Mas, sendo bispo, teve um deslize e renunciou à diocese. Nessa decisão foi honesto. Às vezes surgem padres que caem nisso.

Skorka - E qual é a sua postura?
Bergoglio - Se um deles vem e me diz que engravidou uma mulher, eu o escuto, procuro fazer com que tenha paz e, pouco a pouco, faço-o perceber que o direito natural é anterior a seu direito como padre. Portanto, ele tem de deixar o ministério e assumir esse filho, mesmo que decida não se casar com essa mulher. Porque, assim como essa criança tem direito a ter uma mãe, tem direito a ter o rosto de um pai. Eu me comprometo a cuidar de toda a papelada em Roma, mas ele deve deixar tudo. Agora, se um padre me diz que se entusiasmou, que teve um deslize, eu o ajudo a se corrigir. Alguns padres se corrigem, outros não. Alguns, lamentavelmente, nem contam ao bispo.

Skorka - Que significa se corrigir?
Bergoglio - Fazer penitência, respeitar seu celibato. A vida dupla não nos faz bem. não gosto disso, significa substanciar a falsidade. Às vezes lhes digo: "Se não puder superar isso, decida-se".

Culpa
Bergoglio - A culpa pode ser entendida em duas acepções: como transgressão e como sentimento psicológico. Essa última não é religiosa; mais ainda, eu me atreveria a dizer que pode inclusive suprir um sentimento religioso, algo assim como a voz interior que diz que me enganei, que agi mal. Algumas pessoas são "culpogênicas", porque precisam viver em culpa; esse sentimento psicológico é doentio. Além disso, entender-se com a misericórdia de Deus parece muito mais fácil tendo esse sentimento de culpa, porque vou me confessar e pronto: o Senhor já me perdoou. Mas não é tão fácil, porque foi simplesmente para que lhe tirassem a mácula. E a transgressão é algo mais sério que uma mera mácula. Há pessoas que brincam com isso de culpa, e, então, transformam o encontro com a misericórdia de Deus em algo como ir à tinturaria, é só limpar a mancha. E assim vão degradando as coisas.

Skorka - Concordo totalmente. Uma coisa é o anedótico — os conselhos populares, a imagem da mãe judia "culpogênica" —, mas isso não tem nada a ver com a essência da concepção judaico-cristã da culpa, porque, quando alguém comete uma transgressão, existe uma possibilidade de se redimir. A pessoa tem de mudar para não tornar a cometer essa transgressão. Não basta dizer: "Eu me enganei", e acabou a história. É claro que ajuda fazer uma oração, realizar uma doação como um ato de caridade profundo, mas desde que sejam manifestações de uma elaboração sincera. Quando se fala que as religiões jogam com a transmissão da culpa judaico-cristã é uma incompreensão imensa, pois, nessa concepção, o fato de cometer uma transgressão não é o fim do mundo. Todo mundo pode se equivocar. mas é preciso reparar, consertar. E, acima de tudo, não tomar a cometer a falta.

Bergoglio - A mera culpa pertence ao mundo do idolátrico. É mais um recurso humano. A culpa sem reparação não me deixa crescer.

Aborto
Bergoglio - O problema moral do aborto é de natureza pré-religiosa, porque, no momento da concepção, está ali o código genético da pessoa. Ali já há um ser humano. Separo
o tema do aborto de qualquer concepção religiosa. É um problema científico. Não deixar avançar o desenvolvimento de um ente que já tem todo o código genético de um ser humano não é ético. O direito à vida é o primeiro dos direitos humanos. Abortar é matar quem não pode se defender.

Skorka - O problema de nossa sociedade é que ela perdeu, em grande medida, o respeito pela sacralidade da vida. O primeiro ponto problemático é falar do aborto como se fosse um tema simples e o mais normal do mundo. Não é assim: por mais que seja uma célula, estamos falando de um ser humano. Portanto, o tema merece um âmbito muito especial de discussão. Vê-se frequentemente que todo mundo dá a sua opinião, sem informação exata, sem conhecimentos. O judaísmo, em termos gerais, condena o aborto, mas há situações em que é permitido. Por exemplo, quando a vida da mãe está em perigo. Há diversos casos em que se autoriza o aborto. Mas o interessante é que os antigos sábios judeus do Talmude o proibiram absolutamente nos outros povos quando analisaram as leis dos gentios, o que seria o jus gentium no Talmude. Minha interpretação é que, como sabiam do que acontecia em Roma, queriam evitar ter de discutir a possibilidade do abono em uma sociedade na qual a vida não era muito respeitada. Podemos encontrar no Talmude uma análise exaustiva da pena de morte. Embora esse castigo apareça na Torâ, alguns sábios são da opinião de que deve ser restringida até tomar impossível sua aplicação. E há quem defenda com argumentos uma postura menos restritiva. Os sábios de cada geração é que, com base nas conjunturas que enfrentarão, aplicarão a pena de acordo com um critério ou outro. Algo semelhante ocorre com o aborto. E claro que o judaísmo o abomina e condena, salvo no caso claro, como explica a Mishná, de que a mãe corra um inquestionável perigo de morte. Nessas ocasiões, privilegia-se sua vida.

União homossexual

Skorka - O modo como se tratou o tema do casamento homossexual foi, em meu entender, deficiente no que diz respeito à profundidade da análise que o assunto merece. Embora de fato já existam muitos casais do mesmo sexo que coabitam e merecem uma solução legal em questões como pensão, herança etc. — que bem podem se enquadrar em uma figura jurídica nova —, equiparar o casal homossexual ao heterossexual já é outra coisa. Não é só uma questão de crenças, e sim de ter consciência de que estamos tocando em um dos elementos mais sensíveis da constituição de nossa cultura. Faltaram mais análises e estudos antropológicos sobre a questão. Paralelamente a isso, é claro que se deveria ter dado maior espaço de informação aos credos, como portadores e formadores de cultura. Deveriam ter sido organizados debates no seio dos próprios credos, com suas variadas tendências, para formar um espectro completo de opiniões.

Bergoglio - A religião tem direito de opinar, pois está a serviço das pessoas. Se alguém pede um conselho, tenho direito de dá-lo. O ministro religioso às vezes chama a atenção sobre certos pontos da vida privada ou pública porque é o condutor dos fiéis. Mas não tem direito de forçar nada na vida privada de ninguém. Se Deus, na criação, correu o risco de nos fazer livres, quem sou eu para me meter? Nós condenamos o assédio espiritual, que acontece quando um ministro impõe de tal modo as normas, as condutas, as exigências, que priva a liberdade do outro. Deus deixou em nossas mãos até a liberdade de pecar. Temos de falar muito claro dos valores, dos limites, dos mandamentos, mas o assédio espiritual, pastoral, não é permitido.

Skorka – (...) A lei judaica proíbe relações entre homens. Estritamente, o que diz a Bíblia é que os homens não devem ter relações no estilo das que homens têm com mulheres. Disso se deduz toda uma postura. O ideal do ser humano, desde o Gênesis, é unir um homem e uma mulher. A lei judaica é clara: não pode haver homossexualidade. Por outro lado, eu respeito qualquer indivíduo, desde que mantenha uma atitude de recato e intimidade. Em relação à nova lei, não me convence do ponto de vista antropológico. Ao reler Freud e Lévi-Strauss quando se referem aos elementos formadores daquilo que conhecemos como cultura, e o valor que dão à proibição das relações incestuosas e à ética sexual, como base do processo de civilização, preocupam-me os resultados que essas mudanças podem produzir no seio de nossa sociedade.

Bergoglio - Penso exatamente a mesma coisa. Para defini-lo, eu utilizaria a expressão "retrocesso antropológico", porque seria debilitar uma instituição milenar criada de acordo com a natureza e a antropologia. Há cinquenta anos, o concubinato não era uma coisa socialmente tão comum como agora. Era até uma palavra claramente pejorativa. Depois, a situação foi mudando. Hoje, coabitar antes de se casar, embora não seja o correto do ponto de vista religioso, não tem o peso social pejorativo de cinquenta anos atrás. É um fato sociológico, que certamente não tem a plenitude nem a grandeza do casamento, que é um valor milenar que merece ser defendido. Por isso, alertamos sobre sua possível desvalorização, e, antes de modificar uma jurisprudência, é preciso refletir muito sobre tudo o que está em jogo. Para nós também é importante o que o senhor acaba de apontar, a base do direito natural que aparece na Bíblia, que fala da união do homem e da mulher. Sempre houve homossexuais. A ilha de Lesbos era conhecida porque ali viviam mulheres homossexuais. Mas nunca ocorreu na história que se tentasse dar a essa relação o mesmo status do casamento. Era tolerada ou não, admirada ou não, mas nunca equiparada.

Divórcio

Bergoglio - O tema do divórcio é diferente daquele do casamento de pessoas do mesmo sexo. A Igreja sempre repudiou a Lei de Divórcio Vincular, mas é verdade que há antecedentes antropológicos diferentes nesse caso. Nessa oportunidade, nos anos 1980, deu-se um debate mais religioso, porque o casamento até que a morte os separe é um valor muito fone no catolicismo. Hoje, entretanto, na doutrina católica recordamos a nossos fiéis divorciados e casados de novo que não estão excomungados — embora vivam em uma situação à margem daquilo que a indissolubilidade matrimonial e o sacramento do casamento exigem —, e lhes pedimos que se integrem à vida paroquial. As igrejas ortodoxas ainda têm uma abertura maior em relação ao divórcio. Naquele debate houve oposição, mas com matizes. Houve posições extremas que nem todos compartilhavam. Alguns diziam que era melhor que não se aprovasse o divórcio, mas também havia outros mais abertos ao diálogo do ponto de vista político.

Skorka - Na religião judia, a instituição do divórcio existe, sendo aplicada na Halachá, a legislação rabínica. É claro, é um drama. Não é uma questão de fé, como no catolicismo, porque sua posição deriva da leitura dos Evangelhos, que dizem que Jesus teve uma postura dura em relação ao divórcio, como a adotada pela casa de Shamai, conforme atesta o Talmude. Para o judaísmo, quando o casamento não dá certo, quando depois de muitos esforços para conciliar as partes as incompatibilidades persistem, então ajudamos a formalizar o ato de divórcio. Exponho o tema nesses termos porque, no judaísmo, o rabino ou o tribunal rabínico não declaram nem decretam o novo estado das panes, só supervisionam para que a dissolução seja de acordo com as normas. São o homem e a mulher que assumem e declaram seu novo estado, assim como quando se casam. É um ato íntimo do casal, supervisionado por um conhecedor da lei para confirmar que o realizado é correto. Por isso não foi tão conflituoso aquele debate. Algo parecido aconteceu quando foram discutidos os métodos de reprodução assistida. O judaísmo era a favor porque era uma maneira de ajudar Deus para que uma mulher pudesse ser mãe, para melhorar a condição do indivíduo sofredor. É uma postura mais dinâmica que a católica. O catolicismo é mais duro, tem posturas mais restritivas nesses temas. Mas, quando se levantam todas essas questões no seio de uma sociedade democrática, é preciso tentar chegar a consensos.

CASAMENTO GAY

 Veja - 08/04/2013

A REVELAÇÃO PÚBLICA DE DANIELA

Ao anunciar a união com uma jornalista de televisão, a quem chama de esposa, a cantora baiana Daniela Mercury tomou obrigatória a discussão sobre o casamento gay no Brasil.

"Seja o que Deus quiser, Malu.” Daniela Mercury olhou para a companheira, em um quarto de hotel de Lisboa, onde esteve na semana passada para uma série de shows, tocou no ícone compartilhar do Instagram e pôs no ar uma colagem de fotos dela com a jornalista Malu Verçosa, editora na TV Bahia, afiliada da Globo. No cabeçalho, escreveu a frase que provocaria mais de 17000 reações de “curtir” coladas à revelação: “Malu agora é minha esposa, minha família, minha inspiração pra cantar”. E o Brasil inteiro ficou sabendo que ela saíra do armário, como se diz no jargão popular para definir a pessoa que assume sua homossexualidade, e que decidira trocar alianças — mas ainda não assinar papéis no cartório — com a namorada recente, de apenas dois meses e meio (na cronometragem oficial, descontado o período de segredo). Houve estardalhaço — saiu no Jornal Nacional. Daniela — mãe de dois filhos já adultos, do primeiro casamento, e de outros três adotados, do segundo, ambos relações convencionais — nunca admitira sua orientação sexual. Seja o que Deus quiser, portanto.

Mas Deus vai querer? Se depender da hierarquia das igrejas que falam em nome Dele, a resposta será um sonoro “não" dos líderes evangélicos brasileiros, um “sim” enfático dos anglicanos e um “sim” condicional dos católicos. “Se Deus, na criação, correu o risco de nos fazer livres, quem sou eu para me meter?”, foi a reação do jesuíta Mario Bergoglio, o papa Francisco, sobre o casamento gay em seu diálogo com o rabino Abraham Skorka (veja a reportagem na pág. 94). Bergoglio elabora sua resposta e diz que o papel do pastor é alertar o fiel para os perigos de pecar e nunca induzi-lo a determinado tipo de ação na vida privada. Mas pelo menos até que Ele a convoque para um acerto de contas, Daniela tem pouco com que se preocupar com as repercussões religiosas de seu anúncio. O casamento gay tem hoje mais implicações de ordem prática do que de consciência.

Depois do anúncio, Daniela divulgou uma nota na qual citou o deputado Marco Feliciano (PSC-SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Escreveu a cantora: “Numa época em que temos um Feliciano desrespeitando os direitos humanos, grito meu amor aos sete ventos. Quem sabe haja alguma lucidez no Congresso Brasileiro”. Ao misturar seu relacionamento com política, Daniela prestou um desserviço ao mesmo tempo ao romantismo e à sua seriedade de propósitos. O presidente do STF, Joaquim Barbosa, ajudou a por a questão em sua real perspectiva durante uma palestra na UNB: “É simples: o deputado Marco Feliciano foi eleito pelos seus pares para assumir determinado cargo dentro do Congresso Nacional. Perfeito. Agora, a sociedade tem direito de se exprimir contrariamente à presença dele nesse cargo. Isso é democracia”.

É natural e positivo que as instituições tratem as mudanças comportamentais radicais com a cautela devida. É natural e positivo também que as pessoas possam ter tempo para se acostumar com esses novos ordenamentos sociais e avanços comportamentais. É assim que as mudanças se legitimam, superando a intolerância, que se dilui com o tempo em formas cada vez mais brandas de rejeição até se tomarem invisíveis. Confrontada com a questão do casamento gay, a Suprema Corte dos EUA optou pela cautela. Pediu mais tempo para que os juizes avaliem todas as repercussões de um vez mais provável reconhecimento legal de uma situação de fato.

No Brasil, o STF reconheceu a união estável gay em 2011. A partir de parceiros do mesmo sexo numa relação contínua e duradoura, com o objetivo principal de constituir família, podem receber herança em caso de morte de um dos dois, receber pensão alimentícia, optar pela comunhão parcial de bens, e também adotar crianças. Em seis estados brasileiros (Alagoas, Bahia, Ceará, Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo) os cartórios já fazem o casamento civil homossexual, o que põe os casais juridicamente um degrau acima do status de união estável. Cerca de 400 casais gays brasileiros conseguiram a certidão de matrimônio desde o “sim” do STF. Esse número só tende a crescer.

É discernível uma tendência evolutiva rumo à aceitação no que diz respeito aos homossexuais. O que já foi visto como doença física no passado foi em uma fase posterior encarado como comportamento desviante provocado por defeito de criação — ou seja, produto de lares com mães superprotetoras e pais ausentes e violentos. As concepções erradas davam origem às reações sociais desastradas. A "rebelião de Stonewall”, os seis dias de confronto entre policiais e gays, em Nova York, ocorreu há pouco mais de quarenta anos. Desde então os gays deixaram de ser caso de polícia. Os estudiosos desvendaram o peso da determinação genética, o que esvaziou as falsas considerações morais sobre eles. Recentemente a homossexualidade tem sido descrita como uma adaptação evolutiva da espécie. Isso significa que muitas sociedades não apenas deixaram de ser hostis aos gays como passaram a ver contribuições positivas para o grupo na existência deles.

“A homossexualidade representa diversidade e ela é sempre positiva para a sociedade”, diz Edward Wilson, o grande biólogo americano de Harvard. autor de um livro recente, A Conquista Social da Terra, que funde de maneira inédita as análises genéticas e culturais do comportamento humano (veja a Carta ao Leitor, na página 12). Wilson põe a homossexualidade em campo diametralmente oposto, por exemplo, ao do incesto, este, sim, um desvio comportamental que não apenas abala o edifício moral das sociedades como empobrece a diversidade genética tão necessária para a sobrevivência sadia da espécie humana. Wilson diz que isso explicaria as razões da crescente aceitação da homossexualidade em contraste com a existência consentida do incesto somente em alguns pontos isolados da África e da Ásia — ainda assim com aceitação apenas ritualística em casamentos de chefes tribais. O mesmo processo sociogenético-cultural que, como demonstra Edward Wilson, vem chancelando a homossexualidade atua fortemente na rejeição da pedofilia e da poligamia. O que a biologia evolutiva constatou pelo método científico as pessoas percebem no cotidiano. Quanto mais jovem o grupo, menos seus integrantes consideram homossexualidade um assunto polêmico. Os jovens em quase todas as partes são cada vez mais o que os sociólogos chamam de “gender blind” — ou seja, eles olham uma pessoa, percebem que tipo de roupa ela usa, que corte de cabelo, mas se a pessoa é gay ou não é um ponto que não chama atenção.

O casamento gay coloca um desafio de outra ordem. Não se trata mais da simples aceitação pelo grupo de adolescentes ou jovens adultos — mas do reconhecimento pelas instituições de que os direitos civis podem ser automaticamente aplicados aos relacionamentos homossexuais duradouros. Isso é mais complexo. Esse processo exige que vanguardas e maiorias conservadoras realizem uma tensa dança do acasalamento até que a intolerância se dissolva em rejeição e essa em aceitação legal — o que não significa que os dois lados vão despeitar um dia depois da aprovação da eventual legalização do casamento gay concordando sobre todas as questões. Mas esse processo de negociação é inevitável.

É da natureza humana que as minorias liderem as transformações, na vanguarda, e que as maiorias, sempre mais apegadas ao que já existe, se incomodem. Impossível é fugir da existência de uma novidade que exclui a indiferença. Foi assim com o divórcio e com o movimento em defesa do voto feminino, no início do século XX, nos EUA e na Inglaterra. As mulheres já tratavam de política dentro de casa, opinavam sobre o cotidiano com o marido — mas o salto só se deu com a aprovação legal do voto. É o que ocorre agora com o ingresso do casamento gay nos tribunais.

Se a aprovação da união homossexual fosse simplesmente a institucionalização de uma postura que já estava acontecendo entre quatro paredes, seria mais fácil crer que essa transformação se daria de modo ainda mais acelerado. Mas há um complicador. Como estender aos gays as proteções legais dadas ao casamento pelo simples fato de ele, ao fim e ao cabo, propiciar a perpetuação da espécie pela procriação? As pesquisas de opinião no Brasil mostram que nem mesmo a adoção de crianças ou o recurso a barrigas de aluguel ou inseminação artificial demovem a maioria heterossexual da convicção de que os casais gays são incapazes de criar um lar estável. Nos EUA a resistência é bem menor, mas a questão ainda está longe de ser unanimidade. “Parece-me que os gays estão lutando pelo casamento. Eu receio que isso signifique rebaixar o que é o casamento”, disse o ator inglês Jeremy Irons ao site noticioso Huffington Post.

Além da intolerância e agressividade dos militantes, há descontentamento de bom número de pessoas com a redução de questões éticas de alta complexidade — caso também do abono e da eutanásia — a uma simples luta por direitos. Escreveram os especialistas em ética Claire Andre e Manuel Velasquez: “Muitas controvérsias morais hoje se expressam na linguagem dos direitos. Há uma explosão de recursos pelos direitos dos homossexuais, direitos dos prisioneiros, direitos dos animais, direitos dos não fumantes e dos fumantes, direitos dos fetos e direitos dos trabalhadores”. O reconhecimento do direito dos homossexuais perante as leis é, portanto, apenas um aspecto de uma questão social de conseqüências ainda não totalmente conhecidas. Mas apenas fingir que o novo não existe é insuficiente para preservar o velho.
 Com reportagem de Álvaro Leme, Bela Megale, Carlos Giffoni, Carolina Melo e Kalleo Coura.

E pensar que já foi assim...

Cada sociedade tem seu próprio tempo para maturar (ou não) mudanças sociais. Nos EUA, ao contrário do Brasil, a aceitação dos gays vem disparando — mas isso é recente

É um caso raro, talvez único: o presidente dos Estados Unidos assina uma lei e, depois de apear do poder, diz que ela é inconstitucional. Em 1996, pouco antes de concorrer à reeleição, Bill Clinton sancionou a lei que define o casamento como união "entre um homem e uma mulher". Queria o voto dos conservadores e temia desagradar aos liberais, mas assinou — na calada da noite, faltando dez minutos para 1 da madrugada, sem foto nem cerimônia, mas assinou. Ganhou a reeleição, cumpriu seu segundo mandato e, no mês passado, defendeu a ideia de que o documento que leva sua assinatura fere o princípio da igualdade entre os cidadãos da Constituição.

A inflexão de Clinton se explica numa aritmética elementar. Em 1996, só 27% dos americanos apoiavam o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Hoje, são mais da metade. O apoio cresce tanto que a Suprema Corte, numa audiência pública sobre a constitucionalidade do casamento gay, deu a impressão de que prefere não legislar sobre o assunto, deixando que cada estado decida o que julgar mais apropriado. A decisão final da Corte sai até junho. Pode deixar o assunto para os estados, como transpareceu na audiência, mas pode surpreender, aprovando o casamento gay para o país todo. Nem os militantes gays ficaram incomodados com a aparente cautela dos juízes, pois, cada vez que sai um plebiscito sobre o assunto, vencem. Em novembro, ganharam em quatro estados: Washington, Maine, Maryland e Minnesota. (Mais a eleição, por Wisconsin, da primeira senadora abertamente gay.) A revista Time colocou na capa um casal homossexual beijando-se na boca sob a seguinte chamada: "O casamento gay ganhou. A Suprema Corte ainda não decidiu, mas o país já".

Cada sociedade tem seu ritmo próprio para aceitar (ou não) novos comportamentos sociais. No Brasil dos anos 50, o cardeal de São Paulo, dom Carmelo Motta, achava que a aprovação do divórcio era motivo para pegar em armas, e as desquitadas eram comparadas com "mulheres da vida". Até o fim dos anos 60, os gays americanos se reuniam às escondidas em bares que pagavam propina à polícia para evitar batidas. Percorreram uma longa trajetória em busca de aceitação. Até 2004, a maioria dos americanos era contra o casamento homossexual. Desde então, o apoio entrou numa espiral ascendente. Por dois motivos. Os jovens que estão chegando à idade adulta são francamente favoráveis aos gays. O outro motivo é que as pessoas mudam de ideia, inclusive as mais velhas. Na "geração silenciosa", formada pelos nascidos entre 1928 e 1945, apenas 17% apoiavam o casamento gay há dez anos. Hoje, são 31%. Pois é, as coisas mudam devagar, mas mudam tanto que fazem até presidente dizer que assinou lei inconstitucional.

André Petry de Nova York.

Contra a "engenharia social"

Mais da metade dos franceses não vê com bons olhos a instituição do casamento gay. Mas o movimento não é reacionário: conta com homossexuais e tem algo de 1968.

Em maio de 1968, Paris foi palco de manifestações estudantis contra a velha ordem. "A imaginação no poder" e "Seja realista, exija o impossível" eram dois dos slogans que transbordaram para países do Ocidente e da América Latina, com variações locais que sopravam na mesma direção de modernizar hábitos — e, no extremo, transformar o sistema. O arco aqui ia da ressurreição do anarquismo à improvável mutação do marxismo em ideologia libertária. Maio de 1968 transformou as relações familiares e amorosas, mas propiciou o surgimento de grupos terroristas e causou a substituição dos paralelepípedos por asfalto nas ruas parisienses, a fim de evitar que os estudantes os arrancassem para jogar nos policiais. Uma pena do ponto de vista estético. Quase meio século depois, as maiores manifestações ocorridas em Paris parecem ir na direção contrária em relação a novidades comportamentais. São contra a legalização do casamento gay nos moldes propostos pelo governo. Uma delas reuniu quase 1 milhão de pessoas, em janeiro. A outra, realizada em março, mobilizou peno de 500 000 cidadãos e acabou em pancadaria. depois que um grupo tentou sair dos limites geográficos estabelecidos pelas autoridades. Agora, protestos menores e diários pressionam o Senado a emendar o projeto de lei aprovado pelos deputados.

O movimento, contudo, não pode ser definido como reacionário, embora a Igreja seja forte patrocinadora. Não é incorreto dizer que em diversos aspectos, ele é fruto de 1968. Sua líder, por exemplo, é a comediante Frigide Baijot (trocadilho com o nome da atriz famosa que significa Frígida Doidona) — católica, mas não uma carola de bigode ligada ao Opus Dei. Esse movimento abriga famílias com recasamentos, aglutina homossexuais avessos ao padrão heterossexual e conta com a simpatia de mais da metade da população, em boa pane desobediente aos ditames do Vaticano. Seus integrantes não são contrários à união de gays perante a lei. O que não querem ver aprovada é uma legislação que iguale casais homossexuais a heterossexuais, em especial quanto à reprodução médica assistida. Não acham bom que bebês nasçam de dois pais (por meio de barriga de aluguel, obviamente) ou de duas mães, porque essas crianças teriam problemas psicológicos. A lei abre brecha para os gays "gerarem" filhos. "Ao abolir a distinção entre héteros e gays, no que se refere à reprodução, o governo mostra o seu viés autoritário. O nome disso é engenharia social. Viva a diferença!", diz Frigide Baijot. Parece a fala de uma manifestante de 1968.

Mario Sabino, de Paris.


Maiorias e Minorias 

 

Uma reportagem desta edição de VEJA fala das ondas de choque provocadas pela decisão da cantora baiana Daniela Mercury de, depois de dois casamentos convencionais, proclamar publicamente pelo Insta-gram sua paixão por uma mulher, Malu, a quem chama de esposa. Se havia alguma possibilidade de a questão do casamento homossexual no Brasil ficar restrita aos militantes e seus adversários da bancada religiosa do Congresso, ela se evaporou na quarta-feira passada. O post de Daniela espalhou-se rapidamente pelas redes sociais, virou notícia no Jornal Nacional e na rede internacional CNN, onde a cantora já foi descrita como a “Madonna brasileira”. Daniela colocou o assunto no horário nobre da televisão brasileira e, mesmo subtraindo o senso de oportunismo de promoção pessoal, a tendência agora é que a discussão se alastre.

O assunto é complexo e convida à discórdia. Pessoas sem nenhum sentimento de rejeição aos homossexuais são contra o reconhecimento legal da união marital entre indivíduos do mesmo sexo. Boa parte se irrita mesmo é com a agressividade de militantes dos movimentos gays e sua fúria implacável dirigida a quem quer que ouse divergir minimamente deles. Mas é fato que muita gente intelectualmente honesta, despida de dogmas religiosos e indiferente ao tipo de atividade sexual que adultos pratiquem consensualmente entre quatro paredes, não vê com naturalidade a união homossexual ao amparo da lei. São pessoas que dificilmente dariam seu apoio a uma mudança no artigo 226 da Constituição Brasileira, no qual está estabelecido que, “para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar”.

A reportagem de VEJA contribui para o debate racional do tema. Ela lembra que o racismo, infelizmente, sobreviveu mesmo depois de o conceito de raça como critério de diferenciação humana ter sido destroçado pelos avanços genéticos recentes. Por isso, é de esperar que a condenação da homossexualidade continue em certos círculos, a despeito da constatação de que ela é apenas uma adaptação da espécie, como lembra o grande biólogo evolutivo americano Edward Wilson em seu mais recente livro, A Conquista Social da Terra. Diz Wilson: “A homossexualidade pode ser vantajosa para os grupos humanos pelos indivíduos de talentos especiais e qualidades incomuns de personalidade e pelas profissões especializadas que cria”.

Para encarar esses assuntos com serenidade, é bom ter em mente que quem amplia as fronteiras sociais são as vanguardas comportamentais, invariavelmente formadas por minorias. Quem mantém a coesão da sociedade são as maiorias, conservadoras por definição. Por isso, as relações entre os dois grupos de pessoas, mesmo quando não há conflito aberto ou intolerância, são sempre tensas. Se a vanguarda minoritária não força a barra, as relações sociais ficam congeladas no tempo. Sem alguma resistência da maioria, as mudanças de comportamento nunca se legitimam. Mantida no plano civilizado, portanto, essa tensão é não apenas natural, mas necessária e positiva.

domingo, 7 de abril de 2013

Viaduto Covas? É ali no Chá - JOSÉ DE SOUZA MARTINS

 O Estado de S.Paulo - 07/04/2013

Mudar nome de logradouros históricos talvez seja a parte mais fácil – difícil é convencer o povo a desistir da antiga denominação

Não parece boa ideia que o Viaduto do Chá mude de nome. Mesmo tendo sido Mário Covas um homem íntegro, um cidadão respeitável e um governante inesquecível. É justo que se dê seu nome a uma obra grandiosa. Mas, como já aconteceu em outros casos, o povo continuará chamando o Viaduto doChá de Viaduto do Chá. É um nome na memória dos paulistanos,um patrimônio da consciência coletiva, embora o homenageado seja o prosaico chá-da-china, que ali se cultivava no século 19. Chá famoso, de que gostava a família do poeta Álvares de Azevedo.

Nossos políticos,com as exceções de sempre, acham que tudo podem. Apresentar um projeto de lei parece mágica expressão de poder. Qualquer joão-dos-anzóis, uma vez eleito, pode propor até a mudança do nome do Corcovado. Na decadência política pela qual passamos,não seria estranho se alguém tentasse fazê-lo.E menos estranho que o Legislativo aprovasse a esdrúxula proposta. Nos anos 1970, um candidato a deputado por Goiás chegou a ter como bandeira eleitoral a revogação da Lei Áurea! Tem gente que já deu o nome da própria mãe a logradouro público. Do jeito que se xinga político neste país, não foi boa ideia.

Jovem, eu havia começado a trabalhar no jornal que veio a ser o Diário do Grande ABC, no fim dos anos 1950. Cabia-me cobrir assessões da Câmara Municipal de São Caetano do Sul. Numa das primeiras sessões de nova legislatura, um senhor muito simples, de pouca escolaridade, eleito pela população de um dos bairros pobres da cidade, evangélico, resolveu exercitar piamente seu poder. Queria marcar posição.Propôs ao plenário um“ voto de louvor ao autor da Bíblia”.O presidente da Câmara, que não estava culturalmente longe do proponente, pôs o projeto em votação: “Os vereadores que forem favoráveis,permaneçam como estão.Os contrários, que se manifestem”. “Aprovado!”, proclamou ele. E acrescentou: “Peço ao nobre edil que deixe na secretaria da Câmara o nome e o endereço do destinatário.” Até hoje o louvor não chegou ao destino.

Há alguns anos, foi proposto e aprovado que se desseonomedeumcidadãoprestante do bairro do Ipiranga ao Museu Paulista, da Universidade de SãoPaulo, popularmente conhecido como Museu do Ipiranga. É evidente que o nome não pegou, nem podia, pois o prédio do museu é oficialmente nosso monumento nacional da Independência. O cidadão prestante é agora oficialmente ignorado.

Um dos casos dolorosos de homenagem equivocada foi o da designação do histórico Túnel Nove de Julho com o nome de um dos mais ilustres cirurgiões brasileiros, o dr. Daher Elias Cutait. Foi eledestacado professor da Faculdade de Medicina, médico do Hospital das Clínicas e do Hospital Sírio-Libanês, merecedor, sem dúvida, de homenagem que lhe tornasse o nome lembrado para sempre. No entanto, a designação do túnel com seu nome criou enorme controvérsia. Nove de Julho, sabemos, é a data referencial
da Revolução Constitucionalista de 1932 e dos que nela morreram ou foram feridos. Um símbolo ligado a profundos sentimentos dos paulistas. Mudar o nome do túnel, em vez de fazer justiça ao nome do médico ilustre, acabou por expô-lo a sentimentos contraditórios que tiraram da homenagem o sentido que deveria ter.

Já tivemos outros episódios de denominação de rua que entrou em conflito com a tradição do povo. Por ter sido morto, em 1897, na Guerra de Canudos, no sertão da Bahia, no comando da Terceira Expedição Militar  para lá enviada para destruir o povoado sertanejo, de supostos monarquistas, a Câmara de São Paulo decidiu dar o nome do cel. Moreira César à Rua de São Bento. O nome chegou a ser incluído nos mapas da cidade. Mas não pegou. São Bento desde o século 16, não seria uma câmara qualquer do século 19 que lhe mudaria o nome, além do mais, nome de devoção.Nesse caso,Moreira César, aliás, não merecia que lhe dessem o nome a um lugar público nem aqui nem em canto nenhum. Militar violento e sanguinário, já havia executado sumariamente presos políticos nas revoluções do Sul. Gostava de mandar degolar os prisioneiros e com fama de degolador chegara ao sertão da Bahia. Era um carniceiro. Nem enterrado foi. Apodreceu por lá, comido pelos urubus, como tantos outros. Os sertanejos que fora combater e matar eram religiosos,seguidores do catolicismo popular e da monarquia do Divino Espírito  Santo. Não faziam mal a ninguém,passavam o dia em oração, não pretendiam derrubar o governo, embora Antônio Conselheiro não deixasse de reconhecer que o Império fizera justiça aos negros libertando-os da escravidão. Para ele, a deposiçãodafamília imperial fora uma injustiça.

Em São Paulo a população já estava cheia dos exageros republicanos.A Câmara Municipal do novo regime em poucas semanas trocara nomes de rua de membros da monarquia, que conhecia, por membros da República, que desconhecia: Benjamin Constant, Quintino Bocaiuva, Marechal Deodoro. Nem Moreira nem César.São Bento continuou a ser o santo nome da rua que há muito era o dele.


JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE SOCIOLOGIA DA FOTOGRAFIA
E DA IMAGEM (CONTEXTO)

Colunista Convidado: DADO VILLA-LOBOS - Quero ser John


Sonho meu - Caetano Veloso

O GLOBO - 07/04/2013

Por causa de uma viagem pelo verso de ‘Volver’, entrei, sozinho, numa meditação sobre a importância do português na construção da forma samba


Escrevi: “Dolores Duran era uma glória da língua portuguesa, sem a qual o samba não existiria”. É no que dá escrever com pressa. Houve quem pensasse (com razão) que eu estava dizendo que o samba não existiria sem Dolores, quando eu queria dizer que era sem a língua portuguesa que ele não existiria. É uma ideia que já deu mil voltas na minha cabeça: eu não deveria tê-la resumido tão ligeiramente numa frase que resultaria dúbia.

Faz tempo, eu estava num apart-hotel em Ipanema, cantando o tango “Volver”, só com meu violão. É muito comum acontecer de eu imaginar como seria em português uma frase de canção estrangeira que repito. Sobretudo se a frase me encanta. Parei em “Que es un soplo la vida”. Estava emocionado, e logo minha mente foi procurar como é que isso poderia ser dito em português. Mais: cantado em português. Fiquei surpreso ao ver o tamanho da dificuldade. Afinal era uma canção em espanhol, língua tão próxima à nossa. Mas “Que é um sopro a vida” não funciona. Depois de algumas tentativas, inverti a ordem das palavras e “Que a vida é um sopro” se mostrou natural e sonora. Mas muito longe da força do original. Acima de tudo, nada tango. A imponência, a solenidade da frase castelhana se desfez totalmente. Num primeiro momento, pareceu-me que não restava nenhuma beleza. Mas, afastando-me do tango e do tom aristocrático do espanhol, comecei a achar graça na frase curta e despojada que o português me ofertava. Espontaneamente liguei as sílabas “da”, “é” e “um” (além de, claro, fazer de “que” e “a” também uma sílaba única — como fazemos sempre, cantando ou conversando) e passei a repetir a frase com quatro sílabas poéticas: “Q(ue)a-vi-d(é)um-sopro”. Em poucos segundos eu tinha uma marcação de samba nascida da repetição da frase (que sugeria uma pausa regular entre as repetições). Mas isso era uma brincadeira que, em princípio, poderia ser feita com uma frase qualquer, em qualquer língua. Tudo ficou mais forte quando isolei a frase e a “cantei” (sem a melodia do tango e mesmo sem uma nova melodia muito definida): era uma frase de samba.

Era uma boa frase de samba-canção (para não dizer que estávamos assim tão longe de Dolores — e sem esquecer de que a brevidade da vida é tema central da biografia e do cancioneiro da carioca bochechuda). Era uma boa frase de samba de carnaval dos anos cinquenta, de samba de Paulinho da Viola, de Cartola, de Carlos Lyra, de Arlindo Cruz. De samba. Mas o clima que a envolve é enormemente diferente do clima da frase portenha. Não há solenidade e, portanto, o que se diz é algo ao mesmo tempo mais concreto e menos pesado do que o que se depreende do verso castelhano. Parece coisa mais banal, dita em tom mais pedestre e desimportante. No entanto, se sentido como trecho de samba, revela outros aspectos da constatação de que não passa de um sopro essa nossa vida. É menos bonita, mas há um realismo particular nesse despojamento estético.

Por causa dessa viagem pelo verso de “Volver”, entrei, sozinho, numa meditação sobre a importância do português na construção da forma samba. É frequente o tributo histórico que se presta à contribuição africana para o nascimento desse gênero que, por razões tanto autênticas quanto suspeitas, se tornou o centro da musicalidade popular brasileira. Mas ninguém fala (que eu ouça) do papel da língua portuguesa nesse processo. Sempre me fascinou o fato de falarmos português. Quanto mais eu crescia e ia aprendendo a geografia do nosso hemisfério ocidental, mais misterioso e atraente se tornava para mim que esse imenso pedaço de América fosse habitado por lusófonos. Que fosse o único país das Américas em que isso se deu só aumentava o fascínio. Ser um país uno concorria para que eu formasse dentro de mim uma imagem de claro enigma.

Não podemos conceber o samba sem a língua portuguesa. Não o teríamos concebido sem ela. Quando João Gilberto foi cantar em Lisboa escrevi que aquele era um grande acontecimento na história da língua portuguesa. Mas ainda não tinha pensado o que a tentativa de tradução de um verso de “Volver” me levou a formular. Lembro tudo isso quando ouço António Zambujo. Outro dia ouvi uma moça que estava com Xande do Revelação cantar “Não deixe o samba morrer” e, embora sua pronúncia soasse totalmente brasileira, havia algo de sentimento fadista na voz. Fiquei comovido. Logo soube que ela era portuguesa. Ao ouvi-la cantar outros sambas/pagodes, pensei que ali se estava realizando meu sonho antigo de haver grupos de pagode portugueses, fazendo sotaque brasileiro e sucesso internacional. Isso, desde os primeiros pagodes comerciais. Pagode, funk e axé lusitanos. Sonho meu.


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