domingo, 9 de junho de 2013

NSA e IMS - Caetano Veloso


 O GLOBO - 09/06/2013

Bush, Obama, Prism e o (nem tão) admirável mundo novo

Obama foi conversar com o premier chinês sobre a presença do Estado na internet justo quando o jornal “The Guardian” noticiou que o governo americano pode entrar nos e-mails, chats e redes sociais da Google, da Apple, da Yahoo. Pelo menos é o que acabo de ler aqui, na madrugada da quinta para a sexta-feira. Quando este errático artigo estiver impresso todo mundo já vai estar sabendo mais e melhor sobre isso do que posso saber agora. Os americanos que escrevem comments sobre a matéria do “New York Times” (os jornais americanos não pareciam saber antes de o britânico “Guardian” noticiar) se dividem entre os que se penitenciam por terem votado em Obama (às vezes com um subtexto de antiga agressividade reprimida contra ele), os que acham que, com as decisões do governo Bush sobre segurança nacional depois do 11 de setembro de 2001, estão vivendo um orwelliano 1984, e os que consideram desarrazoadas as queixas dos que cobram eficiência do governo contra atentados tipo maratona de Boston e, ao mesmo tempo, se mostram cheios de pruridos de resguardo da privacidade dos cidadãos e das liberdades individuais.

Mautner, que me mandou os links, sente (e diz naquele tom sempre mítico com que se expressa) o terror e a maravilha desse mundo novo nem sempre tão admirável. Eu não me sinto maduro o suficiente (não passou tempo bastante entre a leitura das reportagens e os comentários que me vejo escrevendo: na verdade, acabei de lê-las) para esboçar uma apreciação. Sobretudo porque não sei se dá para entender exatamente o que está se passando. Quem me lê aqui, em pleno domingo, já deve saber bem melhor. Está claro que a NSA (que em pouco tempo deverá tornar-se mais famosa do que a CIA) tem um programa chamado PRISM (prisma: nome bonito) que pode entrar nos textos, fotos, conversas, de qualquer habitante de qualquer país que não sejam os Estados Unidos (mas parece que podem entrar, com mais moderação, nos arquivos dos americanos e residentes também). A Google, a Apple e o Facebook podem ser varridos pela agência nacional de segurança. Esses e, segundo o “Guardian”, outros gigantes da internet. Cada um de nós pode se perguntar: será que algum curioso, em momentos de folga da busca de terroristas, vai ler segredos meus?

Sou um existencialista francês dos anos 1950: adolescente, gostava de ler Sartre dizendo que não queria ter segredos e que, no reino da liberdade, todos os homens deveriam dizer-se tudo uns aos outros. É claro que é uma maluquice. Mas eu era adolescente e morava em Santo Amaro. Isso me lembra também que o primeiro livro que li sobre o filósofo, “Sartre par lui même”, escrito por Francis Jeanson, um outro francês cujo nome eu tinha esquecido mas busquei no Google, continha uma recriminação a um livro americano que, estudando o estilo de Sartre (por exemplo: contando o número de interrogações etc.), concluía que se tratava de um exibicionista com alguma tendência homossexual. O francês desanca o psicólogo americano — e com razão (não li esse livro, mas a descrição que dele faz o ensaísta mostra tratar-se de algo bem americano, no mau sentido da palavra: psicologista, infantilmente direto e seguro de si). Mas a acusação de exibicionismo nunca foi por mim esquecida. E, nas minhas horas desatentas, ela volta como se fosse um insight. Pois bem: acho que não me incomodaria se um maluco desses lesse tudo o que já escrevi sobre mim para pessoas íntimas. Suponho que o exibicionismo é o verdadeiro traço que me atraiu, por semelhança, ao ex-famosíssimo filósofo francês.

Mas que feio para Obama herdar esse esquema de Bush e, em vez de criticá-lo, ampliá-lo. Bem, parece que política é assim. O poder ensina coisas que eu não gostaria de aprender. Como pensar esse mundo em que estamos vivendo? Nunca houve tanta fartura e liberdade para tanta gente em toda a história da Humanidade. No entanto, as dispariades são exasperantes, há fome e miséria, a concentração das riquezas e das oportunidades cresceu em anos recentes. E, mais assombroso, ninguém sabe como as forças do mundo — o modo de crescerem as economias e a violência das convicções religiosas — mover-se-ão para rearranjarem tudo de modo a podermos prosseguir. Não consigo imaginar que não prossigamos. Mas as mais variadas hipóteses são fantasiadas por essa minha cabeça insone e desorganizada.

A internet sempre acenou com uma liberdade imensa e com uma total possibilidade de controle. Como se desatará esse nó? Não há quem saiba e possa dizer de modo inteligível. No entanto, a alegria de estar no mundo permanece. Obama ainda é bonito nas fotos. Consultar o Google ainda é bom. Consultar o site do IMS às vezes é ainda melhor.


segunda-feira, 3 de junho de 2013

O 'chefão' do cinema brasileiro

 Valor Econômico - 03/06/2013

Por Bruno Ghetti | Para o Valor, do Rio

 

É quase impossível falar do cinema brasileiro dos últimos 50 anos sem passar, direta ou indiretamente, pelo nome de Luiz Carlos Barreto. O produtor foi peça chave do cinema novo, nos anos 1960, e teve importância decisiva na criação da Embrafilme, distribuidora estatal de filmes nas duas décadas seguintes. Viabilizou obras essenciais de Glauber Rocha (1939-1981), Nelson Pereira dos Santos e Carlos Diegues, ao mesmo tempo em que produzia longas-metragens que levavam milhões às salas. Nos anos 1990, emplacou duas produções brasileiras entre os indicados ao Oscar de filme estrangeiro. E em todos esses anos, participou ativamente das discussões de políticas culturais no Brasil.

Aos 85 anos, Barretão, como é conhecido no meio artístico, celebra os 50 anos de fundação da produtora LC Barreto. A empresa financiou mais de 80 filmes, marcos históricos do cinema brasileiro, como "Terra em Transe" (1967), de Glauber, e "Bye Bye, Brasil" (1979), de Diegues, e muitos sucessos de público, como "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1976), do filho Bruno Barreto, o primeiro longa nacional a superar a marca dos 10 milhões de espectadores - recorde batido apenas em 2010 com "Tropa de Elite 2", de José Padilha.

Hoje em dia, embora com produções mais modestas em termos estéticos e de bilheteria - o mais recente foi "Lula, o Filho do Brasil" (2009), dirigido por Fábio, filho mais novo do produtor -, a LC Barreto segue em plena atividade. O próximo filme a ser lançado é "Flores Raras", de Bruno Barreto, que estreia em 16 de agosto, sobre a história de amor entre a poeta americana Elisabeth Bishop e a arquiteta e paisagista carioca Lota de Macedo Soares.

A longevidade da empresa mostra que, em alguns casos, é possível viver de cinema no Brasil. O segredo do sucesso? "Não acho que podemos dizer que somos um sucesso...", diz Barreto, sem muita convicção na própria modéstia. Em seguida, explica melhor: "Somos eficientes. Nossa preocupação é fazer, mas fazer sempre o melhor. E entregar, porque filme que fica parado no meio do caminho é nosso fantasma. Então a palavra é "entregar"", diz, agora em tom mais convincente.

A disciplina é marca forte no estilo de produção de Barreto. Ele costuma dizer que cinema é uma "operação artístico- militar". "Uma equipe precisa trabalhar com uma hierarquia que tem de ser respeitada - do diretor ao boy. Existe uma autodisciplina [entre os profissionais], e tudo tem que ser feito com consciência. Há até, como nos quartéis, uma ordem do dia que precisa ser seguida."

Para falar de sua empresa, Barreto recebeu a reportagem em seu apartamento, no bairro de Laranjeiras (zona sul carioca), com vista para oo de Açúcar. Em um ponto da sala, uma mesa expõe símbolos religiosos e foto do filho Fabio, em "estado de consciência mínima" desde 2009, quando sofreu acidente de carro e teve traumatismo craniano - ele receberá novo tratamento em breve.

Antes de a entrevista começar, Barreto pede desculpas ao repórter para fazer uma ligação. Ao telefone, confirma um jantar em sua casa com o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo. A ligação com o poder não é de hoje: Barreto conheceu e manteve conversas políticas com vários presidentes, quase sempre em relações amistosas. Seus detratores, aliás, já o reprovaram exatamente por sua capacidade de "ficar bem" com quem está no poder - foi criticado, por exemplo, ao produzir uma biografia de Lula na época da eleição de Dilma Rousseff. Mas seu bom trânsito nas altas cúpulas já teve efeitos positivos para o cinema como um todo. Seu prestígio diante dos militares permitiu a criação da Embrafilme, que deu um impulso à produção cinematográfica nacional nos anos 1970.

"Lançamos mão de recursos próprios e de financiamentos bancários. Em 50 anos de empresa, nunca paramos por um dia."

"A ditadura pregava o nacionalismo. Os militares queriam formar uma empresa de exportação de filmes brasileiros - mas isso ia virar uma agência de turismo. Nós conseguimos convencer o governo de que aquiloo era o que o cinema brasileiro precisava naquele momento, que era se solidificar e se impor no próprio mercado", afirma.

Barreto nasceu na cidade cearense de Sobral, em 1928, e foi criado com dificuldades pela mãe (o pai deixou a família quando ele tinha três anos). Até a adolescência, só pensava em jogar bola, mas com os anos foi se interessando por política (foi comunista na juventude) e pelo jornalismo. Aos 19 anos, mudou-se para o Rio, onde conseguiu um emprego que mudaria sua vida: repórter fotográfico para a lendária revista "O Cruzeiro". Ali, conheceu e clicou personalidades de diversas áreas, de Pelé a Che Guevara (1928-1967), passando por Marlene Dietrich (1901-1992). Conheceu também o dono da revista, Assis Chateaubriand (1892-1968), de quem absorveu o espírito empreendedor, a tendência à polêmica e o carisma. "Poderia fazer um filme sobre ele só com as minhas lembranças."

No início dos anos 1950, conheceu uma jovem pianista, Lucy, de quem jamais se separou. Com sua outra grande paixão, o cinema, só se ligaria com força após 1961, quando conheceu Glauber Rocha. O cineasta baiano incentivou o novo amigo a entrar para a área, e Barreto logo assinaria o roteiro de "O Assalto ao Trem Pagador" (1962), de Roberto Farias, e a inovadora direção de fotografia de "Vidas Secas" (1963), de Nelson Pereira dos Santos.

Barreto se interessava por filmes voltados para a realidade brasileira, principal diretriz do cinema novo, e virou um dos mais atuantes do movimento. Largou o jornalismo em 1963, quando se lançou como produtor para viabilizar o documentário "Garrincha, Alegria do Povo" (1963), do amigo Joaquim Pedro de Andrade (1932 - 1988).

"Na época, produzíamos muitas coisas ao mesmo tempo. "Vidas Secas", "Garrincha", "A Hora e a Vez de Augusto Matraga" [1965, de Roberto Santos] e "O Padre e a Moça" [1966, de Joaquim Pedro] foram feitos quase simultaneamente. Hoje, a fórmula econômica adotada no cinema brasileiro é ineficaz e até prejudicial, porque é filme a filme. Empresas com vários projetos, que poderiam tocá-los, têm de parar e esperar", diz, referindo-se à dependência de muitos produtores de recursos públicos.

Barreto também faz captação em editais, mas é um dos poucos que podem se dar ao luxo de concluir filmes mesmo sem dinheiro público (caso de "Lula"). Nem tanto por dinheiro em caixa, mas por seu crédito na praça. "Tenho capacidade de endividamento da minha empresa. Quando vejo que o processo de captaçãoo está dando suficientemente para levar o filme nos [nossos] parâmetros de qualidade artística e industrial, aí recorro a linhas de crédito de bancos." Em muitos filmes, usou economia familiar - caso de "Flores Raras", que custou R$ 13 milhões. "Lançamos mão de recursos próprios e de financiamentos bancários. Em 50 anos de empresa, nunca paramos por um dia que fosse as filmagens."

Desde o início, a LC Barreto funciona em esquema familiar. Barreto e Lucy comandaram a empresa até os anos 2000, quando Paula, filha do casal, se uniu a eles na chefia da produtora. "Trabalhar em família é mais difícil porque você acaba trabalhando no escritório e em casa. Tem horas que cansa, a gente quer se desligar. Não deu nem tempo de a gente transformar essa firma familiar em uma empresa propriamente dita", diz. "Já era tempo de tentar torná-la mais profissionalizada do ponto de vista de gestão. Sob a perspectiva da qualidade, está altamente profissionalizada; mas a gestão, não digo que seja amadora, mas é autodidata."
A família também controla outra razão social, a Filmes do Equador, que trabalha em conjunto com a LC Barreto (a primeira capta recursos, enquanto a segunda executa a produção). Hoje, produzem longas, filmes institucionais e especiais de TV. A sede funciona em um casarão de dois andares em Botafogo, zona sul carioca. O acervo da empresa fica em outro local, na zona oeste da cidade. "A casa de Botafogo é área preservada. Queremos fazer um centro cultural com espaço para receber alunos de cinema e estagiários, mostrar como se faz um planejamento de um filme."

No mês passado, Bruno Barreto começou as filmagens do longa "Crô", com o personagem cômico da novela da Rede Globo "Fina Estampa" (2011- 2012). No momento, a produtora tem também quatro salas alugadas em São Paulo. No total, a LC Barreto tem cerca de 25 funcionários fixos, a maior parte na administração. Mas o número aumenta muito na época de filmagens. "Em "Flores Raras", tivemos 120 pessoas trabalhando, entre motoristas, cozinheiros, técnicos... Contando com os indiretos, um filme gera de 300 a 400 empregos."

A renda dos filmes nas bilheterias conta muito, mas a fonte de renda da produtora é basicamente a exploração de seu (vasto) acervo, sobretudo na exibição para a TV a cabo. Barreto tem o copyright de 45 dos longas que produziu. "Isso é uma renda vegetativa, digamos assim. Às vezes dá para segurar [as despesas] só com isso, outras vezes não. O mercado internacional deveria ser não uma prioridade total, mas uma coisa importante para a gente. No exterior, você nãoo dinheiro: é quase sempre roubado. Se tivesse recebido tudo o que "Dona Flor" rendeu pelo mundo, eu estaria até emprestando para o Fundo Setorial [risos]".

O produtor conseguiu controlar a renda do longa apenas na Argentina e nos EUA porque abriu escritórios locais. "Fundamos uma empresa nos EUA, a Carnaval Films, em 1978. Lançamos o filme nós mesmos no mercado. Com o dinheiro, conseguimos produzir outros filmes, como o "Bye Bye, Brasil"."

Barreto também é um dos sócios do Canal Brasil, mas se dedica na maior parte do tempo à sua produtora. Ali, às vezes as tarefas se misturam, mas geralmente Lucy se ocupa da análise dos roteiros. Barreto fica mais atento às outras etapas. "Acredito mais é na coisa do "fazer". O produtor tem que estar presente permanentemente. Não é só um assinador de cheque: tem que ser um coautor."

Barreto acredita em cinema autoral - grande parte dos longas que produziu na vida seguem essa linha -, mas não pensa em um filme como atividade individual. "É algo artístico, mas também industrial. Um escritor pode se isolar e escrever. Um cineasta, por mais que queira ser apenas artista, no fundo é uma peça fundamental de um processo maior."

A filosofia produtiva de Barreto sempre caminhou no rumo do estabelecimento de uma indústria cinematográfica brasileira. Defende um cinema nacional competitivo, capaz de ganhar o mercado externo. "[Franklin] Roosevelt dizia: "Onde vão nossos filmes vão nossos produtos". O cinema é a grande arma interna de formação de consciência nacional nos EUA e de difusão e assimilação de costumes americanos pelo mundo. Issoo é culpa deles: é nossa, a gente permite isso. Não é questão de proibi-los, mas de impor coisas nossas."

Barreto diz que gasta 70% do seu tempo na militância da política do setor. No ano passado, defendeu até o fim a polêmica gestão da ex-ministra da Cultura Ana de Hollanda. "A irmã do Chico [Buarque]? Sofreu sabotagem por parte do corpo de funcionários do ministério. Não tinha experiência, mas estava levando as coisas." Também aprova a sucessora, Marta Suplicy. "Está tendo uma atuação brilhante, cobra coisas básicas que estão lá paradas há muito tempo."

Ao rever a própria trajetória, Barreto tem alguns arrependimentos. Um deles é não ter produzido a cinebiografia sobre Cazuza (que ele viu crescer). Outro foi ter perdido a chance de contar a história da Cidade de Deus antes de Fernando Meirelles. Orgulha-se, porém, que dois filmes dos filhos, "O Quatrilho" (1995), de Fabio, e "O que É Isso, Companheiro?" (1997), de Bruno, tenham ficado entre os cinco finalistas no Oscar de filme estrangeiro. Ele afirma que o interesse pela estatueta seria, antes de tudo, estratégico. "O Oscar é uma jogada de marketing, não um certificado de qualidade. Ele te dá um trânsito maior, para negociar os direitos etc. Se um dia conseguirmos, ótimo. Mas issoo vai querer dizer que o cinema brasileiro melhorou."

Editores de jornais, de revistas e de gente - Eugênio Bucci

Revista Época - 03/06/2013

Roberto Civita nunca escondeu de ninguém sua admiração pelos editoriais que Ruy Mesquita escrevia. Dono e dirigente máximo do Grupo Abril, Civita poderia se vangloriar de textos publicados na sua própria casa editorial, mas, com frequência, dizia que a página 3 de O Estado de S. Paulo era das mais bem escritas da imprensa brasileira.

Tinha razão. O tradicional diário paulistano, que nasceu no século XIX defendendo a causa republicana e antiescravagista e atravessou o século XX enfrentando governos autoritários (embora tenha apoiado a ditadura militar nos seus primeiros anos), soube fazer de sua página 3 uma espécie de coluna vertebral da opinião pública do país. Você pode até não concordar com as teses dos editoriais que aparecem ali todos os dias mas, ao ler um deles, não tem como deixar de ficar mais bem informado. Qualquer um que lê um editorial do Estadão aprende alguma coisa que não sabia antesaprende principalmente a admirar, naqueles parágrafos de índole conservadora e, ao mesmo tempo, liberal, a ironia ácida conjugada à seriedade quase vetusta.

Foi sob o comando de Ruy Mesquita que os editoriais do Estadão alcançaram seu apogeu. O homem ia todas as tardes à redação do jornal para orientar seus editorialistas. Seguiu essa rotina até morrer, aos 88 anos, na noite de 21 de maio. Cinco dias depois de Ruy Mesquita, um de seus leitores mais atentos, Roberto Civita, também morreu. Tinha 76 anos.

O desaparecimento dos dois deixa vazios insanáveis no Estadão e na Abril e fecha um ciclo na imprensa brasileira. O primeiro editou jornais. Nos anos 1960, lançou o Jornal da Tarde, que renovou a linguagem jornalística. O segundo foi um inventor de revistas. Desde 1958, quando desembarcou em São Paulo, depois de fazer sua formação universitária nos Estados Unidos, criou pessoalmente alguns dos títulos mais fortes do mercado editorial brasileiro.

Acima de jornais e revistas, porém, Ruy Mesquita e Roberto Civita tiveram o dom de editar gente. Formaram ou ajudaram a formar boa parte dos mais destacados jornalistas que hoje estão em atividade no país. Também por isso, a influência de um e de outro ainda se estenderá por décadas. Além de amigos, deixaram também alguns desafetos, é verdade. Mas nenhum dos desafetos, por maior que seja o ressentimento, poderá negar o peso fundo dessa influência. Não há como.

Cada um a seu modo, encarnaram a própria razão de ser da imprensa, essa instituição que, para viver com saúde, depende do pluralismo e da diversidade de opiniões. Durante a ditadura militar, Ruy Mesquita protegeu jornalistas perseguidos pela repressão política. Em artigos recentes, Fernando Morais e Marco Antonio Rocha, vítimas dessa perseguição, deram seus depoimentos. "Não se tratava apenas de um gesto de coragem, em meio ao breu de uma ditadura implacável", escreveu Fernando Morais. "Mesmo correndo os riscos que aquilo implicava, doutor Ruy estendia generosamente a mão a alguém cujas ideias - ambos sabíamos disso - pouco ou nada tinham a ver com as dele."

Roberto Civita tinha um traço parecido. Nos anos 1980 e 1990, quando jornalistas contratados da Abril faziam campanha aberta em prol de candidatos do PT, não intimidou ninguém. Nem deixou intimidar. Não perguntava a seus empregados em quem votariam. Não prejudicou a carreira de ninguém. A visão que ele tinha de democracia, a mesma visão que sempre o impeliu para bem longe de qualquer projeto socialista, impunha ao seu código de conduta pessoal o dever de defender a liberdade de todos, mesmo daqueles que professavam ideologias que ele julgava desastrosas. Acima da defesa da livre-iniciativa, bandeira que empunhou sem nenhuma hesitação, praticou e ensinou o valor da livre manifestação das ideias - inclusive das ideias ruins. Acreditava tranquilamente que o debate franco terminaria por fazer prevalecer as melhores.

Para ele, opinião não se sufocava, nem se vendia. A preço nenhum. Nas suas revistas, a redação ficava bem separada da publicidade, para que não houvesse nenhuma dúvida quanto a isso. Sua vocação jornalística não entrava em choque com seu tino comercial. Ao contrário, as duas se combinavam. "Roberto Civita foi a melhor e mais sofisticada combinação de empresário e editor que conheci", disse sobre ele o presidente do Grupo Folha, Luís Frias, numa síntese arguta.

Com a morte de Roberto Civita e de Ruy Mesquita, a imprensa perde dois gigantes, dois inspiradores. Ficam agora os discípulos. Uns estão na Abril, outros no Estadão e muitos mais se espalham pelas melhores redações do país. Não são poucos os que trabalham aqui, na redação de ÉPOCA.

Entrevista: Nuno Crato

 Revista Veja - 03/06/2013

Contra a demagogia na escola

Um dos grandes divulgadores da ciência, o ministro da Educação de Portugal diz que uma turma entusiasta do politicamente correto está deixando de lado o conteúdo e o mérito

O matemático Nuno Crato, 61 anos, notabilizou-se por divulgar e traduzir para o cotidiano os grandes teoremas e equações — trabalho que o fez merecedor do cobiçado European Science Award, em 2008. Há dois anos como ministro da Educação e da Ciência em Portugal, ele comanda hoje uma radical reforma no ensino que se baseia em metas, avaliações e mérito. Mesmo antes, Crato já era figura conhecida e muito discutida por seus colegas da educação. É do ministro o livro O "Eduquês" em Discurso Direto: uma  Crítica da Pedagogia Romântica e Construtivista — em que disseminou o termo "eduquês” para se referir à linguagem empolada e vazia adotada por uma ala de educadores. Lisboeta que adora o Brasil, Crato falou a VEJA em uma de suas visitas ao país.

0 senhor provocou debate acirrado entre educadores do mundo todo ao afirmar que a escola moderna é vítima do “eduquês”. Por que o assunto causou tanto barulho?

Minha crítica bate de frente com uma linha muito celebrada nas escolas de hoje. É uma corrente que dá ênfase excessiva às atitudes e à formação cívica do aluno e deixa em segundo plano o conhecimento propriamente dito. Pergunto: como investir em formação cívica se o estudante não consegue nem ler o jornal ? Vejo vários educadores por aí se perdendo em uma linguagem hermética, dúbia e demagógica — que é o mais puro “eduquês" — para falar sobre seus objetivos difusos para a sala de aula. Essa turma não só resgata como radicaliza teorias do passado para combater práticas na educação que já tiveram sua eficiência amplamente atestada pela ciência. Alguns me acusam de ser insensível ao dizer tais coisas, mas sou um entusiasta do saber científico e desprezá-lo, a meu ver, só prejudica o ensino.


Quais boas práticas exatamente essa ala de educadores rejeita?
Muitos batem na tecla de que prova faz mal. Acham  que ela submete o aluno a um alto grau de stress, sem necessidade. Vão aí na contramão do que afirmam os grandes pesquisadores. Eles já sabem que, ao ser questionada e posta a refletir sobre um conteúdo, a criança consegue absorvê-lo melhor, avançando no conhecimento. Também a disciplina é um ponto em que a condescendência e a leitura enviesada de velhas teorias ofuscam a razão. Esse grupo de educadores admite que o aluno pode ser no máximo incentivado a respeitar a ordem na sala de aula, mas nunca, sob nenhuma hipótese, ele deve ser forçado a fazer isso. Nesse caso, não é preciso de muita ciência para saber que o resultado final será muita bagunça e pouco aprendizado.

No Brasil, mais da metade das escolas se define como construtivista. Isso é bom ou ruim?

Antes de tudo, é bom esclarecer que, embora muita gente não saiba, o construtivismo de hoje é uma interpretação livre da teoria sobre o aprendizado lançada pelo psicólogo Jean Piaget há um século. Para mim, sua vertente mais radical é um equívoco pedagógico completo. Ela se baseia na ideia de que o professor não passa de um mero "facilitador" do aprendizado — esse um termo muito em voga na linha politicamente correta. Soa bonito, mas é prejudicial ao ensino por derrubar pilares fundamentais.

Quais são esses pilares?

Um mestre tem o dever de transmitir a seus alunos os conteúdos nos quais se graduou. E, sim, precisa ter objetivos bem claros e definidos sobre o que vai ensinar. É ingênuo achar que o estudante vai descobrir tudo por si mesmo e ao seu ritmo, quando julgar interessante. Quem de bom-senso tem dúvida de que, se a criança puder esperar a hora que bem lhe apetecer para mergulhar num assunto, talvez isso nunca aconteça?

A neurociência vem mapeando os caminhos que a informação percorre no cérebro de uma criança até ser assimilada. As escolas já começaram a fazer uso desse conhecimento?

Infelizmente, a grande maioria passa ao largo dessas descobertas. E isso as mantém congeladas no tempo, aferradas a pensamentos anacrônicos. A neurociência descobriu que é possível acelerar, e muito, o aprendizado de uma criança à base de incentivos permanentes. Isso tromba de frente com os principais postulados de Piaget. Ele acreditava que o processo de retenção de conhecimentos se dava por etapas muito bem definidas, divididas segundo as faixas etárias. Muitas escolas ainda se fiam nisso e perdem grandes oportunidades de fazer seus alunos dispararem. Outro problema comum é a demonização da decoreba por essas correntes que se autoproclamam modernas. A memorização não é descartável como querem fazer parecer.

Em que medida a memorização pode ser útil?

Embora o construtivismo ingênuo pregue que a memorização prejudica a compreensão, os cientistas afirmam o contrário — que ela é essencial ao aprendizado. Isso porque tem o papel de automatizar certos raciocínios, ajudando justamente a fazer pensar melhor sobre questões mais relevantes e complexas. Numa operação básica de soma ou de subtração, por exemplo, a criança não precisa a cada nova conta parar para refletir sobre por que passa o número 1 para cá ou para lá. Seria um desperdício de energia valiosa, que pode ser bem despendida nos desafios que verdadeiramente interessam.

Afinal, o que deve ser memorizado por uma criança?

É importante decorar a tabuada, o nome e a localização de certos rios e cidades e as datas mais importantes no curso da história, ainda que elas não sejam precisas. Não há como o estudante não saber, no mínimo, que a Independência do Brasil aconteceu no século XIX ou que Aristóteles viveu antes de César. Se ele se recusa a ter esses marcos básicos na cabeça  acha que pode sempre associar os fatos para chegar a uma resposta, está perdido. A experiência deixa claro que uma pessoa passa a fazer conexões cognitivas de muito mais qualidade e valor quando já detém um bom repertório de conhecimentos elementares. Não é preciso relacioná-los com o universo todo o tempo inteiro.

Um pensamento muito em voga nas escolas modernas é o de que a criança só aprende de verdade aquilo de que ela realmente gosta. O senhor concorda?

Esse é um pensamento limitado. Veja o caso da leitura. Muitos educadores acham que para ler bem a criança precisa, antes de qualquer coisa, ser despertada para o gosto pela literatura. Só assim ela lerá muito e ganhará fluência, dizem. A neurociência lança uma luz interessante sobre essa questão, colocando-a exatamente ao avesso. Ela mostra que ter fluência na decodificação dos grafemas é crucial para ler bem. Em resumo: tem de se ler muito, mesmo sem gostar. O treino precisa ser permanente, exaustivo. Quanto mais automática se tomar a leitura, mais chances ela terá de ser prazerosa.

O senhor se notabilizou pela divulgação da matemática, a mais temida e odiada de todas as disciplinas escolares. Que caminhos sugere para tomá-la mais atraente?

A fórmula que eu defendo não tem nada de mirabolante. A maior pane dos estudantes repudia a matemática porque não consegue ultrapassar os obstáculos que ela vai colocando pelo caminho. Eles não entendem bem os conceitos, mas, ainda assim, o professor faz com que avancem na matéria. Assim, deficiências elementares acabam ficando para trás. É uma bola de neve. Numa disciplina como história, mesmo sem ter assimilado toda a narrativa sobre a colonização no Brasil, o aluno pode se embrenhar pelo capítulo da Revolução Industrial na Inglaterra. Mas na matemática não é possível progredir sobre uma base frágil e cheia de lacunas. Nessa área, o conhecimento é cumulativo — um depende do outro. Sem dominar a aritmética, não dá para passar à trigonometria. Se isso acontecer, e acontece muito, o estudo vai se tomar improdutivo e frustrante.

O que falta então para um bom ensino da matemática?

Organização do conteúdo por parte dos professores e muito treino do lado dos alunos. O ensino deve ser progressivo, sem pular etapas e sempre reforçando o mais básico. Se for preciso, que se volte ao início. As sociedades hoje frequentemente não valorizam o conhecimento rigoroso, aquele que exige método, empenho e exercício para ser bem sedimentado. Acham que as crianças vão acabar aprendendo matemática por osmose. Mas elas não aprendem. As avaliações costumam ser impiedosas ao escancarar as deficiências. Na maioria das disciplinas, o aluno pode chegar à resposta certa por aproximação, mas na matemática é diferente. Não canso de repetir que também os pais têm um papel importante  aí. No lugar de enfatizar a aversão aos números, eles devem, isto sim, reforçar a ideia de que a matemática é essencial para o crescimento de qualquer pessoa em qualquer área. Também podem falar aos filhos sobre a importância do esforço e do treino mental. Enfim, devem ajudar a consolidar em casa o valor e o hábito do estudo.

Currículos muito detalhados costumam suscitar resistências por parte de educadores que se dizem tolhidos em sua liberdade de ensinar. O senhor concorda?

Sempre aparece uma turma  para empunhar a bandeira da liberdade do aluno, dizendo que ele deve aprender sem as amarras de um currículo. Esse pessoal sustenta ainda que os currículos são um limitador da aula porque podam as asas do professor. Felizmente, em Portugal, são  uma minoria. É verdade que, as vezes, o diálogo fica duro com os sindicatos. Reconheço seu papel de brigar por melhorias para sua própria classe, mas nem sempre eles têm colocado as questões fundamentais e inadiáveis do ensino à frente das outras que pouco interessam à sociedade.

Que resultados a implantação da política de reconhecer e premiar as melhores escolas tem alcançado em seu país?

As boas escolas recebem mão de obra extra de qualidade para que ajudem a consolidar o ensino de alto nível. Essas escolas conseguem assim dar reforço a alunos com mais dificuldade e apoiar os que estão  prontos para evoluir em um patamar mais avançado. Sim, os alunos são  diferentes entre si e por isso mesmo devem ser tratados de forma diferenciada. A utopia do igualitarismo, essa que muitos na educação defendem, só seria possível num único e não  desejável cenário  — aquele  em que todos são medíocres. Esse é ainda um tabu. Dizer que uma criança precisa de um apoio especial não significa que ela será excluída. Num outro espectro, os ótimos alunos também não devem ser escondidos, mas, sim, radicalmente incentivados a seguirem frente. É um fundamento básico da meritocracia, de eficiência provada no setor privado.

Que princípios empresariais uma escola poderia adotar?

Toda escola pública deveria poder escolher quem contrata e quem demite, com base no mérito. É o que planejo para os próximos anos em Portugal. Visto como um todo, o modelo de gestão da educação do século XXI ainda faz lembrar muito o velho sistema soviético, em que um comitê central concentra todas as decisões. As escolas públicas precisam de mais autonomia para atrair os melhores cérebros e avançar mais rapidamente.

A falta de dinheiro é sempre citada como um fator que impede a melhoria do ensino. O senhor concorda?

Acho que nossos desafios dependem menos de dinheiro e mais de objetivos claros, ambiciosos e de organização. Para avançarmos,  precisamos formar  mais e mais engenheiros, médicos e cientistas. As crianças devem ser despertadas desde cedo para o interesse por essas áreas. Não será à base do velho e empolado "eduquês" que conseguiremos dar o grande salto.

Portugal ocupa apenas o 27° lugar entre os 65 países do ranking mundial de ensino da OCDE Qual é a estratégia para melhorar?

As escolas portuguesas  sempre se basearam em recomendações pedagógicas mais gerais e amplas do que propriamente em objetivos claros e organizados. Estou mexendo justamente ai, ao sistematizar metas de aprendizado ano a ano, matéria a matéria, no detalhe. Ter metas para a sala de aula é crucial para orientar não só os professores como também os próprios pais. Sim, porque, bem informados sobre os objetivos da escola, eles podem ir lá cobrar se um determinado  conteúdo foi mal dado ou ficou para trás.

domingo, 2 de junho de 2013

Touradas - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

O GLOBO - 02/06/2013

A alma ibérica se divide em duas, uma mais caliente e a outra menos. Portugal é uma Espanha ponderada. A divisão está evidente na tourada, essa metáfora para todas as dicotomias humanas. Na Espanha matam o touro, em Portugal apenas o irritam. Ainda não se chegou a um acordo sobre o quê, exatamente, toureiro e touro simbolizam. A metáfora não é clara. Razão x instinto? Cultura x natureza? Civilização x força bruta? Ou – como li em algum lugar – tudo não passa de um ritual de sedução, com o Homem subjugando a Mulher, a Besta Primeva e todos os seus terrores, numa espécie de tango sangrento em que não falta uma penetração no fim? Ou o toureiro gracioso é a mulher estilizada e o touro resfolegante uma paródia de homem? Enfim, seja o que for que se decide numa arena de touros, os espanhóis terminam o ritual, os portugueses deixam pra lá.

Na Argentina, os líderes militares da época da repressão foram processados e as atrocidades cometidas pela ditadura punidas, ou pelo menos amplamente discutidas. No Chile, aos poucos a história ainda mal contada do governo Pinochet se incorpora à história oficial do país – para ser reconhecida e expiada, para que reconciliação não signifique absolvição e para que nunca mais se repita. No Brasil, a repressão foi menos assassina do que na Argentina e no Chile – se é que se pode falar em graduações de barbaridade – e ninguém ainda teve que dar muitas explicações. No caso, a simpática irresolução portuguesa desserve a História. Pois, se o touro continua vivo, o que há para expiar? Aqui, até agora, venceu o deixa-pra-lá-ismo.

Já que temos que ser ibéricos, o que é melhor, ser português ou espanhol? Os espanhóis parecem viver mais perto do coração selvagem da vida. Os portugueses preferem menos drama e menos sangue. Voltando ao touro: uma tourada espanhola sempre acaba com o animal morto, com uma resolução. Uma tourada portuguesa pode ser um espetáculo emocionante, mas o touro sobrevive e nada se resolve. E ainda se discute se convém irritar o touro.

O centro - Caetano Veloso


 O GLOBO - 02/06/2013

Uberlândia, palavra inventada a partir do começo do nome da outra, juntou “uber” a “lândia”, ecoando uma inexistente (mas não impossível) palavra inglesa “uberland”

De repente me vi no centro do Brasil. Vim fazer uma apresentação em Uberlândia e, misteriosamente, entre cidades brilhando na noite de céu claro, apenas Uberlândia estava sob neblina tão densa que o aeroporto estava fechado. Tivemos de aterrissar em Uberaba. As cidades trazem à cabeça o prefixo “uber”, com o qual, é claro, seus nomes nada têm a ver, sendo Uberaba palavra indígena que, vejo no Google, significa “água cristalina”. Em outra busca, “água brilhante”. Lembrei-me logo de um amigo paraguaio que vive na Bahia e está sempre nas festas de Santo Amaro. Ele me corrige a pronúncia de Ypacaraí na gravação que fiz dos “Recuerdos” para o disco “Fina estampa”: o Y guarani é pronunciado como um U francês, só que com os lábios menos arredondados. É um U francês com menos bico. Esse U é a água, “beraba” é que é “brilhante”. No lugar onde achei “água brilhante”, o nome da cidade vem descrito como tendo se originado do tupi Y’beraba. A gente sempre soube que I, em tupi, é água. Esse Y deve ser uma vogal intermediária entre o I e o U, como no guarani paraguaio.

Uberlândia, no entanto, palavra inventada a partir do começo do nome da outra, juntou “uber” a “lândia”, ecoando uma inexistente (mas não impossível) palavra inglesa “uberland”. Há uma explicação que diz ser “uber” uma corruptela de “úbere”, conotando fartura. Mas a cidade tem tudo para merecer (também) o sentido que “uberland” sugere. Para quem vem de uma cidadezinha recolhida no Recôncavo Baiano, as cidades do Triângulo Mineiro parecem superurbes. Uma amiga mineira se disse curiosa sobre como reagiriam os “caubóis” de Uberlândia ao nosso “Abraçaço”. Na verdade, havia até mesmo uma sensação de cosmopolitismo no ar da sala durante o show.

Filhos de fazendeiros ricos, muitos jovens do Triângulo têm intimidade com festivais da vanguarda pop da Europa. Alguns foram estudar em universidades de primeira no primeiro mundo. E, se na própria Uberlândia a música sertaneja (agora sobretudo e sua vertente “universitária”) é que reúne as plateias mais multitudinárias, a juventude de Araguari é especializada em rock (com bandas indie locais). E Araguari é colada a Uberlândia. Assim, a plateia de “Abraçaço” tinha um jeito de plateia informada e atualizada. Os muitos casais adultos eram educadamente receptivos ao que tínhamos a oferecer — e ninguém parecia estar frustrado por “O leãozinho”, “Sozinho” ou “Você é linda” não constarem do repertório. E a garotada que já dançava um pouco, lá no fundo, desde o começo — e que veio, em pequenas representações, sentar-se no chão perto do palco — conhecia as músicas novas.

Ronaldo Lemos tinha me dito que há em Uberlândia uma igreja projetada por Lina Bo Bardi, a igrejinha do Espírito Santo do Cerrado (lindo nome), que, segundo ele, era a obra favorita da arquiteta italiana-brasileira que foi tão importante para mim e para Bethânia (sem falar em Glauber e todo o resto) na Bahia. Mas não tive tempo de ir ver nada: o atraso que a neblina provocou me pôs para correr do avião para o carro e deste para o palco. A sofisticação nascida da abundância dessa uber-teta (que fica na parte do mapa de Minas que corresponde ao nariz de Getúlio — que, quando eu era menino, nós víamos esse mapa como um retrato do fundador do Brasil moderno) se manifestou numa menina que estuda medicina, toca guitarra, já teve uma banda e conhece todos os grupos de rock da atualidade, além dos que se mantêm atuais pela sua importância histórica.

Escrevo estas palavras ao chegar a Goiânia. Voei de Uberlândia para cá, passando por cima de Brasília. Tendo tido de ir a Uberaba e encontrado com nativos de Araguari, fiquei com a impressão de ver muito do Centro do Brasil. O Centro. Saímos aqui para tentar comer num japonês que é tido como um dos melhores que há fora de Tóquio, mas este estava tão cheio (e com garotos e garotas bonitos sentados à porta, que nos pediram, a mim, a Ricardo Dias Gomes, Marcelo Callado e Pedro Sá, que tirássemos fotos com eles) que nós tivemos que ir à (excelente) churrascaria de Chitãozinho e Xororó. Tudo deu o gosto exato de onde estávamos. Mais que tudo, a conversa que tive com um casal maduro de Uberlândia, que se sente atraído pela novidade política que é Eduardo Campos, teme que a permanência de Dilma signifique a permanência daquilo que Mangabeira chama de “presidencialismo de coalizão” (embora ele seja pró-Dilma e descarte as opções). Era uma conversa “de centro”. Essa palavra, em política, ficou, no Brasil, muito desqualificada. Mas eu gosto quando se pode dizer que alguém é de “centro-esquerda”, “centro-direita”, “centro”. Às vezes assim a conversa fica mais clara.


sábado, 1 de junho de 2013

Nós, os que não somos como os outros - CARLOS ANDRÉ MOREIRA

 Zero Hora - 01/06/2013


Nova edição do Dicionário de Saúde Mental da Associação Americana de Psiquiatria abre discussão sobre os critérios para separar doença e sanidade

A utilidade de um dicionário é normatizar para esclarecer dúvidas, mas por vezes uma publicação do gênero provoca questionamentos mais sérios e mais preocupados do que respostas. Ainda mais se o dicionário em questão lida com um tema tão delicado e espinhoso quanto o próprio limite entre sanidade e distúrbio.

Com a divulgação, em maio, da quinta edição do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual Estatístico e Diagnóstico de Distúrbios Mentais, em tradução livre), ou DSM-5, como vem sendo chamado pelos especialistas, abriu uma nova e acalorada discussão sobre o quanto o objetivo, necessário, de graduar de modo científico os sintomas de doenças mentais não está criando a sociedade da hiperdiagnose, em que a normalidade é conceito cada vez mais rarefeito.

– Classificações como essa são importantes, são válidas para unificar a linguagem e melhorar a comunicação entre profissionais, mas um dos problemas desse tipo de classificação é a criação de diagnósticos excessivos, que não levam em conta a subjetividade – comenta o psiquiatra e psicanalista Celso Gutfreind.

A polêmica teve início com a divulgação das principais alterações na quinta edição do DSM. A publicação é elaborada pela American Psychiatric Association (APA, Associação Americana de Pisquiatria), e é um dos mais conhecidos e utilizados manuais diagnósticos do mundo. É um dicionário no qual se encontram os critérios para que determinado comportamento seja classificado como transtorno ou distúrbio mental e, assim, tratado de acordo com o entendimento do médico, o que pode (embora não necessariamente deva) incluir a administração de medicamentos.

– Ainda há uma grande discussão a respeito das mudanças desta nova edição aqui nos Estados Unidos. Alguns especialistas manifestaram discordância dessa abordagem mais biológica de diagnóstico – comenta o psiquiatra Rodrigo Machado-Vieira, residente em Maryland, nos Estados Unidos, e diretor do Centro de Pesquisa Translacional em Transtornos de Humor do Instituto Nacional de Saúde Mental, nos EUA.

Um dos mais acirrados críticos da quinta edição do manual, ironicamente, é o homem que ajudou a elaborar a edição anterior do documento, o psiquiatra Allen Frances, professor emérito da Universidade Duke. Em posts que vem publicando com regularidade em seu blog no portal Huffington Post (www.huffingtonpost.com/allen-frances), ele vem apontando o que considera erros conceituais e técnicos nos critérios adotados pelo dicionário. De acordo com ele, o novo manual é composto de “uma mistura irresponsável de novos diagnósticos que podem estigmatizar e submeter pessoas normais a tratamentos desnecessários”:

“A publicação do DSM-5 é um momento triste para a psiquiatria e perigoso para os pacientes. Minha recomendação para os clínicos é simples. Não usem o DSM-5”, escreveu Frances.

– Minha opinião sobre o DSM parafraseia a de Winston Churchill, que dizia que a democracia era o pior sistema de governo, com exceção de todos os outros. O DSM está longe de ser perfeito, mas é a melhor ferramenta que se tem em diagnósticos de psiquiatria – pondera Machado-Vieira.

A discussão a respeito de um manual de saúde mental publicado por uma associação de profissionais dos Estados Unidos não é, como se poderia pensar à primeira vista, distante da realidade brasileira – até porque o dicionário tem uma influência que se alastra para além das fronteiras americanas e que pode ser verificada mesmo no Brasil (leia o texto na página ao lado).

As críticas ao DSM também não são coisa recente ou restrita especificamente a esta quinta edição. Já a versão anterior havia sido alvo de polêmica por apresentar, com o rótulo de distúrbios, comportamentos que poderiam, com gradações, ser incluídos na estranheza nossa de cada um.

Não é coincidência que, desde os anos 1980, o número de diagnósticos de distúrbios mentais tenha se ampliado de tal forma que, de acordo com um estudo conduzido pelo Instituto Nacional de Saúde Mental no início dos anos 2000, 46% dos adultos pesquisados se encaixavam em alguma das categorias do DSM – e isso na quarta edição, antes das atuais modificações.

A nova encarnação do manual amplia a classificação de determinados distúrbios e modifica outros. Em um primeiro momento, chamaram a atenção as definições de distúrbios aplicados a manifestações extremas de birra infantil e apego a quinquilharias mesmo ciente de seu mínimo ou nenhum valor.

A própria idade de controle para o aparecimento de sintomas de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade em crianças, pela nova publicação, agora é de 12 anos. Em uma das mais criticadas medidas, o luto pela perda de um ente querido, se ultrapassar duas semanas, pode ser considerado um indício de depressão – embora o texto seja mais aberto neste caso, a medicação estaria indicada. Mesmo o luto, expressão tão individual de sentimentos, estaria sujeita a um controle de “normalidade”?

– Quando eu estudava Medicina, o tempo que se acreditava apropriado para um luto durava de três a seis meses. No tempo do capitalismo avançado, parece que o tempo é um bem cada vez mais restrito para as pessoas – comenta o psiquiatra e psicanalista Sergio Eduardo Nick, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro.

Nessa imbricação entre arte, criatividade e normalidade, reside também outro grande paradoxo da catalogação minuciosa de distúrbios em um mundo capitalista que exige, ao mesmo tempo, originalidade, criatividade e eficiência maquinal.

– Precisamos romper a identidade que há na sociedade contemporânea entre normalidade, eficácia e velocidade. Estamos lidando hoje, em vários níveis, com conceitos de maquinização do ser humano. O sujeito precisa estar pronto o mais rápido possível para produzir, para voltar ao trabalho. É uma espécie de psiquismo herdeiro da Revolução Industrial – comenta a psicanalista Diana Corso.

Como pano de fundo da discussão está também uma questão técnica debatida pelos profissionais: a suposta ação rápida de medicamentos versus terapias mais longas e com menos recursos químicos.

– No fundo, há uma guerra ideológica entre os profissionais da área sobre como ver o ser humano. O DSM é um manual orientado pela ideologia comportamental, que não dá tanta importância a fatores menos fáceis de aferir, como o ambiente, as emoções, os sentimentos do paciente – salienta Nick.

O fenômeno da chamada “terapia química” ganhou amplo espaço nos consultórios a partir da segunda metade dos anos 1980, quando novas e potentes drogas se mostraram eficientes para ajustar desequilíbrios químicos do organismo – o Prozac, em especial, foi a primeira droga do gênero a ganhar espaço não apenas nas salas de consultório, mas no imaginário público e mesmo na cultura pop.

No âmbito da cultura, a ampla aplicação da terapia medicamentosa provocou reflexões a respeito da diagnose excessiva ou da sedação coletiva. Em seu ensaio Receituário da Dor para Uso Pós-Moderno, o português João Barrento arrisca uma definição da sociedade contemporânea, para quem a dor e o sofrimento haviam sido transformadas em “fantasmas”, com efeitos nem sempre positivos para o conjunto da humanidade:

“No mundo das paixões que era o da tragédia antiga, a dor – tal como a beleza e a alegria, o canto e o Êxtase –, é matéria-prima da vida ritualizada. Depois, a vida foi-se dessacralizando, tornou-se mais confortável, mais baça... e mais longa. Ficamos mais sós. Sós, não porque nos faltassem os outros, muito pelo contrário. Ficamos sós porque fomos amputados de alguma coisa que era parte de nós. O homem civilizado olha para o mundo, o mundo está em estado de dor quase permanente, e em vez de responder com um lamento (...), fica em silêncio.”

Com atuação tanto como terapeuta quanto como artista, Gutfreind publicou, em seu mais recente livro, Em Defesa de Certa Desordem, um poema no qual critica a prevalência da farmacologia sobre a arte na sociedade contemporânea: “Afastem a Deusa química, / as mulheres têm a arte, a ciência não sustenta / a falta, a falta preenche, / música podem deixar / – Deusa houvesse, era ela –, / tirem certezas, substâncias / que a presença da palavra / com melodia cantada / pelo outro bastará”.

– No fundo, o ser humano tem medo do desconhecido e da dor. A dor é o que nos desestrutura, mas também é uma experiência que faz parte do que nos define, a nossa própria subjetividade. Ao acreditar que a resposta tem de ser sempre rápida, estamos perdendo a dimensão do tempo, de viver, de criar, de perder tempo – diz Gutfreind.

Associada à questão da nomenclatura cada vez mais ampla de comportamentos desviantes, há também a questão do próprio conceito de normalidade, que acaba cada vez mais restrito no momento em que exotismos e excentricidades se assemelham a gradações de distúrbios mentais.

– Todos temos sintomas de compulsão ou obsessão, coisas que nos tornam quem somos. É preciso cuidar para que isso não seja tomado como doença, o que seria desumanizador – diz Nick.

Crônicas de hospital - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 01/06/2013

Já constitui uma espécie de subgênero de autoajuda o relato de experiências com doenças e hospitais - quando, bem entendido, se sobrevive para contar. Rubem Braga falou do pulmão que perdeu para o câncer: "Quem quiser que se fume." Verissimo contou como foi parar numa emergência com uma infecção generalizada. João Ubaldo descreveu como escapou por milagre de uma pancreatite. Eu mesmo publiquei aqui há tempos a crônica "Com o autor na UTI", onde lembrava como em menos de uma semana fora parar duas vezes na Unidade de Tratamento Intensivo da Casa de Saúde São José, com direito ao susto de uma septicemia, por causa de uma pedrinha no rim.

A lição era: "para qualquer sinal de alteração no organismo, o melhor remédio é procurar um médico correndo. Nada de automedicação ou de protelação, de deixar para amanhã." Agora, foi a vez do colega Denis Cavalcante, de Belém do Pará, com o texto "Sírio & Libanês 1211", relatando suas peripécias durante o mês em que esteve hospitalizado. Sua pressão chegou a 6 x 3, ficou doze dias em jejum, as "dores atrozes" só passavam com morfina e emagreceu doze quilos, mas tudo bem: "Quanto mais excesso de bagagem, mais curta a viagem." Ele seguiu à risca o princípio de que um cronista pode perder até parte do estômago, parte do intestino, mas não pode perder o humor. A exemplo de um companheiro de corredor, com quem travou o seguinte diálogo: - Você sabia que esse andar é o dos pacientes desenganados? Qual foi a sua cirurgia? - Operei o intestino - respondeu Denis.

- Fala sério! Isso é fichinha. O intestino eu fiz no Natal. Agora retirei o baço, um pedaço do pâncreas e outro do fígado.

"Tudo num hospital de grande porte", ele escreveu, "se resume a uma abominável palavra: protocolo.

Um simples cotonete pode demorar horas para chegar. Um picolé de abacaxi nem se fala! Em contrapartida, recebia regularmente um catatau de antibióticos e medicamentos de última geração, a fim de evitar uma infecção que, naquele momento, poderia ser fatal." Denis termina sua crônica pra cima. "Uma coisa é certa: em momento algum ousei desistir. Grande parte da cura é o desejo de ser curado." Quem já passou por experiência parecida sabe o quanto isso é verdadeiro. A vontade pode não resolver tudo, mas ajuda muito.

A Justiça tarda, mas não falha. Demorou, mas mandou soltar quatro réus do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria. O advogado deles comemorou, debochando dos que reclamaram da decisão: "Isso é choro de perdedor." De fato, é o choro indignado dos que perderam 242 inocentes, vítimas da irresponsabilidade dos acusados.

Machado - Jose Miguel Wisnik


O GLOBO - 01/06/2013

A revanche de Machado em Moscou e um raio luminoso na Comissão da Verdade

Em 2007 participei de uma Semana da Língua Portuguesa em Moscou. O evento era uma iniciativa das embaixadas do Brasil e de Portugal e desenrolava-se na Biblioteca de Literaturas Estrangeiras, em cujo pátio aconteceria o momento áureo e mais solene do evento: a inauguração do busto de Machado de Assis. Bustos, estátuas e efígies de escritores, meditativos, eloquentes ou simplesmente de perfil para a posteridade, espalham-se por toda parte em Moscou. Lá, os encontros costumam ser marcados aos pés de Pushkin. Maiacovski ocupa uma praça em cujo subterrâneo está a estação de metrô com seu nome, no teto da qual se inscrevem poemas seus. Dostoievski e Tchecov são colossais. A entrada em cena do busto de Machado era um passo modesto, mas curioso, e bem à moda russa, do lento reconhecimento que vem se dando do nosso escritor maior no plano da literatura mundial.

Mais curioso ainda, e no entanto nada modesto, se revelou quando nos deparamos com o lugar que o nosso marco literário ocupava no átrio povoado pelos vultos de Goethe, Proust, Joyce, Pirandello. É que o representante da embaixada, um animado nissei brasileiro, em contato com os funcionários da biblioteca, tinha perguntado a eles sobre a localização do busto a ser instalado. Como a Rússia se parece com o Brasil na admissão de uma razoável margem de indeterminação, a resposta foi a de que ele podia escolher onde lhe parecesse melhor. O resultado irônico, ao descerrar-se o véu inaugural, é que Machado reluzia nada mais nada menos do que no centro geométrico do pátio, no epicentro das forças literárias do ocidente, tendo à sua volta o que parecia ser por um momento um irlandês bêbado, um alemão altivo e deslocado, um francês blasé, um italiano à procura de lugar, sem falar numa legião de outras expressões nacionais, todos convertidos por um efeito ótico instantâneo em orla periférica da inesperada centralidade machadiana.

Por obra de um acaso objetivo que não deixava de ser cômico e iluminador, o “mestre na periferia do capitalismo”, em Moscou, ocupava o centro. É significativo lembrar que o próprio Roberto Schwarz chamou a atenção, em “Ideias fora de lugar”, para as enormes afinidades entre as literaturas do Brasil e da Rússia, esses países continentais historicamente ligados ao escravismo e à servidão, na periferia do centro europeu. Por uma espécie de inadvertida revanche contra o pouco reconhecimento internacional de sua grandeza, o fora de lugar encontrava neste lugar de fora um equívoco mas não descabido lugar máximo. Não sei se a biblioteca russa corrigiu ou não, depois, o gesto soberano do nosso representante diplomático, que, sem saber, fez justiça com as próprias mãos: justiça, refiro-me, ao que sustentara Susan Sontag em 1990, confessando-se “espantada de que um escritor de tamanha grandeza ainda não ocupe o lugar que merece no palco da literatura mundial”. Na mesma passagem, ela constatava o quanto o centro pode ser periférico, e a periferia, central.

Lembro tudo isso por causa da tese de Hélio Guimarães, de cuja banca fiz parte, e que rastreia mais de um século da recepção crítica de Machado de Assis, os caminhos enviesados da sua conversão em monumento e as surpresas desconcertantes que ele não cessa de fazer pelas bordas e no miolo. Pelo quanto uma obra literária pode demandar, suportar e desafiar leituras ao longo dos tempos. Pelo quanto somos esquisitos aos olhos do mundo, e aos nossos, se nos admitíssemos nos ver. Lembro os textos de José Antonio Pasta que flagram a luta de morte como constante estrutural insidiosa no romance brasileiro, onde os antagonistas se confundem e se anulam sem a possibilidade de um salto dialético.

Penso no fato de que, desde a minha última coluna, na qual crianças xingavam André Mehmari, um morador de condomínio de luxo matou o casal vizinho por causa de som e fúria, significando nada, o prefeito do Rio esmurrou um artista que o xingava, mas que não sustentou o que dizia e o golpe que sofreu, e mais um dentista teve o corpo queimado por bandidos, atestando que o crime também segue, a seu modo, tendências e moda.

Hoje, no entanto, tudo isso é atravessado por um raio luminoso, o depoimento da historiadora Dulce Pandolfi à Comissão da Verdade, sobre as torturas que sofreu durante a ditadura militar. Da violência nós sabemos, de maneira genérica. Da sordidez e da minúcia sádica, da covardia e dos meandros mais mesquinhos e sinistros do mal, confundidos com a vida oficial brasileira, ela nos diz de maneira elevada, cristalina e irrespondível. Esse depoimento precisa ser conhecido na íntegra, não direi como uma lição moral e cívica, que não deixa de ser, mas como um testemunho da nossa humanidade.