sábado, 13 de abril de 2013

SABÁTICO

 

Lygia Fagundes Telles, testemunha literária

A escritora relembra momentos marcantes de sua trajetória, como a amizade com Clarice Lispector e Hilda Hilst, a viagem à China em 1960, o encontro com Montero Lobato e a agonizante espera pela liberação de 'As meninas' pela censura


Ubiratan Brasil

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“QUAL O MISTÉRIO DESSA MULHER?”

Cronista do Caderno 2 narra casos saborosos envolvendo ambos e diz: “Quero envelhecer como ela, de bem com a vida”

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Conto do adeus à ilusão

Obra do chinês Mo Yan trata da distância entre o que a revolução prometeu e fez

 

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 O RISO PARA DEMOLIR IDEOLOGIAS E TABUS

 Em A Questão Finkler, Howard Jacobson tenta desvendar com humor e autoironia o enigma da experiência humana

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A literatura pop encontra a erudita

Fenômeno editorial que deu nome a uma geração, 'Nocilla Dream', primeiro volume da trilogia escrita pelo espanhol Agustin Fernández Mallo, chega ao Brasil e faz do autor o possível sucesssor de Bolaño

 

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É nosso, o Maraca? - Arnaldo Bloch


 O Globo - 13/04/2013

 

Ali era o centro do mundo. Será que voltará a ser? Ou será só um equipamento a mais a orbitar o estranho sol da Fifa e seus consórcios?

Na quinta-feira passada, dia de abertura dos envelopes para a concessão do novo Maracanã, o Escobar (Alex, apresentador do GloboEsporte), comentou, com sua careca e seu sorrisão, como todos estavam ansiosos para ver um grande jogo no estádio demolido e retrofitado (ou retrofifado, para os íntimos).
O programa exibia o quadro “O Maraca é nosso”, espécie de contagem regressiva com espírito otimista sobre o futuro do ex-maior do mundo, com um apelozinho patriótico que procura recuperar algo que um dia existiu, mas, hoje, soa como nova utopia.

Quem viu, viu, quem viveu, viveu: o nosso Maraca morreu. A vontade de ir ao Maraca, paradoxalmente, sobrevive e aumenta, reavivando memórias e criando estes sonhos ingênuos de redenção e amor renovado.
Mas o medo de entrar lá e ser assaltado por uma terrível e fatal saudade vai permancer até a hora de “adentrar” as arquibancadas e olhar o panorama da tarde azul.

Será que virá aquele susto de sempre? Aquela impressão de que, por mais nosso que fosse, o Maracanã era, a cada jogo, um acontecimento mítico, causador de um espanto estranho, metafísico.
Já dá para imaginar, daqui a uns meses, o pessoal, mais cedo, tomando cerveja em frente à mesma estátua do Bellini, só que cercada por equipamentos urbanos, shoppings, Mickeys e, talvez, um índio perdido nos entornos da Aldeia Maracanã, onde ficava o museu e que terá novo uso, ou abuso.
O torcedor vai ter ainda o privilégio de escalar as antigas rampas anguladas, que, felizmente, serão mantidas, não sei se em azul e branco ou com novos revestimentos.

As arquibancadas, lá adiante, surgirão como intrusas nascidas do vazio da demolição e estão a moldar novos ângulos e curvas, desconhecidos de quem durante décadas sentou no cimento e correu acima e abaixo pelos gigantes degraus livres de divisores, cadeiras, vidro.

Ali era o centro do mundo. Será que voltará a ser? Ou será só um equipamento a mais a orbitar o estranho sol da Fifa e seus consórcios?

Qual será o melhor envelope? A que estilo de exploração o Maraca será submetido? Com que preços o torcedor vai se confrontar? Há alguma rachadura incontornável no corpo reencarnado de Mário Filho?
Deve-se saudar quem houver decidido pela manutenção do nome que, junto com as rampas, e com os pedaços da antiga fachada que porventura se revelarem, formarão alguma massa de memória capaz de fazer o povo sentir-se, ao menos em parte, no “seu Maraca”.

Porque, lá dentro, é tudo novo, tudo, absolutamente tudo, um grande espetáculo de luz espera por todos, e todos esperam também que a nova cobertura fique mais bonita que a aparência de lona usada e suja que se tem visto nos jornais, nos sites e na TV. Coisa feia pra quem olhava o anel superior, majestoso, com suas janelas.

Faltará aquele gramado cujos vértices tocavam um piso circular que ficava ao centro do grande arco superior, e, lá no centro dos acontecimentos, o centro do gramado, e, acima do céu, o Rio, o Brasil, o Mundo, o Universo e o que mais houvesse a girar numa conjunção geocêntrica. Coisa de arrepiar os cabelos de Copérnico.

Todos estarão mais próximos do gramado, criando um intimismo que não existia no Maraca (a não ser no lindo caos da Geral), mas acabando com a monumentalidade que caracterizava o estádio e dava a ele um ar ancestral; que o fazia de todos e de ninguém, palco de guerras púnicas e batalhas romanas, Coliseu carioca e matéria de criação rodriguiana.

Naquele tempo o Maraca era nosso, apesar das incongruências da administração pública. Por mais caída que fosse, a voz de pato que saía dos alto-falantes dizendo “A Suderj informa” integrava um grande teatro formado por bandeirões, vibração no cimento, morteiros e massa humana de domingo, estática de rádio de pilha e assovios, batuques desencontrados esquentando o descompasso que precedia o jogo, como uma orquestra a afinar seus instrumentos.

O que virá no lugar dessa explosão dos sentidos? Terá restado, no espaço que o Maraca ocupa, algum ar essencial, uma energia de lenta dispersão, que, sorrateiramente, venha a reinstituir o diapasão da tribo que balançou-o por mais de meio século, evocando forças milenares, migratórias, brasileiras?

É possível que, num fenômeno, as novas estruturas sejam remodeladas, tendo como pivô o inconsciente da galera, de modo que da destruição nasça uma resultante cognitiva capaz de plugar corpo e alma na nuvem da memória: mesmo sem saber, estaremos, e nossos filhos, lá, suspensos, na onda do Maraca eterno.
_________________________
Depois de anos só trocando e-mails, tive a alegria de conhecer pessoalmente Aldir Blanc, no lançamento do bonito livro que o jornalista Luiz Fernando Vianna, o popular “Orelha”, escreveu sobre o poeta. Aldir apareceu-me como figura bíblica, mosaica, trágica e risonha. Abraçou-me com drama, chorou lamentos e celebrou a vida, como um deus.

E-mail: arnaldo@oglobo.com.br

Cerebral - José Miguel Wisnik

O Globo - 13/04/2013

Kim Jong-un fala literalmente, quando anuncia a iminência da guerra termonuclear?

Faz pouco tempo aconteceu em São Paulo o show de Arrigo Barnabé com Luiz Tatit. Pela primeira vez esses dois compositores da chamada vanguarda paulista fizeram parcerias — mais de uma dezena delas. É um assunto para quando sair o CD gravado ao vivo. Por ora, só quero citar alguns versos da canção final do show: “Ser humano é sempre igual/ é bem bom mas é falho/ ser humano é cerebral/ cerebral o caralho”. Essas palavras estão reboando no meu cérebro enquanto se desenrola a novela bélica da Coreia.

Escrevo na quinta sem saber o que ninguém sabe: Kim Jong-un fala literalmente, quando anuncia a iminência da guerra termonuclear? Está disposto, junto com seu comando militar, a desencadeá-la, ao mesmo tempo em que acusa o inimigo de fazê-lo? Ou fará alguma demonstração de poder balístico localizado, a título exemplar, para efeitos internos e externos? Com que raio de ação? Comemorará o centenário do avô, data cívica nacional máxima, na próxima segunda-feira, com algum fogo de artifício nuclear? Ou a manobra anunciada é toda de retórica verbal, com objetivos precisos? Em suma, seus mísseis serão, nesse momento, artefatos reais, imaginários ou simbólicos?

Todas as análises que leio esbarram na dificuldade de responder a essas perguntas. Se são mísseis simbólicos, fariam parte de uma diplomacia armada, a um tempo fria e fervente, capaz de considerar os fatores econômicos, políticos e militares envolvidos no tabuleiro asiático e de controlar os riscos levando-os ao limite, para firmar uma posição de força frente à Coreia do Sul, ao Japão e aos Estados Unidos. Se não estou enganado, a entrevista do embaixador brasileiro em Pyongyang, que li em “O Estado de S. Paulo”, há umas duas semanas, ia em boa parte nessa direção.

Se os mísseis são imaginários, não no sentido de irreais, mas como parte de um jogo de imagens que confronta a existência de alguém com a existência do outro que o ameaça de morte, estamos à beira de um jogo de tudo ou nada, em que a identidade nacional da Coreia do Norte, forjada no culto dinástico da sucessão dos ditadores, espelha-se na massa que os apoia e no aparato bélico que solda essa identidade imaginária num espelho de aço. Nesse sentido, a afirmação do potencial bélico contra o inimigo passa a ser, além de um desafio lançado ao outro, uma necessidade de reconhecimento fusional interno, de natureza hipnótica, entre o jovem líder aprendiz de feiticeiro e a massa.

Uma ou outra das leituras, simbólica ou imaginária, vai bater no real, porque a separação entre essas instâncias, quando postas à prova, é na verdade acadêmica. A retórica com fogo atômico, alimentada de imaginário, fica a um triz da explosão literal. No fundo, é isso que tem sido dito em meio à perplexidade, pela China, pela ONU, pelas ações militares norte-americanas ou por comentaristas variados.

A mim impressiona, a título de indício, um elemento aparentemente fortuito: os quepes do alto comando que cerca Kim Jong-un. São quepes altos e gorduchos, quase em forma de cogumelos, como que ciosos, no nível subliminar, do poder atômico que sustentam. Ninguém tira da minha cabeça que são cifras simbólicas e imaginárias do desejo real que os alimenta. O balanço menos visível disso tudo, no interior daqueles cérebros propriamente ditos, permanece como a incógnita e a interrogação sobre o desenrolar da novela.

Uma mulher cuja intuição eu admiro, e que não é militante feminista, me diz que todo esse alarde atômico da Coreia do Norte se deve ao fato de que uma mulher, Park Geun-hye, subiu recentemente ao poder na Coreia do Sul (também ela filha de um ex-ditador). Nessa hipótese, Kim Jong-un teria elevado o tom, inconscientemente ou não, movido por uma obscura guerra de gêneros, num campo político atomicamente armado, falocêntrico e refratário à ascensão do feminino ao poder, que tem acontecido em várias partes do mundo ocidental, chegando agora ao Oriente. O pouco que se fala da presidente sul-coreana, no contexto da crise, não deixa de ser um índice silenciado e silencioso desse fato, e da dificuldade de identificá-lo.

Volto ao cérebro: “Ser humano é cerebral /cerebral o caralho”. A palavra “cerebral” significou tradicionalmente o que é racional, equilibrado, não movido por impulsos e instintos. Essa distinção, que a canção de Arrigo e Tatit põe e dispõe com vigor espetacular, numa espécie de desabafo, também pode ser vista pelo seu avesso: as ciências têm mostrado que o cérebro não é totalmente “cerebral”. Ele manipula, esconde, premia com o prazer como se fôssemos cobaias dele, e nos leva a crer no que “ele” prefere que creiamos. Cerebral e o caralho. Como a novela atômica da península coreana.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

O Rio de altos e baixos - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 10/04/2013

O carioca é ciclotímico em relação ao Rio, que costuma ser para ele a melhor ou a pior cidade do mundo. Aqui não há lugar para vice (os vascaínos que o digam). Nossa percepção e humor variam entre a euforia e a depressão. Até outro dia era a melhor, estava bombando. Vivíamos um momento histórico. A paz urbana finalmente chegara, os investimentos também, os turistas estavam adorando, os hotéis iam ficar superlotados. A cotação estava lá em cima. Tudo parecia pronto para a nossa gente bronzeada mostrar o seu valor nos próximos eventos: Jornada Internacional da Juventude, Copa das Confederações, Copa do Mundo, Olimpíadas. O Brasil, o Rio principalmente, comemoraram antes da hora. Acreditou-se no fim da violência, no milagre das UPPs, festejou-se tanto os novos tempos que a Brahma resolveu neutralizar as vozes que advertiam para os problemas não resolvidos. Contra o bordão "Imagina na Copa", ela lançou a resposta euforizante do pilequinho cívico: "Vai ser a melhor festa já vista." Diante desse clima de exagerado otimismo, atos de barbárie como o inominável estupro da jovem americana na van foram um brutal choque de realidade que abalou nossa autoestima e manchou nossa imagem. O risco agora, para a população, é cair na depressão e, para as autoridades, atribuir tudo de ruim ao acaso e à fatalidade.

Recebi e-mail do prefeito com reparos à coluna do dia 3. Cedo-lhe a palavra. Sobre o Elevado do Joá, ele diz que o chamado "estudo da Coppe" é na verdade "um estudo da prefeitura que contratou a Coppe para fazer um levantamento aprofundado que nunca havia sido feito. Perguntei então: devo interditar o elevado? Resposta: não. O que devo fazer? Demoraram dois meses para me apresentar uma solução definitiva de R$ 70 milhões, que está em execução. Jamais economizaria em tema como esse."

Sobre a TransOeste: "A empresa responsável pelo lote 2 ganhou a licitação e executou mal a obra. A fiscalização da Secretaria de Obras apurou o defeito e exigiu que fosse refeito. Não estamos gastando um tostão. É como se estivesse na garantia. Óbvio que eu preferia que empresas incompetentes não pudessem participar de processos licitatórios."

Sobre o Engenhão: "Essa é uma herança que recebi (junto com a Cidade das Artes). Quem construiu me trouxe um laudo apontando risco (supostamente por erro do engenheiro e seu modelo matemático). Não tinha outra alternativa a não ser interditar. E quem fez é que vai ter que pagar o conserto."

Para terminar, Eduardo Paes deixa no ar uma dúvida: "Temos aqui nossos defeitos, mas diria que nos dois primeiros casos os problemas e/ou soluções são de engenharia. No caso do Engenhão, não posso afirmar."
 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Conversa na Catedral

REVISTA VEJA 08/04/2013

Religião

VEJA publica, com exclusividade, trechos dos diálogos entre Jorge Bergoglio, o então arcebispo de Buenos Aires e hoje papa Francisco, e o rabino Abraham Skorka. O resultado é um duelo de inteligências.
Não havia tema proibido nos encontros realizados semanalmente, ao longo de 2010, entre as duas maiores autoridades religiosas da Argentina — o então arcebispo de Buenos Aires, Jorge Bergoglio, e o rabino Abraham Skorka, doutor em química, professor de Bíblia e de literatura rabínica no Seminário Rabínico Latino-Americano. As conversas, quase sempre na catedral portenha, muitas vezes no escritório de Skorka, trataram de ateísmo, celibato, homossexualidade, aborto e divórcio. O resultado foi transformado no livro Sobre o Céu e a Terra (tradução de Sandra Manha Dolinsky; Paralela; 208 páginas: 24,90 reais). Não há guia mais adequado para entender a cabeça do papa Francisco, o jesuíta com comportamento franciscano.

Ateísmo

Jorge Bergoglio - Quando me encontro com pessoas ateias, compartilho com elas as questões humanas, mas não toco de cara no problema de Deus, exceto no caso de falarem comigo sobre o assunto. Quando isso acontece, eu lhes conto por que acredito. O humano é tão rico para compartilhar, para trabalhar, que tranquilamente podemos complementar mutuamente nossas riquezas. Como sou crente, sei que essas riquezas são um dom de Deus. Também sei que o outro, o ateu, não sabe disso. Não encaro a relação para fazer proselitismo com um ateu, eu o respeito e me mostro como sou. Na medida em que haja conhecimento, aparecem o apreço, o afeto, a amizade. Não tenho nenhum tipo de reticência, não diria que sua vida está condenada, porque tenho certeza de que não tenho direito de julgar a honestidade dessa pessoa. Muito menos quando me mostra virtudes humanas, essas que engrandecem as pessoas e me fazem bem. De qualquer forma, conheço mais gente agnóstica que ateia; o primeiro é mais dubitativo, o segundo está convencido. Temos de ser coerentes com a mensagem que recebemos da Bíblia: todo homem é imagem de Deus, seja crente ou não. Por essa única razão, ele conta com uma série de virtudes, qualidades, grandezas. E caso tenha baixezas, como eu também as tenho, podemos compartilhá-las para nos ajudar mutuamente a superá-las.

Abraham Skorka - Concordo com o que o senhor disse: o primeiro passo é respeitar o próximo. Mas eu acrescentaria um ponto de vista: quando uma pessoa diz "eu sou ateu", acredito que está assumindo uma postura arrogante. A posição mais rica é a daquele que duvida. O agnóstico pensa que ainda não encontrou a resposta, agora o ateu tem certeza, 100%, de que Deus não existe. Tem a mesma arrogância de quem garante que Deus existe, tal como existe esta cadeira sobre a qual estou sentado. Nós, religiosos, somos crentes, não damos por cena Sua existência. Podemos percebê-la em um encontro muito, muito, mas muito profundo, mas nunca O vemos. Recebemos respostas sutis. A única pessoa que, segundo a Torá, explicitamente falava com Deus, cara a cara, era Moisés. Aos outros — Jacó, Isaac —, a presença de Deus chegava em sonhos ou em refrações. Dizer que Deus existe, como se fosse mais uma certeza, também é uma arrogância, por mais que eu acredite que Deus existe. Não posso afirmar superficialmente Sua existência porque tenho de ter a mesma humildade que exijo do ateu. O exato seria dizer — como Maimônides enuncia em seus treze princípios da fé — "eu acredito com fé plena que Deus é o Criador". Seguindo a linha de Maimônides, podemos dizer o que Deus não é, mas não podemos assegurar o que Deus é. Podemos mencionar suas qualidades, seus atributos, mas de jeito nenhum podemos lhe dar forma. Eu recordaria ao ateu que há uma perfeição na natureza que está enviando uma mensagem: podemos conhecer suas fórmulas, mas nunca sua essência.

Celibato

Bergoglio - Faço um esclarecimento: o sacerdote católico não se casa na tradição ocidental, mas pode fazê-lo na oriental. Ali casa-se antes de receber a ordenação; se já foi ordenado, então não pode se casar. E o laico católico, que vive em plenitude, está metido no mundo até o pescoço, mas sem se deixar levar pelo espírito do mundo. E isso é muito difícil. Agora, o que acontece conosco, os consagrados? Somos tão fracos que sempre há a tentação da incoerência. Queremos tudo, o bom da consagração e o bom da vida laica. Antes de entrar no seminário, eu andava por esse caminho. Mas depois, quando se cultiva essa escolha religiosa, encontra-se força nesse outro caminho. Eu, pelo menos, vivo assim, o que não impede que se conheça uma garota por aí. Quando eu era seminarista, fiquei deslumbrado por uma garota que conheci no casamento de um tio. Fiquei surpreso com sua beleza, sua luz intelectual... e, bem, andei confuso um bom tempo, pensava sem parar. Quando voltei ao seminário, depois do casamento, não consegui rezar ao longo de uma semana inteira, porque, quando me dispunha a orar, a garota aparecia em minha cabeça. Tive de voltar a pensar no que estava fazendo. Ainda era livre porque era seminarista, podia voltar para casa e tchau. Tive de repensar a opção. Tomei a escolher — ou a me deixar escolher — o caminho religioso. Seria anormal se não acontecessem coisas desse tipo. Quando isso acontece, temos de nos situar novamente. Temos de ver se voltamos a escolher ou dizemos: "Não, isso que estou sentindo é maravilhoso, tenho medo de que depois eu não seja fiel a meu compromisso. Vou deixar o seminário". Quando acontece algo assim com algum seminarista, eu o ajudo a ir em paz, a ser um bom cristão e não um mau padre. Na Igreja ocidental, à qual pertenço, os padres não podem se casar como nas igrejas católicas bizantina, ucraniana. russa ou grega. Nelas, os sacerdotes podem se casar; os bispos não, têm de ser celibatários. Eles são muito bons padres. Às vezes debocho deles, digo que têm mulher em casa, mas que não perceberam que também compraram uma sogra. No catolicismo ocidental, o tema é discutido impulsionado por algumas organizações. Por enquanto, a disciplina do celibato se mantém firme. Há quem diga, com certo pragmatismo, que estamos perdendo mão de obra. Se, hipoteticamente, o catolicismo ocidental revisasse o tema do celibato, acredito que o faria por razões culturais (como no Oriente), não tanto como opção universal. Por ora, sou a favor de que se mantenha o celibato, com seus prós e contras, porque são dez séculos de boas experiências, mais que de falhas. O que acontece é que os escândalos se veem logo. A tradição tem peso e validez. Os ministros católicos foram escolhendo o celibato pouco a pouco. Até o ano 1100, havia quem optasse por ele e quem não. Depois, no Oriente se seguiu a tradição não celibatária como opção pessoal, e no Ocidente o contrário. É uma questão de disciplina, não de fé. Isso pode mudar. Pessoalmente, nunca passou por minha cabeça me casar. Mas há casos. Veja o do presidente paraguaio Fernando Lugo, um sujeito brilhante. Mas, sendo bispo, teve um deslize e renunciou à diocese. Nessa decisão foi honesto. Às vezes surgem padres que caem nisso.

Skorka - E qual é a sua postura?
Bergoglio - Se um deles vem e me diz que engravidou uma mulher, eu o escuto, procuro fazer com que tenha paz e, pouco a pouco, faço-o perceber que o direito natural é anterior a seu direito como padre. Portanto, ele tem de deixar o ministério e assumir esse filho, mesmo que decida não se casar com essa mulher. Porque, assim como essa criança tem direito a ter uma mãe, tem direito a ter o rosto de um pai. Eu me comprometo a cuidar de toda a papelada em Roma, mas ele deve deixar tudo. Agora, se um padre me diz que se entusiasmou, que teve um deslize, eu o ajudo a se corrigir. Alguns padres se corrigem, outros não. Alguns, lamentavelmente, nem contam ao bispo.

Skorka - Que significa se corrigir?
Bergoglio - Fazer penitência, respeitar seu celibato. A vida dupla não nos faz bem. não gosto disso, significa substanciar a falsidade. Às vezes lhes digo: "Se não puder superar isso, decida-se".

Culpa
Bergoglio - A culpa pode ser entendida em duas acepções: como transgressão e como sentimento psicológico. Essa última não é religiosa; mais ainda, eu me atreveria a dizer que pode inclusive suprir um sentimento religioso, algo assim como a voz interior que diz que me enganei, que agi mal. Algumas pessoas são "culpogênicas", porque precisam viver em culpa; esse sentimento psicológico é doentio. Além disso, entender-se com a misericórdia de Deus parece muito mais fácil tendo esse sentimento de culpa, porque vou me confessar e pronto: o Senhor já me perdoou. Mas não é tão fácil, porque foi simplesmente para que lhe tirassem a mácula. E a transgressão é algo mais sério que uma mera mácula. Há pessoas que brincam com isso de culpa, e, então, transformam o encontro com a misericórdia de Deus em algo como ir à tinturaria, é só limpar a mancha. E assim vão degradando as coisas.

Skorka - Concordo totalmente. Uma coisa é o anedótico — os conselhos populares, a imagem da mãe judia "culpogênica" —, mas isso não tem nada a ver com a essência da concepção judaico-cristã da culpa, porque, quando alguém comete uma transgressão, existe uma possibilidade de se redimir. A pessoa tem de mudar para não tornar a cometer essa transgressão. Não basta dizer: "Eu me enganei", e acabou a história. É claro que ajuda fazer uma oração, realizar uma doação como um ato de caridade profundo, mas desde que sejam manifestações de uma elaboração sincera. Quando se fala que as religiões jogam com a transmissão da culpa judaico-cristã é uma incompreensão imensa, pois, nessa concepção, o fato de cometer uma transgressão não é o fim do mundo. Todo mundo pode se equivocar. mas é preciso reparar, consertar. E, acima de tudo, não tomar a cometer a falta.

Bergoglio - A mera culpa pertence ao mundo do idolátrico. É mais um recurso humano. A culpa sem reparação não me deixa crescer.

Aborto
Bergoglio - O problema moral do aborto é de natureza pré-religiosa, porque, no momento da concepção, está ali o código genético da pessoa. Ali já há um ser humano. Separo
o tema do aborto de qualquer concepção religiosa. É um problema científico. Não deixar avançar o desenvolvimento de um ente que já tem todo o código genético de um ser humano não é ético. O direito à vida é o primeiro dos direitos humanos. Abortar é matar quem não pode se defender.

Skorka - O problema de nossa sociedade é que ela perdeu, em grande medida, o respeito pela sacralidade da vida. O primeiro ponto problemático é falar do aborto como se fosse um tema simples e o mais normal do mundo. Não é assim: por mais que seja uma célula, estamos falando de um ser humano. Portanto, o tema merece um âmbito muito especial de discussão. Vê-se frequentemente que todo mundo dá a sua opinião, sem informação exata, sem conhecimentos. O judaísmo, em termos gerais, condena o aborto, mas há situações em que é permitido. Por exemplo, quando a vida da mãe está em perigo. Há diversos casos em que se autoriza o aborto. Mas o interessante é que os antigos sábios judeus do Talmude o proibiram absolutamente nos outros povos quando analisaram as leis dos gentios, o que seria o jus gentium no Talmude. Minha interpretação é que, como sabiam do que acontecia em Roma, queriam evitar ter de discutir a possibilidade do abono em uma sociedade na qual a vida não era muito respeitada. Podemos encontrar no Talmude uma análise exaustiva da pena de morte. Embora esse castigo apareça na Torâ, alguns sábios são da opinião de que deve ser restringida até tomar impossível sua aplicação. E há quem defenda com argumentos uma postura menos restritiva. Os sábios de cada geração é que, com base nas conjunturas que enfrentarão, aplicarão a pena de acordo com um critério ou outro. Algo semelhante ocorre com o aborto. E claro que o judaísmo o abomina e condena, salvo no caso claro, como explica a Mishná, de que a mãe corra um inquestionável perigo de morte. Nessas ocasiões, privilegia-se sua vida.

União homossexual

Skorka - O modo como se tratou o tema do casamento homossexual foi, em meu entender, deficiente no que diz respeito à profundidade da análise que o assunto merece. Embora de fato já existam muitos casais do mesmo sexo que coabitam e merecem uma solução legal em questões como pensão, herança etc. — que bem podem se enquadrar em uma figura jurídica nova —, equiparar o casal homossexual ao heterossexual já é outra coisa. Não é só uma questão de crenças, e sim de ter consciência de que estamos tocando em um dos elementos mais sensíveis da constituição de nossa cultura. Faltaram mais análises e estudos antropológicos sobre a questão. Paralelamente a isso, é claro que se deveria ter dado maior espaço de informação aos credos, como portadores e formadores de cultura. Deveriam ter sido organizados debates no seio dos próprios credos, com suas variadas tendências, para formar um espectro completo de opiniões.

Bergoglio - A religião tem direito de opinar, pois está a serviço das pessoas. Se alguém pede um conselho, tenho direito de dá-lo. O ministro religioso às vezes chama a atenção sobre certos pontos da vida privada ou pública porque é o condutor dos fiéis. Mas não tem direito de forçar nada na vida privada de ninguém. Se Deus, na criação, correu o risco de nos fazer livres, quem sou eu para me meter? Nós condenamos o assédio espiritual, que acontece quando um ministro impõe de tal modo as normas, as condutas, as exigências, que priva a liberdade do outro. Deus deixou em nossas mãos até a liberdade de pecar. Temos de falar muito claro dos valores, dos limites, dos mandamentos, mas o assédio espiritual, pastoral, não é permitido.

Skorka – (...) A lei judaica proíbe relações entre homens. Estritamente, o que diz a Bíblia é que os homens não devem ter relações no estilo das que homens têm com mulheres. Disso se deduz toda uma postura. O ideal do ser humano, desde o Gênesis, é unir um homem e uma mulher. A lei judaica é clara: não pode haver homossexualidade. Por outro lado, eu respeito qualquer indivíduo, desde que mantenha uma atitude de recato e intimidade. Em relação à nova lei, não me convence do ponto de vista antropológico. Ao reler Freud e Lévi-Strauss quando se referem aos elementos formadores daquilo que conhecemos como cultura, e o valor que dão à proibição das relações incestuosas e à ética sexual, como base do processo de civilização, preocupam-me os resultados que essas mudanças podem produzir no seio de nossa sociedade.

Bergoglio - Penso exatamente a mesma coisa. Para defini-lo, eu utilizaria a expressão "retrocesso antropológico", porque seria debilitar uma instituição milenar criada de acordo com a natureza e a antropologia. Há cinquenta anos, o concubinato não era uma coisa socialmente tão comum como agora. Era até uma palavra claramente pejorativa. Depois, a situação foi mudando. Hoje, coabitar antes de se casar, embora não seja o correto do ponto de vista religioso, não tem o peso social pejorativo de cinquenta anos atrás. É um fato sociológico, que certamente não tem a plenitude nem a grandeza do casamento, que é um valor milenar que merece ser defendido. Por isso, alertamos sobre sua possível desvalorização, e, antes de modificar uma jurisprudência, é preciso refletir muito sobre tudo o que está em jogo. Para nós também é importante o que o senhor acaba de apontar, a base do direito natural que aparece na Bíblia, que fala da união do homem e da mulher. Sempre houve homossexuais. A ilha de Lesbos era conhecida porque ali viviam mulheres homossexuais. Mas nunca ocorreu na história que se tentasse dar a essa relação o mesmo status do casamento. Era tolerada ou não, admirada ou não, mas nunca equiparada.

Divórcio

Bergoglio - O tema do divórcio é diferente daquele do casamento de pessoas do mesmo sexo. A Igreja sempre repudiou a Lei de Divórcio Vincular, mas é verdade que há antecedentes antropológicos diferentes nesse caso. Nessa oportunidade, nos anos 1980, deu-se um debate mais religioso, porque o casamento até que a morte os separe é um valor muito fone no catolicismo. Hoje, entretanto, na doutrina católica recordamos a nossos fiéis divorciados e casados de novo que não estão excomungados — embora vivam em uma situação à margem daquilo que a indissolubilidade matrimonial e o sacramento do casamento exigem —, e lhes pedimos que se integrem à vida paroquial. As igrejas ortodoxas ainda têm uma abertura maior em relação ao divórcio. Naquele debate houve oposição, mas com matizes. Houve posições extremas que nem todos compartilhavam. Alguns diziam que era melhor que não se aprovasse o divórcio, mas também havia outros mais abertos ao diálogo do ponto de vista político.

Skorka - Na religião judia, a instituição do divórcio existe, sendo aplicada na Halachá, a legislação rabínica. É claro, é um drama. Não é uma questão de fé, como no catolicismo, porque sua posição deriva da leitura dos Evangelhos, que dizem que Jesus teve uma postura dura em relação ao divórcio, como a adotada pela casa de Shamai, conforme atesta o Talmude. Para o judaísmo, quando o casamento não dá certo, quando depois de muitos esforços para conciliar as partes as incompatibilidades persistem, então ajudamos a formalizar o ato de divórcio. Exponho o tema nesses termos porque, no judaísmo, o rabino ou o tribunal rabínico não declaram nem decretam o novo estado das panes, só supervisionam para que a dissolução seja de acordo com as normas. São o homem e a mulher que assumem e declaram seu novo estado, assim como quando se casam. É um ato íntimo do casal, supervisionado por um conhecedor da lei para confirmar que o realizado é correto. Por isso não foi tão conflituoso aquele debate. Algo parecido aconteceu quando foram discutidos os métodos de reprodução assistida. O judaísmo era a favor porque era uma maneira de ajudar Deus para que uma mulher pudesse ser mãe, para melhorar a condição do indivíduo sofredor. É uma postura mais dinâmica que a católica. O catolicismo é mais duro, tem posturas mais restritivas nesses temas. Mas, quando se levantam todas essas questões no seio de uma sociedade democrática, é preciso tentar chegar a consensos.

CASAMENTO GAY

 Veja - 08/04/2013

A REVELAÇÃO PÚBLICA DE DANIELA

Ao anunciar a união com uma jornalista de televisão, a quem chama de esposa, a cantora baiana Daniela Mercury tomou obrigatória a discussão sobre o casamento gay no Brasil.

"Seja o que Deus quiser, Malu.” Daniela Mercury olhou para a companheira, em um quarto de hotel de Lisboa, onde esteve na semana passada para uma série de shows, tocou no ícone compartilhar do Instagram e pôs no ar uma colagem de fotos dela com a jornalista Malu Verçosa, editora na TV Bahia, afiliada da Globo. No cabeçalho, escreveu a frase que provocaria mais de 17000 reações de “curtir” coladas à revelação: “Malu agora é minha esposa, minha família, minha inspiração pra cantar”. E o Brasil inteiro ficou sabendo que ela saíra do armário, como se diz no jargão popular para definir a pessoa que assume sua homossexualidade, e que decidira trocar alianças — mas ainda não assinar papéis no cartório — com a namorada recente, de apenas dois meses e meio (na cronometragem oficial, descontado o período de segredo). Houve estardalhaço — saiu no Jornal Nacional. Daniela — mãe de dois filhos já adultos, do primeiro casamento, e de outros três adotados, do segundo, ambos relações convencionais — nunca admitira sua orientação sexual. Seja o que Deus quiser, portanto.

Mas Deus vai querer? Se depender da hierarquia das igrejas que falam em nome Dele, a resposta será um sonoro “não" dos líderes evangélicos brasileiros, um “sim” enfático dos anglicanos e um “sim” condicional dos católicos. “Se Deus, na criação, correu o risco de nos fazer livres, quem sou eu para me meter?”, foi a reação do jesuíta Mario Bergoglio, o papa Francisco, sobre o casamento gay em seu diálogo com o rabino Abraham Skorka (veja a reportagem na pág. 94). Bergoglio elabora sua resposta e diz que o papel do pastor é alertar o fiel para os perigos de pecar e nunca induzi-lo a determinado tipo de ação na vida privada. Mas pelo menos até que Ele a convoque para um acerto de contas, Daniela tem pouco com que se preocupar com as repercussões religiosas de seu anúncio. O casamento gay tem hoje mais implicações de ordem prática do que de consciência.

Depois do anúncio, Daniela divulgou uma nota na qual citou o deputado Marco Feliciano (PSC-SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Escreveu a cantora: “Numa época em que temos um Feliciano desrespeitando os direitos humanos, grito meu amor aos sete ventos. Quem sabe haja alguma lucidez no Congresso Brasileiro”. Ao misturar seu relacionamento com política, Daniela prestou um desserviço ao mesmo tempo ao romantismo e à sua seriedade de propósitos. O presidente do STF, Joaquim Barbosa, ajudou a por a questão em sua real perspectiva durante uma palestra na UNB: “É simples: o deputado Marco Feliciano foi eleito pelos seus pares para assumir determinado cargo dentro do Congresso Nacional. Perfeito. Agora, a sociedade tem direito de se exprimir contrariamente à presença dele nesse cargo. Isso é democracia”.

É natural e positivo que as instituições tratem as mudanças comportamentais radicais com a cautela devida. É natural e positivo também que as pessoas possam ter tempo para se acostumar com esses novos ordenamentos sociais e avanços comportamentais. É assim que as mudanças se legitimam, superando a intolerância, que se dilui com o tempo em formas cada vez mais brandas de rejeição até se tomarem invisíveis. Confrontada com a questão do casamento gay, a Suprema Corte dos EUA optou pela cautela. Pediu mais tempo para que os juizes avaliem todas as repercussões de um vez mais provável reconhecimento legal de uma situação de fato.

No Brasil, o STF reconheceu a união estável gay em 2011. A partir de parceiros do mesmo sexo numa relação contínua e duradoura, com o objetivo principal de constituir família, podem receber herança em caso de morte de um dos dois, receber pensão alimentícia, optar pela comunhão parcial de bens, e também adotar crianças. Em seis estados brasileiros (Alagoas, Bahia, Ceará, Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo) os cartórios já fazem o casamento civil homossexual, o que põe os casais juridicamente um degrau acima do status de união estável. Cerca de 400 casais gays brasileiros conseguiram a certidão de matrimônio desde o “sim” do STF. Esse número só tende a crescer.

É discernível uma tendência evolutiva rumo à aceitação no que diz respeito aos homossexuais. O que já foi visto como doença física no passado foi em uma fase posterior encarado como comportamento desviante provocado por defeito de criação — ou seja, produto de lares com mães superprotetoras e pais ausentes e violentos. As concepções erradas davam origem às reações sociais desastradas. A "rebelião de Stonewall”, os seis dias de confronto entre policiais e gays, em Nova York, ocorreu há pouco mais de quarenta anos. Desde então os gays deixaram de ser caso de polícia. Os estudiosos desvendaram o peso da determinação genética, o que esvaziou as falsas considerações morais sobre eles. Recentemente a homossexualidade tem sido descrita como uma adaptação evolutiva da espécie. Isso significa que muitas sociedades não apenas deixaram de ser hostis aos gays como passaram a ver contribuições positivas para o grupo na existência deles.

“A homossexualidade representa diversidade e ela é sempre positiva para a sociedade”, diz Edward Wilson, o grande biólogo americano de Harvard. autor de um livro recente, A Conquista Social da Terra, que funde de maneira inédita as análises genéticas e culturais do comportamento humano (veja a Carta ao Leitor, na página 12). Wilson põe a homossexualidade em campo diametralmente oposto, por exemplo, ao do incesto, este, sim, um desvio comportamental que não apenas abala o edifício moral das sociedades como empobrece a diversidade genética tão necessária para a sobrevivência sadia da espécie humana. Wilson diz que isso explicaria as razões da crescente aceitação da homossexualidade em contraste com a existência consentida do incesto somente em alguns pontos isolados da África e da Ásia — ainda assim com aceitação apenas ritualística em casamentos de chefes tribais. O mesmo processo sociogenético-cultural que, como demonstra Edward Wilson, vem chancelando a homossexualidade atua fortemente na rejeição da pedofilia e da poligamia. O que a biologia evolutiva constatou pelo método científico as pessoas percebem no cotidiano. Quanto mais jovem o grupo, menos seus integrantes consideram homossexualidade um assunto polêmico. Os jovens em quase todas as partes são cada vez mais o que os sociólogos chamam de “gender blind” — ou seja, eles olham uma pessoa, percebem que tipo de roupa ela usa, que corte de cabelo, mas se a pessoa é gay ou não é um ponto que não chama atenção.

O casamento gay coloca um desafio de outra ordem. Não se trata mais da simples aceitação pelo grupo de adolescentes ou jovens adultos — mas do reconhecimento pelas instituições de que os direitos civis podem ser automaticamente aplicados aos relacionamentos homossexuais duradouros. Isso é mais complexo. Esse processo exige que vanguardas e maiorias conservadoras realizem uma tensa dança do acasalamento até que a intolerância se dissolva em rejeição e essa em aceitação legal — o que não significa que os dois lados vão despeitar um dia depois da aprovação da eventual legalização do casamento gay concordando sobre todas as questões. Mas esse processo de negociação é inevitável.

É da natureza humana que as minorias liderem as transformações, na vanguarda, e que as maiorias, sempre mais apegadas ao que já existe, se incomodem. Impossível é fugir da existência de uma novidade que exclui a indiferença. Foi assim com o divórcio e com o movimento em defesa do voto feminino, no início do século XX, nos EUA e na Inglaterra. As mulheres já tratavam de política dentro de casa, opinavam sobre o cotidiano com o marido — mas o salto só se deu com a aprovação legal do voto. É o que ocorre agora com o ingresso do casamento gay nos tribunais.

Se a aprovação da união homossexual fosse simplesmente a institucionalização de uma postura que já estava acontecendo entre quatro paredes, seria mais fácil crer que essa transformação se daria de modo ainda mais acelerado. Mas há um complicador. Como estender aos gays as proteções legais dadas ao casamento pelo simples fato de ele, ao fim e ao cabo, propiciar a perpetuação da espécie pela procriação? As pesquisas de opinião no Brasil mostram que nem mesmo a adoção de crianças ou o recurso a barrigas de aluguel ou inseminação artificial demovem a maioria heterossexual da convicção de que os casais gays são incapazes de criar um lar estável. Nos EUA a resistência é bem menor, mas a questão ainda está longe de ser unanimidade. “Parece-me que os gays estão lutando pelo casamento. Eu receio que isso signifique rebaixar o que é o casamento”, disse o ator inglês Jeremy Irons ao site noticioso Huffington Post.

Além da intolerância e agressividade dos militantes, há descontentamento de bom número de pessoas com a redução de questões éticas de alta complexidade — caso também do abono e da eutanásia — a uma simples luta por direitos. Escreveram os especialistas em ética Claire Andre e Manuel Velasquez: “Muitas controvérsias morais hoje se expressam na linguagem dos direitos. Há uma explosão de recursos pelos direitos dos homossexuais, direitos dos prisioneiros, direitos dos animais, direitos dos não fumantes e dos fumantes, direitos dos fetos e direitos dos trabalhadores”. O reconhecimento do direito dos homossexuais perante as leis é, portanto, apenas um aspecto de uma questão social de conseqüências ainda não totalmente conhecidas. Mas apenas fingir que o novo não existe é insuficiente para preservar o velho.
 Com reportagem de Álvaro Leme, Bela Megale, Carlos Giffoni, Carolina Melo e Kalleo Coura.

E pensar que já foi assim...

Cada sociedade tem seu próprio tempo para maturar (ou não) mudanças sociais. Nos EUA, ao contrário do Brasil, a aceitação dos gays vem disparando — mas isso é recente

É um caso raro, talvez único: o presidente dos Estados Unidos assina uma lei e, depois de apear do poder, diz que ela é inconstitucional. Em 1996, pouco antes de concorrer à reeleição, Bill Clinton sancionou a lei que define o casamento como união "entre um homem e uma mulher". Queria o voto dos conservadores e temia desagradar aos liberais, mas assinou — na calada da noite, faltando dez minutos para 1 da madrugada, sem foto nem cerimônia, mas assinou. Ganhou a reeleição, cumpriu seu segundo mandato e, no mês passado, defendeu a ideia de que o documento que leva sua assinatura fere o princípio da igualdade entre os cidadãos da Constituição.

A inflexão de Clinton se explica numa aritmética elementar. Em 1996, só 27% dos americanos apoiavam o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Hoje, são mais da metade. O apoio cresce tanto que a Suprema Corte, numa audiência pública sobre a constitucionalidade do casamento gay, deu a impressão de que prefere não legislar sobre o assunto, deixando que cada estado decida o que julgar mais apropriado. A decisão final da Corte sai até junho. Pode deixar o assunto para os estados, como transpareceu na audiência, mas pode surpreender, aprovando o casamento gay para o país todo. Nem os militantes gays ficaram incomodados com a aparente cautela dos juízes, pois, cada vez que sai um plebiscito sobre o assunto, vencem. Em novembro, ganharam em quatro estados: Washington, Maine, Maryland e Minnesota. (Mais a eleição, por Wisconsin, da primeira senadora abertamente gay.) A revista Time colocou na capa um casal homossexual beijando-se na boca sob a seguinte chamada: "O casamento gay ganhou. A Suprema Corte ainda não decidiu, mas o país já".

Cada sociedade tem seu ritmo próprio para aceitar (ou não) novos comportamentos sociais. No Brasil dos anos 50, o cardeal de São Paulo, dom Carmelo Motta, achava que a aprovação do divórcio era motivo para pegar em armas, e as desquitadas eram comparadas com "mulheres da vida". Até o fim dos anos 60, os gays americanos se reuniam às escondidas em bares que pagavam propina à polícia para evitar batidas. Percorreram uma longa trajetória em busca de aceitação. Até 2004, a maioria dos americanos era contra o casamento homossexual. Desde então, o apoio entrou numa espiral ascendente. Por dois motivos. Os jovens que estão chegando à idade adulta são francamente favoráveis aos gays. O outro motivo é que as pessoas mudam de ideia, inclusive as mais velhas. Na "geração silenciosa", formada pelos nascidos entre 1928 e 1945, apenas 17% apoiavam o casamento gay há dez anos. Hoje, são 31%. Pois é, as coisas mudam devagar, mas mudam tanto que fazem até presidente dizer que assinou lei inconstitucional.

André Petry de Nova York.

Contra a "engenharia social"

Mais da metade dos franceses não vê com bons olhos a instituição do casamento gay. Mas o movimento não é reacionário: conta com homossexuais e tem algo de 1968.

Em maio de 1968, Paris foi palco de manifestações estudantis contra a velha ordem. "A imaginação no poder" e "Seja realista, exija o impossível" eram dois dos slogans que transbordaram para países do Ocidente e da América Latina, com variações locais que sopravam na mesma direção de modernizar hábitos — e, no extremo, transformar o sistema. O arco aqui ia da ressurreição do anarquismo à improvável mutação do marxismo em ideologia libertária. Maio de 1968 transformou as relações familiares e amorosas, mas propiciou o surgimento de grupos terroristas e causou a substituição dos paralelepípedos por asfalto nas ruas parisienses, a fim de evitar que os estudantes os arrancassem para jogar nos policiais. Uma pena do ponto de vista estético. Quase meio século depois, as maiores manifestações ocorridas em Paris parecem ir na direção contrária em relação a novidades comportamentais. São contra a legalização do casamento gay nos moldes propostos pelo governo. Uma delas reuniu quase 1 milhão de pessoas, em janeiro. A outra, realizada em março, mobilizou peno de 500 000 cidadãos e acabou em pancadaria. depois que um grupo tentou sair dos limites geográficos estabelecidos pelas autoridades. Agora, protestos menores e diários pressionam o Senado a emendar o projeto de lei aprovado pelos deputados.

O movimento, contudo, não pode ser definido como reacionário, embora a Igreja seja forte patrocinadora. Não é incorreto dizer que em diversos aspectos, ele é fruto de 1968. Sua líder, por exemplo, é a comediante Frigide Baijot (trocadilho com o nome da atriz famosa que significa Frígida Doidona) — católica, mas não uma carola de bigode ligada ao Opus Dei. Esse movimento abriga famílias com recasamentos, aglutina homossexuais avessos ao padrão heterossexual e conta com a simpatia de mais da metade da população, em boa pane desobediente aos ditames do Vaticano. Seus integrantes não são contrários à união de gays perante a lei. O que não querem ver aprovada é uma legislação que iguale casais homossexuais a heterossexuais, em especial quanto à reprodução médica assistida. Não acham bom que bebês nasçam de dois pais (por meio de barriga de aluguel, obviamente) ou de duas mães, porque essas crianças teriam problemas psicológicos. A lei abre brecha para os gays "gerarem" filhos. "Ao abolir a distinção entre héteros e gays, no que se refere à reprodução, o governo mostra o seu viés autoritário. O nome disso é engenharia social. Viva a diferença!", diz Frigide Baijot. Parece a fala de uma manifestante de 1968.

Mario Sabino, de Paris.


Maiorias e Minorias 

 

Uma reportagem desta edição de VEJA fala das ondas de choque provocadas pela decisão da cantora baiana Daniela Mercury de, depois de dois casamentos convencionais, proclamar publicamente pelo Insta-gram sua paixão por uma mulher, Malu, a quem chama de esposa. Se havia alguma possibilidade de a questão do casamento homossexual no Brasil ficar restrita aos militantes e seus adversários da bancada religiosa do Congresso, ela se evaporou na quarta-feira passada. O post de Daniela espalhou-se rapidamente pelas redes sociais, virou notícia no Jornal Nacional e na rede internacional CNN, onde a cantora já foi descrita como a “Madonna brasileira”. Daniela colocou o assunto no horário nobre da televisão brasileira e, mesmo subtraindo o senso de oportunismo de promoção pessoal, a tendência agora é que a discussão se alastre.

O assunto é complexo e convida à discórdia. Pessoas sem nenhum sentimento de rejeição aos homossexuais são contra o reconhecimento legal da união marital entre indivíduos do mesmo sexo. Boa parte se irrita mesmo é com a agressividade de militantes dos movimentos gays e sua fúria implacável dirigida a quem quer que ouse divergir minimamente deles. Mas é fato que muita gente intelectualmente honesta, despida de dogmas religiosos e indiferente ao tipo de atividade sexual que adultos pratiquem consensualmente entre quatro paredes, não vê com naturalidade a união homossexual ao amparo da lei. São pessoas que dificilmente dariam seu apoio a uma mudança no artigo 226 da Constituição Brasileira, no qual está estabelecido que, “para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar”.

A reportagem de VEJA contribui para o debate racional do tema. Ela lembra que o racismo, infelizmente, sobreviveu mesmo depois de o conceito de raça como critério de diferenciação humana ter sido destroçado pelos avanços genéticos recentes. Por isso, é de esperar que a condenação da homossexualidade continue em certos círculos, a despeito da constatação de que ela é apenas uma adaptação da espécie, como lembra o grande biólogo evolutivo americano Edward Wilson em seu mais recente livro, A Conquista Social da Terra. Diz Wilson: “A homossexualidade pode ser vantajosa para os grupos humanos pelos indivíduos de talentos especiais e qualidades incomuns de personalidade e pelas profissões especializadas que cria”.

Para encarar esses assuntos com serenidade, é bom ter em mente que quem amplia as fronteiras sociais são as vanguardas comportamentais, invariavelmente formadas por minorias. Quem mantém a coesão da sociedade são as maiorias, conservadoras por definição. Por isso, as relações entre os dois grupos de pessoas, mesmo quando não há conflito aberto ou intolerância, são sempre tensas. Se a vanguarda minoritária não força a barra, as relações sociais ficam congeladas no tempo. Sem alguma resistência da maioria, as mudanças de comportamento nunca se legitimam. Mantida no plano civilizado, portanto, essa tensão é não apenas natural, mas necessária e positiva.

domingo, 7 de abril de 2013

Viaduto Covas? É ali no Chá - JOSÉ DE SOUZA MARTINS

 O Estado de S.Paulo - 07/04/2013

Mudar nome de logradouros históricos talvez seja a parte mais fácil – difícil é convencer o povo a desistir da antiga denominação

Não parece boa ideia que o Viaduto do Chá mude de nome. Mesmo tendo sido Mário Covas um homem íntegro, um cidadão respeitável e um governante inesquecível. É justo que se dê seu nome a uma obra grandiosa. Mas, como já aconteceu em outros casos, o povo continuará chamando o Viaduto doChá de Viaduto do Chá. É um nome na memória dos paulistanos,um patrimônio da consciência coletiva, embora o homenageado seja o prosaico chá-da-china, que ali se cultivava no século 19. Chá famoso, de que gostava a família do poeta Álvares de Azevedo.

Nossos políticos,com as exceções de sempre, acham que tudo podem. Apresentar um projeto de lei parece mágica expressão de poder. Qualquer joão-dos-anzóis, uma vez eleito, pode propor até a mudança do nome do Corcovado. Na decadência política pela qual passamos,não seria estranho se alguém tentasse fazê-lo.E menos estranho que o Legislativo aprovasse a esdrúxula proposta. Nos anos 1970, um candidato a deputado por Goiás chegou a ter como bandeira eleitoral a revogação da Lei Áurea! Tem gente que já deu o nome da própria mãe a logradouro público. Do jeito que se xinga político neste país, não foi boa ideia.

Jovem, eu havia começado a trabalhar no jornal que veio a ser o Diário do Grande ABC, no fim dos anos 1950. Cabia-me cobrir assessões da Câmara Municipal de São Caetano do Sul. Numa das primeiras sessões de nova legislatura, um senhor muito simples, de pouca escolaridade, eleito pela população de um dos bairros pobres da cidade, evangélico, resolveu exercitar piamente seu poder. Queria marcar posição.Propôs ao plenário um“ voto de louvor ao autor da Bíblia”.O presidente da Câmara, que não estava culturalmente longe do proponente, pôs o projeto em votação: “Os vereadores que forem favoráveis,permaneçam como estão.Os contrários, que se manifestem”. “Aprovado!”, proclamou ele. E acrescentou: “Peço ao nobre edil que deixe na secretaria da Câmara o nome e o endereço do destinatário.” Até hoje o louvor não chegou ao destino.

Há alguns anos, foi proposto e aprovado que se desseonomedeumcidadãoprestante do bairro do Ipiranga ao Museu Paulista, da Universidade de SãoPaulo, popularmente conhecido como Museu do Ipiranga. É evidente que o nome não pegou, nem podia, pois o prédio do museu é oficialmente nosso monumento nacional da Independência. O cidadão prestante é agora oficialmente ignorado.

Um dos casos dolorosos de homenagem equivocada foi o da designação do histórico Túnel Nove de Julho com o nome de um dos mais ilustres cirurgiões brasileiros, o dr. Daher Elias Cutait. Foi eledestacado professor da Faculdade de Medicina, médico do Hospital das Clínicas e do Hospital Sírio-Libanês, merecedor, sem dúvida, de homenagem que lhe tornasse o nome lembrado para sempre. No entanto, a designação do túnel com seu nome criou enorme controvérsia. Nove de Julho, sabemos, é a data referencial
da Revolução Constitucionalista de 1932 e dos que nela morreram ou foram feridos. Um símbolo ligado a profundos sentimentos dos paulistas. Mudar o nome do túnel, em vez de fazer justiça ao nome do médico ilustre, acabou por expô-lo a sentimentos contraditórios que tiraram da homenagem o sentido que deveria ter.

Já tivemos outros episódios de denominação de rua que entrou em conflito com a tradição do povo. Por ter sido morto, em 1897, na Guerra de Canudos, no sertão da Bahia, no comando da Terceira Expedição Militar  para lá enviada para destruir o povoado sertanejo, de supostos monarquistas, a Câmara de São Paulo decidiu dar o nome do cel. Moreira César à Rua de São Bento. O nome chegou a ser incluído nos mapas da cidade. Mas não pegou. São Bento desde o século 16, não seria uma câmara qualquer do século 19 que lhe mudaria o nome, além do mais, nome de devoção.Nesse caso,Moreira César, aliás, não merecia que lhe dessem o nome a um lugar público nem aqui nem em canto nenhum. Militar violento e sanguinário, já havia executado sumariamente presos políticos nas revoluções do Sul. Gostava de mandar degolar os prisioneiros e com fama de degolador chegara ao sertão da Bahia. Era um carniceiro. Nem enterrado foi. Apodreceu por lá, comido pelos urubus, como tantos outros. Os sertanejos que fora combater e matar eram religiosos,seguidores do catolicismo popular e da monarquia do Divino Espírito  Santo. Não faziam mal a ninguém,passavam o dia em oração, não pretendiam derrubar o governo, embora Antônio Conselheiro não deixasse de reconhecer que o Império fizera justiça aos negros libertando-os da escravidão. Para ele, a deposiçãodafamília imperial fora uma injustiça.

Em São Paulo a população já estava cheia dos exageros republicanos.A Câmara Municipal do novo regime em poucas semanas trocara nomes de rua de membros da monarquia, que conhecia, por membros da República, que desconhecia: Benjamin Constant, Quintino Bocaiuva, Marechal Deodoro. Nem Moreira nem César.São Bento continuou a ser o santo nome da rua que há muito era o dele.


JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE SOCIOLOGIA DA FOTOGRAFIA
E DA IMAGEM (CONTEXTO)

Colunista Convidado: DADO VILLA-LOBOS - Quero ser John


Sonho meu - Caetano Veloso

O GLOBO - 07/04/2013

Por causa de uma viagem pelo verso de ‘Volver’, entrei, sozinho, numa meditação sobre a importância do português na construção da forma samba


Escrevi: “Dolores Duran era uma glória da língua portuguesa, sem a qual o samba não existiria”. É no que dá escrever com pressa. Houve quem pensasse (com razão) que eu estava dizendo que o samba não existiria sem Dolores, quando eu queria dizer que era sem a língua portuguesa que ele não existiria. É uma ideia que já deu mil voltas na minha cabeça: eu não deveria tê-la resumido tão ligeiramente numa frase que resultaria dúbia.

Faz tempo, eu estava num apart-hotel em Ipanema, cantando o tango “Volver”, só com meu violão. É muito comum acontecer de eu imaginar como seria em português uma frase de canção estrangeira que repito. Sobretudo se a frase me encanta. Parei em “Que es un soplo la vida”. Estava emocionado, e logo minha mente foi procurar como é que isso poderia ser dito em português. Mais: cantado em português. Fiquei surpreso ao ver o tamanho da dificuldade. Afinal era uma canção em espanhol, língua tão próxima à nossa. Mas “Que é um sopro a vida” não funciona. Depois de algumas tentativas, inverti a ordem das palavras e “Que a vida é um sopro” se mostrou natural e sonora. Mas muito longe da força do original. Acima de tudo, nada tango. A imponência, a solenidade da frase castelhana se desfez totalmente. Num primeiro momento, pareceu-me que não restava nenhuma beleza. Mas, afastando-me do tango e do tom aristocrático do espanhol, comecei a achar graça na frase curta e despojada que o português me ofertava. Espontaneamente liguei as sílabas “da”, “é” e “um” (além de, claro, fazer de “que” e “a” também uma sílaba única — como fazemos sempre, cantando ou conversando) e passei a repetir a frase com quatro sílabas poéticas: “Q(ue)a-vi-d(é)um-sopro”. Em poucos segundos eu tinha uma marcação de samba nascida da repetição da frase (que sugeria uma pausa regular entre as repetições). Mas isso era uma brincadeira que, em princípio, poderia ser feita com uma frase qualquer, em qualquer língua. Tudo ficou mais forte quando isolei a frase e a “cantei” (sem a melodia do tango e mesmo sem uma nova melodia muito definida): era uma frase de samba.

Era uma boa frase de samba-canção (para não dizer que estávamos assim tão longe de Dolores — e sem esquecer de que a brevidade da vida é tema central da biografia e do cancioneiro da carioca bochechuda). Era uma boa frase de samba de carnaval dos anos cinquenta, de samba de Paulinho da Viola, de Cartola, de Carlos Lyra, de Arlindo Cruz. De samba. Mas o clima que a envolve é enormemente diferente do clima da frase portenha. Não há solenidade e, portanto, o que se diz é algo ao mesmo tempo mais concreto e menos pesado do que o que se depreende do verso castelhano. Parece coisa mais banal, dita em tom mais pedestre e desimportante. No entanto, se sentido como trecho de samba, revela outros aspectos da constatação de que não passa de um sopro essa nossa vida. É menos bonita, mas há um realismo particular nesse despojamento estético.

Por causa dessa viagem pelo verso de “Volver”, entrei, sozinho, numa meditação sobre a importância do português na construção da forma samba. É frequente o tributo histórico que se presta à contribuição africana para o nascimento desse gênero que, por razões tanto autênticas quanto suspeitas, se tornou o centro da musicalidade popular brasileira. Mas ninguém fala (que eu ouça) do papel da língua portuguesa nesse processo. Sempre me fascinou o fato de falarmos português. Quanto mais eu crescia e ia aprendendo a geografia do nosso hemisfério ocidental, mais misterioso e atraente se tornava para mim que esse imenso pedaço de América fosse habitado por lusófonos. Que fosse o único país das Américas em que isso se deu só aumentava o fascínio. Ser um país uno concorria para que eu formasse dentro de mim uma imagem de claro enigma.

Não podemos conceber o samba sem a língua portuguesa. Não o teríamos concebido sem ela. Quando João Gilberto foi cantar em Lisboa escrevi que aquele era um grande acontecimento na história da língua portuguesa. Mas ainda não tinha pensado o que a tentativa de tradução de um verso de “Volver” me levou a formular. Lembro tudo isso quando ouço António Zambujo. Outro dia ouvi uma moça que estava com Xande do Revelação cantar “Não deixe o samba morrer” e, embora sua pronúncia soasse totalmente brasileira, havia algo de sentimento fadista na voz. Fiquei comovido. Logo soube que ela era portuguesa. Ao ouvi-la cantar outros sambas/pagodes, pensei que ali se estava realizando meu sonho antigo de haver grupos de pagode portugueses, fazendo sotaque brasileiro e sucesso internacional. Isso, desde os primeiros pagodes comerciais. Pagode, funk e axé lusitanos. Sonho meu.


Fonte

sábado, 6 de abril de 2013

SABÁTICO

Janelas para a finitude

No romance 'Terra de Casas Vazias', André de Leones ratifica a morte e o elemento religioso como peças centrais de sua já madura ficção

 

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Uma chance para a paz em meio ao caos

Considerado uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela 'Time', o cientista Steven Pinker defende, em 'Os Anjos Bons da Nossa Natureza', que a violência está em declínio na sociedade

 

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Explicar o passado, sem prever o futuro

Estudo do canadense evita usar a história para fazer previsões

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Um singular libelo contra a hipocrisia

Em Junky, que ganha reedição, William Burroughs trata da vida na sociedade paralela dos dependentes e traficantes 

 

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A LITERATURA COMO O LUGAR DE “EXISTIR”

 

No breve A Vida Privada das Árvores, de Alejandro Zambra, é a convivência com a ficção que revela as personagens

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A história repetida, de fato, como farsa

De volta às livrarias, O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler, dialoga com Dostoievski ao enfocar o horror do stalinismo

 

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Em torno da construção de si

A Filosofia de Michel Foucault, de Esther Díaz, analisa o vigoroso pensamento do francês

 

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Um senhor operário da palavra

O cubano Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), cuja obra completa vem sendo editada na Espanha, buscou, ao longo de sua trajetória, a renovação da prática e da doutrina das narrativas literárias

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A infelicidade de Feliciano - CACÁ DIEGUES

 O Globo

Suspeito que Marco Feliciano não seja um homem feliz. ‘Infeliciano’ não deve dormir em paz

Outro dia, meu neto de 7 anos me disse excitado que tinha um presente para mim. Era uma lata de Coca-Cola que havia encontrado com meu nome, Carlos, inscrito nela. Tive a sensação de que meu neto havia-me achado no meio da multidão e me propunha celebrar minha existência.

Como quando nomeamos alguém estamos identificando sua singularidade, me dei conta de que um dos produtos mais universais do planeta, um dos signos fundadores da globalização, havia sacado a necessidade de reconhecer a existência do indivíduo e sua diferença. A humanidade não é uma massa anônima e informe, mas o encontro entre seus indivíduos, a única coisa concreta que existe. O resto (língua, sociedade, moeda, nação, estado, cultura, o que mais for) são abstrações necessárias que inventamos para poder melhor conviver com o outro.

É claro que essa operação de marketing do produto que minha geração, em sua juventude irreverente e bem-humorada, chamava de “a água suja do imperialismo”, é apenas uma fantasia que não vai melhorar a vida de ninguém. Mas é significativo que a marca máxima de um modo de vida planetário reconheça a necessidade de lembrar nossa individualidade, nossa diferença, nossa singularidade.

Somos indivíduos responsáveis pelos outros e essa responsabilidade começa pelo respeito ao que o outro é ou quer ser. A democracia é o único regime político em que esse comportamento se encontra em seu cerne. Sem ele, ela perde o sentido. Segundo Tocqueville, o grande pensador da democracia moderna na primeira metade do século 19, o regime democrático é uma ditadura da maioria, abrandada pelos direitos de manifestação das minorias. É tão simples e profundo quanto isso.

Nosso Congresso Nacional está deixando que essas ideias indiscutíveis sejam negadas pela ação nefasta do deputado Marco Feliciano, à frente da Comissão de Direitos Humanos. E esse desastre não tem apenas o deputado como único culpado; grosso modo, a câmara inteira é responsável pelo grave erro.

A democracia representativa fica comprometida quando os partidos dão prioridade a seus arranjos funcionais, em prejuízo da representação popular. Apesar de grosseiro, medieval e inaceitável, o deputado tem o direito de pensar como quiser, para agradar seus eleitores específicos. Mas não tem o de impor, por delegação de seus pares, as consequências segregadoras desse pensamento sectário à população inteira, que inclui os que são discriminados.

Todos os partidos deixaram que isso acontecesse quando negociaram, segundo seus interesses táticos, a formação das diferentes comissões no Congresso. A culpa não é só do partido de Feliciano, o PSC, que o indicou; os outros também preferiram o conforto próprio, em detrimento da segurança social da população. Quando isso aconteceu, onde estavam o PT e seus “progressistas”? Por onde andavam os “democratas” do PSDB? Que faziam os “socialistas” do PSB? E os “liberais’ do DEM? O único congressista que vi se manifestar desde a primeira hora, com coragem e firmeza, sem se preocupar com as conveniências regimentais da Casa, foi o deputado Jean Willys.

Suspeito que Marco Feliciano não seja um homem feliz. Ele deve viver atormentado pelos fantasmas do porre de Noé, do pecado de Cam, da maldição divina sobre a África e os negros. Feliciano não pode gastar relaxado o dízimo de seus fiéis, enquanto houver no mundo aborto, homossexuais, casamento gay e gente que não pensa como ele. “Infeliciano” não deve dormir em paz.

Mas confesso que não admiro nem um pouco o modo de reação de alguns ativistas contra ele. Numa democracia, não se deve fazer política invadindo reuniões, subindo nas mesas, agredindo quem passa pela frente, impedindo o interlocutor de se manifestar. A democracia é também um processo civilizatório, como foi a justa manifestação recente na ABI, organizada por Jean Willys, com a presença de Caetano Veloso, Wagner Moura, Preta Gil e tanta gente que lotou aquele auditório para discutir o assunto.

É evidente que hoje, no mundo inteiro, vivemos uma grave crise da democracia representativa. Talvez pelo crescimento da população em todos os países; talvez pela distância cada vez maior entre representantes e representados; talvez até mesmo pela crescente superação do poder do estado pela força natural da sociedade. Não sei encontrar solução para essa crise. Mas ela não pode ser a democracia direta que nos leve à aventura irresponsável do populismo, nem o voto distrital que torna clientelista o resultado de uma eleição, eliminando o debate ideológico que organiza o futuro. É preciso começar a discutir uma reforma política democrática que contemple todas essas novidades.

Para certos crentes, nosso mundo real é sempre provisório, o paraíso se encontra muito mais à frente, bem adiante de nós. Depois é que é sempre bom e, para chegar lá, devemos suportar dor e sofrimento, a fim de nos tornarmos merecedores da graça no futuro e punirmos os que ousam desejar ser felizes por aqui mesmo. Mas temos o direito de exigir que nos deixem ser o que somos, que nos garantam, aqui e agora, nossa felicidade de cidadãos, nossa “felicidadania”.

Fim do trema, sucesso da @ - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 06/04/2013

O trema está desaparecendo; aliás, oficialmente já desapareceu. A arroba está no auge de sua popularidade
Achei engraçadinhas as histórias antagônicas desses dois sinais gráficos. Um, o trema, está desaparecendo; aliás, oficialmente já desapareceu. O outro, a arroba, está no auge de sua popularidade. Do primeiro recebi, enviado por um amigo, uma sentida despedida. "Você pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali, na Anhangüera, nos aqüíferos, nas lingüiças, por mais de 450 anos. Fui expulso pra sempre do dicionário." Suas queixas não poupam o cedilha, que teria sido a favor de sua expulsão - "aquele Ç cagão que fica se passando por S e nunca tem coragem de iniciar uma palavra". E um conformado desabafo: "A verdade é que estou fora de moda. Quem está na moda são os estrangeiros, é o K e o W, 'kkk' pra cá, 'www' pra lá."

O estranho é não haver referência à arroba, muito mais em voga do que as letras citadas. Calcula-se que a @ - esse a com uma perna esticada fazendo um quase círculo - anda hoje em três bilhões de endereços eletrônicos, o que ainda é pouco, considerando que não é possível passar um e-mail sem ela. Antes, apenas como medida, ainda tinha alguma utilidade, pelo menos para comerciantes e estivadores dos armazéns dos cais do porto, já que servia para indicar a unidade de peso equivalente a 15 quilos.

É curiosa a vertiginosa carreira de sucesso da @, que nem existia nas primeiras máquinas de escrever. Conta-se que foi em 1971, graças ao engenheiro americano Ray Tomlinson, que ela começou a ganhar destaque, e por acaso. Encarregado do projeto que seria o precursor da internet, Ray precisava de um símbolo que ligasse o usuário do correio eletrônico ao domínio. Aí, olhando para um teclado, caiu de amores pela @, depois que seu coração balançou entre o ponto de exclamação e a vírgula.

A partir dos anos 90, com a massificação da internet, a arroba passou a ser provavelmente o símbolo gráfico mais popular do universo. Os emails podem viver sem tremas, sem pontos de exclamação, de interrogação, til, cedilha, reticências, mas nunca sem aquele sinalzinho que aparece em cima do 2 e precisa ser acionado apertando-se a tecla Shift. E mais: além de popularidade, ganhou prestígio. Em 2010, o Museu de Arte Moderna de Nova York adquiriu o símbolo @ para a sua coleção de design. "Uma aquisição que nos deixa orgulhosos", anunciou o MoMA em seu site. Agora mesmo é que a @ está se achando.

Alice e eu precisamos de DR, discutir a relação -uma relação de três anos e meio. Ela anda intratável. "Me deixa sozinha, estou irritada", disse outro dia, em mais uma crise de ciúme do irmãozinho Eric.

Ordem na casa - José Miguel Wisnik


 O Globo - 06/04/2013


PEC das domésticos mexe com hábitos muito arraigados na história da vida privada no Brasil

Todo mundo sabe, confesse-o ou não, que o estatuto precário dos empregados domésticos na vida brasileira é uma das marcas escravistas resistentes em nosso cotidiano. E que, por isso mesmo, a Proposta de Emenda Constitucional regulando horas de trabalho, horas de descanso e pagamento de horas extras, que entrou em vigor esta semana, é um marco prático e simbólico que estabelece um patamar mínimo de civilidade no tratamento da questão. Outros direitos (fundo de garantia por tempo de serviço, multa por demissão sem justa causa, seguro-desemprego, creche e pré-escola, salário-família), que completariam a inclusão desses trabalhadores na ordem regular do trabalho formal, esperam regulamentação. Tudo isso mexe com um mercado de trabalho já em processo de mudança, dado o sintomático decréscimo da oferta de mão de obra, e mexe com hábitos muito arraigados na história da vida privada no Brasil. 

A ambivalência dessa história também é conhecida. As relações interpessoais na esfera doméstica, com suas tonalidades próximas e afetivas, são tradicionalmente muito diferentes, no Brasil, das relações impessoais vigentes entre patrões e empregados na Europa e nos Estados Unidos, onde o trabalho doméstico custa caro e é raríssimo. A informalidade brasileira, que entranha muito da nossa sociabilidade e muitas das nossas criações mais preciosas, é a mesma que dá lugar às formas mais perversas do arbítrio, do privilégio, da exploração insidiosa e da truculência. O Brasil é uma droga, no sentido positivo e negativo do termo. É desejável que o melhor dessa informalidade seja capaz de se transformar em algo mais alto, se a mais básica formalização emancipadora começar a pôr ordem na casa.

Não posso deixar de pensar, junto com isso, e por mais estranho que pareça, em Clarice Lispector. Por acaso estou relendo-a pela enésima vez, sempre com prazer e renovado espanto, por causa de um curso que inventei de dar para isso mesmo — para poder ler de novo seus livros. Ela é conhecida como uma escritora que vai aos meandros mais sutis da subjetividade, mas a gente muitas vezes esquece os caminhos que a levam a isso, e que são da percepção social mais aguda.

A empregada doméstica está no vértice supremo da obra de Clarice, que é “A paixão segundo G.H.”, publicado em 1964. Presente por ausência, mas uma ausência que define tudo. Uma mulher independente, livre de laços familiares, que vive numa cobertura em Copacabana, vai até o quarto da empregada — Janair — que trabalhou em sua casa por seis meses, quarto ao qual ela nunca foi durante esse tempo, e encontra, em vez do esperado pardieiro, um quadrilátero límpido em cuja parede caiada se estampa um desenho riscado a carvão. Nesse mural cru, de aparência quase rupestre, deixado por Janair, em que aparecem uma mulher e um homem, nus, e um cachorro, a narradora se vê através dos olhos da outra, os únicos olhos capazes de vê-la de um modo que não seja a projeção de si mesma dada pelos membros de sua classe social. Começa ali a mais vertiginosa das viagens à experiência da estranheza do outro absoluto como descoberta de si. Não será despropositado dizer que, se Guimarães Rosa fez do jagunço o transporte para o seu entendimento do enigma do Brasil e do sertão-mundo, em Clarice a passagem, no caso dela secreta, para todos os enigmas, se faz através da empregada doméstica.

Numa crônica encantadora, ou perturbadora, se quiserem, chamada “O chá”, ela imagina uma cerimônia de reencontro com todas as empregadas que teve na vida. “As que esqueci marcariam a ausência com uma cadeira vazia, assim como estão dentro de mim. As outras, sentadas, de mãos cruzadas no colo. Mudas — até o momento em que cada uma abrisse a boca e, rediviva, morta-viva, recitasse o que eu me lembro. Quase um chá de senhoras, só que nesse não se falaria de criadas”.

E “A menor mulher do mundo”? Um explorador francês descobre no mais remoto coração da África a menor tribo de pigmeus, e, entre eles, a menor mulher adulta do mundo, grávida e nua, medindo quarenta e cinco centímetros. A foto em tamanho natural é estampada numa página dupla do Jornal do Brasil, onde fica exposta a um rodízio de fantasias de classe média, entre as quais a de tê-la como empregadinha uniformizada servindo a mesa. O conto reflete, entre outras coisas, sobre o nosso desejo de posse, de deter o poder de ter alguém só para nós, sobre a ferocidade com que queremos brincar de possuir alguém.
Clarice faz ver algo que o Brasil mal começa a aprender: que ter alguém a seu serviço pessoal é um luxo a ser correspondido com todas as gratificações, limites e formas da praxe. Mais que isso: que a existência, de si e do outro, é o grande luxo.


sexta-feira, 5 de abril de 2013

Traição na web - Arthur Dapieve


No varejo, a internet nunca deixou de ser o que sonhamos: iluminadora e subversiva

Não, calma, não é nada disso que você está pensando. Não me conectei ontem. No final dos anos 1980, o “Jornal do Brasil” começou a implantar computadores na redação, a princípio como meros processadores de texto. No “Caderno B”, só havia três máquinas. Uma estava comigo. No começo dos 1990, os editores do GLOBO fizeram um curso sobre a então nascente World Wide Web no Departamento de Informática da PUC-Rio. Eu era um deles. Entre 2000 e 2002, trabalhei no primeiro grande site jornalístico independente do país, o “NoPonto”, no qual eu tinha um blog em que indicava e comentava brevemente textos interessantes disponíveis na internet.

O xamã do folk - Hermano Vianna


O Globo - 05/04/2013

 

Os três discos da “Anthology of American folk music”, de Harry Smith, criaram a base para o movimento de rock-folk que impulsionou muitas carreiras como a de Bob Dylan

Harry Smith completaria 90 anos em maio. Ele morreu meses depois de receber o Grammy de 1991 como homenagem a tudo de bacana que produziu durante sua vida. Na premiação, no palco do Radio City Music Hall, declarou: “Fico feliz em dizer que meus sonhos se tornaram realidade, que eu vi a América transformada pela música”. É discurso de um homem realizado, que — mesmo tendo enfrentado todas as dificuldades de um cotidiano muitas vezes miserável, sem dinheiro até para a comida — conhece muito bem sua importância para os bons destinos de nossa época histórica. Nem era preciso acrescentar que o tipo de música que transformou a América foi, em grande parte, revelado pelo, e só valorizada a partir do seu trabalho.

Os três discos da “Anthology of American folk music” que compilou para a gravadora Folkways nos anos 1950 — reeditados em CDs pelo Smithsonian quatro décadas depois — criaram a base para o movimento de rock-folk que impulsionou muitas carreiras como a de Bob Dylan. Fala-se mesmo de uma “Irmandade da Antologia”, formada por pessoas — por exemplo, o fotógrafo Robert Frank — que depois de escutar aquelas músicas passaram a ter em Harry Smith um mestre espiritual, guia para transformação cultural de grandes proporções, anunciadora de outra América, ancestral e futura.

Há uma anedota pitoresca sobre a veneração de Dylan por Smith. Certa vez Dylan passou na casa de Allen Ginsberg, onde Smith morava de favor, com problemas nos dentes e no esôfago que só permitiam ingestão de líquidos. Ginsberg queria tirar onda apresentando os dois. Smith nem se levantou da cama para cumprimentar o já ilustre cantor. O psiquiatra do poeta anfitrião recomendou a partida do hóspede irascível, pois aquela presença estava “elevando sua pressão arterial”.

Esse episódio está narrado no texto biográfico que Ed Sanders, da banda The Fugs, publicou no encarte do quarto volume da Antologia, lançado pelo selo Revenant, de John Fahey (músico extraordinário, mais um — como Sanders — que merece coluna só sobre sua obra), depois da morte de Smith. Tal escrito e mesmo o disco que o acompanhava incluem muitos mistérios. O biografado fez questão de confundir amigos (como Sanders, que por anos foi dono de livraria frequentada quase que diariamente por Smith) e discípulos (como os que ouviram suas lições no Instituto Naropa, no Colorado, onde foi xamã-residente, cargo que permitiu algum conforto para seus últimos anos de vida), afirmando ser filho do mago Aleister Crowley ou que sua mãe era uma princesa filha de tzar russo.

O que se sabe com alguma certeza é que teve infância pobre nos arredores de Seattle, morando perto de reservas indígenas, onde eram praticados os potlachs, inspiração para o livro “A parte maldita”, de Georges Bataille, que por sinal acaba de ganhar nova tradução brasileira. Cantos dessas cerimônias pré-punks foram gravados por um Harry Smith ainda adolescente, antes mesmo de iniciar o curso de Antropologia na Universidade de Washington.

Uma carreira acadêmica não combinava com a inquietação frenética da mente de Smith. Logo ele partiu para San Francisco, atraído pelo clima boêmio que anunciava os anos da geração beat. Lá, ouvia jazz, estudava ciências ocultas, pintava, fazia cinema experimental (pintando na própria película) e colecionava muitas coisas, sobretudo compactos de 78 rpm, produtos do nascimento da indústria fonográfica, ainda muito fragmentada, sem o modelo de negócios concentrador adotado na sua época de ouro. Por incrível que pareça, apesar da novidade tecnológica, era muito mais fácil gravar e lançar discos no início do século XX. O mercado iniciante foi tomado por uma variedade incrível de estilos e músicos que nunca mais teriam chance de ser ouvidos quando as gravadoras passaram a se interessar principalmente por aquilo que pudesse entrar para o hit parade e para a rádio Top 40.

Devemos a Antologia a uma das inúmeras crises financeiras de Smith. Ele estava agora em Nova York, onde fazia gráficos para tentar desvendar (apenas para si mesmo) os padrões modernistas dos solos de Thelonious Monk (foi assim que Ginsberg o conheceu, desenhando na plateia do clube Five Spot), quando teve que se desfazer dos discos para pagar o aluguel e não ser despejado (como aconteceu anos depois, perdendo muitas pinturas e escritos). Moe Asch, o comprador e dono da Folkways, ficou impressionado com o conhecimento de Smith e encomendou a curadoria de uma seleção do material. Sorte da América, sorte nossa.

PS: Ainda quero fazer uma comparação entre os olhares modernistas de Harry Smith e Mário de Andrade diante do folk e do folclore. Tarefa bem insana, para futuro distante.


Leonardo Boff - O papa Francisco inaugura um novo milênio para a Igreja?

 O TEMPO

TUDO INDICA QUE MODELO SE ENCERROU COM A RENÚNCIA DE BENTO XVI

O primeiro milênio do cristianismo foi marcado pelo paradigma da comunidade. As igrejas possuíam relativa autonomia com seus ritos próprios: a ortodoxa, a copta, a ambrosiana de Milão, a moçárabe da Espanha e outras. Veneravam seus próprios mártires e confessores e tinham suas teologias, como se vê na florescente cristandade do norte da África com santo Agostinho, são Cipriano e o teólogo leigo Tertuliano. Elas se reconheciam mutuamente, e, embora em Roma já se esboçasse uma visão mais jurídica, predominava a presidência na caridade.

O segundo milênio foi caracterizado pelo paradigma da Igreja como sociedade perfeita e hierarquizada: uma monarquia absolutista centrada na figura do papa como suprema cabeça (cefalização), dotado de poderes ilimitados e, por fim, infalível quando se declara como tal em assuntos de fé e moral. Criou-se o Estado pontifício, com exército, sistema financeiro e legislação que incluía a pena de morte. Criou-se um corpo de peritos, a Cúria Romana, responsável pela administração eclesiástica mundial. Essa centralização gerou a romanização de toda a cristandade. A evangelização da América Latina, da Ásia e da África se fez no bojo de um mesmo processo de conquista colonial do mundo e significava um transplante do modelo romano, praticamente anulando a encarnação nas culturas locais, em grande parte destruídas com a cruz e a espada. Oficializou-se como de direito divino a separação estrita entre o clero e os leigos. Esses, sem nenhum poder de decisão (no primeiro milênio, participavam nas eleições dos bispos e do próprio papa), foram juridicamente e de fato infantilizados e mediocrizados.

Firmaram-se os costumes palacianos de padres, bispos, cardeais e papas. Os títulos de poder dos imperadores romanos, a começar pelo de papa e pelo de sumo pontífice, passaram ao bispo de Roma. Os cardeais, príncipes da Igreja, se vestiam como a alta nobreza renascentista. Isso permanece até os dias de hoje, para escândalo de não poucos cristãos.

Esse modelo de Igreja, tudo indica, se encerrou com a renúncia de Bento XVI. A eleição do papa Francisco, vindo "do fim do mundo", da periferia da cristandade, onde vivem 60% dos católicos, inaugura o paradigma eclesial do terceiro milênio: a Igreja como vasta rede de comunidades cristãs, enraizadas nas diferentes culturas, algumas mais ancestrais que a ocidental, como a chinesa, a indiana e a japonesa, e nas culturas tribais da África e comunitárias da América Latina. Encarna-se também na cultura moderna dos países tecnicamente avançados, com uma fé vivida também em pequenos grupos ou comunidades. Todas essas encarnações têm algo em comum: a urbanização da humanidade, pela qual mais de 80% da população vive em grandes conglomerados de milhões de habitantes.

Nesse contexto, será praticamente impossível falar em paróquias territoriais, de cunho rural, mas em comunidades de vizinhança de prédios ou de ruas próximas. Esse cristianismo terá como protagonistas os leigos, animados por padres, casados ou não, ou por mulheres sacerdotes e bispos ligados mais à espiritualidade do que à administração. As igrejas terão outros rostos, próprios das diferentes culturas.

A reforma, assim esperamos, não se restringirá à Cúria Romana, em estado calamitoso, mas se estenderá a toda a institucionalidade da Igreja. Talvez somente a convocação de um novo concílio, com representantes de toda a cristandade e de notáveis, por sua vida e sua ética, da sociedade civil mundial, dará ao papa a segurança e as linhas mestras da Igreja do terceiro milênio. Que não lhe falte o Espírito e a coragem.

domingo, 31 de março de 2013

Tudo a que tem direito - KENNETH SERBIN

O Estado de S. Paulo - 31/03/2013

Com a bandeira do casamento igualitário, gays buscam apenas um senso de pertencimento na comunidade maior

As históricas audiências da Suprema Corte dos Estados Unidos na semana passada sobre duas leis que barram direitos ao casamento gay revelaram o quão rápida e profundamente essa questão entrou no tecido da vida americana.

Como disse o juiz Samuel Alito, porém, a ideia de casamento gay “é mais recente do que telefones celulares e a internet”.

Na terça e na quarta, a Corte ouviu argumentos de advogados com respeito à lei federal de 1996 (a Lei de Defesa do Casamento) negando benefícios a casais do mesmo sexo casados de acordo com leis estaduais e o plebiscito de 2008 na Califórnia emendando a Constituição estadual para definir casamento como entre um homem e uma mulher, medida esta derrubada por um tribunal federal de recursos.

Curiosamente, a referência de Alito a duas das invenções que estão redefinindo as relações interpessoais no século 21 oferece também um parâmetro para as tendências históricas por trás do movimento a favor do casamento gay.

O individualismo extremo e o isolamento físico criados pelo uso de celulares e da internet são as mesmas forças motrizes poderosas que impelem os direitos gays.

Os direitos individuais, assim como os direitos humanos, ganharam força com a Revolução Francesa e, em particular, a Declaração de Independência e a Constituição dos Estados Unidos. “Tomamos essas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, que eles são dotados pelo seu Criador de certos Direitos inalienáveis, que entre esses estão Vida, Liberdade, e a busca da Felicidade”, escreveu Thomas Jefferson na Declaração.

Esses ideais trouxeram grandes avanços sociais para os Estados Unidos, como a emancipação dos escravos em 1863 e, um século depois, a concessão definitiva de plenos direitos civis aos descendentes de escravos graças ao movimento não violento forjado por Martin Luther King Jr.

Esses ideais – em particular a “busca da Felicidade” – também produziram a cultura de consumo em que a ênfase no “direito” a produtos e serviços excelentes substituiu, em grande medida, a cidadania e a participação democrática que caracterizaram a maior parte da vida americana nos séculos 19 e 20. Os americanos já não veem a si e a seus compatriotas principalmente como “cidadãos”, mas como “consumidores”.

O ideal de igualdade inspirou uma parcela crescente da população americana a redescobrir noções de liberdade e direitos civis na forma domovimento pelo casamento gay.

Numa pesquisa USA Today/Gallup de novembro de 2012, 32% dos entrevistados citaram“ direitos iguais/todos devem ter as mesmas liberdades” como sua razão para apoiar o direito ao casamento de pessoas do mesmo sexo. A mesma porcentagem também apontou “escolha pessoal” e a importância de amor e felicidade,em oposição à orientação sexual, como determinantes de seu apoio ao casamento gay.

O preconceito contra gays e a negação de direitos ao casamento capturaram o imaginário político da juventude americana de uma maneira não muito diferente do apoio de ativistas a LutherKing e aos direitos civis nos anos 1960. Na faixa de 18 a 29 anos, 73% dos entrevistados na pesquisa apoiaram a validade legal do casamento gay, enquanto entre as pessoas com 65 anos ou mais somente 39% expressaram esse apoio.

A controvérsia em torno do movimento por direitos gays talvez possa reavivar noções de cidadania e participação. Entretanto, a Suprema Corte, que deve decidir sobre as duas leis no final de junho, indicou que, embora possa perfeitamente se mostrar favorável aos direitos gays, provavelmente não produzirá uma aprovação abrangente do casamento gay.

Esse é um território muito novo tanto para o tribunal como para a nação, como os comentários do juiz Alito sugeriram. Alguns juízes expressaram dúvidas até sobre se os dois casos deviam ter sido levados ao tribunal superior.

A instituição do casamento heterossexual cristão existiu por 2 mil anos.Ninguém pode prever as consequências de longo prazo de legalizar o casamento gay para a nação inteira. (Nove Estados reconhecem o casamento gay, enquanto trinta têm emendas constitucionais proibindo-o).

Nessa linha,o juiz Antonin Scalia questionou se existiam dados suficientes para demonstrar que filhos não são afetados adversamente quando criados por casais do mesmo sexo. Aliás, adversários do casamento gay têm enfatizado que o casamento heterossexual oferece um ambiente melhor para criar filhos psicologicamente saudáveis. Eles defendem o casamento tradicional, de homem e mulher, como um alicerce fundamental da sociedade americana.

Mas a questão do juiz Scalia opera nos dois sentidos.Logicamente falando, se a falta de evidências( de longo prazo) não permite estabelecer a ausência de danos a filhos de casamentos do mesmo sexo, ela não pode provar tampouco que há danos.

A Suprema Corte se preocupa principalmente com a interpretação da lei e da Constituição. Ela não faz leis, embora conservadores nas últimas décadas tenham acusado o sistema de tribunais federais “ativista” de usurpar os deveres de elaboração de leis do Congresso.

O direito de casar não seria uma panaceia para a comunidade gay – assim como não foi para heterossexuais. Aliás, metade dos casamentos heterossexuais americanos termina em divórcio,e muitos casamentos são assolados por violência conjugal e outros problemas sérios.

Alguns gays – talvez maioria até – nem estarão interessados em casar. Como observou uma professora de Direito lésbica, casar é apenas uma maneira de pessoas gays ganharem um senso de pertencimento na comunidade maior.

Assim, é provável que a Suprema Corte queira decidir o mínimo possível e, como assinalaram alguns comentaristas, deixar a sociedade continuar a elaborar as questões de casamento e criação de filhos.

À SupremaCorte cabe defender a igualdade e o direito à felicidade. Seja qual for a sua decisão, ela pode dar à nação uma lição importante de civismo e tolerância.

Mas ela seguramente não está prestes a começar a definir o que é felicidade.


 /TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

KENNETH SERBIN É CHEFE DO DEPARTAMENTO DE
HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE DE SAN DIEGO E
AUTOR DE PADRES, CELIBATO E CONFLITO SOCIAL:
UMA HISTÓRIA DA IGREJA CATÓLICA NO
BRASIL (COMPANHIA DAS LETRAS)