quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Tostão - Substituição correta


PUBLICADO EM O TEMPO  11/09/13
 
 
Melhorou o futebol coletivo no Brasileirão. Algumas equipes, como Cruzeiro e Botafogo, trocam passes, fazem triangulações e marcam muitos gols, pelo chão e pelo alto. Não confundir essas jogadas aéreas, de bolas passadas ou cruzadas das laterais e da linha de fundo, com os chutões e os chuveirinhos, que continuam frequentíssimos. É raro um zagueiro, no Brasileirão, ter um bom passe.

O Cruzeiro possui quase dois times do mesmo nível. Éverton Ribeiro evoluiu nos últimos jogos. Está mais agressivo, objetivo, finalizando mais e melhor. Antes, driblava e saía pouco do lugar. Já há pedidos para convocá-lo. Ainda é cedo.

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domingo, 8 de setembro de 2013

Sebastião Nunes Morrem os compositores, sobrevivem as orquestras


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Vivendo bastante, parece que se aprende muito, quando não se aprende quase nada
 
 
O TEMPO 08/09/13 - 


Em 1995, a sino-americana Sarah Chang, sob a regência do maestro indiano Zubin Mehta, dirigindo a Filarmônica de Berlim, interpretou o concerto para violino número 1 em ré maior do italiano Niccolò Paganini, o violinista diabólico. (Cinco países envolvidos!)
Paganini (1782-1840), está morto há 173 anos, mas continua sendo um dos ícones em seu instrumento. Por causa de sua aparência sinistra, sugeriu-se que teria pacto com o diabo (maestria absoluta em troca da alma), daí seu fantástico talento. Dizem que a lenda deriva de possível doença, a Síndrome de Marfan, que torna os dedos particularmente compridos e magros. De modo a apoiar e aprovar o mito, a cara de Paganini era bastante diabólica, com um sorriso cínico de dar medo.
Zubin Mehta, na época com 59 anos, é um maestro famoso, reconhecido como um dos monstros sagrados das salas de concerto, ao lado de outro italiano, Claudio Abaddo, e do judeu argentino Daniel Barenboim, entre poucos outros. Hoje tem 77 anos e continua na ativa, saltitando pelo mundo de concerto em concerto.
Sarah Chang, a guria desta crônica, tinha 14 anos.

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domingo, 14 de julho de 2013

Escapismo - CAETANO VELOSO


 O GLOBO

14/07/2013

Pedro Almodóvar, ao optar escancaradamente pela comédia nesse seu “Amantes passageiros”, disse que era natural querer rir das coisas, quando a Espanha está com problemas tão difíceis de resolver

Quando eu escrevia crítica de cinema em Salvador — e só andava com cinéfilos — a gente ouvia sempre que, durante a depressão dos anos 1930, Hollywood se voltou para as comédias: era um modo de fugir da realidade sombria. Pedro Almodóvar, ao optar escancaradamente pela comédia nesse seu “Amantes passageiros”, disse que era natural querer rir das coisas, quando a Espanha está com problemas tão difíceis de resolver (embora ele tenha enfatizado o aspecto alegórico da trama em que um punhado de gente não sabe onde vai parar). O filme foi mal recebido pela crítica, tanto aqui quanto na Espanha natal — e, quem sabe, em outras paragens —, mas eu fui assistir e gostei.

Não diria que tenho motivos para defendê-lo criticamente. Apenas gostei de como ele é filmado. As cores são fotografadas de modo incrivelmente elegante. O movimento de câmera que vai da visão do avião de meio-perfil (e em contre-plongé) até a espiral que gira no centro da turbina é muito bonito — e essa firmeza de composição, por incrível que pareça, se mantém por todo o filme. É verdade que a gente ri mais no que resulta engraçado em meio aos melodramas do diretor do que nesta comédia que finge gritar “eu sou uma comédia” desde as primeiras imagens. Digo que finge porque a estilização irrealista e as caracterizações caricatas são pensadas para dar esse grito, mas o gosto refinado com que elas são realizadas (um ultracolorido diferente do ultracolorido dos outros filmes de Almodóvar) o amortece. Não de todo — e seguramente não de modo desagradável. Ao contrário: os debruados das poltronas do avião e das roupas dos aeromoços compõem sempre visões relaxantes e doces ao olhar. Mas a unidade com que isso se mantém através do filme, invadindo ruas e casas de Madri, aonde a película desce através de telefonemas de passageiros que falam com amantes em terra (na parte que talvez seja a mais quente de um filme suavemente frio), não ajuda a produzir gargalhadas.

Estou em Curitiba, onde acabo de fazer show num teatro muito bom de acústica. Depois saí para jantar com os caras da banda. Na TV do restaurante (é muito comum hoje em dia restaurantes terem aparelhos de televisão nas salas) vi imagens de pneus sendo queimados em estradas, líderes do MTST e da Força Sindical dando entrevistas, reincidência de truculência da polícia carioca, nesta quinta-feira de greve geral. Os pensamentos que se esboçavam em minha mente diante dessas imagens me faziam lembrar da tese do escapismo do cinema diante de crises. Pensei em Almodóvar e no que senti diante do filme dele. Mas pensei no sucesso de “Minha mãe é uma peça”, filme muito mais engraçado do que o do meu amigo espanhol, que vem reafirmando a tendência do público brasileiro para fruir comédias. Terá tal tendência prefigurado uma crise que parecia não existir faz um mês? Que, na verdade, parecia impossível de eclodir? Nada no filme de Pedro me deixou triste. Não é um bom filme, mas, mais importante, não é um filme mau. É bondoso. Mas tudo me deixa alegre no filme de André Pellenz. As risadas espontâneas que ele provoca, o sucesso que faz, a surpresa que é ver Paulo Gustavo fazer uma mulher na telona e nunca o fato de ser um cara travestido se sobrepor à credibilidade das situações, mesmo as mais naturalistas. E Niterói! Que beleza ver Niterói tão poeticamente captada num filme! Fiquei emocionado e me lembrei de quando conheci Paulo Gustavo, por intermédio de Luana Piovani, atuando ao lado de Fábio Porchat. E, bem depois, de quando vi “Minha mãe é uma peça” ainda no teatro, aonde fui mais de uma vez com meu filho Tom, que era ainda bem pequenininho e adorava o espetáculo (hoje ele tem 16 anos: já foi ver o filme e me disse que gostou e achou engraçadaço). Tudo isso me enternece. Se é para escapar das preocupações que a pergunta sobre a entrada dos sindicatos e dos grupos sociais organizados na onda de protestos põe para os políticos, as novas cores de Almodóvar servem de calmante, mas as falas da mãe niteroiense (e de seus irresistíveis filhos, amigos, parentes, ex-marido e desafetos) nos arrancam da cadeira e nos sacodem (no sentido pernambucano da palavra) os grilos fora.

No caso Ecad, só digo que Fernando Brant, na reunião, sentou-se com conforto, ao lado da advogada que foi com ele, em posição central, com visão ampla de todos os que estavam na sala. Inverdade o que ele diz quanto a isso no texto que espalhou. Eu já disse isso a ele. Tendo agora a crer que a ida de minha turma a Brasília afina mais com o clamor das ruas do que contrasta com ele. Mas não quero tratar aqui de coisas complicadas. Só quero pensar em Paulo Gustavo, Niterói, Tom e o cinema que faz rir.


O capitão Horácio - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

ESTADÃO - 14/07/2013



Tive um caso com o capitão Horácio por anos. Até resolver me curar

— Esta é a minha esposa, Rute...

— Humm. Simpática. — Ela é uma mulher fantástica. Estamos casados há 25 anos.

— E estes são...— Os filhos. Gustavo e Leinha. Foi a Leinha que nos deu a única neta. Olha só, que amor...

— Que beleza!

— Maria Rita. Três anos. A queridinha do vovô.

— E este?

— Ah, este é o capitão Horácio.— Capitão Horácio?— O amor da minha vida.

— O quê?— Do tempo em que eu era homossexual. Tivemos um caso durante sete anos, até eu resolver me curar.

— Você era homossexual e se curou?— Sim. Foram sete anos intensos com o capitão Horácio, mas senti que aquilo não era pra mim.

— E como você se curou?— Não foi fácil. Procurei psicólogos, psicanalistas, grupos de apoio, orientação religiosa... Finalmente me sugeriram que experimentasse a homeopatia.

— Homeopatia?!— Chá de cipó amarelo. — E deu certo?— Tiro e queda.— Esse chá...

— Tomo todos os dias, depois do almoço. O cipó amarelo vem da Amazônia. Os índios tomam desde pequenos, para prevenir.

— Mas...você carrega uma foto do capitão Horácio na carteira...

— Foi um período importante na minha vida, que eu não quero esquecer.— E como foi a separação?

— Amigável. Ele era uma pessoa muito distinta. Espiritual. E atlético, maratonista. Ou era, quando nos conhecemos.

— Não foi um rompimento traumático, então?

— Não. Ele entendeu minha posição, nos despedimos... E nunca mais se viram?

— Nunca. Não sei que fim ele levou. Ou que cara tem hoje. Certamente não é mais a da foto.

— Quer dizer que existe cura para o homosexualismo? — Existe. As pessoas ficam fazendo pouco desse deputado Feliciano, mas existe. Chá de cipó amarelo da Amazônia. Dou a receita para quem quiser.

— E é tiro e queda?

— Tiro e queda.

domingo, 7 de julho de 2013

Dois cafés e a conta com... Betty Faria


PAULO SANT’ANA - A insônia do poeta

ZERO HORA - 07/07/2013

O poeta Luiz de Miranda, morador de POA, manda-me uma mensagem comovente. Ele passa por intransponíveis dificuldades, relacionadas com sua velhice e pobreza.

É de cortar o coração. Sua mensagem para mim é bem curta, por isso vou transcrevê-la, tenho a finalidade de que alguém o ajude, o poder público ou a sociedade.

Eis o apelo lancinante de Luiz de Miranda, que não tem emprego nem aposentadoria:

“Querido Paulo Sant’Ana. Estou vivendo em completa miséria. Vivo há vários anos fazendo uma refeição por dia. Escolhi jantar. Não tenho nenhuma fonte de renda, pois poesia não dá dinheiro. Agora, sou candidato ao Nobel de Literatura 2013, o primeiro gaúcho num Nobel. Estou sofrendo há algum tempo uma ação de despejo, a qualquer momento posso ser colocado na rua.

O prefeito Fortunati ficou de me dar uma pensão mensal, mas se passaram mais de dois anos e nada aconteceu. O governo do Estado nada fez. Tenho problema de saúde: diabetes, pressão alta, insônia crônica. A cada mês, tenho que arrumar dinheiro com meus amigos. Devo ser o único candidato a um Nobel que não tem onde comer e morar. Mando-te o abraço amigo do sul do mundo. (ass.) Luiz de Miranda.”.

Não há poeta no mundo que produza mais textos que Luiz de Miranda, sua capacidade de poetar é admirável, em quantidade ele bate todos os outros poetas. E em qualidade se equipara a muitos deles e supera tantos e tantos.

Não sei, mas imagino o que o poeta está passando, disse-me na mensagem que só faz uma refeição por dia, que está sendo despejado. A vida é mesmo cruel, um poeta semifaminto, ameaçado de ser expulso do lar que mantém a custo, doente, resistindo, resistindo e sempre poetando.

Se fosse moço, teria esperança, mas com 68 anos de idade não compreendo como ainda não lhe faltaram as forças para sobreviver.

Suponho que Luiz de Miranda passa por essa dificuldade física, material e espiritual porque se entregou loucamente à poesia durante toda a sua vida e não teve previdência quanto a seu futuro.

Há poetas, como Miranda, que não se importam com seu destino, querem é dar vazão à sua inspiração. E escrevem, escrevem, cantam como uma cigarra da fábula, sem precaver-se com o inverno.

Tenho esperança que alguém o ajude, o prefeito, os vereadores, os deputados estaduais.

Ele é um conterrâneo que merecia pelo menos um lar decente com duas refeições por dia.

Será que comovo com esta coluna algumas autoridades?

Porto Alegre e o Rio Grande não podem deixar finar-se um poeta sem o nosso auxílio.

Ritmo - Caetano Veloso


O GLOBO

07/07/2013

Decidi aderir à campanha de apoio ao PLS129 porque, engolfado pelo entusiasmo de tantos colegas, percebi que a situação amadurecera muito em muito pouco tempo

Os compositores e cantores que vieram a Brasília para apoiar o PLS 129 estavam muito cheios de vida. De Roberto Carlos a Emicida, de Nando Reis a Gaby Amarantos, de Rogério Flausino a Carlinhos Brown, todos pareciam dotados de uma grande energia, o que para mim era surpreendente. Suponho que é porque eu próprio tenha estado tanto tempo remoendo dúvidas e buscando uma concórdia entre os colegas que sentem a necessidade de questionar o Ecad e os que atuam nas sociedades arrrecadadoras a que ele serve de guarda-chuva. Dias antes, no Rio, Lenine me disse que minha dúvida é que o tinha motivado a agir na direção da aprovação do PLS. Ontem, na sala da presidência do Senado, ele, utilizando a melodia do refrão da irresistível canção de Roberto, liderava o coro: “Esse Ecad sou eu”.

Decidi aderir à campanha porque, engolfado pelo entusiasmo de tantos colegas, percebi que a situação amadurecera muito em muito pouco tempo: insatisfações acumuladas chegaram a um ponto que meus chamados ao diálogo se tornaram irrealistas. Cheguei a conseguir ouvir as duas partes discutindo. Mas a essa altura já estava mais dedicado a entender os motivos dos questionamentos do que a deplorar a discórdia entre amigos criadores. Temos no Brasil uma entidade que, tendo sido criada por lei, detém o monopólio da arrecadação e distribuição de direitos. Essa entidade foi criada juntamente com o Conselho Nacional de Direito Autoral, que a fiscalizava. Este foi extinto (sob Collor) e nada veio ocupar o seu lugar.
Ou seja: há um monopólio sem regulação. Daí, zero transparência. O grande pleito dos autores não é receber mais, é poder saber por que recebem o que recebem — e, mais sério, por que tantos colegas seus não recebem nada. Para mim, esse tema ressurgiu quando, ao receber um manifesto intitulado “Vivo de música” — em que compositores eram convidados a assinar um texto em defesa cega do Ecad, contra a condenação, de parte do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, por formação de cartel — senti, sem conversar com ninguém sobre o assunto, que devia esperar, pensar mais, enfim, não assinar automaticamente. Não foi uma intuição sobrenatural. Foi instantânea lembrança de várias conversas mantidas ao longo dos anos. Nesse clima, recebi um e-mail de Fernando Salem com apenas uma pergunta: “Você entende isso?” e a cópia de um artigo de Sérgio Ricardo, dizendo que a suspeita de que a condenação do Ecad pelo Cade fosse do interesse de grandes grupos de mídia não poderia impedi-lo de reafirmar as queixas que ele próprio tinha contra o órgão de arrecadação. E indicava a leitura de um texto de Ivan Lins, em que este dava conta de quanto desaprovava o Ecad em seus modos de operar. Fiquei de orelha em pé.

A ministra Marta pediu ao senador Randolfe (que eu já conhecia da campanha do Freixo e que foi estimulado pelo grupo Fora do Eixo) que contactasse Paula Lavigne. O senador foi a ela com membros do Gap (Leoni, Fernanda Abreu, Tim Rescala, Frejat e outros). Depois recebi Marta no meu camarim em Sampa. Todas as conversas que se seguiram foram muito racionais por parte deles e muito inquietantes para mim: havia colegas nos dois lados. Eu desejava que os dois grupos dialogassem antes de eu me posicionar. E foi isso que escrevi aqui na coluna. O mero fato de eu dizer que não tinha assinado o manifesto e de sugerir tal diálogo fez com que, de um lado, a turma do Gap marcasse encontros para explicar que se tratava de exigir transparência, e, de outro, a turma do Ecad me enviasse e-mails alertando contra o perigo de “estatização” e de “caos”.

Quando fui ao Senado (em cujo plenário ninguém faz silêncio, o que me causou mal-estar) e acompanhei meus amigos num encontro com a presidente Dilma, eu já estava seguro de que não havia risco de “estatização”: os artistas definirão a estrutura do órgão, e a presidente concorda que este tem de ser composto por maioria de autores.

Houve reuniões na casa de Gil e de Paula Lavigne. Chico Buarque, que tinha assinado o manifesto do Ecad, foi a três delas. Pensei que ele fosse ser meu companheiro de dúvidas e exigências intermináveis. Mas ele chegou em casa e pediu que seu nome fosse retirado do manifesto. Daí em diante só vi crescer a vontade de mudança. Djavan mostrou tanto entusiasmo que queria que fôssemos à Cinelândia e fizéssemos um show-protesto. As manifestações de rua ainda não tinham começado. Lenine acha que tem tudo a ver. Há quem tema o contrário. Penso no ritmo das coisas no tempo. Os Racionais MCs tiveram seus créditos retidos pelo Ecad. É hora de mudar.


Eu teria mesmo de vir a Brasília: tenho show marcado aqui hoje. Meu destino eu não traço.


segunda-feira, 1 de julho de 2013

Os órfãos no mundo político - Marcos Coimbra

Revista Carta Capital - 01/07/2013

 POR MARCOS COIMBRA


 A CLASSE MÉDIA ANTIPETISTA NÃO SE SENTE REPRESENTADA PELA OPOSIÇÃO.

Sua tentativa de controlar as ruas é prova desse vazio


 Enquanto perdem fôlego e amainam as manifestações que afetaram o País nas últimas semanas, está na hora de procurar entender seu significado. Uma das maiores dificulades para compreende-las está no fato de os protestos não terem sentido único, salvo talvez nos primórdios, quando usuários de transportes públicos foram às ruas em São Paulo para reclamar do aumento no preço das passagens, Naquele momento ainda tínhamos o cenário capaz de explicaras mobilizações sociais mais características: causa concreta, indivíduos diretamente afetados, reivindicações claras.As manifestações seguintes, muito se diz, foram novas. Diferentes, por exemplo, daquelas conduzidas pela direita em busca da deposição de João Goulart nos anos 60 do século passado.

Mas será que a "horizontalidade" e a "difusão" das atuais as tornam mesmo originais? Não terá existido, nas manifestações deste mês de junho, um segmento com um papel definidor análogo àquele dos anticomunistas e dos conservadores católicos nas marchas de 1964? Entre os muitos tipos presentes nas ruas, nenhum forneceu personalidade ao "movimento"?

Para identificar o sentido dos protestos de agora, temos o perfil mais típico dos participantes, suas bandeiras mais características e as reações mais comuns suscitadas.

Nada ilustra melhor a mudança do perfil socioeconômicodos manifestantes do que a imagem veiculada pela TV Globo nos primeiros jogos do Brasil na Copa das Confederações: madames vestidas a caráter e cheias de balangandãs com cartazes de apelo ao "fim da corrupção" e com propaganda de um endereço noTwitter. Os jovens tornados astros dos "insatisfeitos" no YouTube parecem seus filhos ou irmãos.

No conteúdo, o elemento central da "ideologia das ruas" foi a crítica à reprerentação políticae às instituições, particularmente os partidos políticos. Os manifestantes gritaram País afora não se sentirem representados por ninguém, foram à rua para denunciar os "políticos" e "fazer política com as próprias mãos". As vagas perorações em favor de "mais verbas para a educação e a saúde" ou contra os "gastos exagerados na Copa do Mundo" não passaram de pretextos para externar sua aversão ao sistema político e ao governo.

Quem monitorou as redes sociais durante esses dias percebeu: os defensores mais entusiastas das passeatas foramos antipetístas radicais. Esses se senti ram em íntima comunhão com os participantes e torceram para as manifestações escalarem a ponto de enfraquecer o governo e prejudicar as chances de reeleição de Dilma Rousseff.

Para dizer o óbvio, quem deu o sentido das manifestações foi a classe média antipetista, predominantemente de direita. Nem sempre, nem todos os participantes, mas em seu núcleo característico. Ou seja: embora tenham participado do movimento desde punks neonazistas até adolescentes apenas curiosos (e mesmo gente genuinamente progressista), seu rosto é nítido.

A classe média antipetista tem motivos reais para estar insatisfeita com a sua representação. Ao contrário do cidadão simpatizante do PT e de outros partidos de esquerda, eque majoritariamente aprova o governo, ela se sente mal representada.Faz tempo Fernando Henrique Cardoso lhe dá razão. Em texto de 2011, em que tentava explicar a vitória de Dilma e definia novos caminhos para a oposição, o ex-presidente propunha ao PSDB deixar o "povão" para o PT e procurar a classe média: "É a essa que as oposições devem dirigir suas mensagens prioritariamente". O partido precisava, segundo FHC, "mergulhar na vida cotidiana" e encontrar "1igações orgânicas com grupos que expressem as dificuldades e anseios do homem comum" (leia-se de classe média).

Lembrava a existência de "toda uma gama de classes médias", empresários jovens, profissionais, "novas classes possuidoras", "ausentes do jogo político-partidário, mas não desconectadas das redes de internet, Facebook, YouTube, Twitter etc." A considerar seu "pragmatismo", o discurso para atraí-las não deveria ser "institucional", mas centrado em temas como a corrupção, o trânsito, os problemas urbanos, os serviços públicos.

FHC queria uma oposição pronta a suscitar o interesse da classe média e que lhe "oferecesse alternativas". Se não conseguisse ser "uma alternativa viável de poder, u m caminho preparado por lideranças nas quais confie", nem sequer adiantaria "se a fagulha da insatisfação produzisse um curto-circuito".

Falou, mas não fez. Nesta, como em outras oportunidades, as oposições brasileiras mostraram-se mais competentes na conversa do que na ação. Perceberam os desafios, mas não lhes deram resposta.

Foram de José Serra, quando precisavam renovar-se. Apresentam Aécio Neves como continuador da "herança de FHC". Nada fizeram para "organizar-se pelos meios eletrônicos, dando vida a debates verdadeiros sobre os temas de interesse dessas camadas", como sugeria o ex-presidente.Presas de seus paradoxos, as oposições criaram a crise de representação dos setores da sociedade a quem pretendiam (e deveriam) expressar. Talvez principalmente tenha sido a impaciência das classes médias antipetístas com a oposição que as levou às ruas.

Depois, é claro, de um ano de ataque da mídia conservadora ao governo. Seus estrategistas acharam ter conseguido, por meio de incursões cirúrgicas, eliminar apenas as lideranças do PT. Terminaram, porém, por ferir valores fundamentais da democracia.

FHC PEDIA AOS SEUS UM MERGULHO "NA VIDA COTIDIANA" E A BUSCA DE "LIGAÇÕES ORGÂNICAS COM GRUPOS QUE EXPRESSEM AS DIFICULDADES E OS ANSEIOS DO HOMEM COMUM". COMO DE COSTUME. NÃO FOI OUVIDO
 

As ruas empurram o poder - CYNARA MENEZES

Revista Carta Capital - 01/07/2013

Dilma Rousseff exerce a Política, o Congresso vota vários projetos e até o Supremo se mobiliza

Sem foco, pobres de conteúdo, “moda”, desvirtuadas pela direita ou infiltradas por vândalos. É possível apresentar todo tipo de crítica às manifestações das úl ti mas semanas, mas é inegável o efeito das ruas nos gabinetes da política. Se o tal gigante acordou, como dizia m os cartazes em inúmeras cidades, foi para dar uma chacoalhada e tirar da letargia principalmente o Congresso Nacional. O recesso do meio do ano foi cancelado e os parlamentares entraram em um frenesi legislativo a ponto de aprovar medidas às pencas sem ma iores reflexões a respeito de seus resultados.
Projetos de Lei e Propostas de Emendas Constitucionais que se arrastavam nas duas casas do Legislativo havia meses, anos até, saíram da gaveta. Para não ficar atrás no esforço cívico, o Supremo Tribunal Federal mandou prender o de putado federal Natan Donadon (PMDB-RO), condenado em 2010 por peculato e formação de quadrilha. A presidenta Dilma Rousseff, após um pronunciamento em cadeia nacional, reuniu-se com líderes dos protestos em São Paulo, sindicalistas, representantes da sociedade civil, governadores, prefeitos de capitais eaté integrantes da oposição. Lançou uma série de medidas e tenta dar forma aos desejos das ruas. Sua principal proposta é um plebiscito para definir as bases de uma reforma do sistema político e eleitoral.


Na terça-feira 25, os senadores mal saíram da reunião da Comissão de Constituição e Justiça e foram obrigados a correr ao plenário, onde o presidente da Casa, Renan Calheiros, lia atropeladamente os 16 itens que pretendia colocar na pauta de votação, "em resposta à sociedade”. No d ia seguinte, um fato inédito: o Senado não parou para assistir à vitória do Brasil sobre o Uruguai na Copa das Confederações. Preferiu votar os projetos Listados por Calheiros nas áreas de Saúde, Educação, Combate à Corrupção. Mobilidade Urbana e Segurança Pública, todos diretamente conectados com os protestos.


A PEC dno Trabalho Escravo, 11 anos de tramitação e sempre barrada pela bancada ruralista, foi aprovada na CC J e vai a plenário. O Senado aprovou ainda o projeto que transforma corrupçãoe homicídio em crimes hediondos, uma inutilidade legal, pois o problema está em levar corruptos e corruptores a julgamento. Os royalties do petróleo serão investidos em educação (75%) e saúde (25%). Na Câmara, a CCJ aprovou o fim das votações secretas durante processos de cassação de parlamentares e a PEC de autoria da deputada Luiza Erundina (PSB-SP) que iguala o transporte público aos direitos sociais na Constituição, ao lado de educação e saúde, abrindo caminho para a gratuidade. A polêmica PEC 37, limitadora do poder de investigação do Ministério Público, sucumbiu.


Outro reflexo das manifestações foi a criação de CPIs do Transporte Público em quatro cidades até agora: São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Maringá. Em Santa Mar ia (RS), manifest antes ocuparam a Câmara de Vereadores ao vir à tona uma gravação em que integrantes da CPI para apurar o incêndio na boate Kiss, que vitimou 242 jovens em janeiro, sugeriam a "blindagem" do prefeito Cezar Schirmer. O protesto pedia a renúncia dos vereadores flagrados na gravação.
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, cancelou a bilionária licitação dos ônibus para discuti r com a população e prometeu abrir as planilhas dos custos do transporte. “ Não podemos assinar contratos de 15 anos sem participação popular. O momento em que estamos exige a participação da sociedade.” O governador Geraldo Alckmin, que se havia unido ao prefeito e voltado atrás no reajuste da tari fia de metrô e trens, cancelou o aumento de 6,5% no valor do pedágio das estradas paulistas previsto para julho,


Na próxima terça-feira 2, Dilma Rousseffvaí enviar ao Congresso uma mensagem com ao menos dois itens fundamentais no plebiscito da reforma política: financiamento público, privado ou misto de campanha e o modelo de voto (distrital, distrital misto ou proporcional). O governo propõe um calendário apertado. O Pla nalto gostaria de realizar plebiscito em 5 de outubro, assim as mudanças valeriam para as eleições de 2014. Antes disso, o Congresso precisa, porém, transformar a mensagem em decreto legislativo e aprovar. Seriam necessárias no mínimo duas semanas de campanha antes do voto popular.


Embora o Planalto tenha anunciado na quinta-feirüa 27 um acordo inicial com a base aliada, a resistência na Câmara dos Deputados ao plebiscito é forte. Os parlamentares mais influentes, aliados inclusive, preferem o referendo: o Congresso primeiro aprovaria a lei e só depois a população opinaria se concorda ou d iscord ade cada item. Para o governo, não funcionaria, pois a reforma política está na pauta faz muitos anos e sofre feroz resistência no Parlamento. O último projeto, de autoria do deputado petista Henrique Fontana, nunca foi debatido em plenário, apesar de sua inegável qualidade. Fontana defende a votação de sua proposta, seguida por um referendo.
Com o anúncio na segunda-feira 24, e posterior desistência, da proposta de uma Assembleia Constituinte exclusiva para cuidar da reforma política, Dilma atraiu a resistência de parte do Congresso, à exceção dos partidos de esquerda. A ideia foi descrita pela oposição como um "golpe", um arroubo chavista. Fernando Hen rique Cardoso mais uma vez esqueceu as próprias ideias e atacou a Constituinte, embora tenha proposto algo muito semelhante em 1999.0 PMDB também não gostou. Resultado: Ca1hei ros deu uma canja ao senador mineiro Aécio Neves, autorizado a discursar por uma hora e meia enquanto o presidente do Senado presidia a sessão. O GloboNews, canal de notícias da Globo, deu outra mão: transmitiu ao vivo boa parte do discurso do tucano, centrado em críticas duras à presidenta.


Ironicamente, a única capital onde os protestos mantêm vigor (40 mil na quarta 26) é a Belo Horizonte do senador mineiro. E a notícia não é boa para a oposição. Uma pesquisa entre os manifestantes realizada pelo instituto Innovare mostrou que os mineiros nas ruas têm rejeição menor à presidenta do que ao governador tucano Antonio Anastasia e ao prefeito de Belo Horizonte. Mareio Lacerda, do PSB. Enquanto Dilma teve sua administração considerada negativa por 47,7% dos entrevistados, Anastasia foi rejeitado por 70,4% e Lacerda por 71,6%.


a quarta-feira 26, do lado de fora do Mineirão, uma manifestação descambou para uma batalha campal após um grupo ter rompido a barreira de proteção que fixava um limile imposto pela PM em torno do estádio. Envoltos pela fumaça do gás lacrimogêneo, manifestantes com o rosto encoberto invadiram uma concessionária e atearam fogo em vários veículos no meio da rua. No centro de BH. correria e con fusão.


A BASE ALIADA NÃO RECEBEU BEM A PROPOSTA DO PLEBISCITO PARA A REFORMA POLÍTICA E AMEAÇA RETALIAR. CONTRA DILMA HÁ QUEM QUEIRA ACABAR COM A REELEIÇÃO EM 2014


A mídia, por seu lado, segue ao sabor das ondas. No início condenou os protestos e chamou seus participantes de “vândalos”. Embarcou depois em uma “onda cívica” com o claro intuito de desestabilizar o governo federal. Diante da impossibilidade de domar o cavalo brabo das ruas conforme seus interesses, passou a emtir sinais de cansaço. Ou talvez tenha recuado por temer a possibilidade de o Palácio do Planalto transformar o limão em limonada. Em editoriais, os principais jornais do País condenaram ora o açodamento das decisões tomadas em Brasília, ora o “populismo” de algumas medidas e a própria reforma política. “Pesquisas feitas entre manifestantes, antes da reunião de segunda, não detectaram o desejo por uma reforma política”, contrapôs O Globo. Para o diário da família Marinho, seria “contorcionismo” aliar a reforma a algum dos itens das man i festações. Aparentemente os editoriais ignoram um fato: segundo especialistas, a reforma política, e em especial o financiamento público de campanha, seria fundamental para coibir a corrupção, tão lembrada nas manifestações.


Quem saiu em defesa da reforma foi o presidente do STF, Joaquim Barbosa. Após encontro com Dilma, Barbosa colocou em dúvida a capacidade do Congresso de aprovar a reforma. “Em um momento de crise grave como o atual, a propositura de reformas via emenda constitucional seria viável? Essas propostas já não tramitam no Congresso Nacional há anos? Houve em algum momento demonstração de vontade política de levar adiante essas reformas?” O presidente do Supremo fez algumas sugestões, entre elas a possibilidade de revogação do mandato (recall) e, curioso de sua parte, de candidaturas avulsas, independentes de partido. Barbosa e o vice-presidente da República, Michel Temer, demoveram Dilma da ideia da Constituinte. A discussão sobre a cons titucionalidade da proposta poderia durar meses, argumentaram. A presidenta recuou, mas vai insistir no plebiscito.


m efeito colateral do sopro das ruas foi desnudar de vez a resistência da base na Câmara a Dilma, não só por parte do PMDB como do próprio PT. As ameaças agora começam a ser feitas à luz do dia. O líder do PP, Arthur Lyra, acenou com a proposta do fim da reeleição em 2014, prejudicando-a, e o líder do PMDB, Eduardo Cunha, foi além e defendeu a inclusão do debate sobre o sistema de governo em uma possível consulta popular. “Se estivéssemos no parlamentarismo, este governo já teria caído.” Uma fonte do Palácio compara a crise atual com o Congresso àquela vivida por Lula quando explodiu a denúncia do chamado “mensalão”, em 2005. Naquela época, a saída encontrada por Lula foi se reaproximar dos movi mentos sociais. Nos últimos dias, Dilma, frequentemente criticada por não receber entidades representativas da sociedade, abriu as portas do Planalto aos jovens do Movimento Passe Livre, organizador dos primeiros protestos contra o aumento da tarifa em São Paulo. Estiveram com ela ainda representantes dos moradores de rua, da Central Única das Favelas, dos Trabalhadores Sem-Teto e da Pastoral Carcerária. Pode ser a hora de reencontrar velhos aliados.

 

O significado ainda obscuro - Mino Carta

Revista Carta Capital - 01/07/2013

 Só mesmo a direita reacionária afirma suas certezas

QUEM ENTENDE que as manifestações dos últimos dez ou mais dias mudam o Brasil? Justifica-se ainda a incerteza quanto ao real sign ificado do protesto, mas a direita já proclama a sua verdade. Deste ponto de vista, exemplares são Veja e Epoca da semana passada. Esmeram-se em edições retumbantes, uma histórica, outra especial, e invocam o suporte do "auriverde pendão de minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança", desfraldado em suas capas. E o conluio da retórica, do pieguismo e da h ipocrisia, bem ao contrário dos versos de Castro Alves, extraídos do poema O Navio Negreiro, repto contra acasa-grande e seus desmandos e prepotências.

Não é preciso ser de esquerda para entender que este nosso trópico tanto se inclina facilmente à festa quanto à ilusão. Para não cair no engodo, basta a razão, mercadoria raríssima, no entanto, nas nossas latitudes, como diz
Thomaz Wood na sua magistral coluna, publicada à página 43. A razão, fruto resplandecente do Iluminismo, do qual brotou a Revolução Francesa, aquela capaz de desencadear a Idade Moderna. A revolução que, 224 anos depois, ainda não aconteceu por aqui.

E nem haveria de se dar no país da casa-grande e da senzala, ainda de pé, implacáveis na sua permanência. A burguesia da França de 1789 soube envolver o povo no seu projeto de derrubar a monarquia por direito divi no, e a aristocracia e o alto clero que a cercavam. A turba serviu a suas intenções e, cumprida a tarefa voltou a ser povão. Ainda assim, aprendeu algo novo, e mais tarde tira ria proveito do aprendizado. Não é por este caminho, em todo caso, que o protesto das ruas nativas se move, mesmo porque os alvos são vagos e até insondáveis, a não ser aqueles do começo do movimento, quando a periferia elegeuo aumento das passagens de ônibus como simbolo dos maus-tratos que, em geral, o Estado 1 he impõe. O descaso ignóbil quelhe reserva.

Há uma questão contingente, visível a olho nu. O crescente descolamento das instituições ditas democráticas, dos poderes do Estado, do governo e dos partidos, daqueles que são interesses e necessidades da nação, da maioria dos cidadãos, conscientes ou não da cidadania. A difusa insatisfação, popular e nem tanto, talvez não passe de uma sensação nebulosa, mas se explica pela falta de comando e, portanto, de referência. De sancta sanctorum a quem recorrer. Anunciada a falência dos partidos, clamorosa a do PT. O verdadeiro partido de oposição é a mí-dianativa, Como tal age, àvontade diante da condescendência de um governo incapaz de reagir à altura, por motivos desconhecidos, às agressões diuturnas.

Parece até vocação de mulher de apache na sua mais inspirada exibição na Place Pigalle. Perfeito no papel de ministro do plim-plim, Paulo Bernardo. Nas páginas amarelas da já citada edição histórica da Veja, o ministro aparece, com direito a foto em pose de varão de Plutarco, para anunciar o propósito de acabar de vez com "a obsessão do PT de censurar aimprensa". Quem sabe o nosso herói seja apartidário.

Ora, ora, o ministro endossa a tese da mídia nativa, e ilie oferece o indispensável (decisivo?) apoio, enquanto a Secom. entidade inexistente em países mais democráticos e civilizados, distribui à mídia a publicidade governista com generosidade invulgar, especialmente às Organizações Globo, premiadas anualmente com mais de 900 milhões de reais.

A liberdade reclamada pelo jornalismo pátrio é a liberdade de fazer o que bem entende, inclusive inventa r. omitir e mentir. E o que diz Paulo Bernardo? Que assim seja. interessante observar que na última pági na da mesma edição da nau capitania da frota abri liana leio a seguinte interpretação das passeatas: “O povo (?) está dizendo que este governo de farsa montado por Lula há mais de dez anos rouba, mente, desperdiça, não trabalha, trapaceia, entrega-se aos escroques, cobra cada vez mais imposto e fornece serviços públicos vergonhoso. Suponho que, na opinião de Veja, o governo de Fernando Henrique tenha trafegado por rotas opostas e fornecido ao povo serviços públicos primorosos.

Na opinião de CarlaCapital, a própria democratização, por ora apenas esboçada, e com timidez, traria a solução ao limitar os alcances dos oligopólios midiáticos por meio de leis eficazes, hoje inatingíveis por obra de um Congresso totalmente comprometido, sem falar de ministros como Paulo Bernardo. Há quem diga que a concentração é o destino do poder jornalístico no mundo todo, mesmo assim o Reino Unido não hesitou recentemente em expulsar das terras britânicas Rupert Murdoch, o grande concentrador.

As considerações devem induzir quem concorda com elas a uma reflexão mais racional a respeito da situação que vivemos, de sorte a evitar as costumeiras decepções. Sem esquecer que os problemas contingentes plantam raízes no imanente. Ou seja, são próprios do país da casa-grande e da senzala, são o fruto de trés séculos e meio de escravidão ainda vivos embora enverguem trajes aparentemente contemporâneos. Tal é a questão que inquietava Castro Alves e, até hoje, serpenteia nas vísceras do Brasil. E vem à tona para impedir que a nação se una e compacte, a não ser na hora de aplaudir Neymar. Contra, aliás, as conveniências de uma burguesia sempre pronta a afirmar sua fé no capitalismo, sem saber do que se trata.

domingo, 30 de junho de 2013

A SEREIA PAROU DE SORRIR

 CL Gente Boa - O Globo - 30/06/2013


 COM MARIA FORTUNA, ISABELA BASTOS E ADALBERTO NETO



Maio de 1965. Vinte e cinco mil pessoas lotavam o Maracanãzinho para acompanhar a disputa pelo título de Miss Estado da Guanabara. Vera Lucia Couto, Miss 1964, esperava a decisão dos 11 jurados para passar a faixa à sua sucessora. Duas louras ainda estavam no páreo: Maria Raquel de Andrade, representando o Botafogo, e Sonia Schuller, o Clube Caça e Pesca.

Quando Sonia começou a desfilar, a plateia veio abaixo. “Ela era ensolarada, cheia de energia e tinha um sorriso lindo”, lembra o advogado Daslan Mello Lima, criador de um blog sobre misses. “Foi um frisson incrível quando essa moça apareceu no palco”, lembra Vera Lucia Couto, hoje uma funcionária da Riotur. Sonia acabou não levando o título, mas, segundo a revista “Manchete” da semana seguinte, a catarinense que veio para  Rio ainda criança recebeu “uma das maiores ovações da história do Maracanãzinho”.

Quarenta e oito anos depois, não ficou nada daquele sorriso que encantou Daslan e a multidão no ginásio. Sem nenhum dente na arcada superior e com a inferior em frangalhos, Sonia tem dificuldades até para comer o pastel chinês que o dono de um bar no Jardim de Alah dá a ela todos os dias. O salgado costuma ser sua única refeição. A ex-vicecampeã do Miss Guanabara e Sereia das Praias Cariocas de 1965 virou uma pedinte nas ruas de Ipanema, bairro onde mora.

“Sonia sofre de esquizofrenia”, informa seu irmão, Cláudio Schuller. Ele conta que “a desgraça da vida dela começou em 1986”, depois que uma moto a atropelou, perto d Praça General Osório. Sonia atravessava a Rua Prudente de Morais, na esquina com a Teixeira de Melo, quando um motoqueiro ultrapassou um ônibus parado e a acertou em cheio. “Naquele dia, ela perdeu os dentes e a autoestima”, diz Cláudio.

Filho mais velho da ex-miss, Bruno, de 46 anos, confirma o baque. “Dali pra frente tudo desandou.” Bruno, que há 19 anos mora em Curitiba, é fruto do curto relacionamento de Sonia com Sergio Petezzoni, um dos fundadores do Clube dos Cafajestes, de Copacabana. Nasceu e foi criado no apartamento 404 do prédio número 42 da Rua Barão da Torre, Ipanema, onde vivia com a mãe e a avó, a fisioterapeuta Antonia Schuller.


No último andar fica a famosa cobertura de Rubem Braga — que Sonia conhece bem. Ela e Rubem tiveram um namorico. “Era uma admiração mútua, ela vivia na casa dele”, conta Cláudio. “Eu ia lá para ler jornal, pegar uns livros”, conta a ex-Sereia, que, num batepapo na Visconde de Pirajá (seu habitat), alterna momentos de extrema lucidez com comentários que fazem pouco sentido e incluem ciborgues, androides e assuntos como “uma nova tecnologia que suga a energia e te deixa seca como uma ameixa”.

Ex-aluna do colégio N. Sra. Auxiliadora, na Tijuca, e do Melo e Souza, em Ipanema, Sonia não fez faculdade. “Achei que esse negócio de sereia era suficiente”, diz, coçando o dedão do pé esquerdo, com unhas enormes e empretecidas. “Minha mãe também achava. Mas olhaí, virei uma sereia desdentada.”

Sentada na mureta da Praça Nossa Senhora da Paz, Sonia pede uma pausa na conversa para acender um Marlboro. No dedo indicador da mão direita há um anel igualzinho ao que Kate Middleton usou no noivado com o príncipe William, aquele mesmo anel que era de Lady Di. “É bijouteria, claro”, esclarece. O cigarro, ela conta, é sua perdição. É por ele que Sonia sai de casa todos os dias. Vai para as ruas pedir dinheiro para comprar pelo menos um maço.



A abordagem é direta, sem rodeios. Não fala que está com fome, não faz drama. “Oi, pode me dar um real?”. Também não conta que é para comprar cigarro. “Claro que não. É uma questão de ética.”

“Peço um real e vou juntando. Quando consigo comprar um maço, volto para casa”. Num desses dias, ela foi até o Leblon. Parou em frente à Padaria Rio-Lisboa e pediu dinheiro a um taxista. No balcão, seu irmão, Cláudio, tomava café e fingiu que não a conhecia. “Fiquei constrangido”, diz. Numa outra vez, Cláudio, que mora em Friburgo e vem ao Rio com frequência, estava no supermercado Zona Sul e a viu, também na porta, (“ela não entra nos lugares, fica só na porta”) falando sozinha. “Me senti mal, claro. Mas a chamei de volta para casa.” É ele também quem paga o condomínio do apartamento.

A derrocada da ex-Sereia começou mesmo quando ela perdeu o emprego de executiva de marketing no BarraShopping, no início dos anos 80, pouco depois da morte do pai. “Lembro dela nesta época do shopping, linda, saindo de carro, salto agulha e tailleur”, diz o vizinho Mario Vicenzio Cardillo.

Desempregada, Sonia passava temporadas entre Mirantão, em Visconde de Mauá, e Maricá, na Região dos Lagos. Voltava para o apartamento da Barão da Torre com frequência, mas gostava de ficar nessas cidades com seus bichos. A casa de Ipanema chegou a ter quase 50 cachorros, a maioria da raça pointer. E também gatos, muitos gatos. “Eu ia à feira e voltava com dois baldes de cabeça de peixe para dar para eles”, lembra Cláudio.



A família reparou que alguma coisa não estava bem quando Sonia passou a falar sozinha. Fazia isso com frequência. Também começou a riscar as paredes com carvão. Chegava em casa com cabos de vassoura e sacolas cheias de lixo recolhido na rua. Foi com esse pano de fundo, bem nessa fase sinistra, que a moto a atropelou. “Foi demais para ela”, diz Mario, o vizinho e fã, que mora no primeiro andar.

Ele, que aos 7 anos foi com a mãe ao Maracanãzinho torcer por Sonia no concurso de Miss, não acreditava no que via. “Ela estava toda quebrada, sem os dentes, irreconhecível.” Sonia chegou a botar uma prótese na arcada superior, mas anos depois tirou.

No final dos anos 90, ela chegou a passar duas semanas internada no Instituto Pinel, onde foi diagnosticada a esquizofrenia. Como não tomou os remédios prescritos, voltou à estaca zero. Desde então, vive de caminhar, em andrajos, pelas ruas de Ipanema, em busca de dinheiro para o cigarro. Faz colagens com papéis e revistas que recolhe nos lixos e quer publicar um livro. “Mas sem ninguém dizer como tem que ser. Livro artesanal mesmo.”

Quem a conhece diz que Sonia piorou ainda mais desde que a mãe morreu, há dois anos. Ela estaria mais triste, ficando mais tempo fechada no apartamento, entulhado de coisas que pega na rua. Sonia usa o elevador e a entrada de serviço do prédio onde mora com o filho mais novo, o estudante de Direito Igor, nascido um ano depois do acidente.

A ex-Sereia das praias cariocas só dorme na cama de massagem da mãe, talvez para tentar manter algum contato com ela. Perguntada sobre o que a deixaria feliz, nem pensa duas vezes. “Meu sonho dourado é um empadão de camarão com chopinho bem gelado.”


Pausa para poesia - Márcia Vieira

O Globo - 30/06/2013

Quando a rua fala mais alto do que a Fifa - João Máximo

O Globo - 30/06/2013

Um junho histórico chega
ao fim, um julho imprevisível
lhe sucede.
Imprevisível não
quanto às manifestações que estão
nas ruas, nem quanto aos delinquentes
que tentam manchálas,
muito menos sobre quem vai
ganhar, Brasil ou Espanha. As manifestações
vieram para ficar. Os
delinquentes, que as autoridades
cuidem para que, daqui a um ano,
eles não transformem o Brasil numa
imensa praça de guerra. Por
último, o resultado do jogo não
tem tanta importância para a seleção
brasileira, o futebol, o momento,
o país.

O imprevisível, no caso, referese
a assunto aparentemente menos
grave, mas que tem a ver
com este mês de junho. É que
nos três primeiros dias de julho o
secretário-geral da Fifa, Jérôme
Valcke, vai se reunir com o governo
(leia-se: ministro, dirigentes
esportivos, membros do Comitê
Organizador da Copa do Mundo)
para tratar do que vem sendo
chamado, vagamente, de “passagem
de conhecimento”.

Traduzindo, Valcke vai dizer
onde erramos, onde acertamos,
o que mais temos de fazer para
atender às múltiplas exigências
da entidade que ele representa.
Para quem não sabe ou não se
lembra, o secretário-geral é
aquele francês que nos ameaçou
com um pontapé no traseiro e
que, em claro tom de deboche,
espalhou pelo mundo que nossas
coisas são organizadas em
ritmo de samba. Pelo jeito respeitoso
e serviçal com que o recebemos,
pelas homenagens
que lhe prestamos, até parece
que concordamos.

O resultado de
Brasil x Espanha não
tem tanta importância
para a seleção
brasileira, o futebol,
o momento, o país

As manifestações das ruas, evidentemente,
não são contra
Valcke, a Copa do Mundo no Brasil,
o futebol, e sim contra não se
gastarem em Saúde, Educação,
Transporte os bilhões investidos
para atender ao que a Fifa nos exigiu.
Também não são (mas poderiam
ser) em protesto contra o
quanto nos rebaixamos para que
Valcke e seu presidente Joseph
Blatter nos concedessem a graça
de seu assentimento. Porque os
homens são mesmo severos. Mudando
nossas leis, transformando
nossos estádios em arenas, proibindo
o que bem entendem, tentando
ensinar nossa gente a torcer
e até querendo alterar nosso
Hino, ganham tantos bilhões
quanto os superfaturados por
aqueles que vão se reunir com
Valcke nos três primeiros dias de
julho, naturalmente, ansiosos para
que o francês lhes dê nota alta
em comportamento. O imprevisível?
Está em sua entrevista ao
GLOBO, na qual diz: “Precisamos
resgatar a imagem positiva da Copa,
levar o sucesso que conseguimos
dentro do estádio para fora
dele.” Será que o homem está se
referindo aos delinquentes ou —
como tudo pode — às manifestações?

Gás - Caetano Veloso


O Globo

30/06/203

 

Qual é a lógica da ação policial nas manifestações do Rio?

É quinta-feira. Sentei-me aqui para escrever e, antes que eu abrisse o computador, Neide, minha empregada, veio até a porta do meu quarto e me perguntou se eu sabia que ia haver uma greve geral na segunda-feira. O filho dela tinha telefonado: “Vai parar tudo”. Saio com amigos adorados. Nosso plano é ir ver o show do grande Pedro Miranda no centro da cidade. No carro, meus amigos me contam que estavam na manifestação da quinta passada. Com restos de entusiasmo e cargas de ansiedade, eles narram o que tiveram de enfrentar. São muito mais jovens do que eu e, na marcha, estavam com amigos de sua idade. No fim da Avenida Presidente Vargas, já perto do “Piranhão” (que é um velho apelido que o prédio da prefeitura tem, dizem que tanto pelo histórico da área em que foi construído quanto pela sua atual ocupação), na linha de frente da passeata, meus amigos observam que, em meio a tantos grupos diferentes e reivindicações variadas, a caminhada nem segue em frente nem decide dispersar-se: os caminhantes apenas param por ali. A chegada ao Piranhão era, parece, a meta. Meus amigos são um casal. Ele comenta o quanto ficou impressionado com um grupo representativo do movimento negro, formado de habitantes da Baixada, cujos cartazes exibiam estatísticas sobre a posição de desvantagem em que vivem os negros no Brasil. Ela reclama de ainda estar mal da garganta por causa do gás lacrimogêneo. Ambos descrevem as cenas que viram com muita vivacidade, ainda sob a pressão dos acontecimentos.

Como a multidão estava ordeira e não os imprensasse — permitindo, portanto, que eles vissem os outros manifestantes que estavam no abre-alas — estão seguros de que não houve nenhum gesto que detonasse o começo da agressividade policial. Bombas de gás e tiros cuja natureza eles não podiam no momento definir assustaram a multidão. Mas não houve pânico, a ordem “não corre” sendo espalhada com firmeza e rapidez. A essa altura, temperamentos mais combativos queriam enfrentar a força policial e atacar o Piranhão. Impressionou meu amigo que o grupo de negros — que, além dos cartazes, exibiam marra de rappers e panos amarrados no rosto que deixavam apenas os olhos à mostra — tenha sido firme em dissuadir de praticar qualquer tipo de violência aqueles que tendiam a fazê-lo. Andando, meus amigos começaram a voltar, buscando uma rua lateral pela qual fazer a aglomeração escoar, no que foram seguidos pelos que vinham atrás. Para espanto deles (e de todos) uma parede de policiais com escudos e bombas de gás fechava a saída no outro extremo da rua. O gás e o medo faziam muitos quererem livrar-se da emboscada. O risco de pânico e de pisoteamento os angustiou. Mas a discreta palavra de ordem “não corre” virou um grito uníssono e intenso, que deu calma e coragem para que se fizesse o equilíbrio possível entre recuar e enfrentar os policiais.

Eles tinham visto muitos manifestantes prenderem seus cartazes nas grades do Campo de Santana (os policiais, a essa altura, os tinham enxotado até a altura da Central do Brasil e do prédio do antigo Ministério da Guerra — e assim o nomeio aqui porque foi assim que meu amigo, tão moço ainda, se referiu ao Palácio Duque de Caxias). Eles tinham achado bonita a improvisada exposição. Agora, em seu caminho de volta, viam que alguns baderneiros lhe tinham ateado fogo. Essa definição de baderneiros vinha, na conversa, temperada de perguntas não feitas. A atitude de tentar invadir a prefeitura, segundo eles viram, foi posterior e não anterior à ofensiva policial. Além disso, como explicar o cerco ao conjunto dos manifestantes quando estes tentaram sair por uma rua lateral? E, pior, como justificar — sobretudo quando o que eles viram foi a ausência da polícia em cenas de arruaça — a invasão da Lapa, para onde muitos grupos que tinham participado da passeata tinham ido? Relembro aqui a narração de outro amigo, um americano que vive no Rio, do horror que foi ficar acuado no restaurante Nova Capela. Confirmando o que me disseram meus amigos brasileiros, o americano contou que a Lapa ficou como uma praça de guerra, com bombas sendo jogadas para afugentar as pessoas. Todos se perguntam: qual a lógica da ação policial? Como Beltrame tem planejado a segurança nesses dias exuberantes e complexos? Que ideia fazem do que vem se passando as autoridades? A correria no Congresso e os pactos de Dilma estão em sintonia rítmica com os eventos? Meus amigos me dizem que viram na redes sociais discussões por causa do boato de greve geral. O filho da minha empregada já a tinha como certa. No carro, recebemos mensagem de Pedro Miranda: cancelado o show. Nova marcha no centro da cidade.


quarta-feira, 26 de junho de 2013

Ministros do STF discordam sobre convocar a Constituinte

O Globo - 26/06/2013
 
Carolina Brígido

Gilmar Mendes diz que proposta é juridicamente inviável; Barroso defende Constituinte reformadora
O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), criticou a ideia lançada pela presidente Dilma Rousseff de criar uma Assembleia Constituinte para discutir a reforma política. Para ele, a proposta é desnecessária, juridicamente inviável - além de desestabilizar as instituições e afetar a reputação do Brasil no exterior. Gilmar considera que "o Brasil dormiu Alemanha e acordou Venezuela". Também disse que estão "flertando com a doutrina constitucional bolivariana".

- O prestígio que o Brasil tem hoje no exterior está também associado ao progresso institucional. O fato de respeitar as regras do jogo, ter independência entre os poderes. Por isso que eu fiquei muito infeliz. O Brasil dormiu como se fosse Alemanha, Itália, Espanha, Portugal em termos de estabilidade institucional e amanheceu parecido com a Bolívia ou a Venezuela. Não é razoável isso, ficar flertando com uma doutrina constitucional bolivariana. Felizmente não pediram que na Assembleia Constituinte se falasse espanhol - afirmou o ministro.

Gilmar alertou para o fato de que a reforma política pode ser feita por lei, sem a necessidade de Constituinte. Ele citou como exemplo as coligações para as eleições proporcionais e a cláusula de barreira.
Na análise do ministro, a reforma política não anda por falta de articulação política do governo e de consenso no Congresso. Gilmar citou outros exemplos de temas paralisados pelo mesmo motivo.

- Hoje há impasse em todas as áreas. A questão federativa, FPE (Fundo de Participação dos Estados), FPM (Fundo de Participação dos Municípios), dos royalties, guerra fiscal. São todos temas ligados a disciplina legal. A minha intuição é que nesses temas, e os temas se dividem muito, o governo federal acaba tendo dificuldades de se posicionar, porque tem de ser chamado a pagar a conta, criar fundos, acaba não se envolvendo no debate e o resultado é esse conflito aberto entre os estados e sem nenhuma solução. Mas isso tem a ver com a funcionalidade do Congresso, não tem a ver com um processo constituinte. No Congresso está havendo um estranhamento muito grande, e a ausência do governo federal na articulação desses temas tem feito com que as questões não se resolvam - afirmou.

O ministro Luís Roberto Barroso, que toma posse hoje no STF, afirmou que é legítimo convocar uma Constituinte exclusiva para a reforma política, desde que ela seja apenas reformadora, para um tema específico, e não altere cláusulas pétreas.

- O Congresso, por meio de uma emenda constitucional, poder conduzir uma reforma diretamente; pode convocar um plebiscito; e pode deliberar pela convocação de um órgão específico, mas nunca uma constituinte originária, e sim uma constituinte reformadora, nos limites dados pelo Congresso e nos limites das cláusulas pétreas. Uma constituinte originária é um papel em branco. O Congresso pode reformar a Constituição desde que não mexa nas cláusulas pétreas. Não pode, por exemplo, abolir a federação nem a separação entre os Poderes - explicou.

Barroso foi ao Senado entregar convite para sua posse ao presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL). Ele acabou participando do início de uma reunião de líderes partidários sobre a proposta, feita pela presidente Dilma Rousseff, de fazer um plebiscito para convocar uma constituinte exclusiva para uma reforma política. Nessa reunião, de acordo com presentes, o ministro do STF afirmou que, pessoalmente, preferia um plebiscito com temas específicos, como consultar se a população concorda ou não com financiamento público de campanha, por exemplo.

Ao deixar a presidência do Senado e ser questionado, pela imprensa, se havia o risco dessa questão ir parar no STF, ele disse que sim:

- Hoje em dia tudo acaba parando no Supremo.

terça-feira, 25 de junho de 2013

MARINA SEM CENSURA

 O Globo - CL. Gente Boa - 25/06/2013

Cantora fala sobre assuntos polêmicos antes de show no Rival


No camarim. Marina Lima falou sobre cura gay, descriminalização da maconha e sua mudança para São Paulo

As manifestações de quinta-
feira passada fizeram
com que Marina Lima
cancelasse o show “Maneira
de ser”, no Teatro Rival. Na sexta,
ela se apresentou normalmente
e, no camarim, contou à
coluna que o cancelamento do
dia anterior “foi por uma boa
causa”. “Os protestos têm todo
o meu apoio. As pessoas querem
hospitais no padrão Fifa.”

Marina explicou que o show é
um recorte do seu livro, de
mesmo nome. “Tem coisas relevantes
da minha carreira,
que fizeram de mim o que
sou.” Conta que, no palco, fala
de seus afetos: “Amigos, amores,
família, Tom Jobim, bichos,
mar. Também de droga.”

Droga, como assim?, quer saber
o repórter. “O Brasil tem
que se tornar Primeiro Mundo
nessa questão. É preciso diferenciar
a maconha da cocaína,
por exemplo. Se liberam o álcool,
por que não liberar a maconha?
Ela precisa ser descriminalizada.”
O papo em seguida
é sobre a cura gay

“O Feliciano é um cara engraçado.
Quando o país inteiro está
focado numa coisa séria,
vem ele e inventa alguma bobagem
para chamar a atenção.
É estratégico. Mas a hora dele
vai chegar.”

Marina se mudou para São Paulo
porque chegou à conclusão
de que lá tem mais mercado de
trabalho. “Também porque
achei importante mudar”.



“Sou carioca da gema, adoro o
Rio, mas chegou um momento
em que eu já estava virando
uma propriedade da cidade, como
o Cristo Redentor.”

Marina está gostando de São
Paulo. “Parece que estou no
exterior. Está sendo muito saudável.
Mas o mar continua
dentro de mim.”

A iluminação do Rival passou
por mudanças para ficar mais
aconchegante. “Botamos 50
lâmpadas vermelhas para dar
o clima que a Marina gosta. Ela
jamais receberia alguém em
casa com uma luz fria”, comenta
o diretor Marcio Debellian.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Não existe almoço grátis

Revista Época - 24/06/2013

 A ideia de tarifa zero soa atraente, mas é quase impossível fechar a conta. De uma forma ou de outra, a sociedade paga pelos serviços públicos.
 
José Fucs

A ideia de tornar gratuitos os ônibus urbanos no Brasil, defendida pelo Movimento Passe Livre (MPL), pode ter um forte apelo social, mas provocaria um rombo dramático nas finanças dos municípios e comprometeria outros serviços prestados à população. De acordo com a teoria econômica, tudo tem um custo — mesmo que ele não seja visível a olho nu. Como dizia o economista Milton Friedman (1912-2006), prêmio Nobel de Economia em 1976, "não existe almoço grátis". Como os recursos disponíveis são limitados, seria preciso encontrar fontes alternativas para custear o sistema, se o ônibus fosse de graça.

Isso poderia ser feito por meio de um aumento da arrecadação, com a elevação de impostos, hoje já altíssimos no país. Ou da redistribuição do dinheiro reservado a outros gastos, como os salários dos professores, a melhoria do atendimento nos postos de saúde e a contratação de mais policiais para garantir a segurança da população. Também seria possível fazer isso por meio do corte de despesas. Só que, diante da incapacidade crônica de os governos em todas as instâncias - municipal, estadual e federal - apertarem o cinto, tal solução teria poucas chances de se transformar em realidade. "A tarifa zero é um cobertor curto", diz o professor Samy Dana, da Fundação Getulio Vargas (FGV) de São Paulo. "Se você puxar de um lado, descobrirá do outro." O rombo gerado no orçamento dos municípios pela tarifa zero não estaria restrito apenas a cobrir o custo do sistema hoje, estimado em R$ 5,5 bilhões anuais só em São Paulo (em 2013, com a redução do bilhete de R$ 3,20 para R$ 3, as despesas da cidade com subsídios na área deverão ficar em R$ 1,4 bilhão, ou 25% do total do orçamento). Com a tarifa zero, o custo da operação tenderia a subir.

Segundo a clássica lei da oferta e da procura, com a redução do preço das passagens, o número de usuários pode dar um salto. Isso obrigaria as prefeituras a investir mais na ampliação da frota. Caso contrário, a superlotação observada hoje se agravaria, levando a uma deterioração ainda maior na qualidade do sistema. É o que ocorre hoje na índia e em outros países emergentes, onde o sistema de transporte coletivo é bem pior que nas principais cidades brasileiras.

É possível que a demanda por transporte coletivo seja menos suscetível a mudanças de preços do que outros produtos e serviços. As viagens de ida e volta para o trabalho e para a escola estão incluídas na conta atual de usuários.

Os sete dias que mudaram o Brasil

Revista Veja - 24/06/2013

Quando se espalhou por São Paulo um protesto contra o aumento de 20 centavos na passagem de ônibus, todo mundo sentiu que a coisa era bem maior. Tão maior, mais inebriante, mais mobilizadora, mais assustadora e mais apaixonante que, em uma semana, multidões bem acima de 1 milhão de pessoas jorraram Brasil afora na histórica noite de quinta-feira. Todos os parâmetros comparativos anteriores, como Diretas Já e Fora Collor, empalideceram diante do abismo aberto entre os representantes dos poderes, de um lado, e o poder dos que se sentem muito mal representados, de outro. A presidente acuada, as instituições em estado de estupor, os políticos desaparecidos e a turbamulta subindo a frágil passarela do Palácio Itamaraty criaram outro sentimento estarrecedor: é muito fácil quebrar o vidro que separa a ordem do caos.

Podem-se passar décadas sem que nada mude, mas uma semana pode concentrar décadas de mudança. Foi o que se viu no Brasil semana passada. Quem acha que não mudou passou os últimos dias isolado em uma bolha hemértica. Curiosamente, aqueles que mais enxergam como agentes da mudança, os partidos de esquerda, foram os que mais se viram emparedados pela nova realidade das ruas. O PT acreditava que a paixão dos brasileiros pelo futebol seria exacerbada pelas Copas, de tal forma que ninguém mais notaria a corrupção e a ineficiência do governo. Errou feio. Os cartazes nas ruas fizeram das Copas símbolos odiados dos gasto público de péssima qualidades, do desvio de dinheiro e do abuso de poder. O pobre presidente do PT, Rui Falcão, saiu do episódio apelidados de Rui Falcollor. Em 1992, em gesto de desespero, o então presidente Fernando Collor convocou os brasileiros a sair às ruas de verde e amarelo. O povo saiu de preto, e ele saiu do Palácio do Planalto. Falcollor mandou a militância retomar as ruas das quais os petitas se achavam donos, e viu o povo cair de pau na hipocrisia. Lula mandou os sindicalistas se fingirem de povo e o resultado foi o mesmo. Cascudos nos intrusos e bandeiras queimadas e rasgadas. Os esquerdistas tiveram de ouvir um dos mais elegantes xingamentos da história mundial das manifestações: "Oportunistas, oportunistas". Para quem não é do ramo, a frase que abre este texto é do pai de todas as revoluções, o russo Lênin. Até que ficaria sem palpite se tivesse presenciado as mudanças dos últimos dias no Brasil.

Dilma continua franca favorita

Revista Carta Capital - 24/06/2013

Análise: Apesar de vários revezes, o saldo para o governo federal é muito positivo

  POR MARCOS COIMBRA

A primeira pesquisa da parceria Vox Populi/CartaCapital confirma os dados mostrados por outras recentes e ajuda a explicá-los. Como as demais, ela indica um elevado nível de satisfação da população com a situação nacional e alta aprovação do governo Dilma Rousseff.

Mundo afora, são poucos os países e os governantes que alcançam resultados semelhantes. Se na quase totalidade da Europa ou nos Estados Unidos saíssem pesquisas como as atuais no Brasil, muita gente por lá soltaria foguetes.

A mais evidente consequência da prevalência desses sentimentos é a folgada dianteira de Dilma nos cenários para a eleição presidencial de 2014. Ela é a destacada favorita, seja nas menções espontâneas, seja diante de qualquer simulação com adversários possíveis.

De novo, tanto quando se comparam suas perspectivas eleitorais com aquelas de outras lideranças internacionais quanto com a situação de seus antecessores em momento semelhante, a presidenta tem muitos motivos para se alegrar. A 15 meses do pleito em que disputaram a reeleição. Fernando Henrique Cardoso e Lula tinham números piores comparados aos atuais de Dilma. E ambos terminaram por vencer.

Quando cotejamos as pesquisas de junho com aquelas realizadas há alguns meses, registram-se, porém, quedas. Seja nos resultados publicados do Datafolha e da CNT, seja em levantamentos não divulgados de outros institutos (entre os quais da própria Vox Populi), elas são perceptíveis.

São quedas pequenas, insuficientes para mudar o panorama geral. Satisfação (com o Brasil), aprovação (da presidenta) e favoritismo (da candidata) continuam predominantes, por largas maiorias.

A nossa cultura política se desacostumou, no entanto, das oscilações negativas nas pesquisas de avaliação do governo, tão comuns no resto do mundo e tão frequentes em nosso passado recente. Qualquer queda, por menor que seja, passou a ser considerada "anormal" e prenúncio de mudanças definitivas nos humores da população.

Do lado do PT, de seus aliados e simpatizantes, difundiu-se a crença de que nada seria capaz de arranhar a solidez dos sentimentos populares em relação ao governo. Do lado das oposições, depois de tudo tentarem para abalá-los e sem obter sucesso, o desalento passou a ser regra.

Vivemos um longo ciclo de popularidade governamental cm alta, iniciado com Lula em 2007 e que atravessou a transição para Dilma e durou quase seis anos. Desde quando Lula saiu incólume daquele desastre aéreo em Congonhas, que tentaram tornar responsabilidade sua, até agora, nunca tivemos qualquer inflexão nessa tendência, nem mesmo no auge da crise internacional em 2008.

Há, é claro, limites para esse movimento. O aumento ininterrupto da popularidade esbarra na reação dos opositores, que se tornam mais combativos à medida que se sentem mais acuados. Os segmentos recentemente incorporados às maiorias da aprovação são menos convictos do que aqueles apoiadores de longa data. Suas motivações são menos sólidas.

A nova radical idade da oposição, somada à volatilidade do "neogovernismo", bastaria para explicar as quedas observadas. Mas não parece ser a única explicação.

Quando no fim de 2012 ficou nítido que o grande circo armado em torno do "julgamento du século" havia sido incapaz de alterar os prognósticos para 2011, as oposições, especialmente seu braço midiático, assestaram suas baterias para novos alvos e foram atacar a competência do governo. Passaram o primeiro semestre de 2013 em dedicação exclusiva e tempo integral na missão de desconstruí-la.

Seu maior sucesso foi transformar uma situação crônica, mas relativamente administrada, com a qual convivemos há mais de 15 anos, em problema agudo e urgente: a inflação. De tanto insistir no risco de "explosão inflacionária", o coro da mídia oposicionista ampliou o tamanho da parcela da sociedade sempre assustada com a "carestia".

Segundo os dados da pesquisa Vox Populi/CartaCapital, 92% dos entrevistados perceberam que os preços aumentaram nos últimos meses e 72% esperam que continuem a subir nos próximos. Ou seja, para uma significativa maioria, a situação econômica se deteriorou e tende a piorar no futuro imediato.

Metade dos entrevistados diz preocupar-se "muito" e outros 38% se "preocupam, mas não muito" com a inflação. Em maior ou menor intensidade, mostra a pesquisa, 88% da população não está tranquila com o risco do "retorno da inflação".

Quanto desse sentimento é pura subjetividade e quanto é fato objetivo? Quem olha o conjunto dos indicadores da economia brasileira não tem dúvidas: a maior parte guia-se por temores artificialmente estimulados.

A construção da inflação como "ameaça iminente" provoca (ou aguça) sentimentos raros nos últimos tempos, quase desaparecidos: de insegurança em relação ao futuro e ã capacidade do governo de resolver os problemas do País.

A população brasileira conhece bem a sensação: experimentou-a com José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e FHC. Para ficar apenas no último, quem não se lembra do sobressalto com a volta da hiperinflação e o racionamento de energia no segundo governo do tucano?

Dois episódios encarregaram-se de ampliar a sensação difusa de insegurança de maio para cá: os boatos a respeito do fim do Bolsa Família e a temporada de caos urbano em São Paulo. Esta começou com manifestações inteiramente comuns na democracia, contra aumentos nos preços das passagens de ônibus (assim contribuindo para tornar mais consistente o "medo da inflação"), mas logo virou um quebra-quebra c estimulou imagens assustadoras na cobertura dos canais de televisão.

Quem ganha com o aumento da insegurança da sociedade? Os porcentuais de popularidade perdidos pelo governo se transformam cm algo positivo pai a alguém?

Não, sugere a pesquisa. Em parte pelo fato de o processo de perda não ser grande e parecer limitado. Também pela ausência de uma oposição com credenciais para capitalizar o desgaste. De seus possíveis candidatos, alguns têm um passado bastante pesado para carregar, en quanto outros inexistem para a vasta maioria do eleitorado.

O caso mais complicado é o do PSDB. Embora houvesse se aproveitada do tempo integral da propaganda partidária nacional e de boa parte das inserções nos estados, Aécio Neves mostrou crescimento pequeno entre março e junho. Subiu somente 4 pontos porcentuais, de acordo com o Datafolha. Nesta pesquisa, varia de 4% a 15% das intenções de voto, a depender do quadro de concorrentes,

Se a primeira janela de mídia partidária foi-lhe tão pouco proveitosa, como esperar um crescimento nas duas vindouras (no segundo semestre deste ano e no primeiro de 2014), as únicas antes de começar o período da propaganda eleitoral gratuita, em agosto do próximo ano?

Com todos os acontecimentos desses primeiros seis meses de 2013, o saldo para Dilma Rousseff e o governo só pode ser considerado satisfatório. No fundo, é a oposição que deveria se preocupar. Quem acumula mais de 50% de intenções de voto, equivalentes a quase 62% dos votos válidos, tem muitos problemas a menos.

E as manifestações populares dos últimos dias? Por enquanto, é impossível estimar suas consequências eleitorais. De um lado, falta-lhes sentido político direto, pois a maioria dos participantes parece orgulhar-se de um vago viés apolítico. De outro, exatamente por isso, não favorecem ou prejudicam os candidatos reais na disputa, por mais que a direita queira se apropriar dos protestos.

Em 5 de outubro de 2014, os eleitores terão nomes concretos dentre os quais escolher, cada um com seu passado e suas propostas para o futuro. Até aqueles que são "contra tudo e contra todos" terminarão por fazer uma opção.

ENGRAÇADO DESDE SEMPRE

CL. GENTE BOA - O GLOBO - 24/06/2013

Ney Latorraca conta histórias de sua vida em gravação de programa para o Canal Brasil, que vai ao ar em agosto


HOLOFOTE. Ney Latorraca na gravação do programa: “Quando era pequeno, virei atração da vila onde morava”

Ney Latorraca tem “ódio”
da TV de alta definição.
“A linda Paolla Oliveira
tem um cravinho que vira uma
coisa enorme na tela”, dizia ele,
na gravação do programa Palco
& Plateia, do Canal Brasil,
que vai ao ar em agosto.

Uma brincadeira dos pais, que
diziam tê-lo adotado, fez Ney
ter a primeira experiência de representar.
“Para me vingar, eu
fingia receber uma entidade”.

“Virei atração da vila e aproveitava
para pedir pão, leite...”,
brinca ele, contando que sua família
estava dura, enfrentava dificuldades
financeiras.

“Quando melhorei de vida, mamãe
encheu a casa de freezers,
tudo lotado de comida”. Numa
temporada de “Hair”, Ney pedia
esmola na porta do teatro. “Ele
dizia: ‘Me pagam muito mal’”,
lembrava José Wilker, apresentador
do programa.