domingo, 19 de maio de 2013

Quase nada - Caetano Veloso


 O GLOBO - 19/05/2013

Alegra-me repetir o nome de Marina Silva quando esperneiam para que o apaguemos

As palavras de Marina Silva sobre o caso Feliciano são sensatas e dizem o que deve ser dito. A imprensa deu um tom suspeito nas manchetes e os malucos das redes sociais (segundo me contam) entraram em surto. Meu amigo Rafael Rodriguez acha que querem desqualificar Marina para que se mantenha a disputa eleitoral ente PT e PSDB. Isso parece com o que eu dizia quando o nome de Mangabeira Unger era limado de minhas entrevistas, algumas eleições atrás: os jornalistas são petistas e os donos dos jornais são tucanos, não há lugar para terceiros nomes. Mas Mangabeira é uma referência incontornável e Marina é um peso político-eleitoral difícil de destruir. Não estou nem aí.

Gostei muito foi do comentário de Elio Gaspari sobre cotistas. A reportagem que parecia comprovar que cotas só servem para destruir a meritocracia revela-se vazia de conteúdo diante da pesagem das estatísticas feita pelo grande jornalista. Aliás, o artigo dele sobre a substituição, pelo governo Dilma, do secretário executivo do Ministério da Fazenda é de leitura obrigatória (eu, que pouco sei sobre essas coisas, fiquei mais inteligente ao lê-lo).

Voltando: será que alguém crê que Marina Silva está assinando embaixo de declarações inaceitáveis feitas por Feliciano só porque ele é evangélico? Esses doidos não podem fingir que acreditam nisso. De repente é como se Marina apoiasse a interpretação do assassinato de John Lennon feita pelo pastor. Impossível. Ele disse que o crime era uma manifestação da Santíssima Trindade. Que queria estar lá quando acharam o corpo do cantor e dizer: “Este primeiro tiro é em nome do Pai, o segundo é em nome do Filho e o terceiro é em nome do Espírito Santo”. O “Não matarás” da Bíblia fica assim desvalorizado, submetido à ideia de um Deus ciumento e vingativo, tão pré-cristão e tão anticristão, como se os nossos valores morais se baseassem nas punições contra quem, na conquista da Terra Prometida, deixasse de matar, por piedade, mesmo “uma criança de peito”. O pecado ingênuo de um adolescente (dizer que seu grupo de rock estava mais popular do que Jesus Cristo) é tido, assim, como mais grave do que o assassinato a sangue frio. Como a compassiva Marina iria compactuar com essa interpretação dos ensinamentos bíblicos? O que ela diz é que Feliciano não representa o pensamento de todos os evangélicos. Nem mesmo da maioria. Marina defende o Estado laico. E o diz com todas as letras. Por que querer criar confusão onde há tanta clareza?

Outro dia li um jornalista reclamando que falo sobre tudo e mais alguma coisa. A piada da “Piauí”, em que apareço com uma capa de magistrado do STF (que, aliás, na montagem fotográfica me caiu muito bem), sob uma manchete que dava conta de que uma decisão momentosa ia ser arbitrada por mim, é engraçadaça. Me mostraram um vídeo no YouTube em que estou dizendo a alguém “Você é burro, cara”. Eu repetia que o cara era burro e dizia que ele formulara a pergunta de modo tão burro que eu não conseguia sequer memorizar. Meu amigo Eduardo Sá achou de onde tiraram esse clipe. Foi de um programa de TV chamado “Vox Populi”. É dos anos 1970. Eu tinha o cabelo muito longo, muito preto e muito cacheado (esses dois últimos atributos sendo os de que tenho mais saudade). E falava com uma mistura um tanto estranha de moleza e arrogância. O quadro do período explica minha atitude. Eu tinha começado o trabalho com A Outra Banda da Terra sob apedrejamento crítico. O disco “Muito” foi achincalhado como sendo a prova final de minha inépcia e falta de inspiração. “Sampa” e “Terra” estavam sendo lançadas nesse disco. Anteontem reli um artigo de Tárik de Souza em que ele avalia, com forte espírito de corpo jornalístico, minhas brigas com a imprensa da fase que se seguiu a esse lançamento. Quem eu tinha chamado de burro era Geraldo Mayrink, da “Veja”, que destacava frases de músicas de Ary Barroso, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, que eu citara em minhas letras, como exemplos de maus versos, crendo que eram meus (eram de músicas muito conhecidas por quem atentasse para a MPB). Sei que eu estava certo, mas não me senti bem vendo o vídeo. Valeu para eu poder mostrar a meu filho mais novo meu pai falando (ele aparece fazendo pergunta íntima). Mas meu desejo de desprezar as opiniões negativas sobre meu trabalho me irritou um pouco. Preferi ver um “Roda Viva” em que eu, mais velho (com o cabelo já liso mas ainda todo preto), falo “de tudo”, mas em tom mais modesto.

O que vale o que eu penso sobre Gaspari ou Marina? Creio que quase nada. Mas alegra-me poder repetir o nome de Marina Silva quando páginas de jornal e telas de computadores esperneiam para que o apaguemos.


sábado, 18 de maio de 2013

Flagrando a corrupção - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 18/05/2013

Entre as 17 reportagens que se destacaram este ano no 14º Prêmio Imprensa Embratel, duas chamaram a atenção pela forma como produziram provas contra a corrupção, um processo que em geral só é descoberto depois do fato consumado, quando se torna difícil incriminar os culpados e recolher provas materiais de seu envolvimento. Nas duas matérias premiadas, ambas para a televisão, houve o uso de criatividade e tecnologia. A primeira, ganhadora do maior troféu, revelou o que acontecia em um gabinete onde eram fechados contratos com dinheiro público. Durante dois meses o repórter Eduardo Faustini, do "Fantástico", conseguiu fazer-se passar por gestor de compras em um hospital público federal. Convidou empresas que vendem serviços e materiais médicos e, com câmeras escondidas, flagrou como são feitas licitações com cartas marcadas, combinação de suborno e simulações para fugir da fiscalização do governo. A trapaça, mostrada de maneira incontestável, foi justificada por uma das personagens envolvidas, uma mulher apanhada com a mão na massa: "É a ética do mercado." O trabalho de Faustini (com André Luiz Azevedo e Renato Nogueira) recebeu o título de "A cara da corrupção" e impediu que as empresas corruptoras embolsassem na época R$ 250 milhões.

A outra matéria se chama "Madeira chipada" (TV Centro América), que, usando um expediente inédito, descobriu o destino da madeira arrancada ilegalmente de uma área de floresta do tamanho de vinte mil campos de futebol, em União do Sul, no Norte de Mato Grosso. "Nossa equipe instalou chips localizadores em algumas toras nos principais pontos da retirada ilegal." Fez isso cortando um pedaço da casca do tronco, introduzindo o aparelhinho no buraco e colando de novo a casca. O resultado foi que, graças ao rastreamento, o Ibama fechou a serraria que recebeu o produto do roubo e prendeu o gerente em flagrante.

Os demais trabalhos premiados também ajudam a demonstrar como a imprensa está privilegiando a investigação. No Sul, a repórter Letícia Duarte, da "Zero Hora", acompanhou por três anos os passos de um menino para revelar a sucessão de falhas que gesta uma criança de rua. No Rio, os repórteres da Globo News, tendo à frente Rodrigo Carvalho Gomes, percorreram o país acompanhando o dia a dia de juízes ameaçados de morte. No Paraná, o repórter Mauri König e equipe viajaram 5 mil quilômetros em cinco meses para comprovar o desvio de R$ 22 milhões em delegacias fantasmas. Em outro caso, Antônio Gois e uma equipe de dez colegas do GLOBO identificaram no país 82 escolas que, mesmo atendendo alunos de baixíssima renda, conseguiram colocá-los no topo do ranking de aprendizado do MEC.

E há mais uma dezena de exemplos que, por falta de espaço, não são citados.

Alê - José Miguel Wisnik


 O Globo - 18/05/2013

Alê conhece profundamente os procedimentos estruturadores da música de Bach à de Stockhausen

Como sempre acontece, entrego a coluna na quinta-feira. É a data limite do jornal e a minha também, porque jamais consigo escrever com antecedência. Hoje faço um show no Espaço Tom Jobim, e como já contei outras vezes, tenho que fazer a proeza de não me consumir aqui, e evitar a minha tendência a demorar demais na escrita. Para começar, nada de dissertações.

Cheguei na terça-feira para uma aula-show com Arthur Nestrovski no Real Gabinete Português de Leitura, que comemorava 176 anos de existência Eram canções comentadas indo de Martin Codax (canções galego-portuguesas do século XIII) a Fernando Pessoa, passando por Gregório de Matos, Drummond e Vinicius. Tivemos problemas de som, compensados pela reverberação e a maravilha do lugar, essa espantosa biblioteca a olhos nus plantada no centro do Rio de Janeiro como uma epifania surreal de Portugal. Nunca é demais lembrar que Machado de Assis, que não frequentou escola senão a primária, formou boa parte do seu repertório literário universal no Gabinete Português, antes da existência do prédio atual, que data do fim do século XIX.

Na quarta-feira fiquei trabalhando o dia inteiro com Jussara Silveira e Rita Ribeiro num futuro CD delas, que será um disco centrado o mais possível na autossuficiência das vozes. Nosso produtor é Alê Siqueira, eu faço uma espécie de direção artística que é mais propriamente uma parceria de ideias com ele e com elas, e ficávamos trocando canções que nos lembravam canções, feitas de outras canções desembocando em ainda outras. O melhor dos mundos.

Para que se entenda, eu preciso explicar um pouco Alê Siqueira, esse paulistano de Santana que resolveu há anos morar na Bahia para entender os ritmos, a última coisa que faltava na sua formação de quem cresceu ouvindo rap, dominou a música pop, mergulhou na linguagem da música erudita em toda a sua extensão histórica e trabalhou cinco anos com Flô Menezes no estúdio Panaroma de música eletroacústica. Alê conhece profundamente os procedimentos estruturadores da música de Bach à de Stockhausen.
Temperou tudo isso com a sua convivência com a canção popular, da chamada vanguarda paulista (ele é uma espécie de vanguarda paulista mutante, de última geração) ao panteão da canção pop (coproduziu o disco dos Tribalistas e acaba de produzir boa parte do próximo de Ana Carolina, entre muitos outros).
Dizendo assim, e como não estamos acostumados com tal amplitude e solidez de repertórios, pode ficar parecendo que Alê participa do clima de vale-tudo estético em que se mistura aleatoriamente tudo com tudo. Não haveria engano maior. Quando escrevi o livro “O som e o sentido”, em 1989, fiz no final a única profecia do livro, que era em parte uma piada, um jogo de palavras mas também uma previsão a se colocar no plano das ideias: a da formação de um novo tipo de músico a ocupar o lugar transformador que se deu historicamente com os filhos de Bach, que desenvolveram a forma-sonata e a forma-concerto, em contraponto com os filhos de Stockhausen, que eu ouvia dizer que faziam jazz e música pop. Falei então no surgimento de “filhos de Stockhausen”, não os literais, mas o de músicos capazes de transitar sem barreiras, e com completo conhecimento de causa, por todas as formas possíveis da música, como se tivessem decodificado o monolito dos tons e dos pulsos.

Essa figura virtual tomou corpo no mundo, ela pode ser reconhecida por exemplo em Björk, mas eu não imaginava uma encarnação completa tão perto de mim, como a de Alê Siqueira. Estão aí Rita Ribeiro e Jussara Silveira que não me deixam mentir. Alê é desses músicos capazes de radiografar a música que escuta, de distinguir imediatamente os pontos nodais que a diferenciam e que permitem a sua compatibilidade com outras. No campo melódico-harmônico e no campo rítmico (cujas claves africanas e cubanas ele domina, depois de ter trabalhado com as percussões baianas, o candomblé e com Omara Portuondo em Cuba). Um daró africano, uma peça de Béla Bartók sobre danças búlgaras, um samba de roda e uma fanfarra romena podem tocar juntos quando ele os acessa com facilidade espantosa no seu arquivo digital e as sincroniza imediatamente, não porque — repito — esteja fazendo uma maionese musical mas porque conhece os caminhos das pedras e os atalhos que compatibilizam essas tradições nas suas afinidades e nas suas diferenças.

Afinal as músicas, com seu travos próprios e suas cores, com seus sabores e dicções locais inconfundíveis, não deixam de ser uma negociação interna com os números e as frequências, no tempo e no espaço, um castelo de cartas que se monta passando do 2 ao 3, daí ao 5, ao 7, ao 12 e ao infinito.


domingo, 12 de maio de 2013

O passado - Caetano Veloso


Eu queria somente dizer que me fez mal ter visto um filme português legendado em português brasileiro no Canal Brasil

No domingo passado escrevi aqui de modo tão confuso que peço desculpas a quem me leu; peço a quem não leu que não leia; e resumo: eu queria somente dizer que me fez mal ter visto um filme português legendado em português brasileiro no Canal Brasil (as legendas não reproduziam as frases ditas pelos atores, mas as substituíam pelo que os tradutores acreditavam ser o equivalente em português brasileiro coloquial). O resto eram digressões na maioria das vezes impertinentes. Recebi alguns e-mails por causa disso. Só posso dizer que eu gostaria de escrever do modo desencanado de Daniel Galera, ou com a organização de nível acadêmico de Zé Miguel Wisnik, ou com a argumentação bem esquematizada à Francisco Bosco. Para não falar na inveja que tenho do humor rápido de Verissimo ou da verve sintática de Ubaldo. Bem, não vou falar mais nomes porque seriam muitos, sobretudo entre aqueles que são precípua ou exclusivamente jornalistas. Mas não posso negar que amo advérbios de modo, parênteses, travessões e períodos longos. Jorge Mautner sempre me diz que, num artigo sobre a tradução americana de “Verdade tropical”, algum resenhista anglófono citou Faulkner a meu respeito. Eu não me lembro de ter lido nada disso. Sigo Mautner como a um mestre, mas isso não quer dizer que acredito que tudo o que ele diz seja fato. Ele está sempre no nível do mito.

Viajando muito por causa do show do “Abraçaço”, não tenho visto os filmes que quero ver. Se eu pudesse, ia ao cinema todos os dias. Na verdade, eu fazia isso quando tinha 18, 19, 20 anos. Também quando tinha 12, 14, 15 (não é que pulei os 13 como fazem os hotéis americanos ou americanizados, por uma superstição chocante num mundo tão exibidamente desencantado como é o mundo dos hotéis de muitos andares. Não. Pulei os 13 porque correspondem ao ano que passei no Rio, quando ia pouco ao cinema, talvez menos do que ao auditório da Rádio Nacional: não havia cinema em Guadalupe, e eu não saía sozinho nesta cidade enorme). Se eu tivesse visto algum filme, escreveria aqui sobre ele. Gosto de escrever sobre cinema. Posso ter opiniões peculiares, para não dizer esquisitas, mas sei falar sobre o que se vê na tela, se ouve na sala e se sente (eu sinto) no coração. Dos livros que estou lendo não dá para falar. Além de ler e reler Bessa-Luís (e aqui aproveito para pedir desculpas a meus amigos portugueses que porventura tenham lido meu artigo sobre as legendas, já que para eles minhas elucubrações devem ter parecido ainda menos compreensíveis), acabei de ler um livro de Mangabeira Unger que tem o provocativo título “A religião do futuro”. Na verdade já terminei essa leitura há mais de um mês, mas ainda volto a alguns trechos para conferir e estudar, de modo que é como se estivesse ainda acabando de ler. E estou lendo um outro, chamado “A nova mente da máquina”, uma série de ensaios que falam de cosmologia e física quântica mas que são, na verdade, sobre psicanálise. O autor é Aristides Alonso. Ambos os livros são difíceis. Não posso comentar aqui como quem comenta o filme que viu ontem. Curiosamente certas questões cosmológicas aparecem nas duas diferentíssimas obras de maneira similar. (Aliás, li também a introdução de um outro livro de Mangabeira, que trata exclusivamente de cosmologia, sobre o qual seria mais difícil falar do que sobre “A nova mente da máquina” ou “A religião do futuro”.)

Por falar nisso, quando eu aprendi a ler e a escrever, sobretudo quando aprendi coisas mais complexas sobre leitura e escrita, as palavras de um título vinham, como ainda vêm em inglês, todas com iniciais maiúsculas. Ainda hoje às vezes sigo essa antiga regra que não sei quando foi abolida. Assim como nomes comuns que compunham nomes próprios, como Avenida Delfim Moreira, que, não percebi quando, virou avenida Delfim Moreira. Mesmo no meio de uma frase, escrevia-se Dr. Fulano, Sr. Beltrano, Padre Sicrano. Hoje (eu acho) é tudo com minúscula. Será que a gente escreve mesmo santo Tomás de Aquino? Sou um menino dos anos 1950, me assusto com isso. Mas não quero falar de língua e regras de escrita: estou traumatizado com o artigo do último domingo. Penso que, se eu deixar, vou escorregar pelas observações minuciosas mas cheias de erros. Bagno vai rir mais de mim.

Se eu não fosse cantar no dia 15, no Circo Voador, pela diversidade sexual, eu iria, antes do “Abraçaço” na Concha Acústica de Salvador, para Santo Amaro, participar da festa do 13 de Maio, que se estende até o dia 18. Um dos maiores orgulhos de minha vida é Santo Amaro festejar a abolição da escravatura desde 1889. Dia 18 canto no Recife. Vou tentar correr até minha cidade no dia 16. Se não der, terei cantado pela diversidade sexual aqui. É sempre a abolição.


sábado, 11 de maio de 2013

News 11/05/2013

VIAGENS » Passagens aéreas ficam mais baratas

Trabalhadores que recebem acima de R$ 1.503 já são incluídos na classe A-Zulmira Furbino‏  

HIV altera funções cognitivas-Augusto Pio‏  

DOSES QUE MATAM-Guilherme Paranaiba‏ 

ABOLIÇÃO 125 ANOS » A marcha da liberdade-Renata Mariz e Ivan Iunes‏  

 
Eduardo Almeida Reis-Jornalismo‏

 Lei de Cotas e antipropaganda oficial - Luciano Mendes de Faria Filho‏

 ENTREVISTA/EVA FURNARI » "Os professores são heróis"‏

O show e o esgoto [Paul McCartney] - João Paulo‏  

 
Olhar que vem do Sul [René Armand Dreifuss] -Otavio Dulci‏

Quem é o dono da voz - Ailton Magioli‏  

 
Álvaro Pereira Júnior - A hora e a vez do digital-popular

 Painel das Letras: 50 anos mais cinco - Raquel Cozer

 O negócio da crítica - Raquel Cozer e Fernanda Ezabella

 Dos males, o menor - José Miguel Wisnik

 Uma outra receita de mulher - Arnaldo Bloch

 Crítico lança estudo de fôlego sobre Machado e Henry James - IDELBER AVELAR

 Uma noite com Gilberto Gil - via

 Urbanismo de oportunidades - LUIZ FERNANDO JANOT

 A saúde dos olhos - Miguel Ângelo Padilha

Dos males, o menor - José Miguel Wisnik


O Globo - 11/05/2013

 

Argumentos do sociólogo José de Souza sobre redução da maioridade penal são abalizados e bem postos, mas não me convencem

O suplemento Aliás, do jornal “O Estado de S.Paulo”, publicou no domingo passado alguns artigos sobre a discussão em torno da maioridade penal: diminuí-la para 16 anos ou não? Entre eles, o do sociólogo José de Souza Martins rebate a alegação de que levar jovens de 16 anos para a cadeia seria inseri-los de vez na escola do crime. Segundo Martins, há criminosos notórios nessa faixa de idade, agentes de barbáries em estado puro, que não precisaram de nenhuma escola para sê-lo, e a sociedade deve equipar-se para combater o mal que medra nessa zona juridicamente descoberta da existência humana, reduzindo a maioridade penal. Diferentemente da posição reativa e direta dos amedrontados, os argumentos são abalizados e bem postos, mas não me convencem.

Martins sabe que a redução da maioridade penal não resolveria “o problema grave das causas da criminalidade juvenil”. Diz com muita razão que a retórica jurídica do Estado brasileiro, sustentando o estatuto atual, apenas gira em falso no seu não saber o que fazer. Acha que a impossibilidade de punir na justa medida os crimes hediondos praticados por jovens (além da evaporação prática do cumprimento das penas entre adultos, a que ele não se refere diretamente) estimula a iniquidade do justiçamento popular, acrescentando que “o Brasil está entre os países que mais lincham no mundo”, promovendo a indistinção entre a cultura do crime e a punição do crime, entre “maus” e “bons”.

Reconheço a enormidade desse “defeito estrutural”, presente fora e também dentro das cadeias, na própria iniquidade do sistema carcerário, que o Ministro da Justiça deixou escapar outro dia. O diagnóstico supõe um mal-estar difuso e generalizado, exposto no enorme descompasso entre a extensão do problema e as providências apontadas, incluindo esta, a da redução da maioridade penal, que, também ela, mais encobre e aprofunda o problema, com seu simulacro de justiça, do que encara a sua extensão.

Diante do mal-estar, da emergência do mal que desponta em crimes inomináveis e do sentimento de impotência correspondente, as posições têm quase que inevitavelmente muito de sintoma de quem as toma, e de uma aposta implícita na destinação do seu desejo. No caso da posição exposta com propriedade por José de Souza Martins, trata-se de resgatar o funcionamento de um rito jurídico ali onde ele está faltando, e onde essa falta clama por uma reparação simbólica, para o bem das instituições. Sabemos também que esse mesmo clamor pode esconder, em outros casos, a sombra de um desejo coletivo não enunciado senão pelos mais exaltados e frenéticos: universalizar a potência criminosa do adolescente pobre é jogá-lo fora no esgoto das prisões, desejando, mais fundo, que ele seja sugado no imaginário ou no real pela treva do extermínio.
Algo do Brasil atual, com seus emergentes e suas zonas de exclusão, com sua indecisão entre o arranque e a regressão, dá sinais de uma aproximação galopante e não consciente à verdade de sua história escravista através de confrontos não politicamente formalizados nem simbolicamente elaborados, que se expressam no conflito entre os poderes de Estado, na loucura religiosa, nos tribunais do Facebook, nas facções discursivas, no alarde das opiniões, nos fla-flus sem beleza, sem perspectiva e sem regras. São a marca viciosa daquilo que na nossa sociedade vai mudando sem mudar, que se transforma sem transformar, e que resiste a encarar tanto o real de suas violências constitutivas e de suas desigualdades profundas quanto o real de sua potência inovadora.

Por isso tudo, nesse quadro, e para mim, escolher a antecipação da maioridade penal não é resolver problemas, mas encolher o país virtual, decretar o fosso social e, em nome de uma resposta à ocorrência do mal absoluto, recusar-se a olhar para essa zona crucial de passagem onde se decidem destinos pessoais e coletivos. É verdade que infância, adolescência e idade adulta estão tão confusas e embaralhadas, hoje, em todas as classes sociais, que existem crianças simulacros de adultos (pequenos bandidos, pequenas prostitutas, pequenos empresários), e adultos eternos adolescentes, para o bem ou para o mal. O crivo da maioridade como o lugar do sujeito autônomo, datado aos 18 anos, tornou-se problemático em todos os sentidos, mas não se trata de encontrar o responsável nessa faixa limítrofe: dos males, o menor. Continuo me lembrando de Luiz Eduardo Soares (onde está ele?) quando diz que tudo se decide no lugar e no instante frágil em que o ser humano pede sem saber o que todo ser humano pede: olhar, reconhecimento e consideração.


terça-feira, 7 de maio de 2013

Nós, as pessoas físicas, e o poderoso Fisco - Eugênio Bucci

Época - 06/05/2013

Na terça-feira passada, quando deu meia-noite, a Receita Federal tinha recebido 26.034.621 declarações de Imposto de Renda de brasileiros como você ou eu, gente de carne e osso ou, no linguajar do Fisco, simplesmente "pessoa física". O número ultrapassou com folga a marca do ano passado, de 25,2 milhões.
Boa parte dessa multidão passou dias e noites gramando diante de uma tela de computador, suando para decifrar os comandos de um idioma estranhíssimo, cujo vocabulário inclui "declaração de ajuste", "tributação suspensa" ou "extrato Dirpf". Passar por isso é passar por um ritual de humilhação. O poder parece entrar em êxtase quando obriga todo mundo a falar a língua cla tecnocracia. O software da Receita Federal funciona assim como um exercício de "opressão idiomática": popularizou à força siglas absurdas como Darf e fez da expressão "malha fina" uma entidade mais temida que o inferno. Para uma pobre pessoa física, anônima, trabalhadora e mortal, preencher o formulário da Receita a cada mês de abril equivale a um purgatório. Só serve para evitar o inferno da "malha fina". Atrás da tela do computador, lá está o Grande Irmão Tributarista que tudo sabe sobre os caraminguás de cada um de nós, que enfia as mãos no nosso bolso, vasculha nossas contas bancárias, pergunta detalhes da nossa condição conjugal, separa nossos centavos de um lado para outro e, depois, pega a bolada que bem entende. Durante a sessão de tortura simbólica, a pessoa física, atônita, liga desesperada para o cunhado que entende disso: "O programa não aceita gravar minha declaração! O que eu faço?".

Finalmente, depois de obedecer mecanicamente, por horas e horas, às ordens cibernéticas da autoridade fazendária virtual, a pessoa física expira prostrada, nocauteada, desvalida e frágil como um paciente que acaba de sair de uma cirurgia. Ainda festeja, iludida: "Ufa, acabou!"

Acabou mesmo? Não: o jogo sádico ainda seguirá. No dia seguinte, na vã empreitada de tentar recobrar a auto estima e deixar para trás a ressaca de tanto estresse, a pessoa física começa a pensar 110 destino fiscal de suas parcas economias. Nessa nova fase do jogo, há lances que causam males mais sérios à saúde da pessoa física. Pensar que seu dinheiro poderia ser gasto pelo governo do Distrito Federal em capas de chuva para os policiais de Brasília trabalharem durante a Copa do Mundo provoca náuseas, tonturas, pranto convulsivo c depressão. Felizmente, o governo cancelou na quarta-feira essa medida descabida, dado que a Copa está agendada para um período de rigorosa seca no Distrito Federal - e economizou RS 5 milhões do contribuinte.

Aqui na planície, a gente sabe quanto custou ganhar os reais que vão embora para Brasília na velocidade da luz. Em Brasília, no entanto, parece que eles não têm a mesma noção. Desde burocratas que viajam de classe executiva para frequentar seminários diletantes, até outros burocratas que não fiscalizam (e não deixam fiscalizar) os dispêndios pantagruélicos sob sua responsabilidade, as fórmulas de torrar sem cerimônia as horas de trabalho de milhões de brasileiros são inesgotáveis. Entre todas, uma das mais criativas é essa nova modalidade de patrimonialismo, um patrimonialismo pós-moderno, que consiste em empenhar recursos do Erário para financiar publicidade de governo. Sc pensar muito nisso, a pessoa física tentará arrancar os minguados cabelos que lhe restam.

A cada ano, os governos todos, municipais, estaduais e federal, numa raríssima unanimidade suprapartidária, consomem em conjunto alguns bilhões de reais para promover espetacularmente o que consideram seus grandes feitos. Fazem publicidade paga de si mesmos, com o único objetivo de ganhar votos. Quem paga a conta são os milhões de pessoas físicas com trabalho honesto. Pense bem: quantos brasileiros enfrentaram jornadas extenuantes para financiar esses filmetes que a gente vê 11a TV, nos quais as autoridades públicas posam alegres e saltitantes como se fossem um elenco de novela das 6? F. justo que as economias de tantos milhões de pessoas físicas sejam consumidas assim, sem a menor cerimônia, para atender a interesses meramente partidários de tão poucos?

Fazer o quê? Nada. Envie logo sua declaração. Resigne-se. Declarar imposto, às vezes, é como dizer amém a um coletor medieval, que pega nossas moedas e some. O jogo é cruel. A pessoa física é forçada a preencher um formulário exaustivo e invasivo, enquanto os governantes se esquivam. Ainda bem que só pensaremos nisso de novo daqui a um ano.

domingo, 5 de maio de 2013

Pedra 90 - Artur Xexéo

 O Globo - 05/05/2013

O percurso não era muito longo. De Copacabana, ali na Figueiredo Magalhães, até o Jardim de Alá. Se o trânsito na Lagoa estivesse bom, chegaria em pouco mais de dez minutos. Foi o que aconteceu. Mas a viagem naquele táxi, de mais ou menos dez minutos, foi uma viagem no tempo.

A viagem começou pela trilha sonora promovida pelo motorista. Boleros. Ouvi uma versão em português de “Besame mucho”, que acho que não conhecia. Meu analfabetismo musical fez com que eu emitisse a mais ridícula das perguntas:
— É Altemar Dutra?
O motorista deu um risinho superior e me corrigiu:
— Não. É o Trio Irakitan.

A viagem foi mais longe. Trio Irakitan! Meus contemporâneos devem se lembrar deles — Edinho, Paulo Gilvan e Joãozinho. Eram simpaticíssimos. Brilhavam como nenhum outro grupo na televisão. Cada um tocava um instrumento: um violão, uma maraca e um tantã. Cantavam qualquer coisa. De baiões (eles eram do Rio Grande do Norte) a bossa nova. Lá em casa tinha um disco deles, “Os sambas que gostamos de cantar”. Tocou até furar. Foi nesse disco que conheci alguns clássicos da música brasileira, como “No tabuleiro da baiana”, de Ary Barroso, “Agora é cinza”, de Bide e Marçal, e “O samba da minha terra”, de Dorival Caymmi. No meu hit parade, as gravações de João Gilberto só vieram muito depois.

Não duvido que o Trio Irakitan tenha sido uma porta de entrada para as crianças de um tempo atrás conhecerem o melhor da música brasileira. O sucesso do grupo junto ao público infantil só aumentou quando eles estrelaram uma chanchada. Em “Três colegas de batina”, o trio contracenava com Eliana.
O motorista interrompeu minha viagem.
— Eu tive uma certa intimidade com o Trio Irakitan. Era colega do filho do Edinho. O Edinho foi o primeiro a morrer. Ele era Pedra 90.

Vem cá, isso era um táxi ou um túnel do tempo? Pedra 90? Há quanto tempo não ouvia essa expressão. Meu pai a empregava quando queria elogiar um amigo. Para quem está chegando agora, Pedra 90 significava algo como o atual “gente fina”. Será que “gente fina” é mesmo atual? Enfim, alguém em quem se podia confiar era Pedra 90.

Nunca soube a origem da expressão. Ainda estava no táxi, agora ouvindo o Irakitan cantar uma versão para “Quizas, quizas, quizas”, quando consultei o Google para saber de onde vinha a gíria. Descubro que vem do jogo de tômbola. Ninguém sabe mais o que é tômbola? Então, substituo a palavra por víspora. Ainda estão boiando? E loto. Não, não pronuncia-se “lóto”. É “lôto”. Nada feito. Tudo bem: e bingo? Agora nos entendemos. Tômbola era o jogo de víspora, de loto, de bingo, que a gente jogava em casa. Um bingo familiar, com um saco cheio de pedras numeradas que eram “cantadas” (dois patinhos na lagoa, a idade de Cristo...), enquanto os jogadores preenchiam suas cartelas com grãos de feijão. A diferença é que a tômbola tinha um número maior de pedras do que a víspora. A Pedra 90 era a mais valiosa. Daí...

Cheguei ao Jardim de Alá nos anos 60. Ouvindo boleros, jogando tômbola, elogiando as pessoas chamando-as de Pedra 90. Não durou muito tempo. O século XXI me esperava.

Percebes? - Caetano Veloso


 O Globo - 05/05/2013

 

Há uma evidente razão para que o português brasileiro seja mais inteligível a ouvidos lusitanos do que o português europeu a nossos ouvidos: nós pronunciamos as vogais das palavras

É o contrário do que senti ao ler Agustina Bessa-Luís. Toda a densidade da vida luso-brasileira se vê negada. Diante da TV, assistindo a um filme português no Canal Brasil, me deparei com uma experiência que já conhecia de antes mas que pensei que tivesse esquecido. O filme era falado em português europeu e estava legendado em português brasileiro. Foi vendo uma obra de Manuel de Oliveira no cinema que eu tinha passado pela mesma situação. Revivendo-a ao assistir televisão, pensei com mais convencimento que, dado o fato de os brasileiros em geral terem dificuldade de entender a fala lusitana, deve ser aceitável que filmes portugueses passem com legendas no Brasil.

Isso não é uma constatação que me traga alegria. Enchi-me de felicidade quando, por exemplo, ouvi José Saramago falar numa entrevista dada a um programa daqui e me pareceu que qualquer brasileiro o pudesse entender. (O mesmo, aliás, se dá no filme sobre Bessa-Luís que pode ser visto no YouTube: a fala da grande escritora é clara e pode ser entendida do Oiapoque ao Chuí.) Já no documentário que foi feito sobre Saramago e sua mulher, Pilar, o mesmo processo de legendas que me exasperou foi utilizado. Ocorreu-me que é impensável que filmes ingleses precisem ser legendados nos Estados Unidos ou no Canadá — ou que filmes espanhóis exijam subtítulos na Argentina ou no México. O caso do Brasil é diferente. Os portugueses veem novelas brasileiras na TV e ouvem música popular brasileira desde sempre. Quando eu era criança, em Santo Amaro, ouviam-se fados no rádio, e Ester de Abreu era uma estrela da Rádio Nacional. Eu próprio gostava de tentar imitar a pronúncia lusitana em shows amadores no Ginásio Teodoro Sampaio. Havia a força da colônia portuguesa no Rio. Mas há já décadas que os brasileiros perderam contato com o linguajar luso. Não me consta que em Portugal os filmes brasileiros tenham tido a receptividade que as novelas e as canções têm. Nem mesmo fenômenos como “Cidade de Deus” ou “Pixote”. Mas os portugueses mantêm contato com nosso modo de falar.

Há uma evidente razão para que o português brasileiro seja mais inteligível a ouvidos lusitanos do que o português europeu a nossos ouvidos: nós pronunciamos as vogais das palavras. Quando cheguei a Portugal, na fase inicial do nosso exílio durante a ditadura, Gil e eu fomos, com Roberto Pinho, amigo conhecedor e amante da cultura portuguesa, a Évora. Ele era apaixonado por essa cidade do Alentejo e queria que nós a conhecêssemos. Andamos pelas ruas e praças dessa bela cidade e, a certa altura, um jovem local, louro e bonito, com cabelos mais longos do que a maioria dos jovens portugueses de então, mostrou-se curioso a nosso respeito. Entramos num bar para tomar refrigerante, e ele, conversando conosco, nos dizia que entendia muito bem o nosso espanhol. Insisti em que nós falávamos português, mas ele não ficou convencido. Eram as vogais. Se alguém pronunciar todas (mas todas mesmo) as vogais das palavras portuguesas à espanhola (ou seja, com os és átonos finais soando ê e os ós átonos finais soando ô, ao invés dos respectivos i e u de nossa fala) nós entenderemos tudo. Já se alguém pronunciar todas as palavras espanholas com os sons do português brasileiro, ou seja, os jotas soando j, os tês e dês palatalizados diante da vogal i, os esses intervocálicos soando z, etc., um ouvinte de língua espanhola não entenderia nada. O português brasileiro está para o português lusitano um pouco como o espanhol está para o português em geral.

Mas há o fator exposição, que contribui para que os portugueses, que ouvem canções brasileiras desde os anos 1930 ou 40 do século passado (e mesmo antes) e veem novelas brasileiras desde que a TV Globo modernizou o gênero nos anos 1970, entendam as formas sintáticas usuais no Brasil, além das gírias e expressões do português americano. Não nos adestramos para ouvir o português europeu. E falta-nos o midatlantic que está esboçado na fala de Saramago e de Agustina.

Muito se deve ao poder que cerca as outras duas grandes línguas europeias que se transplantaram para as Américas: o inglês e o espanhol. Vendo essas legendas que, pelo mero fato de estarem ali, gritam que não nos entendemos — e, o que é pior, não sendo nem mesmo legendas que reproduzem o que está sendo dito pelos atores lusos (com o que nos familiarizaríamos com a sintaxe e o vocabulário deles), mas “traduções” para a sintaxe e o vocabulário nossos (por exemplo: “Percebes?” vem legendado como “Você está entendendo?”), sentimos nossa impotência histórica, nossa irrelevância política. Notamos que é demasiado o que tem que ser feito. E assim parece que nada faremos.


sábado, 4 de maio de 2013

Seis meses para o fim do sufoco na Biblioteca Nacional

O Globo - 04/05/2013

André Miranda

Novo presidente diz que ar-condicionado só volta em 120 dias 

 Dirigente da instituiçã também critica gastos assumidos pelo governo brasileiro para a participação na Feira de Frankfurt, que acontecerá em outubro

Quando foi anunciado que o cientista político Renato Lessa, de 58 anos, seria o novo presidente da Fundação Biblioteca Nacional, uma amiga mandou a ele uma mensagem: "Que Deus e o governo ajudem você". Pelos problemas que o esperam, Lessa realmente vai precisar de ajuda. Em entrevista, ele disse que serão necessários mais 120 dias para que o ar-condicionado, desligado há um ano, volte a funcionar. Lessa também lamenta os gastos assumidos pelo governo para a Feira de Frankfurt, em outubro, por acreditar que a homenagem feita ao Brasil deveria ser assumida pelo setor privado. Ele discorda, ainda, de Galeno Amorim, que esteve no cargo nos últimos dois anos, quanto à quantidade de municípios sem bibliotecas no Brasil: "É um número vergonhoso".


Há um ano a Biblioteca Nacional está sem um sistema de ar-condicionado. Ainda falta muito para que isso seja resolvido?

 No pico do verão, me disseram que a temperatura no armazém de obras gerais bateu 50 graus. O ideal é 23 graus, 22 graus. Mas, infelizmente, ainda está longe de chegarmos lá. Começamos agora um processo de recuperação de um sistema antigo de ar-condicionado, e a estimativa que me deram é que a obra termine em 120 dias. Então a expectativa é que enfrentemos o verão com esse sistema antigo em funcionamento. Já o sistema geral de refrigeração vai depender de um projeto de reforma, e seria irresponsável eu dizer quando isso vai ficar pronto.

 Outra questão muito discutida é a participação brasileira na Feira de Frankfurt, em outubro, quando o país será homenageado. Com a mudança na diretoria da Biblioteca Nacional, muda algo na organização da feira? 

Acho importante desfazer um pouco a ideia de que a Feira de Frankfurt é a Biblioteca Nacional. Não é. A homenagem em Frankfurt significa que o governo brasileiro aceitou e entendeu que essa é uma oportunidade de promoção brasileira no exterior. O projeto é gerido por um comitê gestor, e a Biblioteca faz parte desse comitê, mas há outros integrantes, como a Funarte e o Ministério das Relações Exteriores.

 Mas a biblioteca tem um papel grande na organização. 

Tem um papel grande, sim. Mas, na minha perspectiva, não é um papel compatível com as funções próprias da biblioteca. Como a Feira de Frankfurt tem uma dimensão econômica muito forte, algumas questões deveriam estar a cuidado dos editores do setor privado. Mas o modelo atual foi decidido em 2010, com comprometimentos financeiros e com o comprometimento da biblioteca em algumas decisões, e isso será mantido. Estamos discutindo, hoje, que esse paradigma não se repita em outros eventos dessa natureza. E ainda tenho uma reserva aos custos assumidos para a viabilização de negócios, sobretudo numa indústria que tem pujança e muita qualidade.

Quanto vai ser o gasto do governo em Frankfurt? 

O orçamento total não vai passar de R$ 18 milhões. Desses, R$ 15 milhões vêm do orçamento do Estado brasileiro, pelo Fundo Nacional de Cultura. Já a Câmara Brasileira do Livro teve autorização para captar, via Lei Rouanet, R$ 13 milhões, dos quais nada ainda foi captado. Então, o que temos garantido hoje são R$ 15 milhões, e ainda faltam R$ 3 milhões para fechar o orçamento. Esse dinheiro virá ou de renúncia fiscal ou de patrocínio.

Uma pergunta que é feita há anos e cuja resposta sempre foi um pouco nebulosa é sobre o número de municípios brasileiros ainda sem bibliotecas. O senhor sabe quantos são? 

Eu não sei o número, mas sei que é vergonhoso. A questão não é apenas o número de municípios sem biblioteca. Temos que nos perguntar que bibliotecas existem e que pessoas trabalham nessas bibliotecas. A leitura no Brasil ainda é muito pequena, precisamos aumentar a familiaridade do brasileiro com o livro. Temos que ver isso realisticamente, como um obstáculo e desafio. A democratização do país não é só poder votar e ter liberdade para dizer o que pensa. Democratização é a população ter acesso à cultura. E a biblioteca é um espaço fundamental desse processo.

Vanzolini e a biodiversidade da Amazônia - Fernando Reinach

Fernando Reinach - O Estado de S.Paulo
 
 
"Perdemos Vanzo." Me veio à mente Paulo Vanzolini em sua enorme sala no Museu de Zoologia. Sobre a bancada, inúmeros vidros contendo lagartos. Em 1975, na faculdade, eu estudava o epitélio da cloaca de uma cobra. Vanzolini queria me conhecer. Fui ao museu e lá estava ele, vestindo um avental cinza, sem camisa por baixo, unhas sujas, cercado de répteis. Nunca soube por que me chamou, suspeito que ele tenha julgado minha primeira bolsa de iniciação científica. Queria ver a cara do jovem que se interessava por cloacas de cobra.

Vanzolini deixou uma primorosa coleção de sambas. Algumas rimas revelam seu humor irônico e debochado:

"Mulher que se vira pro outro lado
Tá convocando a suplente
Mulher que não ri não precisa dente".

Vanzolini deixou uma das maiores coleções de répteis. Mas sua maior contribuição foi a descoberta de como surgiu parte da biodiversidade amazônica.

Durante sua viagem a bordo do Beagle, Darwin ficou impressionado com a enorme diversidade de plantas e animais. Como teriam surgido tantas espécies? No livro A Origem das Espécies, Darwin descreve o processo de seleção natural, que ao longo de bilhões de anos deu origem a todos os seres vivos que conhecemos.

Quando a população de uma espécie é dividida em dois grupos, separados por um acidente geográfico (imagine uma população de pássaros que passa a habitar duas ilhas), existe a chance de surgir uma nova espécie. Impedidos de se encontrar, esses dois grupos deixam de acasalar (o que chamamos de isolamento reprodutivo). Como os dois grupos passam a viver em ambientes diferentes (ilhas com diferentes espécies de frutas), aos poucos, sob pressão de diferentes ambientes, sobrevivem os pássaros mais adaptados a cada um dos ambientes (em uma ilha, os bicos ficam mais longos; na outra, mais curtos). Com passar do tempo, essas diferenças aumentam até que os dois grupos deixam de ser capazes de acasalar. Pronto, uma espécie deu origem a duas outras. Esse processo, repetido milhões de vezes, gerou toda a biodiversidade do planeta.

Mas como explicar a origem de espécies em ambientes sem barreiras geográficas? É o caso da Amazônia, uma das regiões com maior biodiversidade. A Amazônia é uma imensa planície, sem montanhas, com uma floresta aparentemente contínua e homogênea. Como teriam surgido as espécies nesse ambiente em que o isolamento reprodutivo parece ser impossível? Foi esse problema que Vanzolini ajudou a resolver.

Vanzolini organizava longas expedições para coletar répteis. Desenhava uma linha reta no mapa da Amazônia e se embrenhava no mato, seguindo trilhas e rios, coletando todos os répteis que podia encontrar. Foi assim que conheceu o Brasil, milhares de quilômetros coletando répteis. De volta ao museu, analisava os animais, classificando cada exemplar, contando escamas, medindo e pesando. Desse modo é possível descobrir como uma espécie varia ao longo de cada uma dessas retas e como a frequência das diferentes espécies varia de região para região. Vanzolini descobriu uma Amazônia mais heterogênea do que imaginava. A distribuição das espécies parecia estar centrada em algumas regiões da Amazônia, como se essas regiões tivessem sido ilhas isoladas no passado.

Com a ajuda de Aziz Ab'Saber, da USP, e Ernest Williams, de Harvard, Vanzolini propôs uma explicação para a origem da biodiversidade amazônica: no passado, a Floresta Amazônica teria encolhido e se expandido diversas vezes. Durante os períodos glaciais, o clima árido fez com que parte da floresta desaparecesse. Nesses períodos, somente algumas ilhas ricas em vegetação teriam se mantido. Nos períodos interglaciais, com o aumento da umidade, as ilhas teriam se juntado, reformando a cobertura florestal. Cada vez que se formavam as ilhas, as populações de plantas e animais se isolavam e novas espécies se formavam. Com o espalhamento da floresta nos períodos úmidos, as espécies se misturavam. Juntando os dados de Aziz Ab'Saber que descreviam essas mudanças climáticas e a localização das ilhas de florestas com a distribuição atual das espécies de lagartos, os três cientistas demonstraram como teria se formado parte da biodiversidade que hoje encontramos na Amazônia.

Esse é o grande legado científico de Vanzolini. Ele desvendou parte do mistério que cerca a origem da biodiversidade amazônica.

Rotunda - José Miguel Wisnik


O Globo - 04/05/2013

 

Na roda da fortuna do futebol, sobe o Bayern de Munique e caem o Barcelona e a Seleção Brasileira

O Bayern de Munique impôs ao Barcelona uma derrota surpreendente e rotunda, somando 7 x 0 nos dois jogos pelas semifinais da Liga dos Campeões da Europa. Derrota rotunda quer dizer categórica, indiscutível, insofismável. A palavra rotunda está na origem da palavra redonda, e a derrota foi também líquida, esférica e na bola. Associando livremente, lembro-me de uma visita ao Museu Pérgamo, em Berlim, durante a Copa de 2006, quando era exibida uma exposição sobre as figurações da esfera na história humana. O único jogador citado era Garrincha: num filme em loop na entrada do museu, ele bailava um drible infinito, convidando o seu marcador para dançar, sem tocar a bola, como se o tempo, parado, girasse em círculos aos pés de uma criança (“Como se o ritmo do nada/ Fosse, sim, todos os ritmos por dentro”).

Há dois anos o Barcelona dava demonstrações do mais completo domínio de jogo, de uma posse de bola sem precedentes, de uma superioridade avassaladora sobre os adversários, como se tivesse descoberto a fórmula do futebol que os outros desconhecem, como se tivesse decodificado a própria quadratura do círculo que está na base secreta do futebol. Contando ainda com a eficácia absurda de Messi, despida de qualquer estrelismo (em contraste com a petulância irreprimível de seu rival máximo, Cristiano Ronaldo), o efeito estava próximo de uma condição supra-humana.

Mas a Roda da Fortuna, que aparecia na exposição berlinense como uma alegoria medieval, gira acelerada num futebol turbinado pela preparação atlética, exigido pela ocupação intensiva de todos os espaços, cobrado em toda linha por uma concorrência publicitária sem trégua, sugado rapidamente pelo tempo. O Barcelona, que não usa publicidade na camisa, e cujo futebol totalizante, que alguns consideraram totalitário, parecia pairar soberano acima das periclitantes economias europeias, sucumbe, junto com o Real Madri, à envolvente ascensão do futebol alemão, que parece, pelo menos por um momento, equalizar o poder futebolístico com o poder econômico nacional. Como já tem sido comentado, o futebol desses times alemães, o Bayern e o Borussia Dortmund, combina qualidades do Barcelona com mais volúpia, intensidade e verticalidade atacante. O giro de bola paciente, meticuloso, calculado e às vezes tedioso do time catalão, é contrastado por uma explosão sôfrega de contra-ataque. A inteligência tática se combina com técnica, dribles e vitalidade interna.

Não acredito que o ciclo do Barcelona esteja terminado. Acredito, isso sim, que esteja se dando uma espécie de revolução dentro da revolução de um futebol europeu jogado compactamente, e no qual, por uma espécie de aceleração, o feitiço reverte contra o próprio feiticeiro, aplicado por um outro feiticeiro da vez. Longe desse futebol estranhamente vivo, pela intensidade com que se supera, o brasileiro não tem sabido como sair da condição de espectro de si mesmo.

O Brasil jogou com o Chile num Mineirão renovado, mas num gramado castigado, segundo li, por shows realizados nos dias anteriores. A bola era essa usada na Copa do Brasil, que parece uma pipoca doce pela sua mistura informe de preto, amarelo e vermelho, distribuídos entre figuras meio geométricas e pinceladas indistintas que não dão leitura e não oferecem uma boa diferenciação de figura e fundo. Os detalhes, altamente sintomáticos, podem parecer desimportantes, mas só para uma cultura futebolística degradada que esqueceu o que é o campo e a bola. Não ouvi nenhum comentário a respeito disso na transmissão da Globo, entre os elogios irrestritos ao estádio. A esfera parecia pipocar continuamente no terreno mais irregular do que deveria ser, e queimava mais nos pés brasileiros do que nos chilenos.

Luiz Felipe Scolari substituiu o meio-campista Jadson pelo atacante Osvaldo caindo pela direita, que era imediatamente anulado por três adversários quando pegava na bola. O time, que não estava mal na partida naquele momento, perdeu o meio-campo, abandonado a um Ronaldo Gaúcho solitário. Esse tipo de situação (jogadores isolados pela ponta, na ilusão de que somam mais um elemento ao ataque destituído de alimentação) não existe mais no futebol contemporâneo, nem nas seleções medianas. A torcida começa com o “sou brasileiro com muito orgulho” e não espera muito para começar as vaias. Neymar desenha-se como o possível bode expiatório dessas velhas síndromes, se a Roda da Fortuna não girar a favor de um renascimento, enquanto João Havelange foge pela porta dos fundos.


sexta-feira, 3 de maio de 2013

A Primavera na sombra - Yan Boechat e Dubes Sônego

Para o Valor, de Túnis e Cairo 

Valor Econômico - 03/05/2013


 Dois anos após os levantes no mundo árabe, a economia patina, a política não avança e há quem tenha saudade da ditadura.



Meia dúzia de toalhas puídas descansam em um varal de chão em frente à barbearia. Secam sob o sol ainda tímido. Lá dentro, a luz fraca, no teto baixo, ilumina a saleta onde mal cabem duas cadeiras de barbeiro, decorada com versos do Corão emoldurados nas paredes e bancos de madeira nas laterais. Merhez Zouri usa uma máquina preta pequena e barulhenta para fazer os últimos ajustes no cabelo do cliente, cortado bem curto nas laterais e com volume em cima, como gostam os jovens tunisianos. Fala pouco, mas segue o ritual universal dos barbeiros. Espelho a 45 graus de cada lado da orelha para checar como está o corte na nuca, escovinha no pescoço para retirar os pelos, batida nos ombros para não deixar que os fios de cabelo se juntem à roupa. Tudo muito cerimonioso, tudo em silêncio.

Aos 21 anos, Zouri é um veterano das batalhas de rua que incendiaram a Tunísia e deram início ao movimento que ficou conhecido como Primavera Árabe. Assim como milhares de jovens de sua idade, em janeiro de 2011 ele foi às ruas da capital, Túnis, para atirar paus, pedras e tudo o que encontrassem pela frente contra as forças de repressão, nos protestos que acabaram por derrubar o ditador Zine el Abidine Ben Ali. A desilusão com os resultados do levante, no entanto, o tornaram saudosista.

"Sabem quem é esse?", pergunta, apontando para a foto de um homem de terno preto, uma faixa roxa repleta de medalhas grandes a cruzar-lhe o peito, postado ao lado da bandeira da Tunísia, que faz as vezes de tela de fundo de seu telefone celular. "É Ben Ali. Deixo a foto dele aqui para mostrar para todo mundo que eu queria que ele voltasse", diz, olhando para a imagem clássica do ex-ditador, que por décadas decorou os prédios públicos do país.

Zine el Abidine Ben Ali, o homem que comandou a Tunísia com mão de ferro por 23 anos, partiu no dia 14 de janeiro de 2011. Acuado por maciços protestos populares, reuniu a família, juntou os pertences mais valiosos e embarcou em um jatinho particular com direção à Arábia Saudita. Com a queda do ex-general do exército que conquistara o poder por meio de um golpe de Estado, chegava ao fim um ciclo de seis décadas de ditaduras caracterizadas pela combinação de valores seculares e brutal repressão política e religiosa neste pequeno país do Norte da África, famoso por suas praias paradisíacas e por seus cenários desérticos exuberantes nas dunas do Saara.

Foi a queda de Ben Ali, muito mais do que as manifestações de rua iniciadas em 18 de dezembro de 2010, após a auto-imolação de Mohammed Bouazizi, um jovem vendedor de frutas no interior do país, que serviu como estopim para as revoltas que tomaram o mundo árabe no inverno de 2011. A queda do tirano diante de protestos populares foi o catalisador para que jovens reunissem coragem suficiente para ir às ruas do Egito, da Líbia, da Síria e de outros países para enfrentar ditadores. Mas muito mais do que um movimento ideológico, a Primavera Árabe foi uma resposta às condições econômicas e sociais que entraram em um processo de decadência ainda mais acelerada após a crise financeira de 2008. Merhez Zouri foi à rua por isso. Nos meses que antecederam a chamada Revolução de Jasmim, não conseguiu entrar em uma das universidades financiadas pelo Estado. Sem conhecer quem tivesse boas relações no governo, viu suas repetidas tentativas de conquistar um emprego no serviço público frustradas. "Eu me arrisquei na revolução porque não havia chances para mim e para praticamente ninguém aqui do meu bairro. Acreditávamos que tirando Ben Ali deixaríamos de ser pobres", diz.

Manifestante registra com tablet imagens de protesto pró-governo em Túnis; a tecnologia digital foi empregada amplamente nos primeiros meses da Primavera Árabe

Zouri é um jovem moreno, de cabelos quase lisos e de cara fechada, que facilmente passaria por brasileiro. Vive com os pais no Ibn Khal Doun, bairro operário como muitos das periferias das grandes cidades brasileiras, distante pouco mais de uma dezena de quilômetros do centro de Túnis. Por ali, é fácil encontrar grafitado o tradicional "A.C.A.B.", anagrama para "All Cops Are Bastards" (todos os policiais são "bastardos"). Nos cafés, dezenas de jovens passam o dia tomando chá, vendo futebol e fumando shisha, o narguilé.

Nos últimos dois anos, pouca coisa mudou no Ibn Khal Doun. "Só piorou. Os preços estão mais altos e os empregos, que já eram poucos, sumiram", diz. A única ocupação que Zouri encontrou foi na pequena barbearia de um conhecido, nas proximidades de casa, onde garante a principal renda da família: "Foi tudo um erro, queria mesmo que a revolução nunca tivesse acontecido". A frustração que acompanha o jovem barbeiro tunisiano é compartilhada por milhões de pessoas no Norte da África, no Oriente Médio em boa parte dos países ocidentais, que viam a chamada Primavera Árabe como um momento de transformação profunda nessa que é uma das regiões mais conturbadas do planeta. As decepções não são homogêneas. Longe disso.

Há jovens pouco politizados que esperavam uma melhora rápida e significativa nas condições econômicas. Há a elite educada desses países, que acreditava estar colocando fim a décadas de controle social e cultural por parte dos ditadores. E, por fim, havia toda a expectativa da comunidade internacional de que os países árabes entrassem em um ciclo de democratização aos moldes ocidentais.

Nada disso ocorreu. Dois anos após o que muitos analistas políticos chamaram de "a queda do muro de Berlim árabe", os países que derrubaram seus ditadores vivem momentos de crise profunda. Seja ela política, econômica ou sectária. No fim, com exceção da Síria, onde o futuro ainda é uma incógnita, Tunísia, Egito e Líbia avançam em direção ao cenário menos esperado quando das revoluções: o acirramento conservador proporcionado pelos movimentos islâmicos, os grandes vencedores políticos da Primavera Árabe.

"Os movimentos islâmicos saíram-se vencedores não exatamente por serem islâmicos. Ganharam as eleições porque, no fim das contas, eram os únicos verdadeiramente organizados politicamente", diz Stacey Gutowski, professora do Programa de Estudos sobre Oriente Médio e Mediterrâneo do King"s College, em Londres. No caos pós-revolução, nenhum grupo político era tão organizado, tão capilarizado quanto os movimentos islâmicos, que passaram boa parte das últimas cinco décadas atuando no subterrâneo. O egípcio Hosni Mubarak, o líbio Muamar Gadafi, Ben Ali e mesmo o sírio Bashar Al Assad reprimiram com rigor todos os movimentos políticos que tinham base islâmica. No Egito, a Irmandade Muçulmana, apesar de muito ativa, estava na ilegalidade há quase quatro décadas. Na Tunísia, o Ennahda, cópia independente do movimento egípcio, foi banido e boa parte de seus principais líderes foi para o exílio.


Mas, em comum, todos eles montaram uma rede de assistencialismo, tendo como base as mesquitas. Em países onde um quarto da população vive abaixo da linha da pobreza, como no Egito, qualquer auxílio material ou econômico é sinônimo de poder.

"Os secularistas sempre foram mais ligados às forças sociais e culturais internacionais, sempre foram mais cosmopolitas, mas ao mesmo tempo estavam longe da população mais simples", diz James Reilly, professor de história moderna do Departamento de Estudos das Civilizações do Oriente Médio da Universidade de Toronto. "Quando chegou o momento das eleições, a histórica organização dos movimentos islâmicos permitiu que eles mobilizassem os eleitores de forma muito mais eficiente", diz.

No Egito, maior e mais importante país da região, o vencedor das eleições - democráticas e limpas, atestam observadores internacionais - foi a Irmandade Muçulmana, o principal movimento islâmico de todo o mundo árabe, nascido nos anos 1920. Desde que Mohammed Morsi se tornou o presidente do país, o Egito aprofundou ainda mais sua crise. Seja por causa da oposição, que não aceita o fato de Morsi tentar promulgar uma nova Constituição que lhe dá poderes quase ditatoriais e tem muitos pontos baseados na sharia, a lei do Corão, seja por causa de uma profunda crise econômica. Na Líbia, o cenário é ainda mais complexo. Após uma guerra civil sangrenta, que terminou com a morte brutal do ex-ditador Muamar Gadafi, o país tenta evitar que divisões históricas façam surgir um novo confronto. Como nos tempos de Gadafi, o Leste, principalmente a região de Benghazi, reclama de não receber a atenção que merece do Oeste, onde está a capital, Trípoli.

A diferença agora é que o país está armado, com divisões tribais mais acirradas e com crescente participação de grupos islâmicos extremistas. Um ataque orquestrado pela Al Qaeda matou o embaixador Chris Stevens no consulado dos Estados Unidos em Benghazi, em setembro. Na semana passada, um carro bomba explodiu na frente da embaixada francesa em Trípoli, na Líbia, deixando dois guardas feridos.
Grupos islâmicos radicais também têm tido participação importante na Síria, onde a guerra civil, que já matou mais de 70 mil pessoas, parece distante do fim. Desde que uma jihad foi decretada por clérigos sunitas, combatentes ligados a movimentos radicais de todo o mundo árabe seguiram para a Síria para combater as forças do ditador Bashar Al Assad, que pertence à corrente minoritária Alauita e é apoiado pelos xiitas do Irã. Bem armados e experientes, esses combatentes estão ganhando espaço na guerra civil e já há quem preveja que, em caso de derrota do regime, ocorra uma tentativa de instalar um Estado islâmico radical no país. É na Tunísia, no entanto, que a vitória dos movimentos islâmicos e da crescente onda de conservadorismo é mais emblemática. E não só pelo fato de ter sido ali o berço da Primavera Árabe. Nenhum país no mundo árabe tinha uma relação tão distante entre Estado e igreja quanto a Tunísia, que, ao longo das últimas seis décadas, se transformou em uma ilha de secularismo, imposto pela mão pesada do Estado.

"Antes da revolução, o uso do véu e da barba eram até malvistos. Hoje, já se escutam histórias de famílias que pressionam as filhas a usar o véu, com medo de que sejam discriminadas ou tenham dificuldade para arrumar um namorado e casar", diz o embaixador brasileiro em Túnis, Luiz Antônio Fachini Gomes, que chegou ao país em setembro de 2010, três meses antes do estouro da revolução.

Túnis ainda tenta ser uma pequena Paris. Na avenida Habib Bourguiba, que homenageia o ex-ditador que garantiu às mulheres liberdades como o direito de escolher o marido e a participação ativa em todas as áreas da vida civil, há dezenas de cafés em estilo francês, com pequenas mesas redondas e cadeiras de vime. São pontos de encontro onde os tunisianos se reúnem para conversar, tomar café e beber cerveja, uma liberdade impensável na vizinha Líbia ou na distante Arábia Saudita. Mulheres elegantes ainda caminham sobre saltos altos por entre as árvores de copas aparadas desta alameda de prédios em estilo neoclássico do século XIX. Mas, lentamente, os véus, antes proibidos, vão ganhando as ruas.


Pela força e por políticas públicas, a Tunísia coibia manifestações religiosas que ameaçassem interferir na estrutura social de um país que se vê, ainda, mais europeu que árabe. Durante os últimos governos ditatoriais do país, mulheres que usassem o véu e homens que ostentassem a barba no estilo muçulmano eram convidados a dar explicações à polícia. A liberação só era feita depois da assinatura de um documento em que se comprometiam a tirar o véu e cortar a barba. A recusa poderia significar a perda de documentos e dificuldades para encontrar emprego, estudar e usar serviços públicos básicos. O ex-jogador de futebol Anis Hamrouni, ponta-direita promissor que chegou à seleção sub-20 da Tunísia, foi vítima de situações como essa inúmeras vezes.

Desde que parou de jogar, há sete anos, por causa de uma meningite, Hamrouni se aproximou da religião e se tornou salafista, membro da corrente muçulmana que advoga uma interpretação mais radical do Corão e que pretende implantar a sharia em todo o mundo árabe. Salafistas como ele foram duramente perseguidos no governo de Ben Ali. "Fui preso inúmeras vezes, só porque mantinha a barba grande, como agora, ou porque simplesmente não queria usar roupas ocidentais", conta. "Não podíamos ser o que nosso profeta Maomé nos ensinou a ser."

Hamrouni frequenta uma das 500 - de um total de 5 mil - mesquitas tunisianas que passaram a ser dominadas por salafistas após a queda de Ben Ali, há dois anos. Ele, como todos os que seguem a mesma linha religiosa, acredita que não há espaço para democracia na Tunísia, assim como não há espaço para direitos das mulheres ou mesmo a necessidade de criar uma nova constituição. "Alá nos deu tudo, está tudo no Corão, não precisamos de novas leis, não precisamos de homens nos governando, quem nos lidera é Alá", diz ele, profundo admirador de Osama Bin Laden.

São homens como Anis Hamrouni que representam, ao menos para a população mais ocidentalizada da Tunísia, a maior ameaça a décadas de contínuas conquistas liberalizantes. "Essa não é a Tunísia que conheço. Não consigo acreditar que mulheres sem véu estão sendo xingadas nas ruas, e que pessoas que defendem a sharia têm voz na sociedade", diz o jovem Ashraf Ayadi. Ele, como uma parcela importante da população urbana da Tunísia, é um muçulmano não muito praticante. Vai à mesquita vez ou outra, mas tem um estilo de vida muito ligado ao Ocidente. "Aqui na Tunísia, não somos 100% árabes, somos uma mistura de povos. Por isso somos essa ilha de secularismo", afirma, em inglês impecável. "Mas se os islamistas continuarem a ganhar força, as coisas vão piorar", diz ele, que, aos 22 anos, trabalha como tradutor e radialista em Túnis.

Para as mulheres, as coisas já pioraram. No Egito, onde em 2010 a maior parte da população (54%) era a favor da segregação por gêneros no ambiente de trabalho e 82% apoiavam a adoção da pena de morte por apedrejamento em caso de adultério, o retrocesso em relação a conquistas femininas consolidadas no Ocidente é imenso. Não só a promessa de campanha de uma vice-presidente mulher não vingou, como a cota parlamentar de mulheres, que existia, foi removida.

Entre mulheres de classe média, muitas das quais são muçulmanas e foram às ruas ajudar a derrubar o governo em 2011, o medo agora é que uma nova constituição legalize práticas que são regra em áreas mais pobres, como o casamento a partir dos 13 anos - a Irmandade Muçulmana defende a idade de 9 anos.


No Egito, até a descriminalização da mutilação do clitóris, da qual escapa somente um terço das meninas egípcias, chegou a ser cogitada pelo atual presidente, ligado à Irmandade Muçulmana. Mas acabou descartada. O número de casos de violência sexual também aumentou significativamente, mesmo em áreas que eram frequentadas livremente por mulheres nos protestos de 2011, como a Praça Tahrir, território proibido para mulheres sozinhas, em especial à noite. A área ficou tão perigosa que, só no aniversário do início dos protestos, em 25 de janeiro, foram confirmados 18 casos, muito deles de estupros coletivos.
Na Líbia, onde um dispositivo de lei que garantia igualdade de direito às mulheres foi removido da constituição redigida após a guerra civil, a situação é semelhante, segundo informações da Anistia Internacional.

Na Tunísia, onde até a queda do antigo regime as mulheres iam à praia em biquínis, Amina Tyler, uma jovem de 19 anos, foi condenada à morte por apedrejamento por um clérigo radical depois de postar na internet uma foto em que aparecia fazendo topless, com a frase "F... a sua moral" pintada no corpo, em árabe. O protesto contra a crescente repressão às mulheres no país repercutiu mundialmente e terminou com o rompimento de Amina com a família religiosa. Ela está escondida e quer fugir para a França. Teme ser violentada por policiais ou morta por salafistas.

Os salafistas fazem parte do grupo mais extremo dos movimentos islâmicos. Ao contrário da Irmandade Muçulmana ou do Ennahda, na Tunísia, advogam que todo o mundo árabe precisa voltar a ser um califado. De origem sunita e surgido em sua versão moderna no século XVIII, o salafismo passou a ganhar mais força nos anos 1960 e veio a desaguar em movimentos radicais como a Al Qaeda.

Apesar de os partidos moderados islâmicos, como a Irmandade Muçulmana, no Egito, ou o Ennahda, na Tunísia, não compartilharem da visão desses movimentos, nenhum deles teve força suficiente para impedir o avanço dos salafistas no período pós-revolução. Para esses grupos não há espaço para negociação e o uso da força tem sido sistemático em defesa de suas ideias. "Há um crescente descrédito nas instituições que deveriam proteger os direitos humanos", diz o vice-diretor da Anistia Internacional para o Oriente Médio e Norte da África, Hassiba Hadj Sahraoui.

O auge dessa política de medo ocorreu em 6 de fevereiro na Tunísia, quando o líder da oposição Chokri Belaid foi assassinado com quatro tiros. Belaid era crítico feroz dos salafistas e acusava o Ennahda de não tomar nenhuma ação para controlar os mais radicais. A morte de Belaid pode muito bem ter sepultado o sonho de que um novo mundo de democracia e liberdade floresceria nos países árabes. A pergunta que ficou no ar foi: se não deu certo na Tunísia, o mais secular dos países da região, onde mais poderá dar?


"As próximas eleições vão definir se os islamitas vão consolidar o poder que conquistaram. Agora, mais do que antes, a questão econômica será crucial para definir quem sairá vitorioso", diz Amel Saffar, professor do Instituto de Altos Estudos Econômicos de Cartago e integrante da Associação Tunisiana para a Democracia, um dos grupos responsáveis pela observação das disputas eleitorais.

As próximas eleições parlamentares no Egito e na Tunísia estão marcadas para outubro, apesar de não haver certeza se elas de fato ocorrerão. No Egito, estavam programadas para o mês passado, mas os protestos violentos do início do ano no Cairo e em cidades próximas ao canal de Suez, somados às promessas da oposição de boicote, levaram Morsi a adiá-las para outubro. Agora o presidente dá sinais de que haverá novo adiamento. A razão, segundo ele, é que precisa de mais tempo para negociar um acordo de auxílio financeiro com o FMI (Fundo Monetário Internacional).

Muito mais que a Tunísia ou a Líbia, que passa por um momento de reconstrução pós-guerra civil, é o Egito o país mais pressionado pela decadência econômica que tomou conta dos países da região. Desde a queda de Hosni Mubarak, há dois anos, o processo de deterioração do cenário econômico se acelerou rapidamente. O PIB, que crescera 5,14% em 2010, decepcionou, com 1,7% em 2011; no ano passado, teve apenas uma leve recuperação, fechando em 2,21%.

Mas o problema mais grave está no balanço de pagamentos. Desde janeiro de 2011, as reservas em moeda forte caíram de US$ 36 bilhões para cerca de US$ 13 bilhões. O problema é grave para um país que mantém uma política de subsídios agressiva em produtos que precisa importar, como o trigo, do qual é o maior importador mundial, e o petróleo. Hoje o pão comercializado nas ruas do Cairo, por exemplo, custa o equivalente a menos de US$ 0,10, enquanto o litro da gasolina é vendido nas bombas a US$ 0,20. O gás de cozinha chega ao consumidor egípcio a meros 7% do valor internacional de mercado. Sem ajuda externa, os US$ 13 bilhões em caixa são suficientes para apenas três meses de importações.

A inflação disparou nos últimos meses. A taxa anual, que em dezembro estava em 5%, pulou para 8% em fevereiro. Ao mesmo tempo, a libra egípcia perdeu mais de 10% de seu valor apenas neste ano, tornando a missão do governo de abastecer o país com commodities importadas ainda mais difícil. A taxa de desemprego oficial saiu de 9% em 2010 para 12,3% no ano passado. O FMI, no entanto, projeta que os desempregados serão 13,5% da população economicamente ativa ao fim deste ano e 14,2% em 2014.
O Egito não quer aceitar o acordo com o Fundo para receber um pacote de auxílio de US$ 4,8 bilhões porque sabe que terá de adotar medidas de austeridade duras, como o corte de subsídios e o aumento de impostos, como exige o FMI. Os reflexos de um acirramento econômico em um país já dividido e instável são imprevisíveis.


Para não quebrar, o Egito anda de pires na mão. O Catar já deu US$ 5 bilhões e prometeu mais US$ 3 bilhões. A Turquia se comprometeu a transferir em dois meses US$ 1 bilhão, dos US$ 2 bilhões que prometeu no ano passado. Mesmo a Líbia, que se transformou em pouco mais que um punhado de cidades autônomas ricas em petróleo, anunciou no mês passado ajuda de US$ 2 bilhões.

A Tunísia também sofre com uma economia que caminha a passos lentos. Mas foi mais rápida nas negociações com o Fundo e garantiu, na semana passada, crédito de US$ 1,75 bilhão em caso de necessidade. O valor ficará disponível por 24 meses, segundo anunciou no dia 19 a diretora-gerente do Fundo, Christine Lagarde. Na lista de exigências do Fundo estão velhas recomendações conhecidas dos brasileiros, como políticas para a contenção da inflação, ajustes de despesas públicas, garantias à estabilidade do setor bancário e maior flexibilidade do câmbio, para que o país possa ganhar competitividade, melhorar suas contas externas e reservas internacionais.

Na praça Tahrir, na região central do Cairo, talvez o maior símbolo da Primavera Árabe, ainda estão as tendas montadas pelos manifestantes para marcar território e resistir às investidas das forças de segurança do governo. Um museu foi improvisado com paus e lonas plásticas para homenagear os mártires dos conflitos. Lá estão expostas charges políticas, pequenos textos e fotos de jovens desfigurados pela violência, de batalhas, de momentos de heroísmo e alegria. Há carcaças de carros incendiados, fezes nas entradas do metrô e muita poeira cobrindo a rua. Suja, decadente e insegura, ela, de certa forma, se transformou em um símbolo também do período atual.

"Os egípcios que fizeram a revolução estão cheios de perguntas sem resposta", diz Mohamad Shinnewy, jovem documentarista egípcio que vive na Tahrir desde o início dos protestos. Magro, a barba por fazer, os cabelos sem corte presos em um rabo de cavalo, Shinnewy é o retrato dos manifestantes de hoje. Está ali sem saber muito o que fazer, e diz: "Continuamos aqui para defender a revolução".

A rotina modorrenta e desesperançada é quebrada pelos constantes choques com a polícia. Eles ocorrem, em geral, nas proximidades da embaixada americana, a cerca de 500 metros da Tahrir. Sob as luzes fortes da avenida que margeia o Nilo, os manifestantes avançam e recuam em ondas, atirando paus, pedras e coquetéis molotov. Os mais destemidos à frente, alguns deles crianças, de peito aberto, se arriscando a receber tiros com munição para matar passarinhos. Do outro lado, a polícia responde também com pedras e bombas de gás lacrimogêneo. Depois de dois anos de enfrentamentos, um ar de normalidade toma conta do cenário.

O caos controlado atrai uma leva de vendedores ambulantes que se acostumaram a ganhar a vida em meio a conflitos como esse, que neste ano já fizeram mais de 70 mortos e cerca de 1.400 feridos. Misturados aos manifestantes, no meio da avenida, eles comercializam pães, lenços de pano - bastante úteis para respirar no ar saturado de gás lacrimogêneo -, água, sucos e chás. Alguns, como o dono de um grande carrinho de metal, já têm até slogans para desbancar a concorrência: "Aqueça-se com um chá para derrubar Morsi".

“Eu sou de um país que se chama Pará” - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

 O Estado de S.Paulo - 03/05/2013

Por que tanta gente de talento não chega ao Sul? Onde fica o muro que nos separa?

BELÉM

Quando a mediadora Renata Ferreira disse que o meu conto o homem que viu a osga comer meu filho a tinha aterrorizado, assustei-me. Não tenho este conto. Ela riu e explicou:“O que vocês chamam de lagarto ou lagartixa, chamamos de osga.Aliás, está no Aurélio”. Estava certa, o conto existe.
Quando ouvi a fotógrafa Elza Lima contar uma história minha em que os olhos dos cavalos do carrossel de meu avô eram petecas, reagi: “Como petecas? Eram bolas de gude”. Elza: “Pois aqui, petecas são as bolasde gude”.Caminhava pelo Espaço Palmeira, um feirão popular, no centro da cidade.Aqui foi uma tradicional fábrica de bolachas, biscoitos e doces, fundada em 1892. Demolida, restou uma área de piso concretada sobre a qual se armam as barracas.Então,ouvi: “Vamos fazer nossa sombra aqui”, disse o mulato de chapéu branco. E sentou-se com dois amigos num canto. Não havia sombra alguma, ao contrário, era um solão, mas gostei da expressão. Porque grande e diverso é o Brasil.

Vim para a 17.ª Feira Pan-Amazônica do Livro, que no ano passado vendeu 850 mil livros, me contou Paulo Chaves Fernandes, secretário de Cultura, arquiteto que criou as Docas e o Mangal das Garças, imperdíveis. A Pan-Amazônica deste ano termina no próximo domingo com Affonso Romano de Sant’Anna. Pelo palco principal passaram Ziraldo,Tony Bellotto, Cristovão Tezza, Guilherme Fiuza, Tiago Santana e José Castello. Para terem ideia, o folheto com a programação tem 74 páginas com oficinas, seminários, aulas, lançamentos, mesas-redondas, salão do humor.

Tudo acontece no Hangar, um centro de convenções moderno e funcional. Ao falarmos,temos à nossa disposição auditórios variadosque vãode300 a 1.500 espectadores. Distante daqueles espaços fechados por divisórias de eucatex da Bienal do Livro de São Paulo, ondea barulheira do salão penetra e ninguém ouve o que se fala.

Lembrei-me que estive na primeira Pan-Amazônica, ainda no centro, sufocada, apertada, mas cheia de gente. Assim como me lembro de uma casa de sucos da terra, onde havia um de pinha que era puro regalo. A casa fechou, virou loja. Por outro lado,nas sorveterias você mergulha a colher em taças de sorvete de tapioca (deslumbrante), buriti, bacuri, cupuaçu, açaí, graviola, manga.

Quem me indicou a Cairu como o melhor sorvete da cidade foi Fafá de Belém. Opinião considerável.O Pará é terra da Fafá, da Gaby Amarantos, da Dira Paes, da Olga Savary (que está na cidade em que nasceu, emocionada,há muito não vinha), Leah Soares. E de Dalcídio Jurandir, um dos grandes escritores brasileiros de todos os tempos.

A feira deste ano foi dedicada a Ruy Barata, poeta, compositor, jornalista, político progressista, ícone paraense, homem que navegou em todas as águas. Dele é a frase epígrafe desta 17.ª Pan-Amazônica: “Eu sou de um país que se chama Pará”. Milhares de crianças vagando entre centenas de estandes. Perguntando: “O senhor é escritor?”. Correndo atrás do Ziraldo, que se intitula “o velhinho maluquinho”. Vi Ziraldo, com tremenda luxação no ombro, cheio de dores, sentar-se e autografar centenas de livros. Mais do que profissional, ele ama o que fez e adora ver ameninada em torno.

Certa noite,fomos jantar nas Docas, olhando  o rio de frente.Chegavam homens feitos querendo tirar uma foto com o “menino maluquinho”. Chegavam também jovens querendo uma foto com TonyBellotto, que tinha acabado de fazer uma bela fala sobre seu romance Machu Picchu.Depois,elas viravam para mim:“ E o senhor é alguma coisa?”.Respondi com a maior seriedade: “Não, sou apenas pai do Bellotto”. E elas: “Não precisamos tirar fotos do senhor, não?”. Felizes com minha negativa, partiam, ruidosas, enquanto voltávamos ao filé de filhote, peixe delicioso, com risoto de pupunha e jambu, e ao pato com tucupi. Belém é sabor e é necessário comer, de preferência à noite, no Mangal das Garças, parque nascido à beira- rio,cheio de pássaros, tartarugas, borboletário. Iguanas verdes, figuras pré-históricas, vagueiam pelos gramados.

Tomei um avião e cheguei a Marabá 50 minutos depois. O nome da cidade vem de um poema de Gonçalves Dias. Região ligada à siderurgia e celebrizada pela Serra Pelada. Estudantes e professores se juntaram no Cine Marrocos para conversar com escritores. É a Pan-Amazônica expandida. A feira não acontece apenas em Belém, vai ao interior, agrega, abre-se às populações. A ideia avança pelo Brasil. A fotógrafa Elza Limame contou que esta “feira fora de feira” nasceu após a leitura de uma crônica, aqui, minha no jornal, falando de Fortaleza, da bienal fora da bienal, quando autores vão aos bairros e às cidades do interior. Andressa Malcher, coordenadora,apanhou a ideia no ar e desenvolveu.

Sentei-me no palco ao lado de Ademir Brás, jornalista, advogado e poeta de primeira linha. Ele descreve sua terra, a gente, as paisagens, o Rio Tocantins,manso e largo, silencioso. Pequenas casas coloridas inclinam se para as águas. A poesia de Ademir oscila entre a ternura e a indignação, com ritmo e afeto. Por ele e pelos jovens, soube do Pará.E contei das coisas de cá. Porque tanta gente de talento como Ademir não chega ao Sul? Onde fica o muro que nos separa?

Força que nunca seca

O Estado de S.Paulo - 03/05/2013

Gênio da música nordestina luta pela vida em meio a drama familiar

Julio Maria

Os dedos de Seu Domingos se movem lentamente. Há meses estavam duros, em nada parecidos com aqueles que a diva do jazz Sara Vaughan beijou depois de vê-los incendiar as teclas de uma sanfona no Free Jazz Festival de 1987. Nem de longe os mesmos que Luiz Gonzaga nomeou herdeiros legítimos de seu reinado. 

Ao sentir a mão da mulher Guadalupe tocar a sua, Dominguinhos a aperta forte. Sua reação mais comovente depois de oito enfartes, 23 minutos sem oxigenação no cérebro, uma traqueostomia, dois meses na UTI e desavenças familiares sobre seu próprio leito até parece milagre. A luta de Dominguinhos não é só pela própria vida. Seu estado “minimamente consciente”, conforme diz o último boletim médico divulgado em 18 de março, lhe permite perceber o que o rodeia de bom e de ruim. 

Quando o flautista Proveta surgiu tocando no quarto, acompanhado pelo sanfoneiro Mestrinho, o homem só faltou dançar. Já nas duas das vezes em que o filho Mauro Moraes apareceu para visitá-lo, discussões tensas entre Mauro e um acompanhante de quarto que permanece ao lado do leito a pedido de Guadalupe entristeceu o músico profundamente. Se pudesse fazer um pedido, Domingos certamente suplicaria mais por paz do que pela própria vida. 

A luta do maior músico da cultura nordestina, um dos mais geniais instrumentistas do País, se dá em um quarto do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Assim que foi diagnosticado com um câncer de pulmão, fez tratamentos de rádio e quimioterapia sem jamais falar sobre a doença com a imprensa. Sua incapacidade de dizer não, mesmo debilitado, o levou, em dezembro de 2012, até Exu, no interior de Pernambuco, para tocar nos 100 anos de nascimento de Luiz Gonzaga. 

Uma decisão difícil, tomada depois de uma noite de lágrimas como respostas às súplicas de Guadalupe. “Eu dizia para ele não ir e ele só chorava. Ele nunca diz não.” Como não entra em avião nem sob tortura, Dominguinhos saiu de carro de Recife para Exu. A cada dois quilômetros, ligava para dizer a Guadalupe como estava. Em uma ligação, reclamou de febre. “Então volta, homem. Volta pelo amor de Deus”, ela implorou. Domingos foi até o fim e tocou já sentindo o pulmão fechar. Quatro dias depois, passou mal, foi internado e começou a lutar pela vida.


Visita

Três rapazes chegaram quarta-feira do Recife só para ver Dominguinhos. Era um sonho conhecer o mestre. Guadalupe aceitou levá-los até o quarto. Enquanto Domingos dormia, ela contava sobre o dia em que o “trouxe de volta”. Guadalupe implorava para que o marido saísse de seu estado de inconsciência. “Domingos, acorde. Sei que você está me ouvindo. Venha comigo homem, você consegue. Pegue nas mãos desse homem de branco a seu lado e venha...” 

De repente, nas lembranças de Guadalupe, o sanfoneiro levou o tronco para frente e ergueu os braços. Quando tentou falar, percebeu que não podia e, então, sua expressão foi de pânico. Guadalupe contava esta história quando percebeu que os rapazes não olhavam surpresos mais para ela, mas para Dominguinhos. Seu Domingos, notou a mulher, estava acordado e chorando. “Ele ouviu o que eu disse e se emocionou.” Ela não chamou os médicos, só confortou o paciente. “Não desista, não deixe o que aconteceu hoje abalar você.” 

Antes dos três fãs chegarem do Recife para beijarem suas mãos, uma cena triste vivida sobre seu leito pela segunda vez deixou Dominguinhos visivelmente triste. Quem passou pelo hospital foi Mauro Moraes, filho do sanfoneiro e de Janete, sua primeira mulher. Mauro, 53 anos, não tem boas relações nem com Guadalupe, a segunda esposa de Domingos, nem com Liv, a filha do casal. 

Segundo testemunhas, Mauro chegou para visitar o pai quando se desentendeu com Márcio, o acompanhante que Guadalupe contratou para ficar o tempo todo ao lado de Dominguinhos. Mauro pediu para ficar a sós com o pai, mas Márcio se negou a deixar o quarto. Mauro então teria começado uma discussão acalorada com Márcio, pedindo privacidade e dizendo que ninguém teria o direito de fazer aquilo com ele. O clima esquentou e impropérios foram trocados. Mauro vive no Rio de Janeiro mas está em São Paulo desde que o pai chegou ao hospital. 

Contra a vontade de Liv e de Guadalupe, hospedou-se no apartamento de Dominguinhos e diz que não tem planos de sair de lá tão cedo. “Sou filho legítimo, que mal tem em eu ficar na casa dele? Estão me tratando como se eu fosse um bastardo. Eu só quero que me respeitem. Dizem que estou atrás da herança do meu pai. Eu nunca liguei para isso, nem carro eu tenho”, diz. Guadalupe não gosta de alimentar discussões, mas diz estar exausta das desavenças provocadas por Mauro. 

Em março, sites publicaram frases do rapaz dizendo que seu pai estava “em coma irreversível”, informação nunca confirmada pelo hospital. Dias depois, redes sociais multiplicavam o boato de que Dominguinhos havia morrido. “Você imagina as pessoas me ligando dizendo que meu pai morreu”, conta Liv. “Quando disse que ele estava em coma irreversível, só repeti o que um médico disse para mim.” 

O Sírio Libanês não dá notícias que vão além de um boletim divulgado em 18 de março: “Houve melhora do quadro cardiológico, respiratório e renal. Do ponto de vista neurológico, ele apresenta estado minimamente consciente, demonstrando discretos sinais de recuperação. O paciente permanece internado, sem previsão de alta.” O coração de José Domingos de Moraes, 72 anos, tem o tamanho do mundo e segue batendo no ritmo de um xote doído e comovente.

 Dias cheios e amigos ilustres

 Os dias de Seu Domingos são agitados.
NasdependênciasdoHospital
Sírio Libanês,umdos mais
requisitadosdoPaís, Dominguinhostemuma
rotinadefisioterapia
duas vezes por dia, terapia
ocupacional e fonoaudiologia.
Faz trabalhos ainda em
uma prancha, onde é colocado
em posição vertical. No quarto
há dois meses depois de outros
doismesesna UTI,ele ainda
não se comunica verbalmente
e não fica em pé, mas
reage a estímulos, segundo a
cantora Guadalupe, que se casou
com o sanfoneiro há 37
anos. “Chegamos a nos separar”,
diz ela. “Mas voltamos a
ter contato muito próximo
quandoentendiqueDominguinhos
era mesmo do povo.”

Guadalupe contaqueas visitas
são frequentes. Entre os artistas
que o visitaram, estão
Tatto, do Falamansa, Sergio
Reis, o humorista Tom Cavalcante,
Elba Ramalho, Raul Gil,
ArismardoEspírito Santo, Proveta
e o sanfoneiro Mestrinho.
Uma visita de Alceu Valença
está agendada para hoje.

Alguns músicos levam seus
instrumentos, como Proveta e
Mestrinho. E quando não há visitas,
Guadalupe colocaCDsdo
próprio Dominguinhos. “Às vezes
ele bate o pé acompanhando
o ritmo”, diz ela. “Há quatro
meseseunãoacreditavaquehaveria
evolução alguma. Hoje eu
acredito.Elerecuperouosmovimentos,
osrinsfuncionam,está
se dedicando às fisioterapias”,
diz Guadalupe. Às vezes fazum
bicomepedindobeijo,eeudigo
a ele que isso é assédio”, sorri.



As visitas se emocionam.
“Ohmeumestre, tudo o que eu
sei foi o senhor quem me ensinou”,
disse Mestrinho. Proveta,
depois de tocar para o amigo,
abraçouGuadalupeenãosegurou
mais as lágrimas.


Assim que o pesadelo passar,
Guadalupequerlançarumsongbook
do músicocomo luxo que
ele merece. “Um material de
CDs, livro, partituras e algumas
músicas que eu vi nascer.” / J.M.