sexta-feira, 15 de março de 2013

Quando menos vale mais -Nelson Motta

NELSON MOTTA - O Estado de S.Paulo
 
 
Como disse a presidente Dilma, com conhecimento de causa, para ganhar eleições faz-se o diabo. Como fez o presidente Geisel, em 1977, editando o "Pacote de abril" para ajudar a Arena a ganhar as eleições legislativas. Entre outras leis e decretos para assegurar a maioria no Congresso, dava mais cadeiras de deputados aos Estados menos populosos e mais pobres e atrasados, dominados pelo governismo e o coronelismo. Ganhou as eleições, mas até hoje o Brasil democrático perde com esse entulho autoritário.

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A gostosa da estação - Arthur Dapieve


A chegada de um mulherão em busca de fama nas praias do Rio

Ainda não esquentou de verdade quando a gostosa da estação chega à praia. Há mães com filhos pequenos na areia, um grupo de atletas da terceira idade perto do mar, dois ou três surfistas à espera de uma onda que não virá. Ninguém presta muita atenção na mulher musculosa, de blusa e short atochados. Ela olha em volta, mas sabe que está bem adiantada. Marcou com o paparazzo apenas para dali a duas horas.

Mundo e guerras ciber - Hermano Vianna


 O Globo - 15/03/2013

 

Alguma obras de ficção não são apenas proféticas: sua leitura exerce tal influência no pensamento contemporâneo que passamos a agir para que aquele universo se transforme em realidade

Vivo momento de descobertas em série de acontecimentos reais previamente “anunciados” em romances. Exemplo da coluna anterior: não prestaria tanta atenção no meteoro russo se não tivesse lido antes a “Trilogia do Gelo” de Vladimir Sorokin. Outras obras de ficção não são apenas proféticas. Sua leitura exerce tal influência no pensamento contemporâneo que passamos a agir, pragmaticamente, para que aquele universo paralelo se transforme em realidade. Esse é o caso de “Neuromancer”, de William Gibson, cuja primeira edição completará 30 anos em 2013. Foi lá que a palavra ciberespaço apareceu pela primeira vez. Ficamos tão encantados com sua descrição ficcional que continuamos trabalhando duro para que o mundo em que vivemos fique cada vez mais parecido — para o bem e para o mal — com tudo que o livro apresentava de mais improvável.

Claro que tive que lembrar de “Neuromancer” — onde as verdadeiras guerras acontecem dentro das redes de computadores — ao me deparar com as notícias, publicadas no final de janeiro, de que a Unidade Ciber Comando do Pentágono vai passar por uma grande expansão nos próximos anos, quintuplicando seu tamanho, segundo o “Washington Post”, e passando dos atuais 900 funcionários para 4.000, segundo o “New York Times”. Fui pego de surpresa: não tinha ideia que as forças armadas dos EUA criaram um comando chamado “ciber”. Curioso e assustado, acabei encontrando a declaração de Leon Panetta, secretário da Defesa na presidência Obama, nos alertando em outubro do ano passado para a possibilidade de um “ciber-Pearl Harbor”.

Seguindo links de texto apocalítico de colunista do “The Guardian”, fui parar em artigo de 1/6/2012 assinado por David E. Sanger, o correspondente chefe do “New York Times” em Washington, que considero uma das peças jornalísticas mais impressionantes do novo século. Se não fossem as credenciais realistas do seu autor e do órgão de imprensa para o qual trabalha, eu desconfiaria que se tratava na verdade da mais delirante criação da ficção científica. Porém, o texto somente revelava pela primeira vez fatos acontecidos há vários anos.

Tudo é nebuloso. O governo Obama, com reforço israelense, teria dado continuidade a projeto secreto anterior— denominado “Jogos olímpicos” — de criação de cibervírus poderoso capaz de sabotar o programa nuclear iraniano. Provavelmente um espião conseguiu entrar em Natanz com um pen drive contendo o vírus que foi passado para a rede de computadores interna — portanto desconectada da internet — dessa usina de refinamento de urânio. Centenas de suas centrifugadoras começaram a deixar de funcionar, mas os técnicos iranianos não desconfiaram de cibersabotagem e sim pensavam que os problema eram gerados por seus próprios erros.

O que aparentemente não estava nos planos americanos (mas há suspeita de que algum hacker militar deixou essa possibilidade aberta de propósito): um laptop de engenheiro pode ter se conectado à rede interna da usina, foi infectado e depois —sem querer — transmitiu o vírus, chamado de Stuxnet, para a internet, contaminando vários sistemas, inclusive bancários. As empresas de antivírus nunca tinham visto nada parecido. Começaram a circular rumores de que deveria haver governos poderosos por trás da nova ameaça. Mas só o artigo de David E. Sanger confirmou o que ninguém tinha coragem de afirmar publicamente.

Resultado, como declarou um ex-chefe da CIA: ficou claro que “alguém cruzou o Rubicão”. Entramos em nova fase, com consequências imprevisíveis, da história das guerras e da estratégia militar, uma realidade bem próxima com aquela de “Neuromancer”. Quando o Irã e a China descobriram o que os EUA e Israel tinham feito, logo criaram seus próprios e secretos cibercomandos. Dezenas de vírus novos e cada vez mais imperceptíveis, como o Flame, podem estar prontos para escapar de uma base militar escondida em algum recanto isolado do planeta. O pior: não existe tratado regulamentando o uso dessas novas ciber-armas, como aquele que cuida da não proliferação do nuclear. E lembrando: o Stuxnet fui utilizado em tempo de paz, onde não havia guerra oficial declarada.

Mesmo países que não pretendem atacar ninguém com vírus eletrônico vão precisar aprender a se defender, detectando ameaças em seu ciberespaço (e hoje tudo, de redes elétricas a hospitais, depende do ciberespaço para funcionar). Detesto voltar a falar de educação neste contexto guerreiro, mas precisamos ser realistas (está tudo cibermisturado): uma nação sem boa cultura de programação digital está condenada a ser vítima fácil de ciber-ataques, mesmo amadores”. Voltarei a falar do lado Jedi da força educativa na coluna da semana que vem.


Leonardo Boff- O papa Francisco é chamado a restaurar a Igreja‏

 O Tempo - 15/03/2013

Francisco tomou ao pé da letra essas palavras e reconstruiu a igrejinha da Porciúncula que existe ainda em Assis dentro de uma imensa catedral. Depois, entendeu que se tratava de algo espiritual: restaurar a "Igreja que Cristo resgatara com seu sangue" (op.cit). Foi então que começou seu movimento de renovação da Igreja, que era presidida pelo papa mais poderoso da história, Inocêncio III. Começou morando com os hansenianos e, de braço com um deles, ia pelos caminhos pregando o evangelho em língua popular, e não em latim. É bom que se saiba que Francisco nunca foi padre, mas apenas leigo. Só no fim da vida, quando os papas proibiram que os leigos pregassem, aceitou ser diácono à condição de não receber nenhuma remuneração pelo cargo.

Por que o cardeal Jorge Mario Bergoglio escolheu o nome de Francisco? A meu ver, foi exatamente porque se deu conta de que a Igreja está em ruínas pela desmoralização dos vários escândalos que atingiram o que ela tinha de mais precioso: a moralidade e a credibilidade.

Francisco não é um nome. É um projeto de Igreja pobre, simples, evangélica e destituída de todo o poder. É uma Igreja que anda pelos caminhos, junto com os últimos; que cria as primeiras comunidades de irmãos que rezam o breviário debaixo de árvores junto com os passarinhos. É uma Igreja ecológica, que chama a todos os seres com as doces palavras de "irmãos e irmãs". Francisco se mostrou obediente à Igreja dos papas e, ao mesmo tempo, seguiu seu próprio caminho com o evangelho da pobreza na mão. Escreveu o então teólogo Joseph Ratzinger: "O não de Francisco àquele tipo imperial de Igreja não poderia ser mais radical, é o que chamaríamos de protesto profético" (em Zeit Jesu,Herder 1970, 269). Ele não fala, simplesmente inaugura o novo.

Creio que o papa Francisco tem em mente uma Igreja assim, fora dos palácios e dos símbolos do poder. Mostrou-o ao aparecer em público. Normalmente, os papas - e Ratzinger, principalmente - punham sobre os ombros a mozeta, aquela capinha cheia de brocados e ouro que só os imperadores podiam usar. O papa Francisco veio simplesmente vestido de branco. Três pontos devem ser ressaltadas em sua fala inaugural e são de grande significação simbólica.

O primeiro: disse que quer "presidir na caridade". Isso, desde a Reforma e nos melhores teólogos do ecumenismo, era pedido. O papa não deve presidir como um monarca absoluto, revestido de poder sagrado como o prevê o direito canônico. Segundo Jesus, deve presidir no amor e fortalecer a fé dos irmãos e irmãs.

O segundo: deu centralidade ao povo de Deus, tão realçada pelo Vaticano II e posta de lado pelos dois papas anteriores em favor da hierarquia. O papa Francisco, humildemente, pede que o povo de Deus reze por ele e o abençoe. Somente depois, ele abençoará o povo de Deus. Isso significa: ele está aí para servir, e não para ser servido. Pede que o ajudem a construir um caminho juntos. E clama por fraternidade para toda a humanidade, onde os seres humanos não se reconhecem como irmãos e irmãs, mas estão atados às forças da economia.

Por fim, evitou toda a espetacularização da figura do papa. Não estendeu os braços para saudar o povo. Ficou parado, imóvel, sério e sóbrio - eu diria quase assustado. Apenas se via a figura branca que olhava com carinho para a multidão. Mas irradiava paz e confiança. Usou de humor falando sem uma retórica oficialista. Como um pastor fala aos seus fiéis.

Cabe, por último, ressaltar que é um papa que vem do "Grande Sul", onde estão os pobres da humanidade e onde vivem 60% dos católicos. Com sua experiência de pastor, com uma nova visão das coisas, a partir de baixo, poderá reformar a Cúria, descentralizar a administração e conferir um rosto novo e crível à Igreja.

Leonardo Boff é autor de "São Francisco de Assis: Ternura e Vigor", Vozes 1999.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Fora de ordem e de lugar - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 13/03/2013


O Brasil é um país onde o surrealismo não vingou como movimento artístico, mas como maneira de ser. Tom Jobim dizia que até no mapa o país é de cabeça pra baixo. E, de tão complicado, não é "para principiante". Tim Maia, à sua maneira, traduzia o absurdo declarando que é a terra onde traficante se vicia, prostituta goza e cafetão sente ciúme. De fato, é difícil entender à luz da lógica e do bom senso certas coisas que acontecem e são aceitas como normais. Experimente, por exemplo, explicar para um estrangeiro que aqui um homicida pode sair do fórum condenado a 23 anos de prisão, mas, na verdade, só vai ficar mais três na cadeia.

Na política, então, são inúmeros os casos, a começar pelo Congresso. Lá, o presidente do Senado anda vergado ao peso de denúncias de corrupção e pressionado por um documento de milhares de assinaturas pedindo seu impeachment. Na Câmara, além de mensaleiros na Comissão de Justiça, há agora o recém-eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos, o pastor Marco Feliciano, que responde no STF por estelionato (inventou um acidente para receber cachê indevido, passagens e hospedagem) e é conhecido por declarações racistas e homofóbicas do tipo: "Os africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé", "a podridão dos sentimentos dos homoafetivos levam (sic) ao ódio, ao crime, à rejeição", "a Aids é uma doença gay".

Diante dos protestos generalizados e da reação negativa em organizações religiosas como o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, o seu partido, o PSC, reuniu a bancada ontem à tarde para discutir se voltava atrás na indicação. Acabou concluindo que manteria o pastor Feliciano na presidência da Comissão. Por outro lado, um abaixo-assinado com 240 mil assinaturas surgiu pedindo a destituição de Feliciano, e um grupo de deputados pretendia protocolar no Supremo um mandado contra a sessão que o elegeu.

Mas não só em Brasília acontecem coisas fora de ordem e de lugar. No fim de semana, O GLOBO mostrou como no Rio aos domingos as pistas da orla reservadas aos pedestres são perigosas, porque bicicletas, triciclos, skates e patins em alta velocidade invadem o espaço e ameaçam bebês, idosos e deficientes físicos. O cúmulo do surrealismo é o secretário de Ordem Pública admitir a impotência de sua pasta, que, segundo ele, nada pode fazer nem para evitar a transgressão, nem para puni-la. Se o órgão que cuida da ordem não consegue mantê-la em uma pista, o que dirá na cidade? Por isso, tenho uma sugestão para o prefeito: feche a secretaria e reabra as pistas aos automóveis. E viva a bandalha!

Uma avalanche de eventos - ROBERTO DAMATTA

O GLOBO - 13/03/2013

O livro de poesias do vice-presidente da República é um composto de perplexidades e angústias causadas pelo campo de sua atuação principal: a política


Temos vivido uma avalanche de eventos. Da morte de Chávez às divergências sobre os royalties do petróleo, cujas sequelas vão mudar a cena política. Isso para não falar sobre a renúncia e agora eleição de um novo pontífice e o rompimento de uma trégua pela Coreia do Norte. Tudo isso pesa num mundo cada vez menor.

No plano insignificante do cronista, há a carta insigne que recebi do vice-presidente da República, o senhor Michel Temer — assinada como Michel Temer —, reclamando do modo como ele é mencionado na crônica “Eu não aceito”, publicada em 6 de fevereiro.

O sr. Michel Temer ficou magoado com o que leu como uma censura à sua poesia. Ora, não é todo dia que um sujeito que dá aulas, lê, escreve e pesquisa por mais ou menos 50 anos; um alucinado que andou estudando índios e que transformou alegrias como o carnaval e futebol em chatices teóricas; que vive denunciando a amizade e o apadrinhamento como valores essenciais no mundo público; enfim, um professor, essa profissão tão valorizada no Brasil, recebe uma carta acompanhada de três livros de um vice-presidente da República, uma pessoa superocupada com os problemas nacionais e com uma trajetória pública invejável. Daí porque — pela deferência à figura de Michel Temer e pelo respeito que tenho pelo papel que ocupa (e que a ele não pertence totalmente) — torno público um assunto relativamente particular.

Observo que o nome do sr. Michel Temer surge na minha crônica no papel de poeta. E de poeta hígido (hígido, para quem não sabe, significa saudável!). Observo, em seguida, que minha crônica é permeada de ironia que se manifesta nas imagens que usei para salientar a minha desilusão com a dinâmica política nacional. O fato concreto, entretanto, é que jamais larguei coisa alguma. Muito pelo contrário, estou enfronhado no Brasil e, por circunstâncias que não inventei, tenho viajado muito mais para dentro do que para fora de mim mesmo. No momento, estou aprendendo a viver com menos.

Michel Temer escreve-me discorrendo sobre a sua vocação poética e explica que somente publicou seus pensamentos instado por amigos fiéis que, por sinal, são indivíduos admiráveis. Em seguida, ele fala de sua trajetória como acadêmico no campo do Direito Constitucional, cujo sucesso foi inegável e exprime, não sem uma boa e justa dose de sarcasmo, o seu ressentimento por eu ter condenado a sua poesia. Termina dizendo uma verdade: “Talvez o que o tenha influenciado é o meu lado político. Duvido que V.S. seja daqueles que desestimulam os ‘calouros’ que se atrevem a impulsionar pelas letras sentimentais.”

O poeta no vice-presidente está certo. Depois de ler o seu livro “Anônima intimidade”, percebo sua reação. Michel Temer é um homem dividido como eu. É um correligionário de letras e de mediunidade que a política escondeu e que, espero, não tenha liquidado totalmente. Na carta que ele se dignou a me endereçar, Michel Temer me situa no Olimpo da vida literária nacional. Ledo engano, Michel. Eu moro em Niterói e tenho a certeza, como muitos que criticaram o meu trabalho, que sou um especialista menor, errado ou superficial, que luta para fechar suas contas praticando uma antropologia antiga.

Na referida crônica, eu expressava a minha indignação não contra a sua poesia, mas contra a posse como presidente do Senado de um político sobre o qual pesam graves acusações. Um parlamentar que, entre outros fatos, é um recordista de atos secretos e mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, dava uma aula de “ética”. Se o poeta Michel Temer reler a minha crônica, ele verá que o seu nome aparece por ele ser a segunda pessoa da República e sua excelência, o presidente do Senado, o sr. Renan Calheiros, o qual pertence ao seu partido, ser a terceira. Quer se queira ou não, o vice-presidente faz parte de um governo no qual a política tem sido descarrilhada por troca de favores e escândalos que me envergonham — razão do meu desabafo.

Eu não o julguei como poeta, mas testemunhei pela leitura do seu livro a angústia contida na poesia rascunhada em papel de guardanapo de avião ao sair de Brasília.

Vejo que é um composto de perplexidades e angústias causadas pelo campo de sua atuação principal: a política — justo a dimensão que motivou minha crônica. Lendo as suas ansiedades eu bem posso imaginar a profundeza das consternações que marcam a sua biografia. No seu livro enxerguei a purgação que uns poucos podem fazer diante de um quadro político tão, data vênia, deprimente. Se fazemos em parte o mesmo, como poderia censurá-lo como poeta? Lamento o mal-entendido e por ele me desculpo.

Mas gostaria de aproveitar essa ocasião para dizer como eu gostaria que o seu lado de poeta estivesse mais próximo do seu lado de político profissional e — ouso sugerir com índole fraternal — pudesse ouvir esse seu lado literário com mais frequência. Foi imperdoável tê-lo ignorado como poeta e rogo para que sua poesia possa iluminar — com a agonia e as incertezas de todo poema — esse nosso Brasil cujo palco político produz dramas tão calhordas sem nenhum constrangimento.

PS: Aqui fica um convite para um encontro em minha casa no Olimpo chamado Niterói. Seria um prazer conhecer pessoalmente o poeta que é vice-presidente da República e liderança da base governista.

segunda-feira, 11 de março de 2013

A busca insaciável do prazer - Joaquim Ferreira dos Santos


 O Globo 11/03/2013

‘JFS é um profissional alimentado pela eterna fome da curiosidade’

O andarilho JFS, na sua ânsia de virar a cidade pelo avesso, está subindo a Ladeira dos Tabajaras em busca do que, haviam lhe dito na véspera, era a melhor refeição popular servida naquela semana em todos os restaurantes do Rio. Num sábado de verão ao meio-dia, a Ladeira dos Tabajaras não é para qualquer um. Íngreme, sem árvores, a temperatura é de incêndio carioca, sem esperança de escada Magirus na curva.

JFS está acostumado.

Na infância, enquanto as outras crianças ficavam encarnando nos macacos do zoológico, ele ia direto para a jaula que simulava uma pedreira e por onde corria, seguro, sem escorregar jamais, um rebanho de cabritos. Aquela capacidade de aderir ao solo improvável e dali, inalcançável, contemplar o mundo dos que não tinham desenvolvido seus cascos — isso impressionava o menino.

Adulto, JFS tomou gosto por passar o fim de semana em esforço idêntico. Acha que desestressa, zera o QI e dá um barato legalizado. Ele gosta de descobrir trilhas morro acima. Durante uma época, morador do Cosme Velho, beirava irresponsavelmente o abismo aos seus pés, a trilha dos trilhos da estrada de ferro que conduz o bondinho ao alto do Corcovado. Aparentemente, sobreviveu.
Nos últimos anos, JFS desenvolveu o gosto por corridas em morros. Guarda numa gaveta de troféus, misturadas a um diploma de Carioca da Gema dado pela Confraria do Garoto, três medalhas que lhe foram conferidas por terminar, sem a necessidade de balões de oxigênio, duas provas na Rocinha e uma outra no Vidigal.

As três tinham a distância de 5km, percorridos aos trotes, pulando valas, escadarias e exigindo que se fixassem os pés aos pedregulhos, como os cabritos da infância. JFS escorrega algumas vezes na vida, mas aprendeu vendo os bichos no zoo que o bom cabrito não berra. Tem ido em frente. Carrega com orgulho as medalhas que esparadrapos e mertiolates também cravam na pele.

JFS preparava-se, vê-se que não é de hoje, para subir a Ladeira dos Tabajaras, onde está agora em busca de um restaurante com um baião de dois e costela de boi capaz de fazer um cabrito uivar para a lua. Ninguém sabe direito onde fica, nem mesmo os policiais da UPP na subida do morro. JFS continua perguntando. É um profissional alimentado pela eterna fome da curiosidade. Se é um vício congênito ou adquirido por décadas de exercício, fumando do cachimbo da informação, ele não consegue mais decifrar. Gosta disso, tem-lhe sido a vida, é bonito, é bonito, e lhe é o natural.

Em meio à pirambeira da Tabajaras, JFS lembra de ter ido com o humorista Jaguar a uma investigação parecida. Era um lugarejo de Caxias conhecido como Cabaré dos Bandidos. Lá, provaram de uma carne de cobra servida em rodelas, com o detalhe pitoresco de a dona da birosca circular entre as mesas com uma delas, uma cobra, viva, decorando-lhe o pescoço. Rugendas, Debret, esses pintores viajantes que registraram o passado exótico da cidade, fariam o mesmo que o grande Jaguar.
Ele tinha duas páginas no Pasquim com o título de “BIP — A busca insaciável do prazer”, e desenhou a cena no jornal, indicando a carne de cobra como a melhor refeição popular da semana. JFS aparecia no canto do desenho, adornado por aquele chapeuzinho de repórter de Hollywood, a inscrição “Press” gravada gaiatamente. Jaguar lhe pôs na caricatura um ar interessado, mas sem alardes. Uma curiosidade equilibrada de quem já viu de tudo nesse mundo e muito mais ainda veria com o fito de se divertir, escrever e tocar a vida.

JFS gosta de caminhadas pelos motivos já relatados e também pelo chorrilho de sensações que elas provocam. O pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que ele voa quando se flana, caminhando com o visual de Copacabana logo abaixo dos pés.

Ele escala a pirambeira na companhia de uma santa criatura que a tudo acompanha sorridente, embaixo do sol de rachar catedrais, mas JFS tem certeza que ela estaria do mesmo jeito se fossem raios e tempestades num filme de zumbis. Lembra de Niemeyer (“a vida é uma mulher do lado e seja o que Deus quiser”) e, marchando em frente, conclui filosófico que o resto é bobagem.

JFS calça tênis Nike Free verde e rosa, modelo especial usado pelas baterias da Mangueira nos ensaios do carnaval. Deve ser por isso que os cachorros soltos na ladeira latem tanto diante de sua estridente passagem cromática. Deve ser por isso, esse tonitruante sinalizador não programado, que carros e motos também passam rente — não há calçadas, anda-se no meio da rua — e nada o atropela.
Muitos buracos, valas e perguntas depois, JFS chega ao “18”, o restaurante do Romero. Uma televisão ligada mostra o programa da Angélica. O ventilador despeja uma ventania de set de “... E o vento levou”. As mercadorias estão espalhadas, um caos, e dá para ouvir que elas riem quando JFS comenta que o feng shui não conseguiu subir até ali. Está pseudamente inspirado. Diz que tudo vale a pena se a fome não é pequena — e cai matando a espetacular costela com baião de dois, a R$ 14, servida em mesas e cadeiras da massa falida de um restaurante do chef Olivier Cozan, a quem o dono da birosca foi subalterno tempos atrás. Foi num bistrô da civilização plana de Ipanema. Lá embaixo, lá onde os cabritos são mais chiques, mas nem sempre tão felizes e bem servidos.


Mais sabedoria, menos intolerância - Sandra Machado

Correio Braziliense - 11/03/2013

É preciso refletir um tanto sobre as exacerbadas reações de leitores do Correio Braziliense a duas notícias da última semana. As matérias jamais poderiam ser omitidas, pelo bem do papel social da imprensa e pela liberdade de expressão.

Uma matéria divulgou casos de homofobia (ódio ou horror aos homossexuais — LGBTT) ocorridos neste início de 2013 na Universidade de Brasília (UnB). Aliás, algo que já é uma realidade para a juventude brasileira do século 21! A outra notícia é sobre heróis/heroínas de histórias em quadrinhos e animações, como os da Marvel, que “saem do armário” em nível mundial.

Foram muitas críticas destrutivas, de linguagem agressiva, postadas no Correioweb e no Blog da Igualdade, que edito no site do CB. Comentários que nos remetem a veementes e apaixonados discursos, ou pregações, de intolerantes. Sejam políticos, religiosos e/ou apresentadores de programas de televisão. Enfim, quem quer que tenha a atenção de públicos ávidos por lideranças, por ideologias ou um sentido em suas vidas.

As “massas” terminam por seguir líderes tão ou mais ignorantes que elas próprias, mas que têm carisma e/ou “poder”. Foi o caso do surgimento do nazismo hitlerista em uma Alemanha arrasada, com o orgulho ferido e sedenta por vingança, depois da Primeira Guerra Mundial. O fanatismo nazista detonou a Segunda Grande Guerra e a subsequente destruição de grande parte da Europa, com milhões de mortos e feridos.

Em 1994, o padre católico Daniel A. Helminiak publicou, nos Estados Unidos, o livro What the Bible Really Says about Homosexuality (O que a Bíblia realmente diz sobre a homossexualidade). O sacerdote Helminiak é um respeitado doutor (PhD) em teologia pelo Boston College. O livro é baseado em suas pesquisas sobre a sexualidade, a psicologia, a espiritualidade e os estudos da Bíblia e Deus (teologia). É sucesso editorial em diversos países.

Em resumo, Helminiak afirma que aqueles que percebem as passagens da Bíblia como condenações à homossexualidade estão sendo mal orientados por traduções faltosas e pobres interpretações das Sagradas Escrituras. Ele explica, de forma bem clara, que lamentavelmente a Bíblia vem sendo usada para justificar formas de dominação de uns sobre outros seres humanos. São os casos conhecidos, ao longo da história das civilizações, de escravidão, de Apartheid, de inquisições, de subjugação das mulheres e de discriminação contra homossexuais.

“O verdadeiro pecado de Sodoma, mencionado por Jesus Cristo no Evangelho de São Mateus, é o pecado da falta de hospitalidade, o pecado da falta de respeito para com os outros, que nos visitam, que se encontram nos cruzamentos de nossas vidas e que merecem toda a nossa gentileza como a que se deve às ‘imagens de Deus’”, exalta Mariano Bacellar Netto, das Equipes de Nossa Senhora, na contracapa do livro.

Em sentidos de história, de memórias e de construtos pessoais e sociais, as palavras de teólogos como Helminiak remetem ao mundo grego clássico, que foi tão bem (re)pensado pelo filósofo-historiador francês Michel Foucault. Em textos excepcionais como Escrita de si ou Vigiar e punir, ele lembra que o conceito ocidental de homossexualismo surgiu apenas na modernidade.

Portanto, o contemporâneo preconceito das sociedades eurocêntricas contra os LGBTT não poderia recobrir práticas sexuais entre homens (ou entre mulheres) na Grécia Antiga, no Império Romano, ou até mesmo durante a Idade Média (das trevas). É preciso, antes de tudo, conhecer e saber que a história — de tantas civilizações/sociedades — não é algo linear, que ocorre inexorável e uniformemente, no mundo.

Cada sociedade, em seus saberes e fazeres, tem estágios de avanços e retrocessos. Tradições e costumes que se transformam ou se perenizam, no tempo e em espaços que também podem ser mutáveis. Ora, até mesmo os proeminentes membros do conservador Partido Republicano norte-americano acabam de assinar um sumário em suporte ao casamento de pessoas do mesmo sexo. Deu no New York Times! E o jornal Washington Post, quem diria, foi acusado por seus leitores de ser pró-gays!

Pensemos em quantas crenças e dogmas da fé cristã mudaram ao longo dos séculos. Grandes conceitos ou dogmas da Igreja Católica Romana são criados ou transformados a partir do Primeiro Concílio de Constantinopla, em 381 d.C., ao longo do século 5, durante a Idade Média e até hoje. O mito de que Maria Madalena foi uma prostituta é um exemplo. Estudiosos já teriam comprovado que, ao contrário, ela pertenceu a uma das famílias descendentes de Davi, sendo, portanto, da linhagem real judaica.

As referências anacrônicas preconcebidas são, sempre, um problema. Assim como é a tendência de construirmos uma “essência natural”. Uma necessidade obtusa de ir buscar na história como é que uma tradição ou um objeto se transformou, ao contrário de percebermos que o objeto é apenas recorte de um lugar e/ou tempo.

Há que se buscar construtos próprios. Como vêm fazendo as mulheres, ao investirem em suas histórias e (re)escrevê-las, desfazendo-se de um destino naturalizado ou preconcebido, assujeitadas pelo determinismo patriarcal de certas sociedades. Assim também ocorre com os LGBTT, os negros, os indígenas e tantos outros. Devemos ser isentos/as de relações de medo e de sujeição. Sem o rótulo de “natureza humana”. O que vem a ser isso?

Algo de podre no reino do petróleo - PAULO BROSSARD

ZERO HORA - 11/03/2013

Repito a sentença do Padre Vieira, "a omissão é um pecado que se faz não fazendo"


No início de 2005 a refinaria Pasadena Refining System, de Pasadena, no Texas, foi adquirida pela empresa belga Astra Oil Company, pela quantia de US$ 42,5 milhões; em setembro de 2006 a Astra alienou à Petrobras 50% da refinaria mediante o pagamento de US$ 360 milhões, ou seja, vendeu metade da refinaria por mais de oito vezes o que pagara pela refinaria inteira, um ano e meio antes. Não seria de estranhar, por conseguinte, que a Astra Oil Co. pretendesse vender os 50% que permaneciam no seu patrimônio. Ocorre que, por desentendimentos cuja natureza ignoro, a Astra ajuizou ação contra a Petrobras e nela a Petrobras teria sido condenada e, mercê de acordo extrajudicial, pagou à Astra US$ 820 milhões, pondo fim ao litígio.


Somadas as duas parcelas, US$ 360 milhões em setembro de 2006 e US$ 820 milhões em junho de 2009, a Astra Oil Co. embolsou da Petrobras US$ 1,180 bilhão por uma refinaria que em 2005 lhe custara US$ 42,5 milhões.
Este o resumo do caso, do começo ao fim, havido entre a Astra Oil Co. e a Petrobras. Inépcia? Leviandade? Gestão temerária? Prevaricação? Outras causas? Não sei, o que sei é que o insólito fenômeno rompe todos os critérios atinentes a qualquer negócio e particularmente em relação a uma empresa que, embora de natureza privada pertence à nação, sua maior acionista.


Ora, não é de supor-se que o representante de uma das maiores empresas do país, afeita a lidar com milhões e bilhões, pudesse ser um parvo, um bonifrate, um pateta. No entanto, os números são constrangedores. De uma refinaria adquirida por US$ 42,5 milhões, em 2005, 50% dela no ano seguinte foi alienada por US$ 360 milhões e os outros 50% também transferida à Petrobras mediante o pagamento de US$ 820 milhões; somados os dois pagamentos, vale a repetição, atingem a US$ 1,180 bilhão. Dir-se-á que para zerar todos os litígios, teria entrado o "valor estratégico"... capaz de assegurar a duplicação da capacidade da refinaria, e revelar os segredos do fundo do mar no Golfo do México, mas sabe a chacota. Não surpreende que quando se conheceram os números do negócio, estes como o valor "estratégico" passavam a ser contestados.


Este o caso até onde sei e o que sei é o que tem sido divulgado. Com efeito, ele vem sendo abordado pelos meios de comunicação e até agora não se sabe de nenhuma providência que tivesse sido tomada. O assunto não é agradável, mas nem por isso pode ser mantido sob o comodismo do silêncio. Repito a sentença do Padre Vieira, "a omissão é um pecado que se faz não fazendo". É evidente que a senhora presidente da República tem todas as condições para o cabal esclarecimento da singular operação. Entre nós quando se fala em comissão esta terá de ser de "alto nível" e quando se trata de inquérito ele há de ser "rigoroso". Ora, quando o substantivo precisa da bengala do adjetivo o remédio é outro. Sempre entendi que os inquéritos não podem nem devem ser "rigorosos", nem flácidos; respeitadas as garantias de defesa, a diligência, a isenção, a tempestividade e a obediência aos prazos legais, substituem com vantagem o rigor. Nada de rigorismo ou lassidão, bastam legalidade e pontualidade; em uma palavra: a exação.

PS.: Estava a escrever este artigo, quando fui lembrado da passagem dos 60 anos da morte de Stalin, fato que mereceria uma reflexão.

A tortura que dá certo, na verdade dá errado - EUGÊNIO BUCCI

REVISTA ÉPOCA

De quando em quando, aparece alguém dizendo que, em situações extremas, a tortura de um prisioneiro pode estancar o mal e promover o bem. Os defensores desse sadismo de resultados costumam usar como argumento a hipótese da bomba-relógio. A historinha que eles contam é mais ou menos a seguinte: a polícia prende um terrorista que instalou uma bomba-relógio numa grande cidade; em questão de quatro ou cinco horas, milhões de pessoas morrerão e, como não há tempo de deslocar a população para fora do alcance da bomba, o único jeito é torturar o sujeito até ele dizer onde escondeu o explosivo, que, aí sim, será desativado pelos agentes de segurança. Nesse caso, concluem, a tortura seria justificada.

Mais recentemente, têm aparecido até filmes para nos convencer disso. Um deles, Ameaça terrorista (Unthinkable, 2010), se baseia precisamente na hipótese da bomba-relógio: um torturador (interpretado por Samuel L. Jackson) se encarrega de arrancar de um terrorista fanático a localização de artefatos nucleares instalados em metrópoles americanas. Como o torturador do filme esbanja competência fria - e como Samuel L. Jackson é um ator de carisma quente, adorado pelo público -, seus métodos levam a melhor. Moral da história: a tortura pode estar do lado dos mocinhos. Em outras palavras, existe a "tortura do bem".

O pano de fundo da intensa propaganda hollywoodiana é a tal Guerra ao Terror, movida pelo governo americano contra organizações extremistas, como a al-Qaeda. Desde os atentados de 11 de setembro de 2001, a mentalidade de Hollywood mudou bastante. Nos filmes mais antigos, torturadores eram apenas um signo do mal, gente baixa, um tipo de verme cinematográfico. Agora, o seviciador de vítimas algemadas pode ser um pai de família altivo, sóbrio e amoroso - tão abnegado e generoso que, pelo bem de sua pátria, é até mesmo capaz de fazer sangrar e padecer um ser humano indefeso. Vide Samuel L. Jackson em Ameaça terrorista. Ele não tortura por gosto, mas por heroísmo e abnegação.

No contexto da Guerra ao Terror, esse deslocamento do signo da tortura - que migra do polo do mal para o polo do bem - foi essencial para a Doutrina Bush. Agora, se tornou a menina dos olhos de fãs de cinema e também de intelectuais. Na semana passada, ÉPOCA publicou uma entrevista providencial e esclarecedora com Mark Bowden, autor do livro A caçada, sobre a operação de captura de Osama bin Laden por soldados americanos - tema que também virou filme (A hora mais escura). Lá pelas tantas, o entrevistador, o jornalista Rodrigo Turrer, pergunta se os interrogatórios violentos da CIA ajudaram na caçada. Bowden responde: "Foram eficazes para localizar terroristas e prendê-los. Isso, porém, não justifica o uso dessas técnicas". Ele argumenta que, muitas vezes, a brutalidade nos interrogatórios gera "erros, mentiras e desinformação". E completa: "Os dados para a arrancada final que encontrou Bin Laden não foram obtidos pela tortura, mas por investigação minuciosa".

Bowden tem razão. Essa história de que a tortura seria mais eficaz do que a investigação policial bem-feita é apenas um mito tecnocrático. Fora isso, atentar contra a integridade física de um prisioneiro constitui um ato incompatível com a civilização, seja qual for a situação hipotética, imaginada pelos entusiastas do pau de arara. Cenários extremos não valem como argumento. São ilógicos, irracionais. Matar é crime grave em qualquer sociedade, em qualquer código de conduta - não obstante, numa situação extrema, um cidadão de bem pode se ver impelido a esganar seu semelhante. Um pai que, dentro de sua própria casa, vê um filho ser agredido, humilhado ou barbarizado por um assaltante pode ter impulso de matar o agressor. Se fizer isso, terá de responder depois, nos tribunais, por seu ato, pois matar é crime e continuará sendo crime. Por mais que compreendamos as razões desse pai, o assassinato não deixará de ser crime. Se escrevêssemos as leis da civilização de acordo com hipóteses de urgência absurda ou de pressão psicológica total, a lei autorizaria o homicídio, as infrações de trânsito (todas elas) e os safanões de delegados em ladrões de galinha.

Dizer que a tortura é um crime não significa dizer que ela deixará de acontecer para sempre. Significa apenas que, quando ela acontecer, o torturador será devidamente julgado e punido. Pretender dar a ele uma carta branca, por antecipação, eqüivaleria a fazer de Sérgio Paranhos Fleury nosso ministro da Justiça. Seria o mesmo que transformar o crime na única lei verdadeiramente eficaz.

Um bolo sem fatias - Lúcia Guimarães

Lúcia Guimarães - O Estado de S.Paulo
 
O que têm em comum a Cadeira DRM e a canção Happy Birthday To You (Parabéns a Você)? Ambas ilustram o estranho mundo da posse de produtos e ideias neste século.

Um grupo de designers criou a DRM Chair - as iniciais se referem a Digital Rights Management - a tecnologia de códigos eletrônicos que limita o uso de produtos digitais. Por exemplo, um livro eletrônico com um código DRM, numa biblioteca, só poderia ser lido um número limitado de vezes pelo público. 


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domingo, 10 de março de 2013

A morte do caudilho - MARIO VARGAS LLOSA

 O Estado de S.Paulo

O comandante Hugo Chávez Frías pertencia à robusta tradição dos caudilhos que, embora mais presentes na América Latina que em outras partes, não deixaram de se assomar a toda parte, até em democracias avançadas, como a França. Ela revela aquele medo da liberdade que é uma herança do mundo primitivo, anterior à democracia e ao indivíduo, quando o homem ainda era massa e preferia que um semideus, ao qual cedia sua capacidade de iniciativa e seu livre-arbítrio, tomasse todas as decisões importantes de sua vida.

Cruzamento de super-homem e bufão, o caudilho faz e desfaz a seu bel prazer, inspirado por Deus ou por uma ideologia na qual, quase sempre, se confundem o socialismo e o fascismo - duas formas de estatismo e coletivismo - e se comunica diretamente com seu povo mediante a demagogia, a retórica, a espetáculos multitudinários e passionais de cunho mágico-religioso.

Sua popularidade costuma ser enorme, irracional, mas também efêmera, e o balanço de sua gestão, infalivelmente catastrófico. Não devemos nos impressionar em demasia pelas multidões chorosas que velam os restos de Hugo Chávez. São as mesmas que estremeciam de dor e desamparo pela morte de Perón, de Franco, de Stalin, de Trujillo e as que, amanhã, acompanharão Fidel Castro ao sepulcro.
Os caudilhos não deixam herdeiros e o que ocorrerá a partir de agora na Venezuela é totalmente incerto. Ninguém, entre as pessoas de seu entorno, e certamente em nenhum caso Nicolás Maduro, o discreto apparatchik a quem designou seu sucessor, está em condições de aglutinar e manter unida essa coalizão de facções, de indivíduos e de interesses constituídos que representa o chavismo, nem de manter o entusiasmo e a fé que o defunto comandante despertava com sua torrencial energia nas massas da Venezuela.

Uma coisa é certa: esse híbrido ideológico que Hugo Chávez urdiu chamado revolução bolivariana ou socialismo do século 21, já começou a se decompor e desaparecerá, mais cedo ou mais tarde, derrotado pela realidade concreta: a de uma Venezuela, o país potencialmente mais rico do mundo, ao qual as políticas do caudilho deixaram empobrecido, dividido e conflagrado, com a inflação, a criminalidade e a corrupção mais altas do continente, um déficit fiscal que beira a 18% do PIB e as instituições - as empresas públicas, a Justiça, a imprensa, o poder eleitoral, as Forças Armadas - semidestruídas pelo autoritarismo, a intimidação e a submissão.

Além disso, a morte de Chávez coloca um ponto de interrogação na política de intervencionismo no restante do continente latino-americano que, num sonho megalomaníaco característico dos caudilhos, o comandante defunto se propunha a tornar socialista e bolivariano a golpes de talão de cheques. Persistirá esse fantástico dispêndio dos petrodólares venezuelanos que fizeram Cuba sobreviver com os 100 mil barris diários que Chávez praticamente presenteava a seu mentor e ídolo Fidel Castro? E os subsídios e as compras de dívida de 19 países, aí incluídos seus vassalos ideológicos como o boliviano Evo Morales, o nicaraguense Daniel Ortega, as Farc colombianas e os inúmeros partidos, grupos e grupelhos que por toda a América Latina lutam para impor a revolução marxista?

O povo venezuelano parecia aceitar esse fantástico desperdício contagiado pelo otimismo de seu caudilho, mas duvido que o mais fanático dos chavistas acredite agora que Maduro possa vir a ser o próximo Simon Bolívar. Esse sonho e seus subprodutos, como a Aliança Bolivariana para as América (Alba), integrada por Bolívia, Cuba, Equador, Dominica, Nicarágua, San Vicente e Granadinas, Antígua e Barbuda, sob a direção da Venezuela, já são cadáveres insepultos.

Nos 14 anos que Chávez governou a Venezuela, o preço do barril de petróleo ficou sete vezes mais caro, o que fez desse país, potencialmente, um dos mais prósperos do planeta. No entanto, a redução da pobreza nesse período foi menor que a verificada, por exemplo, no Chile e no Peru no mesmo período. Enquanto isso, a expropriação e a nacionalização de mais de um milhar de empresas privadas, entre elas 3,5 milhões de hectares de fazendas agrícolas e pecuárias, não fez desaparecer os odiados ricos, mas criou, mediante o privilégio e o tráfico, uma verdadeira legião de novos ricos improdutivos que, em vez de fazer progredir o país, contribuiu para afundá-lo no mercantilismo, no rentismo e em todas as demais formas degradadas do capitalismo de Estado.

Chávez não estatizou toda a economia, como Cuba, e nunca fechou inteiramente todos os espaços para a dissidência e a crítica, embora sua política repressiva contra a imprensa independente e os opositores os reduziu a sua expressão mínima. Seu prontuário no que respeita aos atropelos contra os direitos humanos é enorme, como recordou, por ocasião de seu falecimento, uma organização tão objetiva e respeitável como a Human Rights Watch.

É verdade que ele realizou várias consultas eleitorais e, ao menos em algumas delas, como a última, venceu limpamente, se a lisura de uma eleição se mede apenas pelo respeito aos votos depositados e não se leva em conta o contexto político e social no qual ela se realiza, e na qual a desproporção de meios à disposição do governo e da oposição era tal que ela já entrava na disputa com uma desvantagem descomunal.

No entanto, em última instância, o fato de haver na Venezuela uma oposição ao chavismo que na eleição do ano passado obteve quase 6,5 milhões de votos é algo que se deve, mais do que à tolerância de Chávez, à galhardia e à convicção de tantos venezuelanos que nunca se deixaram intimidar pela coerção e as pressões do regime e, nesses 14 anos, mantiveram viva a lucidez e a vocação democrática, sem se deixar arrebatar pela paixão gregária e pela abdicação do espírito crítico que o caudilhismo fomenta.
Não sem tropeços, essa oposição, na qual estão representadas todas as variantes ideológicas da Venezuela está unida. E tem agora uma oportunidade extraordinária para convencer o povo venezuelano de que a verdadeira saída para os enormes problemas que ele enfrenta não é perseverar no erro populista e revolucionário que Chávez encarnava, mas a opção democrática, isto é, o único sistema capaz de conciliar a liberdade, a legalidade e o progresso, criando oportunidades para todos em um regime de coexistência e de paz.

Nem Chávez nem caudilho algum são possíveis sem um clima de ceticismo e de desgosto com a democracia como o que chegou a viver a Venezuela quando, em 4 de fevereiro de 1992, o comandante Chávez tentou o golpe de Estado contra o governo de Carlos Andrés Pérez. O golpe foi derrotado por um Exército constitucionalista que enviou Chávez ao cárcere do qual, dois anos depois, num gesto irresponsável que custaria caríssimo a seu povo, o presidente Rafael Caldera o tirou anistiando-o.
Essa democracia imperfeita, perdulária e bastante corrompida, havia frustrado profundamente os venezuelanos que, por isso, abriram seu coração aos cantos de sereia do militar golpista, algo que ocorreu, por desgraça, muitas vezes na América Latina.

Quando o impacto emocional de sua morte se atenuar, a grande tarefa da aliança opositora presidida por Henrique Capriles será persuadir esse povo de que a democracia futura da Venezuela terá se livrado dessas taras que a arruinaram e terá aproveitado a lição para depurar-se dos tráficos mercantilistas, do rentismo, dos privilégios e desperdícios que a debilitaram e tornaram tão impopular.

A democracia do futuro acabará com os abusos de poder, restabelecendo a legalidade, restaurando a independência do Judiciário que o chavismo aniquilou, acabando com essa burocracia política mastodôntica que levou à ruína as empresas públicas. Com isso, se produzirá um clima estimulante para a criação de riqueza no qual empresários possam trabalhar e investidores, investir, de modo que regressem à Venezuela os capitais que fugiram e a liberdade volte a ser a senha e contrassenha da vida política, social e cultural do país do qual há dois séculos saíram tantos milhares de homens para derramar seu sangue pela independência da América Latina. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Os 150 anos de Ernesto Nazareth

Músico que uniu o salão e a rua é homenageado com vasta programação que contempla sua obra nas faces erudita e popular

Leonardo Lichote

Ilustração de Leo Martins
Foto: Arte O Globo
Ilustração de Leo Martins Arte O Globo
RIO - Na virada do século XIX para o XX, algo fervia no Rio de Janeiro — as elites da capital federal emulando a elegância europeia, batuques ecoando pelas vielas ocupadas por escravos recém-libertos. Como pianista demonstrador da Casa Vieira Machado & Cia, na Rua do Ouvidor, ou como atração da sala de espera do Cinema Odeon, Ernesto Nazareth ouvia tudo. E, mais que isso, traduzia para seu instrumento o processo em curso — a cultura urbana que se formava, a tal fervura que deu as bases para a produção brasileira ao longo das décadas seguintes — misturando os dois universos: o salão e a rua, Chopin e os chorões, o negaceio rítmico e a complexidade técnica. Agora, quando são celebrados os 150 anos de seu nascimento (no dia 20 de março de 1863, no Morro do Pinto), Nazareth é homenageado em suas faces erudita e popular, lembrado como o que foi em ambos os terrenos: um fundador.

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Encanto e poder de sedução imediato - José Miguel Wisnik

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Gravado da América Latina à Islândia - João Máximo

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Os guardiões da memória de Ernesto Nazareth

 CRISTINA TARDÁGUILA

  Funcionário público de 51 anos e biólogo de 29 dedicam as suas vidas a preservar a história e a vasta obra do músico

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Luiz Antônio de Almeida: de herdeiro honorário a futuro biógrafo de Ernesto Nazareth

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Alexandre Dias pesquisa e grava obras raras de Ernesto Nazareth


 
 




Uma Igreja sem Pontífice? - Frei Betto

 O Globo - 10/03/2013

Meu mestre em História da Igreja, Eduardo Hoornaert, de quem fui aluno no curso de Teologia, faz uma proposta ousada, mas não descabida: uma Igreja Católica sem Papa!

À primeira vista, soa como uma heresia. Tão assustadora como se propor, no século XIX, um Brasil sem imperador, uma Rússia sem czar, uma Áustria sem rei.

O papado não é uma instituição de origem cristã. A palavra “Papa” não figura no Novo Testamento. Derivar o papado do versículo de Mateus 16, 18 — “Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei minha igreja”— é isolar o texto do contexto. Nada indica nos Evangelhos que Jesus pensou em instituir uma dinastia apostólica.

Foi o bispo Eusébio de Cesareia, mentor da política “globalizada” do imperador Constantino, que, no século IV, teve a iniciativa de redigir listas de sucessivos bispos para as principais cidades do Império Romano, de modo a adaptar a estrutura da Igreja ao modelo imperial de sucessão de poderes. Eusébio criou a imagem de Pedro-Papa.

A palavra “Papa” (Pope), do grego popular do século III, deriva de “pater” (pai) e expressa a estima dos cristãos por determinados bispos e sacerdotes. Chamar o sacerdote de “padre” (pai) e o chefe religioso de “Pope” (Papa) tornou-se costume nas Igrejas católica e ortodoxa. Ainda hoje, na Rússia, o pastor da comunidade é chamado de Pope.

Cipriano, bispo de Cartago (248-258), foi o primeiro a ser chamado de Papa. Em Roma, o termo só passou a ser aplicado a seu bispo a partir do século VI, com o Papa João I. Já o Colégio de Bispos — o episcopado ou a conferência episcopal — tem raiz cristã. Bispo significa “supervisor” e é citado diversas vezes no Novo Testamento (1 Tm 3, 2; Tito 1, 7; 1 Pd 2, 25; At 20, 29). Assim como o substantivo “episcopado” (1 Tm 3,1).

Todo poder centralizado gera rivalidades. A partir do século III, teve início uma acirrada disputa entre as quatro principais metrópoles do Império Romano — Constantinopla (atual Istambul), Roma, Antioquia e Alexandria. Os bispos dessas cidades eram conhecidos como “patriarcas”.

Cipriano não admitiu que o bispo de Roma exercesse autoridade sobre ele, bispo de Cartago. Insistiu que, entre bispos, deveria vigorar “completa igualdade de funções e poder”.

Porém, Roma conseguiu se impor, sobretudo a partir de sua aliança com o imperador germânico Carlos Magno, em 800. Isso tensionou suas relações com os patriarcas do Oriente e tornou inevitável o primeiro grande cisma da Igreja, ocorrido em 1052, que marca o início do que hoje se conhece por Igreja Católica (romana), de um lado, e Igreja Ortodoxa, de outro.

O papado, herdeiro do legado imperial de Constantino, tornou-se uma monarquia absoluta (ainda hoje), com poderes sobre reis e imperadores (não mais). Essa estrutura piramidal de poder passou a não diferir de todas as outras análogas na esfera civil, marcadas por intrigas, traições, subornos, negociatas, nepotismo, utilizando uma linguagem inacessível aos fiéis (o latim) e trocando a arte de convencer (e converter) pela força da coerção (aterrorizar): culpa, inquisição, inferno, medo, venda de indulgências etc.

Dizem que Stalin teria perguntado de quantas divisões de exército dispunha o Papa. De fato, Roma, por sua habilidade diplomática, saiu vitoriosa em inúmeros embates com os principais poderes do Ocidente. Toynbee chegou a afirmar que a Igreja ficou afetada pela “embriaguez da vitória”.

Trancado no Vaticano, o Papa passou a viver numa esfera irreal, refém de uma cúria mais interessada no apego ao poder que na missão evangélica de levar aos povos a palavra de Jesus.

A modernidade balançou os alicerces da Igreja. A liberdade de consciência, o avanço das ciências, as novas tecnologias, o pluralismo ideológico, tudo isso desmistificou o papado. Pio IX, num gesto de desespero, chegou a promulgar o controvertido dogma da infalibilidade papal, como se a História não registrasse tanta falibilidade em Papas que aprovaram torturas, sentenças de morte, assassinatos, simonia, adultério etc.

Leão XIII mudou a estratégia da Igreja e aliou-a aos mais fortes, ao lado dos quais Bento XV comemorou o fim da Primeira Guerra Mundial. Pio XI apoiou Mussolini, Hitler e Franco. Pio XII se omitiu frente aos crimes de lesa-Humanidade do nazifascismo.

O ciclo mereceu uma pausa com João XXIII e, de certo modo, com Paulo VI, que condenou a Guerra do Vietnã e a ditadura militar brasileira. Mas prosseguiu com o apoio de João Paulo II à ditadura Pinochet no Chile e à política agressiva de Reagan contra a Nicarágua sandinista. Bento XVI se omitiu frente aos recentes golpes de Estado em Honduras e Paraguai.

Ao contrário da instituição do papado, a do episcopado merece aplausos, sobretudo na América Latina entre 1960-1990, com bispos mártires (Angelelli e Romero) e confessores (Hélder Câmara, Casaldáliga, Proaño, Evaristo Arns, Padim, Mendez Arceo, Samuel Ruiz).

O Concílio Vaticano II pretendeu valorizar os poderes dos bispos e reduzir o do Papa. Hoornaert pergunta: “Pode a França subsistir sem rei; a Inglaterra, sem rainha; a Rússia, sem czar; o Irã, sem aiatolá? A própria História se encarrega de dar a resposta”, diz ele.

Cedo ou tarde, a Igreja terá de democratizar sua estrutura de poder. Torná-la mais colegiada. O que se discute não é a figura do Papa, é a estrutura do papado. Em suas cartas escritas durante o Vaticano II, e hoje publicadas, dom Hélder diz ter sonhado que o Papa enlouqueceu, jogou sua tiara no Rio Tibre e ateou fogo no Vaticano.

Na opinião do ex-arcebispo de Olinda e Recife, o Papa deveria doar o Vaticano à Unesco, como Patrimônio Cultural da Humanidade, e passar a residir em lugar mais condizente com a sua condição de sucessor de um pescador da Galileia e representante na Terra daquele que não tinha uma pedra onde recostar a cabeça.

Frei Betto é escritor, autor de “Cartas da Prisão” (Agir), entre outros livros.

FONTE

Apagado da memória - Tostão

FOLHA DE SP - 10/03/2013

Mais importante que a estratégia ou o sistema tático é a falta de um craque no meio-campo


Apesar de Ronaldinho brilhar no Atlético-MG, como no jogo contra o Strongest, e Kaká ser reserva no Real Madrid, vejo Kaká com mais chances de atuar bem e de ajudar, coletivamente, a seleção. Se fosse escolher pelo que joga no clube, Zé Roberto, do Grêmio, mereceria ser titular do Brasil, mesmo com 38 anos.

A atuação excepcional do meia Modric, também reserva no Real Madrid, ao entrar no segundo tempo, após a absurda expulsão de Nani, do Manchester United, mostra porque Kaká não é titular da equipe espanhola. Os dois seriam destaques em quase todos os outros times do mundo.

Antes das vitórias sobre Barcelona e Manchester United, muitos diziam que a causa da má campanha do Real Madrid no Espanhol eram as brigas entre o técnico Mourinho e os jogadores. Ninguém mais fala nisso. Mourinho sempre adotou a tática do terrorismo, da pressão e do confronto com os atletas. Infelizmente, pelo comportamento infantil, a maioria dos jogadores, mais ainda no Brasil, desde que o técnico seja brilhante, como é Mourinho, gosta de treinadores autoritários, que punem e que, depois, premiam.


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Quem governa quem governa? - CARLOS AYRES BRITTO

ZERO HORA - 10/03/2013

A Constituição governa quem governa. Governa de modo permanente quem governa de modo transitório


Comecemos por uma afirmação óbvia: o Poder Executivo de qualquer das quatro unidades da nossa federação tem um chefe. Estrutura-se ele, Poder Executivo, sob a chefia ou autoridade máxima de um agente político. Prefeito, governador, presidente da República, todos dirigem superiormente uma dada Administração Pública e daí se postam aos olhos do povo como a própria encarnação do governo. A face mais visível do poder público.
Estamos a falar, portanto, de um tipo de agente que é popularmente eleito para ficar no topo de um dos poderes elementares do Estado. Poder, esse, mais fisicamente próximo do conjunto da população, por lhe competir implementar as políticas públicas mais cotidianamente significativas dos interesses e valores juridicamente qualificados como próprios dessa população mesma. Interesses e valores que mais de perto viabilizam a sobrevivência, o equilíbrio e a evolução do conjunto da sociedade, por conseguinte. Donde a instantânea identificação entre chefe do Poder Executivo e o governo de toda pessoa estatal-federada: União, Estados, Distrito Federal e municípios.


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Bolívar seria fã - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

O GLOBO - 10/03/2013

O baseball é aquele esporte em que os jogadores passam mais tempo ajustando o boné do que jogando. E o cricket consegue ser ainda mais chato. Claro, esta é a opinião de um preconceituoso assumido, que prefere a plasticidade e a ação contínua do futebol. E mesmo sendo jogos aborrecidos, o baseball e o cricket têm histórias curiosas, num contexto que tem menos a ver com esporte do que com política, imperialismo e os paradoxos do colonialismo cultural.

Os dois países americanos em que o baseball é mais popular, além dos Estados Unidos, são Cuba e Venezuela. Fidel foi jogador de baseball, Chávez não sei se jogou, mas era fã. Nos dois países mais anti-Estados Unidos da região o esporte nacional é o mais típico dos esportes dos Estados Unidos. É verdade que o gosto pelo baseball antecede os acidentes históricos que deram no antagonismo de hoje. O baseball de Cuba teve origem na ocupação do país pelos americanos no fim do século dezenove. Sobreviveu ao fim da ocupação e, mais tarde, ao fim da influência norte-americana, com a expulsão de Batista e a ascensão de Fidel. O baseball cubano nunca ligou para a História. Na Venezuela não houve ocupação norte-americana mas houve anos de intenso colonialismo cultural numa elite e numa classe média voltadas para exemplos e hábitos norte-americanos, parte da mentalidade desafiada pelo bolivarismo chavista. Mas a popularidade do baseball permaneceu intocada. Bolívar, presume-se, também seria fã.

O cricket e o futebol são – simplificando – os esportes da aristocracia e do proletariado inglês. Era de se esperar que em todo o “commonwealth” que restou do imperialismo britânico o cricket fosse execrado como símbolo da presença imperial e da prepotência do homem branco. Mas por toda a Ásia e a Oceania, até em lugares em que o império nunca esteve, o cricket é popular. Seus melhores jogadores são ídolos nacionais. Suas regras e excentricidades, como partidas que duram uma tarde inteira com intervalo para o chá, são as mesmas da ex-metrópole. E os times do ex-império constantemente humilham times ingleses, e ninguém chama de vingança. Vá entender.

Agora, que são chatos, são. 


FONTE

Uma ciência - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

O ESTADÃO - 10/02/2013

Decidiram fazer um churrasco para as famílias se conhecerem. Do lado da Bea havia seu pai, sua mãe, um irmão mais moço e uma tia solteira. Do lado do noivo, Carlos Alberto, mãe viúva, duas irmãs mais velhas, sendo uma com uma namorada, e um irmão com a mulher e dois filhos menores. O churrasco seria na casa da Bea, que tinha um pátio grande com churrasqueira, e o Carlos Alberto se prontificou: seria o assador.

Acertaram a logística do encontro. Os donos da casa forneceriam as saladas e a cerveja, os visitantes trariam a carne, a sobremesa e os refrigerantes, inclusive zeros para quem estivesse controlando a glicose. E o assador. Tudo transcorreu bem. 


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Seremos todos telefones - JOÃO UBALDO RIBEIRO

O GLOBO - 10/03/2013

No futuro próximo, os recém-nascidos, ainda na maternidade, terão vários chips implantados no cérebro e serão conectados antes de aprenderem a falar, talvez numa rede social especializada


Esse negócio de Google tirou a graça de muitas coisas. E dificultou a vida dos que mourejam nas letras, obrigados por profissão e ganha-pão a escrever com regularidade, fazendo o que podem para atrair o interesse de leitores e mostrar serviço, pois bem sabem que a mão que afaga é a mesma que apedreja e o quem-te-viu-quem-te-vê será o destino inglório daqueles que dormirem no ponto. Antes do Google, o esforçado cronista recorria a almanaques e enciclopédias e deles, laboriosamente, extraía novidades para motivar ou adornar seu texto. Agora todo mundo pode fazer isso num par de cliques. Além do mais, o cronista podia também exibir-se um pouco, o que talvez trouxesse algum benefício ao combalido Narciso que carrega n’alma, além de realçar-lhe a reputação. Somente alguns poucos, entre os quais ele, tinha tal ou qual informação, ou lembrava certos pormenores, em relação ao assunto comentado. O Google acabou com isso e quem hoje em dia chegar ao extremo de escrever algo do tipo “você sabia?” se arrisca a desmoralização instantânea.


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