segunda-feira, 8 de abril de 2013

CASAMENTO GAY

 Veja - 08/04/2013

A REVELAÇÃO PÚBLICA DE DANIELA

Ao anunciar a união com uma jornalista de televisão, a quem chama de esposa, a cantora baiana Daniela Mercury tomou obrigatória a discussão sobre o casamento gay no Brasil.

"Seja o que Deus quiser, Malu.” Daniela Mercury olhou para a companheira, em um quarto de hotel de Lisboa, onde esteve na semana passada para uma série de shows, tocou no ícone compartilhar do Instagram e pôs no ar uma colagem de fotos dela com a jornalista Malu Verçosa, editora na TV Bahia, afiliada da Globo. No cabeçalho, escreveu a frase que provocaria mais de 17000 reações de “curtir” coladas à revelação: “Malu agora é minha esposa, minha família, minha inspiração pra cantar”. E o Brasil inteiro ficou sabendo que ela saíra do armário, como se diz no jargão popular para definir a pessoa que assume sua homossexualidade, e que decidira trocar alianças — mas ainda não assinar papéis no cartório — com a namorada recente, de apenas dois meses e meio (na cronometragem oficial, descontado o período de segredo). Houve estardalhaço — saiu no Jornal Nacional. Daniela — mãe de dois filhos já adultos, do primeiro casamento, e de outros três adotados, do segundo, ambos relações convencionais — nunca admitira sua orientação sexual. Seja o que Deus quiser, portanto.

Mas Deus vai querer? Se depender da hierarquia das igrejas que falam em nome Dele, a resposta será um sonoro “não" dos líderes evangélicos brasileiros, um “sim” enfático dos anglicanos e um “sim” condicional dos católicos. “Se Deus, na criação, correu o risco de nos fazer livres, quem sou eu para me meter?”, foi a reação do jesuíta Mario Bergoglio, o papa Francisco, sobre o casamento gay em seu diálogo com o rabino Abraham Skorka (veja a reportagem na pág. 94). Bergoglio elabora sua resposta e diz que o papel do pastor é alertar o fiel para os perigos de pecar e nunca induzi-lo a determinado tipo de ação na vida privada. Mas pelo menos até que Ele a convoque para um acerto de contas, Daniela tem pouco com que se preocupar com as repercussões religiosas de seu anúncio. O casamento gay tem hoje mais implicações de ordem prática do que de consciência.

Depois do anúncio, Daniela divulgou uma nota na qual citou o deputado Marco Feliciano (PSC-SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Escreveu a cantora: “Numa época em que temos um Feliciano desrespeitando os direitos humanos, grito meu amor aos sete ventos. Quem sabe haja alguma lucidez no Congresso Brasileiro”. Ao misturar seu relacionamento com política, Daniela prestou um desserviço ao mesmo tempo ao romantismo e à sua seriedade de propósitos. O presidente do STF, Joaquim Barbosa, ajudou a por a questão em sua real perspectiva durante uma palestra na UNB: “É simples: o deputado Marco Feliciano foi eleito pelos seus pares para assumir determinado cargo dentro do Congresso Nacional. Perfeito. Agora, a sociedade tem direito de se exprimir contrariamente à presença dele nesse cargo. Isso é democracia”.

É natural e positivo que as instituições tratem as mudanças comportamentais radicais com a cautela devida. É natural e positivo também que as pessoas possam ter tempo para se acostumar com esses novos ordenamentos sociais e avanços comportamentais. É assim que as mudanças se legitimam, superando a intolerância, que se dilui com o tempo em formas cada vez mais brandas de rejeição até se tomarem invisíveis. Confrontada com a questão do casamento gay, a Suprema Corte dos EUA optou pela cautela. Pediu mais tempo para que os juizes avaliem todas as repercussões de um vez mais provável reconhecimento legal de uma situação de fato.

No Brasil, o STF reconheceu a união estável gay em 2011. A partir de parceiros do mesmo sexo numa relação contínua e duradoura, com o objetivo principal de constituir família, podem receber herança em caso de morte de um dos dois, receber pensão alimentícia, optar pela comunhão parcial de bens, e também adotar crianças. Em seis estados brasileiros (Alagoas, Bahia, Ceará, Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo) os cartórios já fazem o casamento civil homossexual, o que põe os casais juridicamente um degrau acima do status de união estável. Cerca de 400 casais gays brasileiros conseguiram a certidão de matrimônio desde o “sim” do STF. Esse número só tende a crescer.

É discernível uma tendência evolutiva rumo à aceitação no que diz respeito aos homossexuais. O que já foi visto como doença física no passado foi em uma fase posterior encarado como comportamento desviante provocado por defeito de criação — ou seja, produto de lares com mães superprotetoras e pais ausentes e violentos. As concepções erradas davam origem às reações sociais desastradas. A "rebelião de Stonewall”, os seis dias de confronto entre policiais e gays, em Nova York, ocorreu há pouco mais de quarenta anos. Desde então os gays deixaram de ser caso de polícia. Os estudiosos desvendaram o peso da determinação genética, o que esvaziou as falsas considerações morais sobre eles. Recentemente a homossexualidade tem sido descrita como uma adaptação evolutiva da espécie. Isso significa que muitas sociedades não apenas deixaram de ser hostis aos gays como passaram a ver contribuições positivas para o grupo na existência deles.

“A homossexualidade representa diversidade e ela é sempre positiva para a sociedade”, diz Edward Wilson, o grande biólogo americano de Harvard. autor de um livro recente, A Conquista Social da Terra, que funde de maneira inédita as análises genéticas e culturais do comportamento humano (veja a Carta ao Leitor, na página 12). Wilson põe a homossexualidade em campo diametralmente oposto, por exemplo, ao do incesto, este, sim, um desvio comportamental que não apenas abala o edifício moral das sociedades como empobrece a diversidade genética tão necessária para a sobrevivência sadia da espécie humana. Wilson diz que isso explicaria as razões da crescente aceitação da homossexualidade em contraste com a existência consentida do incesto somente em alguns pontos isolados da África e da Ásia — ainda assim com aceitação apenas ritualística em casamentos de chefes tribais. O mesmo processo sociogenético-cultural que, como demonstra Edward Wilson, vem chancelando a homossexualidade atua fortemente na rejeição da pedofilia e da poligamia. O que a biologia evolutiva constatou pelo método científico as pessoas percebem no cotidiano. Quanto mais jovem o grupo, menos seus integrantes consideram homossexualidade um assunto polêmico. Os jovens em quase todas as partes são cada vez mais o que os sociólogos chamam de “gender blind” — ou seja, eles olham uma pessoa, percebem que tipo de roupa ela usa, que corte de cabelo, mas se a pessoa é gay ou não é um ponto que não chama atenção.

O casamento gay coloca um desafio de outra ordem. Não se trata mais da simples aceitação pelo grupo de adolescentes ou jovens adultos — mas do reconhecimento pelas instituições de que os direitos civis podem ser automaticamente aplicados aos relacionamentos homossexuais duradouros. Isso é mais complexo. Esse processo exige que vanguardas e maiorias conservadoras realizem uma tensa dança do acasalamento até que a intolerância se dissolva em rejeição e essa em aceitação legal — o que não significa que os dois lados vão despeitar um dia depois da aprovação da eventual legalização do casamento gay concordando sobre todas as questões. Mas esse processo de negociação é inevitável.

É da natureza humana que as minorias liderem as transformações, na vanguarda, e que as maiorias, sempre mais apegadas ao que já existe, se incomodem. Impossível é fugir da existência de uma novidade que exclui a indiferença. Foi assim com o divórcio e com o movimento em defesa do voto feminino, no início do século XX, nos EUA e na Inglaterra. As mulheres já tratavam de política dentro de casa, opinavam sobre o cotidiano com o marido — mas o salto só se deu com a aprovação legal do voto. É o que ocorre agora com o ingresso do casamento gay nos tribunais.

Se a aprovação da união homossexual fosse simplesmente a institucionalização de uma postura que já estava acontecendo entre quatro paredes, seria mais fácil crer que essa transformação se daria de modo ainda mais acelerado. Mas há um complicador. Como estender aos gays as proteções legais dadas ao casamento pelo simples fato de ele, ao fim e ao cabo, propiciar a perpetuação da espécie pela procriação? As pesquisas de opinião no Brasil mostram que nem mesmo a adoção de crianças ou o recurso a barrigas de aluguel ou inseminação artificial demovem a maioria heterossexual da convicção de que os casais gays são incapazes de criar um lar estável. Nos EUA a resistência é bem menor, mas a questão ainda está longe de ser unanimidade. “Parece-me que os gays estão lutando pelo casamento. Eu receio que isso signifique rebaixar o que é o casamento”, disse o ator inglês Jeremy Irons ao site noticioso Huffington Post.

Além da intolerância e agressividade dos militantes, há descontentamento de bom número de pessoas com a redução de questões éticas de alta complexidade — caso também do abono e da eutanásia — a uma simples luta por direitos. Escreveram os especialistas em ética Claire Andre e Manuel Velasquez: “Muitas controvérsias morais hoje se expressam na linguagem dos direitos. Há uma explosão de recursos pelos direitos dos homossexuais, direitos dos prisioneiros, direitos dos animais, direitos dos não fumantes e dos fumantes, direitos dos fetos e direitos dos trabalhadores”. O reconhecimento do direito dos homossexuais perante as leis é, portanto, apenas um aspecto de uma questão social de conseqüências ainda não totalmente conhecidas. Mas apenas fingir que o novo não existe é insuficiente para preservar o velho.
 Com reportagem de Álvaro Leme, Bela Megale, Carlos Giffoni, Carolina Melo e Kalleo Coura.

E pensar que já foi assim...

Cada sociedade tem seu próprio tempo para maturar (ou não) mudanças sociais. Nos EUA, ao contrário do Brasil, a aceitação dos gays vem disparando — mas isso é recente

É um caso raro, talvez único: o presidente dos Estados Unidos assina uma lei e, depois de apear do poder, diz que ela é inconstitucional. Em 1996, pouco antes de concorrer à reeleição, Bill Clinton sancionou a lei que define o casamento como união "entre um homem e uma mulher". Queria o voto dos conservadores e temia desagradar aos liberais, mas assinou — na calada da noite, faltando dez minutos para 1 da madrugada, sem foto nem cerimônia, mas assinou. Ganhou a reeleição, cumpriu seu segundo mandato e, no mês passado, defendeu a ideia de que o documento que leva sua assinatura fere o princípio da igualdade entre os cidadãos da Constituição.

A inflexão de Clinton se explica numa aritmética elementar. Em 1996, só 27% dos americanos apoiavam o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Hoje, são mais da metade. O apoio cresce tanto que a Suprema Corte, numa audiência pública sobre a constitucionalidade do casamento gay, deu a impressão de que prefere não legislar sobre o assunto, deixando que cada estado decida o que julgar mais apropriado. A decisão final da Corte sai até junho. Pode deixar o assunto para os estados, como transpareceu na audiência, mas pode surpreender, aprovando o casamento gay para o país todo. Nem os militantes gays ficaram incomodados com a aparente cautela dos juízes, pois, cada vez que sai um plebiscito sobre o assunto, vencem. Em novembro, ganharam em quatro estados: Washington, Maine, Maryland e Minnesota. (Mais a eleição, por Wisconsin, da primeira senadora abertamente gay.) A revista Time colocou na capa um casal homossexual beijando-se na boca sob a seguinte chamada: "O casamento gay ganhou. A Suprema Corte ainda não decidiu, mas o país já".

Cada sociedade tem seu ritmo próprio para aceitar (ou não) novos comportamentos sociais. No Brasil dos anos 50, o cardeal de São Paulo, dom Carmelo Motta, achava que a aprovação do divórcio era motivo para pegar em armas, e as desquitadas eram comparadas com "mulheres da vida". Até o fim dos anos 60, os gays americanos se reuniam às escondidas em bares que pagavam propina à polícia para evitar batidas. Percorreram uma longa trajetória em busca de aceitação. Até 2004, a maioria dos americanos era contra o casamento homossexual. Desde então, o apoio entrou numa espiral ascendente. Por dois motivos. Os jovens que estão chegando à idade adulta são francamente favoráveis aos gays. O outro motivo é que as pessoas mudam de ideia, inclusive as mais velhas. Na "geração silenciosa", formada pelos nascidos entre 1928 e 1945, apenas 17% apoiavam o casamento gay há dez anos. Hoje, são 31%. Pois é, as coisas mudam devagar, mas mudam tanto que fazem até presidente dizer que assinou lei inconstitucional.

André Petry de Nova York.

Contra a "engenharia social"

Mais da metade dos franceses não vê com bons olhos a instituição do casamento gay. Mas o movimento não é reacionário: conta com homossexuais e tem algo de 1968.

Em maio de 1968, Paris foi palco de manifestações estudantis contra a velha ordem. "A imaginação no poder" e "Seja realista, exija o impossível" eram dois dos slogans que transbordaram para países do Ocidente e da América Latina, com variações locais que sopravam na mesma direção de modernizar hábitos — e, no extremo, transformar o sistema. O arco aqui ia da ressurreição do anarquismo à improvável mutação do marxismo em ideologia libertária. Maio de 1968 transformou as relações familiares e amorosas, mas propiciou o surgimento de grupos terroristas e causou a substituição dos paralelepípedos por asfalto nas ruas parisienses, a fim de evitar que os estudantes os arrancassem para jogar nos policiais. Uma pena do ponto de vista estético. Quase meio século depois, as maiores manifestações ocorridas em Paris parecem ir na direção contrária em relação a novidades comportamentais. São contra a legalização do casamento gay nos moldes propostos pelo governo. Uma delas reuniu quase 1 milhão de pessoas, em janeiro. A outra, realizada em março, mobilizou peno de 500 000 cidadãos e acabou em pancadaria. depois que um grupo tentou sair dos limites geográficos estabelecidos pelas autoridades. Agora, protestos menores e diários pressionam o Senado a emendar o projeto de lei aprovado pelos deputados.

O movimento, contudo, não pode ser definido como reacionário, embora a Igreja seja forte patrocinadora. Não é incorreto dizer que em diversos aspectos, ele é fruto de 1968. Sua líder, por exemplo, é a comediante Frigide Baijot (trocadilho com o nome da atriz famosa que significa Frígida Doidona) — católica, mas não uma carola de bigode ligada ao Opus Dei. Esse movimento abriga famílias com recasamentos, aglutina homossexuais avessos ao padrão heterossexual e conta com a simpatia de mais da metade da população, em boa pane desobediente aos ditames do Vaticano. Seus integrantes não são contrários à união de gays perante a lei. O que não querem ver aprovada é uma legislação que iguale casais homossexuais a heterossexuais, em especial quanto à reprodução médica assistida. Não acham bom que bebês nasçam de dois pais (por meio de barriga de aluguel, obviamente) ou de duas mães, porque essas crianças teriam problemas psicológicos. A lei abre brecha para os gays "gerarem" filhos. "Ao abolir a distinção entre héteros e gays, no que se refere à reprodução, o governo mostra o seu viés autoritário. O nome disso é engenharia social. Viva a diferença!", diz Frigide Baijot. Parece a fala de uma manifestante de 1968.

Mario Sabino, de Paris.


Maiorias e Minorias 

 

Uma reportagem desta edição de VEJA fala das ondas de choque provocadas pela decisão da cantora baiana Daniela Mercury de, depois de dois casamentos convencionais, proclamar publicamente pelo Insta-gram sua paixão por uma mulher, Malu, a quem chama de esposa. Se havia alguma possibilidade de a questão do casamento homossexual no Brasil ficar restrita aos militantes e seus adversários da bancada religiosa do Congresso, ela se evaporou na quarta-feira passada. O post de Daniela espalhou-se rapidamente pelas redes sociais, virou notícia no Jornal Nacional e na rede internacional CNN, onde a cantora já foi descrita como a “Madonna brasileira”. Daniela colocou o assunto no horário nobre da televisão brasileira e, mesmo subtraindo o senso de oportunismo de promoção pessoal, a tendência agora é que a discussão se alastre.

O assunto é complexo e convida à discórdia. Pessoas sem nenhum sentimento de rejeição aos homossexuais são contra o reconhecimento legal da união marital entre indivíduos do mesmo sexo. Boa parte se irrita mesmo é com a agressividade de militantes dos movimentos gays e sua fúria implacável dirigida a quem quer que ouse divergir minimamente deles. Mas é fato que muita gente intelectualmente honesta, despida de dogmas religiosos e indiferente ao tipo de atividade sexual que adultos pratiquem consensualmente entre quatro paredes, não vê com naturalidade a união homossexual ao amparo da lei. São pessoas que dificilmente dariam seu apoio a uma mudança no artigo 226 da Constituição Brasileira, no qual está estabelecido que, “para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar”.

A reportagem de VEJA contribui para o debate racional do tema. Ela lembra que o racismo, infelizmente, sobreviveu mesmo depois de o conceito de raça como critério de diferenciação humana ter sido destroçado pelos avanços genéticos recentes. Por isso, é de esperar que a condenação da homossexualidade continue em certos círculos, a despeito da constatação de que ela é apenas uma adaptação da espécie, como lembra o grande biólogo evolutivo americano Edward Wilson em seu mais recente livro, A Conquista Social da Terra. Diz Wilson: “A homossexualidade pode ser vantajosa para os grupos humanos pelos indivíduos de talentos especiais e qualidades incomuns de personalidade e pelas profissões especializadas que cria”.

Para encarar esses assuntos com serenidade, é bom ter em mente que quem amplia as fronteiras sociais são as vanguardas comportamentais, invariavelmente formadas por minorias. Quem mantém a coesão da sociedade são as maiorias, conservadoras por definição. Por isso, as relações entre os dois grupos de pessoas, mesmo quando não há conflito aberto ou intolerância, são sempre tensas. Se a vanguarda minoritária não força a barra, as relações sociais ficam congeladas no tempo. Sem alguma resistência da maioria, as mudanças de comportamento nunca se legitimam. Mantida no plano civilizado, portanto, essa tensão é não apenas natural, mas necessária e positiva.

domingo, 7 de abril de 2013

Viaduto Covas? É ali no Chá - JOSÉ DE SOUZA MARTINS

 O Estado de S.Paulo - 07/04/2013

Mudar nome de logradouros históricos talvez seja a parte mais fácil – difícil é convencer o povo a desistir da antiga denominação

Não parece boa ideia que o Viaduto do Chá mude de nome. Mesmo tendo sido Mário Covas um homem íntegro, um cidadão respeitável e um governante inesquecível. É justo que se dê seu nome a uma obra grandiosa. Mas, como já aconteceu em outros casos, o povo continuará chamando o Viaduto doChá de Viaduto do Chá. É um nome na memória dos paulistanos,um patrimônio da consciência coletiva, embora o homenageado seja o prosaico chá-da-china, que ali se cultivava no século 19. Chá famoso, de que gostava a família do poeta Álvares de Azevedo.

Nossos políticos,com as exceções de sempre, acham que tudo podem. Apresentar um projeto de lei parece mágica expressão de poder. Qualquer joão-dos-anzóis, uma vez eleito, pode propor até a mudança do nome do Corcovado. Na decadência política pela qual passamos,não seria estranho se alguém tentasse fazê-lo.E menos estranho que o Legislativo aprovasse a esdrúxula proposta. Nos anos 1970, um candidato a deputado por Goiás chegou a ter como bandeira eleitoral a revogação da Lei Áurea! Tem gente que já deu o nome da própria mãe a logradouro público. Do jeito que se xinga político neste país, não foi boa ideia.

Jovem, eu havia começado a trabalhar no jornal que veio a ser o Diário do Grande ABC, no fim dos anos 1950. Cabia-me cobrir assessões da Câmara Municipal de São Caetano do Sul. Numa das primeiras sessões de nova legislatura, um senhor muito simples, de pouca escolaridade, eleito pela população de um dos bairros pobres da cidade, evangélico, resolveu exercitar piamente seu poder. Queria marcar posição.Propôs ao plenário um“ voto de louvor ao autor da Bíblia”.O presidente da Câmara, que não estava culturalmente longe do proponente, pôs o projeto em votação: “Os vereadores que forem favoráveis,permaneçam como estão.Os contrários, que se manifestem”. “Aprovado!”, proclamou ele. E acrescentou: “Peço ao nobre edil que deixe na secretaria da Câmara o nome e o endereço do destinatário.” Até hoje o louvor não chegou ao destino.

Há alguns anos, foi proposto e aprovado que se desseonomedeumcidadãoprestante do bairro do Ipiranga ao Museu Paulista, da Universidade de SãoPaulo, popularmente conhecido como Museu do Ipiranga. É evidente que o nome não pegou, nem podia, pois o prédio do museu é oficialmente nosso monumento nacional da Independência. O cidadão prestante é agora oficialmente ignorado.

Um dos casos dolorosos de homenagem equivocada foi o da designação do histórico Túnel Nove de Julho com o nome de um dos mais ilustres cirurgiões brasileiros, o dr. Daher Elias Cutait. Foi eledestacado professor da Faculdade de Medicina, médico do Hospital das Clínicas e do Hospital Sírio-Libanês, merecedor, sem dúvida, de homenagem que lhe tornasse o nome lembrado para sempre. No entanto, a designação do túnel com seu nome criou enorme controvérsia. Nove de Julho, sabemos, é a data referencial
da Revolução Constitucionalista de 1932 e dos que nela morreram ou foram feridos. Um símbolo ligado a profundos sentimentos dos paulistas. Mudar o nome do túnel, em vez de fazer justiça ao nome do médico ilustre, acabou por expô-lo a sentimentos contraditórios que tiraram da homenagem o sentido que deveria ter.

Já tivemos outros episódios de denominação de rua que entrou em conflito com a tradição do povo. Por ter sido morto, em 1897, na Guerra de Canudos, no sertão da Bahia, no comando da Terceira Expedição Militar  para lá enviada para destruir o povoado sertanejo, de supostos monarquistas, a Câmara de São Paulo decidiu dar o nome do cel. Moreira César à Rua de São Bento. O nome chegou a ser incluído nos mapas da cidade. Mas não pegou. São Bento desde o século 16, não seria uma câmara qualquer do século 19 que lhe mudaria o nome, além do mais, nome de devoção.Nesse caso,Moreira César, aliás, não merecia que lhe dessem o nome a um lugar público nem aqui nem em canto nenhum. Militar violento e sanguinário, já havia executado sumariamente presos políticos nas revoluções do Sul. Gostava de mandar degolar os prisioneiros e com fama de degolador chegara ao sertão da Bahia. Era um carniceiro. Nem enterrado foi. Apodreceu por lá, comido pelos urubus, como tantos outros. Os sertanejos que fora combater e matar eram religiosos,seguidores do catolicismo popular e da monarquia do Divino Espírito  Santo. Não faziam mal a ninguém,passavam o dia em oração, não pretendiam derrubar o governo, embora Antônio Conselheiro não deixasse de reconhecer que o Império fizera justiça aos negros libertando-os da escravidão. Para ele, a deposiçãodafamília imperial fora uma injustiça.

Em São Paulo a população já estava cheia dos exageros republicanos.A Câmara Municipal do novo regime em poucas semanas trocara nomes de rua de membros da monarquia, que conhecia, por membros da República, que desconhecia: Benjamin Constant, Quintino Bocaiuva, Marechal Deodoro. Nem Moreira nem César.São Bento continuou a ser o santo nome da rua que há muito era o dele.


JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE SOCIOLOGIA DA FOTOGRAFIA
E DA IMAGEM (CONTEXTO)

Colunista Convidado: DADO VILLA-LOBOS - Quero ser John


Sonho meu - Caetano Veloso

O GLOBO - 07/04/2013

Por causa de uma viagem pelo verso de ‘Volver’, entrei, sozinho, numa meditação sobre a importância do português na construção da forma samba


Escrevi: “Dolores Duran era uma glória da língua portuguesa, sem a qual o samba não existiria”. É no que dá escrever com pressa. Houve quem pensasse (com razão) que eu estava dizendo que o samba não existiria sem Dolores, quando eu queria dizer que era sem a língua portuguesa que ele não existiria. É uma ideia que já deu mil voltas na minha cabeça: eu não deveria tê-la resumido tão ligeiramente numa frase que resultaria dúbia.

Faz tempo, eu estava num apart-hotel em Ipanema, cantando o tango “Volver”, só com meu violão. É muito comum acontecer de eu imaginar como seria em português uma frase de canção estrangeira que repito. Sobretudo se a frase me encanta. Parei em “Que es un soplo la vida”. Estava emocionado, e logo minha mente foi procurar como é que isso poderia ser dito em português. Mais: cantado em português. Fiquei surpreso ao ver o tamanho da dificuldade. Afinal era uma canção em espanhol, língua tão próxima à nossa. Mas “Que é um sopro a vida” não funciona. Depois de algumas tentativas, inverti a ordem das palavras e “Que a vida é um sopro” se mostrou natural e sonora. Mas muito longe da força do original. Acima de tudo, nada tango. A imponência, a solenidade da frase castelhana se desfez totalmente. Num primeiro momento, pareceu-me que não restava nenhuma beleza. Mas, afastando-me do tango e do tom aristocrático do espanhol, comecei a achar graça na frase curta e despojada que o português me ofertava. Espontaneamente liguei as sílabas “da”, “é” e “um” (além de, claro, fazer de “que” e “a” também uma sílaba única — como fazemos sempre, cantando ou conversando) e passei a repetir a frase com quatro sílabas poéticas: “Q(ue)a-vi-d(é)um-sopro”. Em poucos segundos eu tinha uma marcação de samba nascida da repetição da frase (que sugeria uma pausa regular entre as repetições). Mas isso era uma brincadeira que, em princípio, poderia ser feita com uma frase qualquer, em qualquer língua. Tudo ficou mais forte quando isolei a frase e a “cantei” (sem a melodia do tango e mesmo sem uma nova melodia muito definida): era uma frase de samba.

Era uma boa frase de samba-canção (para não dizer que estávamos assim tão longe de Dolores — e sem esquecer de que a brevidade da vida é tema central da biografia e do cancioneiro da carioca bochechuda). Era uma boa frase de samba de carnaval dos anos cinquenta, de samba de Paulinho da Viola, de Cartola, de Carlos Lyra, de Arlindo Cruz. De samba. Mas o clima que a envolve é enormemente diferente do clima da frase portenha. Não há solenidade e, portanto, o que se diz é algo ao mesmo tempo mais concreto e menos pesado do que o que se depreende do verso castelhano. Parece coisa mais banal, dita em tom mais pedestre e desimportante. No entanto, se sentido como trecho de samba, revela outros aspectos da constatação de que não passa de um sopro essa nossa vida. É menos bonita, mas há um realismo particular nesse despojamento estético.

Por causa dessa viagem pelo verso de “Volver”, entrei, sozinho, numa meditação sobre a importância do português na construção da forma samba. É frequente o tributo histórico que se presta à contribuição africana para o nascimento desse gênero que, por razões tanto autênticas quanto suspeitas, se tornou o centro da musicalidade popular brasileira. Mas ninguém fala (que eu ouça) do papel da língua portuguesa nesse processo. Sempre me fascinou o fato de falarmos português. Quanto mais eu crescia e ia aprendendo a geografia do nosso hemisfério ocidental, mais misterioso e atraente se tornava para mim que esse imenso pedaço de América fosse habitado por lusófonos. Que fosse o único país das Américas em que isso se deu só aumentava o fascínio. Ser um país uno concorria para que eu formasse dentro de mim uma imagem de claro enigma.

Não podemos conceber o samba sem a língua portuguesa. Não o teríamos concebido sem ela. Quando João Gilberto foi cantar em Lisboa escrevi que aquele era um grande acontecimento na história da língua portuguesa. Mas ainda não tinha pensado o que a tentativa de tradução de um verso de “Volver” me levou a formular. Lembro tudo isso quando ouço António Zambujo. Outro dia ouvi uma moça que estava com Xande do Revelação cantar “Não deixe o samba morrer” e, embora sua pronúncia soasse totalmente brasileira, havia algo de sentimento fadista na voz. Fiquei comovido. Logo soube que ela era portuguesa. Ao ouvi-la cantar outros sambas/pagodes, pensei que ali se estava realizando meu sonho antigo de haver grupos de pagode portugueses, fazendo sotaque brasileiro e sucesso internacional. Isso, desde os primeiros pagodes comerciais. Pagode, funk e axé lusitanos. Sonho meu.


Fonte

sábado, 6 de abril de 2013

SABÁTICO

Janelas para a finitude

No romance 'Terra de Casas Vazias', André de Leones ratifica a morte e o elemento religioso como peças centrais de sua já madura ficção

 

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Uma chance para a paz em meio ao caos

Considerado uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela 'Time', o cientista Steven Pinker defende, em 'Os Anjos Bons da Nossa Natureza', que a violência está em declínio na sociedade

 

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Explicar o passado, sem prever o futuro

Estudo do canadense evita usar a história para fazer previsões

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Um singular libelo contra a hipocrisia

Em Junky, que ganha reedição, William Burroughs trata da vida na sociedade paralela dos dependentes e traficantes 

 

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A LITERATURA COMO O LUGAR DE “EXISTIR”

 

No breve A Vida Privada das Árvores, de Alejandro Zambra, é a convivência com a ficção que revela as personagens

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A história repetida, de fato, como farsa

De volta às livrarias, O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler, dialoga com Dostoievski ao enfocar o horror do stalinismo

 

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Em torno da construção de si

A Filosofia de Michel Foucault, de Esther Díaz, analisa o vigoroso pensamento do francês

 

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Um senhor operário da palavra

O cubano Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), cuja obra completa vem sendo editada na Espanha, buscou, ao longo de sua trajetória, a renovação da prática e da doutrina das narrativas literárias

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A infelicidade de Feliciano - CACÁ DIEGUES

 O Globo

Suspeito que Marco Feliciano não seja um homem feliz. ‘Infeliciano’ não deve dormir em paz

Outro dia, meu neto de 7 anos me disse excitado que tinha um presente para mim. Era uma lata de Coca-Cola que havia encontrado com meu nome, Carlos, inscrito nela. Tive a sensação de que meu neto havia-me achado no meio da multidão e me propunha celebrar minha existência.

Como quando nomeamos alguém estamos identificando sua singularidade, me dei conta de que um dos produtos mais universais do planeta, um dos signos fundadores da globalização, havia sacado a necessidade de reconhecer a existência do indivíduo e sua diferença. A humanidade não é uma massa anônima e informe, mas o encontro entre seus indivíduos, a única coisa concreta que existe. O resto (língua, sociedade, moeda, nação, estado, cultura, o que mais for) são abstrações necessárias que inventamos para poder melhor conviver com o outro.

É claro que essa operação de marketing do produto que minha geração, em sua juventude irreverente e bem-humorada, chamava de “a água suja do imperialismo”, é apenas uma fantasia que não vai melhorar a vida de ninguém. Mas é significativo que a marca máxima de um modo de vida planetário reconheça a necessidade de lembrar nossa individualidade, nossa diferença, nossa singularidade.

Somos indivíduos responsáveis pelos outros e essa responsabilidade começa pelo respeito ao que o outro é ou quer ser. A democracia é o único regime político em que esse comportamento se encontra em seu cerne. Sem ele, ela perde o sentido. Segundo Tocqueville, o grande pensador da democracia moderna na primeira metade do século 19, o regime democrático é uma ditadura da maioria, abrandada pelos direitos de manifestação das minorias. É tão simples e profundo quanto isso.

Nosso Congresso Nacional está deixando que essas ideias indiscutíveis sejam negadas pela ação nefasta do deputado Marco Feliciano, à frente da Comissão de Direitos Humanos. E esse desastre não tem apenas o deputado como único culpado; grosso modo, a câmara inteira é responsável pelo grave erro.

A democracia representativa fica comprometida quando os partidos dão prioridade a seus arranjos funcionais, em prejuízo da representação popular. Apesar de grosseiro, medieval e inaceitável, o deputado tem o direito de pensar como quiser, para agradar seus eleitores específicos. Mas não tem o de impor, por delegação de seus pares, as consequências segregadoras desse pensamento sectário à população inteira, que inclui os que são discriminados.

Todos os partidos deixaram que isso acontecesse quando negociaram, segundo seus interesses táticos, a formação das diferentes comissões no Congresso. A culpa não é só do partido de Feliciano, o PSC, que o indicou; os outros também preferiram o conforto próprio, em detrimento da segurança social da população. Quando isso aconteceu, onde estavam o PT e seus “progressistas”? Por onde andavam os “democratas” do PSDB? Que faziam os “socialistas” do PSB? E os “liberais’ do DEM? O único congressista que vi se manifestar desde a primeira hora, com coragem e firmeza, sem se preocupar com as conveniências regimentais da Casa, foi o deputado Jean Willys.

Suspeito que Marco Feliciano não seja um homem feliz. Ele deve viver atormentado pelos fantasmas do porre de Noé, do pecado de Cam, da maldição divina sobre a África e os negros. Feliciano não pode gastar relaxado o dízimo de seus fiéis, enquanto houver no mundo aborto, homossexuais, casamento gay e gente que não pensa como ele. “Infeliciano” não deve dormir em paz.

Mas confesso que não admiro nem um pouco o modo de reação de alguns ativistas contra ele. Numa democracia, não se deve fazer política invadindo reuniões, subindo nas mesas, agredindo quem passa pela frente, impedindo o interlocutor de se manifestar. A democracia é também um processo civilizatório, como foi a justa manifestação recente na ABI, organizada por Jean Willys, com a presença de Caetano Veloso, Wagner Moura, Preta Gil e tanta gente que lotou aquele auditório para discutir o assunto.

É evidente que hoje, no mundo inteiro, vivemos uma grave crise da democracia representativa. Talvez pelo crescimento da população em todos os países; talvez pela distância cada vez maior entre representantes e representados; talvez até mesmo pela crescente superação do poder do estado pela força natural da sociedade. Não sei encontrar solução para essa crise. Mas ela não pode ser a democracia direta que nos leve à aventura irresponsável do populismo, nem o voto distrital que torna clientelista o resultado de uma eleição, eliminando o debate ideológico que organiza o futuro. É preciso começar a discutir uma reforma política democrática que contemple todas essas novidades.

Para certos crentes, nosso mundo real é sempre provisório, o paraíso se encontra muito mais à frente, bem adiante de nós. Depois é que é sempre bom e, para chegar lá, devemos suportar dor e sofrimento, a fim de nos tornarmos merecedores da graça no futuro e punirmos os que ousam desejar ser felizes por aqui mesmo. Mas temos o direito de exigir que nos deixem ser o que somos, que nos garantam, aqui e agora, nossa felicidade de cidadãos, nossa “felicidadania”.

Fim do trema, sucesso da @ - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 06/04/2013

O trema está desaparecendo; aliás, oficialmente já desapareceu. A arroba está no auge de sua popularidade
Achei engraçadinhas as histórias antagônicas desses dois sinais gráficos. Um, o trema, está desaparecendo; aliás, oficialmente já desapareceu. O outro, a arroba, está no auge de sua popularidade. Do primeiro recebi, enviado por um amigo, uma sentida despedida. "Você pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali, na Anhangüera, nos aqüíferos, nas lingüiças, por mais de 450 anos. Fui expulso pra sempre do dicionário." Suas queixas não poupam o cedilha, que teria sido a favor de sua expulsão - "aquele Ç cagão que fica se passando por S e nunca tem coragem de iniciar uma palavra". E um conformado desabafo: "A verdade é que estou fora de moda. Quem está na moda são os estrangeiros, é o K e o W, 'kkk' pra cá, 'www' pra lá."

O estranho é não haver referência à arroba, muito mais em voga do que as letras citadas. Calcula-se que a @ - esse a com uma perna esticada fazendo um quase círculo - anda hoje em três bilhões de endereços eletrônicos, o que ainda é pouco, considerando que não é possível passar um e-mail sem ela. Antes, apenas como medida, ainda tinha alguma utilidade, pelo menos para comerciantes e estivadores dos armazéns dos cais do porto, já que servia para indicar a unidade de peso equivalente a 15 quilos.

É curiosa a vertiginosa carreira de sucesso da @, que nem existia nas primeiras máquinas de escrever. Conta-se que foi em 1971, graças ao engenheiro americano Ray Tomlinson, que ela começou a ganhar destaque, e por acaso. Encarregado do projeto que seria o precursor da internet, Ray precisava de um símbolo que ligasse o usuário do correio eletrônico ao domínio. Aí, olhando para um teclado, caiu de amores pela @, depois que seu coração balançou entre o ponto de exclamação e a vírgula.

A partir dos anos 90, com a massificação da internet, a arroba passou a ser provavelmente o símbolo gráfico mais popular do universo. Os emails podem viver sem tremas, sem pontos de exclamação, de interrogação, til, cedilha, reticências, mas nunca sem aquele sinalzinho que aparece em cima do 2 e precisa ser acionado apertando-se a tecla Shift. E mais: além de popularidade, ganhou prestígio. Em 2010, o Museu de Arte Moderna de Nova York adquiriu o símbolo @ para a sua coleção de design. "Uma aquisição que nos deixa orgulhosos", anunciou o MoMA em seu site. Agora mesmo é que a @ está se achando.

Alice e eu precisamos de DR, discutir a relação -uma relação de três anos e meio. Ela anda intratável. "Me deixa sozinha, estou irritada", disse outro dia, em mais uma crise de ciúme do irmãozinho Eric.

Ordem na casa - José Miguel Wisnik


 O Globo - 06/04/2013


PEC das domésticos mexe com hábitos muito arraigados na história da vida privada no Brasil

Todo mundo sabe, confesse-o ou não, que o estatuto precário dos empregados domésticos na vida brasileira é uma das marcas escravistas resistentes em nosso cotidiano. E que, por isso mesmo, a Proposta de Emenda Constitucional regulando horas de trabalho, horas de descanso e pagamento de horas extras, que entrou em vigor esta semana, é um marco prático e simbólico que estabelece um patamar mínimo de civilidade no tratamento da questão. Outros direitos (fundo de garantia por tempo de serviço, multa por demissão sem justa causa, seguro-desemprego, creche e pré-escola, salário-família), que completariam a inclusão desses trabalhadores na ordem regular do trabalho formal, esperam regulamentação. Tudo isso mexe com um mercado de trabalho já em processo de mudança, dado o sintomático decréscimo da oferta de mão de obra, e mexe com hábitos muito arraigados na história da vida privada no Brasil. 

A ambivalência dessa história também é conhecida. As relações interpessoais na esfera doméstica, com suas tonalidades próximas e afetivas, são tradicionalmente muito diferentes, no Brasil, das relações impessoais vigentes entre patrões e empregados na Europa e nos Estados Unidos, onde o trabalho doméstico custa caro e é raríssimo. A informalidade brasileira, que entranha muito da nossa sociabilidade e muitas das nossas criações mais preciosas, é a mesma que dá lugar às formas mais perversas do arbítrio, do privilégio, da exploração insidiosa e da truculência. O Brasil é uma droga, no sentido positivo e negativo do termo. É desejável que o melhor dessa informalidade seja capaz de se transformar em algo mais alto, se a mais básica formalização emancipadora começar a pôr ordem na casa.

Não posso deixar de pensar, junto com isso, e por mais estranho que pareça, em Clarice Lispector. Por acaso estou relendo-a pela enésima vez, sempre com prazer e renovado espanto, por causa de um curso que inventei de dar para isso mesmo — para poder ler de novo seus livros. Ela é conhecida como uma escritora que vai aos meandros mais sutis da subjetividade, mas a gente muitas vezes esquece os caminhos que a levam a isso, e que são da percepção social mais aguda.

A empregada doméstica está no vértice supremo da obra de Clarice, que é “A paixão segundo G.H.”, publicado em 1964. Presente por ausência, mas uma ausência que define tudo. Uma mulher independente, livre de laços familiares, que vive numa cobertura em Copacabana, vai até o quarto da empregada — Janair — que trabalhou em sua casa por seis meses, quarto ao qual ela nunca foi durante esse tempo, e encontra, em vez do esperado pardieiro, um quadrilátero límpido em cuja parede caiada se estampa um desenho riscado a carvão. Nesse mural cru, de aparência quase rupestre, deixado por Janair, em que aparecem uma mulher e um homem, nus, e um cachorro, a narradora se vê através dos olhos da outra, os únicos olhos capazes de vê-la de um modo que não seja a projeção de si mesma dada pelos membros de sua classe social. Começa ali a mais vertiginosa das viagens à experiência da estranheza do outro absoluto como descoberta de si. Não será despropositado dizer que, se Guimarães Rosa fez do jagunço o transporte para o seu entendimento do enigma do Brasil e do sertão-mundo, em Clarice a passagem, no caso dela secreta, para todos os enigmas, se faz através da empregada doméstica.

Numa crônica encantadora, ou perturbadora, se quiserem, chamada “O chá”, ela imagina uma cerimônia de reencontro com todas as empregadas que teve na vida. “As que esqueci marcariam a ausência com uma cadeira vazia, assim como estão dentro de mim. As outras, sentadas, de mãos cruzadas no colo. Mudas — até o momento em que cada uma abrisse a boca e, rediviva, morta-viva, recitasse o que eu me lembro. Quase um chá de senhoras, só que nesse não se falaria de criadas”.

E “A menor mulher do mundo”? Um explorador francês descobre no mais remoto coração da África a menor tribo de pigmeus, e, entre eles, a menor mulher adulta do mundo, grávida e nua, medindo quarenta e cinco centímetros. A foto em tamanho natural é estampada numa página dupla do Jornal do Brasil, onde fica exposta a um rodízio de fantasias de classe média, entre as quais a de tê-la como empregadinha uniformizada servindo a mesa. O conto reflete, entre outras coisas, sobre o nosso desejo de posse, de deter o poder de ter alguém só para nós, sobre a ferocidade com que queremos brincar de possuir alguém.
Clarice faz ver algo que o Brasil mal começa a aprender: que ter alguém a seu serviço pessoal é um luxo a ser correspondido com todas as gratificações, limites e formas da praxe. Mais que isso: que a existência, de si e do outro, é o grande luxo.


sexta-feira, 5 de abril de 2013

Traição na web - Arthur Dapieve


No varejo, a internet nunca deixou de ser o que sonhamos: iluminadora e subversiva

Não, calma, não é nada disso que você está pensando. Não me conectei ontem. No final dos anos 1980, o “Jornal do Brasil” começou a implantar computadores na redação, a princípio como meros processadores de texto. No “Caderno B”, só havia três máquinas. Uma estava comigo. No começo dos 1990, os editores do GLOBO fizeram um curso sobre a então nascente World Wide Web no Departamento de Informática da PUC-Rio. Eu era um deles. Entre 2000 e 2002, trabalhei no primeiro grande site jornalístico independente do país, o “NoPonto”, no qual eu tinha um blog em que indicava e comentava brevemente textos interessantes disponíveis na internet.

O xamã do folk - Hermano Vianna


O Globo - 05/04/2013

 

Os três discos da “Anthology of American folk music”, de Harry Smith, criaram a base para o movimento de rock-folk que impulsionou muitas carreiras como a de Bob Dylan

Harry Smith completaria 90 anos em maio. Ele morreu meses depois de receber o Grammy de 1991 como homenagem a tudo de bacana que produziu durante sua vida. Na premiação, no palco do Radio City Music Hall, declarou: “Fico feliz em dizer que meus sonhos se tornaram realidade, que eu vi a América transformada pela música”. É discurso de um homem realizado, que — mesmo tendo enfrentado todas as dificuldades de um cotidiano muitas vezes miserável, sem dinheiro até para a comida — conhece muito bem sua importância para os bons destinos de nossa época histórica. Nem era preciso acrescentar que o tipo de música que transformou a América foi, em grande parte, revelado pelo, e só valorizada a partir do seu trabalho.

Os três discos da “Anthology of American folk music” que compilou para a gravadora Folkways nos anos 1950 — reeditados em CDs pelo Smithsonian quatro décadas depois — criaram a base para o movimento de rock-folk que impulsionou muitas carreiras como a de Bob Dylan. Fala-se mesmo de uma “Irmandade da Antologia”, formada por pessoas — por exemplo, o fotógrafo Robert Frank — que depois de escutar aquelas músicas passaram a ter em Harry Smith um mestre espiritual, guia para transformação cultural de grandes proporções, anunciadora de outra América, ancestral e futura.

Há uma anedota pitoresca sobre a veneração de Dylan por Smith. Certa vez Dylan passou na casa de Allen Ginsberg, onde Smith morava de favor, com problemas nos dentes e no esôfago que só permitiam ingestão de líquidos. Ginsberg queria tirar onda apresentando os dois. Smith nem se levantou da cama para cumprimentar o já ilustre cantor. O psiquiatra do poeta anfitrião recomendou a partida do hóspede irascível, pois aquela presença estava “elevando sua pressão arterial”.

Esse episódio está narrado no texto biográfico que Ed Sanders, da banda The Fugs, publicou no encarte do quarto volume da Antologia, lançado pelo selo Revenant, de John Fahey (músico extraordinário, mais um — como Sanders — que merece coluna só sobre sua obra), depois da morte de Smith. Tal escrito e mesmo o disco que o acompanhava incluem muitos mistérios. O biografado fez questão de confundir amigos (como Sanders, que por anos foi dono de livraria frequentada quase que diariamente por Smith) e discípulos (como os que ouviram suas lições no Instituto Naropa, no Colorado, onde foi xamã-residente, cargo que permitiu algum conforto para seus últimos anos de vida), afirmando ser filho do mago Aleister Crowley ou que sua mãe era uma princesa filha de tzar russo.

O que se sabe com alguma certeza é que teve infância pobre nos arredores de Seattle, morando perto de reservas indígenas, onde eram praticados os potlachs, inspiração para o livro “A parte maldita”, de Georges Bataille, que por sinal acaba de ganhar nova tradução brasileira. Cantos dessas cerimônias pré-punks foram gravados por um Harry Smith ainda adolescente, antes mesmo de iniciar o curso de Antropologia na Universidade de Washington.

Uma carreira acadêmica não combinava com a inquietação frenética da mente de Smith. Logo ele partiu para San Francisco, atraído pelo clima boêmio que anunciava os anos da geração beat. Lá, ouvia jazz, estudava ciências ocultas, pintava, fazia cinema experimental (pintando na própria película) e colecionava muitas coisas, sobretudo compactos de 78 rpm, produtos do nascimento da indústria fonográfica, ainda muito fragmentada, sem o modelo de negócios concentrador adotado na sua época de ouro. Por incrível que pareça, apesar da novidade tecnológica, era muito mais fácil gravar e lançar discos no início do século XX. O mercado iniciante foi tomado por uma variedade incrível de estilos e músicos que nunca mais teriam chance de ser ouvidos quando as gravadoras passaram a se interessar principalmente por aquilo que pudesse entrar para o hit parade e para a rádio Top 40.

Devemos a Antologia a uma das inúmeras crises financeiras de Smith. Ele estava agora em Nova York, onde fazia gráficos para tentar desvendar (apenas para si mesmo) os padrões modernistas dos solos de Thelonious Monk (foi assim que Ginsberg o conheceu, desenhando na plateia do clube Five Spot), quando teve que se desfazer dos discos para pagar o aluguel e não ser despejado (como aconteceu anos depois, perdendo muitas pinturas e escritos). Moe Asch, o comprador e dono da Folkways, ficou impressionado com o conhecimento de Smith e encomendou a curadoria de uma seleção do material. Sorte da América, sorte nossa.

PS: Ainda quero fazer uma comparação entre os olhares modernistas de Harry Smith e Mário de Andrade diante do folk e do folclore. Tarefa bem insana, para futuro distante.


Leonardo Boff - O papa Francisco inaugura um novo milênio para a Igreja?

 O TEMPO

TUDO INDICA QUE MODELO SE ENCERROU COM A RENÚNCIA DE BENTO XVI

O primeiro milênio do cristianismo foi marcado pelo paradigma da comunidade. As igrejas possuíam relativa autonomia com seus ritos próprios: a ortodoxa, a copta, a ambrosiana de Milão, a moçárabe da Espanha e outras. Veneravam seus próprios mártires e confessores e tinham suas teologias, como se vê na florescente cristandade do norte da África com santo Agostinho, são Cipriano e o teólogo leigo Tertuliano. Elas se reconheciam mutuamente, e, embora em Roma já se esboçasse uma visão mais jurídica, predominava a presidência na caridade.

O segundo milênio foi caracterizado pelo paradigma da Igreja como sociedade perfeita e hierarquizada: uma monarquia absolutista centrada na figura do papa como suprema cabeça (cefalização), dotado de poderes ilimitados e, por fim, infalível quando se declara como tal em assuntos de fé e moral. Criou-se o Estado pontifício, com exército, sistema financeiro e legislação que incluía a pena de morte. Criou-se um corpo de peritos, a Cúria Romana, responsável pela administração eclesiástica mundial. Essa centralização gerou a romanização de toda a cristandade. A evangelização da América Latina, da Ásia e da África se fez no bojo de um mesmo processo de conquista colonial do mundo e significava um transplante do modelo romano, praticamente anulando a encarnação nas culturas locais, em grande parte destruídas com a cruz e a espada. Oficializou-se como de direito divino a separação estrita entre o clero e os leigos. Esses, sem nenhum poder de decisão (no primeiro milênio, participavam nas eleições dos bispos e do próprio papa), foram juridicamente e de fato infantilizados e mediocrizados.

Firmaram-se os costumes palacianos de padres, bispos, cardeais e papas. Os títulos de poder dos imperadores romanos, a começar pelo de papa e pelo de sumo pontífice, passaram ao bispo de Roma. Os cardeais, príncipes da Igreja, se vestiam como a alta nobreza renascentista. Isso permanece até os dias de hoje, para escândalo de não poucos cristãos.

Esse modelo de Igreja, tudo indica, se encerrou com a renúncia de Bento XVI. A eleição do papa Francisco, vindo "do fim do mundo", da periferia da cristandade, onde vivem 60% dos católicos, inaugura o paradigma eclesial do terceiro milênio: a Igreja como vasta rede de comunidades cristãs, enraizadas nas diferentes culturas, algumas mais ancestrais que a ocidental, como a chinesa, a indiana e a japonesa, e nas culturas tribais da África e comunitárias da América Latina. Encarna-se também na cultura moderna dos países tecnicamente avançados, com uma fé vivida também em pequenos grupos ou comunidades. Todas essas encarnações têm algo em comum: a urbanização da humanidade, pela qual mais de 80% da população vive em grandes conglomerados de milhões de habitantes.

Nesse contexto, será praticamente impossível falar em paróquias territoriais, de cunho rural, mas em comunidades de vizinhança de prédios ou de ruas próximas. Esse cristianismo terá como protagonistas os leigos, animados por padres, casados ou não, ou por mulheres sacerdotes e bispos ligados mais à espiritualidade do que à administração. As igrejas terão outros rostos, próprios das diferentes culturas.

A reforma, assim esperamos, não se restringirá à Cúria Romana, em estado calamitoso, mas se estenderá a toda a institucionalidade da Igreja. Talvez somente a convocação de um novo concílio, com representantes de toda a cristandade e de notáveis, por sua vida e sua ética, da sociedade civil mundial, dará ao papa a segurança e as linhas mestras da Igreja do terceiro milênio. Que não lhe falte o Espírito e a coragem.

domingo, 31 de março de 2013

Tudo a que tem direito - KENNETH SERBIN

O Estado de S. Paulo - 31/03/2013

Com a bandeira do casamento igualitário, gays buscam apenas um senso de pertencimento na comunidade maior

As históricas audiências da Suprema Corte dos Estados Unidos na semana passada sobre duas leis que barram direitos ao casamento gay revelaram o quão rápida e profundamente essa questão entrou no tecido da vida americana.

Como disse o juiz Samuel Alito, porém, a ideia de casamento gay “é mais recente do que telefones celulares e a internet”.

Na terça e na quarta, a Corte ouviu argumentos de advogados com respeito à lei federal de 1996 (a Lei de Defesa do Casamento) negando benefícios a casais do mesmo sexo casados de acordo com leis estaduais e o plebiscito de 2008 na Califórnia emendando a Constituição estadual para definir casamento como entre um homem e uma mulher, medida esta derrubada por um tribunal federal de recursos.

Curiosamente, a referência de Alito a duas das invenções que estão redefinindo as relações interpessoais no século 21 oferece também um parâmetro para as tendências históricas por trás do movimento a favor do casamento gay.

O individualismo extremo e o isolamento físico criados pelo uso de celulares e da internet são as mesmas forças motrizes poderosas que impelem os direitos gays.

Os direitos individuais, assim como os direitos humanos, ganharam força com a Revolução Francesa e, em particular, a Declaração de Independência e a Constituição dos Estados Unidos. “Tomamos essas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, que eles são dotados pelo seu Criador de certos Direitos inalienáveis, que entre esses estão Vida, Liberdade, e a busca da Felicidade”, escreveu Thomas Jefferson na Declaração.

Esses ideais trouxeram grandes avanços sociais para os Estados Unidos, como a emancipação dos escravos em 1863 e, um século depois, a concessão definitiva de plenos direitos civis aos descendentes de escravos graças ao movimento não violento forjado por Martin Luther King Jr.

Esses ideais – em particular a “busca da Felicidade” – também produziram a cultura de consumo em que a ênfase no “direito” a produtos e serviços excelentes substituiu, em grande medida, a cidadania e a participação democrática que caracterizaram a maior parte da vida americana nos séculos 19 e 20. Os americanos já não veem a si e a seus compatriotas principalmente como “cidadãos”, mas como “consumidores”.

O ideal de igualdade inspirou uma parcela crescente da população americana a redescobrir noções de liberdade e direitos civis na forma domovimento pelo casamento gay.

Numa pesquisa USA Today/Gallup de novembro de 2012, 32% dos entrevistados citaram“ direitos iguais/todos devem ter as mesmas liberdades” como sua razão para apoiar o direito ao casamento de pessoas do mesmo sexo. A mesma porcentagem também apontou “escolha pessoal” e a importância de amor e felicidade,em oposição à orientação sexual, como determinantes de seu apoio ao casamento gay.

O preconceito contra gays e a negação de direitos ao casamento capturaram o imaginário político da juventude americana de uma maneira não muito diferente do apoio de ativistas a LutherKing e aos direitos civis nos anos 1960. Na faixa de 18 a 29 anos, 73% dos entrevistados na pesquisa apoiaram a validade legal do casamento gay, enquanto entre as pessoas com 65 anos ou mais somente 39% expressaram esse apoio.

A controvérsia em torno do movimento por direitos gays talvez possa reavivar noções de cidadania e participação. Entretanto, a Suprema Corte, que deve decidir sobre as duas leis no final de junho, indicou que, embora possa perfeitamente se mostrar favorável aos direitos gays, provavelmente não produzirá uma aprovação abrangente do casamento gay.

Esse é um território muito novo tanto para o tribunal como para a nação, como os comentários do juiz Alito sugeriram. Alguns juízes expressaram dúvidas até sobre se os dois casos deviam ter sido levados ao tribunal superior.

A instituição do casamento heterossexual cristão existiu por 2 mil anos.Ninguém pode prever as consequências de longo prazo de legalizar o casamento gay para a nação inteira. (Nove Estados reconhecem o casamento gay, enquanto trinta têm emendas constitucionais proibindo-o).

Nessa linha,o juiz Antonin Scalia questionou se existiam dados suficientes para demonstrar que filhos não são afetados adversamente quando criados por casais do mesmo sexo. Aliás, adversários do casamento gay têm enfatizado que o casamento heterossexual oferece um ambiente melhor para criar filhos psicologicamente saudáveis. Eles defendem o casamento tradicional, de homem e mulher, como um alicerce fundamental da sociedade americana.

Mas a questão do juiz Scalia opera nos dois sentidos.Logicamente falando, se a falta de evidências( de longo prazo) não permite estabelecer a ausência de danos a filhos de casamentos do mesmo sexo, ela não pode provar tampouco que há danos.

A Suprema Corte se preocupa principalmente com a interpretação da lei e da Constituição. Ela não faz leis, embora conservadores nas últimas décadas tenham acusado o sistema de tribunais federais “ativista” de usurpar os deveres de elaboração de leis do Congresso.

O direito de casar não seria uma panaceia para a comunidade gay – assim como não foi para heterossexuais. Aliás, metade dos casamentos heterossexuais americanos termina em divórcio,e muitos casamentos são assolados por violência conjugal e outros problemas sérios.

Alguns gays – talvez maioria até – nem estarão interessados em casar. Como observou uma professora de Direito lésbica, casar é apenas uma maneira de pessoas gays ganharem um senso de pertencimento na comunidade maior.

Assim, é provável que a Suprema Corte queira decidir o mínimo possível e, como assinalaram alguns comentaristas, deixar a sociedade continuar a elaborar as questões de casamento e criação de filhos.

À SupremaCorte cabe defender a igualdade e o direito à felicidade. Seja qual for a sua decisão, ela pode dar à nação uma lição importante de civismo e tolerância.

Mas ela seguramente não está prestes a começar a definir o que é felicidade.


 /TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

KENNETH SERBIN É CHEFE DO DEPARTAMENTO DE
HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE DE SAN DIEGO E
AUTOR DE PADRES, CELIBATO E CONFLITO SOCIAL:
UMA HISTÓRIA DA IGREJA CATÓLICA NO
BRASIL (COMPANHIA DAS LETRAS)

Índio de museu - JOSÉ DE SOUZA MARTINS

 O Estado de S.Paulo - 31/03/2013

O conflito na ‘Aldeia do Maracanã’, no Rio, pôs em questão o nativismo brasileiro, criação do homem branco em cima de uma memória fantasiosa de Ceci e Peri

O desencontro entre os índios da chamada “aldeia do Maracanã” e o governo do Rio de Janeiro, no litígio pelo edifício abandonado do antigo Museu do Índio, indica uma nova característica das populações indígenas que sobreviveram aos cinco séculos de sua vitimização genocida. A muitos parecerá estranho que o grupo de 22 índios, oriundos de 17 diferentes grupos étnicos, constituam uma aldeia indígena verdadeira,como as conhecidas da maioria, depois de décadas de reportagens televisivas sobre índios do Brasil. Todos nós sabemos o que é uma aldeia de índios, mas não sabíamos que essa ocupação de um velho casarão também o era.

Este índio de agora, não é apenas o índio biológico e étnico que povoa as páginas de livros de história. É o índio cultural e político, situado no marco da modernidade, uma espécie de índio do futuro e não apenas índio do passado. Embora de carne e osso, é em boa medida um índio imaginário, nem por isso menos real e menos legítimo.Um índio cujas danças misturam movimentos corporais de tradições indígenas e não indígenas, com pinturas de corpo que são marcas tribais, com telefones celulares e câmeras fotográficas, que são adornos tribais de branco.

Aqueles índios formam pouco mais do que um albergue multiétnico, em casarão abandonado do século 19, dotado, no entanto, de uma função evocativa e identitária que não pode ser ignorada.Ainda que seja de dificílima compreensão porque foge da “receita” do que o índio “deve ser”. Procuram enquadrar-se na concepção estereotipada que do índio tem o branco, na verdade o índio genérico e sem identidade própria. Índio de museu. Porque é esse índio de ficção que tem obtido reconhecimento constitucional e legal do Estado brasileiro. Sem render-se a ele,o índio de verdade,não tem como reivindicar direitos. As populações de diferentes grupos humanos, quando deslocadas espacial e historicamente, se recriam a partir das condições que encontram no cenário de sua adversidade. O nosso imigrante italiano se reinventou italiano no Brasil. Era outro italiano, sendo o mesmo. É no marco de sua uniformidade fictícia, a de “índio”, que os índios podem assegurar-se a proteção legal que lhes permite lutar por sua diferença contra o índio genérico do branco. Pagam um preço, o da dupla personalidade, a do conflito interior que divide sua pessoa na disputa entre o falso índio do branco e o verdadeiro índio do índio.

O nativismo brasileiro, criação de branco em cima de uma memória fantasiosa de Ceci e Peri, está sendo questionado. O próprio índio quer escrever o seu enredo e desempenhar os papéis da trama que diz quem ele é e não é. O índio dócil e submisso da sujeiçã violenta e da catequese de amansamento tem sido apenas o dar-se a ver do vencido. Mas, índio morde e morde por legítimas razões auto defensivas. Se o índio chegou à história de escola primária como representante de uma das “três raças”, que não são três nem são raças, na constituição de uma nacionalidade dominante, fraterna e harmoniosa, no novo enredo ele desconstrói essa história inventada pelos que venceram e pelos que mandam.Estamos vivendo um momento de reprotagonização no processo histórico brasileiro. Não só índios se repropõem como sujeitos de direitos.Mas também outros grupos humanos que a ficção política de uma nação trirracial criada pelo Império e mantida pela República acomoda apertadamente na ideologia da brasilidade. O Brasil dessa ficção política de fundo racial vive sua crise e, provavelmente, seus últimos tempos.

De modo que o que para muitos pode parecer uma comédia, uma variante do permanent carnaval brasileiro, não regulado pelas demarcações cronológicas da Quaresma, constitui, na verdade, momento e expressão de germinação social e de reinvenção do Brasil. Não por acaso, com apoio de outros índios e de brancos,houve uma tentativa de invadir o verdadeiro Museu do Índio, em Botafogo. É nessa tentativa que está , muito provavelmente, a chave da compreensão da resistência do pequeno grupo indígena à desocupação e à demolição do velho e arruinado casarão que ocupam nas imediações do Maracanã.

Para nós,museu é museu.Para muitas pessoas, não só os índios,um museu, pelos objetos que contém, pode ser muito mais um templo do que uma casa de cultura. O que para muitos é uma obra de arte,para outros continua sendo um objeto de culto.Não é diferente para o índio. Um objeto de sua cultura, exibido num museu, não perde para ele as funções rituais e até sua dimensão sagrada. Não é incomum que índios em visita a museus fiquem chocados ao verem expostos objetos de sua cultura que a tradiçã omanda que fiquem longe dos olhos dos não iniciados ritualmente para sua manipulação cerimonial.

De modoque,nãoconstituipropriamente uma anomalia que esse grupo de indígena se congregue no que para eles é não só uma extensão do Museu do Índio, mas extensão também de suas aldeias pelos objetos que o Museu abriga e expõe,cuja significação identitária permanece.


JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, PROFESSOR
EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA DA
USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE FRONTEIRA –
A DEGRADAÇÃO DO OUTRO NOS CONFINS DO
HUMANO (CONTEXTO)

Arte e realidade - Lee Siegel

Lee Siegel
 
NOVA JERSEY - Ainda precisamos da arte? Embora me horrorize, a pergunta me ocorre cada vez mais. Primeiro, devo dizer que, sem a arte, minha vida não teria sentido. O que a leitura de literatura séria, o desfrute de artes plásticas e teatro sérios fizeram por mim quando eu era criança foi me ensinarem a não aceitar os dados concretos da vida. A arte é um testemunho de todas as barreiras que a sociedade erige diante do indivíduo. A arte nos diz que coisas não precisam ser do jeito que são. Ela nos diz que nada, nem classe, nem dinheiro, nem pedigree, pode esmagar um dom natural. Ela nos diz que, apesar de meros mortais, podemos criar do nada algo belo e duradouro.

LEIA AQUI

Peitos pelo progresso - João Ubaldo Ribeiro


JOÃO UBALDO RIBEIRO - O Estado de S.Paulo

Como já tive oportunidade de comentar aqui diversas vezes, Itaparica sempre esteve na vanguarda e não raro puxou o bonde nacional. Assim foi quando, depois de os aturarmos durante quase um ano, na época do padre Vieira, enchemos o saco de tantos vanderdiques e vanderleis e botamos os holandeses da ilha para fora - e tudo às carreiras, tanto assim que vários ficaram para trás, para usufruto das conterrâneas mais necessitadas ou mais assanhadinhas, assim se originando as flores que são nossas mulatas de olhos verdes, as quais vem gente de todo o mundo para conhecer. Quase dois séculos mais tarde, se não fosse a ilha, talvez não houvesse independência, pois a convicção dos historiadores sérios é de que o grito do Ipiranga não passou de gogó e sair mesmo no tapa com os portugueses foi na ilha e redondezas.

O grande mito - Caetano Veloso


 Publicado em:


O GLOBO

 

Se a Comissão fizer algo útil e justo, mesmo sob Feliciano, aplaudirei a Comissão. O que não quer dizer que aplaudo a escolha do seu presidente.

A pauta da primeira reunião da Comissão de Direitos Humanos e Minorias sob a presidência de Marco Feliciano foi o grave caso da contaminação por chumbo na cidade de Santo Amaro da Purificação, no estado da Bahia. Feliciano disse aos reclamantes que eles teriam sucesso em suas demandas se tivessem o apoio de ruidosos manifestantes, como os que desejam destituí-lo. Bem, ele não o disse nessas palavras, mas redigi como pude o que captei do sentido de sua fala. Participei de uma manifestação pela saída de Feliciano e já mencionei brevemente aqui que acho inapropriada a escolha do seu nome para o cargo. Mas usei muito mais espaço quando, faz algum tempo, tratei da questão do chumbo em minha cidade. Nossas respostas públicas ao andamento dos fatos políticos são quase inevitavelmente desproporcionais. Nesse caso, a minha não foi: dou muito maior importância à questão da violência ambiental que Santo Amaro sofreu e sofre do que ao disparate que é a escolha do presidente da Comissão. Não estou dizendo que aquela questão é objetivamente mais importante do que esta (talvez o seja), mas que pessoalmente dou muito maior importância à questão santamarense. Se a Comissão fizer algo útil e justo a respeito, mesmo sob Feliciano, aplaudirei a Comissão. O que não quer dizer que aplaudo a escolha do seu presidente.

Vi Feliciano no programa “Agora é tarde”, de Danilo Gentili. Achei boa a entrevista. Tanto o apresentador quanto o entrevistado se saíram bem. Gentili foi irreverente e um tanto obsceno (parece que é esse o tom do programa), e Feliciano foi firme (sem deixar de ser levado pela ousadia de Gentili, tendo chegado, na ânsia de mostrar que não se assombrava com coisa nenhuma, a soar um tanto obsceno ele próprio). Gentili conseguiu dizer diretamente a ele coisas que a maioria das pessoas que veem seu programa (e muitas que não veem) gostariam de poder dizer. Numa determinada altura, por causa da história de não admitir que suas filhas se expusessem a ver “dois homens barbados e com as pernas raspadas se beijando”, Feliciano disse que a sociedade brasileira não está preparada para isso. Bom, o passo seguinte seria: então preparemo-la. De fato, a frase do pastor esconde um “ainda”. O diálogo aberto entre Gentili e ele, na TV, pareceu contribuir consideravelmente para essa preparação. O melhor momento do pastor foi quando ele disse que é um deputado eleito com muitos votos e, portanto, representa um aspecto da mentalidade do povo. O pior foi quando, tendo de responder sobre sexo anal heterossexual (que Gentili chamou de “transar pela bunda”, expressão que foi, pelo menos em parte, repetida por Feliciano), ele se saiu com uma restrição higiênica, chamando o ânus de “um esgoto”. Agostinho já notara, com muito maior elegância, que nascemos “entre fezes e urina”.

Vi hoje na internet (estou gripado) uma briga bastante feia entre, de um lado, Marco Feliciano e Silas Malafaia, e, de outro, Edir Macedo. O bispo editou imagens de umbanda (que ele chama de “sessão espírita”) ao lado de cenas de possessão pelo Espírito Santo de fiéis de igrejas pentecostais. Estampando a pergunta: “Qual a diferença?” Com isso dizendo que esses rodopios e esse lançar-se ao chão dos evangélicos é algo tão suspeitamente demoníaco quanto os rituais afro-brasileiros. As respostas dos dois pastores são muito bem articuladas. Vale a pena ver no YouTube: basta escrever “Feliciano responde a Edir Macedo” (Silas aparece logo ao lado). Ambos dizem que a Universal de Macedo já fez e faz muita coisa igualmente parecida com aqueles ritos. Mais sério: Moisés faz o galho virar serpente, os feiticeiros do faraó também fazem, mas a serpente de Moisés engole as deles: Deus é maior que quaisquer manifestações do demônio. Os três líderes religiosos parecem estar lutando por clientela. Para um homem não religioso como eu, é o que fica evidente.

Vi Mautner no Jô. Sou um homem não religioso? Ouvi-o dizer que o Brasil e sua amálgama são a nova coisa, que salvaremos o mundo. Na luta contra os malditos que envenenaram minha terra, invoquei Nossa Senhora da Purificação. Lendo “O mundo líquido”, de Bauman, aprendi que os países em desenvolvimento estão fadados à desgraça. Mas tendo a pensar que a política econômica mal explicada de Dilmantega (sugestões como as de André Nassif , Carmem Feijó e Eliane Araújo sendo cruamente rejeitadas) nos atrasa em relação aos outros países para nos resguardar de um sucesso dentro do que ainda não é o que devemos ser. Nossa Senhora da Purificação de Santo Amaro, o Jesus de Nazaré do Mautner, o Dom Sebastião de Agostinho, é isso que minha alma intui que nos guia a algo acima dessa lixeira.


sábado, 30 de março de 2013

Engenharia do Engenhão - José Miguel Wisnik


 O GLOBO - 30/03/2013

 

A realização da Copa das Confederações e da Copa do Mundo, bem como das Olimpíadas, no Brasil, põe à prova capacidades fundamentais como as de criar e de gerir

Todos sabemos que a realização da Copa das Confederações e da Copa do Mundo, bem como das Olimpíadas, no Brasil, põe à prova capacidades fundamentais como as de criar e de gerir, de potencializar os talentos e de administrar as condições de sua realização em benefício público. É por isso mesmo que o futebol está no centro da interrogação sobre os atravessados destinos da modernização brasileira. Corresponderemos à nossa inventividade lúdica e invejável de pentacampeões mundiais? Somos capazes de sustentar consequentemente a gestão das estruturas necessárias e de incorporá-las como um legado? As duas perguntas cairão como meteoros pré-datados sobre o nosso atraso atual, no qual se confundem o atraso histórico imemorial com o atraso da construção das obras e o da construção do time (que está mais atrasada do que a dos estádios). A ruptura visível na estrutura do Engenhão soa a essa altura do campeonato como o sintoma incômodo que põe tudo isso a nu, como a gafe de mau gosto que desvela a incompetência cósmica.

Os arcos que sustentam o teto do estádio inaugurado no Pan de 2007 não se acomodaram na estrutura como previa o projeto, e podem desabar. O laudo de uma empresa de consultoria alemã recomenda a interdição. Começa a brasileiríssima dança das denegações: Cesar Maia, prefeito na ocasião da obra, declara categoricamente que o problema não é de projeto nem de execução, mas de manutenção; o engenheiro responsável afirma que o laudo alemão é “brilhante”, mas parte de “premissas diferentes” das do projeto, razão pela qual apresenta um resultado que ele não compartilha, completando que iria tranquilo com a família, se fosse o caso, para assistir a um jogo no Engenhão. Tudo se passa como se não tivesse existido o descarrilamento do bonde de Santa Teresa, nem o desabamento dos três prédios junto do Municipal, nem a tragédia da boate Kiss.

A cultura da irresponsabilidade — que consiste em não responder pelo que se faz — é corrente no Brasil. Na Europa e nos Estados Unidos é costume que alguém pague pelos desmandos e pelos erros; no Japão, o engenheiro praticaria o haraquiri. Aqui, é de praxe que os envolvidos finjam que nada está acontecendo. Para completar, o contrato assinado, até onde entendi, libera o consórcio construtor de responsabilidade sobre problemas que se revelem após o término da construção, ficando tudo na conta da prefeitura.

A opção brasileira para a realização dos novos estádios da Copa não foi a do convite a arquitetos autorais, como os do Ninho de Pássaro em Pequim, projetado por Herzog e De Meuron com participação do artista chinês Ai Weiwei. O novo estádio de Wembley, por sua vez, é da autoria de Norman Foster, importante arquiteto inglês e, curiosamente, contendo uma evidente citação do projeto não realizado de Oscar Niemeyer para o Maracanã, que era também baseado num imenso arco do qual penderiam finos cabos de aço, sustentando a cobertura. O pouco conhecido projeto de Niemeyer apontava pioneiramente, nos anos 1940, para os vários estádios atirantados contemporâneos, isto é, com a cobertura suspensa por cabos, como é o caso também do Stade de France, construído para a Copa de 1998. O Engenhão é uma versão pouco elegante e low-tech dessa tendência, onde a estrutura se baseia não em cabos, mas em perfis tubulares largos e pesados, halterofilísticos, que, ao que parece, não aguentaram o levantamento de peso.

Não escolher arquitetos de renome, pertencentes ao star system da arquitetura espetacularizada, poderia ser visto como uma virtude, se não fosse pelo fato de que os projetos foram entregues na maioria a conglomerados internacionais de construtoras com empreiteiras, aparecendo os arquitetos como parte secundária do pacote dos negócios. No mesmo bolo, as duas maiores e principais cidades-símbolos do Brasil, Rio e São Paulo, comparecem vexaminosamente com um estádio baleado, herdado do Pan e com importante papel projetado para as Olímpiadas, o Engenhão, com o Maracanã atrasado e o Itaquerão corintiano, suposto estádio do jogo de abertura da Copa, travado por um imbróglio financeiro.

Construir uma seleção, por sua vez, é mais difícil do que construir vinte estádios. Não há espaço aqui para desenvolver esse tema. Só quero dizer que eu, que sou santista, que fui um entusiasta da permanência de Neymar no Brasil e que sou seu fã total, acho que ele tem que ir o quanto antes para o Barcelona, testar o seu tamanho real, temperar o seu talento no contato com marcações futebolísticas diferentes do cerco e do circo de mídia, de publicidade e de futebol precário que se criou em torno dele aqui.


domingo, 24 de março de 2013

Você tem nome de quê? - HUMBERTO WERNECK

Rendeu marola a conversa da semana passada, em torno de nomes de gente que são também nomes de coisa, bicho ou vegetal. Como o guilherme que o Guilherme usa na carpintaria. Poucas reclamações: um Bernardo não gostou de se saber xará daquele berloque da anatomia masculina, e uma Cecília, ao ver-se no balaio das serpentes, só faltou me picar. Duas Betes perguntaram que jogo é esse originado do beisebol. Talvez o "bete (ou bente) altas" da minha infância, em que o desafio era derrubar com a bolinha a base adversária, tripé armado com gravetos. Não tem no Houaiss, mas eu estive nos anos 50 e dou fé.

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O Plano Borges - João Ubaldo Ribeiro

João Ubaldo Ribeiro - O Estado de S.Paulo
 
Pouco mais de meio-dia, no aclamado boteco Tio Sam, tudo parece estar de acordo com a filosofia do proprietário do estabelecimento, ou seja, a normalidade. O domingo não se apresenta dos mais gloriosos, mas não chove e, a cada trinta segundos, passa uma bela moça ou formosa senhora, a caminho da praia. Às mesas do Tio Sam e do boteco que lhe é vizinho, os coroas de sempre - nenhum dos quais jamais precisou de Viagra ou semelhante, mas sempre tem um amigo que precisa - se postam tão perto quanto possível da calçada, para desfrutar da paisagem e comentar as qualidades organolépticas das desfilantes. Amavelmente cafajestes, denominam isso "apreciar o cânter" - e o cânter aqui desta calçada leblonina nunca decepciona os aficionados.

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Baboseiras - Luis Fernando Verissimo

O Estado de S.Paulo

O motoboy entregou o pacote de cartas e disse:
- Ele falou que tinha resposta.
- Espera - disse ela. E pôs-se a examinar as cartas. Procurava uma em especial, que não encontrou. Fez um sinal para o motoboy aguardar enquanto telefonava.
- Alô...
- Amauri, cadê a carta do ursinho?
Era uma das primeiras cartas que ela tinha lhe mandado. Ainda eram namorados. Uma carta toda escrita como se fosse de uma criança para o seu ursinho de pelúcia.
- Eu mandei. Não mandei?
- Não. E se você não mandar a carta do ursinho eu não mando as suas.
- Heleninha...
- Não tem "Heleninha", Amauri. Ou você manda todas as minhas cartas ou eu começo a mostrar as suas. Sou capaz até de publicá-las. Quero ver como fica a sua reputação no meio.
- Eu pensei em guardar pelo menos uma carta sua, Heleninha.
- Logo a mais ridícula? Devolve a minha carta, Amauri. Nosso trato foi esse.
Todas as cartas.
- Deixa eu ficar só com esta. É a minha favorita.
- Eu sei o que você está pensando, Amauri. Quer ficar com a carta para me chantagear depois.
- Chantagear, Heleninha?!
- Chantagear. Eu conheço você.
- Heleninha! Eu acho esta carta linda. Uma lembrança do tempo em que a gente se amava.
- Não banca o sentimental comigo, Amauri. Essa carta é só um exemplo das baboseiras que e gente diz e escreve quando acha que o amor nunca vai acabar. Mas o amor acaba e fica a baboseira. Me devolve essa carta, Amauri!
- Heleninha, você lembra de como eu chamava você? Na cama?
- Eu não quero ouvir!
- Lembra? Está certo, era baboseira. Mas era bonito. Era carinhoso. Eu era o seu ursinho e você era a minha...
- Amauri, manda essa carta ou eu publico as suas. Já sei exatamente para quem mandar a primeira.
- Está bem, Heleninha. Manda o motoboy de volta.

Zuneide pensou: não dá mais. Morar nesta cidade, não dá mais. Não vejo mais o Ique, não sei nada da vida dele. E todas as noites é este suplício, nunca sei se ele vai voltar pra casa ou não, se está vivo ou morto. Dizem que morre um motoboy por dia na cidade. Todos os dias uma mãe perde um filho nesta cidade. Se o Ique ainda fosse procurar outra coisa pra fazer. Mas não. Trata aquela moto como se fosse um bicho de estimação. À noite, a moto fica ao lado da cama dele. Dorme com ele. Vou tentar convencer o Ique a voltar para São Carlos. Respirar outros ares. Antes que ele morra e me deixe.

- Não dá mais, doutor Amauri. Esta cidade está me deixando maluco. Sabe que no outro dia, quando me dei conta, estava correndo pela calçada e buzinando? A pé, na calçada, e buzinando para os outros pedestres saírem da frente. Bi, bi, bi. Olha que loucura.
- Você acha que isso pode ter alguma coisa a ver com os problemas em casa. Com a Mercedes?
- Não sei. Nosso amor acabou, doutor. Não tem mais sexo, não tem mais nada. Na outra noite eu chamei ela por um apelido que a gente usava quando era recém-casados, eu era Pimpão e ela era Pimpinha, e ela deu uma gargalhada. Não se lembrava mais. E ela também está enlouquecendo, doutor. Agora deu para dizer que se eu não comprar uma TV digital ela se mata. Vou dizer para ela vir consultar com o senhor tam...
Tocou o telefone e Amauri pediu licença para atender.
- Alô? Sim, Helena. Não chegou? Eu mandei pelo motoboy perto do meio-dia. Mandei, Helena. Por que eu iria mentir? Deve ter acontecido alguma coisa com o motoboy.

Só em casa, depois de deixar o Ique no hospital, Zuneide descobriu a carta no bolso do blusão do filho. Uma carta carinhosa, que começava assim: "Querido Ursinho". Ele tinha uma namorada e ela não sabia! O nome dela era Heleninha. Uma boa menina, ingênua, pura, que obviamente o amava muito, a julgar pela carta. Preciso encontrar um jeito de avisá-la de que o Ique teve um acidente, pensou Zuleide. Será uma maneira de conhecê-la, também. De conversarmos, de combinarmos a ida deles para São Carlos, para outros ares, depois do casamento. Zuneide leu e releu a carta várias vezes. Que coisa bonita. Que coisa carinhosa. No dia seguinte ela diria ao Ique que ainda não conhecia a Heleninha mas já gostava dela.

- Amauri, você pediu. Vou começar a distribuir as suas cartas.
- Heleninha...
- Você mentiu. O tal motoboy não apareceu com a minha carta.
- Heleninha...
- Prepare-se para o pior, Amauri.

Dolores e Eric - Caetano Veloso


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FALA CAETANO

O GLOBO

 

Colunista responde autora que escreve biografia da cantora sobre artigo publicado esta semana no Segundo Caderno

Fiquei surpreso com o artigo de Angela de Almeida publicado aqui ao lado na quarta-feira. O título era “Em defesa de Dolores Duran” mas, apesar da redação sóbria, não se entende de que a articulista está defendendo a cantora. Pela citação direta de comentário feito aqui nesta coluna, pareceria que ela quer defender Dolores de mim. Ela acha mesmo que diminuí Dolores ao reconhecer que “Por causa de você” é uma canção de amor afirmativa e que “Estrada do sol” resplandece de contraste com o pessimismo amoroso dos sambas-canções dos anos 1950? Angela reclama de eu ter dito que a figura vital e engraçada que aparece na biografia escrita por Rodrigo Faour não me surpreende. Mas por que diabos isso estaria na contramão da admiração pela personalidade artística da compositora que exponho no parágrafo precedente? Na verdade, toda a angustiante história da cardiopatia que acabou matando nossa adorada artista está narrada no livro de Faour. Se Angela tem críticas a fazer ao livro desse autor, que as faça. Mas essa velada acusação não procede: Faour não omite, nega ou desmente a tensão que acompanhou Dolores por toda a sua curta vida.

De minha parte, sempre tive e tenho a sensação nítida de que Dolores não era uma moça triste, nem mesmo uma autora especialmente pra baixo dentre os fazedores de baladas brasileiras daqueles tempos. Eu a vi de perto no auditório da Rádio Nacional e senti uma simpatia imediata, passando a achar que a conhecia. Deplorarei sempre não ter podido encontrá-la quando finalmente vim para o Rio. Lendo o livro de Faour, eu me encontrei com a pessoa que intuía a partir da aparência, da voz e das músicas. As canções de Dolores são as mais convincentes, sinceras e diretas que se podem escrever. Todas as referências ao “tempo passando” e à certeza terrível da mortalidade entrelaçada com a sede sem fim de ser amada que aparecem em suas composições são registradas por Faour. Pode-se não gostar (eu não gosto) do tom demasiado jocoso e do coloquialismo extravagante do autor, mas a pesquisa sobre quem foi a mulher que ganhou o nome Dolores Duran é abrangente e honesta. Dolores aparece como uma menina excepcionalmente inteligente, que gostava de curtir a vida e que sentia alegria com a própria inteligência. O jeito de ela cantar os baiões engraçados de Chico Anysio e os não menos engraçados sambas de Billy Blanco mostra bem que tipo de piadista ela era. As lembranças dos seus ex-amantes coincidem em descrever uma mulher apaixonada e sensual, com grande culto do amor físico. A irmã e as amigas descrevem uma pessoa reconhecível. Uma personagem vívida sai das páginas do livro. Nenhum dos seus próximos desmente as características da personalidade brincalhona. Faour sempre parece perfeitamente honesto na transcrição dos depoimentos. Se Angela está escrevendo uma biografia mais aprofundada da compositora, ótimo. Que ela a publique o quanto antes. Mas não venha ralhar comigo pelo que eu não fiz.

.Dolores é o máximo. Sem ela eu não estaria tão firme contra Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos; eu não teria entendido nem um décimo do que entendo da linguagem da canção popular; o Brasil não seria o que, a duras penas, consegue ser. Dolores é uma glória da língua portuguesa, sem a qual o samba não existiria.

Estou escrevendo quase sem usar a cabeça. Em meio aos preparativos para a estreia do show “Abraçaço” (quando este artigo sair, já terei feito três dos quatro shows que anunciei fazer no Circo Voador), só tenho na mente as palavras e as notas embaralhadas de “Um comunista”, “Alexandre” (que vou ler, pois nunca a cantei em público, já que não decorei a letra) e “Funk melódico” (que gravei lendo e nunca mais cantei). Gosto de música popular. Sempre gostei. Há algo aí. Quando, em suas análises da formação social do jazz, Eric Hobsbawm fala com desprezo de Tin Pan Alley (a rua que deu nome à produção de canções americanas nos anos 1920, 30 e 40), ou seja, de Irvin Berlin, George Gershwin e Cole Porter, eu me sinto mal. Não é que eu queira a aprovação dele para a canção pop (como ele já chama o tipo de música feita por essa gente): é que eu acho que há algo errado em não se captar a grandeza desse gênero. Hobsbawm é que fica sem minha aprovação. Sou mais Dolores.

É simpático que Hobsbawm não embarque no ódio ao jazz que Adorno nutria. Apesar da crítica do capitalismo (Hobsbawm também era marxista), ele não desqualifica uma forma de expressão complexa como o jazz. (Embora eu ache que têm graça algumas arengas de Adorno: ele entendia mais de música do que Hobsbawm.) Mas nada de “Night and day”, “The man I love” ou “Por causa de você” com ele

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Para ler o artigo de Angela de Almeida :



Em defesa de Dolores Duran - ANGELA DE ALMEIDA


sábado, 23 de março de 2013

SABÁTICO

 
A ARTE COMO UM JOGO DE ESPELHOS

Coletânea reúne textos nos quais Milan Kundera aborda música, literatura, pintura ou teatro para definir a si mesmo


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REFLEXÕES SOBRE UMA REVOLUÇÃO


Em Mercadores de Cultura, que sai no País no fim de abril, John B. Thompson traça um vasto painel do mercado editorial americano e inglês; aqui ele discute o tema de forma ampla, incluindo o Brasil


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A INDÚSTRIA DE ‘CISNES NEGROS


Leia trecho de um capítulo no qual o autor analisa o funcionamento das editoras comerciais


 

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UMA RARA COLEÇÃO, FEITA COM ALEGRIA


Com 45 mil volumes, num extraordinário conjunto de primeiras edições, manuscritos, mapas, revistas, etc., a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin abre neste sábado sua nova sede


 

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