domingo, 3 de março de 2013

Ficha limpa na Santa Sé

Em conclave, cardeais devem buscar um Papa imune aos escândalos que assolam a Igreja

Deborah Berlinck
Enviada especial

ROMA O futuro Papa - o homem que vai guiar estimados 1,2 bilhão de católicos no mundo e comandar uma Cúria Romana dividida e indomável - terá que ser um santo. Pelo menos no sentido figurado da palavra. Ao fim de quase oito anos do conturbado pontificado de Bento XVI, marcado por escândalos de pedofilia, disputas internas e até roubo de documentos secretos, o fator que mais pesará na escolha dos 115 cardeais que vão se reunir a partir de amanhã em Roma não será origem ou idade, mas mãos limpas. Mani pulite , diriam os italianos.

Com base nessa tese, Salvatore Izzo, especialista em Vaticano da Agência Itália (AGI), conta já ter eliminado de sua lista de papáveis sete ou oito cardeais que participarão do conclave:

- O verdadeiro debate no momento diz respeito à santidade pessoal do candidato. Esse vai ser o elemento principal. O candidato deve ser absolutamente íntegro e acima de qualquer suspeita. Não apenas comportamento pessoal, mas também se combateu de forma justa o fenômeno da pedofilia.
Izzo não é o único. James Weiss, teólogo do Departamento de Artes e Ciências do Boston College, nos Estados Unidos, também diz:

- Eles todos vão estar se perguntando quem está seguro. Seguro significa quem está livre de chantagem, que não tem roupa suja, mas também quem tem poucos inimigos (na Cúria) e que vai conseguir fazer o trabalho.
Pelo critério de não ter muitos inimigos na Cúria, Weiss elimina dois papáveis que figuram em muitas listas como fortes candidatos: Peter Turkson, de Gana, e Christoph Schönborn, da Áustria. Segundo ele, os dois "falaram demais" e têm inimizades internas.

ITALIANOS COM POUCAS CHANCES

Entre os cardeais eliminados por Izzo, o mais óbvio é Roger Mahony, que estará no conclave apesar de estar sendo investigado sob suspeita de ter acobertado 129 casos de abuso sexual em Los Angeles. Nos EUA, a organização Catholics United coletou dez mil assinaturas em um manifesto exigindo que ele não participe da escolha do novo Papa.

Mas Mahony resiste. E junto com ele, resistem os que acham que os pecados da Igreja devem ser acertados com Deus ou pela Igreja, como o cardeal William Levada. Este americano, que ocupou o mais alto cargo na Cúria Romana (de 2005 a 2012, foi prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé), partiu em defesa de Mahony. "Existem alguns grupos de vítimas, para quem o suficiente nunca é suficiente, por isso temos de fazer o nosso trabalho da melhor forma que vemos... Mahony pediu desculpas por erros de julgamento cometidos. Eu acredito que ele deveria estar no conclave", escreveu.

Mahony se apresenta como vítima de perseguição. Em seu blog, ele escreveu: "Não me lembro de um momento como agora, quando as pessoas tendem a ser tão críticas e até mesmo hipócritas, tão rápidas para acusar, julgar e condenar ... O que aconteceu com a regra de dar aos outros o benefício da dúvida até que se prove o contrário?".

O ex-padre católico Tom Rastrelli - uma das vítimas de abuso sexual -reagiu com indignação num blog no Huffington Post: "A mensagem implícita para nós, vítimas de abuso, é: por que você (vítima) não pode simplesmente nos perdoar e pôr um ponto final nisso? As vítimas com quem eu falo querem justiça!"
Outro eliminado da lista de Izzo é o cardeal primaz da Irlanda, Sean Brady. Embora continue no comando da Igreja do país, o vaticanista diz que ele "foi praticamente demitido", tendo seus poderes diminuídos pelo Vaticano. Um documentário da BBC mostrou que Brady tinha nome e endereço de crianças que estavam sendo abusadas por um padre, mas não revelou o fato à polícia, nem aos pais das vítimas - escândalo que chocou a profundamente Irlanda. Ele, porém, participa do conclave.

Godfried Danneels, da Bélgica, também saiu da lista de papáveis de Izzo. Aos 79 anos, por pouco o belga não fica de fora do conclave: ele completa 80 anos, idade limite para votar, daqui a três meses. Conservador, o cardeal, que comandou durante três décadas a Igreja na Bélgica, foi flagrado recomendando a uma vítima de abuso sexual não divulgar o caso, até que o bispo agressor, Roger Vangheluwe, se aposentasse. A vítima gravou secretamente a conversa e divulgou para a imprensa. Depois, o bispo admitiu o abuso e se demitiu. Na gravação, o cardeal dizia: "Melhor esperar por uma data no ano que vem, quando ele vai renunciar. Não sei se haverá muito a ganhar fazendo muito barulho sobre isso, nem para você nem para ele".

O vaticanista italiano também descarta o cardeal Vigário Geral de Roma, Agostino Vallini, "que certamente é inocente, mas quem quando era bispo de Albanom não transferiu de forma justa um sacerdote que depois se matou". Ele elimina também dois outros cardeais italianos, Giuseppe Betori, atual arcebispo de Florença, e seu antecessor na cidade, Ennio Antonelli, que poderiam ser cobrados por casos de pedofilia sob a gestão deles.

- No caso de todos os cardeais que assumiram cargo episcopal na Itália, há um problema: a lei italiana não prevê a denúncia obrigatória (de um suspeito de pedofilia) - diz Izzo, para quem o único com maiores chances seria Angelo Scola, arcebispo de Milão.

Para o vaticanista, pelo critério das mãos limpas, os italianos em melhor posição seriam os da Cúria Romana, embora não haja uma figura de destaque.

Também houve denúncias de casos de pedofilia na diocese de Sidney, ocupada pelo australiano George Pell, outro cardeal integrante do conclave que poderia ser eliminado. Pell criticara Bento XVI um dia antes da renúncia ao dizer, numa entrevista à televisão australiana, que o Papa Emérito foi um professor brilhante, mas governar a Igreja "não era o seu forte".

PROGRESSISTAS X CONSERVADORES

Para Izzo, se a Igreja deve ir para as mãos de um Papa conservador ou progressista será uma questão marginal neste conclave histórico após a renúncia extraordinária de um Papa, algo que não acontecia há 600 anos. Até porque, segundo ele, a divisão entre conservador e progressista não é preto no branco.
- Ratzinger, considerado um conservador, inovou a própria figura do Papa, ao introduzir esta ideia de que um Papa não precisa esperar morrer para deixar o cargo. Isso é um ato progressista, embora eu ache que um pouco perigoso - opina.

Marco Politi, outro vaticanista em Roma, afirma que, sem dúvida, há diferentes correntes no conclave. Para ele, o problema é que depois de tantos anos de "conformismo" sob o comando de um conservador como Joseph Ratzinger, está difícil identificar quem é, de fato, reformador. Isto é, quem estaria disposto a enfrentar questões espinhosas como a crise da falta de padres, o debate sobre casamento de sacerdotes e o papel da mulher na Igreja.

- Não sabemos o quão forte são os reformadores no conclave ou como pensam os papáveis, porque nestes anos havia um clima de conformismo. Ninguém dizia nada diferente do que dizia Ratzinger - disse, em entrevista à rede de TV Euronews.
O americano John Allen Jr, autor de diversos livros sobre a Igreja Católica, entre eles, duas biografias de Joseph Ratzinger, disse ao GLOBO que é uma ilusão imaginar uma mudança progressista com o olhar de quem está fora da Igreja:

- Estes sujeitos (os cardeais) não vão estar sentados fazendo debates altamente ideológicos do tipo: devemos ou não ser contra o aborto? Devemos ou não aceitar casamento homossexual? Não, não são essas coisas que estão em jogo. Mudanças, como são definidas no mundo secular, não estão na mesa. Eleição de Papa é sobre mudança de tom, não de substância. Então, o que podemos esperar é isso: mudança de tom.

PERFIL Carlos Alberto França

O livreiro da imprensa

Um testemunho privilegiado do homem que vendeu literatura nas redações durante 40 anos

ARNALDO BLOCH
arnaldo@oglobo.com.br

Aposentado recentemente por problemas de saúde, França, como era conhecido, não deixa sucessor nos corredores de jornais, TVs, revistas e rádios, e leva consigo a história de quatro décadas de jornalismo vistas por um ângulo único

Deu no Ancelmo: França, o livreiro dos jornalistas, se aposentou. Dias depois Arthur Dapieve lhe dedicou uma crônica (http://tinyurl.com/aws47ao) que ecoou nas memórias recentes e antigas dos que o conheceram, e emocionou leitores que jamais o viram. Foi o gancho para uma pergunta: o que tem o França a dizer sobre os 40 anos durante os quais circulou pelos principais jornais, revistas, TVs e rádios da cidade?

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O futuro em boas mãos - JOÃO UBALDO RIBEIRO

O GLOBO - 03/03/2013

O principal partido de esquerda, o PT, tem como figura principal um político que afirmou nem ser, nem nunca ter sido, de esquerda. O presidente do Senado é de esquerda, o ex-presidente, também. Aliás, o PMDB é de esquerda. Qualquer crítico do governo é de direita



Como estamos vendo nos noticiários, a campanha eleitoral já começou. Acho um pouco cedo, mas o pessoal fica nervoso com a disputa e a ansiedade parece ser geral. A política, o governo e a administração do Estado são das mais nobres atividades a que o cidadão pode entregar-se, pois se trata de um admirável exercício de altruísmo, amor à coletividade e ao semelhante, de nobre renúncia a interesses subalternos e vantagens indevidas e até mesmo a projetos pessoais. O homem público epitoma a virtude, não no sentido piegas que estamos acostumados a associar a esta palavra, mas na dedicação resoluta e firme ao bem público e às aspirações e direitos dos governados, numa vida cuja maior recompensa será o zeloso cumprimento dessa missão e nada mais. E o Brasil está coalhado de gente disposta a sacrifícios extremos para servir ao país e levá-lo a um futuro de prosperidade, justiça, segurança e felicidade.


O GLOBO

O novo já foi antigo - TOSTÃO

FOLHA DE SP - 03/03/2013

O retorno das duas linhas de quatro e da dupla de atacantes são as 'novidades' do futebol


As declarações do ministro do Esporte, Aldo Rebelo, ao jornal "O Estado de S. Paulo", de que é a favor da anistia das dívidas e da isenção fiscal dos clubes, alegando que eles não visam lucro, são absurdas e demagógicas, no momento em que o futebol é, cada vez mais, um grande negócio, com grandes negociatas.

Na Copa de 1966, a seleção inglesa, campeã do mundo, inovou ao jogar com duas linhas de quatro e dois atacantes. Um meia de cada lado voltava para marcar ao lado dos volantes. A única diferença desse antigo sistema tático para o atual, com três meias e um centroavante, é que havia uma dupla de atacantes, em vez de um meia de ligação e um centroavante.


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E o vencedor é... a CIA! - SÉRGIO AUGUSTO

O ESTADÃO -03/03/2013

 
Nat Silver, o mago da estatística que previu a reeleição de Barack Obama quando até este parecia descrer da vitória, acertou mais um palpite. Com equivalente antecedência, cantou a pedra que Argo levaria o Oscar de "melhor filme"; previsão arriscada, pois filme cujo diretor não concorre ao Oscar em sua categoria sempre perde a corrida (Conduzindo Miss Daisy, vencedor em 1989, foi uma exceção). Mais com base nessa lógica do que em qualquer outra variável, colunistas e blogueiros debocharam da avaliação de Silver e dobraram suas apostas em Lincoln.


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Dama de computador -LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

O GLOBO - 03/03/2013

Depois de saber que o Chico Buarque também fica jogando paciência no computador em vez de trabalhar, me senti desagravado. Eu não estou perdendo tempo ou protelando o momento de começar a escrever, quando jogo paciência. Estou, digamos assim, fazendo alongamento do músculo cerebral. Ou distraindo o cérebro enquanto a verdadeira criação se dá em outro nível, no in-consciente. E, se isso parecer conversa de vagabundo para se justificar, agora tenho um argumento irrespondível: o Chico Buarque faz a mesma coisa!

Há muitos jogos no meu computador, com vá-rios graus de complexidade, mas até agora só aderi à paciência, o mais fácil. Um dia tentei jogar dama no computador. Eu fui bom em dama quando era garoto. Nunca progredi da dama para o xadrez, talvez pela mesma razão que me impediu de gostar de matemática, entrar em labirintos e pensar muito profundamente sobre os buracos negros. (Dizem que dama é xadrez para as almas simples). Joga-se dama de computador não contra o computador, mas contra outro jogador que esteja na linha, movimentando-se uma peça no tabuleiro e esperando que o adversário, em alguma parte do mundo, movimente uma sua. Mas não consegui ir além de duas ou três peças movimentadas. Estava jogando bem, mas tive que parar. Até agora não sei explicar minha sensação diante daquele adversário que eu não via, que não sabia onde estava ou que cara tinha, embora estivéssemos, para todos os efeitos, cara a cara. Era como jogar com um fantasma. Mais do que isto: era como ter minha casa invadida por um membro daquela estranha seita, talvez escrava, cuja única função na vida é ficar esperando desafios anônimos no jogo de dama. Era isto: a sensação de uma cidadela invadida e de uma intimidade indesejada cada vez que o outro movimentava uma peça.

Abandonei o dama no meio do jogo e cliquei no paciência. Jogando paciência você às vezes se sente sacaneado pelo computador, que geral-mente permite uma vitória a cada cinco ou seis tentativas. Mas pode ao menos ter certeza de que não é nada pessoal.

CRONICA-VOVÔ

A Lucinda, que tem quatro anos e meio, frequentemente nos premia com abraços e beijos extemporâneos. Mas também tem seus dias rebeldes, quando a qualquer aproximação de avô ou avó a fim de agarramento ordena: "Me deixem em paz."

No outro dia cheguei perto dela pensando num abraço e, se tivesse sorte, alguns beijos e ouvi seu aviso:

-Não se atreva.

Não se atreva! É claro que obedeci. l

Estou distraindo o cérebro enquanto a verdadeira criação se dá em outro nível. E, se isso parecer conversa de vagabundo, agora tenho um argumento irrespondível:
o Chico Buarque faz a mesma coisa! 


FONTE 

Os pontos e as linhas - ALDIR BLANC

O GLOBO - 03/03/2013

O verdadeiro multiuniverso, falado pelos cosmólogos e físicos após o surgimento da Teoria das Cordas, é o bate-papo. O Big-Bang foi uma conversa singular que terminou em porrada. Os cientistas usam muitos nomes. Não pega bem um sábio dizer que tudo se resume a um bom papo. O bóson de Higgs, por exemplo. É uma hipótese sobre o encontro de personagens do imortal Chico Anysio: Bozó, Coalhada, Azambuja, todos sacudindo o rabo da cascavel, feito FHC I e II, meio de porre no Sambódromo, antes de um assessor tomar-lhe o copo. Deixa o Fernando biritar!


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Bolero - LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

O ESTADÃO - 03/03/2013


“Dormir avec vous madame
Dormir avec vous
C´est um merveilleux programe
Demandant surtout
Um endroit discret madame”

Charles Aznavour

Enfim um bolero, nest pas madame? Fui eu que subornei a orquestra. Agora podemos dançar juntos, eu sentindo os seus seios contra o meu peito, você sentindo as minhas medalhas. O bolero favorece a minha perna mecânica, ao contrário do tango, que também cultivo, mas só em teoria, senão eu caio na primeira rabanada.

O bolero também nos permite falar um no ouvido do outro, ao contrário dessas danças modernas, nas quais a única comunicação possível entre os pares é o sinal metafórico. Nenhuma conversa é tão privada e discreta quanto a de um homem e uma mulher dançando um bolero, o homem cuidando para não engatar os lábios num brinco ao mordiscar o lóbulo, onde a mulher é mais tenra, a mulher se permitindo dizer baixinho tudo que jamais diria em público, principalmente ao alcance dos ouvidos do marido. Existe um marido, pois não, madame?

Deve haver um marido, senão nada disto este salão, este bolero, seus seios contra o meu peito e a minha ereção tem sentido. O essencial numa sedução não é o sedutor nem a seduzida, é o marido. Todo o drama, toda a aventura, toda a glória e o prazer de uma sedução está centralizada no marido enganado.

Um caso sem marido é como um merengue sem recheio, uma casca farofenta encobrindo o nada. Seu marido está nos vendo? Está seguindo nossos passos, salivando como um cão raivoso? Sinto seus olhos na minha nuca, talvez medindo-a para um golpe de cutelo, como o que mata os touros que se recusam a morrer pela espada. Sim, também já fui toureiro.

O que a gente não faz para impressioná-las, hein madame? Posso desafiar o marido para um duelo, se lhe convier. Sim, sou do tempo dos duelos, quando a honra se lavava com sangue, nem que fosse apenas o sangue de um arranhão. Madame já adivinhou que sou um homem antigo.

Para mim, nada é mais apropriado do que um bolero acabar num duelo. Posso mandar seu marido para um hospital. Assim nem ele ficaria sem sua honra nem nós ficaríamos sem um marido enganado vivo para apimentar nossa união.

Como eu perdi minha perna? Foi numa dessas guerras, não me lembro mais qual. Foi em Waterloo, foi no Somme, foi no desembarque em Omaha Beach, quem se lembra? E tudo para impressioná-la, madame. Eu ainda não a conhecia, nem sentira os seus seios contra o meu peito, e já estava matando e morrendo e construindo civilizações para impressioná-la. Esta sedução não começa aqui, madame, começou há milhares de anos, quando nós descemos das árvores para a savana e passamos a andar de pé, com a genitália exposta.

Como isto não as impressionou muito, recorremos a outros meios de sedução. Brigas, guerras, atos de bravura e audácia intelectual, boleros. Tudo para dormir com você, madame. Dormir com você. Fazermos um programa maravilhoso num lugar discreto. Champanhe, alguns canapês, cortinas de veludo cerradas, um disco de vinil na vitrola (sou um homem antigo). Não queremos outra coisa além de dormir com você. Nunca quisemos. E... glubz! Desculpe madame. Acho que engoli o seu brinco. 
 

Entreouvidos por aí - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 03/03/2013

“De todas as pessoas que eu conhecia, ela era a candidata menos provável de eu vir a ter uma história. Extremamente carola, cheia de nove horas, o oposto do meu estilo. Sou um cara moderno, livre, desimpedido em todos os sentidos.

Sempre gostei de mulheres bem resolvidas, e ela me parecia uma menininha à espera de um anjo salvador. No entanto, quando dei por mim, ela estava sob as minhas asas. Não era o que eu buscava na vida, não era mesmo. Não sei como chamar isso”.


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Assunto cabeludo - Humberto Werneck

HUMBERTO WERNECK - O Estado de S.Paulo
 
A prudência recomendaria pôr de molho as barbas que há muito não cultivo, mas devo admitir que de uns dias para cá estou emaranhado nesse felpudo assunto. O que pensaria disso a minha mãe, que tanto pelejou para que o filho, bacharel em Direito, passasse ao largo das irrelevâncias? Se viva estivesse, já estaria morta. Espero que me perdoe. A esta altura, sou o único limão de que disponho para fazer a minha limonada, no eterno afã de me espremer & me exprimir.

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Alguns filmes no ar - Caetano Veloso


“Argo” é um filme (eu ia escrevendo “um filmeco”) tão tipicamente americano que parece ter sido escrito nos anos 1950

É a Maria Amélia Mello que devo agradecimentos pela publicação da antologia da revista “Senhor”, não a Ana Maria. Peço desculpas pelo erro. Escrevi entre voos e voltas e terminei errando um nome que conhecia. Agora escrevo entre subidas e descidas às proximidades do Morro dos Prazeres, onde ensaio novo show. Muita música para definir, escolher, relembrar. Ficou rodando na memória a série de filmes que vi no avião, entre Paris e o Rio. O que me leva a filmes que vi em Salvador, antes de voar. Quase todos com indicações e/ou prêmios do Oscar. Vi a cerimônia (a palavra fica absurda quando a gente pensa nas piadas do Seth MacFarlane) pela televisão. Não entendo inglês falado com facilidade. Mas retirei a tradução simultânea, que faz a gente entender menos ainda. Perdi algumas piadas (que depois meu filho de 20 anos me contou) mas senti o ritmo. O gozado foi ver dois dos principais filmes no avião.

Dormi depois do jantar (coisa rara em voos). Acordei julgando que tinha dormido a viagem toda e que o comissário me responderia que já estávamos nos aproximando do Rio de Janeiro. Mas sua resposta à minha pergunta “Quanto tempo falta?” foi: “Sete horas”.

Liguei o vídeo e pus os fones de ouvido. Havia “comédias românticas”, “comédias”, “dramas”, “ação” e “lançamentos” para escolher. Entre estes estavam “Argo” e “Lincoln”.

Escolhi “Argo” porque julgava que veria “Lincoln” no cinema, quando voltasse, coisa que me parecia menos provável de fazer com o filme de Ben Affleck. Mal sabia eu que o sono não voltaria mais enquanto eu estivesse no avião e que, assim, eu veria “Lincoln” logo em seguida. Foi uma experiência hilária.

“Argo” é um filme (eu ia escrevendo “um filmeco”) tão tipicamente americano que parece ter sido escrito nos anos 1950. As sequências de montagem cruzada para intensificar o suspense são apertadíssimas, e os diálogos têm quick-wit, sem sombra de ironia. A gente, que está acostumado a Tarantino e Mauro Lima brincarem com isso, fica incrédulo de ver alguém fazê-lo candidamente. Affleck é um ator de má fama, certamente por sua cara inexpressiva. Ele surgiu como roteirista oscarizado, ao lado de Matt Damon, quando ainda os dois eram garotos. Depois atuou em comédias românticas com cara de envelope. Em “Argo” essa impassibilidade facial resulta, com a ajuda da barba, em convincente sobriedade de herói do mundo livre. Você torce pelo agente da CIA e é levado a aplaudir sua vitória juntamente com o elenco do filme. Como nos mais convencionais divertimentos hollywoodianos em que os bons vencem os maus (as plateias americanas são barulhentas e de fato batem palmas nas cenas em que aplausos são puxados pelos figurantes). Mas o suspense nesse filme funciona sempre. Seu lado mais infantil é convidado a torcer para que os do bem entrem no avião antes de os do mal conseguirem passar pelas barreiras. É um filme de entretenimento antiquado e eficaz. Acabei de ver o filme quase gargalhando sozinho na cadeira do avião. Mas faltavam ainda cinco horas de viagem. Botei “Lincoln”.

O contraste terminou sendo também bastante cômico. O filme de Spielberg era grave, escuro, sério. Sobretudo escuro. Parecia um americano escaldado de tanto fazer diversão tipo “Argo” decidindo provar que também pode ser grave. Tal como em “Argo”, tudo é conseguido a contento. Daniel Day- Lewis, cujo estilo britânico de atuar, fundado na composição milimétrica do personagem, parecendo que tudo começa pela roupa, pela barba, pela escolha do timbre de voz etc., até que um punk louro capaz de ter um caso de amor com um paquistanês que abre uma lavanderia, ou um homem capaz de mover apenas o pé esquerdo, ou um presidente que administra uma guerra e quer passar uma emenda constitucional abolindo a escravidão surja crível aos olhos do espectador, Daniel, eu dizia, está perfeito fazendo o oposto do que Marlon Brando faria (mas ninguém chamaria Brando para fazer Lincoln, embora ele tenha feito aquele indescritível Marco Antônio). Tommy Lee Jones é sensacional, e Sally Field também brilha. Mas o filme, embora informativo, ficou com cara de seriedade forçada.

Antes eu tinha visto “Django” e “Amour” na Bahia. Eu achava os comentários de Spike Lee chatos. Mas não me senti confortável com essa refação de “Bastardos Inglórios” com os negros no lugar dos judeus e Leonardo DiCaprio errando o francês como Brad Pitt errava o italiano — e o magnífico Christoph Waltz dando show de dicção e desembaraço. Hitler, todos sabemos que não morreu num cinema. Mas lutas de mandingos? E, no final, o mesmo fogo da vingança. Amei os sacos nas cabeças dos racistas. Ri. “Amour” parece que diminui o fascínio que Haneke exerce.

sábado, 2 de março de 2013

SABÁTICO

PÁGINAS POR TRÁS DOS FILMES

'Rebecca' e 'O Inquilino' ganham edições que convidam à comparação com adaptações para as telas

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O LIRISMO DO ARTISTA QUANDO JOVEM


Antes de se tornar um ficcionista de peso, o norte-americano Paul Auster traduziu e editou poetas franceses contemporâneos e publicou os próprios versos - que saem agora no País

 

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‘TRADUZIDO,O POEMA GRITA DOIS NOMES’

Caetano W. Galindo

 

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POÉTICA MOLDADA PELO OLHAR

O fotógrafo e o cineasta convivem no escritor; as imagens são como enigmas que ele imobiliza

 

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UMA VOZ QUE SAI DO NADA

Sérgio Medeiros
 
Em 2012 saiu no Brasil a elogiada tradução de Ulysses, de James Joyce, assinada por Caetano W. Galindo, que verteu agora todos os poemas de Paul Auster. O sóbrio prefácio do tradutor ao volume Todos os Poemas me surpreendeu, pois senti, ao lê-lo, a presença de um Galindo contido ou apolíneo que eu desconhecia e que me pareceu muito diferente do Galindo dionisíaco que traduziu Joyce com verve e destemor. Nenhum traço ali das divertidas e irreverentes declarações que ele escreveu ou deu à imprensa durante o lançamento de Ulysses. Então me dei conta de que a poesia de Auster não tem humor nem jogos de linguagem joycianos, e o nosso tradutor, para ser fiel à dicção do poeta norte-americano, teve de ser seco e simples desde o prefácio que escreveu para apresentar a faceta literária menos conhecida desse famoso ficcionista. O resultado da parceria Auster-Galindo, em termos de qualidade poética, é visível logo no início do livro, na leitura de um grande poema sem título que, ao falar de uma pedreira, conclui: "E as pedras, cingidas de abuso,/ Memorizaram a derrota".

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UM AUTOR DE CAUSAS A VENCER

Fiel a si próprio, o maduro John Dos Passos de 'O Brasil em Movimento', agora reeditado, é o mesmo escritor em ascensão que se aliou aos republicanos durante a Guerra Civil Espanhola

 

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Heranças - Sérgio Telles

 Há governantes que desmerecem
o legado recebido, como tem
feito o PT ao atacar o PSDB

A transmissão de bens materiais e valores imateriais entre a geração mais velha e a mais nova não acontece automaticamente e pode sofrer entraves. Para que a herança chegue a bom termo, é necessário que os mais velhos, imbuídos da consciência da finitude, cedam o centro do palco para os mais novos. Não é uma decisão fácil e alguns não conseguem concretizá-la. Outros, tomados pela ambivalência, o fazem pela metade ou de forma inadequada, criando inúmeras complicações.

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Cadê o PSB? - Antonio Risério


O que é cinema - Arnaldo Bloch


“O sono ao redor”, disse o comediante, como se (...) estivesse acrescentando à discussão algo que não fosse o aborrecente prazer de um trocadilho fácil

Dias atrás, numa dessas polêmicas polarizadas que tomaram conta de boa parte da comunicação atual, o “pessoal da comédia” brigou com “o pessoal do cinema de arte”. Da discussão emergiram aquelas bobagens do tipo “cinema é, sempre foi e vai ser entretenimento para grande público”. Ou a afirmação “oposta”, igualmente tola, de que “cinema para valer tem que ser de invenção”.

Um conceito inovador - SÉRGIO MAGALHÃES

O GLOBO - 02/03

Em geral, o desenvolvimento econômico e social é pensado dissociado da questão urbana; abstrai-se a dimensão territorial ou espacial da cidade



Meio ambiente, desigualdade social e mobilidade formam o conjunto de problemas urbanos mais significativo comum às grandes cidades, conforme Bernardo Secchi. Arquiteto e professor italiano, com produção urbanística em importantes cidades mundiais, considera que eles não podem ser enfrentados isoladamente, nem entre si, nem na equação espacial.


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Adversários e inimigos - ROSISKA DARCY DE OLIVEIRA

Um grupo de pessoas, com a força da convicção sobre uma causa, é capaz de influenciar a sociedade. As minorias destrutivas têm o mesmo poder

No entorno dos estádios é comum ver grupos de garotos, radiantes, se preparando para assistir a um jogo de futebol. Deve ter sido assim que um menino boliviano saiu de casa para ver seu time enfrentar o Corinthians, lendário campeão brasileiro e mundial. Voltou morto, o rosto trespassado por um sinalizador náutico atirado da “torcida organizada”. A mesma que no ano passado acabou com a apuração do concurso das escolas de samba de São Paulo, estragando mais uma festa popular.

Ah, o meu 'Fakebook' - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 02/03/2013

Graças ao colega André Miranda, descobri que há meses tenho uma concorrida página no Facebook, onde já recebi 600 amigos, muitos novos, alguns velhos e outros desconhecidos, dei opiniões, fiz recomendações, deitei regras, disse coisas aceitáveis e muita bobagem. E, sobretudo, fiz muita propaganda da Editora Lecto, à qual deveria cobrar pelo merchandising involuntário. Cheguei a elogiar o novo logotipo e anunciar a contratação de "vendedores, pareceristas e diagramadores". Também recomendei uma nova rede social, uma certa Dotpipol, "muito melhor do que o Facebook" (uma seguidora chegou a dizer: "Com prazer vou lá para ler seus textos.")

Teria sido uma experiência interessante, se não se tratasse de um falso Facebook. Com perdão do trocadilho, é um Fakebook, pois não criei a página, não autorizei ninguém a criá-la e fico me perguntando se não há um filtro ou uma forma de controle para impedir uma fraude virtual como essa, tão fácil de ser perpetrada. Basta pegar fotos já publicadas em revistas ou jornais, recolher dados biográficos no Google ou na Wikipédia, inventar algumas histórias, e pronto: que venham os incautos. E qualquer um pode cair nesse conto do vigário moderno. Como adivinhar o que é fake em meio a algumas informações corretas e outras que poderiam ser? Tudo bem que, dizem, você reclama e a página é retirada do ar. Mas e se você não descobrir por conta própria ou através de um amigo? E se o estrago, se houver, já tiver sido feito? Como os leitores desta coluna não são necessariamente os daquela página, como avisar a todos? Não haveria um jeito de punir os autores por apropriação indébita de identidade?

Houve coisas engraçadas, como a descoberta de três raros homônimos - um jovem "Zuenir Ventura", "Zuenir Brito" e "Claudio Zuenir" - e outras tocantes, como pessoas me agradecendo por tê-las adicionado. O que mais me irritou foi ver gente de boa-fé sendo envolvida candidamente no golpe. Li mensagens generosas, como a de um leitor cujo nome não cito porque não pedi sua autorização: "Que mal fiz eu para não ter conhecido a obra deste escritor há mais tempo?" No lançamento do livro do Merval, Leiloca, a Astróloga, me comunica que entrou no meu Facebook. Só me restou pedir desculpas por ter-lhe causado a decepção de se ver enganada, ela, a quem os astros não costumam enganar.

De qualquer maneira, alguém deveria ter notado que, sem Alice uma vez sequer, tudo não passava de uma farsa.

PS - Acabo de saber que a página foi cancelada, ou, de acordo com o aviso, "não está mais disponível". Ainda bem. Leiloca, a Astróloga, me comunica que entrou no meu Facebook. Só me restou pedir desculpas por ter-lhe causado a decepção de se ver enganada
 
 

Clarice e suas cobaias - Silviano Santiago


Se iluminarmos quem pergunta, a reunião das entrevistas concedidas a Clarice Lispector por notáveis figuras da cultura brasileira apresentam um traço pessoal e instigante da personalidade da romancista. Clarice quer saber dos artistas populares quais são as benesses e as sequelas causadas pela "fama". Ao ler os diálogos travados, descobre-se que o traço vira hipótese de trabalho, que ela testa em cobaias humanas, no laboratório da Vida.

Verdade - José Miguel Wisnik


Elson Costa é um dos militantes de esquerda desaparecidos na ditadura

Acabo de chegar de uma sessão da Comissão da Verdade “Rubens Paiva”, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, onde fui, junto com outros familiares, dar um depoimento sobre meu tio Elson Costa, sequestrado, torturado e assassinado pelo aparato paramilitar da ditadura em 1975. Algumas comissões estaduais estão acontecendo, em contraponto com a Comissão Nacional da Verdade. Em São Paulo, a Comissão tem levantado, por exemplo, elementos importantes sobre a participação de empresários no esquema da Operação Bandeirantes. Já falei sobre Elson Costa em uma das minhas primeiras colunas aqui. Ainda é cedo para retornar ao assunto, enquanto aguardamos para saber a que verdades as Comissões chegarão ou não. Quero fazer isso para valer, e no momento certo. Mas ao mesmo tempo os nervos estão agitados, e é difícil para mim falar hoje de algum assunto que não seja este.

Elson Costa fez parte do grupo de dirigentes do Partido Comunista Brasileiro que foram mortos quando a guerrilha tinha sido vencida e a força repressiva correspondente passou a ser aplicada sobre grupos, como o PCB, que não tinham optado pela força armada, e que acreditavam ser possível isolar a ditadura entrando em todos os nichos que representassem vias democráticas. Meu tio editava um órgão de imprensa operária cuja gráfica funcionava numa caixa d’água. A desproporção entre essas ações políticas e o modo como seus agentes foram eliminados com requintes de perversidade (dos quais vou poupá-los agora) diz tudo sobre o caráter fascista da máquina repressiva da ditadura militar. Tratou-se de um rito de erradicação sumária que se realimentava pela tortura.

É possível elucubrar sobre a lógica que comandou essa “obra tardia” da repressão militar, quando esta não pareceria mais tão necessária militarmente. Cálculo frio do golpe final sobre o inimigo, “racionalidade” levada à última instância no exame das forças adversas, extensão “natural” da luta contra a luta armada? Ou gozo da violência em seu estado quimicamente “puro”, a máquina de tortura e morte replicando a si mesma, infinita enquanto dura, aspirante ao mal absoluto? O grupo que vivia disso quis mostrar serviço, como que a provar a necessidade de sua própria sobrevivência funcional? O sucesso subiu-lhe à cabeça?
Ou constatou que o PCB era o verdadeiro detentor da verdade histórica, que nele estava o fermento que levaria ao final da ditadura pela via não da luta armada mas da pressão das forças democráticas, como preferiu sustentar, hoje, uma militante partidária?

Só a arte consegue sondar a verdade das múltiplas versões, atravessar o seu entrelaçamento não acabado, dar-lhe a volta paradoxal, paródica, trágica, oxigenando a constatação perturbadora de que não há, a rigor, uma Verdade final sobre a verdade, sem nem por isso deixar de aplicar golpes certeiros. Felizmente li, faz pouco tempo, a novela “Estrela distante”, de Roberto Bolaño, depois de ouvir falar tanto dele. É uma narrativa alucinante, hilariante, contundente, terrível, sinistra, sobre os desaparecimentos de pessoas no Chile de Pinochet. Como se trata de um país letrado, tudo ali envolve o literário: oficinas de poesia cujos frequentadores e frequentadoras vão sumindo e reaparecendo ou não, sob formas que estão entre o rumor, o rebate falso, a controvérsia, o exílio presumido, o esconderijo, o assassinato político. A mudança de identidade obrigada assombra as relações, mas salta em meio a elas a do impostor infame, o artista fascista que se transmuta de falso poeta autodidata chavecando frequentadoras de oficinas de poesia em ícone espetaculoso da direita, e cuja “obra de arte total” é feita das acrobacias aéreas com que desenha no céu versos patéticos de fumaça, complementados com torturas, crimes seriais e fotografias. Num coquetel constrangedor entre seus pares, em que leva ao limite a sua poética radical de estetização do mal, expõe fotos de corpos mutilados assassinados pela ditadura e por ele mesmo, pegando-os de surpresa com a visão inominável daquilo que todos sabem que não devem admiti-lo. Uma espécie de Exposição da Verdade pela culatra.

Quase todos os países que passaram pelos crimes da ditadura passaram, em contexto democrático, por alguma maneira de admissão, elaboração e simbolização da verdade. O Brasil, para variar, vem na rabeira do processo. Porque o torturador é também uma forma grave de desaparecido político, com a diferença de que os mortos da ditadura sustentam a sua verdade, na sua ausência, enquanto que a ausência pública do torturador é uma mentira histórica. Sabemos que não há Verdade, com maiúscula. A não ser quando há mentira maiúscula.