sexta-feira, 5 de abril de 2013
O xamã do folk - Hermano Vianna
O Globo - 05/04/2013
Os três discos da “Anthology of American folk music”, de Harry Smith, criaram a base para o movimento de rock-folk que impulsionou muitas carreiras como a de Bob Dylan
Harry Smith completaria 90 anos em maio. Ele morreu meses depois de receber o Grammy de 1991 como homenagem a tudo de bacana que produziu durante sua vida. Na premiação, no palco do Radio City Music Hall, declarou: “Fico feliz em dizer que meus sonhos se tornaram realidade, que eu vi a América transformada pela música”. É discurso de um homem realizado, que — mesmo tendo enfrentado todas as dificuldades de um cotidiano muitas vezes miserável, sem dinheiro até para a comida — conhece muito bem sua importância para os bons destinos de nossa época histórica. Nem era preciso acrescentar que o tipo de música que transformou a América foi, em grande parte, revelado pelo, e só valorizada a partir do seu trabalho.Os três discos da “Anthology of American folk music” que compilou para a gravadora Folkways nos anos 1950 — reeditados em CDs pelo Smithsonian quatro décadas depois — criaram a base para o movimento de rock-folk que impulsionou muitas carreiras como a de Bob Dylan. Fala-se mesmo de uma “Irmandade da Antologia”, formada por pessoas — por exemplo, o fotógrafo Robert Frank — que depois de escutar aquelas músicas passaram a ter em Harry Smith um mestre espiritual, guia para transformação cultural de grandes proporções, anunciadora de outra América, ancestral e futura.
Há uma anedota pitoresca sobre a veneração de Dylan por Smith. Certa vez Dylan passou na casa de Allen Ginsberg, onde Smith morava de favor, com problemas nos dentes e no esôfago que só permitiam ingestão de líquidos. Ginsberg queria tirar onda apresentando os dois. Smith nem se levantou da cama para cumprimentar o já ilustre cantor. O psiquiatra do poeta anfitrião recomendou a partida do hóspede irascível, pois aquela presença estava “elevando sua pressão arterial”.
Esse episódio está narrado no texto biográfico que Ed Sanders, da banda The Fugs, publicou no encarte do quarto volume da Antologia, lançado pelo selo Revenant, de John Fahey (músico extraordinário, mais um — como Sanders — que merece coluna só sobre sua obra), depois da morte de Smith. Tal escrito e mesmo o disco que o acompanhava incluem muitos mistérios. O biografado fez questão de confundir amigos (como Sanders, que por anos foi dono de livraria frequentada quase que diariamente por Smith) e discípulos (como os que ouviram suas lições no Instituto Naropa, no Colorado, onde foi xamã-residente, cargo que permitiu algum conforto para seus últimos anos de vida), afirmando ser filho do mago Aleister Crowley ou que sua mãe era uma princesa filha de tzar russo.
O que se sabe com alguma certeza é que teve infância pobre nos arredores de Seattle, morando perto de reservas indígenas, onde eram praticados os potlachs, inspiração para o livro “A parte maldita”, de Georges Bataille, que por sinal acaba de ganhar nova tradução brasileira. Cantos dessas cerimônias pré-punks foram gravados por um Harry Smith ainda adolescente, antes mesmo de iniciar o curso de Antropologia na Universidade de Washington.
Uma carreira acadêmica não combinava com a inquietação frenética da mente de Smith. Logo ele partiu para San Francisco, atraído pelo clima boêmio que anunciava os anos da geração beat. Lá, ouvia jazz, estudava ciências ocultas, pintava, fazia cinema experimental (pintando na própria película) e colecionava muitas coisas, sobretudo compactos de 78 rpm, produtos do nascimento da indústria fonográfica, ainda muito fragmentada, sem o modelo de negócios concentrador adotado na sua época de ouro. Por incrível que pareça, apesar da novidade tecnológica, era muito mais fácil gravar e lançar discos no início do século XX. O mercado iniciante foi tomado por uma variedade incrível de estilos e músicos que nunca mais teriam chance de ser ouvidos quando as gravadoras passaram a se interessar principalmente por aquilo que pudesse entrar para o hit parade e para a rádio Top 40.
Devemos a Antologia a uma das inúmeras crises financeiras de Smith. Ele estava agora em Nova York, onde fazia gráficos para tentar desvendar (apenas para si mesmo) os padrões modernistas dos solos de Thelonious Monk (foi assim que Ginsberg o conheceu, desenhando na plateia do clube Five Spot), quando teve que se desfazer dos discos para pagar o aluguel e não ser despejado (como aconteceu anos depois, perdendo muitas pinturas e escritos). Moe Asch, o comprador e dono da Folkways, ficou impressionado com o conhecimento de Smith e encomendou a curadoria de uma seleção do material. Sorte da América, sorte nossa.
PS: Ainda quero fazer uma comparação entre os olhares modernistas de Harry Smith e Mário de Andrade diante do folk e do folclore. Tarefa bem insana, para futuro distante.
Leonardo Boff - O papa Francisco inaugura um novo milênio para a Igreja?
O TEMPO
TUDO INDICA QUE MODELO SE ENCERROU COM A RENÚNCIA DE BENTO XVI
O
primeiro milênio do cristianismo foi marcado pelo paradigma da
comunidade. As igrejas possuíam relativa autonomia com seus ritos
próprios: a ortodoxa, a copta, a ambrosiana de Milão, a moçárabe da
Espanha e outras. Veneravam seus próprios mártires e confessores e
tinham suas teologias, como se vê na florescente cristandade do norte da
África com santo Agostinho, são Cipriano e o teólogo leigo Tertuliano.
Elas se reconheciam mutuamente, e, embora em Roma já se esboçasse uma
visão mais jurídica, predominava a presidência na caridade.
O segundo milênio foi caracterizado pelo paradigma da Igreja como sociedade perfeita e hierarquizada: uma monarquia absolutista centrada na figura do papa como suprema cabeça (cefalização), dotado de poderes ilimitados e, por fim, infalível quando se declara como tal em assuntos de fé e moral. Criou-se o Estado pontifício, com exército, sistema financeiro e legislação que incluía a pena de morte. Criou-se um corpo de peritos, a Cúria Romana, responsável pela administração eclesiástica mundial. Essa centralização gerou a romanização de toda a cristandade. A evangelização da América Latina, da Ásia e da África se fez no bojo de um mesmo processo de conquista colonial do mundo e significava um transplante do modelo romano, praticamente anulando a encarnação nas culturas locais, em grande parte destruídas com a cruz e a espada. Oficializou-se como de direito divino a separação estrita entre o clero e os leigos. Esses, sem nenhum poder de decisão (no primeiro milênio, participavam nas eleições dos bispos e do próprio papa), foram juridicamente e de fato infantilizados e mediocrizados.
Firmaram-se os costumes palacianos de padres, bispos, cardeais e papas. Os títulos de poder dos imperadores romanos, a começar pelo de papa e pelo de sumo pontífice, passaram ao bispo de Roma. Os cardeais, príncipes da Igreja, se vestiam como a alta nobreza renascentista. Isso permanece até os dias de hoje, para escândalo de não poucos cristãos.
Esse modelo de Igreja, tudo indica, se encerrou com a renúncia de Bento XVI. A eleição do papa Francisco, vindo "do fim do mundo", da periferia da cristandade, onde vivem 60% dos católicos, inaugura o paradigma eclesial do terceiro milênio: a Igreja como vasta rede de comunidades cristãs, enraizadas nas diferentes culturas, algumas mais ancestrais que a ocidental, como a chinesa, a indiana e a japonesa, e nas culturas tribais da África e comunitárias da América Latina. Encarna-se também na cultura moderna dos países tecnicamente avançados, com uma fé vivida também em pequenos grupos ou comunidades. Todas essas encarnações têm algo em comum: a urbanização da humanidade, pela qual mais de 80% da população vive em grandes conglomerados de milhões de habitantes.
Nesse contexto, será praticamente impossível falar em paróquias territoriais, de cunho rural, mas em comunidades de vizinhança de prédios ou de ruas próximas. Esse cristianismo terá como protagonistas os leigos, animados por padres, casados ou não, ou por mulheres sacerdotes e bispos ligados mais à espiritualidade do que à administração. As igrejas terão outros rostos, próprios das diferentes culturas.
A reforma, assim esperamos, não se restringirá à Cúria Romana, em estado calamitoso, mas se estenderá a toda a institucionalidade da Igreja. Talvez somente a convocação de um novo concílio, com representantes de toda a cristandade e de notáveis, por sua vida e sua ética, da sociedade civil mundial, dará ao papa a segurança e as linhas mestras da Igreja do terceiro milênio. Que não lhe falte o Espírito e a coragem.
TUDO INDICA QUE MODELO SE ENCERROU COM A RENÚNCIA DE BENTO XVI
O segundo milênio foi caracterizado pelo paradigma da Igreja como sociedade perfeita e hierarquizada: uma monarquia absolutista centrada na figura do papa como suprema cabeça (cefalização), dotado de poderes ilimitados e, por fim, infalível quando se declara como tal em assuntos de fé e moral. Criou-se o Estado pontifício, com exército, sistema financeiro e legislação que incluía a pena de morte. Criou-se um corpo de peritos, a Cúria Romana, responsável pela administração eclesiástica mundial. Essa centralização gerou a romanização de toda a cristandade. A evangelização da América Latina, da Ásia e da África se fez no bojo de um mesmo processo de conquista colonial do mundo e significava um transplante do modelo romano, praticamente anulando a encarnação nas culturas locais, em grande parte destruídas com a cruz e a espada. Oficializou-se como de direito divino a separação estrita entre o clero e os leigos. Esses, sem nenhum poder de decisão (no primeiro milênio, participavam nas eleições dos bispos e do próprio papa), foram juridicamente e de fato infantilizados e mediocrizados.
Firmaram-se os costumes palacianos de padres, bispos, cardeais e papas. Os títulos de poder dos imperadores romanos, a começar pelo de papa e pelo de sumo pontífice, passaram ao bispo de Roma. Os cardeais, príncipes da Igreja, se vestiam como a alta nobreza renascentista. Isso permanece até os dias de hoje, para escândalo de não poucos cristãos.
Esse modelo de Igreja, tudo indica, se encerrou com a renúncia de Bento XVI. A eleição do papa Francisco, vindo "do fim do mundo", da periferia da cristandade, onde vivem 60% dos católicos, inaugura o paradigma eclesial do terceiro milênio: a Igreja como vasta rede de comunidades cristãs, enraizadas nas diferentes culturas, algumas mais ancestrais que a ocidental, como a chinesa, a indiana e a japonesa, e nas culturas tribais da África e comunitárias da América Latina. Encarna-se também na cultura moderna dos países tecnicamente avançados, com uma fé vivida também em pequenos grupos ou comunidades. Todas essas encarnações têm algo em comum: a urbanização da humanidade, pela qual mais de 80% da população vive em grandes conglomerados de milhões de habitantes.
Nesse contexto, será praticamente impossível falar em paróquias territoriais, de cunho rural, mas em comunidades de vizinhança de prédios ou de ruas próximas. Esse cristianismo terá como protagonistas os leigos, animados por padres, casados ou não, ou por mulheres sacerdotes e bispos ligados mais à espiritualidade do que à administração. As igrejas terão outros rostos, próprios das diferentes culturas.
A reforma, assim esperamos, não se restringirá à Cúria Romana, em estado calamitoso, mas se estenderá a toda a institucionalidade da Igreja. Talvez somente a convocação de um novo concílio, com representantes de toda a cristandade e de notáveis, por sua vida e sua ética, da sociedade civil mundial, dará ao papa a segurança e as linhas mestras da Igreja do terceiro milênio. Que não lhe falte o Espírito e a coragem.
domingo, 31 de março de 2013
Tudo a que tem direito - KENNETH SERBIN
O Estado de S. Paulo - 31/03/2013
Com a bandeira do casamento igualitário, gays buscam apenas um senso de pertencimento na comunidade maior
As históricas audiências da Suprema Corte dos Estados Unidos na semana passada sobre duas leis que barram direitos ao casamento gay revelaram o quão rápida e profundamente essa questão entrou no tecido da vida americana.
Como disse o juiz Samuel Alito, porém, a ideia de casamento gay “é mais recente do que telefones celulares e a internet”.
Na terça e na quarta, a Corte ouviu argumentos de advogados com respeito à lei federal de 1996 (a Lei de Defesa do Casamento) negando benefícios a casais do mesmo sexo casados de acordo com leis estaduais e o plebiscito de 2008 na Califórnia emendando a Constituição estadual para definir casamento como entre um homem e uma mulher, medida esta derrubada por um tribunal federal de recursos.
Curiosamente, a referência de Alito a duas das invenções que estão redefinindo as relações interpessoais no século 21 oferece também um parâmetro para as tendências históricas por trás do movimento a favor do casamento gay.
O individualismo extremo e o isolamento físico criados pelo uso de celulares e da internet são as mesmas forças motrizes poderosas que impelem os direitos gays.
Os direitos individuais, assim como os direitos humanos, ganharam força com a Revolução Francesa e, em particular, a Declaração de Independência e a Constituição dos Estados Unidos. “Tomamos essas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, que eles são dotados pelo seu Criador de certos Direitos inalienáveis, que entre esses estão Vida, Liberdade, e a busca da Felicidade”, escreveu Thomas Jefferson na Declaração.
Esses ideais trouxeram grandes avanços sociais para os Estados Unidos, como a emancipação dos escravos em 1863 e, um século depois, a concessão definitiva de plenos direitos civis aos descendentes de escravos graças ao movimento não violento forjado por Martin Luther King Jr.
Esses ideais – em particular a “busca da Felicidade” – também produziram a cultura de consumo em que a ênfase no “direito” a produtos e serviços excelentes substituiu, em grande medida, a cidadania e a participação democrática que caracterizaram a maior parte da vida americana nos séculos 19 e 20. Os americanos já não veem a si e a seus compatriotas principalmente como “cidadãos”, mas como “consumidores”.
O ideal de igualdade inspirou uma parcela crescente da população americana a redescobrir noções de liberdade e direitos civis na forma domovimento pelo casamento gay.
Numa pesquisa USA Today/Gallup de novembro de 2012, 32% dos entrevistados citaram“ direitos iguais/todos devem ter as mesmas liberdades” como sua razão para apoiar o direito ao casamento de pessoas do mesmo sexo. A mesma porcentagem também apontou “escolha pessoal” e a importância de amor e felicidade,em oposição à orientação sexual, como determinantes de seu apoio ao casamento gay.
O preconceito contra gays e a negação de direitos ao casamento capturaram o imaginário político da juventude americana de uma maneira não muito diferente do apoio de ativistas a LutherKing e aos direitos civis nos anos 1960. Na faixa de 18 a 29 anos, 73% dos entrevistados na pesquisa apoiaram a validade legal do casamento gay, enquanto entre as pessoas com 65 anos ou mais somente 39% expressaram esse apoio.
A controvérsia em torno do movimento por direitos gays talvez possa reavivar noções de cidadania e participação. Entretanto, a Suprema Corte, que deve decidir sobre as duas leis no final de junho, indicou que, embora possa perfeitamente se mostrar favorável aos direitos gays, provavelmente não produzirá uma aprovação abrangente do casamento gay.
Esse é um território muito novo tanto para o tribunal como para a nação, como os comentários do juiz Alito sugeriram. Alguns juízes expressaram dúvidas até sobre se os dois casos deviam ter sido levados ao tribunal superior.
A instituição do casamento heterossexual cristão existiu por 2 mil anos.Ninguém pode prever as consequências de longo prazo de legalizar o casamento gay para a nação inteira. (Nove Estados reconhecem o casamento gay, enquanto trinta têm emendas constitucionais proibindo-o).
Nessa linha,o juiz Antonin Scalia questionou se existiam dados suficientes para demonstrar que filhos não são afetados adversamente quando criados por casais do mesmo sexo. Aliás, adversários do casamento gay têm enfatizado que o casamento heterossexual oferece um ambiente melhor para criar filhos psicologicamente saudáveis. Eles defendem o casamento tradicional, de homem e mulher, como um alicerce fundamental da sociedade americana.
Mas a questão do juiz Scalia opera nos dois sentidos.Logicamente falando, se a falta de evidências( de longo prazo) não permite estabelecer a ausência de danos a filhos de casamentos do mesmo sexo, ela não pode provar tampouco que há danos.
A Suprema Corte se preocupa principalmente com a interpretação da lei e da Constituição. Ela não faz leis, embora conservadores nas últimas décadas tenham acusado o sistema de tribunais federais “ativista” de usurpar os deveres de elaboração de leis do Congresso.
O direito de casar não seria uma panaceia para a comunidade gay – assim como não foi para heterossexuais. Aliás, metade dos casamentos heterossexuais americanos termina em divórcio,e muitos casamentos são assolados por violência conjugal e outros problemas sérios.
Alguns gays – talvez maioria até – nem estarão interessados em casar. Como observou uma professora de Direito lésbica, casar é apenas uma maneira de pessoas gays ganharem um senso de pertencimento na comunidade maior.
Assim, é provável que a Suprema Corte queira decidir o mínimo possível e, como assinalaram alguns comentaristas, deixar a sociedade continuar a elaborar as questões de casamento e criação de filhos.
À SupremaCorte cabe defender a igualdade e o direito à felicidade. Seja qual for a sua decisão, ela pode dar à nação uma lição importante de civismo e tolerância.
Mas ela seguramente não está prestes a começar a definir o que é felicidade.
/TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
✽
KENNETH SERBIN É CHEFE DO DEPARTAMENTO DE
HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE DE SAN DIEGO E
AUTOR DE PADRES, CELIBATO E CONFLITO SOCIAL:
UMA HISTÓRIA DA IGREJA CATÓLICA NO
BRASIL (COMPANHIA DAS LETRAS)
Com a bandeira do casamento igualitário, gays buscam apenas um senso de pertencimento na comunidade maior
As históricas audiências da Suprema Corte dos Estados Unidos na semana passada sobre duas leis que barram direitos ao casamento gay revelaram o quão rápida e profundamente essa questão entrou no tecido da vida americana.
Como disse o juiz Samuel Alito, porém, a ideia de casamento gay “é mais recente do que telefones celulares e a internet”.
Na terça e na quarta, a Corte ouviu argumentos de advogados com respeito à lei federal de 1996 (a Lei de Defesa do Casamento) negando benefícios a casais do mesmo sexo casados de acordo com leis estaduais e o plebiscito de 2008 na Califórnia emendando a Constituição estadual para definir casamento como entre um homem e uma mulher, medida esta derrubada por um tribunal federal de recursos.
Curiosamente, a referência de Alito a duas das invenções que estão redefinindo as relações interpessoais no século 21 oferece também um parâmetro para as tendências históricas por trás do movimento a favor do casamento gay.
O individualismo extremo e o isolamento físico criados pelo uso de celulares e da internet são as mesmas forças motrizes poderosas que impelem os direitos gays.
Os direitos individuais, assim como os direitos humanos, ganharam força com a Revolução Francesa e, em particular, a Declaração de Independência e a Constituição dos Estados Unidos. “Tomamos essas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, que eles são dotados pelo seu Criador de certos Direitos inalienáveis, que entre esses estão Vida, Liberdade, e a busca da Felicidade”, escreveu Thomas Jefferson na Declaração.
Esses ideais trouxeram grandes avanços sociais para os Estados Unidos, como a emancipação dos escravos em 1863 e, um século depois, a concessão definitiva de plenos direitos civis aos descendentes de escravos graças ao movimento não violento forjado por Martin Luther King Jr.
Esses ideais – em particular a “busca da Felicidade” – também produziram a cultura de consumo em que a ênfase no “direito” a produtos e serviços excelentes substituiu, em grande medida, a cidadania e a participação democrática que caracterizaram a maior parte da vida americana nos séculos 19 e 20. Os americanos já não veem a si e a seus compatriotas principalmente como “cidadãos”, mas como “consumidores”.
O ideal de igualdade inspirou uma parcela crescente da população americana a redescobrir noções de liberdade e direitos civis na forma domovimento pelo casamento gay.
Numa pesquisa USA Today/Gallup de novembro de 2012, 32% dos entrevistados citaram“ direitos iguais/todos devem ter as mesmas liberdades” como sua razão para apoiar o direito ao casamento de pessoas do mesmo sexo. A mesma porcentagem também apontou “escolha pessoal” e a importância de amor e felicidade,em oposição à orientação sexual, como determinantes de seu apoio ao casamento gay.
O preconceito contra gays e a negação de direitos ao casamento capturaram o imaginário político da juventude americana de uma maneira não muito diferente do apoio de ativistas a LutherKing e aos direitos civis nos anos 1960. Na faixa de 18 a 29 anos, 73% dos entrevistados na pesquisa apoiaram a validade legal do casamento gay, enquanto entre as pessoas com 65 anos ou mais somente 39% expressaram esse apoio.
A controvérsia em torno do movimento por direitos gays talvez possa reavivar noções de cidadania e participação. Entretanto, a Suprema Corte, que deve decidir sobre as duas leis no final de junho, indicou que, embora possa perfeitamente se mostrar favorável aos direitos gays, provavelmente não produzirá uma aprovação abrangente do casamento gay.
Esse é um território muito novo tanto para o tribunal como para a nação, como os comentários do juiz Alito sugeriram. Alguns juízes expressaram dúvidas até sobre se os dois casos deviam ter sido levados ao tribunal superior.
A instituição do casamento heterossexual cristão existiu por 2 mil anos.Ninguém pode prever as consequências de longo prazo de legalizar o casamento gay para a nação inteira. (Nove Estados reconhecem o casamento gay, enquanto trinta têm emendas constitucionais proibindo-o).
Nessa linha,o juiz Antonin Scalia questionou se existiam dados suficientes para demonstrar que filhos não são afetados adversamente quando criados por casais do mesmo sexo. Aliás, adversários do casamento gay têm enfatizado que o casamento heterossexual oferece um ambiente melhor para criar filhos psicologicamente saudáveis. Eles defendem o casamento tradicional, de homem e mulher, como um alicerce fundamental da sociedade americana.
Mas a questão do juiz Scalia opera nos dois sentidos.Logicamente falando, se a falta de evidências( de longo prazo) não permite estabelecer a ausência de danos a filhos de casamentos do mesmo sexo, ela não pode provar tampouco que há danos.
A Suprema Corte se preocupa principalmente com a interpretação da lei e da Constituição. Ela não faz leis, embora conservadores nas últimas décadas tenham acusado o sistema de tribunais federais “ativista” de usurpar os deveres de elaboração de leis do Congresso.
O direito de casar não seria uma panaceia para a comunidade gay – assim como não foi para heterossexuais. Aliás, metade dos casamentos heterossexuais americanos termina em divórcio,e muitos casamentos são assolados por violência conjugal e outros problemas sérios.
Alguns gays – talvez maioria até – nem estarão interessados em casar. Como observou uma professora de Direito lésbica, casar é apenas uma maneira de pessoas gays ganharem um senso de pertencimento na comunidade maior.
Assim, é provável que a Suprema Corte queira decidir o mínimo possível e, como assinalaram alguns comentaristas, deixar a sociedade continuar a elaborar as questões de casamento e criação de filhos.
À SupremaCorte cabe defender a igualdade e o direito à felicidade. Seja qual for a sua decisão, ela pode dar à nação uma lição importante de civismo e tolerância.
Mas ela seguramente não está prestes a começar a definir o que é felicidade.
/TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
✽
KENNETH SERBIN É CHEFE DO DEPARTAMENTO DE
HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE DE SAN DIEGO E
AUTOR DE PADRES, CELIBATO E CONFLITO SOCIAL:
UMA HISTÓRIA DA IGREJA CATÓLICA NO
BRASIL (COMPANHIA DAS LETRAS)
Índio de museu - JOSÉ DE SOUZA MARTINS
O Estado de S.Paulo - 31/03/2013
O conflito na ‘Aldeia do Maracanã’, no Rio, pôs em questão o nativismo brasileiro, criação do homem branco em cima de uma memória fantasiosa de Ceci e Peri
O desencontro entre os índios da chamada “aldeia do Maracanã” e o governo do Rio de Janeiro, no litígio pelo edifício abandonado do antigo Museu do Índio, indica uma nova característica das populações indígenas que sobreviveram aos cinco séculos de sua vitimização genocida. A muitos parecerá estranho que o grupo de 22 índios, oriundos de 17 diferentes grupos étnicos, constituam uma aldeia indígena verdadeira,como as conhecidas da maioria, depois de décadas de reportagens televisivas sobre índios do Brasil. Todos nós sabemos o que é uma aldeia de índios, mas não sabíamos que essa ocupação de um velho casarão também o era.
Este índio de agora, não é apenas o índio biológico e étnico que povoa as páginas de livros de história. É o índio cultural e político, situado no marco da modernidade, uma espécie de índio do futuro e não apenas índio do passado. Embora de carne e osso, é em boa medida um índio imaginário, nem por isso menos real e menos legítimo.Um índio cujas danças misturam movimentos corporais de tradições indígenas e não indígenas, com pinturas de corpo que são marcas tribais, com telefones celulares e câmeras fotográficas, que são adornos tribais de branco.
Aqueles índios formam pouco mais do que um albergue multiétnico, em casarão abandonado do século 19, dotado, no entanto, de uma função evocativa e identitária que não pode ser ignorada.Ainda que seja de dificílima compreensão porque foge da “receita” do que o índio “deve ser”. Procuram enquadrar-se na concepção estereotipada que do índio tem o branco, na verdade o índio genérico e sem identidade própria. Índio de museu. Porque é esse índio de ficção que tem obtido reconhecimento constitucional e legal do Estado brasileiro. Sem render-se a ele,o índio de verdade,não tem como reivindicar direitos. As populações de diferentes grupos humanos, quando deslocadas espacial e historicamente, se recriam a partir das condições que encontram no cenário de sua adversidade. O nosso imigrante italiano se reinventou italiano no Brasil. Era outro italiano, sendo o mesmo. É no marco de sua uniformidade fictícia, a de “índio”, que os índios podem assegurar-se a proteção legal que lhes permite lutar por sua diferença contra o índio genérico do branco. Pagam um preço, o da dupla personalidade, a do conflito interior que divide sua pessoa na disputa entre o falso índio do branco e o verdadeiro índio do índio.
O nativismo brasileiro, criação de branco em cima de uma memória fantasiosa de Ceci e Peri, está sendo questionado. O próprio índio quer escrever o seu enredo e desempenhar os papéis da trama que diz quem ele é e não é. O índio dócil e submisso da sujeiçã violenta e da catequese de amansamento tem sido apenas o dar-se a ver do vencido. Mas, índio morde e morde por legítimas razões auto defensivas. Se o índio chegou à história de escola primária como representante de uma das “três raças”, que não são três nem são raças, na constituição de uma nacionalidade dominante, fraterna e harmoniosa, no novo enredo ele desconstrói essa história inventada pelos que venceram e pelos que mandam.Estamos vivendo um momento de reprotagonização no processo histórico brasileiro. Não só índios se repropõem como sujeitos de direitos.Mas também outros grupos humanos que a ficção política de uma nação trirracial criada pelo Império e mantida pela República acomoda apertadamente na ideologia da brasilidade. O Brasil dessa ficção política de fundo racial vive sua crise e, provavelmente, seus últimos tempos.
De modo que o que para muitos pode parecer uma comédia, uma variante do permanent carnaval brasileiro, não regulado pelas demarcações cronológicas da Quaresma, constitui, na verdade, momento e expressão de germinação social e de reinvenção do Brasil. Não por acaso, com apoio de outros índios e de brancos,houve uma tentativa de invadir o verdadeiro Museu do Índio, em Botafogo. É nessa tentativa que está , muito provavelmente, a chave da compreensão da resistência do pequeno grupo indígena à desocupação e à demolição do velho e arruinado casarão que ocupam nas imediações do Maracanã.
Para nós,museu é museu.Para muitas pessoas, não só os índios,um museu, pelos objetos que contém, pode ser muito mais um templo do que uma casa de cultura. O que para muitos é uma obra de arte,para outros continua sendo um objeto de culto.Não é diferente para o índio. Um objeto de sua cultura, exibido num museu, não perde para ele as funções rituais e até sua dimensão sagrada. Não é incomum que índios em visita a museus fiquem chocados ao verem expostos objetos de sua cultura que a tradiçã omanda que fiquem longe dos olhos dos não iniciados ritualmente para sua manipulação cerimonial.
De modoque,nãoconstituipropriamente uma anomalia que esse grupo de indígena se congregue no que para eles é não só uma extensão do Museu do Índio, mas extensão também de suas aldeias pelos objetos que o Museu abriga e expõe,cuja significação identitária permanece.
✽
JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, PROFESSOR
EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA DA
USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE FRONTEIRA –
A DEGRADAÇÃO DO OUTRO NOS CONFINS DO
HUMANO (CONTEXTO)
O conflito na ‘Aldeia do Maracanã’, no Rio, pôs em questão o nativismo brasileiro, criação do homem branco em cima de uma memória fantasiosa de Ceci e Peri
O desencontro entre os índios da chamada “aldeia do Maracanã” e o governo do Rio de Janeiro, no litígio pelo edifício abandonado do antigo Museu do Índio, indica uma nova característica das populações indígenas que sobreviveram aos cinco séculos de sua vitimização genocida. A muitos parecerá estranho que o grupo de 22 índios, oriundos de 17 diferentes grupos étnicos, constituam uma aldeia indígena verdadeira,como as conhecidas da maioria, depois de décadas de reportagens televisivas sobre índios do Brasil. Todos nós sabemos o que é uma aldeia de índios, mas não sabíamos que essa ocupação de um velho casarão também o era.
Este índio de agora, não é apenas o índio biológico e étnico que povoa as páginas de livros de história. É o índio cultural e político, situado no marco da modernidade, uma espécie de índio do futuro e não apenas índio do passado. Embora de carne e osso, é em boa medida um índio imaginário, nem por isso menos real e menos legítimo.Um índio cujas danças misturam movimentos corporais de tradições indígenas e não indígenas, com pinturas de corpo que são marcas tribais, com telefones celulares e câmeras fotográficas, que são adornos tribais de branco.
Aqueles índios formam pouco mais do que um albergue multiétnico, em casarão abandonado do século 19, dotado, no entanto, de uma função evocativa e identitária que não pode ser ignorada.Ainda que seja de dificílima compreensão porque foge da “receita” do que o índio “deve ser”. Procuram enquadrar-se na concepção estereotipada que do índio tem o branco, na verdade o índio genérico e sem identidade própria. Índio de museu. Porque é esse índio de ficção que tem obtido reconhecimento constitucional e legal do Estado brasileiro. Sem render-se a ele,o índio de verdade,não tem como reivindicar direitos. As populações de diferentes grupos humanos, quando deslocadas espacial e historicamente, se recriam a partir das condições que encontram no cenário de sua adversidade. O nosso imigrante italiano se reinventou italiano no Brasil. Era outro italiano, sendo o mesmo. É no marco de sua uniformidade fictícia, a de “índio”, que os índios podem assegurar-se a proteção legal que lhes permite lutar por sua diferença contra o índio genérico do branco. Pagam um preço, o da dupla personalidade, a do conflito interior que divide sua pessoa na disputa entre o falso índio do branco e o verdadeiro índio do índio.
O nativismo brasileiro, criação de branco em cima de uma memória fantasiosa de Ceci e Peri, está sendo questionado. O próprio índio quer escrever o seu enredo e desempenhar os papéis da trama que diz quem ele é e não é. O índio dócil e submisso da sujeiçã violenta e da catequese de amansamento tem sido apenas o dar-se a ver do vencido. Mas, índio morde e morde por legítimas razões auto defensivas. Se o índio chegou à história de escola primária como representante de uma das “três raças”, que não são três nem são raças, na constituição de uma nacionalidade dominante, fraterna e harmoniosa, no novo enredo ele desconstrói essa história inventada pelos que venceram e pelos que mandam.Estamos vivendo um momento de reprotagonização no processo histórico brasileiro. Não só índios se repropõem como sujeitos de direitos.Mas também outros grupos humanos que a ficção política de uma nação trirracial criada pelo Império e mantida pela República acomoda apertadamente na ideologia da brasilidade. O Brasil dessa ficção política de fundo racial vive sua crise e, provavelmente, seus últimos tempos.
De modo que o que para muitos pode parecer uma comédia, uma variante do permanent carnaval brasileiro, não regulado pelas demarcações cronológicas da Quaresma, constitui, na verdade, momento e expressão de germinação social e de reinvenção do Brasil. Não por acaso, com apoio de outros índios e de brancos,houve uma tentativa de invadir o verdadeiro Museu do Índio, em Botafogo. É nessa tentativa que está , muito provavelmente, a chave da compreensão da resistência do pequeno grupo indígena à desocupação e à demolição do velho e arruinado casarão que ocupam nas imediações do Maracanã.
Para nós,museu é museu.Para muitas pessoas, não só os índios,um museu, pelos objetos que contém, pode ser muito mais um templo do que uma casa de cultura. O que para muitos é uma obra de arte,para outros continua sendo um objeto de culto.Não é diferente para o índio. Um objeto de sua cultura, exibido num museu, não perde para ele as funções rituais e até sua dimensão sagrada. Não é incomum que índios em visita a museus fiquem chocados ao verem expostos objetos de sua cultura que a tradiçã omanda que fiquem longe dos olhos dos não iniciados ritualmente para sua manipulação cerimonial.
De modoque,nãoconstituipropriamente uma anomalia que esse grupo de indígena se congregue no que para eles é não só uma extensão do Museu do Índio, mas extensão também de suas aldeias pelos objetos que o Museu abriga e expõe,cuja significação identitária permanece.
✽
JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, PROFESSOR
EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA DA
USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE FRONTEIRA –
A DEGRADAÇÃO DO OUTRO NOS CONFINS DO
HUMANO (CONTEXTO)
Arte e realidade - Lee Siegel
Lee Siegel
LEIA AQUI
Peitos pelo progresso - João Ubaldo Ribeiro
JOÃO UBALDO RIBEIRO - O Estado de S.Paulo
Como já tive oportunidade de comentar aqui diversas vezes, Itaparica sempre esteve na vanguarda e não raro puxou o bonde nacional. Assim foi quando, depois de os aturarmos durante quase um ano, na época do padre Vieira, enchemos o saco de tantos vanderdiques e vanderleis e botamos os holandeses da ilha para fora - e tudo às carreiras, tanto assim que vários ficaram para trás, para usufruto das conterrâneas mais necessitadas ou mais assanhadinhas, assim se originando as flores que são nossas mulatas de olhos verdes, as quais vem gente de todo o mundo para conhecer. Quase dois séculos mais tarde, se não fosse a ilha, talvez não houvesse independência, pois a convicção dos historiadores sérios é de que o grito do Ipiranga não passou de gogó e sair mesmo no tapa com os portugueses foi na ilha e redondezas.
O grande mito - Caetano Veloso
Publicado em:
O GLOBO
Se a Comissão fizer algo útil e justo, mesmo sob Feliciano, aplaudirei a Comissão. O que não quer dizer que aplaudo a escolha do seu presidente.
A pauta da primeira reunião da Comissão de Direitos Humanos e Minorias sob a presidência de Marco Feliciano foi o grave caso da contaminação por chumbo na cidade de Santo Amaro da Purificação, no estado da Bahia. Feliciano disse aos reclamantes que eles teriam sucesso em suas demandas se tivessem o apoio de ruidosos manifestantes, como os que desejam destituí-lo. Bem, ele não o disse nessas palavras, mas redigi como pude o que captei do sentido de sua fala. Participei de uma manifestação pela saída de Feliciano e já mencionei brevemente aqui que acho inapropriada a escolha do seu nome para o cargo. Mas usei muito mais espaço quando, faz algum tempo, tratei da questão do chumbo em minha cidade. Nossas respostas públicas ao andamento dos fatos políticos são quase inevitavelmente desproporcionais. Nesse caso, a minha não foi: dou muito maior importância à questão da violência ambiental que Santo Amaro sofreu e sofre do que ao disparate que é a escolha do presidente da Comissão. Não estou dizendo que aquela questão é objetivamente mais importante do que esta (talvez o seja), mas que pessoalmente dou muito maior importância à questão santamarense. Se a Comissão fizer algo útil e justo a respeito, mesmo sob Feliciano, aplaudirei a Comissão. O que não quer dizer que aplaudo a escolha do seu presidente.Vi Feliciano no programa “Agora é tarde”, de Danilo Gentili. Achei boa a entrevista. Tanto o apresentador quanto o entrevistado se saíram bem. Gentili foi irreverente e um tanto obsceno (parece que é esse o tom do programa), e Feliciano foi firme (sem deixar de ser levado pela ousadia de Gentili, tendo chegado, na ânsia de mostrar que não se assombrava com coisa nenhuma, a soar um tanto obsceno ele próprio). Gentili conseguiu dizer diretamente a ele coisas que a maioria das pessoas que veem seu programa (e muitas que não veem) gostariam de poder dizer. Numa determinada altura, por causa da história de não admitir que suas filhas se expusessem a ver “dois homens barbados e com as pernas raspadas se beijando”, Feliciano disse que a sociedade brasileira não está preparada para isso. Bom, o passo seguinte seria: então preparemo-la. De fato, a frase do pastor esconde um “ainda”. O diálogo aberto entre Gentili e ele, na TV, pareceu contribuir consideravelmente para essa preparação. O melhor momento do pastor foi quando ele disse que é um deputado eleito com muitos votos e, portanto, representa um aspecto da mentalidade do povo. O pior foi quando, tendo de responder sobre sexo anal heterossexual (que Gentili chamou de “transar pela bunda”, expressão que foi, pelo menos em parte, repetida por Feliciano), ele se saiu com uma restrição higiênica, chamando o ânus de “um esgoto”. Agostinho já notara, com muito maior elegância, que nascemos “entre fezes e urina”.
Vi hoje na internet (estou gripado) uma briga bastante feia entre, de um lado, Marco Feliciano e Silas Malafaia, e, de outro, Edir Macedo. O bispo editou imagens de umbanda (que ele chama de “sessão espírita”) ao lado de cenas de possessão pelo Espírito Santo de fiéis de igrejas pentecostais. Estampando a pergunta: “Qual a diferença?” Com isso dizendo que esses rodopios e esse lançar-se ao chão dos evangélicos é algo tão suspeitamente demoníaco quanto os rituais afro-brasileiros. As respostas dos dois pastores são muito bem articuladas. Vale a pena ver no YouTube: basta escrever “Feliciano responde a Edir Macedo” (Silas aparece logo ao lado). Ambos dizem que a Universal de Macedo já fez e faz muita coisa igualmente parecida com aqueles ritos. Mais sério: Moisés faz o galho virar serpente, os feiticeiros do faraó também fazem, mas a serpente de Moisés engole as deles: Deus é maior que quaisquer manifestações do demônio. Os três líderes religiosos parecem estar lutando por clientela. Para um homem não religioso como eu, é o que fica evidente.
Vi Mautner no Jô. Sou um homem não religioso? Ouvi-o dizer que o Brasil e sua amálgama são a nova coisa, que salvaremos o mundo. Na luta contra os malditos que envenenaram minha terra, invoquei Nossa Senhora da Purificação. Lendo “O mundo líquido”, de Bauman, aprendi que os países em desenvolvimento estão fadados à desgraça. Mas tendo a pensar que a política econômica mal explicada de Dilmantega (sugestões como as de André Nassif , Carmem Feijó e Eliane Araújo sendo cruamente rejeitadas) nos atrasa em relação aos outros países para nos resguardar de um sucesso dentro do que ainda não é o que devemos ser. Nossa Senhora da Purificação de Santo Amaro, o Jesus de Nazaré do Mautner, o Dom Sebastião de Agostinho, é isso que minha alma intui que nos guia a algo acima dessa lixeira.
sábado, 30 de março de 2013
Engenharia do Engenhão - José Miguel Wisnik
O GLOBO - 30/03/2013
A realização da Copa das Confederações e da Copa do Mundo, bem como das Olimpíadas, no Brasil, põe à prova capacidades fundamentais como as de criar e de gerir
Todos sabemos que a realização da Copa das Confederações e da Copa do Mundo, bem como das Olimpíadas, no Brasil, põe à prova capacidades fundamentais como as de criar e de gerir, de potencializar os talentos e de administrar as condições de sua realização em benefício público. É por isso mesmo que o futebol está no centro da interrogação sobre os atravessados destinos da modernização brasileira. Corresponderemos à nossa inventividade lúdica e invejável de pentacampeões mundiais? Somos capazes de sustentar consequentemente a gestão das estruturas necessárias e de incorporá-las como um legado? As duas perguntas cairão como meteoros pré-datados sobre o nosso atraso atual, no qual se confundem o atraso histórico imemorial com o atraso da construção das obras e o da construção do time (que está mais atrasada do que a dos estádios). A ruptura visível na estrutura do Engenhão soa a essa altura do campeonato como o sintoma incômodo que põe tudo isso a nu, como a gafe de mau gosto que desvela a incompetência cósmica.Os arcos que sustentam o teto do estádio inaugurado no Pan de 2007 não se acomodaram na estrutura como previa o projeto, e podem desabar. O laudo de uma empresa de consultoria alemã recomenda a interdição. Começa a brasileiríssima dança das denegações: Cesar Maia, prefeito na ocasião da obra, declara categoricamente que o problema não é de projeto nem de execução, mas de manutenção; o engenheiro responsável afirma que o laudo alemão é “brilhante”, mas parte de “premissas diferentes” das do projeto, razão pela qual apresenta um resultado que ele não compartilha, completando que iria tranquilo com a família, se fosse o caso, para assistir a um jogo no Engenhão. Tudo se passa como se não tivesse existido o descarrilamento do bonde de Santa Teresa, nem o desabamento dos três prédios junto do Municipal, nem a tragédia da boate Kiss.
A cultura da irresponsabilidade — que consiste em não responder pelo que se faz — é corrente no Brasil. Na Europa e nos Estados Unidos é costume que alguém pague pelos desmandos e pelos erros; no Japão, o engenheiro praticaria o haraquiri. Aqui, é de praxe que os envolvidos finjam que nada está acontecendo. Para completar, o contrato assinado, até onde entendi, libera o consórcio construtor de responsabilidade sobre problemas que se revelem após o término da construção, ficando tudo na conta da prefeitura.
A opção brasileira para a realização dos novos estádios da Copa não foi a do convite a arquitetos autorais, como os do Ninho de Pássaro em Pequim, projetado por Herzog e De Meuron com participação do artista chinês Ai Weiwei. O novo estádio de Wembley, por sua vez, é da autoria de Norman Foster, importante arquiteto inglês e, curiosamente, contendo uma evidente citação do projeto não realizado de Oscar Niemeyer para o Maracanã, que era também baseado num imenso arco do qual penderiam finos cabos de aço, sustentando a cobertura. O pouco conhecido projeto de Niemeyer apontava pioneiramente, nos anos 1940, para os vários estádios atirantados contemporâneos, isto é, com a cobertura suspensa por cabos, como é o caso também do Stade de France, construído para a Copa de 1998. O Engenhão é uma versão pouco elegante e low-tech dessa tendência, onde a estrutura se baseia não em cabos, mas em perfis tubulares largos e pesados, halterofilísticos, que, ao que parece, não aguentaram o levantamento de peso.
Não escolher arquitetos de renome, pertencentes ao star system da arquitetura espetacularizada, poderia ser visto como uma virtude, se não fosse pelo fato de que os projetos foram entregues na maioria a conglomerados internacionais de construtoras com empreiteiras, aparecendo os arquitetos como parte secundária do pacote dos negócios. No mesmo bolo, as duas maiores e principais cidades-símbolos do Brasil, Rio e São Paulo, comparecem vexaminosamente com um estádio baleado, herdado do Pan e com importante papel projetado para as Olímpiadas, o Engenhão, com o Maracanã atrasado e o Itaquerão corintiano, suposto estádio do jogo de abertura da Copa, travado por um imbróglio financeiro.
Construir uma seleção, por sua vez, é mais difícil do que construir vinte estádios. Não há espaço aqui para desenvolver esse tema. Só quero dizer que eu, que sou santista, que fui um entusiasta da permanência de Neymar no Brasil e que sou seu fã total, acho que ele tem que ir o quanto antes para o Barcelona, testar o seu tamanho real, temperar o seu talento no contato com marcações futebolísticas diferentes do cerco e do circo de mídia, de publicidade e de futebol precário que se criou em torno dele aqui.
domingo, 24 de março de 2013
Você tem nome de quê? - HUMBERTO WERNECK
Rendeu marola a conversa da semana passada, em torno de nomes de gente
que são também nomes de coisa, bicho ou vegetal. Como o guilherme que o
Guilherme usa na carpintaria. Poucas reclamações: um Bernardo não gostou
de se saber xará daquele berloque da anatomia masculina, e uma Cecília,
ao ver-se no balaio das serpentes, só faltou me picar. Duas Betes
perguntaram que jogo é esse originado do beisebol. Talvez o "bete (ou
bente) altas" da minha infância, em que o desafio era derrubar com a
bolinha a base adversária, tripé armado com gravetos. Não tem no
Houaiss, mas eu estive nos anos 50 e dou fé.
LEIA AQUI
LEIA AQUI
O Plano Borges - João Ubaldo Ribeiro
João Ubaldo Ribeiro - O Estado de S.Paulo
LEIA AQUI
Baboseiras - Luis Fernando Verissimo
O Estado de S.Paulo
O motoboy entregou o pacote de cartas e disse:
- Ele falou que tinha resposta.
- Espera - disse ela. E pôs-se a examinar as cartas. Procurava uma em especial, que não encontrou. Fez um sinal para o motoboy aguardar enquanto telefonava.
- Alô...
- Amauri, cadê a carta do ursinho?
Era uma das primeiras cartas que ela tinha lhe mandado. Ainda eram namorados. Uma carta toda escrita como se fosse de uma criança para o seu ursinho de pelúcia.
- Eu mandei. Não mandei?
- Não. E se você não mandar a carta do ursinho eu não mando as suas.
- Heleninha...
- Não tem "Heleninha", Amauri. Ou você manda todas as minhas cartas ou eu começo a mostrar as suas. Sou capaz até de publicá-las. Quero ver como fica a sua reputação no meio.
- Eu pensei em guardar pelo menos uma carta sua, Heleninha.
- Logo a mais ridícula? Devolve a minha carta, Amauri. Nosso trato foi esse.
Todas as cartas.
- Deixa eu ficar só com esta. É a minha favorita.
- Eu sei o que você está pensando, Amauri. Quer ficar com a carta para me chantagear depois.
- Chantagear, Heleninha?!
- Chantagear. Eu conheço você.
- Heleninha! Eu acho esta carta linda. Uma lembrança do tempo em que a gente se amava.
- Não banca o sentimental comigo, Amauri. Essa carta é só um exemplo das baboseiras que e gente diz e escreve quando acha que o amor nunca vai acabar. Mas o amor acaba e fica a baboseira. Me devolve essa carta, Amauri!
- Heleninha, você lembra de como eu chamava você? Na cama?
- Eu não quero ouvir!
- Lembra? Está certo, era baboseira. Mas era bonito. Era carinhoso. Eu era o seu ursinho e você era a minha...
- Amauri, manda essa carta ou eu publico as suas. Já sei exatamente para quem mandar a primeira.
- Está bem, Heleninha. Manda o motoboy de volta.
Zuneide pensou: não dá mais. Morar nesta cidade, não dá mais. Não vejo mais o Ique, não sei nada da vida dele. E todas as noites é este suplício, nunca sei se ele vai voltar pra casa ou não, se está vivo ou morto. Dizem que morre um motoboy por dia na cidade. Todos os dias uma mãe perde um filho nesta cidade. Se o Ique ainda fosse procurar outra coisa pra fazer. Mas não. Trata aquela moto como se fosse um bicho de estimação. À noite, a moto fica ao lado da cama dele. Dorme com ele. Vou tentar convencer o Ique a voltar para São Carlos. Respirar outros ares. Antes que ele morra e me deixe.
- Não dá mais, doutor Amauri. Esta cidade está me deixando maluco. Sabe que no outro dia, quando me dei conta, estava correndo pela calçada e buzinando? A pé, na calçada, e buzinando para os outros pedestres saírem da frente. Bi, bi, bi. Olha que loucura.
- Você acha que isso pode ter alguma coisa a ver com os problemas em casa. Com a Mercedes?
- Não sei. Nosso amor acabou, doutor. Não tem mais sexo, não tem mais nada. Na outra noite eu chamei ela por um apelido que a gente usava quando era recém-casados, eu era Pimpão e ela era Pimpinha, e ela deu uma gargalhada. Não se lembrava mais. E ela também está enlouquecendo, doutor. Agora deu para dizer que se eu não comprar uma TV digital ela se mata. Vou dizer para ela vir consultar com o senhor tam...
Tocou o telefone e Amauri pediu licença para atender.
- Alô? Sim, Helena. Não chegou? Eu mandei pelo motoboy perto do meio-dia. Mandei, Helena. Por que eu iria mentir? Deve ter acontecido alguma coisa com o motoboy.
Só em casa, depois de deixar o Ique no hospital, Zuneide descobriu a carta no bolso do blusão do filho. Uma carta carinhosa, que começava assim: "Querido Ursinho". Ele tinha uma namorada e ela não sabia! O nome dela era Heleninha. Uma boa menina, ingênua, pura, que obviamente o amava muito, a julgar pela carta. Preciso encontrar um jeito de avisá-la de que o Ique teve um acidente, pensou Zuleide. Será uma maneira de conhecê-la, também. De conversarmos, de combinarmos a ida deles para São Carlos, para outros ares, depois do casamento. Zuneide leu e releu a carta várias vezes. Que coisa bonita. Que coisa carinhosa. No dia seguinte ela diria ao Ique que ainda não conhecia a Heleninha mas já gostava dela.
- Amauri, você pediu. Vou começar a distribuir as suas cartas.
- Heleninha...
- Você mentiu. O tal motoboy não apareceu com a minha carta.
- Heleninha...
- Prepare-se para o pior, Amauri.
O motoboy entregou o pacote de cartas e disse:
- Ele falou que tinha resposta.
- Espera - disse ela. E pôs-se a examinar as cartas. Procurava uma em especial, que não encontrou. Fez um sinal para o motoboy aguardar enquanto telefonava.
- Alô...
- Amauri, cadê a carta do ursinho?
Era uma das primeiras cartas que ela tinha lhe mandado. Ainda eram namorados. Uma carta toda escrita como se fosse de uma criança para o seu ursinho de pelúcia.
- Eu mandei. Não mandei?
- Não. E se você não mandar a carta do ursinho eu não mando as suas.
- Heleninha...
- Não tem "Heleninha", Amauri. Ou você manda todas as minhas cartas ou eu começo a mostrar as suas. Sou capaz até de publicá-las. Quero ver como fica a sua reputação no meio.
- Eu pensei em guardar pelo menos uma carta sua, Heleninha.
- Logo a mais ridícula? Devolve a minha carta, Amauri. Nosso trato foi esse.
Todas as cartas.
- Deixa eu ficar só com esta. É a minha favorita.
- Eu sei o que você está pensando, Amauri. Quer ficar com a carta para me chantagear depois.
- Chantagear, Heleninha?!
- Chantagear. Eu conheço você.
- Heleninha! Eu acho esta carta linda. Uma lembrança do tempo em que a gente se amava.
- Não banca o sentimental comigo, Amauri. Essa carta é só um exemplo das baboseiras que e gente diz e escreve quando acha que o amor nunca vai acabar. Mas o amor acaba e fica a baboseira. Me devolve essa carta, Amauri!
- Heleninha, você lembra de como eu chamava você? Na cama?
- Eu não quero ouvir!
- Lembra? Está certo, era baboseira. Mas era bonito. Era carinhoso. Eu era o seu ursinho e você era a minha...
- Amauri, manda essa carta ou eu publico as suas. Já sei exatamente para quem mandar a primeira.
- Está bem, Heleninha. Manda o motoboy de volta.
Zuneide pensou: não dá mais. Morar nesta cidade, não dá mais. Não vejo mais o Ique, não sei nada da vida dele. E todas as noites é este suplício, nunca sei se ele vai voltar pra casa ou não, se está vivo ou morto. Dizem que morre um motoboy por dia na cidade. Todos os dias uma mãe perde um filho nesta cidade. Se o Ique ainda fosse procurar outra coisa pra fazer. Mas não. Trata aquela moto como se fosse um bicho de estimação. À noite, a moto fica ao lado da cama dele. Dorme com ele. Vou tentar convencer o Ique a voltar para São Carlos. Respirar outros ares. Antes que ele morra e me deixe.
- Não dá mais, doutor Amauri. Esta cidade está me deixando maluco. Sabe que no outro dia, quando me dei conta, estava correndo pela calçada e buzinando? A pé, na calçada, e buzinando para os outros pedestres saírem da frente. Bi, bi, bi. Olha que loucura.
- Você acha que isso pode ter alguma coisa a ver com os problemas em casa. Com a Mercedes?
- Não sei. Nosso amor acabou, doutor. Não tem mais sexo, não tem mais nada. Na outra noite eu chamei ela por um apelido que a gente usava quando era recém-casados, eu era Pimpão e ela era Pimpinha, e ela deu uma gargalhada. Não se lembrava mais. E ela também está enlouquecendo, doutor. Agora deu para dizer que se eu não comprar uma TV digital ela se mata. Vou dizer para ela vir consultar com o senhor tam...
Tocou o telefone e Amauri pediu licença para atender.
- Alô? Sim, Helena. Não chegou? Eu mandei pelo motoboy perto do meio-dia. Mandei, Helena. Por que eu iria mentir? Deve ter acontecido alguma coisa com o motoboy.
Só em casa, depois de deixar o Ique no hospital, Zuneide descobriu a carta no bolso do blusão do filho. Uma carta carinhosa, que começava assim: "Querido Ursinho". Ele tinha uma namorada e ela não sabia! O nome dela era Heleninha. Uma boa menina, ingênua, pura, que obviamente o amava muito, a julgar pela carta. Preciso encontrar um jeito de avisá-la de que o Ique teve um acidente, pensou Zuleide. Será uma maneira de conhecê-la, também. De conversarmos, de combinarmos a ida deles para São Carlos, para outros ares, depois do casamento. Zuneide leu e releu a carta várias vezes. Que coisa bonita. Que coisa carinhosa. No dia seguinte ela diria ao Ique que ainda não conhecia a Heleninha mas já gostava dela.
- Amauri, você pediu. Vou começar a distribuir as suas cartas.
- Heleninha...
- Você mentiu. O tal motoboy não apareceu com a minha carta.
- Heleninha...
- Prepare-se para o pior, Amauri.
Dolores e Eric - Caetano Veloso
Publicado em:
FALA CAETANO
O GLOBO
Colunista responde autora que escreve biografia da cantora sobre artigo publicado esta semana no Segundo Caderno
Fiquei surpreso com o artigo de Angela de Almeida publicado aqui ao lado na quarta-feira. O título era “Em defesa de Dolores Duran” mas, apesar da redação sóbria, não se entende de que a articulista está defendendo a cantora. Pela citação direta de comentário feito aqui nesta coluna, pareceria que ela quer defender Dolores de mim. Ela acha mesmo que diminuí Dolores ao reconhecer que “Por causa de você” é uma canção de amor afirmativa e que “Estrada do sol” resplandece de contraste com o pessimismo amoroso dos sambas-canções dos anos 1950? Angela reclama de eu ter dito que a figura vital e engraçada que aparece na biografia escrita por Rodrigo Faour não me surpreende. Mas por que diabos isso estaria na contramão da admiração pela personalidade artística da compositora que exponho no parágrafo precedente? Na verdade, toda a angustiante história da cardiopatia que acabou matando nossa adorada artista está narrada no livro de Faour. Se Angela tem críticas a fazer ao livro desse autor, que as faça. Mas essa velada acusação não procede: Faour não omite, nega ou desmente a tensão que acompanhou Dolores por toda a sua curta vida.De minha parte, sempre tive e tenho a sensação nítida de que Dolores não era uma moça triste, nem mesmo uma autora especialmente pra baixo dentre os fazedores de baladas brasileiras daqueles tempos. Eu a vi de perto no auditório da Rádio Nacional e senti uma simpatia imediata, passando a achar que a conhecia. Deplorarei sempre não ter podido encontrá-la quando finalmente vim para o Rio. Lendo o livro de Faour, eu me encontrei com a pessoa que intuía a partir da aparência, da voz e das músicas. As canções de Dolores são as mais convincentes, sinceras e diretas que se podem escrever. Todas as referências ao “tempo passando” e à certeza terrível da mortalidade entrelaçada com a sede sem fim de ser amada que aparecem em suas composições são registradas por Faour. Pode-se não gostar (eu não gosto) do tom demasiado jocoso e do coloquialismo extravagante do autor, mas a pesquisa sobre quem foi a mulher que ganhou o nome Dolores Duran é abrangente e honesta. Dolores aparece como uma menina excepcionalmente inteligente, que gostava de curtir a vida e que sentia alegria com a própria inteligência. O jeito de ela cantar os baiões engraçados de Chico Anysio e os não menos engraçados sambas de Billy Blanco mostra bem que tipo de piadista ela era. As lembranças dos seus ex-amantes coincidem em descrever uma mulher apaixonada e sensual, com grande culto do amor físico. A irmã e as amigas descrevem uma pessoa reconhecível. Uma personagem vívida sai das páginas do livro. Nenhum dos seus próximos desmente as características da personalidade brincalhona. Faour sempre parece perfeitamente honesto na transcrição dos depoimentos. Se Angela está escrevendo uma biografia mais aprofundada da compositora, ótimo. Que ela a publique o quanto antes. Mas não venha ralhar comigo pelo que eu não fiz.
.Dolores é o máximo. Sem ela eu não estaria tão firme contra Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos; eu não teria entendido nem um décimo do que entendo da linguagem da canção popular; o Brasil não seria o que, a duras penas, consegue ser. Dolores é uma glória da língua portuguesa, sem a qual o samba não existiria.
Estou escrevendo quase sem usar a cabeça. Em meio aos preparativos para a estreia do show “Abraçaço” (quando este artigo sair, já terei feito três dos quatro shows que anunciei fazer no Circo Voador), só tenho na mente as palavras e as notas embaralhadas de “Um comunista”, “Alexandre” (que vou ler, pois nunca a cantei em público, já que não decorei a letra) e “Funk melódico” (que gravei lendo e nunca mais cantei). Gosto de música popular. Sempre gostei. Há algo aí. Quando, em suas análises da formação social do jazz, Eric Hobsbawm fala com desprezo de Tin Pan Alley (a rua que deu nome à produção de canções americanas nos anos 1920, 30 e 40), ou seja, de Irvin Berlin, George Gershwin e Cole Porter, eu me sinto mal. Não é que eu queira a aprovação dele para a canção pop (como ele já chama o tipo de música feita por essa gente): é que eu acho que há algo errado em não se captar a grandeza desse gênero. Hobsbawm é que fica sem minha aprovação. Sou mais Dolores.
É simpático que Hobsbawm não embarque no ódio ao jazz que Adorno nutria. Apesar da crítica do capitalismo (Hobsbawm também era marxista), ele não desqualifica uma forma de expressão complexa como o jazz. (Embora eu ache que têm graça algumas arengas de Adorno: ele entendia mais de música do que Hobsbawm.) Mas nada de “Night and day”, “The man I love” ou “Por causa de você” com ele
************************
Para ler o artigo de Angela de Almeida :
Em defesa de Dolores Duran - ANGELA DE ALMEIDA
sábado, 23 de março de 2013
SABÁTICO
Coletânea reúne textos nos quais Milan Kundera aborda música, literatura, pintura ou teatro para definir a si mesmo
LEIA AQUI
REFLEXÕES SOBRE UMA REVOLUÇÃO
Em Mercadores de Cultura, que sai no País no fim de abril, John B. Thompson traça um vasto painel do mercado editorial americano e inglês; aqui ele discute o tema de forma ampla, incluindo o Brasil
LEIA AQUI
A INDÚSTRIA DE ‘CISNES NEGROS
Leia trecho de um capítulo no qual o autor analisa o funcionamento das editoras comerciais
LEIA AQUI
UMA RARA COLEÇÃO, FEITA COM ALEGRIA
Com 45 mil volumes, num extraordinário conjunto de primeiras edições, manuscritos, mapas, revistas, etc., a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin abre neste sábado sua nova sede
LEIA AQUI
sexta-feira, 22 de março de 2013
Solidão e silêncio no fundo da agulha - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO
O Estado de S.Paulo
Todos os domingos, à meia-noite, quando Nabor cantava "Quizás, quizás, quizás", eu sabia que a domingueira tinha acabado e aquelas meninas de Araraquara desceriam as escadas, passariam por mim, nem me olhando, e iriam para casa. Algumas com os pais, várias sozinhas (não havia perigo), outras acompanhadas pelos namorados. Inveja daqueles namorados, tinham dançado com as moças mais lindas, colado o rosto (apesar da vigilância materna), conseguido um beijo furtivo. Dali a pouco, nos portões, viriam os "amassos", porque mais do que carinhos, os namorados se amassavam com sofreguidão. Em que estado iam dormir.
Dia desses, indo para uma reunião na Fundação Carlos Chagas, ouvi no táxi ouvi o bolero siempre que te pregunto, que quando, donde y como. Comentei na reunião: "Ali estou, sentado no banco gelado, sabendo que o domingo acabou". Sandra e Mariana Lapeiz, condutoras do projeto maravilhoso que é o Livro para Todos, (que este ano tem Milton Hatoum como padrinho, assim como Lygia Fagundes Telles e eu fomos nos dois últimos anos), indagou: "O que isso quer dizer?" E eu: "Há canções que me provocam, volto no tempo". Ela: "Já escreveu sobre isso? Não é um livro?"
Era. É. Nove meses depois, o livro estava terminado. Tempo de gestação de um ser humano. Vim arrancando de dentro desde aquela canção Amado Mio, do filme Gilda, ainda na minha infância, até Alfonsina y el Mar, com Mercedes Sosa, que Irina e eu ouvíamos em Hanabanilla, Cuba, pouco antes dela, jovem jornalista mexicana, linda, partir para a Nicarágua para lutar com os sandinistas contra o ditador Somoza. Fui reencontrando Valsinha, de Chico e Vinicius, que embala duas mulheres solitárias numa sala a tecerem bordados de uma vida, bem como Patricia, bolero para ser dançado cheek to cheek nas festinhas da adolescência, mas que Fellini usou para a orgia final em A Doce Vida, filme que marcou uma geração. "Quero, quero ser chamada de querida", lembram-se?
Uma noite, no Recife, no Sesc, vi e ouvi no palco uma mulher que me impressionou ao falar sobre educação e ao contar sobre seus textos, Viviane Mosé. Dela retirei o título de meu livro, Solidão no Fundo da Agulha, porque me trouxe minhas tias e primas em tardes araraquarenses, me trouxe mulheres que conheci e se encerraram no silêncio do fundo da agulha. Mulheres que esperaram ou ainda esperam que ele chegue um dia com um jeito diferente daquele jeito que ele tinha ao chegar. Nossas vidas são atravessadas e marcadas por músicas, por canções que nos devolvem momentos, felizes ou não. Recuperei algumas, mas a cada dia acumulo outras.
Por que uma americana que vi certa manhã, uma única vez, em Roma, perto da Praça de Espanha, eu voltaria a reencontrar 17 anos depois, mulher madura, numa palestra em San Diego, Estados Unidos, ligada por uma carta que ela recebeu e eu nunca li? Ligada ainda por Antonio Tabucchi, o escritor italiano falecido ano passado, um grande amigo. Mais, ligada por Isaura Garcia a cantar: "Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com uma carta na mão". Como e por que a vida estende linhas misteriosas, unido ou desunindo pedaços de nós?
A primeira entrevista de sua vida, capa do caderno de variedades do jornal Última Hora, fui eu que fiz com Dina Sfat, quando ela começou no Teatro de Arena, em 1962. Naquela tarde, nos fundos do teatro vazio, alguém cantava Estrela do Mar. Quem não conhece? Um pequenino grão de areia. Dina ficou de descobrir quem era a cantora. Descobriu? Um mistério que continua. Dina morreu três meses do dia em que, indo a Israel, me vi na cidade de Sfat, terra dos cabalistas. Sfat que lhe deu o nome.
Solidão no Fundo da Agulha está pronto e será lançado terça-feira, dia 26, no bar Vianna, em Pinheiros. O bar vizinho à minha casa, onde vou certos fins de tarde e sento-me na mesma mesa, lendo, anotando coisas, ou simplesmente esperando a noite chegar ao meu bairro, porque com ela chegam Marcia e Rita para sentar comigo. O livro está saindo pelo selo Livro para Todos, um dos projetos que tornam diferenciada a Fundação Carlos Chagas, a que estrutura todos os grandes concursos públicos deste Brasil. Projeto que dá a ela um plus.
Paulo Melo Jr., um fotógrafo pernambucano, leu os textos e, câmera em punho, saiu para capturar o espírito de Araraquara, ou de lugares de São Paulo: Rua Javari, Livraria Francesa, ruas do centro, bancas de frutas ao sol, estação da Luz, Avenida 23 de Maio vazia, um pastel de feira sendo frito, o teatrinho de Arena, o relógio do Mappin, debaixo do qual gerações marcaram encontros. O que é este livro? Minhas memórias? Mas são as suas também. Minha músicas? São as de todos. É realidade, lembrança, é ficção. E tanto é um livro de gerações mais velhas ou atuais, que a jovem Rita Gullo interpreta as 11 canções do livro (porque haverá um CD dentro) como se fossem dela, do tempo dela. Ela se comprometeu com cada nota, cada palavra. Tocaremos todas as canções na noite do dia 26, na Rua Cristiano Vianna, 315, e beberemos, e falaremos, porque será um encontro de todos nós, a partir de 19 horas.
Todos os domingos, à meia-noite, quando Nabor cantava "Quizás, quizás, quizás", eu sabia que a domingueira tinha acabado e aquelas meninas de Araraquara desceriam as escadas, passariam por mim, nem me olhando, e iriam para casa. Algumas com os pais, várias sozinhas (não havia perigo), outras acompanhadas pelos namorados. Inveja daqueles namorados, tinham dançado com as moças mais lindas, colado o rosto (apesar da vigilância materna), conseguido um beijo furtivo. Dali a pouco, nos portões, viriam os "amassos", porque mais do que carinhos, os namorados se amassavam com sofreguidão. Em que estado iam dormir.
Dia desses, indo para uma reunião na Fundação Carlos Chagas, ouvi no táxi ouvi o bolero siempre que te pregunto, que quando, donde y como. Comentei na reunião: "Ali estou, sentado no banco gelado, sabendo que o domingo acabou". Sandra e Mariana Lapeiz, condutoras do projeto maravilhoso que é o Livro para Todos, (que este ano tem Milton Hatoum como padrinho, assim como Lygia Fagundes Telles e eu fomos nos dois últimos anos), indagou: "O que isso quer dizer?" E eu: "Há canções que me provocam, volto no tempo". Ela: "Já escreveu sobre isso? Não é um livro?"
Era. É. Nove meses depois, o livro estava terminado. Tempo de gestação de um ser humano. Vim arrancando de dentro desde aquela canção Amado Mio, do filme Gilda, ainda na minha infância, até Alfonsina y el Mar, com Mercedes Sosa, que Irina e eu ouvíamos em Hanabanilla, Cuba, pouco antes dela, jovem jornalista mexicana, linda, partir para a Nicarágua para lutar com os sandinistas contra o ditador Somoza. Fui reencontrando Valsinha, de Chico e Vinicius, que embala duas mulheres solitárias numa sala a tecerem bordados de uma vida, bem como Patricia, bolero para ser dançado cheek to cheek nas festinhas da adolescência, mas que Fellini usou para a orgia final em A Doce Vida, filme que marcou uma geração. "Quero, quero ser chamada de querida", lembram-se?
Uma noite, no Recife, no Sesc, vi e ouvi no palco uma mulher que me impressionou ao falar sobre educação e ao contar sobre seus textos, Viviane Mosé. Dela retirei o título de meu livro, Solidão no Fundo da Agulha, porque me trouxe minhas tias e primas em tardes araraquarenses, me trouxe mulheres que conheci e se encerraram no silêncio do fundo da agulha. Mulheres que esperaram ou ainda esperam que ele chegue um dia com um jeito diferente daquele jeito que ele tinha ao chegar. Nossas vidas são atravessadas e marcadas por músicas, por canções que nos devolvem momentos, felizes ou não. Recuperei algumas, mas a cada dia acumulo outras.
Por que uma americana que vi certa manhã, uma única vez, em Roma, perto da Praça de Espanha, eu voltaria a reencontrar 17 anos depois, mulher madura, numa palestra em San Diego, Estados Unidos, ligada por uma carta que ela recebeu e eu nunca li? Ligada ainda por Antonio Tabucchi, o escritor italiano falecido ano passado, um grande amigo. Mais, ligada por Isaura Garcia a cantar: "Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com uma carta na mão". Como e por que a vida estende linhas misteriosas, unido ou desunindo pedaços de nós?
A primeira entrevista de sua vida, capa do caderno de variedades do jornal Última Hora, fui eu que fiz com Dina Sfat, quando ela começou no Teatro de Arena, em 1962. Naquela tarde, nos fundos do teatro vazio, alguém cantava Estrela do Mar. Quem não conhece? Um pequenino grão de areia. Dina ficou de descobrir quem era a cantora. Descobriu? Um mistério que continua. Dina morreu três meses do dia em que, indo a Israel, me vi na cidade de Sfat, terra dos cabalistas. Sfat que lhe deu o nome.
Solidão no Fundo da Agulha está pronto e será lançado terça-feira, dia 26, no bar Vianna, em Pinheiros. O bar vizinho à minha casa, onde vou certos fins de tarde e sento-me na mesma mesa, lendo, anotando coisas, ou simplesmente esperando a noite chegar ao meu bairro, porque com ela chegam Marcia e Rita para sentar comigo. O livro está saindo pelo selo Livro para Todos, um dos projetos que tornam diferenciada a Fundação Carlos Chagas, a que estrutura todos os grandes concursos públicos deste Brasil. Projeto que dá a ela um plus.
Paulo Melo Jr., um fotógrafo pernambucano, leu os textos e, câmera em punho, saiu para capturar o espírito de Araraquara, ou de lugares de São Paulo: Rua Javari, Livraria Francesa, ruas do centro, bancas de frutas ao sol, estação da Luz, Avenida 23 de Maio vazia, um pastel de feira sendo frito, o teatrinho de Arena, o relógio do Mappin, debaixo do qual gerações marcaram encontros. O que é este livro? Minhas memórias? Mas são as suas também. Minha músicas? São as de todos. É realidade, lembrança, é ficção. E tanto é um livro de gerações mais velhas ou atuais, que a jovem Rita Gullo interpreta as 11 canções do livro (porque haverá um CD dentro) como se fossem dela, do tempo dela. Ela se comprometeu com cada nota, cada palavra. Tocaremos todas as canções na noite do dia 26, na Rua Cristiano Vianna, 315, e beberemos, e falaremos, porque será um encontro de todos nós, a partir de 19 horas.
Quem acredita em estrelas? - Nelson Motta
Estado de Minas - 22/03/2013
A perigo de dançar na troca de cadeiras de Dilma, o ministro do Turismo, Gastão Vieira, publicou artigo nos jornais anunciando seu grande projeto: recadastrar todos os hotéis do Brasil e classificá-los com estrelas. A justificativa é que o turista paga um hotel de tantas estrelas, mas chega aqui e se decepciona.
Bem, isso era no século passado, hoje ninguém faz uma reserva sem antes ver fotos e vídeos nos sites dos hotéis, ler as críticas dos hóspedes e avaliar preços, serviços e quartos. Ninguém liga mais para estrelas, ministro.
Propaganda enganosa, ciladas e otários sempre vão existir, mas para isso existe o Procon. Para o ministro, a atual classificação por estrelas dos hotéis "provocou constrangimentos durante dez anos e perda de confiança na hotelaria brasileira". As estrelas, não os péssimos serviços e preços abusivos.
Então, com dez anos de atraso, anunciou o SBClass - Sistema Brasileiro de Classificação de Meios de Hospedagem, o bolsa-estrela. Para quê? Basta os hotéis manterem seus sites atualizados - o que todos já fazem, como marketing: hoje são os consumidores que dão as estrelas.
O projeto estelar oficial fez viagens e oficinas, pesquisas em 24 países, seis cursos de capacitação e 26 avaliações-piloto, contratou 300 especialistas. Mas o ministro estranha que só 30 dos 6.260 hotéis brasileiros tenham se interessado no SBClass. Por que será?
Imaginem quanto vai nos custar esse plano genial, tão atrasado quanto inútil? E, como sempre no Brasil, alguns vão querer uma estrela a mais na camaradagem, ou coisa pior, para enganar os otários.
Falando em estrelas, o Movimento Cinco Estrelas, do comediante Beppe Grillo, que conquistou 25% dos votos na Itália e elegeu 166 parlamentares, divulgou suas contas de campanha: arrecadou 570 mil (R$ 1,5 milhão) com cerca de 15 mil doações individuais e média de 40 per capita.
Quase tudo foi gasto na montagem de palcos, som e luz dos comícios, as sobras da campanha vão ser doadas às vítimas do terremoto na Emilia. Quem precisa de empresas ou financiamento público quando tem novas propostas e a internet?
A perigo de dançar na troca de cadeiras de Dilma, o ministro do Turismo, Gastão Vieira, publicou artigo nos jornais anunciando seu grande projeto: recadastrar todos os hotéis do Brasil e classificá-los com estrelas. A justificativa é que o turista paga um hotel de tantas estrelas, mas chega aqui e se decepciona.
Bem, isso era no século passado, hoje ninguém faz uma reserva sem antes ver fotos e vídeos nos sites dos hotéis, ler as críticas dos hóspedes e avaliar preços, serviços e quartos. Ninguém liga mais para estrelas, ministro.
Propaganda enganosa, ciladas e otários sempre vão existir, mas para isso existe o Procon. Para o ministro, a atual classificação por estrelas dos hotéis "provocou constrangimentos durante dez anos e perda de confiança na hotelaria brasileira". As estrelas, não os péssimos serviços e preços abusivos.
Então, com dez anos de atraso, anunciou o SBClass - Sistema Brasileiro de Classificação de Meios de Hospedagem, o bolsa-estrela. Para quê? Basta os hotéis manterem seus sites atualizados - o que todos já fazem, como marketing: hoje são os consumidores que dão as estrelas.
O projeto estelar oficial fez viagens e oficinas, pesquisas em 24 países, seis cursos de capacitação e 26 avaliações-piloto, contratou 300 especialistas. Mas o ministro estranha que só 30 dos 6.260 hotéis brasileiros tenham se interessado no SBClass. Por que será?
Imaginem quanto vai nos custar esse plano genial, tão atrasado quanto inútil? E, como sempre no Brasil, alguns vão querer uma estrela a mais na camaradagem, ou coisa pior, para enganar os otários.
Falando em estrelas, o Movimento Cinco Estrelas, do comediante Beppe Grillo, que conquistou 25% dos votos na Itália e elegeu 166 parlamentares, divulgou suas contas de campanha: arrecadou 570 mil (R$ 1,5 milhão) com cerca de 15 mil doações individuais e média de 40 per capita.
Quase tudo foi gasto na montagem de palcos, som e luz dos comícios, as sobras da campanha vão ser doadas às vítimas do terremoto na Emilia. Quem precisa de empresas ou financiamento público quando tem novas propostas e a internet?
Humor terapêutico - Arthur Dapieve
O sucesso do canal Porta dos Fundos no YouTube
Os funcionários de uma firma fazem uma espécie de pausa para o chá, todos os dias, a fim de assistir a seus episódios favoritos no Porta dos Fundos. O taxista liga o computador quando chega em casa para esquecer o caos do trânsito vendo dois ou três vídeos do Porta dos Fundos. Este colunista também encerra suas jornadas de trabalho com doses terapêuticas do Porta dos Fundos. Viciei-me.Linguagens de programação - Hermano Vianna
‘Toda escola deveria oferecer oportunidade de aprender a fazer código’
Muitas vezes esta coluna aborda assuntos que aparentemente só são interesse de minoria. A vontade de divulgar aquilo que pouca gente conhece é consciente. Estou experimentando o experimental, falando sobre o que também é grego para mim, mas onde intuo linguagem comum no futuro, artigo que será de primeira necessidade. Isso é a tese, a carta de intenções. A realidade acontece diferente. Igualmente muitas vezes, logo depois de publicar texto sobre novidade que considerava totalmente esotérica, descubro multidão que só pensa naquilo, com militância exaltada. É o que Ágata, personagem de “O homem sem qualidades”, denomina “salvação pela estatística”.quarta-feira, 20 de março de 2013
UMA ESTAÇÃO SÓ PARA A ARTE
| O GLOBO - 20/03/2013 Alavancado pela nova lei de TV paga, que prevê mais conteúdo nacional nas transmissões, Grupo Bandeirantes lança hoje um canal, o Arte1, com séries, óperas, balés, filmes e jornalismo cultural MÁRCIA ABOS São Paulo marcia.abos@sp.oglobo.com.br .Anova lei de TV paga teve papel decisivo na criação do Arte1, novo canal dedicado a artes e cultura do Grupo Bandeirantes, sob a direção de Rogério Gallo. Desde dezembro no ar, em caráter experimental, em algumas operadoras de TV por assinatura, o Arte1 faz hoje sua estreia oficial na grade de pacotes básicos, sem custo adicional, com a marca de 10 milhões de assinantes, número bem acima da previsão inicial de 2 milhões. A entrada com força no mercado deve-se ao perfil do canal, classificado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) como espaço de conteúdo nacional qualificado. Essa classificação impulsionou as operadoras a inclui-lo nos pacotes básicos de assinatura para cumprir a exigência da nova lei de um canal brasileiro para cada seis estrangeiros na grade. ACERVO DA VIDEOFILMES Gallo conta que o projeto tem mais de dois anos, mas a estreia do canal foi adiada para se adequar à lei da TV paga. — Adaptamos o projeto para tornar o Arte1 um canal brasileiro de espaço qualificado, com mais da metade da programação do horário nobre com conteúdo nacional, metade produzido pelo próprio canal e a outra metade, de coproduções — explica Gallo, admitindo que a adaptação aumentou os custos do negócio, mas foi também uma oportunidade. — A nova lei encareceu o conteúdo nacional, por causa do aumento da demanda. Mas foi para nós uma oportunidade. Sem ela não entraríamos no mercado com essa força e essa base de assinantes. A programação traz séries, filmes de ficção, documentários, shows, concertos, óperas e balés, além de três programas semanais de jornalismo cultural. O diretor conta que o Arte1 comprou os direitos de exibição de todo o acervo da Videofilmes, que inclui o conjunto de documentários de Eduardo Coutinho (“As canções”, “Jogo de cena”), e clássicos do cinema brasileiro, como longas de Glauber Rocha, Rogério Sganzerla e Luís Sérgio Person. — Não temos como foco um público de iniciados, nem queremos ser um canal educativo. Ao contrário, trata-se de um canal de entretenimento que quer ser acessível — diz Gallo, citando como exemplo de programação de apelo popular uma série ainda em fase de produção, feita em parceria com a produtora independente Comalt, de Nelson Hoineff, sobre roubos de obras de arte no Brasil. — Nessa série, falaremos sobre museus e história da arte, mas ela tem também o apelo de um thriller policial. Arte de rua no Brasil é o tema de outra série coproduzida pela Aeue, um nova produtora independente de São Paulo, também em fase de produção. O canal fechou parcerias com a Pinacoteca do Estado de São Paulo, que resultou numa série de reportagens sobre o restauro de obras de arte, e com a feira SP Arte. Negocia um acordo nos mesmos moldes com a São Paulo Companhia de Dança, para a exibição de espetáculos e produção de séries. O projeto prevê ainda parcerias com outros corpos estáveis brasileiros e com instituições como a Bienal Internacional de Arte de São Paulo e eventos como a Feira Literária Internacional de Paraty (Flip). — Está em avaliação um projeto de teleteatro, gênero tão antigo da TV brasileira. A ideia é simplesmente exibir a peça, nos moldes de um antigo programa da TV Bandeirantes, o “Teleteatro Cacilda Becker” — adianta Gallo. Com a grande quantidade de assinantes , a expectativa é que o crescimento do Arte1 acompanhe nos próximos cinco anos o aumento da base de assinantes de TV paga, cuja perspectiva é de expansão de 25% ao ano. A programação de 24 horas do novo canal é exibida no número 115 da Net, 101 da Sky, 31 na Claro TV, e 84 na GVT. l |
O cheio e o vazio - Francisco Bosco
‘Hoje, o mundo se tornou um hipermercado. E o campo digital tornou esse hipermercado globalizado em tempo real’
Há algumas semanas, Hermano Vianna publicou aqui um comentário (assim entendi, pois a menção não era explícita) à edição da “Carta Capital” que declarava “o vazio da cultura” brasileira contemporânea e, nos termos do editorial de Mino Carta, a “imbecilização do Brasil”. Na “Carta” dessa semana, Vladimir Safatle volta ao tema, afastando-se do modo como Mino Carta tratou o problema — uma avaliação objetiva e negativa sobre a qualidade das obras produzidas hoje — e lançando questões oportunas, como a necessidade de se repensar a noção de “cultura popular”. Farei aqui um comentário indireto às visões de Hermano e Safatle (talvez volte a elas mais detidamente na próxima semana), chamando atenção para um ponto que me parece importante nessa discussão.
Assinar:
Comentários (Atom)