quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

PMDB vê-se fortalecido com PSB no jogo de 2014

Raymundo Costa e Yvna Sousa
BRASÍLIA - Depois de ter conseguido o comando do Congresso, o PMDB quer mais. A cúpula do partido avalia que a eventual candidatura presidencial do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, fortalece o poder de barganha do partido para negociar mais cargos no governo. Interlocutores da presidente Dilma Rousseff, no entanto, informaram que o PMDB não precisa "esticar a corda", pois ela e o vice Michel Temer já concordaram que é preciso ampliar os espaços da sigla e as manutenção da aliança na eleição de 2014.
 

O diário do poder, na voz de FHC - GABRIEL MANZANO

Ex-presidente tira do armário centenas de fitas gravadas por ele durante seu governo com decisões tomadas ao longo dos dias de trabalho


GABRIEL MANZANO

 Durante seus oito anos na Presidência da República, Fernando Henrique Cardoso manteve uma rotina secreta, de que só os muito próximos sabiam: ele fazia gravações diárias, ou quase diárias, no fim do expediente, sobre o que tinha dito, ouvido, pensado e decidido naquelas 10 ou 12 horas.

Dez anos depois de descer a rampa do Planalto, o segredo veio à tona. Numa recente entrevista ao médico Dráuzio Varela, ele falou da sua vasta coleção de fitas e avisou que ela está sendo degravada e organizada por uma colaboradora.

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Obama e a “exceção americana” - DEMÉTRIO MAGNOLI

Na sabatina de John Brennan, o indicado de Barack Obama para dirigir a CIA, o Senado dos EUA assistiu a um espetáculo de som e fúria. De um lado, a saraivada de críticas indiscriminadas à política de “assassinatos seletivos” conduzidos por drones não lançou luz sobre um debate vital. De outro, os aliados do governo no Congresso engajaram-se na tentativa de maquiar uma estratégia desastrosa, inspirada pela Doutrina Bush.

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PAULO SANT’ANA - Ressuscitação

Anunciaram anteontem na internet que eu morri.

O Nílson Souza me telefonou aflito: “Que coisa boa te ouvir. A internet está bombando, estão dizendo que morreste. Acho melhor tu falares na Gaúcha para desmentir”.

As pessoas telefonavam para a rádio e ficavam sabendo que eu ainda não morrera.

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Os peixes e a preservação - Fernando Reinach

Fernando Reinach - O Estado de S.Paulo
 
Santuários marinhos são regiões onde é proibido pescar. Geralmente, a implementação dessas reservas é combatida pelas comunidades de pescadores, que se sentem prejudicadas. Agora, os ecologistas conseguiram um novo argumento para convencer os pescadores a permitir a criação de reservas: elas exportam peixes fáceis de pescar.

Apesar de a maioria dos ecologistas defender a criação de santuários marinhos como uma arma importante para preservar a biodiversidade dos mares, a criação e a manutenção de áreas preservadas têm se mostrado difíceis, quando não impossíveis.


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'Drones' e o papa - Luis Fernando Verissimo

Luis Fernando Verissimo - O Estado de S. Paulo
 
 

O "Drone" é um sonho de arma. Realiza o ideal de qualquer soldado, que é o de matar inimigos sem o risco de morrer também. O "Drone" é controlado a distância, sua "tripulação" nunca sai do chão e seus ataques são guiados, imagino, por comandos parecidos com os de um videogame. Foguetes e bombas são disparados dos "Drones" com simples toques dos dedões e os resultados aparecem na tela para serem comemorados. Como nos videogames.

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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Dia de bom futebol - TOSTÃO

Atlético-MG x São Paulo e Real Madrid x Manchester United são as duas grandes partidas de hoje

QUANDO UM time, nitidamente superior, com melhores jogadores, com mais força coletiva e com um futebol mais moderno, perde um jogo decisivo, temos de relativizar o resultado, já que existe um grande número de fatores surpreendentes e ocasionais envolvidos no placar, em vez de mudar os conceitos e diminuir as virtudes da equipe favorita.


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A irmã de Freud - Eliana Cardoso

Vi a casa: número 20, Maresfield Gardens, Londres. Ali Freud morou um ano até setembro de 1939, quando morreu. Escapara dos nazistas em 1938, levando consigo a mulher, a cunhada, a filha, o filho, o médico com sua própria família, duas domésticas, o cachorrinho, a biblioteca e enorme coleção de objetos comprados de antiquários. Para trás deixou as irmãs, que morreram em campos de concentração.

Li Freud's Sister (Penguin). O escritor macedônio Goce Smilevski dá voz a uma delas, Adolfina. O romance baseia-se em fatos, porém cria no leitor o sentimento desconfortável de que, ao retratar Sigmund Freud como vilão, o autor busca a polêmica. Ao mesmo tempo, ao narrar a vida de Adolfina como cheia de crueldade e loucura, Smilevski inventa uma obra de arte que muitos leitores acharão fascinante e outros, controversa.


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PAULO SANT’ANA - Um papa jovem

O que se verifica com a renúncia do Papa não passa de uma singela aposentadoria.

O direito à aposentadoria é universal e humanitarista.

Verifica-se agora um defeito no Direito Canônico por não ter previsto a aposentadoria dos papas.

Muitos papas terminaram seus mandatos caindo aos pedaços.

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O monossexualismo - Francisco Bosco


Entrevista que o pastor Silas Malafaia concedeu a Marília Gabriela mostra dialética de civilização e barbárie

A entrevista que o pastor Silas Malafaia concedeu a Marília Gabriela teve grande repercussão nas redes sociais, em especial os trechos em que o pastor trata da homossexualidade. Recomendo que se veja a entrevista na íntegra, pois por meio dela pode-se compreender com clareza a dialética de civilização e barbárie que constitui a experiência das religiões monoteístas e sua relação com a sociedade. Senão, vejamos.

Cinzas e repetições - Roberto DaMatta

Roberto Damatta - O Estado de S.Paulo
 
Nesta vida todo mundo, querendo ou não, é pautado. Todos somos levados, obrigados, arrolados ou dirigidos a fazer muita coisa. Algumas, impossíveis, como não mentir ou ser pusilânime. No caso do jornal, temos que escrever; no caso da vida, de seguir alguma regra ou viver com ou sem o bom senso.

Os planos para nossas vidas existem antes do nosso aparecimento no mundo. Antes do nosso nascimento, pai e mãe tinham expectativas fulminantes em relação às nossas vidas. Nossas pautas existenciais são os projetos e esquemas que figuram na nossa sociedade e cultura: instruções do tipo como comer, vestir-se, limpar-se e dormir - caminhos simbólicos e reais a serem necessária e precisamente percorridos como a escolha de certas profissões e valores religiosos e políticos; rituais de crise de vida ou de passagem celebrados em nossa honra ou para os outros, os quais temos de - querendo ou não - acompanhar. Do nascimento até a morte, seguimos esquemas precisos e implacáveis e, mesmo depois de termos partido, continuamos a segui-los, porque não há sociedade que abandone seus mortos.

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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

PAULO SANT’ANA - O lugar dos bêbados

Não se pode esperar de quem é rasteiro outra coisa que não seja baixeza.

Não se pode esperar erudição de quem é analfabeto.

Do mau-caráter só se pode esperar maus-caratismos.

Grandeza só se pode esperar de quem é grande, erudição só se pode esperar de quem é culto.

Por isso é que se criou o ditado de que “ali de onde menos se espera é que nunca sai nada mesmo”.

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Uma coisa leva a outra - Cristovão Tezza

Como sempre vivi preguiçosamente na província, sou um apaixonado por correio. Passei muito tempo na vida escrevendo cartas. Uma boa “História universal dos correios”, se existe, certamente seria uma leitura fascinante. Não estacionei nas cartas, é claro. No meu exílio em Gaivotas, onde não passa carteiro, recorro ao milagre da tabuleta digital. Com o chipezinho que contratei (mesmo lento e caro, à brasileira), consigo comprar livros e revistas do mundo inteiro, sem intermediários. Semana passada, a revista The New Yorker trouxe uma matéria sobre Galileu, considerado o pai da ciência moderna (“Moon man”, por Adam Gopnik), que frisa a importância do correio já há 450 anos.

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O novo carnaval das ruas - Arnaldo Jabor

Todo ano minha coluna sai na terça-feira de carnaval. Não há outro assunto que possa suplantar a espantosa festa popular e acabo me repetindo. Eu andava irritado com a folia anual. Cheguei a dizer que o chamado "tríduo momesco" - como falavam os cronistas d"antanho - tinha virado uma calamidade pública. Mas, nos últimos dias, vendo as massas pulando nas ruas de Salvador, Recife e Rio, fiquei pensando: como é que pode? O que faz milhares de foliões se jogarem nas ruas como estouros de boiadas, o que será que provoca tanta fome de samba, de riso, de porres, de sexo em flor? Este ano, há blocos que congregam mais de 400 mil participantes, 400 mil dançando na orla do Rio, em um delirante comício de felicidade.

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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Paulo Brossard - E a presidente riu dos críticos

A senhora presidente da República, em 11 de setembro passado, estabeleceu a redução da tarifa elétrica em 16% para residências e 28% para a indústria e a medida agradou a meio mundo para não dizer mundo e meio, pois sempre é bem-vinda a redução de ônus, seja qual for, e é notória a exagerada tarifa em causa; se isto vale em relação a brasileiros e estrangeiros residentes no país, quanto ao consumo em suas residências, o mesmo vale quanto à indústria, que na energia tem um dos fatores que compromete a competitividade dela nos mercados interno e externo. Pouco depois, a redução foi majorada para 18% e 32%, respectivamente, aliás, usada para maior gabo à chefe do Executivo. Há quem entenda que a redução se explicaria por estarem previstos reajustamentos de tarifa a várias concessionárias no ano em curso, de fevereiro a dezembro, ou poderia explicar-se pela munificência do governo, já em aberta campanha eleitoral, embora a destempo à luz da lei.

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Nova pornografia - Lúcia Guimarães

Cheguei a pensar que havia acordado na década errada. Seria fevereiro de 2003? Um documento obtido por um repórter atentava contra a Constituição e a língua inglesa, costurando um arrazoado para assassinar cidadãos americanos no exterior, se considerados um perigo iminente para a segurança americana. Definição de perigo iminente? Confie em nós, povo.

Grandes jornais confessaram que, há um ano, escondem dos leitores, a pedido da Casa Branca, o fato de que há uma base secreta na Arábia Saudita de onde decolam os drones, os aviões sem pilotos comandados por controle remoto. Os drones que matam não só os suspeitos de terrorismo no Paquistão, no Iêmen, na Somália, mas também civis transformados em dano colateral.

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A POÉTICA DE SYLVIA PLATH

 O estado de SãoPaulo - 11/02/2013

Escritora de estilo forte e hábil em unir técnica e paixão mantém sua força e genialidade 50 anos após sua morte

Rodrigo Garcia Lopes
ESPECIAL PARA O ESTADO

“Senhoras e senhores / Eis minhas mãos,meus joelhos. / Posso ser só pele e osso / No entanto sou a mesma, idêntica mulher”, escreve Sylvia Plath, com sua peculiar ironia, em Lady Lazarus.
E, no mesmo poema: “A multidão, comendo amendoim / Se aglomera para ver / Desenfaixarem minhas mãos e pés –/ O grande strip-tease”.

A poeta, que se matou há exatamente 50 anos, parece aqui antever o circo em torno de seu suicídio, a espetacularização de sua imagem e sua transformação em mártir feminista, e que ainda continua com força em nossos dias de culto à celebridades instantâneas.

Por outro lado, na academia, por muito tempo se privilegiaram os aspectos biográficos e sensacionalistas (o abandono e a traição de Hughes), eclipsando o valor de sua arte e de sua intervenção estética na poesia dos anos 50-60.

Como lembra Camile Paglia, o que ocorreu na esteira do furor feminista que acabou tomando conta do discurso em torno da poeta americana foi que “o engajamento erudito de Plath com escritores canônicos homens foi minimizado e suprimido”. De fato, os poetas de sua devoção eram, além de Emily Dickinson, Blake, D.H. Lawrence, Roethke, Eliot, Yeats, e Lowell (que foi seu professor). Plath soube superar esse cânone pesadíssimo e, livre de angústias de influências, criar uma dicção poética singular.

A canonização, a fama e o rótulo de “poeta confessional” ou “suicida” foram amargos para a poesia de Plath. Ainda em vida (tinha apenas 30 anos quando morreu), ela alertava para a recepção de seus poemas como meros “gritos do coração”. “Creio que se deva saber controlar as experiências, até as mais terríveis, como a loucura, como a tortura e se deva saber manipulá-las com uma mente lúcida que lhe dê forma.” Ou seja, não tanto poemas sobre experiências mas como experiências. Seria mais correto chamar su poesia de “conficcional”, pois ela soube tomar fatos autobiográficos, históricos, míticos, e adaptá-los à sua própria mitologia pessoal. Alguns temas: incesto, aborto, suicídio, doença mental, a opressão da mulher, a maternidade, o corpo, a morte.

De modo não panfletário, Plath soube como poucas transformar suas experiências em desafios à sua própria habilidade poética, como atestam obras-primas como 40 Graus de Febre, Rival, Ariel, A Chegada da Caixa de Abelhas, Palavras e Papai (o equivalente feminino ao Uivo de Ginsberg). Poesia de imagens fortes e grande musicalidade, pedindo para serem lidos em voz alta, como os de Ariel. Ou como em Corte, onde podemos ver seu processo poético em ação: o corte no dedo serve de motivo poético para uma viagem alucinada e de imagens violentas: o polegar cortado assume as máscaras de um chapéu, de um escalpo de um “pioneiro”, uma garrafa de champanhe, um piloto camicaze, um membro da Klu- Klux-Klan, um moinho. Quase sempre ela parte de um incidente “menor” para falar de algo mais amplo (o Holocausto, Hiroshima).

Sylvia Plath foi uma artista da palavra mais que meramente a poeta “suicidada pela sociedade”. Dominava uma variedade de formas e tinha seu dicionário Webster como verdadeira bíblia. Seus melhores poemas ficaram como prova definitiva de sua genialidade poética, conseguindo unificar técnica e paixão. Mais: ela conseguiu fundir, como poucos poetas, o pessoal e o político, sem nunca esquecer, obviamente, o poético. Claro que uma poeta “forte” como Plath deixou sua influência, como em Anne Sexton, Sharon Olds, Adrienne Rich, além do próprio Ted Hughes (que emulou seu estilo em Cartas de Aniversário).

No Brasil, encontram-se traduções, ecos e citações de Plath na poesia de Ana Cristina Cesar (1952-1983), entre outras escritoras. Apesar de ter escrito também prosa (um romance, contos, diários, cartas), Plath se definia sobretudo como poeta, uma artesã: “Poesia é uma disciplina tirânica. Você tem de ir tão longe, tão rápido, em tão pouco tempo, que nem sempre é possível dar conta do periférico. Num romance talvez eu possa conseguir mais da vida, mas num poema eu consigo uma vida mais intensa”.

RODRIGO GARCIA LOPES É POETA, COMPOSITOR E TRADUTOR. ESTÁ LANÇANDO SEU SEGUNDO DISCO, CANÇÕES, DO ESTÚDIO REALIDADE

LEITURA

Livros de Sylvia Plath
Ariel (Editora Verus)
Poemas (Iluminuras)
O Terno Tanto Faz
Como Tanto Fez (Rocco)

Obras sobre ela
A Mulher Calada
Eensaio de Janet Malcolm
(Companhia das Letras)
A Poética do Suicídio
em Sylvia Plath
Ensaio de Ana Cecília Carvalho
(Editora da UFMG)

O QUE QUE HÁ COM A SUA BARATINHA? - Joaquim Ferreira dos Santos

  

O GLOBO - 11/02/2013
Está na hora de mudar
o disco do carnaval e curtir
o lado B da viúva, do
brotinho e da madame


A mulata bossa nova vai me desculpar e a Maria Sapatão também. Mas é carnaval e eu, cansado de sair com elas em outras folias, queria cantar outras mulheres.

As marchinhas ressurgiram aqui neste espaço, numa série de crônicas exaltatórias, no início de 2006. A nega do cabelo duro era coisa só de gente muito velha, de carecas que entre as mulheres ainda se achavam os maiorais. Aquelas letras eram confetes coloridos de antigos carnavais dos quais só cronistas, eternos índios querendo apito, se lembravam.

Depois destas crônicas, verdadeiros gatos na tuba resfolegando no coreto do jardim, veio em 2007 o musical “Sassaricando”, de Rosa Maria Araújo e Sergio Cabral — e o resto é história, é cabeleira do Zezé, é daqui não saio, daqui ninguém me tira, e outros bigorrilhos aos quais o carnaval carioca agradece e sai pulando. É com esse que eu vou.

O problema é que está na hora de mudar o disco e curtir o lado B da viúva, do brotinho e da madame. Quero sassaricar, todo mundo quer, porque sem isso a vida é um nó, mas está na hora de pedir, vira meu bem, e cantar outras músicas no ouvido da festa. Deus me livre e guarde de pedir que se dê um tempo em Braguinha, Paquito e Romeu Gentil, ou Mirabeau, mas, saravá, meu pai, vamos deixar descansar as “Touradas de Madri”, o “Tomara que chova” e o “Tem nego bebo aí”. Há marchinhas que não acabam mais. Não vai aqui nenhum preconceito contra a cabeleira do Zezé ou a Chiquita Bacana, a gostosérrima existencialista cheia de razão. Elas serão cantadas sempre, pois um carnaval sem elas seria como um show dos Rolling Stones sem “Satisfaction”.

Pede-se apenas uma saudação também para a chegada do general da banda e aproveite-se para perguntar a ele que negócio é esse de “vara madura que não cai”. Louvemos ainda a Eva, querida, de quem todos queremos, pelo menos num carnaval, ser o seu Adão. Por que não entronizá-los nos novos cordões?

As novas gerações de cariocas tomaram gosto pelas marchinhas e, a propósito, foi lançado agora um ótimo CD com versões para crianças, feito pelo clã Martinho da Vila. Mas lá está de novo a jardineira sendo cantada como se fosse a única mulher do salão. Como se não houvesse Isaura (“hoje eu não posso ficar”), como se não houvesse Iaiá (“cadê o jarro?”) e a Maria Candelária (a alta funcionária que saltou de paraquedas e caiu na letra O).

Mamãe, eu quero mamar nas tetas da Maria Escandalosa, mesmo sabendo que desde criança ela dá alteração. Quero dançar o minueto, que vem lá do Municipal, outra delícia carnavalesca que o pirata da perna de pau, para que só ele brinque na boca da galera, escondeu no baú.

Marchinha de carnaval é muito mais do que atravessar o deserto do Saara, tomar uma latinha de cerveja com o sol a queimar a cara de todo mundo. É hora de lembrar a balzaquiana (“mulher só depois dos 30”), as macacas de auditório (“ela é fã da Emilinha”) e a garota Saint- Tropez (“com o umbiguinho de fora”). Vamos mudar o tom, embora, repita-se, nada aqui se tenha contra o bafo da onça e a merecida exaltação de que ele é o bom, é o bom, é o bom.

Vamos inventar uma nova cantada, garotão. Quando passar à sua frente aquela gata de penugem dourada na coxa, levante os braços e cante “você roubou meu sossego, você roubou minha paz”, outro clássico de Mirabeau, compositor pouco conhecido que, no entanto, deveria ser entronizado ao lado de Braguinha, Lamartine e João Roberto Kelly, como um dos reis do carnaval.

Já que a pândega está liberada, já que as moças estão cada vez mais divertidas, por que não brincar com elas cantando a irresistível “O que que há com a sua baratinha?”, que Orlando Silva gravou nos anos 40, no auge das corridas de automóvel no circuito da Gávea, e décadas depois Jorge Veiga confirmou em outra gravação, cheio de duplos sentidos, já com as baratinhas automobilísticas enterradas.

Neste carnaval eu quero rosetar, não quero mais saber de brincar só com vocês, nega maluca, louras, cor de laranja, 100 mil, e outras musas do carnaval Brasil. Quero carne nova,papos outros, e mais daquela que quando ela chega todo mundo grita, estou aí, nessa marmita. Viva o lado B da linda morena, abram alas para novos clássicos do carnaval.

Zé da Zilda e Zilda do Zé estão dizendo que o doutor mandou todo mundo gingar. Paquito e Romeu Gentil estão mandando todo mundo para Jacarepaguá, que lá mulher é mato e — carnaval é pra isso mesmo — todo mundo precisa se arrumar.

Se essa zorra não virar, se o bafômetro não acusar, a gente chega lá.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Suíte tabagística - Humberto Werneck

Na cela 3 do DOPS, em Belo Horizonte, onde aos 21 anos me trancafiaram por um mês, achei que a meu perfil de jovem intelectual insubmisso faltava um arremate visual. Podia não ter o cachecol e o olho torto do Sartre, porém o mais estava à mão. Pedi aos amigos que me arranjassem um cachimbo.

Fui atendido pelo José Márcio Penido, e, durante horas, encostado à grade (na cela em frente estava o sociólogo Bolívar - então oxítono: Bolivar - Lamounier), fiz o que pude para manter acesa, já não digo a flama revolucionária, mas a brasa do cachimbo. A outra, com o tempo, também arrefeceu, tanto quanto meu pique para desbravar a Introdução Sistemática ao Estudo da Sociologia, de Harry M. Johnson, que o vizinho de cana me recomendara. Bem mais adiante, tive uma fase de charuto, fumegante adereço que definitivamente não combinava com o meu temperamento bem pouco contemplativo. Repare: a não ser em filme de gângster, na permanente iminência da chegada dos pneus cantantes da lei, você não vê ninguém pitando nervosamente um puro, talhado, ao contrário, para ser saboreado em sossego, de preferência ao pé de uma lareira e com um cálice de conhaque na outra mão.

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O ANO DOS GAYS - HELENA CELESTINO


Conceitos e preconceitos estão sendo revistos dentro e fora das igrejas

Dos cardeais do Vaticano a escoteiros e bandeirantes, todos estão sendo obrigados a rever conceitos e, quem sabe, desfazer preconceitos. Em cada cabeça, uma sentença; em cada país, uma polêmica. No Reino Unido, uma parte do movimento gay não entende por que tanto barulho por tão pouco. Concordam que a aprovação no Parlamento do direito de os gays se casarem foi uma vitória da turma do bem; vai favorecer os casais homos, seus filhos e a sociedade de uma maneira geral. É mais uma etapa em direção à igualdade de direitos num país em que criminalização do sexo entre iguais — lei que mandou o escritor Oscar Wilde para a cadeia — só terminou nos anos 60. Mas a pergunta que não quer calar é por que o Estado tem de se meter num assunto tão privado como o amor entre duas pessoas, sejam elas hétero ou homo? Os ocidentais criticam a intromissão da lei islâmica na vida privada de mulheres e homens, mas repetem o procedimento ao legislar sobre o comportamento sexual: “Quase todas as questões envolvidas num casamento podem ser resolvidas consensualmente entre dois adultos — divisão de propriedades, obrigações e direitos de família — não precisa do Estado para ser regulamentado”, diz o ativista Sam Bowman, num texto no “Guardian”.