O comandante Hugo Chávez Frías pertencia à robusta tradição dos
caudilhos que, embora mais presentes na América Latina que em outras
partes, não deixaram de se assomar a toda parte, até em democracias
avançadas, como a França. Ela revela aquele medo da liberdade que é uma
herança do mundo primitivo, anterior à democracia e ao indivíduo, quando
o homem ainda era massa e preferia que um semideus, ao qual cedia sua
capacidade de iniciativa e seu livre-arbítrio, tomasse todas as decisões
importantes de sua vida.
Cruzamento de super-homem e bufão, o caudilho faz e desfaz a seu bel
prazer, inspirado por Deus ou por uma ideologia na qual, quase sempre,
se confundem o socialismo e o fascismo - duas formas de estatismo e
coletivismo - e se comunica diretamente com seu povo mediante a
demagogia, a retórica, a espetáculos multitudinários e passionais de
cunho mágico-religioso.
Sua popularidade costuma ser enorme, irracional, mas também efêmera, e
o balanço de sua gestão, infalivelmente catastrófico. Não devemos nos
impressionar em demasia pelas multidões chorosas que velam os restos de
Hugo Chávez. São as mesmas que estremeciam de dor e desamparo pela morte
de Perón, de Franco, de Stalin, de Trujillo e as que, amanhã,
acompanharão Fidel Castro ao sepulcro.
Os caudilhos não deixam herdeiros e o que ocorrerá a partir de agora
na Venezuela é totalmente incerto. Ninguém, entre as pessoas de seu
entorno, e certamente em nenhum caso Nicolás Maduro, o discreto
apparatchik a quem designou seu sucessor, está em condições de aglutinar
e manter unida essa coalizão de facções, de indivíduos e de interesses
constituídos que representa o chavismo, nem de manter o entusiasmo e a
fé que o defunto comandante despertava com sua torrencial energia nas
massas da Venezuela.
Uma coisa é certa: esse híbrido ideológico que Hugo Chávez urdiu
chamado revolução bolivariana ou socialismo do século 21, já começou a
se decompor e desaparecerá, mais cedo ou mais tarde, derrotado pela
realidade concreta: a de uma Venezuela, o país potencialmente mais rico
do mundo, ao qual as políticas do caudilho deixaram empobrecido,
dividido e conflagrado, com a inflação, a criminalidade e a corrupção
mais altas do continente, um déficit fiscal que beira a 18% do PIB e as
instituições - as empresas públicas, a Justiça, a imprensa, o poder
eleitoral, as Forças Armadas - semidestruídas pelo autoritarismo, a
intimidação e a submissão.
Além disso, a morte de Chávez coloca um ponto de interrogação na
política de intervencionismo no restante do continente latino-americano
que, num sonho megalomaníaco característico dos caudilhos, o comandante
defunto se propunha a tornar socialista e bolivariano a golpes de talão
de cheques. Persistirá esse fantástico dispêndio dos petrodólares
venezuelanos que fizeram Cuba sobreviver com os 100 mil barris diários
que Chávez praticamente presenteava a seu mentor e ídolo Fidel Castro? E
os subsídios e as compras de dívida de 19 países, aí incluídos seus
vassalos ideológicos como o boliviano Evo Morales, o nicaraguense Daniel
Ortega, as Farc colombianas e os inúmeros partidos, grupos e grupelhos
que por toda a América Latina lutam para impor a revolução marxista?
O povo venezuelano parecia aceitar esse fantástico desperdício
contagiado pelo otimismo de seu caudilho, mas duvido que o mais fanático
dos chavistas acredite agora que Maduro possa vir a ser o próximo Simon
Bolívar. Esse sonho e seus subprodutos, como a Aliança Bolivariana para
as América (Alba), integrada por Bolívia, Cuba, Equador, Dominica,
Nicarágua, San Vicente e Granadinas, Antígua e Barbuda, sob a direção da
Venezuela, já são cadáveres insepultos.
Nos 14 anos que Chávez governou a Venezuela, o preço do barril de
petróleo ficou sete vezes mais caro, o que fez desse país,
potencialmente, um dos mais prósperos do planeta. No entanto, a redução
da pobreza nesse período foi menor que a verificada, por exemplo, no
Chile e no Peru no mesmo período. Enquanto isso, a expropriação e a
nacionalização de mais de um milhar de empresas privadas, entre elas 3,5
milhões de hectares de fazendas agrícolas e pecuárias, não fez
desaparecer os odiados ricos, mas criou, mediante o privilégio e o
tráfico, uma verdadeira legião de novos ricos improdutivos que, em vez
de fazer progredir o país, contribuiu para afundá-lo no mercantilismo,
no rentismo e em todas as demais formas degradadas do capitalismo de
Estado.
Chávez não estatizou toda a economia, como Cuba, e nunca fechou
inteiramente todos os espaços para a dissidência e a crítica, embora sua
política repressiva contra a imprensa independente e os opositores os
reduziu a sua expressão mínima. Seu prontuário no que respeita aos
atropelos contra os direitos humanos é enorme, como recordou, por
ocasião de seu falecimento, uma organização tão objetiva e respeitável
como a Human Rights Watch.
É verdade que ele realizou várias consultas eleitorais e, ao menos em
algumas delas, como a última, venceu limpamente, se a lisura de uma
eleição se mede apenas pelo respeito aos votos depositados e não se leva
em conta o contexto político e social no qual ela se realiza, e na qual
a desproporção de meios à disposição do governo e da oposição era tal
que ela já entrava na disputa com uma desvantagem descomunal.
No entanto, em última instância, o fato de haver na Venezuela uma
oposição ao chavismo que na eleição do ano passado obteve quase 6,5
milhões de votos é algo que se deve, mais do que à tolerância de Chávez,
à galhardia e à convicção de tantos venezuelanos que nunca se deixaram
intimidar pela coerção e as pressões do regime e, nesses 14 anos,
mantiveram viva a lucidez e a vocação democrática, sem se deixar
arrebatar pela paixão gregária e pela abdicação do espírito crítico que o
caudilhismo fomenta.
Não sem tropeços, essa oposição, na qual estão representadas todas as
variantes ideológicas da Venezuela está unida. E tem agora uma
oportunidade extraordinária para convencer o povo venezuelano de que a
verdadeira saída para os enormes problemas que ele enfrenta não é
perseverar no erro populista e revolucionário que Chávez encarnava, mas a
opção democrática, isto é, o único sistema capaz de conciliar a
liberdade, a legalidade e o progresso, criando oportunidades para todos
em um regime de coexistência e de paz.
Nem Chávez nem caudilho algum são possíveis sem um clima de ceticismo
e de desgosto com a democracia como o que chegou a viver a Venezuela
quando, em 4 de fevereiro de 1992, o comandante Chávez tentou o golpe de
Estado contra o governo de Carlos Andrés Pérez. O golpe foi derrotado
por um Exército constitucionalista que enviou Chávez ao cárcere do qual,
dois anos depois, num gesto irresponsável que custaria caríssimo a seu
povo, o presidente Rafael Caldera o tirou anistiando-o.
Essa democracia imperfeita, perdulária e bastante corrompida, havia
frustrado profundamente os venezuelanos que, por isso, abriram seu
coração aos cantos de sereia do militar golpista, algo que ocorreu, por
desgraça, muitas vezes na América Latina.
Quando o impacto emocional de sua morte se atenuar, a grande tarefa
da aliança opositora presidida por Henrique Capriles será persuadir esse
povo de que a democracia futura da Venezuela terá se livrado dessas
taras que a arruinaram e terá aproveitado a lição para depurar-se dos
tráficos mercantilistas, do rentismo, dos privilégios e desperdícios que
a debilitaram e tornaram tão impopular.
A democracia do futuro acabará com os abusos de poder, restabelecendo
a legalidade, restaurando a independência do Judiciário que o chavismo
aniquilou, acabando com essa burocracia política mastodôntica que levou à
ruína as empresas públicas. Com isso, se produzirá um clima estimulante
para a criação de riqueza no qual empresários possam trabalhar e
investidores, investir, de modo que regressem à Venezuela os capitais
que fugiram e a liberdade volte a ser a senha e contrassenha da vida
política, social e cultural do país do qual há dois séculos saíram
tantos milhares de homens para derramar seu sangue pela independência da
América Latina. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
Músico que uniu o salão e a rua é homenageado com vasta programação que contempla sua obra nas faces erudita e popular
Leonardo Lichote
Ilustração de Leo Martins
Arte O Globo
RIO - Na virada do século XIX para o XX, algo fervia no Rio de
Janeiro — as elites da capital federal emulando a elegância europeia,
batuques ecoando pelas vielas ocupadas por escravos recém-libertos. Como
pianista demonstrador da Casa Vieira Machado & Cia, na Rua do
Ouvidor, ou como atração da sala de espera do Cinema Odeon, Ernesto
Nazareth ouvia tudo. E, mais que isso, traduzia para seu instrumento o
processo em curso — a cultura urbana que se formava, a tal fervura que
deu as bases para a produção brasileira ao longo das décadas seguintes —
misturando os dois universos: o salão e a rua, Chopin e os chorões, o
negaceio rítmico e a complexidade técnica. Agora, quando são celebrados
os 150 anos de seu nascimento (no dia 20 de março de 1863, no Morro do
Pinto), Nazareth é homenageado em suas faces erudita e popular, lembrado
como o que foi em ambos os terrenos: um fundador.
Meu mestre em História da Igreja, Eduardo Hoornaert, de quem fui aluno no curso de Teologia, faz uma proposta ousada, mas não descabida: uma Igreja Católica sem Papa!
À
primeira vista, soa como uma heresia. Tão assustadora como se propor,
no século XIX, um Brasil sem imperador, uma Rússia sem czar, uma Áustria
sem rei.
O papado não é uma instituição de origem cristã. A
palavra “Papa” não figura no Novo Testamento. Derivar o papado do
versículo de Mateus 16, 18 — “Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei
minha igreja”— é isolar o texto do contexto. Nada indica nos Evangelhos que Jesus pensou em instituir uma dinastia apostólica.
Foi
o bispo Eusébio de Cesareia, mentor da política “globalizada” do
imperador Constantino, que, no século IV, teve a iniciativa de redigir
listas de sucessivos bispos para as principais cidades do Império
Romano, de modo a adaptar a estrutura da Igreja ao modelo imperial de sucessão de poderes. Eusébio criou a imagem de Pedro-Papa.
A
palavra “Papa” (Pope), do grego popular do século III, deriva de
“pater” (pai) e expressa a estima dos cristãos por determinados bispos e
sacerdotes. Chamar o sacerdote de “padre” (pai) e o chefe religioso de
“Pope” (Papa) tornou-se costume nas Igrejas católica e ortodoxa. Ainda
hoje, na Rússia, o pastor da comunidade é chamado de Pope.
Cipriano,
bispo de Cartago (248-258), foi o primeiro a ser chamado de Papa. Em
Roma, o termo só passou a ser aplicado a seu bispo a partir do século
VI, com o Papa João I. Já o Colégio de Bispos — o episcopado ou a
conferência episcopal — tem raiz cristã. Bispo significa “supervisor” e é
citado diversas vezes no Novo Testamento (1 Tm 3, 2; Tito 1, 7; 1 Pd 2,
25; At 20, 29). Assim como o substantivo “episcopado” (1 Tm 3,1).
Todo
poder centralizado gera rivalidades. A partir do século III, teve
início uma acirrada disputa entre as quatro principais metrópoles do
Império Romano — Constantinopla (atual Istambul), Roma, Antioquia e
Alexandria. Os bispos dessas cidades eram conhecidos como “patriarcas”.
Cipriano
não admitiu que o bispo de Roma exercesse autoridade sobre ele, bispo
de Cartago. Insistiu que, entre bispos, deveria vigorar “completa
igualdade de funções e poder”.
Porém, Roma conseguiu se impor,
sobretudo a partir de sua aliança com o imperador germânico Carlos
Magno, em 800. Isso tensionou suas relações com os patriarcas do Oriente
e tornou inevitável o primeiro grande cisma da Igreja, ocorrido em 1052, que marca o início do que hoje se conhece por Igreja Católica (romana), de um lado, e Igreja Ortodoxa, de outro.
O
papado, herdeiro do legado imperial de Constantino, tornou-se uma
monarquia absoluta (ainda hoje), com poderes sobre reis e imperadores
(não mais). Essa estrutura piramidal de poder passou a não diferir de
todas as outras análogas na esfera civil, marcadas por intrigas,
traições, subornos, negociatas, nepotismo, utilizando uma linguagem
inacessível aos fiéis (o latim) e trocando a arte de convencer (e
converter) pela força da coerção (aterrorizar): culpa, inquisição,
inferno, medo, venda de indulgências etc.
Dizem que Stalin teria
perguntado de quantas divisões de exército dispunha o Papa. De fato,
Roma, por sua habilidade diplomática, saiu vitoriosa em inúmeros embates
com os principais poderes do Ocidente. Toynbee chegou a afirmar que a Igreja ficou afetada pela “embriaguez da vitória”.
Trancado
no Vaticano, o Papa passou a viver numa esfera irreal, refém de uma
cúria mais interessada no apego ao poder que na missão evangélica de
levar aos povos a palavra de Jesus.
A modernidade balançou os alicerces da Igreja.
A liberdade de consciência, o avanço das ciências, as novas
tecnologias, o pluralismo ideológico, tudo isso desmistificou o papado.
Pio IX, num gesto de desespero, chegou a promulgar o controvertido dogma
da infalibilidade papal, como se a História não registrasse tanta
falibilidade em Papas que aprovaram torturas, sentenças de morte,
assassinatos, simonia, adultério etc.
Leão XIII mudou a estratégia da Igreja
e aliou-a aos mais fortes, ao lado dos quais Bento XV comemorou o fim
da Primeira Guerra Mundial. Pio XI apoiou Mussolini, Hitler e Franco.
Pio XII se omitiu frente aos crimes de lesa-Humanidade do nazifascismo.
O
ciclo mereceu uma pausa com João XXIII e, de certo modo, com Paulo VI,
que condenou a Guerra do Vietnã e a ditadura militar brasileira. Mas
prosseguiu com o apoio de João Paulo II à ditadura Pinochet no Chile e à
política agressiva de Reagan contra a Nicarágua sandinista. Bento XVI
se omitiu frente aos recentes golpes de Estado em Honduras e Paraguai.
Ao
contrário da instituição do papado, a do episcopado merece aplausos,
sobretudo na América Latina entre 1960-1990, com bispos mártires
(Angelelli e Romero) e confessores (Hélder Câmara, Casaldáliga, Proaño,
Evaristo Arns, Padim, Mendez Arceo, Samuel Ruiz).
O Concílio
Vaticano II pretendeu valorizar os poderes dos bispos e reduzir o do
Papa. Hoornaert pergunta: “Pode a França subsistir sem rei; a
Inglaterra, sem rainha; a Rússia, sem czar; o Irã, sem aiatolá? A
própria História se encarrega de dar a resposta”, diz ele.
Cedo ou tarde, a Igreja
terá de democratizar sua estrutura de poder. Torná-la mais colegiada. O
que se discute não é a figura do Papa, é a estrutura do papado. Em suas
cartas escritas durante o Vaticano II, e hoje publicadas, dom Hélder
diz ter sonhado que o Papa enlouqueceu, jogou sua tiara no Rio Tibre e
ateou fogo no Vaticano.
Na opinião do ex-arcebispo de Olinda e
Recife, o Papa deveria doar o Vaticano à Unesco, como Patrimônio
Cultural da Humanidade, e passar a residir em lugar mais condizente com a
sua condição de sucessor de um pescador da Galileia e representante na
Terra daquele que não tinha uma pedra onde recostar a cabeça.
Frei Betto é escritor, autor de “Cartas da Prisão” (Agir), entre outros livros.
Mais importante que a estratégia ou o sistema tático é a falta de um craque no meio-campo
Apesar
de Ronaldinho brilhar no Atlético-MG, como no jogo contra o Strongest, e
Kaká ser reserva no Real Madrid, vejo Kaká com mais chances de atuar
bem e de ajudar, coletivamente, a seleção. Se fosse escolher pelo que
joga no clube, Zé Roberto, do Grêmio, mereceria ser titular do Brasil,
mesmo com 38 anos.
A atuação excepcional do meia Modric, também
reserva no Real Madrid, ao entrar no segundo tempo, após a absurda
expulsão de Nani, do Manchester United, mostra porque Kaká não é titular
da equipe espanhola. Os dois seriam destaques em quase todos os outros
times do mundo.
Antes das vitórias sobre Barcelona e Manchester
United, muitos diziam que a causa da má campanha do Real Madrid no
Espanhol eram as brigas entre o técnico Mourinho e os jogadores. Ninguém
mais fala nisso. Mourinho sempre adotou a tática do terrorismo, da
pressão e do confronto com os atletas. Infelizmente, pelo comportamento
infantil, a maioria dos jogadores, mais ainda no Brasil, desde que o
técnico seja brilhante, como é Mourinho, gosta de treinadores
autoritários, que punem e que, depois, premiam.
A Constituição governa quem governa. Governa de modo permanente quem governa de modo transitório
Comecemos
por uma afirmação óbvia: o Poder Executivo de qualquer das quatro
unidades da nossa federação tem um chefe. Estrutura-se ele, Poder
Executivo, sob a chefia ou autoridade máxima de um agente político.
Prefeito, governador, presidente da República, todos dirigem
superiormente uma dada Administração Pública e daí se postam aos olhos
do povo como a própria encarnação do governo. A face mais visível do
poder público. Estamos a falar, portanto, de um tipo de agente que é
popularmente eleito para ficar no topo de um dos poderes elementares do
Estado. Poder, esse, mais fisicamente próximo do conjunto da população,
por lhe competir implementar as políticas públicas mais cotidianamente
significativas dos interesses e valores juridicamente qualificados como
próprios dessa população mesma. Interesses e valores que mais de perto
viabilizam a sobrevivência, o equilíbrio e a evolução do conjunto da
sociedade, por conseguinte. Donde a instantânea identificação entre
chefe do Poder Executivo e o governo de toda pessoa estatal-federada:
União, Estados, Distrito Federal e municípios.
O
baseball é aquele esporte em que os jogadores passam mais tempo
ajustando o boné do que jogando. E o cricket consegue ser ainda mais
chato. Claro, esta é a opinião de um preconceituoso assumido, que
prefere a plasticidade e a ação contínua do futebol. E mesmo sendo jogos
aborrecidos, o baseball e o cricket têm histórias curiosas, num
contexto que tem menos a ver com esporte do que com política,
imperialismo e os paradoxos do colonialismo cultural.
Os dois
países americanos em que o baseball é mais popular, além dos Estados
Unidos, são Cuba e Venezuela. Fidel foi jogador de baseball, Chávez não
sei se jogou, mas era fã. Nos dois países mais anti-Estados Unidos da
região o esporte nacional é o mais típico dos esportes dos Estados
Unidos. É verdade que o gosto pelo baseball antecede os acidentes
históricos que deram no antagonismo de hoje. O baseball de Cuba teve
origem na ocupação do país pelos americanos no fim do século dezenove.
Sobreviveu ao fim da ocupação e, mais tarde, ao fim da influência
norte-americana, com a expulsão de Batista e a ascensão de Fidel. O
baseball cubano nunca ligou para a História. Na Venezuela não houve
ocupação norte-americana mas houve anos de intenso colonialismo cultural
numa elite e numa classe média voltadas para exemplos e hábitos
norte-americanos, parte da mentalidade desafiada pelo bolivarismo
chavista. Mas a popularidade do baseball permaneceu intocada. Bolívar,
presume-se, também seria fã.
O cricket e o futebol são –
simplificando – os esportes da aristocracia e do proletariado inglês.
Era de se esperar que em todo o “commonwealth” que restou do
imperialismo britânico o cricket fosse execrado como símbolo da presença
imperial e da prepotência do homem branco. Mas por toda a Ásia e a
Oceania, até em lugares em que o império nunca esteve, o cricket é
popular. Seus melhores jogadores são ídolos nacionais. Suas regras e
excentricidades, como partidas que duram uma tarde inteira com intervalo
para o chá, são as mesmas da ex-metrópole. E os times do ex-império
constantemente humilham times ingleses, e ninguém chama de vingança. Vá
entender.
Decidiram
fazer um churrasco para as famílias se conhecerem. Do lado da Bea havia
seu pai, sua mãe, um irmão mais moço e uma tia solteira. Do lado do
noivo, Carlos Alberto, mãe viúva, duas irmãs mais velhas, sendo uma com
uma namorada, e um irmão com a mulher e dois filhos menores. O churrasco
seria na casa da Bea, que tinha um pátio grande com churrasqueira, e o
Carlos Alberto se prontificou: seria o assador.
Acertaram a
logística do encontro. Os donos da casa forneceriam as saladas e a
cerveja, os visitantes trariam a carne, a sobremesa e os refrigerantes,
inclusive zeros para quem estivesse controlando a glicose. E o assador.
Tudo transcorreu bem. LEIA AQUI
No
futuro próximo, os recém-nascidos, ainda na maternidade, terão vários
chips implantados no cérebro e serão conectados antes de aprenderem a
falar, talvez numa rede social especializada
Esse negócio de
Google tirou a graça de muitas coisas. E dificultou a vida dos que
mourejam nas letras, obrigados por profissão e ganha-pão a escrever com
regularidade, fazendo o que podem para atrair o interesse de leitores e
mostrar serviço, pois bem sabem que a mão que afaga é a mesma que
apedreja e o quem-te-viu-quem-te-vê será o destino inglório daqueles que
dormirem no ponto. Antes do Google, o esforçado cronista recorria a
almanaques e enciclopédias e deles, laboriosamente, extraía novidades
para motivar ou adornar seu texto. Agora todo mundo pode fazer isso num
par de cliques. Além do mais, o cronista podia também exibir-se um
pouco, o que talvez trouxesse algum benefício ao combalido Narciso que
carrega n’alma, além de realçar-lhe a reputação. Somente alguns poucos,
entre os quais ele, tinha tal ou qual informação, ou lembrava certos
pormenores, em relação ao assunto comentado. O Google acabou com isso e
quem hoje em dia chegar ao extremo de escrever algo do tipo “você
sabia?” se arrisca a desmoralização instantânea.
Ghost writer eu conhecia, é claro. Mesmo porque já me
propuseram vestir lençol branco e arrastar correntes literárias,
bancando a primeira pessoa em lugar de uma terceira, menos disposta às
chatices da escrita. O que eu não conhecia é ghost book - até que me
aparecesse um. Não qualquer um: livro fantasma de "minha" autoria.
Falo sério: tempos atrás, soube na Estante Virtual que um sebo de
Belo Horizonte tinha à venda, por R$ 10, algo intitulado "O perfil no
jornalismo", de Humberto Werneck. O abantesma ficou um tempo ali, depois
sumiu - e eis que agora surge outro (ou será o mesmo?) em Simões Filho,
município grudado em Salvador, à disposição de quem vá ao site
Todaoferta e pague 25 reais. Um consolo saber que na Bahia me valorizei
150%.
Eu achava que Humberto Werneck era eu. Na verdade, é também eu. Só no
Facebook tem mais dois - e, sendo um deles Júnior, há de haver ou ter
havido um Sênior. No caso de "O perfil no jornalismo", cheguei a pensar
no homônimo de quem falei na crônica "O Céu pode esperar", sobre o dia
em que ouvi no rádio a notícia do falecimento de Humberto Werneck. Por
pouco não faleci também - no ato ou tempos depois, quando topei com
"meu" túmulo no Bonfim, em Belo Horizonte. Mas é pouco provável que o
ocupante da tumba 143 da quadra 49 tenha escrito livros. Como 2º
sargento da Polícia Militar de Minas, tinha mais o que fazer.
Vai ver então que sou xará de mim mesmo, cogitei - e estava certo: na
Estante Virtual, informava-se que a obra à venda consistia em material
utilizado em workshop, e workshops tenho feito por aí. Impossível saber
quem foi o malandro que pegou meus textos de trabalho, distribuídos numa
dessas ocasiões, e os vendeu no sebo. Imagino que tenha juntado as
folhas com espiral, para dar à coisa um ar de livro. E eu que me julgava
merecedor de encadernação menos vulgar. Ou será que acabei, ai de mim,
na brochura? Para sabê-lo, só se adquirir "O perfil no jornalismo", de
Humberto Werneck.
Comprar livro meu seria algo inédito na minha vida de autor.
Paciência, alguém teria de fazê-lo. Que meu gesto vos sirva de exemplo!
Como a transação seria feita na internet, eu não teria de passar pela
cruel experiência de me encontrar espremido numa estante, regurgitante
de ácaros e assolado pelos fungos. Já me aconteceu tantas vezes que
criei calo na alma. Estou até pensando em lançar meu próximo livro num
sebo, para queimar etapas. A vantagem, para o leitor, é não precisar
ler, pois nesse tipo de comércio o livro em princípio já vem lido.
A primeira vez no sebo um autor não esquece. Não há como não pensar
em rejeição, em não sentir-se como o bebê Moisés a boiar nas águas num
cestinho. Não, é pior do que isso, pois quem abandona um recém-nascido
não quer nada em troca, sejam 25 ou mesmo 10 reais.
Decidido: vou comprar. Pode vir a ser um bom investimento, se depois
de morto alguém jogar sobre mim esta pá de cal literária: "De tudo o que
publicou o finado, salva-se apenas 'O Perfil no jornalismo'". Mas será
que valho 25 reais, minha atual cotação em Simões Filho, Bahia?
Não é pergunta que um autor se faça. Algo mais valioso está em jogo.
Conta-se a história de um literato do terceiro ou quarto time que se
deparou num sebo com uma de suas obras-primas. Trêmulo, pescou o volume e
caiu em cima da dedicatória que fizera para um confrade, também do
terceiro ou quarto time, ao qual era ligado não só pela subliteratura
como por um recíproco rancor empapado de inveja - sentimento que entre
escribas muitas vezes toma a forma de sorrisos e amabilidades. O
desapreço pelo concorrente transparecia na espinhenta gelidez do
advérbio: "Para fulano de tal, atenciosamente..." Razão de sobra,
convenhamos, para que o destinatário tenha posto o presente à venda.
Ultrajado, o autor comprou o refugo e o despachou de volta para o
desafeto, "com renovadas atenções".
Será que o ex-proprietário de "O Perfil no jornalismo" deixou nome e endereço na folha de rosto dessa maçaroca?
O pranto de Marighella e as queixas de Dolores Duran
Lendo a biografia de Dolores Duran, escrita por Rodrigo Faour, revivi
toda a minha frustração por não ter podido encontrar essa cantora e
compositora excepcional quando de minha vinda para o Rio com Bethânia.
Dolores tinha morrido, aos 29 anos, cinco anos antes de eu chegar aqui
com minha irmã. Na noite do dia em que ela morreu, eu e Chico Motta, meu
melhor amigo de infância e adolescência (e irmão para sempre), fizemos
uma homenagem à sua memória: percorremos as ruas de Santo Amaro na
madrugada, em silêncio, tendo inclusive nos separado, cada um para sua
casa quando chegamos à esquina mais próxima das duas, sem dizer nem “té
manhã”. O fato é que estávamos profundamente comovidos com a notícia
sobre aquela mulher que tinha cantado “Não se avexe não” e escrito “Por
causa de você”.
Chico sabia que eu a tinha visto em carne e osso,
no auditório da Rádio Nacional, três anos antes. Mas quando isso se deu
eu tinha 13 anos: admirava a cantora e sentia simpatia extrema pela
pessoa, apenas já quase sabia que a amaria tanto. Seja como for, a
figura vital e engraçada que surge da pesquisa de Faour não me
surpreende: a “fossa” dos sambas-canções era uma exigência, por assim
dizer, natural; a letra de “Estrada do Sol” representava o mais radical
contraste com essa exigência; “Por causa de você” é exceção pioneira de
canção de amor otimista em português; o canto cômico dos baiões de Chico
Anysio e dos sambas de Billy Blanco — assim como a voz heterônima das
canções americanas que ela gravou — provinha de uma alma amante da vida.
Uma
cena me emocionou de forma única na narrativa (sempre em tom quase
exageradamente informal) de Faour: a presença de Dolores numa palestra
de Marighella em reunião organizada por Jorge Goulart e Nora Ney. Esse
casal — de quem tive a sorte de me fazer amigo nos anos que se seguiram à
explosão de Bethânia no cenário nacional, amizade que perdurou até
minha prisão e exílio em 1968/69 — era comunista e atuava no ambiente de
músicos e artistas como divulgadores e propagandistas do projeto do
socialismo mundial. Dolores era simpatizante da causa. Por essa razão (e
por seus dotes vocais e cênicos) foi convidada a unir-se ao grupo de
músicos brasileiros que iriam (inclusive por interesse do presidente JK)
se apresentar na União Soviética.
Imagino essa sala na Zona Sul
do Rio em que os dois mulatos coincidiram. Já contei aqui que Marighella
chorou copiosamente ao tomar conhecimento dos horrores do stalinismo,
mas, como se sabe, ele nunca abandonou o sonho comunista e terminou
morrendo por ele. Dolores (que, tal como ele, na época nem tinha sua
condição de mulata como informação que viesse pegada a seu nome) não era
ligada diretamente ao Partidão. Voltou da União Soviética indignada com
o que viu. E era a URSS de Kruschev. Um texto de Jorge Goulart defendeu
o mundo comunista das acusações de Dolores. E no depoimento que dá a
Faour critica branda mas maliciosamente Dolores: diz que ela reagiu mal à
experiência russa por preferir beber na embaixada americana a fazer os
passeios e visitas propostos pelos organizadores soviéticos. As
entrevistas de Dolores publicadas à época soam um tanto irresponsáveis. A
má vontade com o que viu pode confirmar algo daquilo que Goulart
insinua: que ela, identificada com o mundo decadente do Ocidente
capitalista, ouviu a versão corrente na embaixada dos Estados Unidos. A
acusação que vem velada na fala de Goulart, mas tem semelhança com o que
esquerdistas de então e de hoje dizem de críticos e dissidentes de
países socialistas. Segundo Faour, Paulo Moura (que também voltou da
Rússia antes do previsto) compartilhava do desconforto de Dolores.
Imagino
essa moça talentosa e boêmia, aos 27 anos, vendo a vida acinzentada do
socialismo do Leste europeu. Orgulho-me de que ela tenha sido desabrida
ao expor sua decepção na volta. Mas sempre vejo a complexidade de
situações como essa. Os membros do Conjunto Farroupilha dizem que
adoraram tudo na URSS e que Dolores estava fora de sintonia. Nora Ney
nunca mais foi sua amiga. O socialismo jamais desaparecerá do horizonte:
lutamos com o mundo pela justiça e pela grandeza. Mas o pranto de
Marighella e as queixas de Dolores continuam tendo muito a dizer.
Dolores, uma das maiores artistas que temos tido. Uma suburbana carioca
descendente de nordestinos semi-iletrados que exibiu de modo exuberante a
potência criativa deste país. Quando penso nesse conjunto de coisas, em
Dolores e Marighella na mesma sala, em Nora e Jorge versus Paulo Moura,
sinto o quanto o Brasil tem que fazer. Capto a energia de uma
reviravolta suave ou brusca mas imensa que devemos cobrar deste país.
Leia a seguir um trecho de Considerações Sobre o Método,
estudo de José Arthur Giannotti escrito para a nova edição de O Capital,
de Karl Marx, cujo primeiro de três volumes chega às livrarias dia 21
Três anos e 4 meses numa favela indiana renderam à
jornalista americana Katherine Boo um premiado livro, 'Em Busca de Um
Final Feliz', exemplo vigoroso do que pode a escrita de não ficção
comprometida com o outro
Nicolau II, da Rússia,
Jorge V, da Inglaterra, e Guilherme II, da Alemanha, que eram primos,
protagonizam 'Os Três Imperadores', de Miranda Carter; ela falou ao
‘Estado’ sobre seu trabalho
Em 'Lanterna Mágica', que
ganha nova edição no Brasil, com prefácio de Woody Allen, o diretor
sueco Ingmar Bergman revisita suas memórias - um relato com a mesma
beleza dura de seus filmes
Já contou quantas vezes desejou voltar ao passado em sonos perdidos, bebedeiras, ou sonos perdidos por causa de bebedeiras?
Para rever parentes, revisitar locais hoje degradados, sentir o
fedor de antigamente, saudades que se confundem com vontade de
reescrever a própria história, repensar em decisões, arrependimentos,
chance de vislumbrar como teria sido se aquilo ou aquele não
descarrilasse, dar mais importância a coisas que, por causa da
imaturidade e inexperiência, passaram batidas, e, quem sabe, refazer
histórias de amor que foram interrompidas porque não mandou aquela
carta, falou o que deveria ter guardado, se calou, telefonou na hora
errada, não insistiu quando desconfiavam da sua incerteza, passou do
limite, duvidou de quem era inocente, ouviu a razão, não o coração, ou o
contrário, fingiu não ver, ignorou sinais, não entendeu códigos,
mensagens, não acompanhou mudanças, alternâncias, não compactuou, não
emprestou o ombro, não parou para ouvir, não enxugou lágrimas, oscilou,
se omitiu, não assumiu, admitiu nem reprimiu, abraçou, nem escondeu
direito, presunçoso, pretensioso, precavido, não viu o que estava
desfocado.
Você voltaria mesmo ao passado?
Não tinham inventado Twitter, Face, Instagram. Redes sociais eram
redes compartilhadas em barcos que subiam o São Francisco e o Amazonas.
Esquece celular, GPS, código de barras, Google, ímã de geladeira,
post-it. Postar era enviar um cartão-postal com garranchos, resumido em
dois parágrafos à caneta a viagem para um amigo.
Seria bom rever cachos nas garotas, rugas nas coroas, acampar em
praias desertas e despoluídas, receber delivery na cozinha, não precisar
descer para pegar uma pizza. Mas como fotografar e postar a sobremesa,
marcar um evento com a rapaziada das antigas, conferir como a ex
engordou, e seu novo namorado não tem nada a ver com você, protestar
contra o presidente do Senado, a hidroelétrica, o massacre de índios,
checar a grafia correta da capital da Coreia do Norte e do seu líder
supremo?
Se hoje somos paparazzi de nós mesmos, como lidaríamos com a vida sem
exibição do nosso melhor perfil, panorama das nossas férias, e
narraríamos nossas preferências e indignações não para um, mas para
milhares?
Imagino que um sujeito de hoje se sentiria preso no anonimato de
ontem. E aflição pelo silêncio da sua voz, invisibilidade das suas
imagens e do registro da rotina. Sofreria por voltar à banalidade, ao
comum.
Até aos poucos voltar à paz da vida privada, depois de colocar a
Barsa herdada na ordem alfabética, ao lado do Guia de Ruas e Almanaque
Abril comprados na banca. Poderia então relaxar, escrever cartas, mandar
um romântico telegrama fonado pelo 135, marcar a hora de acordar pelo
serviço de despertador automático 134. Sem nenhuma pressa, tiraria a
poeira grudada no diamante da agulha do toca-discos e abriria um bom
livro, que cheiraria mofo e memória.
***
Voltar ao passado foi o plot de dois filmes, De Volta para o Futuro
(1985) e Peggy Sue – Seu Passado a Espera (1986), de dois cineastas da
mesma turma, Spielberg (como produtor) e Coppola, que abriram as gavetas
da reprimida nostalgia e revisitaram tempos de escola, para dar uma
pausa no pessimismo da Era Reagan, cuja doutrina, “a paz através da
força”, alimentou tensões na Guerra Fria, e na expansão e intolerância
do fundamentalismo religioso, desordem ambiental, avanço da cocaína e,
por fim, surgimento da aids como punição a uma geração acusada de
“desvairada”.
Eles homenagearam, entre outras coisas, o próprio cinema, já que as
salas se transformavam em pulgueiros para o exercício do onanismo, culpa
do novo satã, a televisão, retratada como o primeiro degrau do inferno
em Poltergeist – O Fenômeno, também produzido por Spielberg, e
Videodrome, de Cronenberg.
Peggy Sue (Kathleen Turner), de 43 anos, recém-separada, desmaia
durante a festinha de 1985 de confraternização da escola. Acorda em
1960, quando começava a namorar o futuro marido Charlie Bodell (Nicolas
Cage). De mão beijada, a oportunidade de remover o calo que sempre
atrapalhou a relação: a frustração dele por não ter virado estrela do
rock.
Peggy mata as saudades dos avós, transa com o poeta beat da escola,
sugere a um nerd o investimento em roupas de ginástica e convence o
namorado a desistir do estilo musical – quarteto vocal de soul –, cuja
invasão inglesa iminente iria golpear.
Em De Volta para o Futuro, que não sei por que não se chama De Volta
ao Presente, ou Volta ao Passado, você se lembra: Marty McFly (Michael
J. Fox), skatista que, em 1985, é amigo de Dr. Brown, cientista maluco,
volta ao passado numa máquina do tempo, um DMC-12 fabricado na Irlanda
do Norte pela DeLorean Motor Company e que ficou famoso por causa do
filme. Reencontra a mãe, Lorraine, em 1955, às vésperas do baile em que
ela beijou a vítima de bullying, George, o pai.
O problema é que, num dilema freudiano, o filho passa a ser objeto de
desejo da mãe, que o chama de Calvin por causa da marca Calvin Klein
bordada na sua cueca – num tempo em que as pessoas bordavam o nome nas
roupas, ou melhor, as avós das pessoas –, considerado o merchandising
mais bem bolado da época.
Algumas piadas ficaram eternizadas. Como quando Marty pede uma Pepsi
Diet, e o balconista diz que não é médico, então corrige e pede uma
Pepsi Free. “Você quer beber um refrigerante e não pagar?”. Ou quando
diz vir do tempo em que Ronald Reagan é presidente. “Jerry Lewis é o
vice?”, escuta.
McFly inventa o skate e o rock. Ele e Peggy Sue voltaram ao passado
acidentalmente. Aproveitaram para mexer pauzinhos e corrigir deslizes
amorosos que repercutiriam no futuro (presente). Tentaram reascender a
chama do amor que apagava.
Para os dois, ele não acaba por si. Acabamos com ele, induzidos por
elementos que contaminam a sua pureza. O marido de Peggy pôde viver sem o
trauma de ter o sonho juvenil frustrado. O pai de McFly deixou de ser
um “looser” por ter reagido ao bullying no passado. E sua mãe continuou
magra. Não encontrou no copo de uísque o ouvido que faltara.
***
Rolou uma controvérsia sobre a data do futuro que Dr. Brown visitou
no final do filme, que sugere o nome De Volta para o Futuro. Ele viaja
para 21 de outubro de 2015 e volta. Ao invés do plutônio, o combustível
do DeLorean passou a ser lixo orgânico. Aparece daqui a dois anos.
Atravessará a barreira do tempo graças ao, quem diria, biocombustível.
Vai bombar no Twitter.
A
verdade não é uma bastarda pagã. Ela é filha da natureza com as
circunstâncias, e afilhada de nossos interesses e opiniões. Nenhuma
imagem, por mais concreta que seja, terá sempre o mesmo significado em
diferentes circunstâncias.
Presente do governo francês ao povo
americano, a Estátua da Liberdade, na entrada do porto de Nova York, é
um belo e nobre símbolo de princípio consagrado pela cultura ocidental.
Mas idêntica Estátua da Liberdade, diante de shopping na Barra da
Tijuca, é apenas ridícula manifestação de mimetismo e arrogância
sub-culturais, que nos quer fazer crer que ali estamos em Nova York.
Na
história política do continente, Simon Bolívar foi tratado como
aventureiro oportunista pelo insuspeito Karl Marx. E, no entanto, por
seus feitos nas guerras pela independência da América hispânica,
tornou-se símbolo do anti-imperialismo contemporâneo e pai da pátria
venezuelana, assim consagrado por Hugo Chávez.
Assim também, o
próprio Hugo Chávez não pode ser tratado como mero e tradicional
caudilho populista, imagem que nos vem à mente quando lembramos de seus
gestos demagógicos, de sua carnavalização do poder e sobretudo de seus
atos autoritários (embora confirmados pelo voto popular).
Quando
Chávez vai a Cuba e elogia os Castro, não está abraçando uma ditadura
hereditária que não implantou em seu país. Ele sabe que Cuba não tem
mais nenhuma importância no jogo de poder internacional, mas precisa
saudar o velho símbolo do anti-americanismo, ficar do lado que provoca a
fúria do lado de lá. O ódio às vezes pode ser uma moeda de troca nos
negócios internacionais.
O regime chavista manteve no país uma
inflação alta, quase dobrou o valor da dívida pública, criou condições
para o aumento da violência urbana, pôs a Venezuela na dependência
exclusiva do petróleo, tentou controlar a imprensa. Mas também quase
triplicou seu PIB per capita, diminuiu a pobreza extrema de 20 para 7%
da população, baixou a taxa de desemprego pela metade, não fez nenhum
preso político. E não se tem notícia de corrupção, roubalheiras
praticadas pelo líder do regime.
Nenhum caudilho populista,
apenas inescrupuloso ou demente, se interessaria tanto por seu povo,
sobretudo pelos mais pobres. Nem seria tão amado por ele, do jeito que
Chávez foi.
No fundo, Hugo Chávez foi uma caricatura do que
poderia ser a reação às evidentes frustrações causadas pela democracia
representativa em nossos países, com seus Congressos de espertos e
insensíveis legisladores, quase sempre corruptos, desinteressados da
população. Em quase toda a América Latina, os Executivos nacionais têm
merecido muito mais respeito do que seus Legislativos. E portanto mais
poder.
Farto de tanta teoria sobre seu trabalho, Pablo Picasso
disse um dia que "todo mundo fala em ‘compreender a pintura’, mas
ninguém fala em ‘compreender o canto dos pássaros’". Foi a observação
dos homens que fez o canto dos pássaros ser belo. Talvez tenhamos que
desvencilhar a política de todas essas teorias ideológicas, para
apreciar o que de verdade está por trás dela, em benefício da população.
*****
Há
dez anos os cineastas brasileiros lutam pela criação do Vale Cultura,
mecanismo público em que o trabalhador de carteira ganha o direito de
gastar, sem custo para ele, 50 reais mensais em consumo cultural, indo
ao cinema, ao teatro, à livraria, aos concertos que bem entender. O
centro das políticas públicas para o setor passaria a ser o interesse do
consumidor e não mais, como sempre foi, o do produtor.
Com a
notícia de que a ministra Martha Suplicy está incluindo, nesse consumo
incentivado, o direito de uso do Vale Cultura para a assinatura de
televisão paga, nossos esforços de dez anos foram frustrados. Mais uma
vez, acordamos de um sonho para a dura realidade em que os mais
poderosos acabam sempre levando tudo, mesmo que não precisem de nada.
Em
pouco tempo, a televisão paga no Brasil passou de 8 para as atuais 20
milhões de assinaturas. E só tende a crescer, como signo de mobilidade
social e ascensão de classe. Um crescimento que, por enquanto, só
favorece a produção audiovisual estrangeira, a maioria absoluta de sua
programação.
No mundo inteiro, a televisão compensa seu poder
tecnológico na oferta de consumo cultural sendo a principal fonte de
financiamento de filmes. Isso acontece dos Estados Unidos à Ásia
(incluindo a China), da Europa a grande parte da América Latina (como
Chile e Argentina). Sendo o primeiro país do mundo em que o cinema vai
ajudar a financiar a televisão, o Brasil será certamente objeto de
gargalhadas nos próximos encontros internacionais do audiovisual.
Conhecendo
o passado político de Martha Suplicy, temos esperança de que essa
notícia seja um boato e que o Vale Cultura vá beneficiar apenas os
produtores brasileiros de cinema, teatro, música, literatura, etc. Os
que de fato precisam dele.
As cenas de histeria e
culto à personalidade, de idolatria e fanatismo provocadas pela morte de
Hugo Chávez lembram sentimentos experimentados aqui por ocasião do
suicídio de Getúlio Vargas em 1954: o mesmo espanto e o mesmo medo de
uma multidão enfurecida pela dor da perda do timoneiro e capaz de
explodir numa convulsão social a qualquer momento e por qualquer coisa.
As personalidades e o momento histórico são distintos, claro, mas há
qualquer coisa em comum nessas duas figuras, que pertencem à fauna dos
que na história mundial se especializaram em manipular a vontade de seus
comandados - os "déspotas esclarecidos". Os dois tiveram como inimigos o
"imperialismo americano", mas a forma de enfrentá-lo foi oposta. Hábil,
Getúlio negociou e tirou vantagens do antagonismo, como fez para entrar
na II Guerra ao lado dos Aliados. Já Chávez, impulsivo, preferiu o
confronto, aliando-se a países como Irã, Síria, Líbia, Coreia do Norte,
ou seja, o que Bush chamou de "Eixo do Mal".
A inspiração brasileira
de Chávez, porém, não foi Getúlio, mas Lula, que teria funcionado como
bombeiro para debelar as chamas do explosivo líder venezuelano. Segundo
contou em uma entrevista, nove meses depois de deixar a prisão em 1994,
por causa de uma tentativa de golpe, ele visitou Fidel Castro, que o
aconselhou: "Se você quer fazer política, siga Lula. Esse é o homem" (ou
"o cara", como diria mais tarde Barack Obama). Dois anos depois, Chávez
encontrou-se pela primeira vez com o ainda não presidente do Brasil e
não precisou de muito tempo para concluir: "Fidel tinha razão. Lula era o
homem."
Não sei se ainda não é
cedo para avaliar o quanto Hugo Chávez fez de mal e de bem à Venezuela
e, principalmente, ao povo venezuelano. Uma parte de mim sempre rejeitou
seus métodos salvacionistas, seu sebastianismo, sua vocação
autoritária, seu apego ao poder, seu desprezo pela liberdade de
expressão. A outra parte se sente desafiada a entender o fenômeno, que
não se explica apenas pelo carisma do personagem. O sucesso responde
também a uma necessidade ou anseio coletivo. Por isso é que, em meio às
tentativas de explicação, a do ex-ministro Rubens Ricupero, sem
maniqueísmo, talvez seja a mais esclarecedora. "Hugo Chávez", ele
escreveu, "foi um dos primeiros a intuir que as periferias da América
Latina não se sentiam representadas pelos partidos tradicionais". Sem
entrar no mérito da representação, a hipótese pode ser usada também para
ajudar a explicar a popularidade de seu mestre Lula junto às classes
menos favorecidas.
NOVA YORK - No começo da carreira de jornalista, depois de ter servido
no Vietnã, o jovem Tracy Kidder recebeu a seguinte ordem do editor
Richard Todd, na redação da veneranda revista Atlantic Monthly:
"Você está proibido de ler John McPhee". Aos 68 anos, Kidder, um dos
mais admirados representantes do gênero imprecisamente chamado de
jornalismo literário, solta uma gargalhada quando se lembra do pito que
levou. Ele atende o Estado em sua casa numa pequena cidade do Oeste de Massachusetts para falar do livro Good Prose, The Art of Nonfiction (Boa
Prosa, A Arte da Não Ficção), que acaba de lançar em coautoria com seu
antigo editor. Todd não tinha nada contra o grande escritor John McPhee,
um dos pioneiros da não ficção criativa. Mas a paixão do seu protegido
por McPhee estava contaminando seus textos. "Imitar é bom quando, no
começo, você está tentando descobrir a própria voz", diz Kidder. "Mas a
melhor maneira de encarar o temor da influência é ler livros que você
realmente aprecia."
Três anos e 4 meses numa favela indiana renderam à jornalista
americana Katherine Boo um premiado livro, 'Em Busca de Um Final Feliz',
exemplo vigoroso do que pode a escrita de não ficção comprometida com o
outro
Terça-feira fez 60 anos que uma hemorragia cerebral matou Sergei
Prokofiev. Imagine a comoção popular provocada pela morte do grande
compositor russo. Imagine a repercussão na imprensa local e o
congestionamento de repórteres na Praça Vermelha, perto da qual
Prokofiev passou seus últimos anos de vida. E fique imaginando, porque
nada disso, à exceção da morte do compositor, aconteceu no dia 5 de
março de 1953.
De fato houve em Moscou, naquele dia, muita agitação popular e
jornalística em torno de um morto, só que o defunto não se chamava
Sergei, mas Josef, nem compunha música, era um ditador, o soba de todas
as Rússias. Quis o pérfido destino que Prokofiev entregasse a batuta
justo no dia em que Stalin finalmente bateu as botas. A coincidência foi
a última humilhação imposta pelo líder soviético ao compositor que
tanto perseguira, chantageara e penalizara desde o final da década de
1930.
O
que são essas viroses contemporâneas que, de tão banais, trazem em seu
bojo toda a melancolia do tempo vivente e toda a carga da Grécia antiga?
Meu pescoço dói e inalo a mistura de salicilato de
metila, cânfora, mentol e essência de terebintina que me levam a ouvir
os sinos de outrora em ásperas e venenosas atualizações. Carnaval
chinês. Rock episcopal. O mal. O remédio não vem em software. Não há
posição confortável para a cabeça que repousa sobre travesseiros que um
dia foram de penas de ganso e, hoje, não passam de foles sem vento e sem
música. Esse é o meu leito. Vida e morte.
A Polônia pulsa nas ‘Mazurcas’ de Chopin e no ‘Príncipe Roman’ de Joseph Conrad
Minha amiga Rachel Gutierrez me deu de presente as
“Mazurcas” de Chopin tocadas por Antonio Guedes Barbosa. É uma gravação
do selo Kuarup. Rachel, escritora e musicista que eu vim a conhecer
graças a esta coluna, que ela acompanha à distância com comentários
infalíveis, sabe que eu estou escrevendo um longo ensaio sobre Chopin e
me municiou com vários toques sobre o assunto, sendo este o mais
precioso e surpreendente. A interpretação do pianista paraibano, morto
prematuramente em 1993, está com certeza ente as melhores que já foram
feitas, em qualquer lugar do mundo, dessas peças vivazes e profundas,
enigmáticas, inspiradas livremente na memória das danças populares
polonesas da região que circunda Varsóvia.
A
escuta me animou a levar adiante umas ideias que eu venho associando faz
tempo. Há muitos anos um amigo me mandou um conto de Conrad chamado
“Príncipe Roman”. Conrad, como sabemos, chamava-se Jan Korzeniowski,
polonês de nascimento que saiu pelo mundo como marinheiro e que se
tornou um dos maiores escritores em língua inglesa. “Principe Roman” é a
história de um aristocrata polonês que rompe com o compromisso de sua
classe e de sua família com o Czar, durante o longo período em que a
Polônia ficou sob o domínio da Rússia, da Prússia e da Áustria, e que
adere à luta antirrussa durante o fracassado levante de 1831 (o mesmo
ano em que Chopin partia definitivamente da Polônia em direção a Paris).
Ao se engajar como voluntário nas fileiras do exército resistente,
esconde a sua condição de nobre, recusando os privilégios que pudessem
resultar disso. Mais ainda, assume a identidade do camponês que o
acompanhava como servo, quando este morre em combate, fazendo-se passar
por ele até o fim da guerra, que o leva como prisioneiro para a Sibéria
durante anos.
Fiquei convencido de que a história
do príncipe camponês era uma fábula representativa da mitologia
polonesa, mesmo que Conrad a tivesse extraído de acontecimentos contados
por seu avô como verídicos. Imagino que num país de forte tradição
feudal e camponesa, riscado do mapa durante todo o século XIX, a
burguesia nacional não teve papel relevante a representar no imaginário
nacional, ao contrário dessa conjunção de nobre e camponês lutando
contra o dominador estrangeiro. Ano passado, vasculhando uma livraria no
bairro polaco de Chicago, topei com uma biografia do herói nacional
Tadeuz Kosciuszko, que liderou por sua vez o fracassado levante
antirrusso de 1794. O livro se chama “The peasant prince”, o príncipe
camponês, e como nada indica que seu autor tenha pensado no conto de
Conrad quando escreveu o livro, este vinha como mais um indício
confirmador da insistência do mito. Curiosamente, Kosciuszko participara
também como voluntário, em 1776, das lutas pela independência
norte-americana, nas quais fez-se reconhecer pelo mérito, em curiosa
analogia com o personagem de Conrad, do qual talvez seja uma espécie de
modelo. É sabido que Kosciuszko deixou a Thomas Jefferson um
considerável legado em dinheiro, a que tinha direito, para libertar e
educar escravos negros norte-americanos.
A aura do
nobre camponês acompanha as refinadas e cintilantes “Mazurcas” de
Chopin. Nietszche fala, a propósito dele, de uma “liberdade principesca”
que consiste em dançar entre as cadeias da convenção como só o pode “o
espírito mais livre e mais gracioso”. A definição combina com outra, a
do aristocrata estetizado (aristocrata democrata “que alcança a nobreza
por um processo de autoeducação”) capaz de deslizar “sobre o chão em que
nós afundamos” graças a uma leveza conquistada e livre de esforço
visível. É como Lorenzo Mammì fala de Fred Astaire, sem deixar de
mencionar Chopin. E é essa fluida liberdade dançante toda feita de
gestos sonoros da memória camponesa que nós ouvimos de maneira rara nas
“Mazurcas” tocadas por Antonio Guedes Barbosa.
Enquanto
isso, acaba de ser lançada a “Poesia toda” de Paulo Leminski,
acontecimento auspicioso. No seu livro “Polonaises”, incorporado a essa
poesia completa, ele traduzia um poema-fragmento de Adam Mickiewicz,
contemporâneo de Chopin, que podemos ler no espírito das mazurcas ou dos
prelúdios chopinianos: “Choveram-me lágrimas limpas, ininterruptas,/ Na
minha infância campestre, celeste,/ Na mocidade de alturas e loucuras,/
Na minha idade adulta, idade de desdita;/ Choveram-me lágrimas limpas,
ininterruptas...”.
Limpidez cintilante é o que eu
ouvi ontem no show de Jussara Silveira no Sesc Anchieta, aqui em São
Paulo, mazurca-fogo de canções brasileiras, angolanas e portuguesas,
presentes respectivamente nos seus mais recentes CDs, o maravilhoso “Ame
ou se mande”, “Flor bailarina” e “Água lusa”, este último a sair em
breve.
Tchaikovsky pôs ali todo o seu talento melódico, sugerindo que nossa vida é ao mesmo tempo triste e ridícula
Tenho uma certa dificuldade com óperas, confesso. A melodia é tão
importante para mim que, quando ela se esconde ou quase some atrás da
fala, lá se vai o meu barato. Tenho dificuldades parecidas com o rap e —
por favor, não cuspa em mim na rua — com Leonard Cohen cantando, quer
dizer, declamando Leonard Cohen. Em vozes alheias, as músicas do poeta
canadense podem ser gloriosas. Na própria, monocórdia, nunca me
entusiasmaram. Não ajudam, claro, os vocais de apoio e arranjos cafonas.