sábado, 9 de março de 2013

SABÁTICO

CRÍTICA A UM MODO DE PRODUZIR RIQUEZA

Leia a seguir um trecho de Considerações Sobre o Método, estudo de José Arthur Giannotti escrito para a nova edição de O Capital, de Karl Marx, cujo primeiro de três volumes chega às livrarias dia 21

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De corpo presente, mas sem ser o foco

Três anos e 4 meses numa favela indiana renderam à jornalista americana Katherine Boo um premiado livro, 'Em Busca de Um Final Feliz', exemplo vigoroso do que pode a escrita de não ficção comprometida com o outro

 

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O difícil desafio da primeira frase

Algumas lições de 'Good Prose: The Art of Nonfiction'

 

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Pioneiro, Euclides é marco

Autor de 'Os Sertões' é tido como referência de um gênero que volta a crescer no País

 

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Retrato de uma saga familiar infeliz

Nicolau II, da Rússia, Jorge V, da Inglaterra, e Guilherme II, da Alemanha, que eram primos, protagonizam 'Os Três Imperadores', de Miranda Carter; ela falou ao ‘Estado’ sobre seu trabalho

 

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O FIM DA BELLE ÉPOQUE

 ELIAS THOMÉ SALIBA É HISTORIADOR, PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

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Paisagem projetada sobre o destino

Em 'Lanterna Mágica', que ganha nova edição no Brasil, com prefácio de Woody Allen, o diretor sueco Ingmar Bergman revisita suas memórias - um relato com a mesma beleza dura de seus filmes

 

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Paparazzi de nós mesmos - Marcelo Rubens Paiva

 Estado de S.Paulo - 09/03/2013

Já contou quantas vezes desejou voltar ao passado em sonos perdidos, bebedeiras, ou sonos perdidos por causa de bebedeiras? 

Para rever parentes, revisitar locais hoje degradados, sentir o fedor de antigamente, saudades que se confundem com vontade de reescrever a própria história, repensar em decisões, arrependimentos, chance de vislumbrar como teria sido se aquilo ou aquele não descarrilasse, dar mais importância a coisas que, por causa da imaturidade e inexperiência, passaram batidas, e, quem sabe, refazer histórias de amor que foram interrompidas porque não mandou aquela carta, falou o que deveria ter guardado, se calou, telefonou na hora errada, não insistiu quando desconfiavam da sua incerteza, passou do limite, duvidou de quem era inocente, ouviu a razão, não o coração, ou o contrário, fingiu não ver, ignorou sinais, não entendeu códigos, mensagens, não acompanhou mudanças, alternâncias, não compactuou, não emprestou o ombro, não parou para ouvir, não enxugou lágrimas, oscilou, se omitiu, não assumiu, admitiu nem reprimiu, abraçou, nem escondeu direito, presunçoso, pretensioso, precavido, não viu o que estava desfocado.

Você voltaria mesmo ao passado?

Não tinham inventado Twitter, Face, Instagram. Redes sociais eram redes compartilhadas em barcos que subiam o São Francisco e o Amazonas. Esquece celular, GPS, código de barras, Google, ímã de geladeira, post-it. Postar era enviar um cartão-postal com garranchos, resumido em dois parágrafos à caneta a viagem para um amigo.

Seria bom rever cachos nas garotas, rugas nas coroas, acampar em praias desertas e despoluídas, receber delivery na cozinha, não precisar descer para pegar uma pizza. Mas como fotografar e postar a sobremesa, marcar um evento com a rapaziada das antigas, conferir como a ex engordou, e seu novo namorado não tem nada a ver com você, protestar contra o presidente do Senado, a hidroelétrica, o massacre de índios, checar a grafia correta da capital da Coreia do Norte e do seu líder supremo?
Se hoje somos paparazzi de nós mesmos, como lidaríamos com a vida sem exibição do nosso melhor perfil, panorama das nossas férias, e narraríamos nossas preferências e indignações não para um, mas para milhares?

Imagino que um sujeito de hoje se sentiria preso no anonimato de ontem. E aflição pelo silêncio da sua voz, invisibilidade das suas imagens e do registro da rotina. Sofreria por voltar à banalidade, ao comum.

Até aos poucos voltar à paz da vida privada, depois de colocar a Barsa herdada na ordem alfabética, ao lado do Guia de Ruas e Almanaque Abril comprados na banca. Poderia então relaxar, escrever cartas, mandar um romântico telegrama fonado pelo 135, marcar a hora de acordar pelo serviço de despertador automático 134. Sem nenhuma pressa, tiraria a poeira grudada no diamante da agulha do toca-discos e abriria um bom livro, que cheiraria mofo e memória.

***
Voltar ao passado foi o plot de dois filmes, De Volta para o Futuro (1985) e Peggy Sue – Seu Passado a Espera (1986), de dois cineastas da mesma turma, Spielberg (como produtor) e Coppola, que abriram as gavetas da reprimida nostalgia e revisitaram tempos de escola, para dar uma pausa no pessimismo da Era Reagan, cuja doutrina, “a paz através da força”, alimentou tensões na Guerra Fria, e na expansão e intolerância do fundamentalismo religioso, desordem ambiental, avanço da cocaína e, por fim, surgimento da aids como punição a uma geração acusada de “desvairada”.

Eles homenagearam, entre outras coisas, o próprio cinema, já que as salas se transformavam em pulgueiros para o exercício do onanismo, culpa do novo satã, a televisão, retratada como o primeiro degrau do inferno em Poltergeist – O Fenômeno, também produzido por Spielberg, e Videodrome, de Cronenberg.

Peggy Sue (Kathleen Turner), de 43 anos, recém-separada, desmaia durante a festinha de 1985 de confraternização da escola. Acorda em 1960, quando começava a namorar o futuro marido Charlie Bodell (Nicolas Cage). De mão beijada, a oportunidade de remover o calo que sempre atrapalhou a relação: a frustração dele por não ter virado estrela do rock.

Peggy mata as saudades dos avós, transa com o poeta beat da escola, sugere a um nerd o investimento em roupas de ginástica e convence o namorado a desistir do estilo musical – quarteto vocal de soul –, cuja invasão inglesa iminente iria golpear.

Em De Volta para o Futuro, que não sei por que não se chama De Volta ao Presente, ou Volta ao Passado, você se lembra: Marty McFly (Michael J. Fox), skatista que, em 1985, é amigo de Dr. Brown, cientista maluco, volta ao passado numa máquina do tempo, um DMC-12 fabricado na Irlanda do Norte pela DeLorean Motor Company e que ficou famoso por causa do filme. Reencontra a mãe, Lorraine, em 1955, às vésperas do baile em que ela beijou a vítima de bullying, George, o pai.
O problema é que, num dilema freudiano, o filho passa a ser objeto de desejo da mãe, que o chama de Calvin por causa da marca Calvin Klein bordada na sua cueca – num tempo em que as pessoas bordavam o nome nas roupas, ou melhor, as avós das pessoas –, considerado o merchandising mais bem bolado da época.

Algumas piadas ficaram eternizadas. Como quando Marty pede uma Pepsi Diet, e o balconista diz que não é médico, então corrige e pede uma Pepsi Free. “Você quer beber um refrigerante e não pagar?”. Ou quando diz vir do tempo em que Ronald Reagan é presidente. “Jerry Lewis é o vice?”, escuta.
McFly inventa o skate e o rock. Ele e Peggy Sue voltaram ao passado acidentalmente. Aproveitaram para mexer pauzinhos e corrigir deslizes amorosos que repercutiriam no futuro (presente). Tentaram reascender a chama do amor que apagava.

Para os dois, ele não acaba por si. Acabamos com ele, induzidos por elementos que contaminam a sua pureza. O marido de Peggy pôde viver sem o trauma de ter o sonho juvenil frustrado. O pai de McFly deixou de ser um “looser” por ter reagido ao bullying no passado. E sua mãe continuou magra. Não encontrou no copo de uísque o ouvido que faltara.

***
Rolou uma controvérsia sobre a data do futuro que Dr. Brown visitou no final do filme, que sugere o nome De Volta para o Futuro. Ele viaja para 21 de outubro de 2015 e volta. Ao invés do plutônio, o combustível do DeLorean passou a ser lixo orgânico. Aparece daqui a dois anos. Atravessará a barreira do tempo graças ao, quem diria, biocombustível. Vai bombar no Twitter.

O canto dos pássaros - CACÁ DIEGUES

O GLOBO -  09/03/2013

A verdade não é uma bastarda pagã. Ela é filha da natureza com as circunstâncias, e afilhada de nossos interesses e opiniões. Nenhuma imagem, por mais concreta que seja, terá sempre o mesmo significado em diferentes circunstâncias.

Presente do governo francês ao povo americano, a Estátua da Liberdade, na entrada do porto de Nova York, é um belo e nobre símbolo de princípio consagrado pela cultura ocidental. Mas idêntica Estátua da Liberdade, diante de shopping na Barra da Tijuca, é apenas ridícula manifestação de mimetismo e arrogância sub-culturais, que nos quer fazer crer que ali estamos em Nova York.

Na história política do continente, Simon Bolívar foi tratado como aventureiro oportunista pelo insuspeito Karl Marx. E, no entanto, por seus feitos nas guerras pela independência da América hispânica, tornou-se símbolo do anti-imperialismo contemporâneo e pai da pátria venezuelana, assim consagrado por Hugo Chávez.

Assim também, o próprio Hugo Chávez não pode ser tratado como mero e tradicional caudilho populista, imagem que nos vem à mente quando lembramos de seus gestos demagógicos, de sua carnavalização do poder e sobretudo de seus atos autoritários (embora confirmados pelo voto popular).

Quando Chávez vai a Cuba e elogia os Castro, não está abraçando uma ditadura hereditária que não implantou em seu país. Ele sabe que Cuba não tem mais nenhuma importância no jogo de poder internacional, mas precisa saudar o velho símbolo do anti-americanismo, ficar do lado que provoca a fúria do lado de lá. O ódio às vezes pode ser uma moeda de troca nos negócios internacionais.

O regime chavista manteve no país uma inflação alta, quase dobrou o valor da dívida pública, criou condições para o aumento da violência urbana, pôs a Venezuela na dependência exclusiva do petróleo, tentou controlar a imprensa. Mas também quase triplicou seu PIB per capita, diminuiu a pobreza extrema de 20 para 7% da população, baixou a taxa de desemprego pela metade, não fez nenhum preso político. E não se tem notícia de corrupção, roubalheiras praticadas pelo líder do regime.

Nenhum caudilho populista, apenas inescrupuloso ou demente, se interessaria tanto por seu povo, sobretudo pelos mais pobres. Nem seria tão amado por ele, do jeito que Chávez foi.

No fundo, Hugo Chávez foi uma caricatura do que poderia ser a reação às evidentes frustrações causadas pela democracia representativa em nossos países, com seus Congressos de espertos e insensíveis legisladores, quase sempre corruptos, desinteressados da população. Em quase toda a América Latina, os Executivos nacionais têm merecido muito mais respeito do que seus Legislativos. E portanto mais poder.

Farto de tanta teoria sobre seu trabalho, Pablo Picasso disse um dia que "todo mundo fala em ‘compreender a pintura’, mas ninguém fala em ‘compreender o canto dos pássaros’". Foi a observação dos homens que fez o canto dos pássaros ser belo. Talvez tenhamos que desvencilhar a política de todas essas teorias ideológicas, para apreciar o que de verdade está por trás dela, em benefício da população.

*****

Há dez anos os cineastas brasileiros lutam pela criação do Vale Cultura, mecanismo público em que o trabalhador de carteira ganha o direito de gastar, sem custo para ele, 50 reais mensais em consumo cultural, indo ao cinema, ao teatro, à livraria, aos concertos que bem entender. O centro das políticas públicas para o setor passaria a ser o interesse do consumidor e não mais, como sempre foi, o do produtor.

Com a notícia de que a ministra Martha Suplicy está incluindo, nesse consumo incentivado, o direito de uso do Vale Cultura para a assinatura de televisão paga, nossos esforços de dez anos foram frustrados. Mais uma vez, acordamos de um sonho para a dura realidade em que os mais poderosos acabam sempre levando tudo, mesmo que não precisem de nada.

Em pouco tempo, a televisão paga no Brasil passou de 8 para as atuais 20 milhões de assinaturas. E só tende a crescer, como signo de mobilidade social e ascensão de classe. Um crescimento que, por enquanto, só favorece a produção audiovisual estrangeira, a maioria absoluta de sua programação.

No mundo inteiro, a televisão compensa seu poder tecnológico na oferta de consumo cultural sendo a principal fonte de financiamento de filmes. Isso acontece dos Estados Unidos à Ásia (incluindo a China), da Europa a grande parte da América Latina (como Chile e Argentina). Sendo o primeiro país do mundo em que o cinema vai ajudar a financiar a televisão, o Brasil será certamente objeto de gargalhadas nos próximos encontros internacionais do audiovisual.

Conhecendo o passado político de Martha Suplicy, temos esperança de que essa notícia seja um boato e que o Vale Cultura vá beneficiar apenas os produtores brasileiros de cinema, teatro, música, literatura, etc. Os que de fato precisam dele.

Chávez e as lições de Lula - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 09/03/2013

As cenas de histeria e culto à personalidade, de idolatria e fanatismo provocadas pela morte de Hugo Chávez lembram sentimentos experimentados aqui por ocasião do suicídio de Getúlio Vargas em 1954: o mesmo espanto e o mesmo medo de uma multidão enfurecida pela dor da perda do timoneiro e capaz de explodir numa convulsão social a qualquer momento e por qualquer coisa. As personalidades e o momento histórico são distintos, claro, mas há qualquer coisa em comum nessas duas figuras, que pertencem à fauna dos que na história mundial se especializaram em manipular a vontade de seus comandados - os "déspotas esclarecidos". Os dois tiveram como inimigos o "imperialismo americano", mas a forma de enfrentá-lo foi oposta. Hábil, Getúlio negociou e tirou vantagens do antagonismo, como fez para entrar na II Guerra ao lado dos Aliados. Já Chávez, impulsivo, preferiu o confronto, aliando-se a países como Irã, Síria, Líbia, Coreia do Norte, ou seja, o que Bush chamou de "Eixo do Mal".

A inspiração brasileira de Chávez, porém, não foi Getúlio, mas Lula, que teria funcionado como bombeiro para debelar as chamas do explosivo líder venezuelano. Segundo contou em uma entrevista, nove meses depois de deixar a prisão em 1994, por causa de uma tentativa de golpe, ele visitou Fidel Castro, que o aconselhou: "Se você quer fazer política, siga Lula. Esse é o homem" (ou "o cara", como diria mais tarde Barack Obama). Dois anos depois, Chávez encontrou-se pela primeira vez com o ainda não presidente do Brasil e não precisou de muito tempo para concluir: "Fidel tinha razão. Lula era o homem."

Não sei se ainda não é cedo para avaliar o quanto Hugo Chávez fez de mal e de bem à Venezuela e, principalmente, ao povo venezuelano. Uma parte de mim sempre rejeitou seus métodos salvacionistas, seu sebastianismo, sua vocação autoritária, seu apego ao poder, seu desprezo pela liberdade de expressão. A outra parte se sente desafiada a entender o fenômeno, que não se explica apenas pelo carisma do personagem. O sucesso responde também a uma necessidade ou anseio coletivo. Por isso é que, em meio às tentativas de explicação, a do ex-ministro Rubens Ricupero, sem maniqueísmo, talvez seja a mais esclarecedora. "Hugo Chávez", ele escreveu, "foi um dos primeiros a intuir que as periferias da América Latina não se sentiam representadas pelos partidos tradicionais". Sem entrar no mérito da representação, a hipótese pode ser usada também para ajudar a explicar a popularidade de seu mestre Lula junto às classes menos favorecidas.

Apenas os fatos; se possível, a verdade - Lúcia Guimarães

NOVA YORK - No começo da carreira de jornalista, depois de ter servido no Vietnã, o jovem Tracy Kidder recebeu a seguinte ordem do editor Richard Todd, na redação da veneranda revista Atlantic Monthly: "Você está proibido de ler John McPhee". Aos 68 anos, Kidder, um dos mais admirados representantes do gênero imprecisamente chamado de jornalismo literário, solta uma gargalhada quando se lembra do pito que levou. Ele atende o Estado em sua casa numa pequena cidade do Oeste de Massachusetts para falar do livro Good Prose, The Art of Nonfiction (Boa Prosa, A Arte da Não Ficção), que acaba de lançar em coautoria com seu antigo editor. Todd não tinha nada contra o grande escritor John McPhee, um dos pioneiros da não ficção criativa. Mas a paixão do seu protegido por McPhee estava contaminando seus textos. "Imitar é bom quando, no começo, você está tentando descobrir a própria voz", diz Kidder. "Mas a melhor maneira de encarar o temor da influência é ler livros que você realmente aprecia."

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De corpo presente, mas sem ser o foco - Lúcia Guimarães

Três anos e 4 meses numa favela indiana renderam à jornalista americana Katherine Boo um premiado livro, 'Em Busca de Um Final Feliz', exemplo vigoroso do que pode a escrita de não ficção comprometida com o outro

 

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Quatro datas fatídicas - Sérgio Augusto

Terça-feira fez 60 anos que uma hemorragia cerebral matou Sergei Prokofiev. Imagine a comoção popular provocada pela morte do grande compositor russo. Imagine a repercussão na imprensa local e o congestionamento de repórteres na Praça Vermelha, perto da qual Prokofiev passou seus últimos anos de vida. E fique imaginando, porque nada disso, à exceção da morte do compositor, aconteceu no dia 5 de março de 1953.

De fato houve em Moscou, naquele dia, muita agitação popular e jornalística em torno de um morto, só que o defunto não se chamava Sergei, mas Josef, nem compunha música, era um ditador, o soba de todas as Rússias. Quis o pérfido destino que Prokofiev entregasse a batuta justo no dia em que Stalin finalmente bateu as botas. A coincidência foi a última humilhação imposta pelo líder soviético ao compositor que tanto perseguira, chantageara e penalizara desde o final da década de 1930.

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A virose - Arnaldo Bloch


O que são essas viroses contemporâneas que, de tão banais, trazem em seu bojo toda a melancolia do tempo vivente e toda a carga da Grécia antiga?

Meu pescoço dói e inalo a mistura de salicilato de metila, cânfora, mentol e essência de terebintina que me levam a ouvir os sinos de outrora em ásperas e venenosas atualizações. Carnaval chinês. Rock episcopal. O mal. O remédio não vem em software. Não há posição confortável para a cabeça que repousa sobre travesseiros que um dia foram de penas de ganso e, hoje, não passam de foles sem vento e sem música. Esse é o meu leito. Vida e morte.


Mazurca fogo - José Miguel Wisnik


 O GLOBO 09/03/2012

 

A Polônia pulsa nas ‘Mazurcas’ de Chopin e no ‘Príncipe Roman’ de Joseph Conrad

Minha amiga Rachel Gutierrez me deu de presente as “Mazurcas” de Chopin tocadas por Antonio Guedes Barbosa. É uma gravação do selo Kuarup. Rachel, escritora e musicista que eu vim a conhecer graças a esta coluna, que ela acompanha à distância com comentários infalíveis, sabe que eu estou escrevendo um longo ensaio sobre Chopin e me municiou com vários toques sobre o assunto, sendo este o mais precioso e surpreendente. A interpretação do pianista paraibano, morto prematuramente em 1993, está com certeza ente as melhores que já foram feitas, em qualquer lugar do mundo, dessas peças vivazes e profundas, enigmáticas, inspiradas livremente na memória das danças populares polonesas da região que circunda Varsóvia.

A escuta me animou a levar adiante umas ideias que eu venho associando faz tempo. Há muitos anos um amigo me mandou um conto de Conrad chamado “Príncipe Roman”. Conrad, como sabemos, chamava-se Jan Korzeniowski, polonês de nascimento que saiu pelo mundo como marinheiro e que se tornou um dos maiores escritores em língua inglesa. “Principe Roman” é a história de um aristocrata polonês que rompe com o compromisso de sua classe e de sua família com o Czar, durante o longo período em que a Polônia ficou sob o domínio da Rússia, da Prússia e da Áustria, e que adere à luta antirrussa durante o fracassado levante de 1831 (o mesmo ano em que Chopin partia definitivamente da Polônia em direção a Paris). Ao se engajar como voluntário nas fileiras do exército resistente, esconde a sua condição de nobre, recusando os privilégios que pudessem resultar disso. Mais ainda, assume a identidade do camponês que o acompanhava como servo, quando este morre em combate, fazendo-se passar por ele até o fim da guerra, que o leva como prisioneiro para a Sibéria durante anos.

Fiquei convencido de que a história do príncipe camponês era uma fábula representativa da mitologia polonesa, mesmo que Conrad a tivesse extraído de acontecimentos contados por seu avô como verídicos. Imagino que num país de forte tradição feudal e camponesa, riscado do mapa durante todo o século XIX, a burguesia nacional não teve papel relevante a representar no imaginário nacional, ao contrário dessa conjunção de nobre e camponês lutando contra o dominador estrangeiro. Ano passado, vasculhando uma livraria no bairro polaco de Chicago, topei com uma biografia do herói nacional Tadeuz Kosciuszko, que liderou por sua vez o fracassado levante antirrusso de 1794. O livro se chama “The peasant prince”, o príncipe camponês, e como nada indica que seu autor tenha pensado no conto de Conrad quando escreveu o livro, este vinha como mais um indício confirmador da insistência do mito. Curiosamente, Kosciuszko participara também como voluntário, em 1776, das lutas pela independência norte-americana, nas quais fez-se reconhecer pelo mérito, em curiosa analogia com o personagem de Conrad, do qual talvez seja uma espécie de modelo. É sabido que Kosciuszko deixou a Thomas Jefferson um considerável legado em dinheiro, a que tinha direito, para libertar e educar escravos negros norte-americanos.

A aura do nobre camponês acompanha as refinadas e cintilantes “Mazurcas” de Chopin. Nietszche fala, a propósito dele, de uma “liberdade principesca” que consiste em dançar entre as cadeias da convenção como só o pode “o espírito mais livre e mais gracioso”. A definição combina com outra, a do aristocrata estetizado (aristocrata democrata “que alcança a nobreza por um processo de autoeducação”) capaz de deslizar “sobre o chão em que nós afundamos” graças a uma leveza conquistada e livre de esforço visível. É como Lorenzo Mammì fala de Fred Astaire, sem deixar de mencionar Chopin. E é essa fluida liberdade dançante toda feita de gestos sonoros da memória camponesa que nós ouvimos de maneira rara nas “Mazurcas” tocadas por Antonio Guedes Barbosa.
Enquanto isso, acaba de ser lançada a “Poesia toda” de Paulo Leminski, acontecimento auspicioso. No seu livro “Polonaises”, incorporado a essa poesia completa, ele traduzia um poema-fragmento de Adam Mickiewicz, contemporâneo de Chopin, que podemos ler no espírito das mazurcas ou dos prelúdios chopinianos: “Choveram-me lágrimas limpas, ininterruptas,/ Na minha infância campestre, celeste,/ Na mocidade de alturas e loucuras,/ Na minha idade adulta, idade de desdita;/ Choveram-me lágrimas limpas, ininterruptas...”.

Limpidez cintilante é o que eu ouvi ontem no show de Jussara Silveira no Sesc Anchieta, aqui em São Paulo, mazurca-fogo de canções brasileiras, angolanas e portuguesas, presentes respectivamente nos seus mais recentes CDs, o maravilhoso “Ame ou se mande”, “Flor bailarina” e “Água lusa”, este último a sair em breve.


sexta-feira, 8 de março de 2013

Lensky - Arthur Dapieve


Tchaikovsky pôs ali todo o seu talento melódico, sugerindo que nossa vida é ao mesmo tempo triste e ridícula

Tenho uma certa dificuldade com óperas, confesso. A melodia é tão importante para mim que, quando ela se esconde ou quase some atrás da fala, lá se vai o meu barato. Tenho dificuldades parecidas com o rap e — por favor, não cuspa em mim na rua — com Leonard Cohen cantando, quer dizer, declamando Leonard Cohen. Em vozes alheias, as músicas do poeta canadense podem ser gloriosas. Na própria, monocórdia, nunca me entusiasmaram. Não ajudam, claro, os vocais de apoio e arranjos cafonas.

‘Trilogia do Gelo’ - Hermano Vianna


Vladimir Sorokin é o Fausto Fawcett de Moscou menos 40 graus

Vladimir Sorokin já foi chamado de Quentin Tarantino ou Marquês de Sade da literatura russa contemporânea. Prefiro chamá-lo de Fausto Fawcett de Moscou menos 40 graus. Quem me conhece sabe, não tenho elogio melhor. Outras pessoas, menos exaltadas, decretam apenas que ele será o próximo Roberto Bolaño (isto é: obrigatório em rodas intelectuais chiques, assim como um caramelo com flor de sal). Os sinais de sua iminente celebridade global são claros. Em 2011, foi “escritor em residência” em Stanford. Este ano, concorre ao Man Booker International Prize que será anunciado dia 22 de maio, em jantar no museu Victoria & Albert, Londres.

Democracia 2.0. Ou quase. - Nelson Motta

Aos poucos a mídia internacional vai se dando conta do tamanho da encrenca que representa o Movimento Cinco Estrelas conquistar 25% dos votos para a Câmara e o Senado na Itália e virar o maior "partido" do país. O comediante Beppe Grillo canalizou a indignação popular contra os velhos partidos - os culpados pela Itália estar como está - xingando e esculachando seus representantes e mandando todos para casa. Mas também apresentou novas formas de participação popular e de democracia direta.


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Aos 81 anos, Beatriz disse: deixem comigo! - Ignácio de Loyola Brandão

Dia desses, uma amiga do interior me ligou, queria me passar umas informações. Eu disse: "Vou te dar meu e-mail, você passa tudo. E ela: "Acha que sei trabalhar com isso? Sabe quantos anos tenho? Sou de outra geração. Não temos nada a ver com essas coisas". Sei quantos anos ela tem: 73. Porque três anos atrás o marido fez uma bela festa para os 70 anos dela. Lembrei-me que meu tio José ficou fascinado com o computador que ganhou dos filhos. E ainda não havia mouse, imaginem, era tudo controlado pelo teclado. E José estava com quase 80.

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Leonardo Boff-O maior patrimônio que o Brasil tem é o seu povo‏

Nossa história pátria vem marcada por uma herança de exclusão que estruturou nossas matrizes sociais. Tal fato tem onerado poderosamente a invenção de uma nação soberana. Fomos vítimas de quatro invasões sucessivas, que inviabilizaram, até recentemente, um projeto nacional autônomo, aberto às dimensões do mundo.

A primeira invasão ocorreu no século XVI, com a colonização portuguesa. Índios foram subjugados, e milhões de escravos foram trazidos da África como carvão para a máquina produtiva.

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quinta-feira, 7 de março de 2013

O PT não está de todo errado - EUGÊNIO BUCCI

 
 
O Diretório Nacional do PT, reunido em Fortaleza durante o final de semana (dias 1 e 2 de março), divulgou uma nota oficial para "conclamar o governo a reconsiderar a atitude do Ministério das Comunicações, dando início à reforma do marco regulatório das comunicações". O partido do governo explicita a sua divergência com o governo. Ou, mais precisamente, com o Ministério das Comunicações, que preferiu deixar o assunto para depois.

Com sotaque portenho, o Diretório Nacional proclama: "O oligopólio que controla o sistema de mídia no Brasil é um dos mais fortes obstáculos à transformação da realidade do nosso país". O Brasil não é a Argentina, Dilma Rousseff não é Cristina Kirchner, mas talvez a turma que redigiu o comunicado quisesse mudar também esses detalhes da "realidade do nosso país". O texto promete convocar uma "Conferência Nacional Extraordinária de Comunicação do PT, a ser realizada ainda em 2013, com o tema Democratizar a Mídia e ampliar a liberdade de expressão, para Democratizar o Brasil".

Até aí não há novidade nenhuma no flamejante palavreado do PT. Desde 2005, pelo menos, dirigentes da sigla fustigam empresas jornalísticas, numa escalada que não cessa. Afirmam que o julgamento do mensalão resultou de um complô urdido pelos donos de jornal em conluio com ministros do STF. Agora, a ameaça de convocar manifestações e forçar o governo a enquadrar órgãos de imprensa parece ser mais um capítulo de uma novela já conhecida, um tanto gasta, cujo objetivo é radicalizar o debate eleitoral que se avizinha. Num ambiente polarizado, será mais fácil jogar a culpa de todos os males do PT nas costas dos repórteres - e transformar "o oligopólio que controla o sistema de mídia no Brasil" no vilão do continente. A campanha de 2014 seria, então, uma campanha contra a "mídia oligopolizada", o dragão da maldade. O PT entraria na sua própria novela como o santo guerreiro. Salve, Jorge.

Mas a história não acaba aí. A questão é menos óbvia e mais complexa do que parece. Fora o panfletarismo e o tom inflamado, quase raivoso, há um ponto no qual o PT está com a razão. Ao menos em parte, está certo: o marco regulatório está na ordem do dia. Com ou sem disputa eleitoral, com ou sem maniqueísmos melodramáticos, o Brasil precisa de um novo marco regulatório da radiodifusão (e dos mercados conexos). Isso não tem nada que ver com cercear o conteúdo ou censurar o noticiário (como talvez queiram uns ou outros, petistas ou não), mas o contrário: a boa regulamentação só aumenta o grau de liberdade, como vemos hoje nos Estados Unidos, no Canadá e em vários países da Europa. Ela não é sinônimo de censura. A má regulamentação, ou a ausência dela, é que traz prejuízos maiores, inclusive para a liberdade.

Como afirmou o Estado em editorial de dois dias atrás, "um novo marco regulatório das comunicações é necessário e urgente, principalmente porque o marco em vigor, anterior ao advento da internet, está há muito tempo defasado". A nova legislação, sem ideologismos, deveria organizar a matéria (hoje dispersa um espinheiro normativo confuso e obsoleto), promover as atualizações que as tecnologias digitais exigem, destravar o crescimento do mercado (aprimorando as condições de concorrência) e arejar ainda mais a democracia (assegurando mais diversidade ao debate público e à cena cultural).

O PT fala de oligopólios e monopólios. Sem dúvida, precisamos de uma lei que dê os critérios (numéricos, de preferência) pelos quais se possa definir o que é monopólio ou oligopólio numa dada região (critérios que hoje não existem), mas esse está longe de ser nosso único entrave. Mais sério, hoje, é o problema da fusão indiscriminada de igrejas, partidos políticos e emissoras (ou redes inteiras) de rádio e televisão, o que tende a ferir a laicidade do Estado (e a radiodifusão, sendo serviço público, deve primar pela observância da mesma laicidade que vale para o Estado), o fisco e a concorrência leal entre as empresas (pois as igrejas gozam de benefícios tributários que as emissoras não têm e, se a separação entre as duas esferas não for rígida, as emissoras podem encontrar reforços financeiros impróprios quando se associam a igrejas). Sobre esse assunto a nota do PT não fala nada.

A influência crescente de políticos sobre empresas de comunicação é outro vício grave. Há parlamentares que são acionistas, parentes de acionistas ou mesmo dirigentes de emissoras, o que gera um flagrante conflito de interesses: como o Congresso Nacional é chamado a falar na concessão de canais de rádio e TV, seus integrantes não deveriam ter parte com esses negócios. Também por isso um novo marco regulatório é urgentemente necessário.

Há mais. O uso abusivo da propaganda de governo tem permitido ao poder uma interferência crescente sobre os meios de comunicação. Embora o governo federal mantenha esses gastos em patamares relativamente estáveis há anos, os governos de Estados e municípios vêm expandindo sem limites a sua publicidade. A ocasião de rever o marco regulatório seria uma oportunidade para disciplinar também essa matéria. Sem restrições, a verba de publicidade governamental concorre para desequilibrar e desvirtuar o mercado, arranhando o ambiente de liberdade de imprensa. Lembremos que na Argentina, onde há uma conflagração entre órgãos de imprensa e governo, o kirchnerismo elevou os gastos de publicidade oficial de 46 milhões de pesos em 2003 para 1,5 bilhão em 2011 (cerca de US$ 300 milhões).

Recusar o debate sobre um novo marco regulatório só porque a ideia foi abraçada pelo PT é um erro primário. Estamos falando aqui de uma necessidade estrutural do mercado e da democracia, não de uma bandeira de esquerda. Se alguns se aproveitam dessa necessidade para pedir censura, cabe aos democratas de qualquer partido esclarecer, limpar o terreno e propor a modernização necessária. Que já tarda.

* Eugênio Bucci é jornalista e professor da ECA-USP e da ESPM.

A fome e a memória - Fernando Reinach

 
 
Armazenar memórias exige do cérebro um grande gasto de energia. Um mecanismo recém-descoberto ajuda o cérebro a economizar energia. Quando falta energia porque o animal passa fome, o cérebro deixa de armazenar memórias desagradáveis. Faz muitos anos que os cientistas estudam a formação de memórias de longa duração, aquelas que persistem por anos a fio.

A formação desse tipo de memória exige a produção de novas moléculas e o rearranjo dos circuitos que interligam neurônios, o que consome muita energia. Geralmente isso não é um problema, pois o cérebro não somente regula o gasto de energia das diferentes partes do corpo, mas também garante que, na falta de alimentos, o suprimento energético do próprio cérebro seja priorizado.

Em 1983, estudando a formação de memórias em drosófilas (a famosa mosca de fruta), os cientistas descobriram que era mais fácil "ensinar" uma mosca a associar um odor a um alimento apetitoso se a mosca estivesse passando fome. O experimento é simples. As moscas são deixadas sem alimento por 20 horas e depois, submetidas a um odor típico ao mesmo tempo em que recebem um pouco de açúcar para comer.

Nesse caso, basta um ciclo de treinamento para as moscas aprenderem a associar o odor ao açúcar. E essa memória dura dias (o que é bastante na vida de uma mosca). Se as moscas não estiverem com fome, elas também aprendem a associar o cheiro ao açúcar, mas necessitam de vários ciclos de treinamento. O aprendizado acelerado em situações de fome faz sentido, afinal saber que um cheiro está presente porque existe açúcar por perto aumenta as chances de sobreviver.

Foi nessa época que os cientistas descobriram que a formação de outros tipos de memórias não eram estimuladas pela fome. Por exemplo, se você quer "ensinar" uma mosca que um odor é desagradável, basta submetê-las à presença do odor e, ao mesmo tempo, dar um pequeno choque na mosca. Ela logo aprende a fugir do odor.

Agora a novidade: os cientistas resolveram investigar o que ocorria quando se tentava "ensinar" moscas famintas a ter aversão a um odor. O método é o mesmo: você submete a mosca a choques elétricos e libera o odor.

A primeira observação foi que tanto as moscas famintas quanto as bem alimentadas são capazes de aprender a ter medo de um odor associado ao choque elétrico, mas nas moscas famintas esta memória durava pouco. Os cientistas suspeitaram que as moscas famintas não estavam formando memórias de longo prazo (aquelas que exigem gasto de energia). Para confirmar essa hipótese, foram realizados diversos experimentos engenhosos. Os cientistas usaram moscas mutantes, incapazes de formar memórias de curto prazo, e observaram que, quando famintas, elas não aprendem a associar o cheiro ao choque elétrico. Depois demonstraram que os neurônios envolvidos na formação de memórias de longo prazo associadas a sensações desagradáveis são inativados quando a mosca passa fome.

Por fim, os cientistas utilizaram um truque genético que força esses neurônios a permanecerem ativos mesmo nas moscas famintas. Repetindo o experimento, comprovaram que nessa situação totalmente artificial, a memória de longo prazo de experiências desagradáveis é formada, mas, como essa formação provoca um alto gasto de energia, a sobrevida dessas moscas era menor.

Os cientistas concluíram que, nas drosófilas, a falta de alimento bloqueia a formação de memórias de longo prazo de experiências desagradáveis e estimula a formação de memórias de longo prazo associadas a sensações positivas, como a presença de alimento. Em outras palavras, as memórias armazenadas dependem do estado nutricional das moscas.

É claro que o experimento precisa ser repetido em mamíferos e em outras espécies de animais para podermos afirmar que essa é uma característica do cérebro de animais. Mas esse estudo abre uma nova perspectiva no estudo da formação de memórias: a possibilidade de que o tipo de memória formado em nossos cérebros depende de nosso estado nutricional.

Imagine se isso for verdade para seres humanos. Pense que você tenha de comunicar uma notícia traumática, por telefone, a um ente querido. Em vez de perguntar se ele está sentado antes de dar a notícia, o melhor é garantir que ele vai receber a notícia com fome. O trauma não será registrado na memória de longo prazo e ele logo se recuperará do trauma.

* Fernando Reinach é biólogo. Mais informações: 'To Favor Survival Under Food Shortage, the Brain Disables Costly Memories'. Science, vol 339, pg 440, 2013.

Elefante na sala - Luis Fernando Veríssimo

 
 
A única maneira de conviver com um elefante na sala é fingir que ele não está ali. Ignorá-lo. Se algum visitante desavisado perguntar o que um elefante está fazendo na sua sala, a resposta padrão deve ser "Que elefante?". No Brasil nos acostumamos a conviver com elefantes na sala. Exemplo: só quase 30 anos depois do fim do período de exceção inaugurado em 1964 uma comissão começa a procurar a verdade sobre o que realmente aconteceu durante o período. Por quase 30 anos este elefante específico não mereceu atenção e viveu entre nós como um parente apenas vagamente incômodo. A tal comissão não vai punir, antes tarde do que nunca, os desmandos da época. Os criminosos de então estão anistiados, mesmo identificados não sofrerão castigo ou sequer reprimendas da sua própria corporação. Mas pelo menos o elefante está sendo reconhecido. E citado.

Outros elefantes continuam ignorados, e continuam na sala. Hoje não há nenhuma dúvida de que o cigarro mata e o fumo é a principal causa do câncer no Brasil e no mundo. No caso do Brasil só o volume de impostos que a indústria do fumo paga ao governo explica que não haja um combate mais aberto e decisivo ao vício assassino. Em alguns casos a indústria tem até vantagens fiscais. Já o volume de impostos não pagos pelas religiões organizadas explica a proliferação de Igrejas e seitas no País e a presença de pastores evangélicos brasileiros nas listas dos mais ricos do mundo. Mas a isenção dada ao negócio da religião é um dos assuntos intocáveis do País, um elefante enorme cuja presença na sala nem a imprensa nem ninguém se anima a reconhecer.

Potência. Contam que o Stalin, avisado de que determinada decisão iria desagradar ao Vaticano, teria perguntado "E quantas divisões tem o papa?". Descontando-se a Guarda Suíça, que só existe para fins decorativos, o papa, como se sabe, não tem tropas. Mas o Stalin se espantaria com a demonstração de poder do Vaticano dada pela cobertura da renúncia do papa e das especulações sobre o seu sucessor. Páginas e páginas de jornal, horas e horas de televisão - um triunfo de potência desarmada. A União Soviética tinha as divisões. Não tinha as relações públicas da Igreja.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Entrevistas - Francisco Bosco

Certa vez participei de uma mesa em torno do lançamento de um livro de meu amigo Alberto Pucheu. Ele contou que relera alguns de seus livros e chegara à conclusão de que o núcleo de identidade que os atravessava não estava tanto nas ideias quanto no modo de escrever, na cadência da frase, na sintaxe: “Eu sou um ritmo”, ele concluiu. Essa cena me veio à cabeça porque reli hoje (à procura de uma informação que julgava estar lá) uma entrevista que concedi há alguns anos. O entrevistador gravou a conversa, mas, para minha perplexidade (e decepção e indignação), quando li o resultado final, depois das intervenções dele, não me reconheci no texto: as ideias estavam adulteradas por paráfrases desajeitadas e meu ritmo tinha uma cadência tão graciosa quanto a de um desses bailarinos do Bolshoi quando vão sambar na Mangueira. Diante daquele espelho, me senti como Cristo se sentiria vendo a restauração de seu retrato feito pela tal senhora espanhola, que virou hit mundial.

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A exatidão como problema - ROBERTO DaMATTA

O Estado de S.Paulo - 06/03/2013

Lembre-se, disse o dr. Bastos de Paula, um contador que se via como matemático, você tem que ser preciso: só há uma resposta!

Fiquei cismado. Naquela noite, comemorávamos mais uma vitória política (o nosso principal inimigo havia dito uma tolice) e, embora eu tivesse tomado muitas cuias de cauim, nem a animação dos radicais me distraiam, confessou Antenor Barbado, um etnólogo que voltava de uma longa viagem de pesquisa com a tribo dos kongrás e estava tão magro que parecia um tísico.


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Além da vitória - TOSTÃO

FOLHA DE SP - 06/03

Após um longo período de vitórias, grandes times e craques tendem à inércia, ao fastio


Há mais de um ano, em todas as partidas que Kaká jogou pelo Real Madrid, ele não brilhou como em seus melhores momentos, mas se movimentou como no Milan. Ele é reserva no Real porque Özil é um dos melhores meias do futebol mundial. Por isso, e pelo que jogou nas partidas com Mano Menezes, Kaká merece estar na seleção. Fora isso, nada tão relevante na convocação.


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