O
principal partido de esquerda, o PT, tem como figura principal um
político que afirmou nem ser, nem nunca ter sido, de esquerda. O
presidente do Senado é de esquerda, o ex-presidente, também. Aliás, o
PMDB é de esquerda. Qualquer crítico do governo é de direita
Como
estamos vendo nos noticiários, a campanha eleitoral já começou. Acho um
pouco cedo, mas o pessoal fica nervoso com a disputa e a ansiedade
parece ser geral. A política, o governo e a administração do Estado são
das mais nobres atividades a que o cidadão pode entregar-se, pois se
trata de um admirável exercício de altruísmo, amor à coletividade e ao
semelhante, de nobre renúncia a interesses subalternos e vantagens
indevidas e até mesmo a projetos pessoais. O homem público epitoma a
virtude, não no sentido piegas que estamos acostumados a associar a esta
palavra, mas na dedicação resoluta e firme ao bem público e às
aspirações e direitos dos governados, numa vida cuja maior recompensa
será o zeloso cumprimento dessa missão e nada mais. E o Brasil está
coalhado de gente disposta a sacrifícios extremos para servir ao país e
levá-lo a um futuro de prosperidade, justiça, segurança e felicidade.
O retorno das duas linhas de quatro e da dupla de atacantes são as 'novidades' do futebol
As
declarações do ministro do Esporte, Aldo Rebelo, ao jornal "O Estado de
S. Paulo", de que é a favor da anistia das dívidas e da isenção fiscal
dos clubes, alegando que eles não visam lucro, são absurdas e
demagógicas, no momento em que o futebol é, cada vez mais, um grande
negócio, com grandes negociatas.
Na Copa de 1966, a seleção
inglesa, campeã do mundo, inovou ao jogar com duas linhas de quatro e
dois atacantes. Um meia de cada lado voltava para marcar ao lado dos
volantes. A única diferença desse antigo sistema tático para o atual,
com três meias e um centroavante, é que havia uma dupla de atacantes, em
vez de um meia de ligação e um centroavante.
Nat Silver, o
mago da estatística que previu a reeleição de Barack Obama quando até
este parecia descrer da vitória, acertou mais um palpite. Com
equivalente antecedência, cantou a pedra que Argo levaria o Oscar de
"melhor filme"; previsão arriscada, pois filme cujo diretor não concorre
ao Oscar em sua categoria sempre perde a corrida (Conduzindo Miss
Daisy, vencedor em 1989, foi uma exceção). Mais com base nessa lógica do
que em qualquer outra variável, colunistas e blogueiros debocharam da
avaliação de Silver e dobraram suas apostas em Lincoln.
Depois de saber que o
Chico Buarque também fica jogando paciência no computador em vez de
trabalhar, me senti desagravado. Eu não estou perdendo tempo ou
protelando o momento de começar a escrever, quando jogo paciência.
Estou, digamos assim, fazendo alongamento do músculo cerebral. Ou
distraindo o cérebro enquanto a verdadeira criação se dá em outro nível,
no in-consciente. E, se isso parecer conversa de vagabundo para se
justificar, agora tenho um argumento irrespondível: o Chico Buarque faz a
mesma coisa!
Há muitos jogos no meu
computador, com vá-rios graus de complexidade, mas até agora só aderi à
paciência, o mais fácil. Um dia tentei jogar dama no computador. Eu fui
bom em dama quando era garoto. Nunca progredi da dama para o xadrez,
talvez pela mesma razão que me impediu de gostar de matemática, entrar
em labirintos e pensar muito profundamente sobre os buracos negros.
(Dizem que dama é xadrez para as almas simples). Joga-se dama de
computador não contra o computador, mas contra outro jogador que esteja
na linha, movimentando-se uma peça no tabuleiro e esperando que o
adversário, em alguma parte do mundo, movimente uma sua. Mas não
consegui ir além de duas ou três peças movimentadas. Estava jogando bem,
mas tive que parar. Até agora não sei explicar minha sensação diante
daquele adversário que eu não via, que não sabia onde estava ou que cara
tinha, embora estivéssemos, para todos os efeitos, cara a cara. Era
como jogar com um fantasma. Mais do que isto: era como ter minha casa
invadida por um membro daquela estranha seita, talvez escrava, cuja
única função na vida é ficar esperando desafios anônimos no jogo de
dama. Era isto: a sensação de uma cidadela invadida e de uma intimidade
indesejada cada vez que o outro movimentava uma peça.
Abandonei o dama no meio
do jogo e cliquei no paciência. Jogando paciência você às vezes se
sente sacaneado pelo computador, que geral-mente permite uma vitória a
cada cinco ou seis tentativas. Mas pode ao menos ter certeza de que não é
nada pessoal.
CRONICA-VOVÔ
A Lucinda, que tem
quatro anos e meio, frequentemente nos premia com abraços e beijos
extemporâneos. Mas também tem seus dias rebeldes, quando a qualquer
aproximação de avô ou avó a fim de agarramento ordena: "Me deixem em
paz."
No outro dia cheguei perto dela pensando num abraço e, se tivesse sorte, alguns beijos e ouvi seu aviso:
-Não se atreva.
Não se atreva! É claro que obedeci. l
Estou distraindo o
cérebro enquanto a verdadeira criação se dá em outro nível. E, se isso
parecer conversa de vagabundo, agora tenho um argumento irrespondível: o Chico Buarque faz a mesma coisa!
O
verdadeiro multiuniverso, falado pelos cosmólogos e físicos após o
surgimento da Teoria das Cordas, é o bate-papo. O Big-Bang foi uma
conversa singular que terminou em porrada. Os cientistas usam muitos
nomes. Não pega bem um sábio dizer que tudo se resume a um bom papo. O
bóson de Higgs, por exemplo. É uma hipótese sobre o encontro de
personagens do imortal Chico Anysio: Bozó, Coalhada, Azambuja, todos
sacudindo o rabo da cascavel, feito FHC I e II, meio de porre no
Sambódromo, antes de um assessor tomar-lhe o copo. Deixa o Fernando
biritar!
“Dormir avec vous madame Dormir avec vous C´est um merveilleux programe Demandant surtout Um endroit discret madame”
Charles Aznavour
Enfim
um bolero, nest pas madame? Fui eu que subornei a orquestra. Agora
podemos dançar juntos, eu sentindo os seus seios contra o meu peito,
você sentindo as minhas medalhas. O bolero favorece a minha perna
mecânica, ao contrário do tango, que também cultivo, mas só em teoria,
senão eu caio na primeira rabanada.
O bolero também nos permite
falar um no ouvido do outro, ao contrário dessas danças modernas, nas
quais a única comunicação possível entre os pares é o sinal metafórico.
Nenhuma conversa é tão privada e discreta quanto a de um homem e uma
mulher dançando um bolero, o homem cuidando para não engatar os lábios
num brinco ao mordiscar o lóbulo, onde a mulher é mais tenra, a mulher
se permitindo dizer baixinho tudo que jamais diria em público,
principalmente ao alcance dos ouvidos do marido. Existe um marido, pois
não, madame?
Deve haver um marido, senão nada disto este salão,
este bolero, seus seios contra o meu peito e a minha ereção tem sentido.
O essencial numa sedução não é o sedutor nem a seduzida, é o marido.
Todo o drama, toda a aventura, toda a glória e o prazer de uma sedução
está centralizada no marido enganado.
Um caso sem marido é como
um merengue sem recheio, uma casca farofenta encobrindo o nada. Seu
marido está nos vendo? Está seguindo nossos passos, salivando como um
cão raivoso? Sinto seus olhos na minha nuca, talvez medindo-a para um
golpe de cutelo, como o que mata os touros que se recusam a morrer pela
espada. Sim, também já fui toureiro.
O que a gente não faz para
impressioná-las, hein madame? Posso desafiar o marido para um duelo, se
lhe convier. Sim, sou do tempo dos duelos, quando a honra se lavava com
sangue, nem que fosse apenas o sangue de um arranhão. Madame já
adivinhou que sou um homem antigo.
Para mim, nada é mais
apropriado do que um bolero acabar num duelo. Posso mandar seu marido
para um hospital. Assim nem ele ficaria sem sua honra nem nós ficaríamos
sem um marido enganado vivo para apimentar nossa união.
Como eu
perdi minha perna? Foi numa dessas guerras, não me lembro mais qual.
Foi em Waterloo, foi no Somme, foi no desembarque em Omaha Beach, quem
se lembra? E tudo para impressioná-la, madame. Eu ainda não a conhecia,
nem sentira os seus seios contra o meu peito, e já estava matando e
morrendo e construindo civilizações para impressioná-la. Esta sedução
não começa aqui, madame, começou há milhares de anos, quando nós
descemos das árvores para a savana e passamos a andar de pé, com a
genitália exposta.
Como isto não as impressionou muito,
recorremos a outros meios de sedução. Brigas, guerras, atos de bravura e
audácia intelectual, boleros. Tudo para dormir com você, madame. Dormir
com você. Fazermos um programa maravilhoso num lugar discreto.
Champanhe, alguns canapês, cortinas de veludo cerradas, um disco de
vinil na vitrola (sou um homem antigo). Não queremos outra coisa além de
dormir com você. Nunca quisemos. E... glubz! Desculpe madame. Acho que
engoli o seu brinco.
“De
todas as pessoas que eu conhecia, ela era a candidata menos provável de
eu vir a ter uma história. Extremamente carola, cheia de nove horas, o
oposto do meu estilo. Sou um cara moderno, livre, desimpedido em todos
os sentidos.
Sempre gostei de mulheres bem resolvidas, e ela me
parecia uma menininha à espera de um anjo salvador. No entanto, quando
dei por mim, ela estava sob as minhas asas. Não era o que eu buscava na
vida, não era mesmo. Não sei como chamar isso”. LEIA AQUI
A prudência recomendaria pôr de molho as barbas que há
muito não cultivo, mas devo admitir que de uns dias para cá estou
emaranhado nesse felpudo assunto. O que pensaria disso a minha mãe, que
tanto pelejou para que o filho, bacharel em Direito, passasse ao largo
das irrelevâncias? Se viva estivesse, já estaria morta. Espero que me
perdoe. A esta altura, sou o único limão de que disponho para fazer a
minha limonada, no eterno afã de me espremer & me exprimir.
“Argo” é um filme (eu ia escrevendo “um filmeco”) tão tipicamente americano que parece ter sido escrito nos anos 1950
É a Maria Amélia Mello que devo agradecimentos pela publicação da
antologia da revista “Senhor”, não a Ana Maria. Peço desculpas pelo
erro. Escrevi entre voos e voltas e terminei errando um nome que
conhecia. Agora escrevo entre subidas e descidas às proximidades do
Morro dos Prazeres, onde ensaio novo show. Muita música para definir,
escolher, relembrar. Ficou rodando na memória a série de filmes que vi
no avião, entre Paris e o Rio. O que me leva a filmes que vi em
Salvador, antes de voar. Quase todos com indicações e/ou prêmios do
Oscar. Vi a cerimônia (a palavra fica absurda quando a gente pensa nas
piadas do Seth MacFarlane) pela televisão. Não entendo inglês falado com
facilidade. Mas retirei a tradução simultânea, que faz a gente entender
menos ainda. Perdi algumas piadas (que depois meu filho de 20 anos me
contou) mas senti o ritmo. O gozado foi ver dois dos principais filmes
no avião.
Dormi depois do jantar (coisa rara em voos). Acordei
julgando que tinha dormido a viagem toda e que o comissário me
responderia que já estávamos nos aproximando do Rio de Janeiro. Mas sua
resposta à minha pergunta “Quanto tempo falta?” foi: “Sete horas”.
Liguei
o vídeo e pus os fones de ouvido. Havia “comédias românticas”,
“comédias”, “dramas”, “ação” e “lançamentos” para escolher. Entre estes
estavam “Argo” e “Lincoln”.
Escolhi “Argo” porque julgava que
veria “Lincoln” no cinema, quando voltasse, coisa que me parecia menos
provável de fazer com o filme de Ben Affleck. Mal sabia eu que o sono
não voltaria mais enquanto eu estivesse no avião e que, assim, eu veria
“Lincoln” logo em seguida. Foi uma experiência hilária.
“Argo” é
um filme (eu ia escrevendo “um filmeco”) tão tipicamente americano que
parece ter sido escrito nos anos 1950. As sequências de montagem cruzada
para intensificar o suspense são apertadíssimas, e os diálogos têm quick-wit,
sem sombra de ironia. A gente, que está acostumado a Tarantino e Mauro
Lima brincarem com isso, fica incrédulo de ver alguém fazê-lo
candidamente. Affleck é um ator de má fama, certamente por sua cara
inexpressiva. Ele surgiu como roteirista oscarizado, ao lado de Matt
Damon, quando ainda os dois eram garotos. Depois atuou em comédias
românticas com cara de envelope. Em “Argo” essa impassibilidade facial
resulta, com a ajuda da barba, em convincente sobriedade de herói do
mundo livre. Você torce pelo agente da CIA e é levado a aplaudir sua
vitória juntamente com o elenco do filme. Como nos mais convencionais
divertimentos hollywoodianos em que os bons vencem os maus (as plateias
americanas são barulhentas e de fato batem palmas nas cenas em que
aplausos são puxados pelos figurantes). Mas o suspense nesse filme
funciona sempre. Seu lado mais infantil é convidado a torcer para que os
do bem entrem no avião antes de os do mal conseguirem passar pelas
barreiras. É um filme de entretenimento antiquado e eficaz. Acabei de
ver o filme quase gargalhando sozinho na cadeira do avião. Mas faltavam
ainda cinco horas de viagem. Botei “Lincoln”.
O contraste terminou
sendo também bastante cômico. O filme de Spielberg era grave, escuro,
sério. Sobretudo escuro. Parecia um americano escaldado de tanto fazer
diversão tipo “Argo” decidindo provar que também pode ser grave. Tal
como em “Argo”, tudo é conseguido a contento. Daniel Day- Lewis, cujo
estilo britânico de atuar, fundado na composição milimétrica do
personagem, parecendo que tudo começa pela roupa, pela barba, pela
escolha do timbre de voz etc., até que um punk louro capaz de ter um
caso de amor com um paquistanês que abre uma lavanderia, ou um homem
capaz de mover apenas o pé esquerdo, ou um presidente que administra uma
guerra e quer passar uma emenda constitucional abolindo a escravidão
surja crível aos olhos do espectador, Daniel, eu dizia, está perfeito
fazendo o oposto do que Marlon Brando faria (mas ninguém chamaria Brando
para fazer Lincoln, embora ele tenha feito aquele indescritível Marco
Antônio). Tommy Lee Jones é sensacional, e Sally Field também brilha.
Mas o filme, embora informativo, ficou com cara de seriedade forçada.
Antes
eu tinha visto “Django” e “Amour” na Bahia. Eu achava os comentários de
Spike Lee chatos. Mas não me senti confortável com essa refação de
“Bastardos Inglórios” com os negros no lugar dos judeus e Leonardo
DiCaprio errando o francês como Brad Pitt errava o italiano — e o
magnífico Christoph Waltz dando show de dicção e desembaraço. Hitler,
todos sabemos que não morreu num cinema. Mas lutas de mandingos? E, no
final, o mesmo fogo da vingança. Amei os sacos nas cabeças dos racistas.
Ri. “Amour” parece que diminui o fascínio que Haneke exerce.
Antes de se tornar um ficcionista de peso, o norte-americano Paul
Auster traduziu e editou poetas franceses contemporâneos e publicou os
próprios versos - que saem agora no País
Em 2012 saiu no Brasil a elogiada tradução de Ulysses,
de James Joyce, assinada por Caetano W. Galindo, que verteu agora todos
os poemas de Paul Auster. O sóbrio prefácio do tradutor ao volume Todos os Poemas me
surpreendeu, pois senti, ao lê-lo, a presença de um Galindo contido ou
apolíneo que eu desconhecia e que me pareceu muito diferente do Galindo
dionisíaco que traduziu Joyce com verve e destemor. Nenhum traço ali das
divertidas e irreverentes declarações que ele escreveu ou deu à
imprensa durante o lançamento de Ulysses. Então me dei conta de
que a poesia de Auster não tem humor nem jogos de linguagem joycianos, e
o nosso tradutor, para ser fiel à dicção do poeta norte-americano, teve
de ser seco e simples desde o prefácio que escreveu para apresentar a
faceta literária menos conhecida desse famoso ficcionista. O resultado
da parceria Auster-Galindo, em termos de qualidade poética, é visível
logo no início do livro, na leitura de um grande poema sem título que,
ao falar de uma pedreira, conclui: "E as pedras, cingidas de abuso,/
Memorizaram a derrota".
Fiel a si próprio, o maduro John Dos Passos de 'O Brasil em
Movimento', agora reeditado, é o mesmo escritor em ascensão que se aliou
aos republicanos durante a Guerra Civil Espanhola
Há governantes que desmerecem o legado recebido, como tem
feito o PT ao atacar o PSDB
A transmissão de bens materiais e valores imateriais entre a geração
mais velha e a mais nova não acontece automaticamente e pode sofrer
entraves. Para que a herança chegue a bom termo, é necessário que os
mais velhos, imbuídos da consciência da finitude, cedam o centro do
palco para os mais novos. Não é uma decisão fácil e alguns não conseguem
concretizá-la. Outros, tomados pela ambivalência, o fazem pela metade
ou de forma inadequada, criando inúmeras complicações.
“O
sono ao redor”, disse o comediante, como se (...) estivesse
acrescentando à discussão algo que não fosse o aborrecente prazer de um
trocadilho fácil
Dias atrás, numa dessas polêmicas polarizadas que tomaram conta de
boa parte da comunicação atual, o “pessoal da comédia” brigou com “o
pessoal do cinema de arte”. Da discussão emergiram aquelas bobagens do
tipo “cinema é, sempre foi e vai ser entretenimento para grande
público”. Ou a afirmação “oposta”, igualmente tola, de que “cinema para
valer tem que ser de invenção”.
Em
geral, o desenvolvimento econômico e social é pensado dissociado da
questão urbana; abstrai-se a dimensão territorial ou espacial da cidade
Meio
ambiente, desigualdade social e mobilidade formam o conjunto de
problemas urbanos mais significativo comum às grandes cidades, conforme
Bernardo Secchi. Arquiteto e professor italiano, com produção
urbanística em importantes cidades mundiais, considera que eles não
podem ser enfrentados isoladamente, nem entre si, nem na equação
espacial.
Um grupo de pessoas, com a força da convicção sobre uma causa, é capaz
de influenciar a sociedade. As minorias destrutivas têm o mesmo poder
No entorno dos estádios é comum ver grupos de garotos, radiantes, se
preparando para assistir a um jogo de futebol. Deve ter sido assim que
um menino boliviano saiu de casa para ver seu time enfrentar o
Corinthians, lendário campeão brasileiro e mundial. Voltou morto, o
rosto trespassado por um sinalizador náutico atirado da “torcida
organizada”. A mesma que no ano passado acabou com a apuração do
concurso das escolas de samba de São Paulo, estragando mais uma festa
popular.
Graças ao colega André
Miranda, descobri que há meses tenho uma concorrida página no Facebook,
onde já recebi 600 amigos, muitos novos, alguns velhos e outros
desconhecidos, dei opiniões, fiz recomendações, deitei regras, disse
coisas aceitáveis e muita bobagem. E, sobretudo, fiz muita propaganda da
Editora Lecto, à qual deveria cobrar pelo merchandising involuntário.
Cheguei a elogiar o novo logotipo e anunciar a contratação de
"vendedores, pareceristas e diagramadores". Também recomendei uma nova
rede social, uma certa Dotpipol, "muito melhor do que o Facebook" (uma
seguidora chegou a dizer: "Com prazer vou lá para ler seus textos.")
Teria sido uma
experiência interessante, se não se tratasse de um falso Facebook. Com
perdão do trocadilho, é um Fakebook, pois não criei a página, não
autorizei ninguém a criá-la e fico me perguntando se não há um filtro ou
uma forma de controle para impedir uma fraude virtual como essa, tão
fácil de ser perpetrada. Basta pegar fotos já publicadas em revistas ou
jornais, recolher dados biográficos no Google ou na Wikipédia, inventar
algumas histórias, e pronto: que venham os incautos. E qualquer um pode
cair nesse conto do vigário moderno. Como adivinhar o que é fake em meio
a algumas informações corretas e outras que poderiam ser? Tudo bem que,
dizem, você reclama e a página é retirada do ar. Mas e se você não
descobrir por conta própria ou através de um amigo? E se o estrago, se
houver, já tiver sido feito? Como os leitores desta coluna não são
necessariamente os daquela página, como avisar a todos? Não haveria um
jeito de punir os autores por apropriação indébita de identidade?
Houve coisas engraçadas,
como a descoberta de três raros homônimos - um jovem "Zuenir Ventura",
"Zuenir Brito" e "Claudio Zuenir" - e outras tocantes, como pessoas me
agradecendo por tê-las adicionado. O que mais me irritou foi ver gente
de boa-fé sendo envolvida candidamente no golpe. Li mensagens generosas,
como a de um leitor cujo nome não cito porque não pedi sua autorização:
"Que mal fiz eu para não ter conhecido a obra deste escritor há mais
tempo?" No lançamento do livro do Merval, Leiloca, a Astróloga, me
comunica que entrou no meu Facebook. Só me restou pedir desculpas por
ter-lhe causado a decepção de se ver enganada, ela, a quem os astros não
costumam enganar.
De qualquer maneira, alguém deveria ter notado que, sem Alice uma vez sequer, tudo não passava de uma farsa.
PS - Acabo de saber que a
página foi cancelada, ou, de acordo com o aviso, "não está mais
disponível". Ainda bem. Leiloca, a Astróloga, me comunica que entrou no
meu Facebook. Só me restou pedir desculpas por ter-lhe causado a
decepção de se ver enganada
Se iluminarmos quem pergunta, a reunião das entrevistas concedidas a Clarice Lispector por notáveis figuras da cultura brasileira apresentam um traço pessoal e instigante da personalidade da romancista. Clarice quer saber dos artistas populares quais são as benesses e as sequelas causadas pela "fama". Ao ler os diálogos travados, descobre-se que o traço vira hipótese de trabalho, que ela testa em cobaias humanas, no laboratório da Vida.
Elson Costa é um dos militantes de esquerda desaparecidos na ditadura
Acabo de chegar de uma sessão da Comissão da Verdade “Rubens Paiva”,
na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, onde fui, junto com
outros familiares, dar um depoimento sobre meu tio Elson Costa,
sequestrado, torturado e assassinado pelo aparato paramilitar da
ditadura em 1975. Algumas comissões estaduais estão acontecendo, em
contraponto com a Comissão Nacional da Verdade. Em São Paulo, a Comissão
tem levantado, por exemplo, elementos importantes sobre a participação
de empresários no esquema da Operação Bandeirantes. Já falei sobre Elson
Costa em uma das minhas primeiras colunas aqui. Ainda é cedo para
retornar ao assunto, enquanto aguardamos para saber a que verdades as
Comissões chegarão ou não. Quero fazer isso para valer, e no momento
certo. Mas ao mesmo tempo os nervos estão agitados, e é difícil para mim
falar hoje de algum assunto que não seja este.
Elson Costa fez
parte do grupo de dirigentes do Partido Comunista Brasileiro que foram
mortos quando a guerrilha tinha sido vencida e a força repressiva
correspondente passou a ser aplicada sobre grupos, como o PCB, que não
tinham optado pela força armada, e que acreditavam ser possível isolar a
ditadura entrando em todos os nichos que representassem vias
democráticas. Meu tio editava um órgão de imprensa operária cuja gráfica
funcionava numa caixa d’água. A desproporção entre essas ações
políticas e o modo como seus agentes foram eliminados com requintes de
perversidade (dos quais vou poupá-los agora) diz tudo sobre o caráter
fascista da máquina repressiva da ditadura militar. Tratou-se de um rito
de erradicação sumária que se realimentava pela tortura.
É
possível elucubrar sobre a lógica que comandou essa “obra tardia” da
repressão militar, quando esta não pareceria mais tão necessária
militarmente. Cálculo frio do golpe final sobre o inimigo,
“racionalidade” levada à última instância no exame das forças adversas,
extensão “natural” da luta contra a luta armada? Ou gozo da violência em
seu estado quimicamente “puro”, a máquina de tortura e morte replicando
a si mesma, infinita enquanto dura, aspirante ao mal absoluto? O grupo
que vivia disso quis mostrar serviço, como que a provar a necessidade de
sua própria sobrevivência funcional? O sucesso subiu-lhe à cabeça?
Ou
constatou que o PCB era o verdadeiro detentor da verdade histórica, que
nele estava o fermento que levaria ao final da ditadura pela via não da
luta armada mas da pressão das forças democráticas, como preferiu
sustentar, hoje, uma militante partidária?
Só a arte consegue
sondar a verdade das múltiplas versões, atravessar o seu entrelaçamento
não acabado, dar-lhe a volta paradoxal, paródica, trágica, oxigenando a
constatação perturbadora de que não há, a rigor, uma Verdade final sobre
a verdade, sem nem por isso deixar de aplicar golpes certeiros.
Felizmente li, faz pouco tempo, a novela “Estrela distante”, de Roberto
Bolaño, depois de ouvir falar tanto dele. É uma narrativa alucinante,
hilariante, contundente, terrível, sinistra, sobre os desaparecimentos
de pessoas no Chile de Pinochet. Como se trata de um país letrado, tudo
ali envolve o literário: oficinas de poesia cujos frequentadores e
frequentadoras vão sumindo e reaparecendo ou não, sob formas que estão
entre o rumor, o rebate falso, a controvérsia, o exílio presumido, o
esconderijo, o assassinato político. A mudança de identidade obrigada
assombra as relações, mas salta em meio a elas a do impostor infame, o
artista fascista que se transmuta de falso poeta autodidata chavecando
frequentadoras de oficinas de poesia em ícone espetaculoso da direita, e
cuja “obra de arte total” é feita das acrobacias aéreas com que desenha
no céu versos patéticos de fumaça, complementados com torturas, crimes
seriais e fotografias. Num coquetel constrangedor entre seus pares, em
que leva ao limite a sua poética radical de estetização do mal, expõe
fotos de corpos mutilados assassinados pela ditadura e por ele mesmo,
pegando-os de surpresa com a visão inominável daquilo que todos sabem
que não devem admiti-lo. Uma espécie de Exposição da Verdade pela
culatra.
Quase todos os países que passaram pelos crimes da
ditadura passaram, em contexto democrático, por alguma maneira de
admissão, elaboração e simbolização da verdade. O Brasil, para variar,
vem na rabeira do processo. Porque o torturador é também uma forma grave
de desaparecido político, com a diferença de que os mortos da ditadura
sustentam a sua verdade, na sua ausência, enquanto que a ausência
pública do torturador é uma mentira histórica. Sabemos que não há
Verdade, com maiúscula. A não ser quando há mentira maiúscula.
Café
Tacvba tocará pela primeira vez no Rio na quinta-feira. Não vou medir
as palavras: é a banda mais criativa da história do rock abaixo de El
Paso e acima da Terra do Fogo
Café Tacvba tocará pela primeira vez no Rio na quinta-feira. Show
obrigatório. Não vou medir as palavras: é a banda mais criativa da
história do rock abaixo de El Paso e acima da Terra do Fogo.
Recentemente, a revista “Rolling Stone” dos EUA elegeu “Re”, seu álbum
de 1994, como o melhor lançamento de todos os tempos do rock latino.
Concordo: o único outro disco que, em minha opinião, poderia ocupar tal
posto seria o primeiro dos Mutantes. Ou “El objeto antes llamado disco”
(“EOALD”), editado pelo Café Tacvba no final do ano passado. Todos os
críticos, do “New York Times” ao “Página/12”, o declaram digno de
comparação com “Re”, ou até mais conectado com o futuro.
No clássico
infantil de Carlo Collodi, o Grilo Falante é a consciência de Pinóquio,
que o adverte, aconselha e incomoda, mas o boneco mentiroso não o ouve e
prefere a companhia de raposas felpudas e gatos gatunos. Infantil?
Parece mais uma profecia metafórica do tsunami que devastou os políticos
e partidos mentirosos e gatunos nas eleições italianas, quando o
Movimento Cinco Estrelas, fundado pelo comediante Beppe Grillo,
conquistou 25% dos votos e fez 109 deputados e 54 senadores.
A primeira frase da
crônica é quase sempre a mais difícil, mas quando as palavras aparecem
no papel, a mão que segura a caneta fica mais leve e envereda para um
lugar desconhecido...
Mas basta surgir um inseto para mudar toda a história: o
movimento da mão é interrompido pelo intruso, que voa em círculos e zoa
com insistência, uma picada no pescoço ou no braço pode acabar com a
alegria de escrever uma crônica, mesmo sabendo que vou reescrevê-la
quatro ou sete vezes; talvez seja melhor espantá-lo com uma revista, ou
esperar que ele se canse de girar e zumbir como um louco nesse espaço
pequeno.
"O Voo" e "O Lado Bom da Vida" iluminam outro dos paradoxos hollywoodianos, no campo dos costumes
Alguns termos usados pela crítica de cinema são curiosos. Um deles é
"hollywoodiano" como sinônimo de visão de mundo conservadora -a favor da
ordem, do capitalismo, do sentimento patriótico, da família
tradicional.
Dilma corrompe o dicionário e cria a grave ilusão de que se pode
erradicar a penúria sem garantir estruturas que impeçam o retrocesso
A presidenta Dilma Rousseff anunciou que, nos últimos anos, cerca de 22
milhões de brasileiros superaram a miséria. Os números podem estar
certos, mas o conceito de superação está errado. Superar é saltar, uma
conotação muito diferente do que suspender provisoriamente uma condição.
HÁ LUGAR PARA AS DENÚNCIAS DOS MALFEITOS ECLESIÁSTICOS
Sempre se diz que a Igreja é "santa e pecadora" e deve ser "sempre
reformada". Mas não é o que ocorreu durante séculos nem após o explícito
desejo do Concílio Vaticano II e do atual papa Bento XVI. A instituição
mais velha do Ocidente incorporou privilégios, hábitos, costumes
políticos palacianos e principescos, de resistência e de oposição, que
praticamente impediram ou distorceram todas as tentativas de reforma.
Só
que, desta vez, se chegou a um ponto de altíssima desmoralização, com
práticas até criminosas que não podem mais ser negadas e que demandam
mudanças fundamentais. Caso contrário, esse tipo de institucionalidade
tristemente envelhecida e crepuscular definhará até entrar em ocaso. Os
atuais escândalos sempre houve na cúria vaticana, apenas não havia um
providencial Vatileaks para trazê-los a público e indignar o papa e a
maioria dos cristãos.
Corre o rumor de que Havana pretende substituí-lo por de incompetência funcional.Eles lhe devem uma medalha
A Carlos Zamora Rodríguez, embaixador de Cuba no Brasil:
Circulam
rumores de que a passagem da blogueira Yoani Sánchez pelo Brasil terá
efeitos desastrosos para sua carreira diplomática. Escrevo para
acalmá-lo. À luz dos critérios políticos normais, qualquer um dos quatro
motivos mencionados como causas possíveis de sua queda seria suficiente
para fulminar um diplomata. Contudo, os governos de Cuba e do Brasil
não se movem por critérios normais.
Fiquei pensando: o
que faria se tivesse de limpar uma chaminé abandonada, repleta de lixo?
Por sorte quem tinha de limpar não era eu, mas um dos 450 cientistas
amadores da Kingston Field Naturalists, de Ontário, Canada. Amante dos
pássaros, Christopher Grooms, técnico de laboratório, sabia que muitas
espécies de pássaros fazem seus ninhos em chaminés e foi investigar a
história da chaminé antes de limpar seu conteúdo.
Durante 15 anos
trabalhei como redator na MPM Propaganda. No fim dos 15 anos sabia tanto
sobre como funciona ou deixa de funcionar a publicidade quanto no meu
primeiro dia. Amiúde (sempre quis usar a palavra "amiúde"!) me
surpreendia com o resultado de uma campanha publicitária ou de
marquetchim. Não entendia como, muitas vezes, boas campanhas não davam
resultado enquanto outras, medíocres, tinham efeito imediato. Mas mesmo
sem, literalmente, saber o que eu estava fazendo durante os 15 anos,
foram 15 anos, e alguma coisa eu aprendi.
‘Todo ano observo com perplexidade a atenção imensa que se presta à premiação do Oscar’
Todo ano observo com perplexidade, misturada a algum tédio e uma dose
de revolta, a atenção imensa e generalizada que se presta à premiação
do Oscar. Entre, digamos, as instituições culturais mundiais, o Oscar é
uma das mais anacrônicas. Trata-se de uma cerimônia de autocelebração do
cinema estadunidense, onde se premia a cinematografia deles, mais
exatamente, certa cinematografia deles — e a que não faltam a categoria
de melhor filme estrangeiro e eventuais exceções inesperadas ocupadas
por estrangeiros em outras categorias para confirmar a regra do
provincianismo à americana, que é a autossuficiência.
O estudante Stuart Angel, que esta semana deu nome a uma escola pública
no bairro de Senador Camará, foi submetido em 1971 a um ritual atroz.
Preso na Base Aérea do Galeão por atividade subversiva, não resistiu ao
suplício: amarrado a um jipe, com a boca presa ao cano de descarga,
passou a ser arrastado até que, com o corpo esfolado, morreu envenenado
pelos gases tóxicos do carro. O também militante Alex Polari foi quem,
tendo presenciado a tortura da janela de sua cela, relatou-a em carta à
mãe de Stuart.
“Aqui tudo parece que é ainda construção, e já é ruína”.
Conversava com um amigo sobre o vexame que foi a abertura daquele
buraco no conduto Álvares Chaves na semana passada, durante um dos
temporais mais enérgicos ocorridos em Porto Alegre, e nos veio à
lembrança essa parte da letra da música Fora da Ordem, do Caetano
Veloso.
Neste final de mês,
lembrei-me de uma instituição bem conhecida e pouco estudada - a
amizade -, que tanto nos ajuda nas agruras (e no saboreio) desta vida,
ao passar virtualmente uma semana na Carolina do Sul, Estados Unidos,
entre Atlanta, Charleston e Seabrooke Island.
Ao longo desses poucos dias frios e chuvosos, desfrutei de uma
grata e ensolarada hospitalidade do casal Bete e Conrado Kottak, que nos
recebeu e proporcionou raros e ilustradíssimos passeios pelos locais
históricos dessas cidades sulistas tão densas de história e memória da
guerra civil de 1861-65. Esse conflito, que fez o sul dos Estados
Unidos, uma região tão parecida em concepção de vida e trabalho com o
Brasil, perder parte de sua identidade, quando foi incorporada por meio
da força das armas à "União", então presidida por Abraham Lincoln.
Bento XVI, ao renunciar, não perde o nome pontifício nem o direito de
continuar no Vaticano, em cujas dependências já optou por permanecer
após a eleição de seu sucessor, em março próximo. Como Papa renunciante,
Joseph Ratzinger poderia escolher, como sua nova residência, qualquer
domicílio da Igreja Católica em um dos cinco continentes.
Alguns
arcebispos aposentados recolhem-se a mosteiros, como dom Marcelo
Carvalheira, arcebispo emérito da Paraíba, que vive com os beneditinos
de Olinda (PE); ou em casa própria, afastado do burburinho urbano, como é
o caso do cardeal dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São
Paulo, que mora em Taboão da Serra (SP).
Décadas depois, homens e mulheres não esquecem das imagens que viram nos porões da ditadura
Thiago Herdy
Janaína não esquece o sofrimento dos pais no Doi-Codi; com 5 anos, ela e o irmão Edson, de 4, foram presos
SÃO PAULO - “Mãe, por que você está azul e o pai está verde?”,
perguntou Janaína Teles à mãe Maria Amélia ao visitá-la na carceragem do
Doi-Codi, órgão da repressão subordinado ao Exército, em São Paulo.
Tinha apenas 5 anos e ficou presa junto com o irmão Edson, de 4, em uma
sala trancada, de onde saíam apenas para ir ao banheiro, sob o comando
do general Brilhante Ustra. Ernesto Nascimento, filho de Manoel Dias e
Jovelina, já tinha sido entregue à adoção pelos agentes do regime quando
os pais foram libertados para serem trocados pelo embaixador alemão.
Crack e cocaína já superam álcool como fator de afastamento do mercado de trabalho
GUSTAVO URIBE
gustavo.uribe@sp.oglobo.com.br
SÃO PAULO Há 13
anos como funcionário do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, o
advogado Maurício Bitencourte, de 40 anos, finalmente havia conseguido
em 2006 uma promoção à coordenação do departamento jurídico da entidade
sindical. A permanência no posto, contudo, durou apenas um ano. Em 2007,
o profissional, pós-graduado em Direito do Trabalho, foi internado em
uma clínica de reabilitação. Na época, misturava cocaína e maconha com
bebidas alcoólicas. Em 2010, após mais duas internações, foi demitido e
começou a consumir diariamente o crack, que era trocado por ternos,
camisas, sapatos e um televisor. Com o irmão, Luiz Carlos Bitencourte,
consumia o crack nos fundos da casa da mãe. Mês passado, os dois, agora
desempregados, conseguiram acesso ao auxílio-doença, entrando numa
assombrosa estatística do governo: o consumo de drogas no país cresce a
cada ano, e, hoje, cocaína e crack já afastam, em relação ao álcool,
mais que o dobro de trabalhadores do mercado profissional.
Viciado, músico evita retomar carreira interrompida
SÃO PAULO - Em posse do seu primeiro auxílio-doença, um salário mínimo —
R$ 678 — obtido em janeiro, o baterista Fabrício Ramires, de 34 anos,
está com receio de retornar ao mundo da música, no qual teve boa parte
de suas recaídas para o vício das drogas. No auge profissional, o músico
tocou em bandas famosas de reggae, como Planta e Raiz e Leões de
Israel, fez turnê na Argentina e participou de entrevista ao “Programa
do Jô”, da TV Globo.
. Pela sexta vez, o
Inka Peruano participa do BH Restaurant Week, que será realizado de
segunda-feira a 10 de março. Durante o festival, o almoço completo na
casa custará R$ 34,90 e o jantar, R$ 47,90. A conta será acrescida de R$
1, destinado ao Instituto Ayrton Senna.
EM FAMÍLIA Clã Klink em BH No
mês passado, logo depois do lançamento do livro Antártica, a última
fronteira, de Marina Bandeira Klink, em Port Lockroy, na Península
Antártica, Afonso Borges teve uma ideia: trazer a BH não apenas a
autora, mas todos os integrantes de sua família como convidados do
projeto Sempre um Papo. “Conversa vai, conversa vem, sugeri o
impossível: a reunião dos Klinks, pela primeira vez, em um evento”,
conta o produtor mineiro.
***
Seguindo o exemplo da mãe,
Marina Bandeira, e do pai, o escritor e velejador Amyr Klink, as gêmeas
Tamara e Laura e a caçula Marina publicaram livros. Entre eles está
Férias na Antártica. “Amyr é freguês antigo, fiz o lançamento de todas
as suas obras”, relembra Afonso Borges. Entusiasmada com a ideia de se
reunir no palco, a família prepara palestra especial sobre os segredos
das jornadas pelo mundo e da navegação. O clã conversará com o público
em 4 de maio, às 14h30, no Grande Teatro do Sesc Palladium.
NA EUROPA De olho no mundo
Conceituado
expert em óculos de Belo Horizonte, Régis Lobato viaja amanhã para a
Alemanha. O convite veio da Rodenstock – a fabricante de produtos
ópticos mais importante da Europa, que desenvolve sofisticada tecnologia
para lentes de alta resolução. Nos laboratórios em Frankfurt, Régis
fará curso de atualização em produtos avançados.
***
Depois
da “imersão” alemã, o dono da Perfect Óculos seguirá para Milão, na
Itália, para participar da Mido 2013 – a maior feira mundial de moda e
estilo do setor. Promete trazer novidades para a turma fashion da
capital.
POSSE Conselho de RP
Terça-feira,
Washington Moreira Pinto assumirá o comando do Conselho Regional de
Profissionais de Relações Públicas/3ª Região. A solenidade será
realizada no Teatro da Assembleia Legislativa, às 20h. Também tomarão
posse Guilherme Tell Barbosa Silva (secretário), Paulo Henrique Rogêdo
Moreira (tesoureiro) e os conselheiros Angelina Gonçalves de Faria
Pereira, Antônio Luiz Alves Pereira, Erika Pessoa, Fabrício Soares de
Souza, Joubert Caetano Amaral, Kátia Andrade Alves da Cunha, Marcelo
Moreira de Oliveira, Marcelo Ramos Bastos, Myrna de Fátima Jerônimo,
Rodrigo Souza Neves e Vinícius Guimarães Barbosa.
COMANDATUBA Torneio de tênis Mudou
a agenda de um dos torneios de tênis promovidos em benefício do projeto
Ler é Viver, do Instituto Gil Nogueira. O Mart Plus Beach Open deixará
de ser realizado em setembro. A competição foi transferida para o
período de 28 de maio a 2 de junho, com o objetivo de aproveitar o
feriado de Corpus Christi. A sétima edição do Beach Open ocorrerá no
hotel Transamérica, na Ilha de Comadatuba, na Bahia.
***
Os
organizadores prometem manter a receita de sucesso do evento: lugar
paradisíaco, tratamento vip aos participantes, descontração e
programação especial para todos. A coordenação das atividades esportivas
ficará a cargo de Flávio Casalecchi e Leila Abe. As inscrições foram
abertas no mês passado e só restam 30% das vagas. O projeto Ler é Viver
atende 5,1 mil crianças e se dedica a combater o analfabetismo
funcional. SETENTÃO Iate sopra velinhas
Hoje
é dia do aniversário do Iate Tênis Clube. Mas nada de festa para
badalar os 70 anos. A assessoria da agremiação informa: “Uma equipe
trabalha na programação, e a comemoração deverá ser feita com os pés no
chão”. Definitivamente, estão longe os tempos de glamour... Nota
publicada no Estado de Minas, em 28 de fevereiro de 1943, definia a
inauguração do Iate Golfe Clube de Minas Gerais – “notável organização
esportiva que tem como presidente o doutor Juscelino Kubitschek” – como
um acontecimento elegante na vida da capital mineira.
***
Quando
o Iate foi inaugurado, a badalação foi total. “Ônibus especiais e
automóveis transportaram para a Pampulha os elementos mais destacados da
nova sociedade e representantes das autoridades civis e militares”,
anotou o repórter do EM. “O baile decorreu em ambiente requintado de
animação e cordialidade, o que positiva a projeção que terá na vida da
cidade o Iate Golfe Clube de Minas Gerais, cuja finalidade é incrementar
os esportes náuticos em nosso meio”, registrou o jornal. O Iate foi
criado para compor o revolucionário complexo arquitetônico projetado por
Oscar Niemeyer.
***
O “pai da Pampulha” deu um toque
diferente ao Iate. Em vez de privilegiar as curvas que fizeram a fama do
complexo modernista de BH – marca da igrejinha, do atual museu de arte
(antigo cassino) e da Casa do Baile –, Niemeyer optou por um edifício de
linhas duras. Criou, assim, o famoso telhado asa de borboleta para o
Iate, cujas linhas contrastavam com o curvilíneo conjunto erguido na
orla da lagoa.
COLETIVA Jovem guarda
Quarta-feira
tem vernissage no Salão Cultural da Aliança Francesa de Belo Horizonte,
na Savassi, que vem abrindo espaço para talentos emergentes das artes
visuais da capital mineira. A coletiva Infiltrações vai reunir 15
artistas plásticos de BH, São Paulo e Campinas. O público poderá
conferir as obras dos coletivos Azucrina, 4 e 25 e Piolho Nababo, além
dos trabalhos de Thiago Alvim, Dereco, Letícia Matos e Desirée Franco.
Evoé, jovens criadores!
O Brasil é um país sem poder bélico, mas está descobrindo uma outra
forma de inserção no mundo, através das suas ideias, cultura e práticas
Londres conseguiu, no período da Olimpíada, construir uma imagem
bastante positiva da Inglaterra. Trabalha agora para manter e ampliar
esta conquista. Foca nas parcerias e presença cultural que possam gerar
este tipo de dividendo no mundo.
Assim como as pessoas desenvolvem -às vezes com muito esforço- uma forma
de expressão e conexão com o mundo, os países também constroem imagem e
cara.
Não mais nos reunimos em praça pública para ver a cabeça dos culpados rolar ou pender. Mas, sempre que possível, fazemos isso no noticiário e, principalmente, nos cinemas. Nos antigos filmes de caubói, um catártico tiroteio garantia a punição dos bandidos e a saída incólume do herói.
Duros de matar, esses homens a cavalo foram logo substituídos por policiais igualmente solitários. Final feliz requer o chão coberto de corpos dos maus. Em Django Livre, como já fizera em Bastardos Inglórios e em Kill Bill, o diretor Quentin Tarantino arma seu roteiro a partir da nossa sede de vingança contra escravocratas, nazistas e machistas violentos.
Uma vez, em uma conversa entre amigos, alguém comentou que jamais conseguiria casar com quem ouvisse Celine Dion. Casar? Eu não conseguiria pegar uma carona com alguém que ouvisse Celine Dion, retruquei, exagerando. E foi nesse tom de brincadeira que continuamos falando sobre nossos eu nunca poderia me relacionar com alguém que....
Puro blábláblá, pois, na hora em que a paixão se apresenta, nossos gostos se adaptam rapidinho, e a gente se pega dançando forró quando queria mesmo era estar num show do Pearl Jam. Ainda assim, essa questão de ter afinidade musical não é absolutamente tola. Gostar de gêneros musicais diferentes não impede um relacionamento, mas, quando há compatibilidade, dois amantes evoluem e transformam-se em dois cúmplices.
Serviços de paquera atraem empresários, que ainda buscam modelos de negócios eficientes
Com a ajuda das redes sociais e da geolocalização, empresários estão
tentando mudar a forma como as pessoas, muitas vezes de nichos
específicos, encontram amor, sexo casual ou relacionamentos "de fachada"
pela internet. Os desafios, entretanto, são atrair mulheres e achar
modelos de negócio eficientes.
Em menos de um mês, o aplicativo Pegava Fácil, que permite que
usuários do Facebook indiquem com quais amigos virtuais gostariam de
"ficar" e avisa aos internautas quando o interesse é mútuo, atraiu 28
mil usuários, sendo 65% homens -mais de 2.000 potenciais casais foram
formados no período.
Os técnicos europeus são melhores na organização, e os brasileiros, no posicionamento dos atletas
A
absurda morte de um jovem boliviano, por causa de um sinalizador,
jogado por um torcedor do Corinthians, retrata bem a falta de
civilidade, a desorganização e a violência (na arquibancada, no gramado e
fora do estádio) no futebol sul-americano. Não foi uma fatalidade, foi
um assassinato, mesmo sem intenção de matar. Poderia ter acontecido com
torcedores de todos os clubes e em todos os estádios, o que não exime o
Corinthians de culpa. A punição dada é provisória, até o julgamento pela
Conmebol.
Senhoras e senhores, obrigado. Antes de mais nada quero
pedir desculpas pelo atraso. Tivemos um pequeno problema nos bastidores,
um desentendimento, e o resultado é o que veem aqui no palco, um
quarteto de cordas reduzido a dois. Nosso violoncelista não concordou
com a mudança do programa de hoje, parte do meu projeto de popularização
da música de câmara, com a substituição do quarteto número 8 em si
menor, opus 59 de Beethoven por um arranjo para cordas de Ai Se Eu Te
Pego e se recusou a entrar no palco.
Futuros
bafômetros detectarão o uso de maconha e de cocaína. Mais adiante,
tabaco, a essa altura já proibido. E, finalmente, ninguém poderá cheirar
rapé, ingerir ansiolíticos, beber chás estimulantes ou calmantes e
assim por diante
O comecinho de tarde anunciava mais
calor, no famoso boteco leblonino Tio Sam. Ainda mais agora que uma
porta do meio, dessas corrediças de ferro, quebrou e resolveu ficar
permanentemente fechada, bloqueando a ventilação. Segundo a opinião
geral, a situação deverá perdurar mais alguns meses, enquanto Chico, o
filosófico português da Beira Alta que é dono do estabelecimento,
resolve se vai consertá-la. Chico pauta sua conduta pelo que chama de
Filosofia da Normalidade, segundo a qual ele é normal e tudo o que é
diferente dele não é normal. Ele não me falou, mas tenho certeza de que
está ponderando sobre se é normal querer a reabertura da porta. Além
disso, os calorentos contam com os ventiladores da casa, embora se
avolumem as queixas de que a aragem deles esquenta o chope nos copos.
Tristeza. É o sentimento que se acumula à medida em que chegam as
informações sobre o episódio da Bolívia. Tristeza por uma sociedade que
enlouquece. Há muito tempo se pressentia isso, não é de hoje que, poetas
sobretudo, vem avisando sobre a insanidade generalizada. "Vi as
melhores mentes da minha geração, etc, etc."
Dona Alzira está passada desde que leu no jornal essa
história da exumação de Dom Pedro I (furo de reportagem, lembro a ela,
do Edison Veiga e do Vitor Hugo Brandalise aqui no Estadão). Não só de
Dom Pedro mas também de Dona Leopoldina e Dona Amélia, com as quais,
sabemos todos, ele subiu ao altar, uma de cada vez, é claro. Só faltou
sacarem da cova uma terceira Dona, Domitília de Castro, a Marquesa de
Santos, com a qual o imperador andou subindo, não ao altar, mas ao
nirvana carnal.
Nossos esquerdistas mereceriam mais confiança se tratassem Yoani com respeito
É difícil aceitar como progressista a atitude dos que agrediram Yoani
Sanchez em sua chegada ao Brasil. E logo em minhas duas terras, Bahia e
Pernambuco (ganhei cidadania da Assembleia Legislativa Pernambucana, a
Casa de Joaquim Nabuco). Se um indivíduo eleva voz dissidente num país
que mantém presos políticos por décadas, deveria receber o apoio dos que
lutam pela justiça. Quando Marighella ficou sabendo o que se passava na
União Soviética sob Stalin (pelas revelações que Nikita Kruschev, num
esboço de perestroica-glasnost, incentivou), ficou semanas a fio em
pranto. Para ser sincero, não me surpreenderam as revelações
kruschevianas: meu pai, apesar de ser simpatizante de esquerda, sempre
comentava que a Rússia stalinista podia esconder opressões brutais. Mas o
pasmo entre comunistas foi grande. O chororô de Marighella pareceu
desproporcional a alguns de seus companheiros, mas diz algo de
profundamente bom sobre ele.
Não desconheço a possibilidade de
interpretar os fatos políticos a partir de uma perspectiva que submeta o
sentido moral do caso Yoani à crítica do desequilíbrio mundial. A força
americana pode ser sentida a ponto de neguinho pôr sua capacidade de
solidariedade abaixo de uma visão geral da luta. Aí Fidel pode ser visto
como o herói que enfrenta o Dragão da Maldade, qualquer relativização
desse enfrentamento sendo suspeito. Por que Obama não acaba com o
bloqueio a Cuba? Yoani pode aparecer nesse quadro como uma
colaboracionista. Mas como, se ela própria declara repúdio ao embargo?
Tive
a honra de ser atacado juntamente com Yoani por Fidel em pessoa. Fidel
escreveu o prefácio a um livro sobre Evo Morales (que nome! Sempre paro
quando ouço ou leio o nome de Eva no masculino) e, nesse prefácio, me
desancou por eu ter dito em entrevista que minha canção “Base de
Guantánamo” não significava apoio à política de Estado cubana. Ali, o
herói caribenho me equiparava à blogueira de milhões. Éramos, os dois,
agentes do imperialismo americano. Inocentes úteis da potência
capitalista. Gosto dos textos de Yoani. Fui a Havana em 1999 e sinto a
presença da vida cubana neles. Eu teria mais confiança em nossos
esquerdistas se eles a tratassem com respeito.
Gente próxima e
distante estranhou que eu escrevesse que estou triste. Minha mãe morreu.
Senti a passagem do tempo com violência. Mas leio “Porventura”, de
Antonio Cicero, e a força (qualidade) dos poemas me revigora. Filósofo e
poeta, Cicero é um dos grandes.
Recebi de presente essa maravilha
que é o livro-antologia da revista “Senhor”. Gracias Ana Maria Mello e
Ruy Castro. Em 1959, um vendedor de enciclopédias bateu à nossa porta em
Santo Amaro. Ele oferecia a assinatura de uma revista cujos primeiros
números trazia consigo. Meu irmão Rodrigo, a quem devo tanto, ficou
impressionado com o que via e me chamou para que eu tomasse conhecimento
da novidade. Ele sabia que eu ia gostar. Fiquei extasiado com as capas e
os títulos das matérias: contos de grandes autores conhecidos e
desconhecidos, cartuns geniais, comentários inteligentes e cheios de
humor sobre assuntos diversos. Suponho que contei longamente sobre o
efeito que tiveram sobre mim o primeiro LP de João Gilberto (que saiu em
1959) e, já a partir de 1960, as atividades culturais da Universidade
da Bahia sob o reitor Edgard Santos. Devo ter mencionado a “Senhor”
também. Mas não creio que tenha dito com todas as letras que essa
revista desempenhou papel no mínimo igualmente determinante em minha
formação. E estou certo de tê-la conhecido antes de ouvir João. O
impacto foi enorme. Tudo o que eu adivinhava nas páginas de Millôr em “O
Cruzeiro” (que eu guardava numa caixa) e nos contos de William Saroyan —
a modernidade — aparecia desenvolvido nessa publicação. É emocionante
para mim rever os desenhos de Glauco Rodrigues, Bea Feitler, Carlos
Scliar; os artigos de Paulo Francis; as charges elegantíssimas de Jaguar
(que traço!, que ideias!); os contos de Clarice. Curioso ler o texto de
Ivan Lessa sobre justamente a nascente bossa nova. Ele, informadíssimo,
no calor da hora já falava em Chet Baker. Mas reagia à Rolleiflex do
“Desafinado” (e à canção como um todo) com rejeição semelhante à sofrida
por imagens e sons tropicalistas poucos anos depois. Eu, que dependia
da elegância da Bossa e da “Senhor”, já aprovava a liberdade da menção à
marca de câmera e o humor do jogo com o verbo “revelar”. Lessa (que tem
um texto engraçadíssimo e muito bem escrito no livro paralelo “SR, uma
senhora revista”) censurava. Revelava sua enorme ingratidão. Mas ele
saúda o surgimento de Carlos Lyra e Roberto Menescal (embora, como Bob
Dylan, por cima de Jobim!).
Uma antologia recém-publicada na França reúne mais de cem
brasileiros, ao longo de 1.500 páginas, num largo painel do País, que
vai do século 16 ao 20 sublinhando as sutis afinidades entre os autores
A atual fase da era digital, marcada pela expansão do mercado de
e-books, vem acentuando o debate sobre o destino das bibliotecas
tradicionais - e o seu incontornável impacto na formação de leitores
NOVA YORK - É difícil encontrar uma cidade norte-americana mais
litigiosa do que Nova York. Prefeitos anunciam megaprojetos que nunca
saem da maquete porque vereadores, associações de bairro e diversos
grupos de interesse montam uma resistência tão ruidosa quanto eficaz.
Quando lhe mostraram um vídeo de pontos de ônibus cariocas que havia
projetado, o grande arquiteto modernista Richard Meier ficou admirado:
"Fiz esse projeto para Nova York há dez anos", disse. "Tudo se obstrui
nesta cidade." Quem sabe, Meier pode convidar o colega Norman Foster
para desabafar mágoas em escala bem maior. Sir Norman Foster, o famoso
arquiteto autor de várias adições a prédios históricos, como o British
Museum, em Londres, e o Reichstag, de Berlim, não está sendo tratado em
Nova York com a gentileza esperada por cavaleiros da Ordem Britânica.
Ele é o responsável pelo plano de renovação de um dos mais queridos
prédios históricos do país, a sede da Biblioteca Pública de Nova York,
inaugurada em 1911. O prédio fica na esquina da Quinta da Avenida com a
Rua 42.
Em Reinventing Bach, o americano Paul Elie mistura a trajetória do
gênio alemão à de quatro intérpretes - Albert Schweitzer, Pablo Casals,
Leopold Stokowski e Glenn Gould - que recriaram sua obra na modernidade
Historiadores revelam participação de luterano em matança de judeus e intensificam debate sobre religião e nazismo
Graça Magalhães-Ruether
O pastor Walter Hoff, da igreja luterana, que apoiou o nazismo
BERLIM - Enquanto o Vaticano silenciou durante o regime nazista, os
luteranos tiveram uma participação mais ativa na perseguição dos judeus.
Adolf Hitler e Joseph Goebbels eram de origem católica, e Hitler
proibiu que o seu ministro da propaganda se desligasse da Igreja, como
planejava. Mas foi a igreja luterana, da qual cerca de 50% da população
da Alemanha faziam parte já naquela época, a que mais colaborou com o
regime.
Em um estudo que será publicado em abril na revista de
História “Zeitschrift für Geschichte”, Dagmar Pöpping, da Universidade
Ludwig Maximilian, de Munique, conta a história do pastor luterano
nazista Walter Hoff, que participou pessoalmente do extermínio de judeus
da Bielorrússia (algo entre 786 e mil pessoas) e confessou o crime aos
seus superiores, mas nunca foi condenado por nenhum tribunal.
Segundo
o historiador Manfred Gailus, autor do livro “Crença, Confissão e
Religião no Nacional Socialismo”, Hoff não foi punido porque a igreja
protestante abafou o caso.
Três são os motivos do fracasso da Revolução Cubana: café da manhã, almoço e jantar!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da
República! E diz que o novo estádio do Palmeiras vai se chamar
TORRESMÃO! E amanhã é dia de Oscar! Merece um Oscar quem conseguir
assistir o Oscar até o fim!
Pra mim, o melhor filme é "Django Livre". Devia levar todas as
estatuetas. A revista "Vanity Fair" contou quantas pessoas morreram nos
filmes do Tarantino: 560! SÓ?!
Brasileiros
sectários, supostamente em defesa de Cuba, provocam uma reação que só
faz prejudicar o projeto de abertura daquele país
Não é
muito fácil, para uma pessoa da minha idade, falar sobre Cuba. Para
minha geração, Cuba foi um modelo de sonho, esperança de um inédito
socialismo democrático, com liberdades individuais, direitos e
oportunidades iguais para todos, liderado por rapazes como nós, com
menos de 30 anos de idade, num país miscigenado como o nosso, ao som de
rumba, mambo e bolero.
Nada poderia nos produzir mais euforia que
a noite de Ano Novo em que Fidel Castro entrou em Havana e tomou o
poder com seus guerrilheiros barbudos. Eu tinha 18 anos e estava nas
ruas, com meus colegas da UNE e os companheiros do futuro Cinema Novo,
celebrando a vitória da beleza e da justiça, como diria Paulo Martins em
“Terra em transe”. Isso ninguém esquece. Mesmo que o sonho se
transforme em pesadelo, permanece em nossos corações na sua forma
original.
Seria bom saber que todos os políticos eleitos usam os mesmos serviços públicos de seus eleitores
Ao mesmo tempo em que em Roma o Papa Benedito XVI renunciava ao seu
pontificado, na Sibéria caía um meteoro. A renúncia foi um destes fatos
que nos surpreendem com o passado. E a queda do meteoro desperta temor
no futuro. São temores que nos fazem sonhar com notícias que nos
surpreendam ao longo da vida futura.
Sonho ler notícia de que a
economia é orientada para a redução da pobreza e a construção da
igualdade social, com respeito ao equilíbrio ecológico; que o consumo
está subordinado ao bem-estar, e este à felicidade das pessoas. Sonho
ler a informação de que todas as crianças do mundo estão em escolas com a
mesma alta qualidade, e nenhum pai ou mãe no analfabetismo; que a
corrupção passou a ser tema limitado a estudo nos cursos de História; e
que todos os políticos são comprometidos com utopias, propondo ações
para todo o planeta e as próximas gerações. Gostaria de ver que os
principais recursos da Terra passaram a ser regidos por normas do
interesse de toda a humanidade e que a água do mar pode ser
dessalinizada a baixo custo energético e com a mesma qualidade da água
potável.
Passei anos crente que fora James Dean quem nos aconselhara a partir
desta sem rugas. Há dias descobri que o adágio "Morra jovem e seja um
belo cadáver" foi afanado pelo ator de um filme de Nicholas Ray, O Crime
Não Compensa (Knock On Any Door), e que Willard Motley, autor do
romance que serviu de base ao filme, por sua vez o furtara de uma
obscura peça encenada na Broadway nos anos 1920.
Devo essa a um sujeito chamado Garson O’Toole, criador e maestro do
site Quoteinvestigator.com, tira-teima eletrônico cujo logo, uma
silhueta de Sherlock Holmes, me dispensa de detalhar suas atividades. Há
outros meios de esclarecer quem na verdade disse o quê, quando e em que
circunstâncias, mas o site de O’Toole me parece o mais confiável porque
o mais exaustivo em suas pesquisas.
A
esteira iniciou sua marcha para o túmulo. Marcha lenta, para começar,
até a primeira tomada de pressão. Na tela, os gráficos com as medições
dos eletrodos impressionavam
Dia de teste ergométrico é sempre um dia muito tenso. Só perde para a
próstata. O T.E., como é conhecido no jargão médico, para quem não sabe
é aquele exame no qual o sujeito sobe numa esteira e tem que caminhar
cada vez mais rápido, pelo maior tempo possível e num ângulo ascendente,
ladeira acima, até não aguentar mais. Quando está, ou pelo menos pensa
que está, prestes a morrer, a esteira é desacelerada.
A música da América Latina é discutida sob a neve carnavalesca de Nova York
Na quinta-feira da semana passada, como sempre nesses últimos três
anos, eu escrevia minha coluna de sábado, sobre a nevasca em Nova York,
onde estive no carnaval, quando caiu a tempestade sobre a zona Oeste de
São Paulo, tempestade violenta, ciumenta, mais imprevisível e
incontrolável do que a neve que eu vira lá. A energia elétrica do bairro
foi para o espaço e só retornou de madrugada. Ilhado pela chuva, com o
texto salvo mas perdido dentro do computador inacessível, eu fiquei sem
ter como começá-lo todo de novo em algum outro lugar, e faltei ao meu
lugar aqui. A chuva do meu bairro, o rio da minha aldeia, quis falar
mais alto e calar, de alto a baixo, meus devaneios sobre a neve alheia.
Mas
a neve não era tão alheia assim. Na verdade eu estava dizendo que a
visão de um grupo de marinheiros brasileiros, mulatos e cafuzos, andando
penosamente na neve em Nova York, nos anos 1920, percebidos
angustiadamente como “caricaturas de homens”, estava entre os momentos
originários de toda a obra de Gilberto Freyre. A interpretação é de
Ricardo Benzaquen de Araújo na abertura de seu
“Guerra e paz: Casa
grande & senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30”. Freyre
se lembra com incômodo, a partir da visão, da frase de um viajante
americano ou inglês que enxergara um aspecto de “vira-lata” na população
brasileira. Todo o seu esforço ensaístico pode ser compreendido,
segundo Ricardo Benzaquen, como a tarefa de refutação e reversão dessa
imagem, que coincide aliás com a do famoso “complexo de vira-latas” de
Nelson Rodrigues.
Eu não tinha me lembrado disso enquanto
enfrentava nas calçadas a nevasca de carnaval em Nova York, embora me
sentisse um polaco mulato e cafuzo diante da primeira neve real (as do
inverno parisiense sempre me foram leves e passageiras). Fui para um
colóquio na Universidade de Columbia, que se propunha a pensar a música e
o som na América Latina e no Caribe. A coluna da semana retrasada, que
eu deixei pronta quando viajei, cumpria a dupla função de ser uma
crônica nostálgica de sábado de carnaval, literalmente de “saudades do
Brasil”, ao mesmo tempo que um ensaio para o que ia fazer lá, isto é,
falar sobre o “pequeno nada” rítmico, impossível de escrever, que Darius
Milhaud sentiu nas músicas de Ernesto Nazareth quando executadas pelo
autor, e que podia ser visto como um índice das transformações pelas
quais passou a música europeia nas Américas, transformada pela presença
da África.
O colóquio revelou-se uma imersão fascinante e pouco
acadêmica (se tomarmos a palavra no mau sentido, o de formalidade
estéril) no pensamento e nas experiências musicais das Américas, entre
músicas eletrônicas e indígenas, salsa e jazz, poesia e canção, em meio
às quais a ideia do “pequeno nada” encontrou múltiplas ressonâncias. O
compositor equatoriano de origem indígena conta como trabalhou com
Stockhausen e volta à música indígena, o crítico paraguaio confronta o
som e o silêncio nos ritos guaranis com o pensamento ocidental, os
porto-riquenhos (com os quais eu descubro cada vez mais afinidades
pessoais e culturais) falam sobre batuques transpostos para a linguagem
poética, sobre a “jíbara” camponesa na salsa e as relações desta com o
jazz (a palestra entusiástica era feita instintivamente em ritmo de
salsa) ou sobre Ruth Fernández, cantora porto-riquenha do tempo de Celia
Cruz, Pedro Vargas e Libertad Lamarque. E ainda, a música latina no
Harlem ou a música erudita argentina fazendo a paráfrase borgeana do
museu sonoro europeu, com a proverbial desincompatibilização portenha da
África. As cubanas foram impedidas de vir.
A reunião ia de manhã à
noite no último andar do International Affairs Building de Columbia, de
onde se via a neve cair, suave e contínua, sobre a cidade mais e mais
branca em ritmo minimalista e em escala de land art. Acredito
não estar delirando se disser que havia ali um cosmopolitismo
concentrado e consciente do grande contraponto de diferenças que fez da
América o continente do encontro dos continentes (“Que continente
loco!”, me exclamou o venerando Mesías Maiguashca, o índio equatoriano
de Stockhausen, enquanto ele saía e eu entrava no banheiro), e que tudo
isso encontra seu corpo material e imaterial na música. Digo mais: a
recente confirmação do poder de fogo do voto latino na eleição
presidencial norte-americana, e o rumo apontando para a inevitável
inclusão dos trabalhadores informais e irregulares na realidade dos
Estados Unidos, dava às discussões uma nova, mesmo que difusa, sensação
de autoridade.
O Brasil também desfruta dessa difusa nova sensação
de autoridade. Nada como aquela que eu senti, intimamente, quando
Claudia Neiva de Matos mostrou Geraldo Pereira cantando “A dama ideal”,
com a entoação tão relaxada e o show de pequenos nadas na voz, sambando
soberano sobre a neve de Nova York.
Não creio que Ruy
Castro se irrite ao ver que entro de carona no seu barco. Esta semana,
em sua crônica na Folha, ele se referiu à invasão tecnológica do mundo,
concluindo: me incluam fora. Não tem medo de ser chamado de jurássico,
assim como não tenho medo de ser considerado anacrônico, por
compartilhar ideias. A verdade é que todo esse aparato não me tem feito
mais feliz. Assim como não tem acrescentado tanto à vida dos que têm mil
aplicativos no celular, os que possuem Instagram, os que acessam
internet no meio da rua, no metrô, no táxi, no estádio. Falando em
estádio, dia desses, estava no Pacaembu e vi um sujeito com um
smartphone (ou o que seja) assistindo a um jogo. Quando percebi, ele
estava vendo pela televisão o jogo que se desenrolava ao vivo à sua
frente. Fiquei perplexo!
Se os
eficientíssimos serviços de repressão cubanos, que há anos espionam
Yoani Sanchez dia e noite, tivessem descoberto a menor prova de suborno,
a "agente milionária da CIA" já estaria presa. É sintomático que, para
eles, alguém só discorde do governo se levar dinheiro. Freud diria que
estão falando deles mesmos.
Antigamente eles queriam ser mais realistas que o rei, hoje
tentam ser mais tirânicos que os tiranos, como mostraram os protestos
contra Yoani em Recife, Salvador e Feira de Santana, não só com gritos e
faixas, mas esfregando dólares falsos no seu rosto e puxando os seus
cabelos.
Fala-se demais na blogueira por motivos dos mais variados. Qual o subtexto que mais lhe convém?
Impossível não se deixar cativar pela figura da blogueira Yoani
Sánchez. Não me lembro de latino-americana tão multifacetada desde que
minha tresloucada amiga Buci, digo, Cleide apresentou-me à Mercedes
Sosa e ela cantou choramingando na minha orelha: "Ai, la
libertaaaaaad!". Isso foi, se bem me recordo, em um almoço na casa da
Ruth Escobar, lá pelos idos de 1807, com a Independência do Brasil
batendo à porta.
Uma petista levantou e gritou: "Se a Dilma continuar a usar Crocs, eu mudo de partido"
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da
República! Festival de Piadas Prontas! Direto de Curitiba: "Ladrão de
picanha tem carne até no nome". Um cara roubou cinco peças de picanha e
duas de filé-mignon num supermercado, como é o nome dele? Augusto
Malacarne Siqueira!
Colunista reflete sobre os cidadãos digitais que queremos formar
Em edições recentes, esta coluna foi abduzida pelo óvni que faz a
ponte-aérea entre a abundância e o vazio. O assunto anterior era mais
relevante: educação para o século XXI. Onde parei? Na recomendação
megalomaníaca de que todos os estudantes completassem o Ensino Médio
dominando a linguagem de computação C++. Isso seria passo para a criação
de um Vale do Silício brasileiro. Minha meta: deixarmos de ser apenas —
como já somos — campeões de consumo de internet; precisamos também
inventar o futuro da rede global de informação. Meus leitores devem
saber que sou como o cara da canção do Caetano: “Eu nunca quis pouco,
falo de quantidade e intensidade”.