BRASÍLIA - Entrevistei uma vez, nos anos 80, um amigo de infância
de Ulysses Guimarães. Soube que o pequeno Ulysses, na faixa dos dez
anos de idade, já falava em ser presidente da República.
O sonho durou 60 anos. Virou obsessão. Quando estava ao alcance da mão,
era tarde demais. O Brasil era outro. Queria outros nomes. Qualquer
observador atento sabia das poucas chances de Ulysses na eleição
presidencial de 1989. Menos ele. Nas urnas, ficou num humilhante sétimo
lugar, com meros 4,4% dos votos.
A história me veio à memória depois de assistir aos discursos recentes
de outros dois peemedebistas obcecados. Renan Calheiros e Henrique
Alves. Eles foram eleitos para comandar o Senado e a Câmara dos
Deputados, respectivamente.
SÃO PAULO - A Folha publicou anteontem editorial em que
criticou a crescente utilização, pelos EUA, de aviões não tripulados, os
temíveis drones, para eliminar suspeitos de terrorismo. Não há dúvida,
como frisou o editorial, que a disseminação de tal prática se configura
como aplicação da pena de morte sem o devido processo legal -uma
aberração jurídica-, mas existe um outro aspecto que eu quero destacar.
O Carnaval mais animado do planeta é em Curitiba e com a namorada menstruada. E chovendo!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da
República! Oba! Faltam três dias pro Carnaval! E a manchete do Piauí
Herald: "Dilma distribui abadás para a base aliada".
E a oposição? A oposição fica na pipoca mesmo! Já imaginou o Aécio todo
mauricinho pulando na pipoca? E a marchinha oficial? "Mamãe, eu quero/
Mamãe, eu quero/ Mamãe, eu quero mamar/ Dá ministério/ Dá ministério/
Pro PMDB não chorar."
Apesar
do frio e da neve, o ano em Berlim começa em alta, com três momentos
que marcam o calendário de inverno da cidade: a Fashion Week, a
Transmediale/CTM e o Festival de Cinema de Berlim
Apesar do frio e da neve, o ano em Berlim começa em alta, com três
momentos que marcam o calendário de inverno da cidade: a Fashion Week, a
Transmediale/CTM e o Festival de Cinema de Berlim. Estes eventos
acontecem na sequência trazendo novas caras, novos ares e muitos
visitantes talentosos à cidade.
Levantamento inédito, que vai virar livro e guia, mapeia a rica e desconhecida produção cultural de cinco comunidades pacificadas
Mauro Ventura
Gilberto Vieira (à esquerda) e Jorge Barbosa, do Observatório de Favelas, na Maré, estão à frente da pesquisa cultural
Mônica Imbuzeiro
Tem o Chorando à Toa, grupo de choro da Rocinha. E o Teatro Trevo,
companhia de dança de rua da Cidade de Deus. Tem ainda a RT Pipas, do
Complexo do Alemão, que, como o nome indica, fabrica e vende pipas. Já a
Unidos de Manguinhos ensina a tocar instrumentos e a sambar na quadra
da escola de Manguinhos.
A nova formatação das Mesas da Câmara e do Senado, definida no fim de
semana, vai exigir da presidente Dilma Rousseff mais negociação com
deputados e senadores. É certo que tanto Renan Calheiros quanto Henrique
Eduardo Alves, respectivamente, assumem as presidências das duas Casas
fracos em virtude das acusações de malfeitos feitas contra eles no
período que antecedeu as eleições. Mas as pressões e interesses em jogo,
no último biênio do mandato de Dilma Rousseff, vão muito além do PMDB, e
podem ter reflexos sobre a economia e a atividade empresarial.
Coronel da reserva garante que boate tinha plano de prevenção a incêndio
Foto:
Lauro Alves / Agencia RBS
Francisco Amorim e Lizie Antonello*
A boate Kiss só foi aberta em 2010 porque o então major Daniel da
Silva Adriano considerou o local seguro para o público. Mesmo sem um
Plano de Prevenção e Combate a Incêndio — fato que ele nega —, o oficial
assinou o alvará do Corpo de Bombeiros, permitindo que a casa noturna
fosse autorizada a funcionar pela prefeitura. Conhecido na sociedade
santa-mariense, Adriano, que chegou a ser chefe regional da Defesa
Civil, agora é coronel da reserva.
Em entrevista ao Diário de Santa Maria e Zero Hora (veja abaixo)
afirmou ter feito "tudo dentro das normas" ao assinar o alvará que
chancela segurança na Kiss — palco da maior tragédia da história gaúcha,
que vitimou, até agora, 237 jovens. Outros personagens, citados no fim
desta página, ajudam a entender o papel de cada órgão e servidor na
concessão do alvará de funcionamento da boate.
Com Renan Calheiros na presidência do Senado e Henrique Alves na da
Câmara, o PMDB se consolida no comando do Congresso e se fortalece na
negociação para as eleições de 2014. Porém, assim como os novos
presidentes das duas Casas, vários integrantes das duas Mesas Diretoras e
líderes de bancada são investigados ou citados em escândalos. Ao chegar
para tomar posse, Renan enfrentou protestos.
Tudo dominado
Com vitória de Henrique Alves, PMDB lidera Congresso e ocupa linha sucessória de Dilma
Isabel Braga, Cristiane Jungblut
BRASÍLIA - Favorito e com o apoio de 20 partidos, o deputado Henrique
Eduardo Alves (PMDB-RN) foi eleito ontem novo presidente da Câmara dos
Deputados com 271 votos, um placar que ficou aquém da vitória
acachapante que os peemedebistas esperavam. Cacique do partido e com 11
mandatos como deputado federal, Alves venceu outros três candidatos no
primeiro turno, mas com apenas 22 votos além dos 249 exigidos
regimentalmente. Os peemedebistas apostavam em adesão de pelo menos 300
deputados. A avaliação foi que a traição partiu principalmente do PT, do
PSD e até mesmo do PMDB.
O Brasil está interiorizando seu desenvolvimento. Basta averiguar um
traço espacial da economia brasileira em 2012: o PIB da Região
Centro-Oeste apresentou crescimento de 3,3%. Apesar de modesto, esse
valor foi sete vezes maior do que o verificado na Região Sudeste, que
subiu apenas 0,5%. Rumo ao interior.
É muito interessante perceber tal fenômeno, apontado pela
consultoria Tendências. Onde impera o setor industrial - em São Paulo,
Minas Gerais e Rio de Janeiro, parte também no Espírito Santo - anda
capengando o País. Já onde domina a agropecuária - nos Estados de Goiás,
Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e até no Distrito Federal -
instala-se um círculo virtuoso de prosperidade. Embora sofrendo as
deficiências da infraestrutura logística e, de certa forma, amargando o
descaso do governo, os agronegócios têm animado a economia brasileira.
Os preços atraem muita emoção quando se mexem. É natural, alguns ganham e
outros perdem. Mas os preços fazem parte do funcionamento das
economias. Há preços dos bens e serviços, mas também do trabalho
(salário), do dinheiro e do tempo (juros), das empresas (ações) e até da
nossa moeda em relação às outras (câmbio). A tentação dos governos é
mantê-los sob mira curta, por diversas razões. Certamente para combater a
inflação e evitar excessos derivados de monopólios, porém, em alguns
casos, para tentar influenciar os rumos da economia.
A questão é que os preços têm um papel público também: eles
sinalizam quando sobra ou falta algo. Afinal, a lei mais conhecida da
economia é a da demanda e oferta, em que os preços sobem quando falta o
produto e caem quando sobra. Um preço subindo pode não ser apenas sinal
de injustiça ou inflação, mas de escassez ou ineficiência que mereça
atenção. A liberdade dos preços traz a transparência necessária para
ajudar na correção de rumos, muitas vezes de forma natural, quando eles
sobem para reduzir o consumo e aumentar a oferta (ou vice-versa).
Duas questões relevantes e interligadas surgem deste início de ano
legislativo: que impacto o controle das duas Casas legislativas pelo
PMDB pode causar sobre a dinâmica política? Mais especificamente, em
que medida ver-se-iam alterados os fundamentos das relações entre o
Executivo e o Legislativo?
É importante assinalar, antes de mais nada, que o cenário que
desponta é o de continuidade. As escolhas de Renan Calheiros e Henrique
Alves não resultam de um realinhamento de forças na base governista
nem de movimentos inesperados do chamado "baixo clero". Tratou-se, nos
dois casos, da consagração de entendimentos entre as lideranças do
Legislativo a respeito de como conduzir o processo político intramuros.
O noticiário dos jornais sobre as consequências do incêndio na boate
Kiss, no Rio Grande do Sul, tem um tema predominante: as providências
que estão sendo tomadas em outros estados para evitar tragédias
semelhantes.
Ainda bem: é sempre sensato correr na frente do
prejuízo. Aqui, por exemplo, o governo estadual e a prefeitura carioca
decidiram suspender os espetáculos em 49 espaços culturais, que incluem
13 teatros, que funcionam sem autorização dos bombeiros. A plateia
agradece. Mas os cidadãos mais sensatos não podem evitar a pergunta
óbvia: porque isso só acontece ante o impacto de uma tragédia?
O congressista bateu no peito e me disse, em alto e bom som:
"Vocês não sabem o que é a mente de um deputado ou senador.
Durante muito tempo, fomos criticados como os mais corruptos soldados do
atraso nacional, porque os brasileiros vivem angustiados, com sensação
de urgência. Problema deles: apressadinhos comem cru. Nosso conceito de
tempo é outro. É doce morar lentamente dentro dessas cúpulas redondas,
não apenas para 'maracutaias' tão "coisas nossas", mas porque temos o
direito de viver nosso mandato com mansidão, pastoreando nossos
eleitores, sentindo o 'frisson' dos ternos novos, dos bigodes pintados,
das amantes nos contracheques, das imunidades para humilhar garçons e
policiais. Detestamos que nos obriguem a 'governar'.
Inventaram as tais 'fichas limpas', nos xingavam de tudo, a
ponto de nossa credibilidade ficar realmente abalada. Pensamos muito no
que fazer para limpar o nome do Congresso. Mas a pecha de traidores
colou em nós. Não podíamos ficar expostos à chacota da opinião pública,
nem ser admoestados pelo Supremo Tribunal Federal, que resolveu se meter
em política, principalmente depois que aquele negão pernóstico (bons
tempos em que chamávamos mulatos cultos de 'pernósticos'), resolveu
pegar em nosso pé.
Renan Calheiros, Henrique Alves e Eduardo Cunha oferecem uma síntese do estado das instituições
É uma situação sem precedente na história parlamentar brasileira: o
eleito para a presidência do Senado, o eleito para a presidência da
Câmara dos Deputados e o eleito para a importante, quando não decisiva,
liderança na Câmara do partido-chave para o governo, estão pendentes de
inquéritos e decisões judiciais. Por diferentes motivos, mas não por
coincidência, os três já foram ou estão investigados em improbidades
financeiras.
A coincidência se dá no Judiciário: os processos de Renan Calheiros,
Henrique Eduardo Alves e Eduardo Cunha entram em ano após ano, mas em
pautas de julgamento jamais são chamados a entrar.
RIO DE JANEIRO - Emocionante o documentário de Geneton Moraes
Neto exibido pelo canal Globo News no último sábado, sobre Joel
Silveira, apresentado como o "maior repórter brasileiro". Pessoalmente,
duvido sempre de expressões como "o maior" isso ou aquilo. O próprio
Joel considerava João do Rio como o maior repórter, e eu sempre
discordei dessa escolha. Conheço uns cinco que foram melhores do que
ele, o Joel inclusive.
BRASÍLIA - Renan Calheiros, presidente do Senado, e Henrique Eduardo Alves, presidente da Câmara, têm muito em comum.
Os dois são do PMDB, partido do vice-presidente da República, Michel
Temer. Vêm de Estados menores, Renan de Alagoas e Henrique do Rio Grande
do Norte. Estão às voltas com o Ministério Público por práticas
públicas heterodoxas.
São também parlamentares muito experientes, que conhecem cada canto e
cada segredo do Congresso e ascenderam a cargos nacionais sendo
essencialmente políticos regionais, que poderiam ser de São Paulo, do
Rio ou de qualquer outro Estado, mas sempre com teto regional.
SÃO PAULO - Em seu discurso ao plenário do Senado, na sexta,
Renan Calheiros levantou uma questão interessante. Disse que a ética é
um meio, e não um fim em si mesmo. Vale explorar mais a afirmação.
Num sentido muito trivial, o novo presidente do Senado tem razão. Exceto
por alguns kantianos patológicos, ninguém sustenta que a ética é a meta
final da humanidade. As pessoas costumam escolher outros objetivos para
dar significado às suas existências, como a salvação, no caso de
religiosos, ou apenas viver uma boa vida, como preferimos os incréus
Mas como responder aos direitos das "mães de aluguel"? Ou até dos "filhos comprados"?
É um dos vícios do mundo moderno: a crença patética de que tudo é
possível, tudo é permissível. Ou, como diziam os filhos do maio de 68, é
proibido proibir.
Um caso ilustra esse vício com arrepiante precisão: as "barrigas de aluguel".
Li a excelente matéria de Patrícia Campos Mello publicada nesta Folha no
domingo. E entendo a pergunta que anima o negócio: se um casal não pode
ter filhos por infertilidade da mulher, por que não contratar os serviços de uma "mãe de aluguel", que terá o seu óvulo fecundado pelo espermatozoide do pai adotivo?
A gente cria apego. Eu cresci vendo o Sarney pela televisão. O Sarney e a Xuxa! Rarará!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da
República! Adorei a charge do Paixão! Sabe o que o Sarney falou pro
Renan? "Cuida bem, que eu volto já!" Saudades do Sarney! A gente cria
apego. Eu cresci vendo o Sarney pela televisão. O Sarney e a Xuxa!
Rarará!
E olha o e-mail que recebi de um baiano: "O Carnaval tá quase acabando e
você não veio!". É que hoje, no Nordeste, se você ligar um
liquidificador, sai todo mundo correndo atrás pensando que é trio
elétrico!
A diretoria do Grêmio promete preservar a área da geral de seu novo estádio, onde aconteceu um desagradável acidente na semana passada. A grade de proteção não suportou o peso da avalanche após o gol de Elano contra a LDU, o susto deixou uma dezena de feridos. O fato de o primeiro jogo oficial da casa gremista não ter sido marcado por um desastre é um alívio, por diversos motivos. O principal é o óbvio. Outro é a possibilidade de discutir a questão com tranquilidade.
Vozes se levantaram contra a proibição do tipo de comemoração que parte da torcida do Grêmio gosta de fazer. Um tanto precipitadas, talvez, e condicionadas pela reação típica dos poderes a situações dessa natureza. Proíbe-se, nesses casos, apenas para dar uma satisfação. Passa-se ao largo da solução, por mais trabalhosa. O clube gaúcho agiu corretamente ao interditar o local para, primeiro, entender o que houve. Coleta de informações.
Desnecessário acrescentar que a grade em questão não poderia ter cedido. Não apenas porque o estádio é zero quilômetro. No projeto da Arena, a geral foi desenhada para acomodar o grupo de torcedores que faz a avalanche. Aquele é o lugar deles. Não é exagero dizer que a comemoração característica é tão parte da obra quanto os camarotes. Agrade estava ali para aguentar a avalanche. Foi feita para tanto.
A decisão sobre o futuro da geral passa por conversas com as autoridades em Porto Alegre. A capacidade do local (cerca de 10 mil pessoas) foi reduzida para 8 mil torcedores para os jogos do final do ano passado, justamente por questões de segurança. Pelo mesmo motivo, foram instaladas barras antiesmagamento que diminuíram o espaço da avalanche. É necessário que se encontre uma configuração que permita que os gols do Grêmio e a avalanche convivam sem que as pessoas se machuquem. A opção mais fácil de todas é liberar e expôr os torcedores.A segunda mais fácil é proibir. A solução está no meio do caminho.
O pior resultado possível do acidente da quarta-feira não é o fim da avalanche. É a instalação de cadeiras num setor popular do estádio. A capacidade total cairia em cerca de 4 mil pessoas, privando o time de apoio. E o torcedor perderia a chance de ver o Grêmio pagando menos pelo ingresso. A descaracterização da geral da Arena seria um equívoco do clube e um golpe para a torcida.
Volto ao exemplo do Borussia Dortmund, citado em coluna recente. A chamada Muralha Amarela do Signal Iduna Park (o velho, histórico e espetacular Westfalenstadion) é um espaço de 25 mil pessoas atrás de um dos gols, que o clube reserva para torcedores de baixo poder aquisitivo, especialmente os jovens. Carnês para todas as rodadas em casa do Campeonato Alemão, e as três partidas da fase de grupos da Liga dos Campeões, custam 11 euros por jogo. Com cadeiras, o Dortmund lucraria mais 5 milhões de euros por ano, mas prefere proteger o torcedor que lota o setor.
Estádios, modernos ou não, devem ter lugares para todos os bolsos. No futebol brasileiro, não há missão mais importante do que ocupá-los. Que o Grêmio acerte em sua decisão.
Descobri que havia um histórico perturbador de processos por causa de
menções a marcas, empresas ou produtos em contexto negativo dentro de
livros de ficção
Em meu livro “Até o dia em que o cão morreu” há um diálogo em que o
narrador, um sujeito um tanto amargo e formado em Letras, informa à nova
namorada que “deu aula em um desses cursos falcatrua de inglês, tipo
Yázigi”. A namorada defende a escola de idiomas, dizendo que estudou lá
durante sete anos e fala inglês muito bem. O narrador retruca: “É isso,
eles levam sete anos pra ensinar inglês pra alguém.”
Isso está na
edição original de 2003, uma publicação independente. Quando o livro foi
reeditado pela Companhia das Letras, em 2007, a menção ao Yázigi
precisou ser cortada, depois de uma, digamos, recomendação enfática dos
editores. Descobri que havia um histórico perturbador de processos por
causa de menções a marcas, empresas ou produtos em contexto negativo
dentro de livros de ficção. A editora quase sempre perde. Também
acontece de advogados oportunistas caçarem nomes de empresas fictícias
para encontrar uma empresa real que tenha o mesmo nome e tentar descolar
uma graninha.
Documentário mostra importância de um dos maiores atores e campeões de bilheteria do Brasil
Mazzaropi
RIO - Mito supremo do cinema rural no Brasil, capaz de enfileirar um
blockbuster atrás do outro numa carreira de 32 filmes, Amácio Mazzaropi
(1912-1981) morreu aos 69 anos rodeado por folclores das mais variadas
espécies. O repertório de causos a seu respeito vai de (supostas)
aventuras sexuais com galãs estreantes a maquinações (nem sempre
generosas com seus funcionários) como homem de negócios, passando a
hipóteses improváveis acerca da dilapidação de sua fortuna, estimada por alguns em R$ 30 milhões e por outros em R$ 300 milhões, mas nunca devidamente quantificada.
A
mais recorrente das lendas é que apenas com os habitantes de Taubaté —
cidade paulista onde construiu casa, produtora (PAM Filmes) e um império
comercial — seus longas-metragens já pagavam seu custo de produção. O
que vinha do resto do país, portanto, era lucro. Muitas dessas histórias
— as mais saborosas — são relembradas (e algumas delas comprovadas) no
documentário “Mazzaropi”, primeiro longa-metragem do crítico Celso
Sabadin, já finalizado e à espera de uma data de estreia.
A Europa continua sob o fogo cerrado de uma crise econômico-financeira
sem precedentes. Os números do desemprego na Espanha, por exemplo, são
assustadores. Dados divulgados recentemente apontam que 26% da população
está sem trabalho, totalizando quase 6 milhões de pessoas. Mais da
metade dos jovens está sem emprego.
Assiste-se ao comprometimento de toda uma geração. O país vive uma fuga
crescente de jovens talentos. Em um ano, a população de 20 a 24 anos
diminuiu em 100 mil pessoas; de 25 a 29 anos a queda foi de 150 mil. O
impacto da crise entre os jovens preocupa as autoridades e suscita
análises sociológicas.
A juventude europeia não foi preparada para a adversidade. A frustração apresenta uma pesada fatura:
violência, aborto, doenças sexualmente transmissíveis, aids e drogas. A
ausência de cenários promissores compõe a trágica equação que ameaça
destruir o sonho juvenil e escancarar as portas para uma explosão de
contestação.
O quadro brasileiro é bem diferente. Felizmente. Temos, é certo,
muitos problemas - violência, drogas, corrupção, desigualdade, baixa
qualidade da educação -, todavia somos um país de gente alegre, com
capacidade de sonhar. Expectativa de futuro define a vida das pessoas e o
rumo das sociedades. "O Brasil", dizia-me um conhecido jornalista
espanhol, "tem muitas coisas que não funcionam." Mas acrescentou: "Vocês
têm problemas, porém têm alegria, fé, futuro. Nós, europeus, perdemos a
esperança".
Reitora da Universidade de Michigan vê riscos para instituições com maior produção científica
Em aula. Estudantes em auditório na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos
Na metade do século passado, o estado de Michigan vivia seu apogeu
econômico, impulsionado pela indústria automobilística sediada em
Detroit, até então a quarta maior cidade dos Estados Unidos, com dois
milhões de habitantes. Naquela época, a Universidade de Michigan, a
principal do estado, era mantida basicamente com recursos públicos,
fonte de 70% de sua receita. A chegada dos carros japoneses, no entanto,
foi um duro golpe na hoje decadente indústria automobilística local.
Detroit, maior símbolo dessa crise, viu sua população encolher para 700
mil habitantes. Em muitas áreas, mais parece uma cidade-fantasma.
A condenação de importantes quadros políticos no julgamento do
mensalão talvez tenha suscitado a miragem de uma revolução ética em
curso no País, gerando uma redução drástica dos graus de tolerância com a
corrupção, desvios de conduta e atitudes mal explicadas. Some-se a isto
o sucesso da Lei da Ficha Limpa, que nas últimas eleições barrou País
afora centenas de candidatos condenados em órgãos colegiados do
Judiciário.
Imaginar-se-iam extintos episódios como a eleição de um Renan
Calheiros para a presidência do Senado - ele que, há poucos anos,
renunciou a esse cargo ao ser colhido num escândalo de pagamentos de
pensão por lobista e notas fiscais obscuras em negócios com gado.
Tenho ressaltado nos últimos dias a importância da fatalidade ao redor dos fatos humanos.
Notem bem o caso da jovem Mariana Lucher, com 23 anos, que sábado
passado dirigia seu carro pela estrada, em Rosário do Sul, quando o
veículo saiu da pista e foi se chocar contra um barranco.
Ocorre que havia uma colmeia de abelhas no barranco, que foi atingida pelo carro.
Não sei se a jovem estava dentro do carro ou foi despejada dele pelo choque quando as abelhas a atacaram.
Bebia-se muito. Naquele tempo, éramos todos muito jovens, e o corpo
aguentava coisas que não gosto nem de lembrar. Eu mesmo, hoje um
abstêmio convicto e radical, fui parar duas vezes no pronto-socorro em
coma alcoólico. Um deles durante o desfile do Carnaval de Pelotas, em
que eu fazia o papel de Princesa do Bloco das Almôndegas.
Modéstia à parte, eu estava belíssima, enfiada num peignoir azul que
minha mãe tinha usado na noite de núpcias. Arranquei suspiros na
avenida e, máximo dos máximos, conquistei o coração de um velho bêbado. A
ponto de ter que pedir ajuda aos amigos para me livrar do admirador que
não largava do meu pé, ou melhor, da minha cintura.
Cabe ao poder público fazer a sua parte. Mas fazer mesmo, sem
escamoteações. Diminuiu muito a margem para os governantes lenientes e
para os servidores relapsos.
Passada a primeira semana de comoção pelo dramático episódio de Santa
Maria, o país precisa transformar a dor, a revolta e a indignação em
ações pragmáticas destinadas a efetivamente assegurar um futuro melhor
para seus jovens. Talvez precisemos de décadas ou mesmo de séculos para
alcançarmos o estágio cultural de povos orientais que priorizam a
educação, a ética e o cumprimento rigoroso das normas sociais, mas,
enquanto isso não ocorre, podemos adotar medidas pontuais que assegurem
avanços na segurança, na ordem pública e na preservação dos valores da
vida _ independentemente da investigação policial em curso e das
propostas de mudanças na legislação.
A questão mais premente no momento é a vistoria geral das casas
noturnas e dos locais de grande afluência de público, para que não se
repitam as condições de negligência que provocaram o desastre do dia 27
de janeiro. Entre as medidas esperadas e indispensáveis, está o
cumprimento pelos empresários de todas as exigências da legislação e
dos órgãos públicos responsáveis pela autorização de funcionamento de
tais casas. Como diz o antigo ditado, quem não tem competência que não
se estabeleça. Chega de tapeação, de puxadinhos, de transformar locais
de diversão em armadilhas. Tais atitudes, invariavelmente motivadas pela
ganância, tornaram-se ainda mais intoleráveis depois dos traumáticos
acontecimentos de Santa Maria. E são criminosas _ não há mais como
relevar isso.
Conselhos que dou de graça ao recém-eleito presidente do Senado,
Renan Calheiros (PMDB-AL). Nada de voar em avião de carreira a não ser
para o exterior. E sob a condição de ser o último passageiro a
embarcar na primeira classe, discretamente. Assim evitará o risco de
ser - ofendido pelos demais passageiros da econômica. Pelo mesmo
motivo, nada de frequentar shoppings. Em Maceió, talvez seja possível.
CUIDADO REDOBRADO quando estiver em Brasília. Aqui todo mundo
conhece todo mundo. Nem mesmo disfarçado dá para bater perna à beira do
Lago Paranoá. Matricular-se em academias? Nem pensar. Lembre-se:
Brasília sediou as maiores manifestações pelo impeachment do
ex-presidente Fernando Collor em 1992. E do ano passado para cá,
passeatas e comícios contra a corrupção.
Um projeto de lei aprovado pela Assembleia Legislativa de São Paulo
impunha restrições à publicidade de alimentos e bebidas, consumidos
pelo público infantil, que contivessem alto teor de açúcar, gordura ou
sódio. O projeto foi fundamentadamente vetado pelo governador. Dentre
outras razões, a disciplina da publicidade é reservada à lei federal
(Constituição, art. 22, XXIX). Vale dizer: leis estaduais ou municipais
não podem proibir publicidade, por determinação constitucional
expressa. Essa regra aumenta a visibilidade e a abrangência do debate,
evita a multiplicidade de regimes jurídicos e reduz o risco de
restrições arbitrárias.
O precedente de São Paulo assume uma importância ainda maior pelo
fato de a mesma discussão estar sendo desenvolvida em outros Estados e
até mesmo em alguns municípios. Em quatro deles - Belo Horizonte,
Florianópolis, Goiás e Rio de Janeiro - já houve projetos igualmente
vetados com fundamentação semelhante. Segundo os defensores desse tipo
de iniciativa, o objetivo central é a proteção das crianças, que seriam
mais vulneráveis ao efeito persuasivo da mídia e acabariam sendo
induzidas ao consumo exagerado. Um propósito certamente legítimo e
desejável. No entanto, o maniqueísmo é quase sempre uma representação
precária e distorcida da verdade. Ninguém é contra a promoção da saúde
infantil. A questão é definir como isso deve ser feito e de que forma
esse objetivo deve ser conciliado com outros, também relevantes.
O
Brasil é um país espinhoso e impreciso. A felicidade é prisioneira da
má administração das cidades onde a autoridade, flagrada em omissão,
clama pela redundância das leis. Entre nós, a esperança se escandaliza e
vira pó. Em qualquer família estão os pais dos jovens triturados em
Santa Maria. Tragédias evitáveis e arbitrariedades são manifestações
replicantes do terror na vida cotidiana.
O
plenário da Câmara dos Deputados não tem habite-se e reúne mais
deputados do que o Brasil precisa. Superlotado, o lúgubre vespeiro que é
seu interior não resiste ao pânico. Se houver sincera agitação, por
medo ou violência metade dos deputados morre esmagada, para alegria de
quem não vê seriedade na política. Não há janelas, saída de emergência,
tudo é carpete, pelas portas não passam duas pessoas às pressas. Até
recentemente, nos ministérios não havia escadas contra fogo. Quem rumina
mórbidas fantasias da destruição dos três poderes fique sabendo que a
maioria das prefeituras, fóruns e câmaras de vereadores funciona sem
alvará.
Quem se pergunta qual a importância, para o Brasil, de um candidato do
país à direção-geral da Organização Mundial do Comércio deveria
refletir sobre outra pergunta, mais relevante: qual a importância da
OMC para o Brasil? É a resposta para essa indagação que justifica o
lançamento do diplomata Roberto Azevedo como candidato ao comando dessa
instituição multilateral. É também essa questão que permite situar
mais corretamente certas críticas fora de foco à estratégia de
negociação comercial adotada nos últimos anos pelo Brasil.
É frequente e equivocada a comparação
entre o Brasil e países como Chile e México, os brasileiros atrelados
ao Mercosul, com uma rede medíocre de acordos de livre comércio, e os
outros dois (com Colômbia, Peru e outros) ligados a uma rede em expansão
de acordos de redução de barreiras comerciais. O primeiro equívoco é
atribuir a falta de acordos exclusivamente ao governo e à suposta
influência do "lulopetismo" na estratégia comercial, como se não fosse o
influente setor privado brasileiro um dos maiores opositores, no
passado e mais ainda agora, à derrubada de tarifas e barreiras que
orienta toda negociação de comércio.
Em 2012 as paixões se exaltaram no Brasil, com o julgamento de um caso que até no nome mostrou uma divisão política acentuada: mensalão, diziam uns, Ação Penal 470, diziam outros. O Judiciário condenou o líder petista que foi o principal ministro do primeiro governo Lula. A discussão do assunto tem-se confinado ao Brasil. Mas a experiência do maior país da América Latina encontra paralelos numa potência regional da Ásia, o Paquistão, e num dos principais Estados que saíram da ex-União Soviética, a Ucrânia.
Yulia Tymoshenko ficou famosa pela imagem e pela ação. Ela é a loura de cabelos trançados que em 2004 liderou a Revolução Laranja, contra o governo da Ucrânia, que teria fraudado as eleições. Depois de intensas manifestações, com a simpatia da mídia internacional e o apoio dos governos ocidentais, ela chegou ao poder. Com idas e vindas foi primeira-ministra da Ucrânia até 2010, quando perdeu as eleições - e logo foi condenada à prisão. Responde a outros processos.
Devo a vida ao
Instituto Pasteur de São Paulo. Minha tia Sebastiana me dizia: "Ocê
nasceu porque vossa mãe foi mordida por um cachorro louco". Minha mãe,
ainda solteira, morava na roça, no bairro do Arriá, no Pinhalzinho,
quando foi mordida por um cão hidrófobo, aí por 1936. Morto o animal a
tiros, teve a cabeça cortada e colocada num saco de estopa. Meu tio
Pedro desceu a Serra das Araras a cavalo, levando o embrulho e, em outro
cavalo, minha mãe e sua irmã mais velha para que tomassem o trem em
Bragança e viajassem para São Paulo. Da Estação da Luz foram para o
Instituto Pasteur, na Avenida Paulista. Entregaram a cabeça do cachorro,
para confirmar a hidrofobia.
Um bunker
subterrâneo abriga, no começo do fim de semana, enquanto escrevo, um
menino de 5 anos que chora pelos pais. O bunker foi construído por Jimmy
Lee Dykes, de 65 anos, conhecido num município rural do Alabama por se
trancar lá dentro por vários dias. Tem eletricidade, comida e TV. Por um
tubo de ventilação, a policia passou remédios para o menino refém, que
sofre de autismo. O garoto foi arrancado por Dykes do ônibus escolar,
depois que seu captor executou o motorista do ônibus que se havia se
recusado a entregar dois outros meninos.
O captor armado é possivelmente doente mental. Mas, na narrativa
fronteiriça americana, pode se passar por um excêntrico com
temperamento violento, exercitando seus direitos fantasiosos sob a
segunda emenda da Constituição. Ele estava intimado a comparecer a um
tribunal depois de ter feito disparos contra uma vizinha, o filho e o
neto da mulher, aborrecido com uma disputa por um quebra-molas na
estrada de terra batida onde vive.
Não tem mais Carnaval, acabaram com o que é da cultura, roubaram tudo
Sambista diz que não há mais bailes nem enfeites pelas ruas do rio e arma sua própria festa em xerém
ROBERTO DIASENVIADO ESPECIAL AO RIOZeca
Pagodinho acaba a entrevista, cantarola Bezerra da Silva ("Favela
quando é favela, não deixa morar delator") e conta logo qual é a boa:
"Vou no jogo [do bicho] ali um bocadinho. Todo dia vou para o maldito
daquele jogo. Ah, mas é ali que eu sei de tudo: que barracão que está
pronto, quem vai sair. Sambista, jogo, futebol e bicheiro: está todo
mundo junto."
Além do aumento do preço da gasolina, anunciado pelo governo federal, a
Petrobras voltou a entrar em evidência, semana passada, ao perder o
posto de maior empresa da América Latina.
O jornal "Financial Times", um dos mais respeitados no mundo na área financeira, colocou a colombiana Ecopetrol no topo do
ranking das empresas de maior valor de mercado. As ações da Petrobras
perderam 45% do valor ao longo dos últimos três anos, de acordo com a
publicação britânica.
Vejo mesmo o comercial: "Dê a seu filho o que você tem de melhor, Bradesco Biotecnologia"
Você vai ao médico, ele pede um exame de sangue e você descobre que seu filho terá síndrome de Down. O que você faria?
Pensará nos custos? Você não é uma pessoa excepcionalmente egoísta, mas,
em meio a sua agenda, como conseguirá lidar com uma criança assim? A
agenda já é pesada com trabalho, sexo top (lembre-se: gostosa sempre!),
estudos na pós-graduação (afinal, hoje em dia é imperativo agregar valor
à vida profissional e pessoal), férias...
Representar é tornar presente o ausente, é trazer para perto o distante; o problema é a falsificação
Paulo Liebert/AE
Quem está fisicamente perto pode estar muito longe
Renato Janine Ribeiro
É comum se discutir que mudanças a internet trouxe para as relações
humanas. Como é este mundo pós-pós-moderno, diferente de tudo que antes
existiu? Uma imagem ilustra o que uns chamam de perplexidade, uma imagem
frequente, hilariante - e banal: cinco ou seis pessoas juntas, mas cada
uma mergulhada em seu laptop ou celular. Parecem ser um grupo, só que
não são, cada uma fechada em seu virtual.
Mas isso é mesmo uma
novidade? Porque o distanciamento de quem fisicamente está próximo é um
tema antigo na filosofia. Ele remonta pelo menos a Platão, no século 5º
antes de Cristo.
Tomie Ohtake relembra sua trajetória e celebra seu centenário com exposição em São Paulo
Audrey Furlaneto
A artista, que faz 100 anos em novembro, segue produtiva e pinta três
vezes por semana: “Agora só se fala em centenário. É engraçado. Nunca
senti os anos...”, diz, sorrindo
SÃO PAULO - Desde que trocou o Japão pelo Brasil, Tomie Ohtake nunca
aprendeu a pronunciar a letra “l”. Há 77 anos no país e consagrada como
uma das maiores pintoras brasileiras, para ela, galeria ainda é
“gareria” e tela vira “tera”. Às vésperas de iniciar as celebrações de
seus 100 anos (dia 21 de novembro), ela ri do próprio sotaque:
— Nunca “aprendeu” a falar português. Agora não “aprende” mais, né?
Mas Tomie fala com parcimônia. Como sua obra, ela é rigorosa, suave e de poucos elementos. Se um poema haikai trata do mundo em 17 sílabas, afirma, por que ela deveria usar mais?
Desde a Constituição de 1988 foram editadas, em média, 788 novas
normas a cada dia útil para reger a vida dos cidadãos brasileiros
As causas técnicas da tragédia de Santa Maria ainda são imprecisas e
certamente serão objeto de vasta perícia. Uma conclusão, no entanto,
parece inescapável. Negligência, imprudência e desrespeito à lei
caminharam de mãos dadas naquela noite.
Elas estão sendo arrancadas das fileiras de suas escolas por igrejas evangélicas, que demonizam o samba e o carnaval
Em um samba belíssimo, que embalou o carnaval de 1984 da Unidos de
Vila Isabel, Martinho da Vila fala dos sonhos da velha baiana, “que foi
passista/brincou em ala/dizem que foi o grande amor do mestre-sala”.Poucos
versos abordam com mais felicidade a ideia da escola de samba como uma
instituição comunitária, forjadora de elos entre segmentos populares
que, à margem das benesses do poder instituído, inventaram mundos e,
desta maneira, se apropriaram da vida e produziram cultura. A moça
passista, que desfilou como componente de ala, chegou ao final da
trajetória ungida baiana, matriarca do samba e de sua gente simples.
Não falam alto, não usam frases de efeito, não representam o que não são. Até porque o que são, ou foram, basta: todos comandaram o Shin Bet, o serviço de segurança de Israel, o mais reservado do mundo
Para quem é chegado a uma boa cabala, dois fatos ocorridos esta semana só poderiam ser atribuídos a algo além da coincidência. Em Genebra, o Conselho de Direitos Humanos da ONU produziu um duro relatório de condenação a Israel por sua política de assentamentos na Cisjordânia; é sugerida, pela primeira vez, a adoção de sanções políticas e econômicas contra o país. Poucos dias antes, em Beersheba, principal cidade do deserto de Negev, o Centro Médico da Universidade de Soroka anunciou que Ariel Sharon, que se encontra em estado vegetativo desde o AVC hemorrágico sofrido sete anos atrás, reagira a estímulos externos com “significativa atividade cerebral”.
O avanço do capitalismo no campo acaba com o ‘latifúndio improdutivo’,
ajuda a agricultura familiar e , assim, recolhe uma bandeira de
exploração ideológica
EDITORIAL O GLOBO
A concentração de terras em poucas mãos, herança do Brasil colonial,
alimentou, e ainda alimenta, muita luta política — embora hoje, menos. O
latifúndio é parte da história do país, seja como força política no
Império e na República Velha ou peça de exploração ideológica
principalmente na segunda metade do Século XX.
O termo “reforma
agrária” se tornou cativo de programas de governo, sempre encontrado em
discurso políticos. Mesmo sendo de uso corrente nas pregações de
esquerda, constou dos planos da ditadura militar. Espaço político em que
forças extremadas se aliaram a representantes da Igreja, a reforma
agrária emergiu na redemocratização como uma das bandeiras mais fortes. E
com as liberdades civis restauradas, o Movimento dos Trabalhadores Sem
Terra (MST), entre outras organizações, puderem agir sem cerceamentos
autoritários, como deve ser na democracia.
Conhecido no Planalto como Very Well, José Henrique Nazareth encerrou na
última semana uma jornada de 51 anos de trabalho no centro do poder
Luiza Damé e Catarina Alencastro
José Henrique Nazareth, conhecido como Very Well
Agência O Globo / Gustavo Miranda
BRASÍLIA — De contínuo a secretário do Comitê de Imprensa da
Presidência, Very, como é carinhosamente chamado, acompanhou a
trajetória de 12 presidentes. Começando por Jânio Quadros (1961), passou
pelos presidentes da ditadura e encerra a carreira no serviço público
com a presidente Dilma Rousseff, última mandatária do país a apertar a
mão do folclórico funcionário.
O jeito expansivo e alegre do
mineiro de Brazópolis, hoje com 78 anos, já lhe rendeu entrevistas em
jornais e até no programa de Jô Soares na TV. Para Very, as repórteres
são sempre Mary, e os repórteres, Johnny. É casado com a carioca Mirian,
servidora aposentada da Justiça, com quem tem sete filhos e 15 netos. O
apelido vem do interesse por outras línguas.
No pique da estreia do filme, jornalista e músico se encontram em
entrevista regada a vinho da Galileia e discordam, em harmonia, sobre a
viabilidade da política e o futuro da civilização
Arnaldo Bloch
Pedro Bial e Jorge Mautner
Leonardo Aversa
RIO
- Pedro Bial chega ao local do encontro, o Baixo Alto Leblon,
pontualmente. Munido de um relógio de mão atado às calças, por causa de
reações alérgicas a relógios de pulso, avisa que tem hora marcada para
voltar ao Projac. Jorge Mautner, por sua vez, está atrasado. Bial
provoca:
— Pro Jorge, compromisso ao meio-dia é a mesma coisa que madrugar.
Dez
minutos depois, Mautner chega suado: apesar de morar a 200 metros do
local, ele desceu a ladeira em vez de subir e teve que subir de novo,
como uma partícula incerta de Heisenberg, viciado que é em física
quântica: todos os caminhos levam a Roma.
Dos ditos populares, o mais irônico — pra não dizer cínico — é “Pra
baixo todo santo ajuda”. O dito não discute a existência de santos e sua
influência em nossas vidas, mas os divide em duas categorias, os poucos
que nos ajudam nos momentos difíceis, de grande esforço, como subir uma
ladeira, e a maioria que só se apresenta na hora da descida, quando nem
precisaríamos de ajuda. Seriam os santos oportunistas, atrás de uma
glória que não merecem.
Ganso é um excelente jogador. Mas parece que isso não basta. Ele tem que ser um gênio
A
atuação do Grêmio contra a LDU foi muito ruim. O time se limitou a dar
chutões, guerrear, correr e jogar a bola na área, para se livrar dela.
Não existiu futebol coletivo. Isso é muito frequente no futebol
brasileiro.
As vitórias acontecem em lances isolados, como o belo
gol de Elano, e porque o adversário pode ser, individualmente, muito
mais fraco.
Quando os times perdem, sem um jogo coletivo, colocam
a culpa na falta de comprometimento dos jogadores, como ocorreu com a
seleção brasileira sub-20.
Pior, contratam Bebeto para diretor técnico, sem nenhum preparo para o cargo. Além disso, Bebeto é deputado estadual pelo Rio, membro do comitê da Copa, embaixador do Mundial, sempre com um sorriso de submissão ao poder.
“Querido Fabrício! Amor tem reprise? Vale a pena ver de novo?
Estou apaixonada pelo ex. Depois de três anos longe e muitos
relacionamentos de ambos, nos reencontramos há dois meses numa festa. O
beijo foi da primeira vez, uma loucura! Porque não tivemos recaídas
antes, jamais tínhamos ficado. Agora a paixão veio com tudo, acrescidas
das neuras que fizeram o término da união. O que fazer? Beijo Catherine”
Querida Catherine,
Há uma morte separando vocês. Uma morte emocional. Por isso você o
chamou de fantasma. Para uma relação funcionar pela segunda vez, é
necessário absorver o que falhou na primeira vez.
Neymar teve um gesto bonito ao acusar de racismo o treinador do
Ituano, Roberto Fonseca, na quarta-feira. Não o gesto de acusar, mas o
fato de se colocar como negro.
A rigor, do modo como as tonalidades de pele são classificadas
através de usos e costumes do povo brasileiro, Neymar não pode ser
considerado negro. Faz parte, é claro, daqueles caprichosos cruzamentos
que originaram uma nova raça, legítima e inesperada contribuição
brasileira para o desenvolvimento da espécie humana, esperança, aliás,
pelo seu frescor e sua mistura consentida, de estudiosos de vários
matizes, Darcy Ribeiro entre os mais entusiasmados.
A tragédia que matou 236 jovens em Santa Maria (RS) leva a indagar:
afinal, para que servem as prefeituras? Os donos da boate e os músicos
que provocaram o incêndio tiveram culpa e, espera-se, serão punidos pela
Justiça, mas a responsabilidade maior foi da prefeitura, justamente
porque a ela cabe a ação preventiva de criar normas de segurança, exigir
seu cumprimento, fiscalizar e proteger a população. Levar conforto e
bem-estar para os habitantes da cidade é o foco central da ação do
prefeito. E proporcionar conforto é assegurar qualidade em saúde e
educação, eficiência em segurança, manter a cidade limpa, levar água
limpa e esgoto onde não há, enfim, cuidar das pessoas.
Após os dias tórridos da passagem do ano, São Paulo tornou-se mais
amena. As férias escolares, o trânsito menos atormentado, os cinemas
mais vazios e a temperatura agradável convidavam ao lazer. Assisti a um
filme admirável, Amour, no qual dois atores, Emmanuelle Riva e
Jean-Louis Trintignant, dirigidos por Michael Haneke, desenvolvem a
trama do relacionamento de um casal de velhos músicos que leva uma vida
confortável para os padrões europeus, embora sem serviços domésticos e
isolado dos familiares. Além do mais, contratempos na velhice podem ser
sofridos. O derrame da senhora não abala a ternura do marido. Mas o
cotidiano é duro: ela tem de ir ao banheiro carregada, o marido tem de
lhe dar de comer na boca, etc. Diante da piora da saúde da mãe a filha
tem dificuldades para entender e lidar com a situação, denotando mais
angústia do que afeição e, quiçá, alguma preocupação material com o que
possa sobrar. O genro é insuportável e os netos nem aparecem. Resultado:
os dois velhos vão se consumindo num mundo que é só deles, entre boas
recordações e desespero, até um derradeiro gesto de amor.
Se você não leu, sugiro que recupere e leia a crônica em que Ruy Castro, na Folha de S. Paulo,
dia 25 de janeiro, registrou seus 25 anos sem álcool. Não vou recontar
aqui o que esse baita escritor e jornalista contou lá, num depoimento
capaz de encorpar ainda mais a admiração não só literária e jornalística
que por ele tenho. Digo apenas que em lugar de trombetas, a que o Ruy
teria direito, o que se ouve ali é a surdina da humildade de quem,
depois de tanta luta, não dá a fatura por liquidada.
Além de me emocionar, a crônica avivou em mim a lembrança de outro
aniversário, bem mais modesto, no mesmo 25 de janeiro: meus 32 anos sem
cigarro. Se o Ruy não o fez por vitória tão maior, não sou eu quem vai
posar de herói. Até porque, confesso, não me custou tanto assim cortar
de uma hora para outra o hábito insensato de acender 60 cigarros por
dia. Não foi penoso como alguns anos antes, quando, fumando a metade
disso, parei por nove meses, num daqueles rompantes em que, sobranceiro,
o insuspeitado paladino da temperança entrega o maço para um e o
isqueiro para outro.
NOVA JERSEY - Certa tarde, em uma reunião de família durante as férias,
em San Diego, a cunhada de minha mulher mencionou, de passagem, que
alguns anos antes tinha ido a Tijuana comprar
drogas, para aumentar a fertilidade quando teve dificuldade de
engravidar de um segundo filho. As drogas eram muito mais baratas ao sul
da fronteira, ela explicou. A sala ficou em silêncio. Depois daquilo,
ela tivera gêmeos, um menino e uma menina, e a menina nascera com um
tumor cerebral. Hoje, com 10 anos, a menina sobreviveu. Mas cada dia seu
é uma dádiva.
Margô voltou de Paris com uma bolsa Vuitton. Contou para as amigas o
que passara para comprar sua bolsa Vuitton. Entrara numa fila enorme em
frente à loja Vuitton do Champs Elysées. No frio! Chegara a brigar com
uma japonesa ("Ou chinesa, sei lá") que tentara cortar a sua frente na
entrada da loja. Lá dentro, custara a ser atendida. Uma multidão. Mas
finalmente conseguira.
- E aqui está ela - disse Margô, mostrando a bolsa Vuitton como um troféu.
Foi quando aconteceu uma coisa que a Margô jamais esperaria. A Belinha mostrou a sua bolsa e disse:
Quem tem dinheiro para pagar advogado congestiona a Justiça, e a conta vai para a patuleia
Tramita na Câmara um projeto de emenda constitucional preparado pelo
Superior Tribunal de Justiça criando um filtro para a admissibilidade de
litígios junto à corte.
A adoção de um critério semelhante no Supremo Tribunal baixou o número
de litígios aceitos de 116 mil, em 2007, para 38 mil, em 2011. O STJ tem
33 cadeiras e em 2012 recebeu 276 mil recursos (contra 6.100 em 1989). A
emenda constitucional pretende usar o conceito de relevância,
desobrigando a corte de aceitar recursos irrelevantes ou simplesmente protelatórios.
Intenção do procurador-geral para momento de apresentar denúncia contra
Calheiros é insondável em um inquérito de tipo corriqueiro
Pela segunda vez em meio ano, parte significativa do Congresso pode
acusar interferência do Judiciário. A anterior foi atribuída ao Supremo
Tribunal Federal, ao marcar o julgamento do mensalão coincidindo com a
campanha eleitoral. Agora é do Ministério Público, também vista como
desrespeito à independência dos Poderes.
No caso atual, a acusação refere-se à denúncia criminal feita ao Supremo
pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, contra o senador
Renan Calheiros.
O capitalismo é o regime da desigualdade. Se deixarmos, ele suga a carótida da mãe
Entendo que alguém, que durante toda a vida tenha tido o marxismo como
doutrina e o comunismo como solução dos problemas sociais, se negue, a
esta altura da vida, a abrir mão de suas convicções. Entendo, mas não
aprovo. Tampouco lhe reconheço o direito de acusar quem o faça de
"vendido ao capitalismo." Aí já é dupla hipocrisia.
Tornei-me marxista por acaso, ao ler o livro de um padre católico sobre a
teoria de Marx. É verdade que o Brasil daquela época estava envolvido
na luta pela reforma agrária e pelo repúdio ao imperialismo
norte-americano, que se assustara com a Revolução Cubana.
Godard
disse, numa entrevista pouco feliz, que você pode amar pessoas que
gostem de livros ou músicas, quadros ou edifícios diferentes daqueles de
que você próprio gosta, mas que é impossível amar alguém que gosta de
filmes que você desaprova
Nunca recebi tantos comentários de leitores desta coluna (pelo visto
são mais do que 17) como quando saiu o artigo em que falei do
“Redemoinho”, o vídeo doméstico que me pareceu maravilhoso no YouTube.
De um desembargador que eu não conheço a um diretor de filmes
experimentais de quem sou amigo, recebi, através do GLOBO ou diretamente
em meu box de e-mail, várias observações (quase todas desaprovando meu
entusiasmo). Uma amiga queridíssima me disse (não usando essas palavras)
que toda aquela beleza estava em meus olhos. Um amigo não menos querido
(e unido a ela) reconhecia (com minúcias de observação pictórica que eu
próprio não cheguei a ressaltar) muitas das virtudes a que eu me
referira, mas deixando claro
que o meu texto é que o tinha levado a chegar a valorizar coisas que o
vídeo por si só não teria a força de impor (isso num tom semelhante ao
da sua companheira, em que um “ah, Caetano…” parecia me alertar para o
fato de que eu viajara demais num vídeo sem tanta substância). Esse
amigo é muito inteligente e muito articulado, de modo que conseguiu
escrever elogios ao filmeco que eram até mais bem desenvolvidos do que
os meus — ao mesmo tempo em que quase me repreendia por ter
supervalorizado algo que poderia passar despercebido.
Ao lado do filho Pedro, Baby do Brasil canta sucessos de quando era Baby Consuelo para celebrar 60 anos
Fabio Motta/AE
'Não tomo droga, não queimo fumo, mas sou muito mais louca do que todo mundo pensa', diz Baby
Lauro Lisboa Garcia, Especial para o Estado
No canto do olho de Baby do Brasil, tinindo, trincando, a menina Baby
Consuelo ainda dança. Para alegria dos fãs da cantora do período
pré-evangélico, ela voltou aos palcos para comemorar os 60 anos de idade
- completados em julho de 2012 - com um show recheado de clássicos dos
Novos Baianos e do auge da carreira
solo, como Menino do Rio (Caetano Veloso), Ele Mexe Comigo
(Baby/Galvão/Pepeu Gomes), A Menina Dança (Morais/Galvão) e Todo Dia Era
Dia de Índio (Jorge Ben).
Dirigido pelo filho Pedro Baby,
guitarrista integrante da banda que a acompanha, Baby Sucessos - que
chega amanhã a São Paulo em apresentação única, depois do Rio, da Bahia e
outras praças em que fez balançar o chão - separa bem a Baby Consuelo
da fase de O Que Vier Eu Traço e Pra Enlouquecer (álbuns antológicos de
1978 e 1979 recém-lançados em CD pela Discobertas) da Baby do Brasil
"popstora" evangélica, embora uma seja indissociável da outra. A voz
continua poderosa e o cabelo mantém as cores vivas (atualmente violeta),
como ela mesma brinca em entrevista por telefone, mas aqui não tem
muito lugar para louvores ao Deus que ela tanto menciona durante toda a
conversa.
Secretário de Cultura fala sobre busca por políticas de investimento, hip hop e planos para o Municipal
Ernesto Rodrigues/AE
Secretário defende um novo protagonismo para hip-hop e para o carnaval de rua
Jotabê Medeiros, de O Estado de S.Paulo
"Haddad precisa importar um baiano?" A pergunta no título da coluna
de um jornalista paulistano provocou polêmica quando o novo prefeito de
São Paulo, Fernando Haddad, anunciou o nome do seu secretário Municipal
de Cultura, Juca Ferreira, ex-ministro da Cultura do governo Lula. Na
tarde da última quinta-feira, dia em que festejava 64 anos, Ferreira
falou à reportagem do Estado em seu novo gabinete na Avenida São João.
Tinha acabado de receber o jornalista autor do artigo, para discutir
apoios a programas de sua ONG. É um retrato de sua nova disposição: tem
se dedicado a abrir diálogos em todas as direções, segundo conta nesta
conversa, em que trata de temas como a nomeação do maestro John
Neschling para a direção do Teatro Municipal de São Paulo e modificações
na Lei de Fomento.
Não chorei quando soube da tragédia de Santa Maria, e até agora não
houve pranto. Meu choque foi um choque mudo, frio, escaldado, choque
maior até por constatar que o incêndio no Sul é apenas o mais recente
horror de uma fileira que remonta à infância, desde que me entendo por
gente, quando ouvia Gil cantar “Aquele abraço” no rádio Transglobe de
meu pai.
Com ele, o pai, passei, de carro, sob o viaduto Paulo de
Frontin horas antes de sua queda, em 1971. Fiquei dias e noites, menino
de 6 anos, tentando reconstituir o momento da queda, não havia
infográficos, era só a mente mesmo a criar o horror e a imaginar-se
nele: eu e meu pai, se estivéssemos lá, como seria nossa morte?
Choraria, décadas depois, com a tarde que caía como um viaduto na letra
de Aldir Blanc.
Um dos intelectuais mais provocativos do Brasil nos anos 1960 e 70, o filósofo, dramaturgo e professor Carlos Henrique Escobar, hoje radicado em Portugal, ressurge no documentário ‘Os dias com ele’, premiado na recém-encerrada Mostra de Cinema de Tiradentes
Rodrigo Fonseca
Carlos Henrique Escobar. Aos 79 anos, filósofo é homenageado com documentário
Divulgação
RIO - Corre pelo campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ) da Praia Vermelha um folclore de que toda uma ninhada de gatos
abandonada lá, pelos corredores da Escola de Comunicação (ECO), hoje
mora em Aveiro, Portugal, no apartamento do professor (hoje aposentado)
Carlos Henrique Escobar. Pode ser que o bichano felpudo refestelado em
seu colo numa sequência do documentário “Os dias com ele” — eleito
melhor filme na 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes, semana passada, em
Minas Gerais — seja um dos felinos da ECO. Mas nada assegura. Sabe-se
apenas que todo mundo que fala sobre Escobar, seja de sua trajetória
polêmica como filósofo de orientação antistalinista, seja de sua carreira
premiada como dramaturgo, ou mesmo de sua experiência como pai (por
vezes ausente), traz seus gatos à tona — talvez por ele mesmo frisar sua
devoção pela espécie.
“Quero ser enterrado num cemitério de
animais”, diz o pensador paulistano, hoje com 79 anos, numa cena de “Os
dias com ele”, dirigido por sua filha Maria Clara Escobar, 24.
Se a tragédia de Santa Maria não nos convencer de uma vez por todas que a irresponsabilidade é assassina, preparemo-nos para mais dor e desespero
A dor não cabe nas três letras de uma palavra. A dor é indizível e só
cada um conhece a sua. A dor alheia se respeita no silencio e na
compaixão.
A revolta, ela sim, comporta muitas palavras e outros
tantos gestos que não devem ser poupados. Do que aconteceu em Santa
Maria se deve falar à exaustão, discutir em cada sala de jantar, escola,
em cada gabinete, da Presidente aos prefeitos, até que se chegue às
raízes da tragédia. Não apenas procurar os responsáveis e puni-los mas
também combater os irresponsáveis, desentranhar de nossa maneira de
viver comportamentos aberrantes que, tidos como normais, cedo ou tarde
desembocam em desastre. Porque o que está em causa não é só a
responsabilidade específica, localizada em Santa Maria, mas a
irresponsabilidade invisível porem generalizada que alimenta no país uma
cultura assassina.
Paulinho da Viola e Nelson Sargento celebram o reencontro no bloco que sai amanhã homenageando o espetáculo ‘Rosa de Ouro’, onde se conheceram, em 1965
SILVIO ESSINGER silvio.essinger@oglobo.com.br
Aos 88 anos, Nelson Sargento contempla o “garoto” Paulinho da Viola, de 70: os dois farão participações especiais no Timoneiros
Leonardo Aversa
RIO - Em casa, Paulinho da Viola guarda em estantes uma boa
quantidade de LPs, muitos dos quais arrematados em sebos ou de
comerciantes de discos usados. Alguns, ele admite com orgulho, comprou
só pelas capas mui singulares — belezuras com lugar garantido em
qualquer antologia do tipo “Worst album covers of all time”, com
artistas em trajes escalafobéticos ou em poses inacreditáveis e cantoras
com o buço por raspar. Outros, porém, são relíquias do samba, que ele
se delicia em pôr para tocar na presença dos amigos que vão visitá-lo.
E, na tarde de terça-feira, lá estão Zeca Pagodinho (que passara só para
dar um alô) e Nelson Sargento, com quem Paulinho se encontrará
novamente domingo, no desfile do Bloco Timoneiros da Viola, que, em seu
segundo ano, relembra o espetáculo “Rosa de Ouro”, no qual os dois se
conheceram, há quase 50 anos.
Oitenta anos após a ascensão de Hitler, Alemanha revê papel das antigas elites e de Hindenburg
GRAÇA MAGALHÃES-RUETHER Correspondente em Berlim ciencia@oglobo.com.br
Museu do Holocausto. Judeus ortodoxos observam bandeiras nazistas
Amir Cohen/Reuters
Berlim. Oitenta anos depois, a Alemanha lembra com
novas publicações e exposições o início do período mais sombrio de sua
História, iniciado no dia 30 de janeiro de 1933, com a ascensão de Adolf
Hitler ao poder.
- Nós queremos lembrar, nós não esqueceremos -
enfatizou o prefeito de Berlim, Klaus Wowereit, ao abrir um programa de
eventos que vão se estender pelo ano inteiro na capital alemã, cujo tema
é “a diversidade destruída”.
Em pontos centrais da cidade, como
no Portão de Brandemburgo e na Avenida Kurfürstendamm, exposições de
fotografia ao ar livre mostram como o tema está onipresente em Berlim.
Também é lembrado o 75º aniversário do pogrom, o ataque contra os
judeus, que ficou conhecido como “a Noite dos Cristais”, primeira
manifestação oficial de ódio coletivo, com prisões, destruição de lojas e
assassinato dos integrantes da minoria, no dia 9 de novembro de 1938.
As exposições destacam a lista de intelectuais obrigados a deixar a
Alemanha, banidos pelos nazistas. Entre eles, o físico Albert Einstein, o
dramaturgo Bertolt Brecht e o filósofo Walter Benjamin.
Acordo inédito livra empresa de taxa para exibir trechos de notícias
O presidente francês Francois Hollande (à direita) assina o acordo com o presidente da Google, Eric Schmidt
PHILIPPE WOJAZER / AFP
PARIS – A Google, em acordo inédito, vai ajudar os veículos
jornalísticos franceses a aumentar sua receita com publicidade on-line e
também criará um fundo de € 60 milhões para impulsionar a inovação na
área de mídia digital. O acordo — assinado nesta sexta-feira pelo
presidente francês Francois Hollande e pelo presidente do conselho de
administração da Google, Eric Schmidt — alivia a polêmica sobre a
exibição de links de notícias nos resultados de buscas feitas no Google,
pela qual os jornais queriam ser remunerados.
Depois de fatos negativos de grande repercussão, leniências dão lugar a
alto rigor. Vai-se de proibido a compulsório sem transição
Coerente com a ideia de que a sociedade brasileira trata o improviso
com muita consideração, nossas ações ora vão em um sentido, ora pegam
sentido em contrário, ambos assumidos com igual ênfase e convicção.
Costumamos ver as regras se alterarem de oito a oitenta com grande
rapidez e leveza.Talvez esteja nessa nossa característica uma das
explicações para o relativo fracasso dos sistemas de planejamento, não
apenas os edilícios ou urbanísticos, mas também os econômicos, os
políticos e demais. Infelizmente, quase nunca com resultado inócuo.
Para aumentar o desânimo, mais um baque, esse moral: a eleição de Renan Calheiros para presidente do Senado
Por mais otimista que a gente seja em relação ao Brasil e ao Rio, e
eu sou, há momentos em que pessimismo e desânimo baixam sobre nós, como
agora. Diante do sofrimento dos parentes e amigos das vítimas de Santa
Maria e em face das irregularidades e transgressões que reinam no Rio,
onde poderia ter acontecido o mesmo, como manter viva a esperança?
Se
o estado e a prefeitura não conseguem fiscalizar suas próprias casas,
como foi mostrado aqui pelo repórter Luiz Felipe Reis, imagina a dos
outros. No levantamento solicitado pelo jornal às autoridades, foi
constatado que, dos 56 espaços culturais do município, 36 estão
funcionando sem autorização do Corpo de Bombeiros, e, dos 23
estabelecimentos de responsabilidade estadual, 13 não possuem o certificado da corporação.
Antigos desafetos, os empresários Eloysa Simão e Paulo Borges cedem às
pressões e aceitam unir os salões de negócios Rio-à-Porter e Fashion
Business
Thamine Leta
Eloysa Simão e Paulo Borges: fusão imposta
Divulgação
RIO — O circo da moda nunca foi conhecido exatamente pela humildade
de seus protagonistas. Egos exaltados e gênios intempestivos chegam
muitas vezes a afetar o desempenho da indústria até que alguém mais
pragmático resolva colocar todo mundo em seus lugares. Foi o que se viu
na sexta-feira no Rio quando uma discreta nota anunciou a união dos
salões de negócios Rio-à-Porter e Fashion Business, que aconteciam
separadamente duas vezes por ano na cidade. O primeiro evento
é criação do empresário Paulo Borges, que em 2009 assumiu o comando do
Fashion Rio após anos de gestão de Eloysa Simão. Na época, a saída de
Eloysa causou mal-estar entre os gigantes da moda brasileira.
Denunciado ao STF, senador retoma cargo 5 anos após renúncia para evitar cassação
MARIA LIMA, FERNANDA KRAKOVICS E JÚNIA GAMA opais@oglobo.com.br
-BRASÍLIA- Cinco anos depois de renunciar ao cargo sob acusações de corrupção, Renan Calheiros (PMDB-AL) foi reconduzido ontem à presidência do Senado, por voto secreto, dizendo que “ética é obrigação de todos”. Sem surpresas e com votos inclusive da oposição, que havia anunciado apoio à candidatura de Pedro Taques (PDT-MT), o peemedebista foi eleito por larga maioria: 56 a 18, com dois votos brancos e dois nulos. Aliados de Renan contabilizaram sete traições no PSDB, o que garantiu a vaga da 1ª Secretaria da Mesa Diretora para o tucano Flexa Ribeiro (PA).
Sexta-feira, dia 25, aniversário de São Paulo. A Prefeitura soltou um
longo anúncio exaltando as qualidades da cidade. Inseriram, lógico,
imagens da vida noturna. Nos telejornais, repórteres nas ruas
entrevistaram pessoas na cidade de gastronomia e baladas reconhecidas
internacionalmente.
Madrugada de sábado para domingo, mil quilômetros ao sul. Um músico
irresponsável com um sinalizador, numa boate sem qualquer segurança,
cujo teto rebaixado foi revestido por um material inflamável, de uma
cidade cuja prefeitura pelo visto é ineficiente, detona o horror, o
absurdo, a revolta, a morte.
E o que aconteceu depois, a perseguição ultraconservadora movida pela
resposta imediata, revelou que a irracionalidade não estava apenas
dentro da boate coberta pela fumaça tóxica.
Velhice, deterioração do corpo e proximidade da morte são dolorosos
aspectos da realidade que preferimos esquecer, assuntos desagradáveis e
evitados sempre que possível. Quando, vencendo a resistência, eles se
impõem à nossa atenção, logo são contrarrestados por considerações
lenitivas ou substituídas por itens mais tranquilizadores.
O que pensar de um filme como Amor, de Michael Haneke,
centrado exatamente nesses temas? Pois embora o título aponte para a
relação amorosa do idoso casal de músicos, cuja rotina é destruída pela
irrupção de um acidente vascular cerebral, o verdadeiro protagonista do
filme é a degradação do corpo e da mente trazida pelo envelhecimento.
Os que amam a história da Renascença florentina estão a par dos
acontecimentos que cercam o atentado contra Lourenço de Médici, em abril
de 1478. Durante missa na Catedral metropolitana, os dois irmãos Médici
são apunhalados. Juliano, seu colaborador no governo, é assassinado por
Francisco Pazzi. Refugiando-se na sacristia, Lourenço sai apenas
ferido. No atentado, os banqueiros da família Pazzi, inimigos dos
Médici, contaram com a cumplicidade do arcebispo de Florença e até do
papa Sisto IV, figura já suspeita por ter formalizado tanto a Inquisição
espanhola quanto as descobertas de terra pelos portugueses. Também
estão a par da repressão levada a cabo pelos aliados dos Médici, que
fecha o conflito sangrento entre banqueiros rivais pelo poder em
Florença.
Quando, em dezembro último, a "Economist" pediu a demissão de Guido
Mantega, brasileiros cordatos se perguntaram se a vetusta revista
britânica teria perdido o senso. A sequência dos acontecimentos iria
mostrar que havia método naquela loucura, pois, na véspera do Natal, o
também inglês "Financial Times" iniciou uma série de ataques à condução
da economia pátria.
SÃO PAULO - A escolha de figuras, digamos, controversas para
comandar o Legislativo configura um curioso caso de dilema social, que
são aquelas situações em que há um descompasso entre os interesses
coletivos ou de longo prazo do grupo e os interesses individuais ou de
curto prazo de seus membros.
É importante que São Paulo se assuma como parte do Brasil
NOVO SECRETÁRIO DA CULTURA DA CIDADE DEFENDE ABERTURA A MANIFESTAÇÕES DE
TODO O PAÍS, SE DIZ FAVORÁVEL A ORGANIZAÇÕES SOCIAIS E PLANEJA MUDAR
VIRADA CULTURAL
E a gasolina aumentou porque a gente não tem posto, só tem levado! Rarará! É mole?
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da
República! Acabei de receber um release de Olinda: "O bloco Já Que Tá
Dentro, Deixa completa dez anos". Dez anos? Então não deixaram,
esqueceram! Muda o nome do bloco pra "Já Que Tá Dentro, Esquece!".
Da ampla avenida Rio Branco, que tem canteiro central arborizado com
muitos bancos de concreto, sai, em declive, apontando para o leste, a
rua dos Andradas. A calçada do lado direito de quem desce tem uma
agência bancária na esquina, depois o consultório de uma vidente, logo
ao lado uma academia de ginástica, em seguida uma empresa grande de
fotos para formaturas.
A
combinação dos dois filmes, que tratam de maneiras muito diferentes da
mesma coisa, parece dizer em linguagem cifrada e óbvia de carta
enigmática: um negro na Casa Branca
Que “Django livre”, de Tarantino, e “Lincoln”, de Spielberg, estejam
ao mesmo tempo em cartaz deve ser uma dessas coincidências sintomáticas
em que, por obra do acaso objetivo, uma questão ao mesmo tempo muito
atual e muito antiga vem à tona. A questão atual é a polarização da
sociedade norte-americana, que a divide e paralisa em impasses políticos
agudos. A questão antiga é o correspondente histórico dessa polarização
e seus fantasmas: a escravidão e a Guerra Civil, que se ligam na origem
e no fim (acabar com a guerra acabando com a escravidão, diz o filme de
Spielberg, foi uma obra de manipulação política, pura e suja, suja e
pura, de Lincoln). A combinação dos dois filmes, que tratam de maneiras
muito diferentes da mesma coisa, parece dizer em linguagem cifrada e
óbvia de carta enigmática: um negro na Casa Branca.