sábado, 16 de fevereiro de 2013

Queda do número de católicos desafia a Igreja no Brasil

  • Em 10 anos, percentual de adeptos recuou de 73% para 64%
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  • Segundo o IBGE, o Rio é o estado com menor percentual de católicos no país: 45,8%
Marcelle Ribeiro 

De partida, Papa Bento XVI foi criticado por acelerar debate para indicar banqueiro
Foto: MAURIZIO BRAMBATTI / AFP
De partida, Papa Bento XVI foi criticado por acelerar debate para indicar banqueiro 
SÃO PAULO — Com número de fiéis em queda no Brasil, o catolicismo pode ganhar fôlego no país caso o sucessor do Papa Bento XVI adote uma postura menos doutrinária, mais próxima à realidade dos fiéis, e escolha bispos mais dinâmicos. É a avaliação de especialistas ouvidos pelo GLOBO, que toma como base o declínio da população católica nos últimos anos, medido pelos números do último Censo do IBGE.

A Mocidade de Ivo - SÉRGIO PUGLIESE

 As estripulias do filho de dona Cepia para montar seus times

Sempre que Dona Cepia flagrava o filho trocando o Colégio Guarani pelos campinhos de futebol, o castigo era inevitável e ele era obrigado a lavar as próprias cuecas. A notícia espalhou-se pela vizinhança, mas os amiguinhos precisavam ver para crer. E como o moleque matava aula dia sim e o outro também, a missão foi tranquila. Um dia escalaram o muro e deram de cara com Ivo, no tanque, emburrado, cumprindo a pena. Não perderam a chance e de lá mesmo gritaram “Ivo Lavadeira!!!”. O apelido pegou fácil, fácil. Hoje, seria bullying, mas naquela época, década de 40, era encarnação.

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Fernando Deeplick, o novo rei do remix nacional

  • DJ, produtor e compositor criou um híbrido dançante com sabor local ao usar conhecimentos de eletrônica na MPB
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  • Paulista ganhou prestígio junto a artistas como Vanessa da Mata, Gabriel O Pensador e Carlinhos Brown


O produtor Fernando Deeplick
Foto: Agência O Globo / Marcos Alves
O produtor Fernando Deeplick 
RIO - Na leitura das fichas técnicas dos discos que são lançados a cada dia no país, o nome Fernando Deeplick tem aparecido com uma notável frequência. Além de ser autor de remixes de grande sucesso, nas pistas e no rádio, para astros como Vanessa da Mata (“Ai, ai, ai”), Seu Jorge (“Burguesinha”, “Mina do condomínio”) e até a colombiana Shakira (que chegou a incluir em seu show elementos da recriação que ele operou na faixa “She wolf”), esse paulista de São Bernardo do Campo, de 36 anos, ainda vem se destacando, nos últimos anos, como produtor e compositor.

A FORÇA DO SOCIAL E DA MULHER

  • Temas relevantes e personagens femininas marcam filmes favoritos aos Ursos de Ouro e de Prata
Carlos Helí de Almeida 

O diretor iraniano Jafar Panahi em cena de seu filme “Closed curtain”, que estabelece uma metáfora sobre a condição do cineasta, proibido de filmar em seu país
Foto: Divulgação
O diretor iraniano Jafar Panahi em cena de seu filme “Closed curtain”, que estabelece uma metáfora sobre a condição do cineasta, proibido de filmar em seu país 
BERLIM - A seleção de filmes da competição do Festival de Berlim deste ano foi marcada por dois elementos poderosos: personagens femininas fortes e temas sociais e culturais relevantes para o momento que atravessamos. E é bem provável que os dois aparecem combinados na cerimônia de premiação marcada para sábado à noite, quando serão revelados os vencedores da 64ª edição da maratona alemã.

A volta de ‘House’ - Arnaldo Bloch


O novo House é inglês, mora em Nova York, e seu Watson é uma chinesa

É possível que os fãs de “House”, a série de TV por cuja extinção, repentina e cruel, mais se chorou nos últimos anos, queiram me crucificar pela analogia feita neste texto, mas vou em frente, destemido, como faria Gregory num de seus palpites nem sempre bem recebidos à primeira vista: “Elementary”, a mais recente adaptação do clássico Sherlock Holmes, desta vez para o terreno dos episódios, cuja primeira temporada passou na virada de 2012 para 2013 no Universal Channel, é, na verdade, a ressurreição do amado personagem interpretado por Hugh Laurie, não por acaso, ou por acaso mesmo, poucos meses depois do fim de “House”, e no mesmo canal. Deixo para os especialistas em estratégias midiáticas as investigações sobre a intencionalidade ou não do advento e vou logo às evidências com as quais pretendo provar minha teoria.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Todas as dores do mundo - LUIZ PAULO HORTA

  • Queremos um mundo perfeito? Nesse caso, seria preciso acabar com o livre-arbítrio — essa glória do ser humano, que lhe permite ser um Hitler ou madre Teresa de Calcutá

Você me diz que passou o fim de ano pensando em histórias de Auschwitz, e que isso bloqueia a ideia de Deus. Mais perto e mais recente, você poderia me jogar na cara a tragédia de Santa Maria. Por que continuamos a acreditar em Deus?

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A lição do Papa - Luiz Garcia

A idade avançada, ao contrário
do que muitos acreditam,
nem sempre, ou mesmo
raramente, é uma
garantia de sabedoria

Os mais velhos, quando os tive, sempre me recomendaram que não me metesse a dar palpite em assunto que não fosse de minha alçada ou alcance. Mas, como diz muita gente, há jornalistas que raramente resistem à tentação de entrar em terrenos desconhecidos.

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Dez anos de presidência petista - ROGÉRIO FURQUIM WERNECK

Na próxima semana, o PT deve comemorar em grande estilo dez anos de conquista da Presidência. Não é pouco. A festa é mais do que justa. Foi um decênio marcado por alto grau de continuidade. A junção do governo de Dilma ao de Lula foi sem costura. Em contraste com o slogan “continuidade sem continuísmo”, com que José Serra pretendia disfarçar seu discurso de oposição a FHC, na eleição de 2002, Dilma Rousseff deixou claríssimo, na campanha de 2010, que seu governo teria a marca da continuidade com continuísmo. Para grande orgulho do PT.

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Não em meu nome - FERNANDO GABEIRA

Mais de 1 milhão de pessoas assinaram um manifesto contra Renan Calheiros na presidência do Congresso Nacional. Movimentos como esse têm grande valor simbólico. Equivalem às manifestações modernas em que se protesta contra algo vergonhoso ou sanguinário com cartazes que dizem: "Não em meu nome". São bons para mostrar que o País não é homogêneo e que alguns governantes tomam atitudes francamente rejeitadas por milhares de seus conterrâneos.

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Oscar, câmeras pela paz - LUCAS MENDES

Em Bilim, um vilarejo palestino com 1.100 habitantes, é fácil achar a casa de Emad Burnat. A porta de madeira é uma bandeira do Brasil. Numa de suas 5 câmeras quebradas há outra. O palestino Emad é cidadão brasileiro por casamento com Soraia, de 42 anos, muçulmana devota, mãe de seus quatro filhos. O português dele é tão quebrado quanto o árabe de Soraia.

A câmera com a minibandeira é uma das cinco usadas no documentário5 Câmeras Quebradas, concorrente ao Oscar neste domingo. Algumas foram quebradas mais de uma vez pelos soldados de Israel e consertadas. Uma delas salvou a vida de Emad. O tiro entrou pela lente quando ele estava rodando. A bala continua dentro da câmera.


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Na Moral - Nelson Motta

"Parei minha moto no shopping, roubaram a tampa da válvula do pneu. Tinha uma ótima tesoura Tramontina para tosar cachorros, mas alguém que esteve na minha casa a trocou por uma de pior qualidade. O médico me mandou tirar radiografia desnecessária só para gastar dinheiro do plano de saúde. Minha revista semanal sumiu na portaria do prédio."

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Hermano Vianna - Era melhor antes


‘Não é chique gostar das coisas, mas a oferta cultural brasileira atual é muito interessante’

Enquanto eu escrevia sobre a abundância (ver a coluna da semana passada), uma série de artigos decretou “o vazio da cultura” no Brasil. Fiquei me sentindo alienígena. Vivo em um planeta diferente daquele habitado por quem não enxerga nada potente em nosso país. Meu problema é oposto: não dou conta da quantidade de coisas interessantes que considero merecedoras de divulgação/debate neste meu pequeno espaço no jornal. Estou sempre em dívida com uma lista enorme de pautas que não perdem a atualidade. São trabalhos culturais brilhantes, que podem despertar vocações artísticas em muito mais gente se forem conhecidos melhor.

Leonardo Boff - O papa e as tensões internas da Igreja no mundo e na história‏

Há uma tensão sempre viva dentro da Igreja e que marca o perfil de cada papa. Quais são a posição e a missão da Igreja no mundo?

Uma concepção equilibrada deve assentar-se sobre duas pilastras fundamentais: o Reino e o mundo. O Reino é a mensagem central de Jesus, sua utopia de uma revolução absoluta que reconcilia a criação consigo mesma e com Deus. O mundo é o lugar onde a Igreja realiza seu serviço ao Reino e onde ela mesma se constrói. Importa saber articular Reino-mundo-Igreja. Ela pertence ao Reino e também ao mundo. Possui uma dimensão histórica com suas contradições e outra, transcendente.

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Michel Laub - Resposta ao apocalipse

Em que tempo, do Descobrimento a 2012, artistas de verdade não o foram?

Faça o teste: digite o nome de qualquer hit brasileiro dos anos 1980 no YouTube. Entre os comentários, 99% de chance de alguém ver ali os vestígios de uma era de ouro. A nostalgia inclui Rádio Táxi, Dr. Silvana, até o ursinho Blau-Blau, e pode ser resumida nas palavras do internauta Xreynato: "A mídia só dá valor para essas porqueiras de hoje".

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Barbara Gancia - Bento, o Arregão

Alguém se lembra de que Cristo padeceu na cruz? Que mensagem de resiliência Bento 16 nos deixa?

Fala a verdade: em latim? Mas justo o papa que abriu conta no Twitter, inaugurando uma via direta de comunicação com os fiéis, foi pedir demissão em uma língua morta, para que o menor número possível de pessoas na sala pudesse decifrar o que ele estava dizendo? Do que tinha medo, de que alguém gritasse lá do fundo: "Schettino, torni a bordo!", em alusão ao comandante do Costa Concordia que deu no pé enquanto seu navio naufragava?

Está certo que até o exorcista-chefe do Vaticano, monsenhor Gabriele Amorth (pois é, desdenham de Tupã e têm um espanta chifrudo de plantão), no cargo há 25 anos, andou dizendo que "o Diabo age dentro do Vaticano".

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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

PMDB vê-se fortalecido com PSB no jogo de 2014

Raymundo Costa e Yvna Sousa
BRASÍLIA - Depois de ter conseguido o comando do Congresso, o PMDB quer mais. A cúpula do partido avalia que a eventual candidatura presidencial do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, fortalece o poder de barganha do partido para negociar mais cargos no governo. Interlocutores da presidente Dilma Rousseff, no entanto, informaram que o PMDB não precisa "esticar a corda", pois ela e o vice Michel Temer já concordaram que é preciso ampliar os espaços da sigla e as manutenção da aliança na eleição de 2014.
 

O diário do poder, na voz de FHC - GABRIEL MANZANO

Ex-presidente tira do armário centenas de fitas gravadas por ele durante seu governo com decisões tomadas ao longo dos dias de trabalho


GABRIEL MANZANO

 Durante seus oito anos na Presidência da República, Fernando Henrique Cardoso manteve uma rotina secreta, de que só os muito próximos sabiam: ele fazia gravações diárias, ou quase diárias, no fim do expediente, sobre o que tinha dito, ouvido, pensado e decidido naquelas 10 ou 12 horas.

Dez anos depois de descer a rampa do Planalto, o segredo veio à tona. Numa recente entrevista ao médico Dráuzio Varela, ele falou da sua vasta coleção de fitas e avisou que ela está sendo degravada e organizada por uma colaboradora.

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Obama e a “exceção americana” - DEMÉTRIO MAGNOLI

Na sabatina de John Brennan, o indicado de Barack Obama para dirigir a CIA, o Senado dos EUA assistiu a um espetáculo de som e fúria. De um lado, a saraivada de críticas indiscriminadas à política de “assassinatos seletivos” conduzidos por drones não lançou luz sobre um debate vital. De outro, os aliados do governo no Congresso engajaram-se na tentativa de maquiar uma estratégia desastrosa, inspirada pela Doutrina Bush.

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PAULO SANT’ANA - Ressuscitação

Anunciaram anteontem na internet que eu morri.

O Nílson Souza me telefonou aflito: “Que coisa boa te ouvir. A internet está bombando, estão dizendo que morreste. Acho melhor tu falares na Gaúcha para desmentir”.

As pessoas telefonavam para a rádio e ficavam sabendo que eu ainda não morrera.

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Os peixes e a preservação - Fernando Reinach

Fernando Reinach - O Estado de S.Paulo
 
Santuários marinhos são regiões onde é proibido pescar. Geralmente, a implementação dessas reservas é combatida pelas comunidades de pescadores, que se sentem prejudicadas. Agora, os ecologistas conseguiram um novo argumento para convencer os pescadores a permitir a criação de reservas: elas exportam peixes fáceis de pescar.

Apesar de a maioria dos ecologistas defender a criação de santuários marinhos como uma arma importante para preservar a biodiversidade dos mares, a criação e a manutenção de áreas preservadas têm se mostrado difíceis, quando não impossíveis.


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'Drones' e o papa - Luis Fernando Verissimo

Luis Fernando Verissimo - O Estado de S. Paulo
 
 

O "Drone" é um sonho de arma. Realiza o ideal de qualquer soldado, que é o de matar inimigos sem o risco de morrer também. O "Drone" é controlado a distância, sua "tripulação" nunca sai do chão e seus ataques são guiados, imagino, por comandos parecidos com os de um videogame. Foguetes e bombas são disparados dos "Drones" com simples toques dos dedões e os resultados aparecem na tela para serem comemorados. Como nos videogames.

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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Dia de bom futebol - TOSTÃO

Atlético-MG x São Paulo e Real Madrid x Manchester United são as duas grandes partidas de hoje

QUANDO UM time, nitidamente superior, com melhores jogadores, com mais força coletiva e com um futebol mais moderno, perde um jogo decisivo, temos de relativizar o resultado, já que existe um grande número de fatores surpreendentes e ocasionais envolvidos no placar, em vez de mudar os conceitos e diminuir as virtudes da equipe favorita.


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A irmã de Freud - Eliana Cardoso

Vi a casa: número 20, Maresfield Gardens, Londres. Ali Freud morou um ano até setembro de 1939, quando morreu. Escapara dos nazistas em 1938, levando consigo a mulher, a cunhada, a filha, o filho, o médico com sua própria família, duas domésticas, o cachorrinho, a biblioteca e enorme coleção de objetos comprados de antiquários. Para trás deixou as irmãs, que morreram em campos de concentração.

Li Freud's Sister (Penguin). O escritor macedônio Goce Smilevski dá voz a uma delas, Adolfina. O romance baseia-se em fatos, porém cria no leitor o sentimento desconfortável de que, ao retratar Sigmund Freud como vilão, o autor busca a polêmica. Ao mesmo tempo, ao narrar a vida de Adolfina como cheia de crueldade e loucura, Smilevski inventa uma obra de arte que muitos leitores acharão fascinante e outros, controversa.


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PAULO SANT’ANA - Um papa jovem

O que se verifica com a renúncia do Papa não passa de uma singela aposentadoria.

O direito à aposentadoria é universal e humanitarista.

Verifica-se agora um defeito no Direito Canônico por não ter previsto a aposentadoria dos papas.

Muitos papas terminaram seus mandatos caindo aos pedaços.

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O monossexualismo - Francisco Bosco


Entrevista que o pastor Silas Malafaia concedeu a Marília Gabriela mostra dialética de civilização e barbárie

A entrevista que o pastor Silas Malafaia concedeu a Marília Gabriela teve grande repercussão nas redes sociais, em especial os trechos em que o pastor trata da homossexualidade. Recomendo que se veja a entrevista na íntegra, pois por meio dela pode-se compreender com clareza a dialética de civilização e barbárie que constitui a experiência das religiões monoteístas e sua relação com a sociedade. Senão, vejamos.

Cinzas e repetições - Roberto DaMatta

Roberto Damatta - O Estado de S.Paulo
 
Nesta vida todo mundo, querendo ou não, é pautado. Todos somos levados, obrigados, arrolados ou dirigidos a fazer muita coisa. Algumas, impossíveis, como não mentir ou ser pusilânime. No caso do jornal, temos que escrever; no caso da vida, de seguir alguma regra ou viver com ou sem o bom senso.

Os planos para nossas vidas existem antes do nosso aparecimento no mundo. Antes do nosso nascimento, pai e mãe tinham expectativas fulminantes em relação às nossas vidas. Nossas pautas existenciais são os projetos e esquemas que figuram na nossa sociedade e cultura: instruções do tipo como comer, vestir-se, limpar-se e dormir - caminhos simbólicos e reais a serem necessária e precisamente percorridos como a escolha de certas profissões e valores religiosos e políticos; rituais de crise de vida ou de passagem celebrados em nossa honra ou para os outros, os quais temos de - querendo ou não - acompanhar. Do nascimento até a morte, seguimos esquemas precisos e implacáveis e, mesmo depois de termos partido, continuamos a segui-los, porque não há sociedade que abandone seus mortos.

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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

PAULO SANT’ANA - O lugar dos bêbados

Não se pode esperar de quem é rasteiro outra coisa que não seja baixeza.

Não se pode esperar erudição de quem é analfabeto.

Do mau-caráter só se pode esperar maus-caratismos.

Grandeza só se pode esperar de quem é grande, erudição só se pode esperar de quem é culto.

Por isso é que se criou o ditado de que “ali de onde menos se espera é que nunca sai nada mesmo”.

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Uma coisa leva a outra - Cristovão Tezza

Como sempre vivi preguiçosamente na província, sou um apaixonado por correio. Passei muito tempo na vida escrevendo cartas. Uma boa “História universal dos correios”, se existe, certamente seria uma leitura fascinante. Não estacionei nas cartas, é claro. No meu exílio em Gaivotas, onde não passa carteiro, recorro ao milagre da tabuleta digital. Com o chipezinho que contratei (mesmo lento e caro, à brasileira), consigo comprar livros e revistas do mundo inteiro, sem intermediários. Semana passada, a revista The New Yorker trouxe uma matéria sobre Galileu, considerado o pai da ciência moderna (“Moon man”, por Adam Gopnik), que frisa a importância do correio já há 450 anos.

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O novo carnaval das ruas - Arnaldo Jabor

Todo ano minha coluna sai na terça-feira de carnaval. Não há outro assunto que possa suplantar a espantosa festa popular e acabo me repetindo. Eu andava irritado com a folia anual. Cheguei a dizer que o chamado "tríduo momesco" - como falavam os cronistas d"antanho - tinha virado uma calamidade pública. Mas, nos últimos dias, vendo as massas pulando nas ruas de Salvador, Recife e Rio, fiquei pensando: como é que pode? O que faz milhares de foliões se jogarem nas ruas como estouros de boiadas, o que será que provoca tanta fome de samba, de riso, de porres, de sexo em flor? Este ano, há blocos que congregam mais de 400 mil participantes, 400 mil dançando na orla do Rio, em um delirante comício de felicidade.

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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Paulo Brossard - E a presidente riu dos críticos

A senhora presidente da República, em 11 de setembro passado, estabeleceu a redução da tarifa elétrica em 16% para residências e 28% para a indústria e a medida agradou a meio mundo para não dizer mundo e meio, pois sempre é bem-vinda a redução de ônus, seja qual for, e é notória a exagerada tarifa em causa; se isto vale em relação a brasileiros e estrangeiros residentes no país, quanto ao consumo em suas residências, o mesmo vale quanto à indústria, que na energia tem um dos fatores que compromete a competitividade dela nos mercados interno e externo. Pouco depois, a redução foi majorada para 18% e 32%, respectivamente, aliás, usada para maior gabo à chefe do Executivo. Há quem entenda que a redução se explicaria por estarem previstos reajustamentos de tarifa a várias concessionárias no ano em curso, de fevereiro a dezembro, ou poderia explicar-se pela munificência do governo, já em aberta campanha eleitoral, embora a destempo à luz da lei.

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Nova pornografia - Lúcia Guimarães

Cheguei a pensar que havia acordado na década errada. Seria fevereiro de 2003? Um documento obtido por um repórter atentava contra a Constituição e a língua inglesa, costurando um arrazoado para assassinar cidadãos americanos no exterior, se considerados um perigo iminente para a segurança americana. Definição de perigo iminente? Confie em nós, povo.

Grandes jornais confessaram que, há um ano, escondem dos leitores, a pedido da Casa Branca, o fato de que há uma base secreta na Arábia Saudita de onde decolam os drones, os aviões sem pilotos comandados por controle remoto. Os drones que matam não só os suspeitos de terrorismo no Paquistão, no Iêmen, na Somália, mas também civis transformados em dano colateral.

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A POÉTICA DE SYLVIA PLATH

 O estado de SãoPaulo - 11/02/2013

Escritora de estilo forte e hábil em unir técnica e paixão mantém sua força e genialidade 50 anos após sua morte

Rodrigo Garcia Lopes
ESPECIAL PARA O ESTADO

“Senhoras e senhores / Eis minhas mãos,meus joelhos. / Posso ser só pele e osso / No entanto sou a mesma, idêntica mulher”, escreve Sylvia Plath, com sua peculiar ironia, em Lady Lazarus.
E, no mesmo poema: “A multidão, comendo amendoim / Se aglomera para ver / Desenfaixarem minhas mãos e pés –/ O grande strip-tease”.

A poeta, que se matou há exatamente 50 anos, parece aqui antever o circo em torno de seu suicídio, a espetacularização de sua imagem e sua transformação em mártir feminista, e que ainda continua com força em nossos dias de culto à celebridades instantâneas.

Por outro lado, na academia, por muito tempo se privilegiaram os aspectos biográficos e sensacionalistas (o abandono e a traição de Hughes), eclipsando o valor de sua arte e de sua intervenção estética na poesia dos anos 50-60.

Como lembra Camile Paglia, o que ocorreu na esteira do furor feminista que acabou tomando conta do discurso em torno da poeta americana foi que “o engajamento erudito de Plath com escritores canônicos homens foi minimizado e suprimido”. De fato, os poetas de sua devoção eram, além de Emily Dickinson, Blake, D.H. Lawrence, Roethke, Eliot, Yeats, e Lowell (que foi seu professor). Plath soube superar esse cânone pesadíssimo e, livre de angústias de influências, criar uma dicção poética singular.

A canonização, a fama e o rótulo de “poeta confessional” ou “suicida” foram amargos para a poesia de Plath. Ainda em vida (tinha apenas 30 anos quando morreu), ela alertava para a recepção de seus poemas como meros “gritos do coração”. “Creio que se deva saber controlar as experiências, até as mais terríveis, como a loucura, como a tortura e se deva saber manipulá-las com uma mente lúcida que lhe dê forma.” Ou seja, não tanto poemas sobre experiências mas como experiências. Seria mais correto chamar su poesia de “conficcional”, pois ela soube tomar fatos autobiográficos, históricos, míticos, e adaptá-los à sua própria mitologia pessoal. Alguns temas: incesto, aborto, suicídio, doença mental, a opressão da mulher, a maternidade, o corpo, a morte.

De modo não panfletário, Plath soube como poucas transformar suas experiências em desafios à sua própria habilidade poética, como atestam obras-primas como 40 Graus de Febre, Rival, Ariel, A Chegada da Caixa de Abelhas, Palavras e Papai (o equivalente feminino ao Uivo de Ginsberg). Poesia de imagens fortes e grande musicalidade, pedindo para serem lidos em voz alta, como os de Ariel. Ou como em Corte, onde podemos ver seu processo poético em ação: o corte no dedo serve de motivo poético para uma viagem alucinada e de imagens violentas: o polegar cortado assume as máscaras de um chapéu, de um escalpo de um “pioneiro”, uma garrafa de champanhe, um piloto camicaze, um membro da Klu- Klux-Klan, um moinho. Quase sempre ela parte de um incidente “menor” para falar de algo mais amplo (o Holocausto, Hiroshima).

Sylvia Plath foi uma artista da palavra mais que meramente a poeta “suicidada pela sociedade”. Dominava uma variedade de formas e tinha seu dicionário Webster como verdadeira bíblia. Seus melhores poemas ficaram como prova definitiva de sua genialidade poética, conseguindo unificar técnica e paixão. Mais: ela conseguiu fundir, como poucos poetas, o pessoal e o político, sem nunca esquecer, obviamente, o poético. Claro que uma poeta “forte” como Plath deixou sua influência, como em Anne Sexton, Sharon Olds, Adrienne Rich, além do próprio Ted Hughes (que emulou seu estilo em Cartas de Aniversário).

No Brasil, encontram-se traduções, ecos e citações de Plath na poesia de Ana Cristina Cesar (1952-1983), entre outras escritoras. Apesar de ter escrito também prosa (um romance, contos, diários, cartas), Plath se definia sobretudo como poeta, uma artesã: “Poesia é uma disciplina tirânica. Você tem de ir tão longe, tão rápido, em tão pouco tempo, que nem sempre é possível dar conta do periférico. Num romance talvez eu possa conseguir mais da vida, mas num poema eu consigo uma vida mais intensa”.

RODRIGO GARCIA LOPES É POETA, COMPOSITOR E TRADUTOR. ESTÁ LANÇANDO SEU SEGUNDO DISCO, CANÇÕES, DO ESTÚDIO REALIDADE

LEITURA

Livros de Sylvia Plath
Ariel (Editora Verus)
Poemas (Iluminuras)
O Terno Tanto Faz
Como Tanto Fez (Rocco)

Obras sobre ela
A Mulher Calada
Eensaio de Janet Malcolm
(Companhia das Letras)
A Poética do Suicídio
em Sylvia Plath
Ensaio de Ana Cecília Carvalho
(Editora da UFMG)

O QUE QUE HÁ COM A SUA BARATINHA? - Joaquim Ferreira dos Santos

  

O GLOBO - 11/02/2013
Está na hora de mudar
o disco do carnaval e curtir
o lado B da viúva, do
brotinho e da madame


A mulata bossa nova vai me desculpar e a Maria Sapatão também. Mas é carnaval e eu, cansado de sair com elas em outras folias, queria cantar outras mulheres.

As marchinhas ressurgiram aqui neste espaço, numa série de crônicas exaltatórias, no início de 2006. A nega do cabelo duro era coisa só de gente muito velha, de carecas que entre as mulheres ainda se achavam os maiorais. Aquelas letras eram confetes coloridos de antigos carnavais dos quais só cronistas, eternos índios querendo apito, se lembravam.

Depois destas crônicas, verdadeiros gatos na tuba resfolegando no coreto do jardim, veio em 2007 o musical “Sassaricando”, de Rosa Maria Araújo e Sergio Cabral — e o resto é história, é cabeleira do Zezé, é daqui não saio, daqui ninguém me tira, e outros bigorrilhos aos quais o carnaval carioca agradece e sai pulando. É com esse que eu vou.

O problema é que está na hora de mudar o disco e curtir o lado B da viúva, do brotinho e da madame. Quero sassaricar, todo mundo quer, porque sem isso a vida é um nó, mas está na hora de pedir, vira meu bem, e cantar outras músicas no ouvido da festa. Deus me livre e guarde de pedir que se dê um tempo em Braguinha, Paquito e Romeu Gentil, ou Mirabeau, mas, saravá, meu pai, vamos deixar descansar as “Touradas de Madri”, o “Tomara que chova” e o “Tem nego bebo aí”. Há marchinhas que não acabam mais. Não vai aqui nenhum preconceito contra a cabeleira do Zezé ou a Chiquita Bacana, a gostosérrima existencialista cheia de razão. Elas serão cantadas sempre, pois um carnaval sem elas seria como um show dos Rolling Stones sem “Satisfaction”.

Pede-se apenas uma saudação também para a chegada do general da banda e aproveite-se para perguntar a ele que negócio é esse de “vara madura que não cai”. Louvemos ainda a Eva, querida, de quem todos queremos, pelo menos num carnaval, ser o seu Adão. Por que não entronizá-los nos novos cordões?

As novas gerações de cariocas tomaram gosto pelas marchinhas e, a propósito, foi lançado agora um ótimo CD com versões para crianças, feito pelo clã Martinho da Vila. Mas lá está de novo a jardineira sendo cantada como se fosse a única mulher do salão. Como se não houvesse Isaura (“hoje eu não posso ficar”), como se não houvesse Iaiá (“cadê o jarro?”) e a Maria Candelária (a alta funcionária que saltou de paraquedas e caiu na letra O).

Mamãe, eu quero mamar nas tetas da Maria Escandalosa, mesmo sabendo que desde criança ela dá alteração. Quero dançar o minueto, que vem lá do Municipal, outra delícia carnavalesca que o pirata da perna de pau, para que só ele brinque na boca da galera, escondeu no baú.

Marchinha de carnaval é muito mais do que atravessar o deserto do Saara, tomar uma latinha de cerveja com o sol a queimar a cara de todo mundo. É hora de lembrar a balzaquiana (“mulher só depois dos 30”), as macacas de auditório (“ela é fã da Emilinha”) e a garota Saint- Tropez (“com o umbiguinho de fora”). Vamos mudar o tom, embora, repita-se, nada aqui se tenha contra o bafo da onça e a merecida exaltação de que ele é o bom, é o bom, é o bom.

Vamos inventar uma nova cantada, garotão. Quando passar à sua frente aquela gata de penugem dourada na coxa, levante os braços e cante “você roubou meu sossego, você roubou minha paz”, outro clássico de Mirabeau, compositor pouco conhecido que, no entanto, deveria ser entronizado ao lado de Braguinha, Lamartine e João Roberto Kelly, como um dos reis do carnaval.

Já que a pândega está liberada, já que as moças estão cada vez mais divertidas, por que não brincar com elas cantando a irresistível “O que que há com a sua baratinha?”, que Orlando Silva gravou nos anos 40, no auge das corridas de automóvel no circuito da Gávea, e décadas depois Jorge Veiga confirmou em outra gravação, cheio de duplos sentidos, já com as baratinhas automobilísticas enterradas.

Neste carnaval eu quero rosetar, não quero mais saber de brincar só com vocês, nega maluca, louras, cor de laranja, 100 mil, e outras musas do carnaval Brasil. Quero carne nova,papos outros, e mais daquela que quando ela chega todo mundo grita, estou aí, nessa marmita. Viva o lado B da linda morena, abram alas para novos clássicos do carnaval.

Zé da Zilda e Zilda do Zé estão dizendo que o doutor mandou todo mundo gingar. Paquito e Romeu Gentil estão mandando todo mundo para Jacarepaguá, que lá mulher é mato e — carnaval é pra isso mesmo — todo mundo precisa se arrumar.

Se essa zorra não virar, se o bafômetro não acusar, a gente chega lá.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Suíte tabagística - Humberto Werneck

Na cela 3 do DOPS, em Belo Horizonte, onde aos 21 anos me trancafiaram por um mês, achei que a meu perfil de jovem intelectual insubmisso faltava um arremate visual. Podia não ter o cachecol e o olho torto do Sartre, porém o mais estava à mão. Pedi aos amigos que me arranjassem um cachimbo.

Fui atendido pelo José Márcio Penido, e, durante horas, encostado à grade (na cela em frente estava o sociólogo Bolívar - então oxítono: Bolivar - Lamounier), fiz o que pude para manter acesa, já não digo a flama revolucionária, mas a brasa do cachimbo. A outra, com o tempo, também arrefeceu, tanto quanto meu pique para desbravar a Introdução Sistemática ao Estudo da Sociologia, de Harry M. Johnson, que o vizinho de cana me recomendara. Bem mais adiante, tive uma fase de charuto, fumegante adereço que definitivamente não combinava com o meu temperamento bem pouco contemplativo. Repare: a não ser em filme de gângster, na permanente iminência da chegada dos pneus cantantes da lei, você não vê ninguém pitando nervosamente um puro, talhado, ao contrário, para ser saboreado em sossego, de preferência ao pé de uma lareira e com um cálice de conhaque na outra mão.

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O ANO DOS GAYS - HELENA CELESTINO


Conceitos e preconceitos estão sendo revistos dentro e fora das igrejas

Dos cardeais do Vaticano a escoteiros e bandeirantes, todos estão sendo obrigados a rever conceitos e, quem sabe, desfazer preconceitos. Em cada cabeça, uma sentença; em cada país, uma polêmica. No Reino Unido, uma parte do movimento gay não entende por que tanto barulho por tão pouco. Concordam que a aprovação no Parlamento do direito de os gays se casarem foi uma vitória da turma do bem; vai favorecer os casais homos, seus filhos e a sociedade de uma maneira geral. É mais uma etapa em direção à igualdade de direitos num país em que criminalização do sexo entre iguais — lei que mandou o escritor Oscar Wilde para a cadeia — só terminou nos anos 60. Mas a pergunta que não quer calar é por que o Estado tem de se meter num assunto tão privado como o amor entre duas pessoas, sejam elas hétero ou homo? Os ocidentais criticam a intromissão da lei islâmica na vida privada de mulheres e homens, mas repetem o procedimento ao legislar sobre o comportamento sexual: “Quase todas as questões envolvidas num casamento podem ser resolvidas consensualmente entre dois adultos — divisão de propriedades, obrigações e direitos de família — não precisa do Estado para ser regulamentado”, diz o ativista Sam Bowman, num texto no “Guardian”.

Desejo e preconceito - RODRIGO DA CUNHA PEREIRA

 Um Estado laico não deveria
permitir que continuem
acontecendo injustiças e exclusões
sociais em razão de convicções
morais particularizadas
e estigmatizantes

Recentemente o Tribunal de Justiça de São Paulo determinou que o companheiro de uma relação homoafetiva pudesse ser incluído como dependen­te do Club Athlético Paulistano. Tal decisão in­sere-se em um contexto histórico de luta contra o preconceito e discriminação.

Em 1984 o Tribunal de Justiça de Minas Gerais determinou que uma mulher, pelo simples fato de ser mãe solteira, não mais poderia ser impe­dida de freqüentar o clube social da cidade de Conselheiro Lafaiete. Paradoxalmente o pai sol­teiro, desta mesma criança nenhuma restrição ou discriminação sofria naquele ambiente.

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O abacaxi da cultura

Para antropólogo, governo tem dificuldade em implantar uma política cultural, mas a anticultural é corriqueira



 Salada. No barracão da Vila Isabel, funcionário vistoria carro alegórico. ‘Este carnaval é do sertanejo, do arrocha, do funk paulistano’, diz autor

IVAN MARSIGLIA 

Com a sua peculiar estridência, a assim chamada "nova classe média" ocupa, além de aeroportos e manchetes de economia, o centro da cena cultural brasileira. É o Carnaval do Ai se eu te Pego, do tche-rerê-tche-tchê, da Beyoncé paraense Gaby Amarantos, da redenção do funk carioca e também da tragédia da Gurizada Fandangueira. Nessa explosão de sentidos figurados e literais, que marcas deixarão impressas na cultura nacional os cerca de 40 milhões de "ex-pobres" - na jocosa definição de MC Papo - que ascenderam ao mercado na última década?
Na opinião do antropólogo Hermano Vianna, antes de mais nada vale a pena remeter para a discussão da cultura a crítica feita pelo ex-presidente FHC ao termo nova classe média. "Há de tudo nela: pastores de igrejas evangélicas, DJs de tecnobrega, militantes de coletivos periféricos, donos de lan houses", diz o irmão mais velho do guitarrista Herbert Vianna, dos Paralamas, e um dos mais importantes pesquisadores musicais do País. "O rótulo impreciso tenta dar conta de uma grande transformação da sociedade brasileira ainda não analisada devidamente."
Aos que denunciam um suposto empobrecimento geral das manifestações artísticas no País, o doutor em antropologia social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) - que também é consultor do programa Esquenta!, de Regina Casé, na Globo lança mão de uma metáfora, a do disco voador: trata-se de um olhar que sobrevoa o País sem conexão com o mundo de baixo que agora penetra a fuselagem da nave, incomodando seus finos tripulantes. E reedita, em tom de provocação, a enfática defesa que faz há anos da música mais popular dos morros cariocas. "Encontro no funk muitos elementos que o tornam superior a uma sub-MPB que tentam me empurrar como música de qualidade."
Na entrevista a seguir, Hermano Vianna desvenda a origem moderna do Carnaval carioca, vê com bons olhos a chegada do baiano Juca Ferreira à paulistaníssima prefeitura de Fernando Haddad, afirma não morrer de amores pelo Vale Cultura encampado pela ministra Marta Suplicy e reitera aos puristas que, assim como já declarou Gilberto Gil, "raiz para mim só de mandioca".

Na última década, o Brasil vive a ascensão de uma nova classe média e a chamada inclusão pelo consumo. De que forma essa transformaçao se expressa no âmbito da cultura?
Em seu artigo de domingo passado no Estado, Fernando Henrique Cardoso escreveu que "a dissolução do conceito de classes em "categorias de renda" chamadas classes A, B, C, D, ou nesta "nova classe média", dificilmente se sustenta teoricamente". Falou mais como sociólogo do que como ex-presidente ou político da oposição. Eu, como antropólogo, orientando de Gilberto Velho - por sua vez orientando de Ruth Cardoso, corajosa o suficiente para, durante a ditadura militar, aceitar que Gilberto fizesse tese sobre o consumo de drogas entre jovens da velha classe média posso afirmar que tal dissolução também não se sustenta culturalmente. Quando dizemos "nova classe média" estamos pensando num grupo extremamente heterogêneo em termos de estilos de Vida e visões de mundo. Há de tudo nela: pastores de igrejas evangélicas, DJs de tecnobrega, militantes de coletivos periféricos, donos de lan houses, etc. O rótulo impreciso tenta dar conta de uma grande transformação da sociedade brasileira, ainda não analisada devidamente.

Em que termos falta analisá-la?
Ela não é apenas uma transformação econômica. Aconteceu ao mesmo tempo em que outras mudanças profundas se processavam. Na cultura, as conseqüências da revolução digital foram imediatas. O modelo de negócios da "indústria cultural", que funciona na base do broadcast, poucos-para-muitos, ainda não conseguiu se adaptar ao mundo das redes, muitos-para-muitos. Por exemplo, o mundo das gravadoras de discos, que comandava o mercado mundial de música popular, praticamente desmoronou. Milhares de pequenos estúdios surgiram em todas as periferias. Seus produtos são distribuídos via internet e fazem sucesso sem precisar de rádio, imprensa, TV. Em 2006, quando escrevi o texto para lançamento do programa Central da Periferia, na Globo, deixei claro: somos a mídia de massa correndo atrás da música mais popular nas ruas brasileiras que nunca esteve na TV antes. Descrevi a grande mídia como um disco voador, sobrevoando o País, sem conexão com o mundo "de baixo". De lá para cá, nada mudou tanto assim: apenas o barulho de fora (Ai se eu te Pego), amplificado por milhões de alto-falantes de som automotivo ou de celulares ligados em redes sociais, já penetra a fuselagem da nave, incomodando seus finos tripulantes.

O sr. quer dizer que há um incômodo com a democratização da cultura?
O melhor texto sobre isso é o do Otávio Velho dizendo que não há mais grotões no Brasil. Ele criticava a opinião de que os votos que elegeram Lula vinham de grotões ignorantes e sem conexão com a realidade contemporânea. Quem não viaja pelo interior não deve se dar conta disso. Quando piso em qualquer biboca, longe das capitais, logo encontro grupos articuladíssimos, tocando projetos sociais e culturais muitas vezes com repercussão internacional. E há também uma politizaçào geral nesse interior que não é só de esquerda, e quase sempre não tem lugar definido no espectro ideológico tradicional. Ela é alternativa a vida político-partidária, parte do "disco voador", e produziu importantes organizações como a Cufa (Central Única de Favelas) e o AfroReggae. O pop periférico e a politizaçào cultural periférica - que não mantêm relações harmoniosas entre si - são as principais novidades culturais brasileiras das duas últimas décadas.
E as políticas de cultura do País, estão dando o melhor a essa população ou apenas reforçando estereótipos?
Políticas de cultura não devem "dar" nada para a população. Isso se parece com promessa velha de político acostumado ao ar condicionado no disco voador: "Vou levar cultura para as favelas". A imagem tradicional era a favela como vazio cultural que devia ser iluminada com arte de fora. Os próprios favelados já deram a resposta: "Qual é, mané, o que não falta aqui é cultura". As políticas de cultura, então, precisam trabalhar junto com o que já acontece em cada lugar, possibilitando uma melhor circulação de informações e contribuindo para ampliações de horizontes de maneiras de fazer arte, que foram criadas muitas vezes aos trancos e barrancos (ou dentro de barracos). Outro dia vi um censo cultural realizado com jovens de áreas "ex-pobres" - expressão inventada pelo MC Papo rei do reggaeton mineiro - do Rio revelando uma maioria absoluta que nunca tinha ido a um show musical. Conheço bem as áreas onde a pesquisa foi aplicada e sei que essa rapaziada freqüenta baile funk com muitas apresentações ao vivo. Aquilo não é considerado show musical? Por quem, o pesquisador ou o pesquisado? Show musical é o quê? Só o que acontece no Citibank Hall?
O sr. foi um defensor dos CEUs e dos Telecentros da então prefeita Marta Suplicy. O que achou do Vale Cultura, apresentado pela agora ministra?

O Vale Cultura não foi inventado pelo ministério Marta. Tem longa história de formulação e debate, anterior até à data de 2009, quando foi para o Congresso. Na época, o então ministro Juca Ferreira já precisou atacar a opinião de que o dinheiro "não deveria ser usado em baile funk"". Juca seguiu o pensamento de Gilberto Gil, que numa de suas melhores frases como ministro disse: "Cultura ruim também é cultura". E isso, não tenho o que acrescentar porque sei que Gil e Juca sabem que funk não é cultura ruim. Gil até já cantou, em declaração de amor para o Rio, "quero ser teu funk".
Então o sr. concorda com a resposta da ministra aos críticos do Vale Cultura: ‘Se quiser comprar revista de quinta categoria, pode’ e ‘compra porcaria quem quiser’?

É engraçado: quando a política deixa o mercado decidir como o incentivo vai ser usado, é acusada de sustentar cultura de mercado com dinheiro público. Quando quer corrigir “distorções do mercado”, como o fato de a região Sudeste acabar com a maior porcentagem do dinheiro da Lei Rouanet, é acusada de dirigismo cultural Parece que todos preferem o imobilismo, que o ministério não proponha política nenhuma. Não morro de amores pelo Vale Cultura, mas encaro sua implementação como uma experiência. Por que, de antemão, achar que ele vai ser usado só em porcaria? Essa é a imagem que temos do tal “povo”, coitadinho, que precisa de nossa orientação para saber o que é bom. E se for assim, por que esses críticos não partem para a porta das fábricas para ensinar ao povo o que é bom, com serviço de van grátis direto para a Sala São Paulo? Essa é a imagem que temos do tal “povo”, coitadinho, que precisa de nossa orientação para saber o que é bom. E se for assim, por que esses críticos não partem para a porta das fábricas para ensinar ao povo o que é bom, com serviço de van grátis direto para a Sala São Paulo?

A ida de Juca Ferreira, um baiano, para a Secretaria de Cultura paulistana de Fernando Haddad, lhe agradou?

Confesso que fiquei surpreso. Estamos acostumados a pensar a política estadual ou municipal de forma paroquial, como se só os locais pudessem lidar com realidades locais. Então foi surpresa boa: uma pessoa de fora pode descobrir maneiras novas para resolver velhos problemas já naturalizados pelos nativos. Mesmo quando entende as coisas de forma errada. Lembro a descoberta do tropicalismo pelos críticos estrangeiros nos anos 1990: eles falaram muita besteira, não captavam as sutilezas do nosso contexto, terrivelmente complexo para gringos. Mas aquilo me fez entender nosso passado musical com novos olhos, e tudo ficou ainda mais interessante. Espero que o mesmo aconteça com o diálogo entre o baiano Juca e os paulistanos, que sempre souberam acolher bem os baianos, a ponto de ninguém poder dizer com certeza se o tropicalismo é baiano ou paulistano. Mandei até uma sugestão, de que uma das primeiras ações do novo secretário deveria ser um encontro com a grande comunidade do samba paulistano.

E como vai a cultura em sua cidade, o Rio?

No Rio acontecem outras surpresas: uma pessoa de fora, o gaúcho Beltrame, impulsionou o projeto das UPPs. Por anos fui defender o funk e a possibilidade de realização dos bailes na Secretaria de Segurança -já que a Secretaria de Cultura nunca se pronunciava. Hoje, há uma nova era de projetos culturais. Bom sinal para a cidade, que agora, pós-tragédia em Santa Maria, terra do Beltrame, percebe como as coisas estavam descontroladas. Havia a tal da Resolução 013 que era sempre usada por policiais quando queriam fechar um baile. Tudo podia ser motivo: falta de saídas de emergência, banheiros, isolamento acústico, etc. Agora sabemos que mesmo os espaços culturais da prefeitura ou do Estado funcionavam contrariando regras de segurança. Por que só os bailes eram fechados?

E o Carnaval? Nessa semana de exaltação e júbilo país afora, temos o que comemorar?

Este Carnaval é do sertanejo, do arrocha, do funk paulistano. Ela é Top, do paulistano MC Bola, é a música mais tocada no rádio em Salvador, com versão bem local. Essa é a brincadeira musical preferida atualmente: os sucessos ganham versões em todos os ritmos do momento. E os estilos se misturam. Quem diria que o sertanejo iria virar música de balada? Quem diria que Campo Grande, Mato Grosso do Sul, iria se transformar na capital do pop brasileiro? Eu não entendia muito bem o mundo do sertanejo. Até que fui numa festa de fundo de quintal, bem familiar, em Campo Grande. Uma dupla tocava canções que eu nunca ouvira antes e todo mundo fazia coro, com emoção tão explosiva quanto no momento mais animado do bumbódromo de Parintins. Foi minha rendição: gosto de pop fake, mas também não resisto diante da autenticidade. Naquele momento, gostei por motivos antropológicos, o que me encantava era o amor que aquelas pessoas sentiam por aquela música. Estava claro que algo grande iria acontecer dali. Hoje gosto também por motivos musicais. Mas há outro aspecto interessante nessa brincadeira, que é bem mais que música. Ninguém, nem mesmo o fã mais “inculto”, acha que Ai se eu te Pego é um clássico de Tom Jobim. Aquilo é outra coisa: um mote para festa, para animação coletiva. Começou com uma cantoria de meninas paraibanas viajando para a Disney, virou refrão para animar turistas em Porto Seguro e depois forró em Feira de Santana. Michel Teló transformou o resultado em canção pop, que já foi apropriada em vídeos em todo o planeta, como Gangnam Style. O que importa aí é o processo, a diversão agora, o riso solto, e não a obra-prima para ser venerada como fuga de Bach. É preciso julgar as duas coisas com critérios diferentes.

O sr. parece otimista, mas há alguns dias o sambista Zeca Pagodinho criticou o Carnaval no Rio, disse que ‘tudo foi roubado’ e não se vê mais nem enfeites nas ruas de periferia. Sambas-enredo falam de países distantes e cavalos manga-larga por exigência de patrocinadores. E até o elogiado renascimento dos bloquinhos de rua, em contraponto ao mega-show mercantilizado do sambódromo, já é promovido por marcas de cerveja. A massificação põe em risco a riqueza da festa?

O Carnaval é uma festa moderna, que cresceu mesmo a partir do final do século 19. O primeiro desfile de escola de samba aconteceu em 1929, e o patrocínio dos jornais foi importante para sua popularização e “oficialização”. Antes era algo menor no calendário cultural do Rio. A grande festa da cidade era o Divino, que ocupava o Campo de Santana durante várias semanas. Desapareceu. Nem por isso o Rio deixou de ser o Rio. Tudo muda. E muitas novidades importantes têm origem em desrespeito a tradições. O baiano Hilário queria botar seu terno de Reis nas ruas cariocas. Notando que o 6 de janeiro não era dia de folia no Rio, resolveu sair no Carnaval. Deu nos ranchos, nas escolas de samba e assim por diante. Se fosse fiel às regras tradicionais, a cultura da cidade hoje seria bem diferente. Eu adorava o Carnaval no Centro do Rio no início dos anos 80. Cacique de Ramos e Bafo da Onça desfilavam gigantescos, empolgadíssimos. Aquilo foi minguando, melancolicamente. Houve ano que não escutei nenhum som de blocos na rua. Hoje há cada dia mais blocos, cada vez maiores. A garotada carioca, de todas as classes, voltou a ter no Carnaval sua melhor festa. Você não gosta de blocos comerciais? Não se preocupe, há muitos outros que fogem do comércio. Neste ano vai ter até bloco que só canta marchinhas baseadas em tragédias gregas.

Há quem veja, no entanto, um empobrecimento nas manifestações artísticas de hoje, especialmente se lembrarmos do samba de raiz de Cartola e Pixinguinha, por exemplo. Não há em seu discurso uma certa correção política que impede a crítica?

Cito mais uma vez Gil: raiz para mim só de mandioca. Samba é música moderna, criada no início do século 20, inclusive com a invenção de instrumentos novos, como o surdo, criado a partir de tonéis industriais. Tudo muda, o tempo todo. Ficou mais pobre? A partir de que critério? Sei que o relativismo está fora de moda. Nem ligo: sou relativista incorrigível, cada vez mais radical. Constantemente me pego fazendo coro para Hêmon brigando com seu pai Creonte, em Antígona: “Guarda-te, pois, de te apegares a um só modo de pensar, crendo que o que dizes, e por sères tu que o dizes, exclui qualquer outra possibilidade de ver e sentir as coisas”. Não tem quem me convença que há um fundamento estético único a partir do qual podemos decretar o empobrecimento ou o enriquecimento das criações humanas. Mas digamos que há: então encontro no funk muitos elementos que o tornam superior a uma sub-MPB que tentam me empurrar como música de qualidade. O tamborzão do funk salvou a música brasileira na virada do século 20 para o 21. E vanguarda mesmo, concretismo eletrônico afro-brasileiro. Mas para quem acha que hip hop não é música, ou que Stockhausen não é música, o que estou falando é delírio. Um consolo é saber que a produção da gravadora Motown um dia foi considerada por todos os críticos como lixo comercial sem futuro.

A que servem iniciativas suas como o programa Esquenta!, com Regina Casé?

Antes de qualquer outra coisa queremos fazer uma boa festa. Nas gravações do programa, os momentos que mais nos agradam são quando a platéia assume o controle e viramos espectadores da farra coletiva, Como em qualquer outra festa boa, para isso acontecer é preciso reunir gente que pensa diferente e não tenha preconceito diante das diferenças. Reunião só com gente que pensa igual não tem graça.

O Brasil deveria apostar num programa de inclusão social pela cultura?

Detesto a palavra inclusão por motivos que já comentei nas respostas anteriores: parece que a salvação do excluído - que não tem nada, é um vazio a ser preenchido por bom conteúdo - está na sua captura por um mundo que não é dele, não sua transformação em Outro. Partindo dessa premissa, a política cultural já seria de grande valor se não atrapalhasse o que já existe. O governo tem enorme dificuldade para criar e implantar política cultural. Mas política anti-cultural é corriqueira. Como a proibição dos bailes funk quando a música estava nascendo, empurrando-a para dentro de morros controlados pelo tráfico armado. O “funk proibidão” foi produto dessa ação an-ticultural do poder público.

Pátria e morte - DORRIT HARAZIM

Chris Kyle matou, sozinho, comprovadamente, mais de 160 iraquianos (pelas contas dos colegas foram 255). E morreu sem entender nada da guerra, em que acreditava ter triunfado


Nestes tempos de drones, como são chamados os aviões não tripulados capazes de matar à distância e anonimamente, sobra menos espaço para a glorificação individual de atiradores que se notabilizam pelo número de inimigos eliminados.

O texano Chris Kyle tem lugar garantido na história militar dos Estados Unidos. Como franco-atirador da tropa de elite Seal, da Marinha ( a mesma que desentocou e executou Osama Bin-Laden dois anos atrás), ele serviu quatro turnos na guerra do Iraque. Cumpriu como ninguém a missão para a qual fora treinado: garantir a proteção de seus companheiros na fase mais sangrenta dos combates. Matou, sozinho, comprovadamente, mais de 160 iraquianos (pelas contas dos colegas foram 255) e teve a cabeça colocada a prêmio de 20.000 dólares pelas milícias locais. Ao retornar para casa, em 2009, trazia no peito dezesseis condecorações — entre elas 2 Purple Hearts, 2 Estrelas de Prata, 5 Estrelas de Bronze.


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Futebol guerreiro - TOSTÃO

Felipão terá de decidir entre o estilo das grandes equipes do mundo ou o guerreiro, truncado

NA DERROTA para a Inglaterra, muitos disseram que Felipão não foi Felipão, porque contrariou seu estilo, ao escalar dois volantes que avançam. Ocorreu o contrário, ao colocar Ramires e Paulinho muito atrás, estáticos, sem marcar por pressão, o que os dois fizeram muito bem, com Mano Menezes.

Um dos assuntos mais comentados na semana, que tem a ver com a maneira de jogar do futebol brasileiro, foi o vídeo mostrado pelo Botafogo, em que o zagueiro Bolívar, conhecido por suas cacetadas, gritava: "Vamos deixar cicatrizes nesses caras".


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Exame da OAB: controle de qualidade? - CARLOS EDUARDO DIPP SCHOEMBAKLA

Algum tempo atrás, uma notícia estampou praticamente todos os jornais do país: “Primeira fase do Exame de Ordem registra pior resultado desde 2010”. Tal fato provoca nos acadêmicos de Direito um grande temor quanto ao exame, e eles deixam de acreditar em si mesmos, na bagagem acadêmica que adquiriram durante o curso e, claro, nos estudos que realizaram e que devem realizar constantemente. Mas tal notícia, além de temor, também suscita raiva em alguns, dúvidas em outros, e sempre um mesmo questionamento: qual a necessidade do exame aplicado pela Ordem dos Advogados do Brasil? Por que para outras profissões não existe tal exame?

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Outra carta da Dorinha - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Recebo outra carta da ravissante Dora Avante. Dorinha, como se sabe, não confessa a idade mas diz ser absolutamente falso que o número do seu primeiro telefone era 2, porque o 1 era do Alexander Graham Bell. Ela desistiu de desfilar como madrinha de bateria neste Carnaval depois do lamentável incidente, ainda não devidamente esclarecido, do ano passado, quando seu tapa-sexo engatou num agogô. Dorinha ainda não sabe o que vai fazer no carnaval, só sabe que quer manter uma distância segura de qualquer desfile, inclusive porque ainda não recuperou o tapa-sexo. Ela está até pensando em... Mas deixemos que a própria Dorinha nos conte. Sua carta veio, como sempre, escrita com tinha lilás em papel azul, cheirando a Oui! Oui!, um perfume banido em vários países.

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Trincadura da alma - CARLOS AYRES BRITTO

Esta fase do gerenciamento das perdas afetivas é a mais difícil, até por uma questão de cultura


A tragédia atual de Santa Maria, Rio Grande do Sul, traz à tona uma expressão antiga: "há crimes que clamam aos céus e pedem a Deus castigo". O brado de indignação é tanto mais compartilhado quanto proferido por essa dimensão do ser humano a que chamamos de cidadania. No caso, cidadania que submete as coisas à lupa da razão mais dedutiva ou cartesiana para escancarar a desrazão dos causadores da hecatombe em que se traduz a morte de quase duas centenas e meia de seres humanos.


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O que será o amanhã? - MAURO LAVIOLA

A reunião de suposto congraçamento entre a Comunidade dos Estados Latino-america­nos e Caribenhos (Celac, ver­são latina da Organização dos Estados Americanos sem os EUA e o Canadá) e a União Européia, ocorrida em Santia­go do Chile no fim de janeiro, revelou o velho anacronismo existente em boa parte dos países da região dirigidos sob uma visão terceiromundista.

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Olegário - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Não se via mais homem fantasiado de mulher no Carnaval. Não tinha mais graça.

O nome do bloco é Os Safados, e existe há 50 anos. Na sua formação inicial tinha 36 componentes, todos amigos, que saíam vestidos de mulher. Como haviam combinado jamais aceitar gente nova no bloco, e como a vida é o que é, depois de 50 anos sobravam apenas 13 do grupo original. Só 13 se não contassem, claro, o Olegário, que ainda vivia, mas mal podia andar e morava numa clinica. 


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Salomão e Cascadura -Caetano Veloso


Um dos melhores discos de rock brasileiro de sempre é o novo do Cascadura

Faz duas semanas, comentando aqui o “Gonzaga” de Breno Silveira, escrevi que o show “Luiz Gonzaga volta pra curtir” talvez tivesse sido dirigido por Waly Salomão. Não foi. O diretor foi Jorge Salomão. Waly, segundo o próprio Jorge, só criou o título, que ele logo aprovou. O show foi coisa que ficou marcada na minha cabeça como a oficialização do reconhecimento de Gonzaga por parte da juventude de então. Disse que senti falta de uma referência a isso no filme, como senti falta de Ivan Lins e do Som Livre Exportação. Ao afirmar que a ausência de referências ao tropicalismo não me incomodava, eu não estava renegando. Mal pensei no papel do tropicalismo nesse episódio. Lembro-me de ouvir jovens contraculturais dizerem que os Beatles iam gravar “Asa branca”. Essa lenda revela muito do clima mental da época. O ressurgimento de sons rurais que veio com o rock (e que Ruy Castro deplora em seu livro sobre a bossa nova, por considerar parte do assassinato da grande canção urbana dos anos 1930 e 40) levava a moçada a fantasiar que o campo brasileiro entraria no repertório do topo do pop-rock anglo-saxão.


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FALA CAETANO

Eliane Cantanhêde - Troféu Petrobras

BRASÍLIA - O petróleo é nosso, a Petrobras é um dos maiores orgulhos nacionais e o pré-sal (junto com a magia da "autossuficiência") embotou o brilho dos biocombustíveis, encheu os olhos do mundo, atiçou a verve de Lula e recheou as urnas de Dilma Rousseff em 2010.

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Helio Schwartsman - Saudades do PT

SÃO PAULO - O PT faz falta na oposição. Colocando de outra forma, o país se ressente da ausência de uma oposição como a que o PT executava, isto é, atenta, sistemática e incisiva, ainda que às vezes injusta.
Numa semana em que a inflação deu mostras de descontrole, as ações da Petrobras derreteram -por culpa quase que exclusiva do governo- e o Planalto se viu obrigado a rever sua política de concessões, o que de mais relevante a oposição achou para criticar foi a presença do embaixador venezuelano num ato pró-Dirceu.

Oposições podem fazer bravatas e soar ranhetas, mas são um ingrediente crucial da democracia. Talvez possamos avançar mais e dizer que, sem algum tipo de contraditório, a própria razão fica ameaçada.

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Ferreira Gullar - Será arte?

Pode ser que me engane, mas estou convencido de que a pessoa nasce poeta, ou pintor ou cozinheiro
 
ESCREVER UM poema, pintar um quadro, fazer um filme, uma peça de teatro, uma composição musical, enfim, fazer o que se conhece como obra de arte, sempre requer do autor o domínio de um "métier", de uma linguagem própria a cada um desses gêneros artísticos, além, é claro, do talento, sem o qual aquelas outras condições não adiantam de nada.
 

sábado, 9 de fevereiro de 2013

COMO SE DIZ BEST-SELLER EM CHINÊS? - SÉRGIO AUGUSTO

O Estado de São Paulo - 

Nem sempre foi assim. Houve um tempo em que entre os livros mais vendidos no Brasil o lixo não prevalecia de forma tão acintosa,nem os habituais campeões de venda (Harold Robbins, Arthur Hailey, Stephen King) entupiam as listas de best-sellers com dois ou três lançamentos simultâneos,como acontece atualmente,como comércio de livros oligopolizado por E. L.James,Dan Browne Stephenie Meyer. Se não lemos (ou líamos) mais, já lemos bem melhor.

Em 1966, por exemplo, a tradução que Antonio Houaiss fez de Ulisses, de James Joyce, chegou ao topo dos mais vendidos, onde lhe fizeram companhia três importantes autores nacionais – Carlos Heitor Cony (com Balé Branco), Mário Palmério (Chapadão do Bugre), Erico Verissimo (O Senhor Embaixador) – e três estrangeiros de inquestionável qualidade: Hemingway (com uma reedição de O Sol Também se Levanta), JamesBaldwin (Numa Terra Estranha) e John Le Carré (O Espião Que Veio do Frio).

Nas duas décadas seguintes, a peteca não caiu.O até então imbatível Jorge Amado passou a ser ultrapassado não por gringos de baixo teor literário,como fatalmente ocorreria hoje em dia, mas pelo esplêndido Rubem Fonseca. Numa relação dos mais vendidos no início de 1986, que há meses pincei para uma pesquisa, deparei com um romance de Rubem Fonseca (Bufo & Spallanzani) e dois de Milan Kundera (Risíveis Amores e A Insustentável Leveza do Ser) dividindo a mesma lista com MargueriteDuras, Luis FernandoVerissimo, Fernando Pessoa, Guimarães Rosa (uma reedição de Grande Sertão: Veredas) e Dalton Trevisan (A Polaquinha). Vivíamos numa utopia literária e não sabíamos.

Também foi em 1986 que a estreante Companhia das Letras embasbacou o mercado editorial ao vender 100 mil exemplares de Rumo à Estação Finlândia, de Edmund Wilson, que por dez meses reinou sobranceiro entre os livrosde não ficção mais comprados do ano. Em suas quatro décadas de existência,
To the Finland Station nem um quinto disso vendera nos países de língua inglesa. No pódio outrora ocupado pela magnífica aula de história moderna de Wilson agora temos uma aula de emagrecimento do dr. Pierre Dukan, seguida de outras chorumelas dietéticas e comportamentais.

Não é a única evidência da degradação cultural do Brasil nos últimos anos. Decadência que,aliás,nãonos é exclusiva (o mundo inteiro rendeu-se a todos os tons de cinza de E.L. James) nem deve ser tributada à “nova classe média” em ascensão, pois livro nunca fez parte da cesta básica espiritual dos brasileiros, ao contrário da música e da TV.O fenômeno é mais complexo e tem mais a ver com a decadência do ensino e a ascensão das novas mídias do que com uma eventual contaminação do gosto médio pela vulgaridade populista há tempos hegemônica entre nós.

Ainda me pergunto quantos, em 1986, leram a tradução do Ulisses e quantos só a compraram impelidos pelo efeito manada ou para fazer farol ? Não existe pesquisa a respeito, apenas suposições.Tampouco se sabe quantos na China compraram a tradução de Ulisses para o mandarim ( mais de 85 mil exemplares vendidos em 18anos) com o propósito de gramá-lo porinteiro e quantos só o fizeram para impressionar amigos e vizinhos,aconselhados ou não pelos milhares de decoradores que lá surgiram para atender aos caprichos de novo-rico da plutocracia local.

Outra suspeita é de que o schineses desenvolveram um penchant por livros de espinhosa leitura como uma reação catártica ao sectarismo da Revolução Cultural e por acreditá-los inatingíveis pela censura ora em vigor. Joyce, que para os templários maoistas não passava de um burguês decadente, de um formalista antirrevolucionário, teria se tornado uma referência libertadora, um salvo-conduto para a modernidade, um emblema de algo ainda escasso na China: a liberdade de criar.

Ok, mas não precisavam exagerar, transformando também em best-seller o impenetráve lFinnegans Wake. Acredite: uma tradução do canto do cisne de Joyce para o mandarim foi lançada na China no último Natal e vendeu em três semanas 8 mil exemplares; cifra impressionante mesmo para os superlativos padrões chineses. Finnegans Wake é um dos romances mais ininteligíveis de todos os tempos. O próprio Joyce dizia que os críticos levariam 300anos para decifrá-lo.Nãoé tarefa para nenhum de nós.

Editada aos pedaços em1924,com o título provisório de Workin Progress (Obra em andamento), e lançada,já com seu título definitivo, em 1939, o mínimo que provocou nos meios literários foi perplexidade. Duvidaram que fosse um romance e, caso fosse, não souberam precisar a que gênero pertencia e em que língua fora escrito (a base é um inglês desnaturalizado pela desaforada inventiva linguística do autor, que ao longo do texto incorpora orações e parágrafos inteiros em 70 idiomas, criando neologismos e jogos de palavras intraduzíveis). Nem sequer tente imaginá-lo em mandarim.

Originalmente com 20 mil páginas de notas manuscritas repartidas em 60 cadernos, Joyce levou 17 anos burilando a cria, e entre cópias e revisões chegou a 20 versões diferentes.“ Perda de tempo”,lastimaram vários admiradores do escritor. A versão editada pela Random House tinha mais erros tipográficos que a primeira edição de Ulisses, impressa por franceses numa gráfica de Dijon. Dois filólogos joycianos levaram três décadas“arrumando” o texto e há três anos o entregaram a uma editora swiftianamente chamada Houyhnhm.

As duas traduções feitas no Brasil, pelos irmãos Campos e Donaldo Schüler, têm o mesmo título, Finnicius Revem, e divergem desde a primeira palavra. Campos traduziu “riverun” por “ricorrente” e Schüler, por “rolarrioanna”. Em mandarim, não sei como ficou.

VAI SER GROUCHO - Arnaldo Bloch


As aventuras de um repórter que incorporou a fantasia de carnaval à rotina

Aconteceu num fevereiro qualquer da imaginação. O repórter já bem rodado foi à Casa Turuna, no Saara, e procurou a máscara de Groucho Marx: os óculos, o nariz, o bigode.
O charuto poderia ser um baiano. O vendedor se desculpou: ninguém mais procurava aquela máscara.
— Mas tem do Renan. É lançamento.
O repórter correu para a redação e foi atrás de lojas virtuais. Acabou encontrando a máscara num site americano. Pediu entrega urgente e recebeu o pacote na véspera da folia.

MARATONAS PARA FUGIR DO CARNAVAL

Nada de confete, serpentina, bloco de rua ou escola de samba. Para aquela turma que foge da folia e pretende se trancar em casa durante o período momesco, alguns canais prepararam maratonas que podem ocupar boa parte do seu tempo, ao menos neste primeiro dia de carnaval.

A MTV, que batizou sua maratona de “Carnaval Metaleza”, preparou mais de 80 horas de programação, que inclui até uma versão da tradicional vinheta da TV Globo em ritmo de heavy metal. No roteiro — que só termina na quarta-feira de cinzas — está ainda a participação de Bruno Sutter no Motorcycle Rock Cruise, cruzeiro só de roqueiros.

Já o Bem Simples exibe hoje, em sequência, episódios especiais e inéditos dos programas “Cozinha caseira”, “Homens gourmet”, “Ser mulher” e “Tudo simples”, com as mais variadas dicas.

Por fim, o Nat Geo pesa o clima e reprisa quatro episódios de programas que se passam no Brasil. Detalhes: todos mostram crimes cometidos por aqui. Na lista estão “Brasil” e “O rei da cocaína” (ambos do programa “Férias na prisão”), “Rio de Janeiro” (da série “Capitais do delito”) e o documentário “A esmeralda de 400 milhões de dólares”.

Carnaval MTV Variedades MTV, 0h30m

Maratona Carnaval Variedades Bem Simples, 20h15m


Maratona Delitos: Destino Brasil Variedades Nat Geo, 21h30m



Hermes Frederico, um mestre em unir gerações

  • Diretor da CAL, professor da PUC, produtor teatral e um dos maiores especialistas em novela brasileira revela jovens talentos e preserva a história dos grandes intérpretes em livro, ciclos e séries de TV
Mauro Ventura 

Hermes Frederico prepara livro e série sobre a história da telenovela brasileira
Foto: Camilla Maia
Hermes Frederico prepara livro e série sobre a história da telenovela brasileira Camilla Maia
RIO - Enquanto aguardava a hora de dar entrevista em seu consultório no Humaitá, o doutor Hermes Frederico aproveitava para fazer anotações. Mas o médico homeopata não prescrevia receitas ou fazia apontamentos sobre algum artigo técnico. Ele aproveitava o tempo para adiantar seu livro sobre a história da telenovela brasileira. Com a letra surpreendentemente clara para um médico, escrevia passagens dos anos 1960. Já está no 18° capítulo, algo como um terço do total.

Hermes tem autoridade no assunto. Não apenas por ser coordenador da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e diretor acadêmico da Faculdade CAL de Artes Cênicas. É que há quase 20 anos ele se dedica a preservar a memória dos grandes intérpretes da dramaturgia nacional, por meio de ciclos, peças e séries de TV.

Meu caro senador - Cacá Diegues

A ética, senador Calheiros, não é meio nem fim. É princípio. É a melhor invenção do homem, um princípio sem o qual não se pode viver em sociedade


Parece absurdo falar de ética em pleno carnaval, uma festa dita bárbara, com fama de tudo permitir sem restrição alguma. Não é bem assim. Como o carnaval foi inventado por seres humanos em sociedade, há sempre um contrato de comportamento mútuo entre os que desfrutam dele.
Experimente, por exemplo, namorar a mulher do passista de sua escola, enquanto vocês desfilam. Ou tocar o pandeiro fora do ritmo do animado bloco de sua rua. Experimente interromper o baile à fantasia para propor uma oração em memória de ente querido.

Na Berlinale - LUIZ CARLOS MERTEN

Em Berlim, três filmes medianos, um deles é de Gus Van Sant, captam o mal-estar contemporâneo


LUIZ CARLOS MERTEN , ENVIADO ESPECIAL / BERLIM

E a neve cobriu a cidade de branco. Agora, sim, a 63.ª Berlinale começou de verdade - com muito frio, mas, por enquanto, uma seleção que parece indecisa, com exceção do suntuoso The Grandmaster, de Wong Kar-wai, na abertura, na quinta-feira. Já foram exibidos três concorrentes, e mais parecem filmes médios, a despeito de integrarem a programação de um dos maiores eventos de cinema do mundo.

O austríaco Ulrich Seidl mostrou Hope, que integra a trilogia Paradise, com a qual, ao contrário da indicação de um possível paraíso na Terra, o diretor parece mais interessado em desvendar o horror do mundo. O que se passa com esses austríacos? Michael Haneke é outro misantropo, que não acredita muito no humano - embora diga o contrário -, mas pelo menos filma um pouco melhor em Amor, que está lhe valendo verdadeira consagração internacional.

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‘Se os criminosos se infiltrassem na Copa, seria terrível’

 Entrevista - Ralf Mutchke, diretor de segurança da Fifa

Ex-funcionário da Interpol virá ao Brasil para tratar da manipulação de resultados e desenvolver um plano sobre o que fazer

JAMIL CHADE , ENVIADO ESPECIAL / ZURIQUE - O Estado de S.Paulo
 
Grupos criminosos estão infiltrados no futebol sul-americano. O alerta é do diretor de segurança da Fifa, o alemão Ralf Mutchke. Ele revela ao Estado que vai começar a implementar no Brasil em março um projeto para lutar contra o fenômeno da manipulação de resultados, tendo em vista também uma ação para a proteção dos jogos da Copa das Confederações e da Copa do Mundo de 2014.
Mutchke recebeu a reportagem na sede da Fifa, em Zurique, e estima que hoje cem países são vulneráveis ao crime organizado no futebol.

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SABATICO

BABEL: Editora do Benin vai traduzir livros de brasileiros

 

Um romance de deformação - André de Leones 

  

Alan Pauls revisita infância em lembranças do balneário argentino de Villa Gesell

   

 
ENTRE EXCESSOS E PARADOXOS - JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

 

 Leia conto inédito que relata a história de um certo Everaldo, “o mais antigo boticário da rua da Portela”
 

A beleza criadora em sua feroz melancolia 

Trinta anos após sua morte, Tennessee Williams segue no imaginário dos Estados Unidos, como testemunham a reedição de seus livros e a volta exitosa de 'Gata em Teto de Zinco Quente' ao palco


 

Beijo do desprezo - CRISTOVAM BUARQUE

O abandono de nossas escolas não mata diretamente, mas dificulta o futuro de cada criança que não estuda


Não é difícil perceber como as manchetes das revistas do último fim de semana se referem à tragédia humana da boate Kiss de Santa Maria: “Quando o Brasil vai aprender?”, “A asfixia não acabou”, “Tão jovens, tão rápido e tão absurdo” e “Futuro roubado”. É também uma tragédia que pode ser associada às escolas de todo o Brasil. É como se a boate de Santa Maria fosse uma metáfora da escola brasileira.


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José Miguel Wisnik - ‘O boi no telhado’


Colunista comenta o livro 'O boi no telhado — Darius Milhaud e a música brasileira no modernismo francês'



“Qualquer um pode dizer o que bem entender do Brasil, mas não tem como negar que se trata de um desses países pungentes, que impregnam a alma e a deixam com um certo tom, um vezo, um tempero de que ela nunca mais conseguirá se ver livre.” As palavras são de Paul Claudel, poeta notável e embaixador da França no Brasil durante a Primeira Guerra Mundial, em 1917-1918. O seu secretário no período foi Darius Milhaud, importantíssimo compositor do modernismo francês que se apaixonou então pela música brasileira, que sacudiu Paris em 1920 com o balé “Le boeuf sur le toit” (“O boi no telhado”), uma colagem vanguarda feita de maxixes e tanguinhos brasileiros, e que escreveu também a suíte “Saudades do Brasil”, evocando lugares do Rio de Janeiro, onde se inclui uma quase pré-bossa nova “Ipanema”.

André Singer - Passado ou futuro?

O Ministério Público do Rio de Janeiro abriu inquérito para investigar quatro clubes da cidade que teriam proibido o ingresso de babás que não estivessem devidamente uniformizadas de branco. A ação partiu do frei David dos Santos, da ONG Educafro, para quem, segundo "O Globo" (17/1), a medida reproduziria "o cenário das célebres gravuras de Debret, com a representação de 'sinhôs', 'sinhás', 'sinhozinhos' e suas 'mucamas', em pleno século 21".
A persistência do passado, projetando sombras sobre o futuro, inquieta, com razão, brasileiros do presente.

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Ruy Castro - Duas coleções

RIO DE JANEIRO - Em 1991, conheci em São Paulo o acervo de um colecionador de discos, recém-falecido, posto à venda pela viúva. A casa ficava no Jardim Europa, e parecia que os 100 mil LPs e 78s, comprados entre 1928 e 1980, a tomavam inteira. Victor Simonsen, o colecionador, tinha tudo de quase tudo: clássicos, ópera, jazz, big bands, Broadway, Hollywood, cantores americanos, franceses e brasileiros, valsas, tangos, boleros, mambos, bossa nova.

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Helio Schwartsman - Leasing uterino

SÃO PAULO - Em geral, gosto muito do que escreve João Pereira Coutinho, mas, quando o assunto é bioética, não habitamos o mesmo planeta. A crítica que ele fez das barrigas de aluguel não me convenceu.
Para começar, é temerário invocar o imperativo categórico de Immanuel Kant para lidar com dilemas morais do mundo real. Não podemos esquecer que, pela ética kantiana, estamos obrigados a revelar ao assassino o local onde se esconde sua presa.

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Drauzio Varella - De volta ao crack

Vi jovens fortes definhar até a caquexia, contrair tuberculose e morrer com o cachimbo ao lado

Tenho contato com usuários de crack há 21 anos. Em entrevista à jornalista Cláudia Collucci, publicada na Folha em 28 de janeiro, expus o que penso sobre a internação dos usuários contumazes.
Recebi alguns e-mails de pessoas que concordaram com as razões por mim expostas; outros, com críticas civilizadas e inteligentes, como as de meu colega da Folha Hélio Schwartsman, de quem sou leitor assíduo; outros, ainda, indignados, que só faltaram acusar minha progenitora de haver abraçado a mais antiga das profissões.

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