segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Renato Russo não morreu - GIULIANO MANFREDINI

 O Globo -14/10/2013

Seus versos sensíveis e
arrebatadores são cartas
que escreveu à posteridade,
embalando sonhos de
geração para geração

Ao recordarmos os 17 anos da morte de Renato Russo, na última sexta feira, o destino de sua obra está sacramentado. É o mesmo das vastas produções de Drummond, de Borges, de Pessoa, dos poetas que quanto mais o tempo passa mais atuais e modernos ficam. Nós o perdemos fisicamente, ainda jovem e no auge de sua capacidade criativa, e vivemos o paradoxo de tê-lo tão presente na atemporalidade de seus versos, pela força de sua mensagem, pela impressionante identificação de suas composições com os sentimentos coletivos. Renato firmou-se como uma das maiores figuras de sua geração — talvez a maior — não buscando nem a glória nem a riqueza. Elas foram decorrência de sua inquietude intelectual, da formação cultural sólida e, acima de tudo, do gênio criador e iluminado que ele foi e todos reconhecem. Tenho absoluta certeza de que sua grande ambição (seguramente a única) foi a de transmitir seus valores, perplexidades e a imensa esperança em um mundo melhor.

Seus versos sensíveis e arrebatadores, suas músicas que teimam em brotar carinhosamente dos lábios de gente que sequer o conheceu mas o adora, são cartas que escreveu à posteridade, como bandeiras desfraldadas ao infinito, embalando sonhos de geração para geração.

Desde muito cedo compreendi o que era ser filho de Renato Russo. Era a permanente acumulação de carinhos recebidos, sendo o alvo da doçura e da generosidade testemunhadas por todos os que tiveram a ventura de conviver com ele. As lembranças que guardo, e que incrivelmente não se perdem com o passar dos anos, são fruto do extremo cuidado e do amor transbordante que ele dedicava a todos os que lhe eram caros. E não só a mim, como a pessoas que mal conhecia. Agredido por um desconhecido em seu último show em Brasília — alguém com evidente descontrole mental — meu pai esbravejou com os seguranças que retiravam o agressor, exigindo que o libertassem. Não admitiu o que julgava ser uma violência contra o indivíduo que minutos antes invadira o palco e o agarrara bruscamente. Vi as imagens num especial da GloboNews dias atrás e recordei a figura de meu pai, em sua extraordinária dimensão humana, grandiosa em qualquer momento ou situação, vivendo o que compunha e cantava.


Nos recentes protestos que sacudiram nosso país, me emocionei ao saber que os 80 mil jovens que ocuparam as ruas de Manaus, e de forma espontânea e pacífica paralisaram aquela cidade, entoavam “Que país é esse?” com a força de um hino. Cantavam com paixão uma música composta quando a esmagadora maioria deles sequer havia nascido. É que quase duas décadas depois de sua prematura partida, Renato está vivo e incendiando de poesia e dignidade as consciências no coração da nossa Amazônia e em todas as esquinas do planeta. Em Montevidéu, semana passada, um cidadão uruguaio foi às lágrimas ao saber que
eu era filho de Renato Russo, e a feirante que nos vendia camisetas com sua face estampada recusou-se a cobrar-me por uma delas. Renato e a força de sua poesia estavam lá, às margens do Rio da Prata, como também no coração da distante Amazônia.


Penso que ele foi um visionário, muito mais que um poeta de talento e artista de sucesso, e comento cá com meus botões o peso da responsabilidade de ser o guardião da obra monumental e de sua memória viva. Essas não me pertencem, nem a ninguém. Elas são do mundo, da cultura e do que creem na fraternidade entre os homens e na perenidade do amor.

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