O Globo - 20/10/2013
O debate que se instaurou no Brasil sobre a possibilidade de publicação de obras biográficas sem o consenti- mento dos personagens biografados tem sido pautado por uma falsa dicotomia entre liberdade de expressão e direito à privacidade. Não é disso que se trata. A questão é mais singela do que um suposto dilema filosófico entre a livre circulação de ideias e informações e a soberania do individuo sobre sua vida privada.
O problema em discussão é o seguinte: tem o indivíduo o monopólio sobre a narrativa da sua trajetória de vida? Ao exigir a prévia autorização do biografado (ou de seus herdeiros) para a divulgação de escritos a seu respeito, o art. 20 do Código Civil responde que sim. Note-se que não se está aqui a cogitar do conteúdo da obra; a autorização pode ou não ser concedida ao inteiro alvedrio do personagem retratado, sem relação necessária com a proteção de sua intimidade.
Cuida-se apenas do agrado ou desagrado do protagonista dos fatos com a versão do biógrafo. Embora editado já na plena vigência da Constituição democrática de 1988, o Código Civil (que é uma lei ordinária) criou um monopólio das autobiografias no país. Salvo com o beneplácito, quase sempre oneroso e parcial do biografado, as heterobiografias são um gênero virtualmente banido entre nós.
Além das cifras vultosas negociadas muitas vezes por puro interesse argentário, a lei em vigor gera ao menos dois outros efeitos nocivos ao chamado livre mercado de ideias: ( 1) um efeito silenciador, que condena anos e anos de pesquisas sérias e responsáveis dos autores aos escaninhos das editoras; (II) um efeito distorsivo, resultante da filtragem de documentos e depoimentos pelo crivo do biografado. Surge então o argumento da preservação da vida privada dos biografados. Trata-se de um falso argumento.
Ninguém está a defender a prática de atos ilícitos por parte de pesquisadores, historiadores ou escritores. Não se cogita da subtração de documentos reservados, da invasão de computadores que contenham dados sigilosos, da violação de comunicação privada, nem do ingresso em recintos domiciliares, que representam o asilo inviolável do indivíduo.
O trabalho de pesquisa histórica se realiza no limite da legalidade, pelo resgate de depoimentos esquecidos, por entrevistas com pessoas envolvidas nos fatos em apuração, pela busca lícita de documentos em arquivos públicos ou privados. Um jurista português me disse certa vez, com aquele raciocínio literal e cortante que é próprio da cultura lusitana: “O anonimato é para os anônimos!”. O raciocínio inverso, no entanto, não pode ser levado ao extremo.
É claro que pessoas públicas não têm a sua esfera de privacidade e intimidade reduzida a zero. Como todos nós, elas tomam decisões soberanas sobre as informações de sua vida privada que desejam tornar públicas ou manter sob reserva. Mas, como todos nós, elas não detêm controle absoluto sobre as informações que possam ser legalmente apuradas ou voluntariamente reveladas pelos seus detentores. A vida de figuras públicas é parte integrante da historiografia social.
Contá-la é um direito de todos, independentemente de censura ou licença, como assegura a Constituição. Conhecê-la é uma forma de controle social sobre o poder e a influência que tais figuras exercem sobre todos os cidadãos. O mecanismo da autorização prévia, forma velada de censura privada, é simplesmente inconstitucional.
Gustavo Binenbojm é professor da Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e advogado da Associação Nacional dos Editores de Livros
domingo, 20 de outubro de 2013
Nos passos dos ‘lekes’, a transformação do Rio - RENÉE CASTELO BRANCO
O Globo 20/10/2013
Eles inventaram uma dança, criaram
uma nova noção de beleza e de amizade,
borraram as fronteiras entre o masculino
e o feminino. Estão por toda parte,
conectados através do Youtube e do Facebook;
não usam drogas e respeitam os pais. São os
“mulekes” do Passinho.
uma nova noção de beleza e de amizade,
borraram as fronteiras entre o masculino
e o feminino. Estão por toda parte,
conectados através do Youtube e do Facebook;
não usam drogas e respeitam os pais. São os
“mulekes” do Passinho.
Moram em favelas e bairros populares do Rio
de Janeiro; formam uma rede que se estende
pelos municípios vizinhos. Criaram um modelo
alternativo para os jovens dos morros cariocas,
ainda atraídos pelo poder, glamour e dinheiro
aparentemente fácil dos traficantes.
Esguios e atléticos, estes filhos do funk riscam
o chão com passos que lembram os do samba,
frevo, charme, break, street dance, hip hop ou
até yoga e dribles de futebol. Gostam de imitar
gay. Uma homenagem ao estilo do precursor
morto a pancadas de madrugada na rua no Rio;
um episódio até hoje pouco esclarecido. Gambá
trabalhava como gesseiro. Era talentosíssimo e
abusava de uma estética invejada pelos dançarinos.
A partir daí o passinho cresceu. Como se
todo movimento precisasse de um mártir.
Poucas meninas “mandam” passinho. É um
mundo masculino. Elas torcem por eles, ajudam
a enfeitá-los e até pagam para que estejam
bem arrumados. O cabeleireiro
é ponto de encontro,
onde experimentam variantes
do corte do Jaca, com
desenhos riscados a gilete
rente ao couro cabeludo.
Fazem unhas, tiram sobrancelhas,
depilam-se,
usam brincos brilhantes,
aparelho colorido nos dentes
e trocam a cor dos cabelos
com uma frequência impressionante. As novas
tendências espalham-se pelo Youtube.
A escola, como sempre, não abraça este processo.
Os que não abandonaram os estudos só a frequentam
porque a família insiste. Nada a ver com
preguiça; passam o dia pesquisando novos passos,
gravando vídeos, conectados pela internet.
Têm uma legião de fãs. Cada vídeo ou comentário
postado é curtido por centenas, até milhares de
pessoas. Um deles tem mil perfis falsos no Face.
Jeffinho sequer dança tão bem quanto feras como
Breguete, Iltinho, Pablinho, Sheick ou Pelúcia;
nem é tão bonito assim.
Mas é um mestre intuitivo
da manipulação da imagem
e do uso das novas
mídias. Verdade que já
tem empresário, que leva
porcentagem alta dos cachês
dos shows em que se
apresenta .
O Passinho está criando
um mercado. Além dos
shows convocados por MCs, alimenta web-rádios
e pequenos fabricantes de camisetas. Está na moda.
Teve “flashmob” na estação do metrô, a Coca-
Cola patrocinou campeonatos entre dançarinos,
produziu um vídeo que está no Youtube e já é viral.
A final da Batalha do Passinho deste ano foi
disputada no estúdio do “Caldeirão do Huck”. Alguns
participaram na abertura dos Jogos Paraolímpicos
em Londres em 2012 e do Criança Esperança
este ano. O Theatro Municipal do Rio de Janeiro
organizou um curso de férias onde a molecada
do Passinho trocou experiências com alunas
da Escola de Ballet Maria Oleneva.
Poucos poderão ganhar a vida como bailarinos,
assim como nem todos os artistas sobrevivem
do palco. Escritores sempre dependeram
de algum emprego fixo. Uma minoria dos milhares
de jornalistas formados a cada ano chega
a uma redação de jornal ou de televisão. Nem
por isto são vítimas. Os “lekes” são exemplos de
talento, força de vontade e honradez. A história
deles inclui ingredientes que nos alegram e nos
perturbam. Mas é certo que aponta uma sociedade
em transformação.
sábado, 19 de outubro de 2013
COBAIAS EM DEBATE Qual o limite da ciência?
ZERO HORA 19/10/2013
Ao retirar mais de 200 cães de um laboratório de pesquisas científicas em SP, um grupo de ativistas esquentou discussão sobre o uso de animais em testes
O Brasil vivenciou na noite de quinta-feira uma versão não ficcional do filme Os 101 Dálmatas, clássico da Disney no qual cachorrinhos são salvos de serem mortos para virar cosmético.
Só que o resgate, ocorrido no interior de São Paulo, foi de outra raça de cães – mais de 200 beagles – e os fins para os quais eles seriam usados são pretensamente científicos, para testes de medicamentos. A libertação dos cachorros, feita por ativistas ambientais e que resultou também na fuga de coelhos e ratos, resultou em queixa de furto contra os ambientalistas. E em intenso debate entre defensores de animais e pesquisadores, que acham imprescindível o uso de testes em bichos, para o bem da ciência.
Uma petição online contra o uso de animais em experimentos, lançada pelo site Avaaz.org, coletou mais de 265 mil assinaturas até a tarde de ontem. Tudo impulsionado pelo episódio da polêmica libertação dos cães, que aconteceu nos laboratórios de pesquisas científicas do Instituto Royal, em São Roque (a 66 quilômetros de São Paulo).
A empresa já era investigada pelo Ministério Público por suspeita de que os animais eram acomodados em condições irregulares. No local são testadas nos cachorros possíveis reações adversas aos medicamentos, como vômito, diarreia, perda de coordenação e até convulsões. Entre os ativistas que participaram do ato, organizado pela interner, está a atriz Nicole Puzzi, famosa por pornochanchadas nos anos 70.
A lei permite que se faça experimentos, desde que se prove que não há outros meios para se chegar a um resultado científico. Os ambientalistas que soltaram os beagles garantem que alguns cães tinham lesões nos olhos e nas patas, o que leva à desconfiança de maus-tratos. O resgate canino gerou comoção, por vários motivos. De um lado, porque os experimentos na Royal envolvem cães, os mais populares animais de estimação, ao ponto de angariar o epíteto de “melhor amigo do homem”. E logo cães de raça, os beagles, mundialmente conhecidos pelo personagem de quadrinhos Snoopy.
– Provoca uma compreensível reação emocional e, até por isso, a indústria tem desenvolvido testes com modelos simulados, não vivos. Mas em alguns casos os experimentos em animais são imprescindíveis. Para verificar se determinado produto é teratogênico (que causa deformações) ou para testar drogas contra câncer – exemplifica a veterinária Luiza Macedo Braga, professora da PUCRS e membro do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal.
O pesquisador Álvaro Montenegro Valls, professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Unisinos, não é tão conformado com a justificativa científica para uso dos animais em testes. Ele diz que, no estágio atual da humanidade, existem muitas alternativas. Entre elas, o uso de bonecos de anatomia e simulações de computador.
– Pingar produtos no olho para testar irritação e outras formas que envolvem sofrimento são inadmissíveis – opina.
Os animais resgatados do Instituto Royal por ativistas estavam sendo oferecidos para adoção em sites na internet. Mas quem adotar poderá incorrer em crime de receptação. Isso porque se trata de produto de furto, indicou o delegado seccional de Sorocaba, Marcelo Carriel. A pena prevista vai de um a quatro anos de prisão.
A Polícia Civil de São Roque abriu inquérito para apurar a invasão e depredação do instituto. O laudo da perícia feita no local deverá apontar a direção dos indiciamentos. Imagens da invasão serão usadas para identificar os ativistas.
andre.mags@zerohora.com.br
Ao retirar mais de 200 cães de um laboratório de pesquisas científicas em SP, um grupo de ativistas esquentou discussão sobre o uso de animais em testes
O Brasil vivenciou na noite de quinta-feira uma versão não ficcional do filme Os 101 Dálmatas, clássico da Disney no qual cachorrinhos são salvos de serem mortos para virar cosmético.
Só que o resgate, ocorrido no interior de São Paulo, foi de outra raça de cães – mais de 200 beagles – e os fins para os quais eles seriam usados são pretensamente científicos, para testes de medicamentos. A libertação dos cachorros, feita por ativistas ambientais e que resultou também na fuga de coelhos e ratos, resultou em queixa de furto contra os ambientalistas. E em intenso debate entre defensores de animais e pesquisadores, que acham imprescindível o uso de testes em bichos, para o bem da ciência.
Uma petição online contra o uso de animais em experimentos, lançada pelo site Avaaz.org, coletou mais de 265 mil assinaturas até a tarde de ontem. Tudo impulsionado pelo episódio da polêmica libertação dos cães, que aconteceu nos laboratórios de pesquisas científicas do Instituto Royal, em São Roque (a 66 quilômetros de São Paulo).
A empresa já era investigada pelo Ministério Público por suspeita de que os animais eram acomodados em condições irregulares. No local são testadas nos cachorros possíveis reações adversas aos medicamentos, como vômito, diarreia, perda de coordenação e até convulsões. Entre os ativistas que participaram do ato, organizado pela interner, está a atriz Nicole Puzzi, famosa por pornochanchadas nos anos 70.
A lei permite que se faça experimentos, desde que se prove que não há outros meios para se chegar a um resultado científico. Os ambientalistas que soltaram os beagles garantem que alguns cães tinham lesões nos olhos e nas patas, o que leva à desconfiança de maus-tratos. O resgate canino gerou comoção, por vários motivos. De um lado, porque os experimentos na Royal envolvem cães, os mais populares animais de estimação, ao ponto de angariar o epíteto de “melhor amigo do homem”. E logo cães de raça, os beagles, mundialmente conhecidos pelo personagem de quadrinhos Snoopy.
– Provoca uma compreensível reação emocional e, até por isso, a indústria tem desenvolvido testes com modelos simulados, não vivos. Mas em alguns casos os experimentos em animais são imprescindíveis. Para verificar se determinado produto é teratogênico (que causa deformações) ou para testar drogas contra câncer – exemplifica a veterinária Luiza Macedo Braga, professora da PUCRS e membro do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal.
O pesquisador Álvaro Montenegro Valls, professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Unisinos, não é tão conformado com a justificativa científica para uso dos animais em testes. Ele diz que, no estágio atual da humanidade, existem muitas alternativas. Entre elas, o uso de bonecos de anatomia e simulações de computador.
– Pingar produtos no olho para testar irritação e outras formas que envolvem sofrimento são inadmissíveis – opina.
Os animais resgatados do Instituto Royal por ativistas estavam sendo oferecidos para adoção em sites na internet. Mas quem adotar poderá incorrer em crime de receptação. Isso porque se trata de produto de furto, indicou o delegado seccional de Sorocaba, Marcelo Carriel. A pena prevista vai de um a quatro anos de prisão.
A Polícia Civil de São Roque abriu inquérito para apurar a invasão e depredação do instituto. O laudo da perícia feita no local deverá apontar a direção dos indiciamentos. Imagens da invasão serão usadas para identificar os ativistas.
andre.mags@zerohora.com.br
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
A Batalha das Biografias - Trocando em miúdos
O GLOBO 17/10/2013
Citados por Chico Buarque em seu artigo ontem no Segundo Caderno, Paulo Cesar de Araújo, autor de "Roberto Carlos em detalhes", Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, e Mário Magalhães, biógrafo de Carlos Marighella, contestam as afirmações do compositor
De seu amável interrogador - Paulo Cesar de Araújo
Quando o livro Estrela solitária estava para ser publicado, uma matéria foi veiculada no Fantástico chamando atenção para o livro. As filhas do Garrincha, que não haviam se manifestado até então, me procuraram, através de um advogado, e, sem ler uma página sequer do livro, demandaram pagamento de direitos e ameaçaram com um pedido de indenização.
O representante da família, a essas alturas, não falava em “imagem denegrida”, mas em “ajudar o Natal das meninas”. Como não aceitamos nenhum acordo — por julgarmos que a biografia enaltecia o jogador como o melhor de todos os tempos e tratava do alcoolismo, conhecido por todos, de maneira absolutamente ética –, seguimos em frente com a publicação. A partir daí fomos processados, com a família exigindo, ao mesmo tempo, o pagamento de direitos autorais — como se a vida de um antepassado pertencesse a seus herdeiros — e reclamando da imagem do jogador supostamente denegrida pelo livro, de cujos rendimentos gostariam de participar.
A partir daí, uma longa e custosa história se instaurou e, em segunda instância, Estrela solitária foi retirado de circulação, sem que todas as etapas do julgamento estivessem concluídas — situação que só a nossa lei permite. Assim como permite que um juiz ameace “quebrar” uma editora, ao ter amplos poderes para arbitrar a indenização. A biografia de Garrincha só voltou a circular mediante um volumoso acordo, e sem nenhuma condenação. Com o pagamento realizado, nem a capa ou muito menos o conteúdo voltou a preocupar as herdeiras. O fato é que a atual lei brasileira permite, singularmente, que se instaure um balcão de negócios, arbitrariedades e malversações.
Sei que Chico discorda da capa que escolhi pessoalmente para o livro do Ruy Castro. Estrela solitária termina com o triste fim do jogador, isolado e alcoólatra. Julguei que não devia, como editor, publicar um livro com tal força dramática colocando Garrincha com as mãos erguidas junto às pombas da Praça de Milão, foto que, aliás, teria sido a escolhida pelo autor. Aceito o julgamento público, confiante de que segui critérios editoriais corretos. O oposto significaria fugir da história para proteger a imagem de um ídolo nacional.
Pela lei vigente, os herdeiros se transformam em historiadores, editores e, desculpe-me, censores, sim. A foto que utilizamos foi retirada de arquivos públicos e, se não me falha a memória, havia sido previamente publicada em jornal. Existia uma muito pior para o Garrincha, capa de um jornal importante, com o ídolo desfilando no Carnaval, em carro alegórico, completamente entregue ao álcool. A família na época permitiu o desfile e a aparição do jogador na avenida. De quem é a culpa, então?
Quem ajuda a moldar a vida e a cultura de um país, seja no futebol, na música ou na política, tem, desde sempre, menor controle de sua vida pública. Sempre foi assim, de Cleópatra a Maria Callas, passando por Getúlio Vargas e pelos ídolos do iê-iê-iê. A defesa da privacidade no mundo contemporâneo deveria nos unir, mas o custo que a lei brasileira cobra é inaceitável, é muito pior.
Espero que um dia escritor e editor se juntem na defesa das duas causas: a da liberdade de expressão necessária para a nossa profissão, e a da privacidade possível no mundo atual. O “Procure saber” escolheu o vilão errado e ofendeu os profissionais do livro ao defender a permissão apenas da publicação gratuita dos livros pela internet, apresentando editores e escritores como argentários e pilantras profissionais. Além do Chico Buarque, Gil e Caetano foram publicados com muita honra pela Companhia das Letras e me conhecem bem.
Agora, que o pagamento à família de Garrincha justificado pela fragilidade das leis brasileiras de defesa da liberdade de expressão foi indevido, sem dúvida nenhuma foi. E que divergências não abalam amizades como as que tenho com Chico Buarque e Caetano Veloso, é certeza e nunca esteve em discussão.
Meu caro Chico - MÁRIO MAGALHÃES
Caríssimo Chico Buarque, eis o artigo do Código Civil que o grupo Procure Saber, ao qual você pertence, batalha para eternizar:
“Salvo se autorizadas [...], a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais”.
Quando você lançou a obra-prima “Apesar de você”, o ditador Médici presidia o Brasil. Era um tempo em que agentes públicos torturavam milhares de pessoas. Hoje, para biografar o general, só com autorização dos herdeiros. Dá para pensar no rame-rame laudatório que eles exigiriam?
A legislação em vigor permite que Fernando Collor barre uma biografia não autorizada, em nome de sua “boa fama”. Idem o juiz Lalau e o torturador Brilhante Ustra. É assim porque a lei vale para todos, artistas ou não. Pense bem: a prerrogativa de contar a história passou ao coronel Ustra.
No seu elegante artigo “Penso eu”, generoso com meu livro “Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo”, você menciona, sem título, uma biografia do Cabo Anselmo. Conheço três obras focadas no infiltrado que entregou a mulher grávida para repressores da ditadura a matarem (ela se chamava Soledad, e não Consuelo; todos tropeçamos, não somente os biógrafos).
As de 1984 e 99, com depoimentos mentirosos do covarde, assemelham-se a autobiografias. A de 81 é um breve perfil independente. A tragédia: publicado ainda durante a ditadura, este livro poderia ser proibido hoje, na democracia, amparado no Código Civil de 2002. A norma obscurantista transfere a Anselmo o poder de definir o conteúdo de uma biografia.
Concordo: é inaceitável a impunidade de biógrafo leviano ou criminoso que difunda informação “infamante ou mentirosa”. Mas a decisão tem de ser da Justiça, e não de censura prévia. Se o Judiciário é lento e a lei dócil com difamadores, aperfeiçoemos ambos. Somos contra o indulto de Natal porque, entre milhares de presos, meia dúzia foge? Crimes pontuais não devem abolir direitos coletivos. O conhecimento da história consagra-se como direito humano. Roberto Carlos é, sim, dono da vida dele. Mas não é dono da história.
Biografias são reportagens, que constituem gênero do jornalismo. Pagar royalties a personagens descaracteriza biografias não autorizadas _você propõe mesmo dar uns caraminguás aos netos do Médici?
Se defende que as filhas do Garrincha recebam pelo trabalho árduo do biógrafo, já pensou em remunerá-las, por ter citado o Mané junto com Pelé, Didi, Pagão e Canhoteiro? “O futebol”, sua música, não tem também “fins comerciais”? A imprensa de “fins comerciais” publica perfis. E se o Sarney e o Bolsonaro resolverem cobrar? Devemos reeditar a censura de outrora ou persistir no bom combate a ela?
Chico, perdoe o tom. Você merece interlocutores do “tempo da delicadeza” evocado em “Todo o sentimento”. Aceite um abraço e o carinho deste fã irrevogável.
Mário Magalhães é jornalista e biógrafo
Citados por Chico Buarque em seu artigo ontem no Segundo Caderno, Paulo Cesar de Araújo, autor de "Roberto Carlos em detalhes", Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, e Mário Magalhães, biógrafo de Carlos Marighella, contestam as afirmações do compositor
De seu amável interrogador - Paulo Cesar de Araújo
Foi
com grande espanto que li, ontem, declaração de Chico Buarque aqui no
GLOBO, afirmando que jamais me deu uma entrevista. Ou seja, ele alega
que eu teria faltado com a verdade ao incluí-lo entre as fontes listadas
na biografia "Roberto Carlos em detalhes" Ocorre que Chico Buarque foi,
sim, uma das 175 pessoas que entrevistei para a pesquisa que resultou
naquele livro. O artista certamente se esqueceu, mas ele me recebeu em
sua casa, na Gávea, na tarde de 30 de março de 1992. E esta entrevista,
com duração de quatro horas, foi gravada, filmada e fotografada. Falamos
muito sobre censura, interrogatórios — creio que por isso ele
escreveu, junto com o autógrafo que me deu na capa do disco
"Construção": "Para o Paulo, meu amável interrogador, com um abraço do
Chico Buarque. Rio, março/92."
Naquela
entrevista, Chico me falou sobre as principais fases e canções de sua
carreira. Uma de minhas perguntas foi sobre sua relação com Roberto
Carlos nos anos 60, quando ambos representa-vam poios opostos na
nossa música popular — suas frases estão reproduzidas na página 184 da
biografia que escrevi.
No
seu artigo de ontem o cantor também negou uma declaração dele que
reproduzo no meu livro anterior, "Eu não sou cachorro, não" No livro eu
cito a fonte: "Última Hora-SP" 28/06/1970 — mesmo jornal para o qual, em
1974, o próprio Chico daria uma famosa
entrevista, sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide. Esta entrevista
está no seu site. Resumindo: no seu artigo de ontem, Chico dá a entender
que o jornal era desprezível, mas ele falava, sim, com seus repórteres.
Pois bem. Ele disse ontem ser impossível ter "criticado Caetano e Gil,
então no exílio, por denegrirem a imagem do país no exterior" Ocorre que
a crítica registrada na "Última Hora" não tinha este viés nacionalista.
O que ele criticava era o fato de os baianos usarem a condição de
exilados para sensibilizar os ingleses e fazer sucesso: "Nos cartazes de
publicidade que eles mandaram imprimir, consta que foram banidos do
país. Isso é ridículo, querer vencer pela pena."
Registre-se
que na época Chico andava mesmo afastado de Gil e Caetano por conta de
rusgas desde a eclosão do tropicalismo — o que Chico confirmou ao
"Pasquim" em 1970. Trecho: "Eu perdi o contato com eles, perdi a amizade
deles. Então eu não entendo mais se o Caetano é o mesmo que eu conheci"
Nesse mesmo papo com o "Pasquim" Chico se mostrou também desconfiado da
gravação de "Carolina" feita por Caetano. "Eu ouvi o disco uma vez só e
confesso que não gostei e não quis ouvir mais porque é um problema em
que eu não estava a fim de ficar pensando: será que ele gravou de boa-fé
ou de má-fé?" Portanto, neste contexto, acho bastante possível ele ter
feito também aquela declaração sobre os baianos na "Última Hora" Por
isso, incluí sua declaração no livro. Faz parte do meu ofício de
historiador.
Paulo Cesar de Araújo é historiador e escritor
Um editor de biografias - LUIZ SCHWARCZ
Falei recentemente com o Chico Buarque sobre o assunto das biografias mais de uma vez. Como ele agora escreveu publicamente, utilizando-se de exemplos sensíveis à história da Companhia das Letras, “condenada” a pagar uma larga soma de indenização à família de Garrincha, preciso vir a público esclarecer minha posição e contar, pela primeira vez, minha versão de toda esta história.Quando o livro Estrela solitária estava para ser publicado, uma matéria foi veiculada no Fantástico chamando atenção para o livro. As filhas do Garrincha, que não haviam se manifestado até então, me procuraram, através de um advogado, e, sem ler uma página sequer do livro, demandaram pagamento de direitos e ameaçaram com um pedido de indenização.
O representante da família, a essas alturas, não falava em “imagem denegrida”, mas em “ajudar o Natal das meninas”. Como não aceitamos nenhum acordo — por julgarmos que a biografia enaltecia o jogador como o melhor de todos os tempos e tratava do alcoolismo, conhecido por todos, de maneira absolutamente ética –, seguimos em frente com a publicação. A partir daí fomos processados, com a família exigindo, ao mesmo tempo, o pagamento de direitos autorais — como se a vida de um antepassado pertencesse a seus herdeiros — e reclamando da imagem do jogador supostamente denegrida pelo livro, de cujos rendimentos gostariam de participar.
A partir daí, uma longa e custosa história se instaurou e, em segunda instância, Estrela solitária foi retirado de circulação, sem que todas as etapas do julgamento estivessem concluídas — situação que só a nossa lei permite. Assim como permite que um juiz ameace “quebrar” uma editora, ao ter amplos poderes para arbitrar a indenização. A biografia de Garrincha só voltou a circular mediante um volumoso acordo, e sem nenhuma condenação. Com o pagamento realizado, nem a capa ou muito menos o conteúdo voltou a preocupar as herdeiras. O fato é que a atual lei brasileira permite, singularmente, que se instaure um balcão de negócios, arbitrariedades e malversações.
Sei que Chico discorda da capa que escolhi pessoalmente para o livro do Ruy Castro. Estrela solitária termina com o triste fim do jogador, isolado e alcoólatra. Julguei que não devia, como editor, publicar um livro com tal força dramática colocando Garrincha com as mãos erguidas junto às pombas da Praça de Milão, foto que, aliás, teria sido a escolhida pelo autor. Aceito o julgamento público, confiante de que segui critérios editoriais corretos. O oposto significaria fugir da história para proteger a imagem de um ídolo nacional.
Pela lei vigente, os herdeiros se transformam em historiadores, editores e, desculpe-me, censores, sim. A foto que utilizamos foi retirada de arquivos públicos e, se não me falha a memória, havia sido previamente publicada em jornal. Existia uma muito pior para o Garrincha, capa de um jornal importante, com o ídolo desfilando no Carnaval, em carro alegórico, completamente entregue ao álcool. A família na época permitiu o desfile e a aparição do jogador na avenida. De quem é a culpa, então?
Quem ajuda a moldar a vida e a cultura de um país, seja no futebol, na música ou na política, tem, desde sempre, menor controle de sua vida pública. Sempre foi assim, de Cleópatra a Maria Callas, passando por Getúlio Vargas e pelos ídolos do iê-iê-iê. A defesa da privacidade no mundo contemporâneo deveria nos unir, mas o custo que a lei brasileira cobra é inaceitável, é muito pior.
Espero que um dia escritor e editor se juntem na defesa das duas causas: a da liberdade de expressão necessária para a nossa profissão, e a da privacidade possível no mundo atual. O “Procure saber” escolheu o vilão errado e ofendeu os profissionais do livro ao defender a permissão apenas da publicação gratuita dos livros pela internet, apresentando editores e escritores como argentários e pilantras profissionais. Além do Chico Buarque, Gil e Caetano foram publicados com muita honra pela Companhia das Letras e me conhecem bem.
Agora, que o pagamento à família de Garrincha justificado pela fragilidade das leis brasileiras de defesa da liberdade de expressão foi indevido, sem dúvida nenhuma foi. E que divergências não abalam amizades como as que tenho com Chico Buarque e Caetano Veloso, é certeza e nunca esteve em discussão.
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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros.Meu caro Chico - MÁRIO MAGALHÃES
Caríssimo Chico Buarque, eis o artigo do Código Civil que o grupo Procure Saber, ao qual você pertence, batalha para eternizar:
“Salvo se autorizadas [...], a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais”.
Quando você lançou a obra-prima “Apesar de você”, o ditador Médici presidia o Brasil. Era um tempo em que agentes públicos torturavam milhares de pessoas. Hoje, para biografar o general, só com autorização dos herdeiros. Dá para pensar no rame-rame laudatório que eles exigiriam?
A legislação em vigor permite que Fernando Collor barre uma biografia não autorizada, em nome de sua “boa fama”. Idem o juiz Lalau e o torturador Brilhante Ustra. É assim porque a lei vale para todos, artistas ou não. Pense bem: a prerrogativa de contar a história passou ao coronel Ustra.
No seu elegante artigo “Penso eu”, generoso com meu livro “Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo”, você menciona, sem título, uma biografia do Cabo Anselmo. Conheço três obras focadas no infiltrado que entregou a mulher grávida para repressores da ditadura a matarem (ela se chamava Soledad, e não Consuelo; todos tropeçamos, não somente os biógrafos).
As de 1984 e 99, com depoimentos mentirosos do covarde, assemelham-se a autobiografias. A de 81 é um breve perfil independente. A tragédia: publicado ainda durante a ditadura, este livro poderia ser proibido hoje, na democracia, amparado no Código Civil de 2002. A norma obscurantista transfere a Anselmo o poder de definir o conteúdo de uma biografia.
Concordo: é inaceitável a impunidade de biógrafo leviano ou criminoso que difunda informação “infamante ou mentirosa”. Mas a decisão tem de ser da Justiça, e não de censura prévia. Se o Judiciário é lento e a lei dócil com difamadores, aperfeiçoemos ambos. Somos contra o indulto de Natal porque, entre milhares de presos, meia dúzia foge? Crimes pontuais não devem abolir direitos coletivos. O conhecimento da história consagra-se como direito humano. Roberto Carlos é, sim, dono da vida dele. Mas não é dono da história.
Biografias são reportagens, que constituem gênero do jornalismo. Pagar royalties a personagens descaracteriza biografias não autorizadas _você propõe mesmo dar uns caraminguás aos netos do Médici?
Se defende que as filhas do Garrincha recebam pelo trabalho árduo do biógrafo, já pensou em remunerá-las, por ter citado o Mané junto com Pelé, Didi, Pagão e Canhoteiro? “O futebol”, sua música, não tem também “fins comerciais”? A imprensa de “fins comerciais” publica perfis. E se o Sarney e o Bolsonaro resolverem cobrar? Devemos reeditar a censura de outrora ou persistir no bom combate a ela?
Chico, perdoe o tom. Você merece interlocutores do “tempo da delicadeza” evocado em “Todo o sentimento”. Aceite um abraço e o carinho deste fã irrevogável.
Mário Magalhães é jornalista e biógrafo
Nem na ditadura...
O Globo - 17/10/2013
DIEGO WERNECK ARGUELHES E
IVAR A. HARTMANN
Nem mesmo naquela época se ousou restringir a tal ponto a liberdade de expressão cultural
O artigo 20 fala de “escritos”, mas não só. Inclui
“transmissão da palavra”, “publicação”, “exposição”
e “utilização da imagem”. Se o Código proíbe
alguma coisa, essa proibição não se aplica somente
a biografias. Um discurso — a transmissão da
palavra ao vivo. Uma matéria de jornal — publicação.
Uma homenagem a alguém — utilização da
imagem. Quem invoca o art.20 precisaria também
estar disposto a aplicá-lo aos muitos outros tipos
de expressão que ele abrange.
Músicas gravadas e tornadas públicas por meio
físico ou virtual preenchem todos os requisitos do
artigo 20. São “transmissão da palavra”. São “publicações”.
Mais ainda, músicas sobre pessoas reais
e específicas são uma exposição da pessoa e
utilizam sua imagem. Com “Fio Maravilha”, por
exemplo, Jorge Ben Jor expôs e divulgou (e imortalizou)
o jogador do Flamengo. E o próprio Caetano
construiu o cenário de sua “Sampa” com as
imagens de outros artistas de carne e osso, como
Rita Lee e os Novos Baianos.
Para a Procure Saber, não seria justo que “só os
biógrafos e seus editores lucrem com isso e nunca
o biografado ou seus herdeiros”. Para evitar essa
injustiça, portanto, deveríamos exigir sempre a
autorização prévia da pessoa retratada naquela
expressão artística, cultural, literária ou musical.
Ou de seus herdeiros. Mas onde isso nos levaria se
o artigo 20 fosse aplicado de forma coerente a todas
as formas de expressão? Caso sua mãe já houvesse
falecido quando compôs a tocante “Lady
Laura”, Roberto Carlos precisaria pedir autorização
de seus irmãos. A “Sampa” de Caetano só poderia
ser povoada por personagens que consentissem
em ser retratados.
No auge da ditadura militar, nos anos 70, Jorge
Ben Jor sofreu um processo judicial por não ter
pedido autorização do jogador Fio Maravilha
antes de lançar a sua famosa música. O pedido
foi rechaçado. Nem mesmo naquela época se
ousou restringir a tal ponto a liberdade de expressão
cultural.
Pelo que exigem agora alguns músicos brasileiros,
deveríamos ter obrigado Raul Seixas a
conseguir autorização dos herdeiros de Al Capone.
Ou exigido que o grupo Los Hermanos fizesse
primeiro um contrato de partilha do lucro
dos direitos autorais com a estudante retratada
em “Anna Julia”. E o que dizer da música “Clint
Eastwood”, do grupo Gorillaz? Seria necessária
a autorização do ator americano para divulgar a
música no Brasil?
Os músicos do Procure Saber deixaram claro
que, pelo artigo 20, opõem-se a manifestações
culturais não autorizadas apenas quando são
comercializadas. Se divulgadas gratuitamente,
não haveria problema. Mas a proibição do artigo
20 é mais insaciável do que pensam. Ela não
tem fundo. Estariam dispostos a abrir mão dos
direitos autorais de todas as suas músicas que
envolvam a imagem de uma pessoa real?
DIEGO WERNECK ARGUELHES E
IVAR A. HARTMANN
Nem mesmo naquela época se ousou restringir a tal ponto a liberdade de expressão cultural
Reunidos na organização Procure Saber,
importantes nomes da nossa música
defendem que se continue a proibir biografias
não autorizadas. Hoje, a proibição
resulta de uma interpretação precária do
art. 20 do Código Civil. Um dos argumentos desses
músicos é que não se pode permitir que
apenas o autor tire vantagem financeira da biografia.
Ou ambos lucram, ou o autor não pode
comercializar a obra. Mas essa interpretação da
lei traz risco enorme à cultura brasileira. Mais
diretamente, aliás, afetaria os próprios músicos
que a defendem.
importantes nomes da nossa música
defendem que se continue a proibir biografias
não autorizadas. Hoje, a proibição
resulta de uma interpretação precária do
art. 20 do Código Civil. Um dos argumentos desses
músicos é que não se pode permitir que
apenas o autor tire vantagem financeira da biografia.
Ou ambos lucram, ou o autor não pode
comercializar a obra. Mas essa interpretação da
lei traz risco enorme à cultura brasileira. Mais
diretamente, aliás, afetaria os próprios músicos
que a defendem.
O artigo 20 fala de “escritos”, mas não só. Inclui
“transmissão da palavra”, “publicação”, “exposição”
e “utilização da imagem”. Se o Código proíbe
alguma coisa, essa proibição não se aplica somente
a biografias. Um discurso — a transmissão da
palavra ao vivo. Uma matéria de jornal — publicação.
Uma homenagem a alguém — utilização da
imagem. Quem invoca o art.20 precisaria também
estar disposto a aplicá-lo aos muitos outros tipos
de expressão que ele abrange.
Músicas gravadas e tornadas públicas por meio
físico ou virtual preenchem todos os requisitos do
artigo 20. São “transmissão da palavra”. São “publicações”.
Mais ainda, músicas sobre pessoas reais
e específicas são uma exposição da pessoa e
utilizam sua imagem. Com “Fio Maravilha”, por
exemplo, Jorge Ben Jor expôs e divulgou (e imortalizou)
o jogador do Flamengo. E o próprio Caetano
construiu o cenário de sua “Sampa” com as
imagens de outros artistas de carne e osso, como
Rita Lee e os Novos Baianos.
Para a Procure Saber, não seria justo que “só os
biógrafos e seus editores lucrem com isso e nunca
o biografado ou seus herdeiros”. Para evitar essa
injustiça, portanto, deveríamos exigir sempre a
autorização prévia da pessoa retratada naquela
expressão artística, cultural, literária ou musical.
Ou de seus herdeiros. Mas onde isso nos levaria se
o artigo 20 fosse aplicado de forma coerente a todas
as formas de expressão? Caso sua mãe já houvesse
falecido quando compôs a tocante “Lady
Laura”, Roberto Carlos precisaria pedir autorização
de seus irmãos. A “Sampa” de Caetano só poderia
ser povoada por personagens que consentissem
em ser retratados.
No auge da ditadura militar, nos anos 70, Jorge
Ben Jor sofreu um processo judicial por não ter
pedido autorização do jogador Fio Maravilha
antes de lançar a sua famosa música. O pedido
foi rechaçado. Nem mesmo naquela época se
ousou restringir a tal ponto a liberdade de expressão
cultural.
Pelo que exigem agora alguns músicos brasileiros,
deveríamos ter obrigado Raul Seixas a
conseguir autorização dos herdeiros de Al Capone.
Ou exigido que o grupo Los Hermanos fizesse
primeiro um contrato de partilha do lucro
dos direitos autorais com a estudante retratada
em “Anna Julia”. E o que dizer da música “Clint
Eastwood”, do grupo Gorillaz? Seria necessária
a autorização do ator americano para divulgar a
música no Brasil?
Os músicos do Procure Saber deixaram claro
que, pelo artigo 20, opõem-se a manifestações
culturais não autorizadas apenas quando são
comercializadas. Se divulgadas gratuitamente,
não haveria problema. Mas a proibição do artigo
20 é mais insaciável do que pensam. Ela não
tem fundo. Estariam dispostos a abrir mão dos
direitos autorais de todas as suas músicas que
envolvam a imagem de uma pessoa real?
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
NOS BASTIDORES, ELE É O CARA
O Globo - 16/10/2013
Marcos Ramos inaugura exposição em que mostra cenas clicadas nos bastidores da MPB em 10 anos de coluna
No caso do flagrante de Chico
Buarque, Marcos não pediu
pose, nada. Simplesmente
aproveitou a cena que viu ao
chegar no camarim do compositor.
Coisa de quem sabe.
Marcos conquistou a simpatia
e confiança dos artistas ao longo
dos anos, por isso costuma
ter as portas dos camarins
abertas para fazer seu trabalho.
Foi numa dessas que clicou
Gal Costa brincando com
um cacho de uvas, Gilberto
Gil, de chinelinho de dedo, afinado
o violão antes de um
show no Teatro Municipal, e
Daniela Mercury emocionada,
sendo cercada por crianças
numa visita a Vigário Geral.
“Acho que consegui eternizar
um pouco da história da música
popular”, diz o fotógrafo,
que mostra esses e outros retratos
na exposição “Uma viagem
pelos bastidores”, no Casa
& Gourmet Shopping, em Botafogo.
A inauguração para
convidados é amanhã.
Marcos Ramos inaugura exposição em que mostra cenas clicadas nos bastidores da MPB em 10 anos de coluna
Há dez anos o fotógrafo
Marcos Ramos faz a
cobertura dos grandes
eventos culturais da cidade,
sempre em busca de um olhar
que fuja do óbvio, do burocrático.
Mesmo com tempo contado
— geralmente, aqueles
minutinhos que antecedem
um show, sem luz ideal ou rebatedores
— ele consegue fazer
fotos que mostram uma espontaneidade
rara de se ver no
mundo do show business. Chico
Buarque relaxadão no sofá?
Ele fez. Caetano em clima de
devoção, beijando a mão de
Dona Ivone Lara? Imagina se
ele ia deixar passar.
Marcos Ramos faz a
cobertura dos grandes
eventos culturais da cidade,
sempre em busca de um olhar
que fuja do óbvio, do burocrático.
Mesmo com tempo contado
— geralmente, aqueles
minutinhos que antecedem
um show, sem luz ideal ou rebatedores
— ele consegue fazer
fotos que mostram uma espontaneidade
rara de se ver no
mundo do show business. Chico
Buarque relaxadão no sofá?
Ele fez. Caetano em clima de
devoção, beijando a mão de
Dona Ivone Lara? Imagina se
ele ia deixar passar.
No caso do flagrante de Chico
Buarque, Marcos não pediu
pose, nada. Simplesmente
aproveitou a cena que viu ao
chegar no camarim do compositor.
Coisa de quem sabe.
Marcos conquistou a simpatia
e confiança dos artistas ao longo
dos anos, por isso costuma
ter as portas dos camarins
abertas para fazer seu trabalho.
Foi numa dessas que clicou
Gal Costa brincando com
um cacho de uvas, Gilberto
Gil, de chinelinho de dedo, afinado
o violão antes de um
show no Teatro Municipal, e
Daniela Mercury emocionada,
sendo cercada por crianças
numa visita a Vigário Geral.
“Acho que consegui eternizar
um pouco da história da música
popular”, diz o fotógrafo,
que mostra esses e outros retratos
na exposição “Uma viagem
pelos bastidores”, no Casa
& Gourmet Shopping, em Botafogo.
A inauguração para
convidados é amanhã.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Renato Russo não morreu - GIULIANO MANFREDINI
O Globo -14/10/2013
Ao recordarmos os 17 anos da morte de Renato Russo, na última sexta feira, o destino de sua obra está sacramentado. É o mesmo das vastas produções de Drummond, de Borges, de Pessoa, dos poetas que quanto mais o tempo passa mais atuais e modernos ficam. Nós o perdemos fisicamente, ainda jovem e no auge de sua capacidade criativa, e vivemos o paradoxo de tê-lo tão presente na atemporalidade de seus versos, pela força de sua mensagem, pela impressionante identificação de suas composições com os sentimentos coletivos. Renato firmou-se como uma das maiores figuras de sua geração — talvez a maior — não buscando nem a glória nem a riqueza. Elas foram decorrência de sua inquietude intelectual, da formação cultural sólida e, acima de tudo, do gênio criador e iluminado que ele foi e todos reconhecem. Tenho absoluta certeza de que sua grande ambição (seguramente a única) foi a de transmitir seus valores, perplexidades e a imensa esperança em um mundo melhor.
Seus versos sensíveis e arrebatadores, suas músicas que teimam em brotar carinhosamente dos lábios de gente que sequer o conheceu mas o adora, são cartas que escreveu à posteridade, como bandeiras desfraldadas ao infinito, embalando sonhos de geração para geração.
Desde muito cedo compreendi o que era ser filho de Renato Russo. Era a permanente acumulação de carinhos recebidos, sendo o alvo da doçura e da generosidade testemunhadas por todos os que tiveram a ventura de conviver com ele. As lembranças que guardo, e que incrivelmente não se perdem com o passar dos anos, são fruto do extremo cuidado e do amor transbordante que ele dedicava a todos os que lhe eram caros. E não só a mim, como a pessoas que mal conhecia. Agredido por um desconhecido em seu último show em Brasília — alguém com evidente descontrole mental — meu pai esbravejou com os seguranças que retiravam o agressor, exigindo que o libertassem. Não admitiu o que julgava ser uma violência contra o indivíduo que minutos antes invadira o palco e o agarrara bruscamente. Vi as imagens num especial da GloboNews dias atrás e recordei a figura de meu pai, em sua extraordinária dimensão humana, grandiosa em qualquer momento ou situação, vivendo o que compunha e cantava.
Nos recentes protestos que sacudiram nosso país, me emocionei ao saber que os 80 mil jovens que ocuparam as ruas de Manaus, e de forma espontânea e pacífica paralisaram aquela cidade, entoavam “Que país é esse?” com a força de um hino. Cantavam com paixão uma música composta quando a esmagadora maioria deles sequer havia nascido. É que quase duas décadas depois de sua prematura partida, Renato está vivo e incendiando de poesia e dignidade as consciências no coração da nossa Amazônia e em todas as esquinas do planeta. Em Montevidéu, semana passada, um cidadão uruguaio foi às lágrimas ao saber que
eu era filho de Renato Russo, e a feirante que nos vendia camisetas com sua face estampada recusou-se a cobrar-me por uma delas. Renato e a força de sua poesia estavam lá, às margens do Rio da Prata, como também no coração da distante Amazônia.
Penso que ele foi um visionário, muito mais que um poeta de talento e artista de sucesso, e comento cá com meus botões o peso da responsabilidade de ser o guardião da obra monumental e de sua memória viva. Essas não me pertencem, nem a ninguém. Elas são do mundo, da cultura e do que creem na fraternidade entre os homens e na perenidade do amor.
Seus versos sensíveis e
arrebatadores são cartas
que escreveu à posteridade,
embalando sonhos de
geração para geração
arrebatadores são cartas
que escreveu à posteridade,
embalando sonhos de
geração para geração
Seus versos sensíveis e arrebatadores, suas músicas que teimam em brotar carinhosamente dos lábios de gente que sequer o conheceu mas o adora, são cartas que escreveu à posteridade, como bandeiras desfraldadas ao infinito, embalando sonhos de geração para geração.
Desde muito cedo compreendi o que era ser filho de Renato Russo. Era a permanente acumulação de carinhos recebidos, sendo o alvo da doçura e da generosidade testemunhadas por todos os que tiveram a ventura de conviver com ele. As lembranças que guardo, e que incrivelmente não se perdem com o passar dos anos, são fruto do extremo cuidado e do amor transbordante que ele dedicava a todos os que lhe eram caros. E não só a mim, como a pessoas que mal conhecia. Agredido por um desconhecido em seu último show em Brasília — alguém com evidente descontrole mental — meu pai esbravejou com os seguranças que retiravam o agressor, exigindo que o libertassem. Não admitiu o que julgava ser uma violência contra o indivíduo que minutos antes invadira o palco e o agarrara bruscamente. Vi as imagens num especial da GloboNews dias atrás e recordei a figura de meu pai, em sua extraordinária dimensão humana, grandiosa em qualquer momento ou situação, vivendo o que compunha e cantava.
Nos recentes protestos que sacudiram nosso país, me emocionei ao saber que os 80 mil jovens que ocuparam as ruas de Manaus, e de forma espontânea e pacífica paralisaram aquela cidade, entoavam “Que país é esse?” com a força de um hino. Cantavam com paixão uma música composta quando a esmagadora maioria deles sequer havia nascido. É que quase duas décadas depois de sua prematura partida, Renato está vivo e incendiando de poesia e dignidade as consciências no coração da nossa Amazônia e em todas as esquinas do planeta. Em Montevidéu, semana passada, um cidadão uruguaio foi às lágrimas ao saber que
eu era filho de Renato Russo, e a feirante que nos vendia camisetas com sua face estampada recusou-se a cobrar-me por uma delas. Renato e a força de sua poesia estavam lá, às margens do Rio da Prata, como também no coração da distante Amazônia.
Penso que ele foi um visionário, muito mais que um poeta de talento e artista de sucesso, e comento cá com meus botões o peso da responsabilidade de ser o guardião da obra monumental e de sua memória viva. Essas não me pertencem, nem a ninguém. Elas são do mundo, da cultura e do que creem na fraternidade entre os homens e na perenidade do amor.
sábado, 12 de outubro de 2013
EM ALGUM LUGAR DO PASSADO
O GLOBO 12/10/2013
Campeão paralímpico e cinco vezes ouro no
mundial de natação, em agosto, Daniel Dias aparece
todo felizinho brincando com um guardachuva
dentro de uma caixa de papelão.
E Cesar Cielo, hoje um galalau de 1,95m, de fralda,
no colo do pai, o pediatra Cesar? A foto, à
beira da piscina, foi tirada em 1987, no Esporte
Clube Barbarense, em Santa Bárbara D’Oeste,
onde ele nasceu. Pai e filho posaram juntos vinte
e um anos antes do primeiro ouro olímpico
de Cielo, em Pequim. Feliz Dia das Crianças!
Reconhece as crianças das fotos? O menino
que se exibe abrindo espacato na sala
de casa, já dá para desconfiar — até porque
ele não mudou muito —, é o ginasta Arthur
Zanetti. A imagem do atual campeão mundial
nas argolas quando criança é uma das 40 fotos
de atletas olímpicos e paralímpicos, ainda na
infância, que serão expostas a partir de hoje no
site das Olimpíadas Rio 2016.
Os esportistas toparam abrir seus álbuns de família,
e de lá saíram imagens como a da jogadora
de vôlei de praia Sandra Pires, medalha de
ouro em Atlanta, em sua primeira comunhão,
aos 7 anos, na Ilha do Governador.
que se exibe abrindo espacato na sala
de casa, já dá para desconfiar — até porque
ele não mudou muito —, é o ginasta Arthur
Zanetti. A imagem do atual campeão mundial
nas argolas quando criança é uma das 40 fotos
de atletas olímpicos e paralímpicos, ainda na
infância, que serão expostas a partir de hoje no
site das Olimpíadas Rio 2016.
Os esportistas toparam abrir seus álbuns de família,
e de lá saíram imagens como a da jogadora
de vôlei de praia Sandra Pires, medalha de
ouro em Atlanta, em sua primeira comunhão,
aos 7 anos, na Ilha do Governador.
Campeão paralímpico e cinco vezes ouro no
mundial de natação, em agosto, Daniel Dias aparece
todo felizinho brincando com um guardachuva
dentro de uma caixa de papelão.
E Cesar Cielo, hoje um galalau de 1,95m, de fralda,
no colo do pai, o pediatra Cesar? A foto, à
beira da piscina, foi tirada em 1987, no Esporte
Clube Barbarense, em Santa Bárbara D’Oeste,
onde ele nasceu. Pai e filho posaram juntos vinte
e um anos antes do primeiro ouro olímpico
de Cielo, em Pequim. Feliz Dia das Crianças!
Nada a ver com censura prévia - Herson Capri
O Globo - 12/10/2013
O editorial do GLOBO intitulado “A censura prévia às biografias” contém uma postura tendenciosa e belicosa. A começar pelo título. A questão não tem absolutamente nada a ver com censura prévia, uma vez que está claramente prevista na Constituição, tanto que, como diz o próprio editorial, algumas obras estão tendo sua circulação vetada por decisão judicial e isso significa apenas que a Justiça já está fazendo valer a lei.
O texto coloca alguns dos nossos melhores compositores numa “cruzada contra biografias, sob disfarce de defesa da privacidade”. Para o articulista, um grupo se reunir para lutar por uma convicção é apenas um bando de marginais conspirando contra... O quê, afinal? Que se saiba, quem ia contra as reuniões de grupos de intelectuais era a ditadura militar, temerosa de ter seu governo questionado. Não dá para entender a intenção desse editorial ao atacar tão agressivamente uma reivindicação legítima e transparente.
E o ataque segue dizendo que esses artistas passaram de “censurados a agentes da censura”. Senão vejamos: alguns desses artistas foram censurados, sim, tiveram suas obras vetadas ou cortadas pela censura do governo golpista que determinou o fim de uma democracia que estava a pleno vapor, artistas que fizeram parte da resistência aos desmandos do militarismo no poder desde a primeira hora. São pessoas, portanto, que têm histórico para serem, no mínimo, respeitadas em suas opiniões e não tratados como bandidos, como faz o editorial. São pessoas que sabem muito bem diferenciar uma censura a obras artísticas de uma invasão de privacidade ostensiva visando lucro para empresas editoras.
O artigo também acusa essa reunião de artistas, a “Procure Saber”, de “cavalgarem uma esperteza”. Resta saber que esperteza é essa e o que eles ganhariam com isso. O jornalista que escreveu o editorial não percebeu ainda que há causas sem ganho material e que buscam apenas justiça e proteção. Quem procura um ganho material, nesse caso, é justamente o lado oposto, a Associação Nacional dos Editores, que entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade visando a modificar a interpretação de cláusulas pétreas do Código Civil para poderem publicar à vontade suas biografias não autorizadas e aumentar o seu faturamento.
Uma biografia não autorizada é apenas a visão de um autor a respeito de uma pessoa geralmente conhecida, uma compilação das opiniões de um escritor que, invariavelmente, adentra o mundo das fofocas. Uma publicação onde se fala o que quer, onde pode haver mentiras, distorções, manipulações e até acusações desprovidas de provas concretas, ao bel-prazer do biógrafo. As comparações com outros países são esdrúxulas. Nos países onde há mais condescendência com esse tipo de publicação, há também uma legislação rigorosa que é aplicada rigorosamente se alguém escrever e publicar algo que afete o biografado na sua honra ou dignidade. Nesses países, os processos que poderão advir de alguma coisa que lese o biografado, na maioria das vezes, redundam em valores monstruosos de multas e ressarcimentos por danos morais. Assim, o escritor e a editora jamais irão publicar algo indevido sob pena de terem que desembolsar milhões de dólares!
Não é o nosso caso. Aqui, os valores ajuizados para esse tipo de dano à individualidade e à privacidade estão muito abaixo do simbólico. Isto é, pode-se escrever qualquer coisa sobre quem quer que seja e, se houver um processo, paga-se uma multa irrisória e parte-se tranquilamente para a próxima biografia espúria, porque se sabe que não vai dar em nada. O editorial termina ainda citando os artigos 20 e 21 do Código Civil como sendo a “base da fúria obscurantista”. Para esse editorialista, o simples cuidado com a vida particular de uma ou duas pessoas vai nos levar de volta aos anos de chumbo da ditadura militar. Simplista, apelativo e extremamente sintomático. Além de corporativista ao extremo.
Herson Capri é ator
O editorial do GLOBO intitulado “A censura prévia às biografias” contém uma postura tendenciosa e belicosa. A começar pelo título. A questão não tem absolutamente nada a ver com censura prévia, uma vez que está claramente prevista na Constituição, tanto que, como diz o próprio editorial, algumas obras estão tendo sua circulação vetada por decisão judicial e isso significa apenas que a Justiça já está fazendo valer a lei.
O texto coloca alguns dos nossos melhores compositores numa “cruzada contra biografias, sob disfarce de defesa da privacidade”. Para o articulista, um grupo se reunir para lutar por uma convicção é apenas um bando de marginais conspirando contra... O quê, afinal? Que se saiba, quem ia contra as reuniões de grupos de intelectuais era a ditadura militar, temerosa de ter seu governo questionado. Não dá para entender a intenção desse editorial ao atacar tão agressivamente uma reivindicação legítima e transparente.
E o ataque segue dizendo que esses artistas passaram de “censurados a agentes da censura”. Senão vejamos: alguns desses artistas foram censurados, sim, tiveram suas obras vetadas ou cortadas pela censura do governo golpista que determinou o fim de uma democracia que estava a pleno vapor, artistas que fizeram parte da resistência aos desmandos do militarismo no poder desde a primeira hora. São pessoas, portanto, que têm histórico para serem, no mínimo, respeitadas em suas opiniões e não tratados como bandidos, como faz o editorial. São pessoas que sabem muito bem diferenciar uma censura a obras artísticas de uma invasão de privacidade ostensiva visando lucro para empresas editoras.
O artigo também acusa essa reunião de artistas, a “Procure Saber”, de “cavalgarem uma esperteza”. Resta saber que esperteza é essa e o que eles ganhariam com isso. O jornalista que escreveu o editorial não percebeu ainda que há causas sem ganho material e que buscam apenas justiça e proteção. Quem procura um ganho material, nesse caso, é justamente o lado oposto, a Associação Nacional dos Editores, que entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade visando a modificar a interpretação de cláusulas pétreas do Código Civil para poderem publicar à vontade suas biografias não autorizadas e aumentar o seu faturamento.
Uma biografia não autorizada é apenas a visão de um autor a respeito de uma pessoa geralmente conhecida, uma compilação das opiniões de um escritor que, invariavelmente, adentra o mundo das fofocas. Uma publicação onde se fala o que quer, onde pode haver mentiras, distorções, manipulações e até acusações desprovidas de provas concretas, ao bel-prazer do biógrafo. As comparações com outros países são esdrúxulas. Nos países onde há mais condescendência com esse tipo de publicação, há também uma legislação rigorosa que é aplicada rigorosamente se alguém escrever e publicar algo que afete o biografado na sua honra ou dignidade. Nesses países, os processos que poderão advir de alguma coisa que lese o biografado, na maioria das vezes, redundam em valores monstruosos de multas e ressarcimentos por danos morais. Assim, o escritor e a editora jamais irão publicar algo indevido sob pena de terem que desembolsar milhões de dólares!
Não é o nosso caso. Aqui, os valores ajuizados para esse tipo de dano à individualidade e à privacidade estão muito abaixo do simbólico. Isto é, pode-se escrever qualquer coisa sobre quem quer que seja e, se houver um processo, paga-se uma multa irrisória e parte-se tranquilamente para a próxima biografia espúria, porque se sabe que não vai dar em nada. O editorial termina ainda citando os artigos 20 e 21 do Código Civil como sendo a “base da fúria obscurantista”. Para esse editorialista, o simples cuidado com a vida particular de uma ou duas pessoas vai nos levar de volta aos anos de chumbo da ditadura militar. Simplista, apelativo e extremamente sintomático. Além de corporativista ao extremo.
Herson Capri é ator
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Tostão - O craque não parece, é
Estado de Mimas - 18/09/13

A mais difícil definição no futebol é a de craque. Banalizaram o conceito. Qualquer bom jogador, habilidoso, ganha esse rótulo. São os mesmos que acham qualquer pelada uma maravilha, que não consideram ser antiético o procurador geral do STJD, Paulo Schmitt, viajar como convidado da CBF e que contestam o craque Alex, por criticar o calendário do futebol brasileiro. São os acríticos, como disse Juca Kfouri.
Ainda bem que existem os mais exigentes, chamados de ranzinzas, que esperam o tempo para separar os brilharecos dos verdadeiros craques.
CONTINUE LENDO ...
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
Tostão - Substituição correta
PUBLICADO EM O TEMPO 11/09/13
O Cruzeiro possui quase dois times do mesmo nível. Éverton Ribeiro evoluiu nos últimos jogos. Está mais agressivo, objetivo, finalizando mais e melhor. Antes, driblava e saía pouco do lugar. Já há pedidos para convocá-lo. Ainda é cedo.
CONTINUE LENDO ...
domingo, 8 de setembro de 2013
Sebastião Nunes Morrem os compositores, sobrevivem as orquestras
Vivendo bastante, parece que se aprende muito, quando não se aprende quase nada
O TEMPO 08/09/13 -
Em 1995, a sino-americana Sarah Chang, sob a regência do maestro indiano Zubin Mehta, dirigindo a Filarmônica de Berlim, interpretou o concerto para violino número 1 em ré maior do italiano Niccolò Paganini, o violinista diabólico. (Cinco países envolvidos!)
Zubin Mehta, na época com 59 anos, é um maestro famoso, reconhecido como um dos monstros sagrados das salas de concerto, ao lado de outro italiano, Claudio Abaddo, e do judeu argentino Daniel Barenboim, entre poucos outros. Hoje tem 77 anos e continua na ativa, saltitando pelo mundo de concerto em concerto.
Sarah Chang, a guria desta crônica, tinha 14 anos.
CONTINUE LENDO ....
domingo, 14 de julho de 2013
Escapismo - CAETANO VELOSO
O GLOBO
14/07/2013
Pedro Almodóvar, ao optar escancaradamente pela comédia nesse seu “Amantes passageiros”, disse que era natural querer rir das coisas, quando a Espanha está com problemas tão difíceis de resolver
Quando eu escrevia crítica de cinema em Salvador — e só andava com cinéfilos — a gente ouvia sempre que, durante a depressão dos anos 1930, Hollywood se voltou para as comédias: era um modo de fugir da realidade sombria. Pedro Almodóvar, ao optar escancaradamente pela comédia nesse seu “Amantes passageiros”, disse que era natural querer rir das coisas, quando a Espanha está com problemas tão difíceis de resolver (embora ele tenha enfatizado o aspecto alegórico da trama em que um punhado de gente não sabe onde vai parar). O filme foi mal recebido pela crítica, tanto aqui quanto na Espanha natal — e, quem sabe, em outras paragens —, mas eu fui assistir e gostei.Não diria que tenho motivos para defendê-lo criticamente. Apenas gostei de como ele é filmado. As cores são fotografadas de modo incrivelmente elegante. O movimento de câmera que vai da visão do avião de meio-perfil (e em contre-plongé) até a espiral que gira no centro da turbina é muito bonito — e essa firmeza de composição, por incrível que pareça, se mantém por todo o filme. É verdade que a gente ri mais no que resulta engraçado em meio aos melodramas do diretor do que nesta comédia que finge gritar “eu sou uma comédia” desde as primeiras imagens. Digo que finge porque a estilização irrealista e as caracterizações caricatas são pensadas para dar esse grito, mas o gosto refinado com que elas são realizadas (um ultracolorido diferente do ultracolorido dos outros filmes de Almodóvar) o amortece. Não de todo — e seguramente não de modo desagradável. Ao contrário: os debruados das poltronas do avião e das roupas dos aeromoços compõem sempre visões relaxantes e doces ao olhar. Mas a unidade com que isso se mantém através do filme, invadindo ruas e casas de Madri, aonde a película desce através de telefonemas de passageiros que falam com amantes em terra (na parte que talvez seja a mais quente de um filme suavemente frio), não ajuda a produzir gargalhadas.
Estou em Curitiba, onde acabo de fazer show num teatro muito bom de acústica. Depois saí para jantar com os caras da banda. Na TV do restaurante (é muito comum hoje em dia restaurantes terem aparelhos de televisão nas salas) vi imagens de pneus sendo queimados em estradas, líderes do MTST e da Força Sindical dando entrevistas, reincidência de truculência da polícia carioca, nesta quinta-feira de greve geral. Os pensamentos que se esboçavam em minha mente diante dessas imagens me faziam lembrar da tese do escapismo do cinema diante de crises. Pensei em Almodóvar e no que senti diante do filme dele. Mas pensei no sucesso de “Minha mãe é uma peça”, filme muito mais engraçado do que o do meu amigo espanhol, que vem reafirmando a tendência do público brasileiro para fruir comédias. Terá tal tendência prefigurado uma crise que parecia não existir faz um mês? Que, na verdade, parecia impossível de eclodir? Nada no filme de Pedro me deixou triste. Não é um bom filme, mas, mais importante, não é um filme mau. É bondoso. Mas tudo me deixa alegre no filme de André Pellenz. As risadas espontâneas que ele provoca, o sucesso que faz, a surpresa que é ver Paulo Gustavo fazer uma mulher na telona e nunca o fato de ser um cara travestido se sobrepor à credibilidade das situações, mesmo as mais naturalistas. E Niterói! Que beleza ver Niterói tão poeticamente captada num filme! Fiquei emocionado e me lembrei de quando conheci Paulo Gustavo, por intermédio de Luana Piovani, atuando ao lado de Fábio Porchat. E, bem depois, de quando vi “Minha mãe é uma peça” ainda no teatro, aonde fui mais de uma vez com meu filho Tom, que era ainda bem pequenininho e adorava o espetáculo (hoje ele tem 16 anos: já foi ver o filme e me disse que gostou e achou engraçadaço). Tudo isso me enternece. Se é para escapar das preocupações que a pergunta sobre a entrada dos sindicatos e dos grupos sociais organizados na onda de protestos põe para os políticos, as novas cores de Almodóvar servem de calmante, mas as falas da mãe niteroiense (e de seus irresistíveis filhos, amigos, parentes, ex-marido e desafetos) nos arrancam da cadeira e nos sacodem (no sentido pernambucano da palavra) os grilos fora.
No caso Ecad, só digo que Fernando Brant, na reunião, sentou-se com conforto, ao lado da advogada que foi com ele, em posição central, com visão ampla de todos os que estavam na sala. Inverdade o que ele diz quanto a isso no texto que espalhou. Eu já disse isso a ele. Tendo agora a crer que a ida de minha turma a Brasília afina mais com o clamor das ruas do que contrasta com ele. Mas não quero tratar aqui de coisas complicadas. Só quero pensar em Paulo Gustavo, Niterói, Tom e o cinema que faz rir.
O capitão Horácio - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO
ESTADÃO - 14/07/2013
Tive um caso com o capitão Horácio por anos. Até resolver me curar
— Esta é a minha esposa, Rute...
— Humm. Simpática. — Ela é uma mulher fantástica. Estamos casados há 25 anos.
— E estes são...— Os filhos. Gustavo e Leinha. Foi a Leinha que nos deu a única neta. Olha só, que amor...
— Que beleza!
— Maria Rita. Três anos. A queridinha do vovô.
— E este?
— Ah, este é o capitão Horácio.— Capitão Horácio?— O amor da minha vida.
— O quê?— Do tempo em que eu era homossexual. Tivemos um caso durante sete anos, até eu resolver me curar.
— Você era homossexual e se curou?— Sim. Foram sete anos intensos com o capitão Horácio, mas senti que aquilo não era pra mim.
— E como você se curou?— Não foi fácil. Procurei psicólogos, psicanalistas, grupos de apoio, orientação religiosa... Finalmente me sugeriram que experimentasse a homeopatia.
— Homeopatia?!— Chá de cipó amarelo. — E deu certo?— Tiro e queda.— Esse chá...
— Tomo todos os dias, depois do almoço. O cipó amarelo vem da Amazônia. Os índios tomam desde pequenos, para prevenir.
— Mas...você carrega uma foto do capitão Horácio na carteira...
— Foi um período importante na minha vida, que eu não quero esquecer.— E como foi a separação?
— Amigável. Ele era uma pessoa muito distinta. Espiritual. E atlético, maratonista. Ou era, quando nos conhecemos.
— Não foi um rompimento traumático, então?
— Não. Ele entendeu minha posição, nos despedimos... E nunca mais se viram?
— Nunca. Não sei que fim ele levou. Ou que cara tem hoje. Certamente não é mais a da foto.
— Quer dizer que existe cura para o homosexualismo? — Existe. As pessoas ficam fazendo pouco desse deputado Feliciano, mas existe. Chá de cipó amarelo da Amazônia. Dou a receita para quem quiser.
— E é tiro e queda?
— Tiro e queda.
Tive um caso com o capitão Horácio por anos. Até resolver me curar
— Esta é a minha esposa, Rute...
— Humm. Simpática. — Ela é uma mulher fantástica. Estamos casados há 25 anos.
— E estes são...— Os filhos. Gustavo e Leinha. Foi a Leinha que nos deu a única neta. Olha só, que amor...
— Que beleza!
— Maria Rita. Três anos. A queridinha do vovô.
— E este?
— Ah, este é o capitão Horácio.— Capitão Horácio?— O amor da minha vida.
— O quê?— Do tempo em que eu era homossexual. Tivemos um caso durante sete anos, até eu resolver me curar.
— Você era homossexual e se curou?— Sim. Foram sete anos intensos com o capitão Horácio, mas senti que aquilo não era pra mim.
— E como você se curou?— Não foi fácil. Procurei psicólogos, psicanalistas, grupos de apoio, orientação religiosa... Finalmente me sugeriram que experimentasse a homeopatia.
— Homeopatia?!— Chá de cipó amarelo. — E deu certo?— Tiro e queda.— Esse chá...
— Tomo todos os dias, depois do almoço. O cipó amarelo vem da Amazônia. Os índios tomam desde pequenos, para prevenir.
— Mas...você carrega uma foto do capitão Horácio na carteira...
— Foi um período importante na minha vida, que eu não quero esquecer.— E como foi a separação?
— Amigável. Ele era uma pessoa muito distinta. Espiritual. E atlético, maratonista. Ou era, quando nos conhecemos.
— Não foi um rompimento traumático, então?
— Não. Ele entendeu minha posição, nos despedimos... E nunca mais se viram?
— Nunca. Não sei que fim ele levou. Ou que cara tem hoje. Certamente não é mais a da foto.
— Quer dizer que existe cura para o homosexualismo? — Existe. As pessoas ficam fazendo pouco desse deputado Feliciano, mas existe. Chá de cipó amarelo da Amazônia. Dou a receita para quem quiser.
— E é tiro e queda?
— Tiro e queda.
domingo, 7 de julho de 2013
PAULO SANT’ANA - A insônia do poeta
ZERO HORA - 07/07/2013
O poeta Luiz de Miranda, morador de POA, manda-me uma mensagem comovente. Ele passa por intransponíveis dificuldades, relacionadas com sua velhice e pobreza.
É de cortar o coração. Sua mensagem para mim é bem curta, por isso vou transcrevê-la, tenho a finalidade de que alguém o ajude, o poder público ou a sociedade.
Eis o apelo lancinante de Luiz de Miranda, que não tem emprego nem aposentadoria:
“Querido Paulo Sant’Ana. Estou vivendo em completa miséria. Vivo há vários anos fazendo uma refeição por dia. Escolhi jantar. Não tenho nenhuma fonte de renda, pois poesia não dá dinheiro. Agora, sou candidato ao Nobel de Literatura 2013, o primeiro gaúcho num Nobel. Estou sofrendo há algum tempo uma ação de despejo, a qualquer momento posso ser colocado na rua.
O prefeito Fortunati ficou de me dar uma pensão mensal, mas se passaram mais de dois anos e nada aconteceu. O governo do Estado nada fez. Tenho problema de saúde: diabetes, pressão alta, insônia crônica. A cada mês, tenho que arrumar dinheiro com meus amigos. Devo ser o único candidato a um Nobel que não tem onde comer e morar. Mando-te o abraço amigo do sul do mundo. (ass.) Luiz de Miranda.”.
Não há poeta no mundo que produza mais textos que Luiz de Miranda, sua capacidade de poetar é admirável, em quantidade ele bate todos os outros poetas. E em qualidade se equipara a muitos deles e supera tantos e tantos.
Não sei, mas imagino o que o poeta está passando, disse-me na mensagem que só faz uma refeição por dia, que está sendo despejado. A vida é mesmo cruel, um poeta semifaminto, ameaçado de ser expulso do lar que mantém a custo, doente, resistindo, resistindo e sempre poetando.
Se fosse moço, teria esperança, mas com 68 anos de idade não compreendo como ainda não lhe faltaram as forças para sobreviver.
Suponho que Luiz de Miranda passa por essa dificuldade física, material e espiritual porque se entregou loucamente à poesia durante toda a sua vida e não teve previdência quanto a seu futuro.
Há poetas, como Miranda, que não se importam com seu destino, querem é dar vazão à sua inspiração. E escrevem, escrevem, cantam como uma cigarra da fábula, sem precaver-se com o inverno.
Tenho esperança que alguém o ajude, o prefeito, os vereadores, os deputados estaduais.
Ele é um conterrâneo que merecia pelo menos um lar decente com duas refeições por dia.
Será que comovo com esta coluna algumas autoridades?
Porto Alegre e o Rio Grande não podem deixar finar-se um poeta sem o nosso auxílio.
O poeta Luiz de Miranda, morador de POA, manda-me uma mensagem comovente. Ele passa por intransponíveis dificuldades, relacionadas com sua velhice e pobreza.
É de cortar o coração. Sua mensagem para mim é bem curta, por isso vou transcrevê-la, tenho a finalidade de que alguém o ajude, o poder público ou a sociedade.
Eis o apelo lancinante de Luiz de Miranda, que não tem emprego nem aposentadoria:
“Querido Paulo Sant’Ana. Estou vivendo em completa miséria. Vivo há vários anos fazendo uma refeição por dia. Escolhi jantar. Não tenho nenhuma fonte de renda, pois poesia não dá dinheiro. Agora, sou candidato ao Nobel de Literatura 2013, o primeiro gaúcho num Nobel. Estou sofrendo há algum tempo uma ação de despejo, a qualquer momento posso ser colocado na rua.
O prefeito Fortunati ficou de me dar uma pensão mensal, mas se passaram mais de dois anos e nada aconteceu. O governo do Estado nada fez. Tenho problema de saúde: diabetes, pressão alta, insônia crônica. A cada mês, tenho que arrumar dinheiro com meus amigos. Devo ser o único candidato a um Nobel que não tem onde comer e morar. Mando-te o abraço amigo do sul do mundo. (ass.) Luiz de Miranda.”.
Não há poeta no mundo que produza mais textos que Luiz de Miranda, sua capacidade de poetar é admirável, em quantidade ele bate todos os outros poetas. E em qualidade se equipara a muitos deles e supera tantos e tantos.
Não sei, mas imagino o que o poeta está passando, disse-me na mensagem que só faz uma refeição por dia, que está sendo despejado. A vida é mesmo cruel, um poeta semifaminto, ameaçado de ser expulso do lar que mantém a custo, doente, resistindo, resistindo e sempre poetando.
Se fosse moço, teria esperança, mas com 68 anos de idade não compreendo como ainda não lhe faltaram as forças para sobreviver.
Suponho que Luiz de Miranda passa por essa dificuldade física, material e espiritual porque se entregou loucamente à poesia durante toda a sua vida e não teve previdência quanto a seu futuro.
Há poetas, como Miranda, que não se importam com seu destino, querem é dar vazão à sua inspiração. E escrevem, escrevem, cantam como uma cigarra da fábula, sem precaver-se com o inverno.
Tenho esperança que alguém o ajude, o prefeito, os vereadores, os deputados estaduais.
Ele é um conterrâneo que merecia pelo menos um lar decente com duas refeições por dia.
Será que comovo com esta coluna algumas autoridades?
Porto Alegre e o Rio Grande não podem deixar finar-se um poeta sem o nosso auxílio.
Ritmo - Caetano Veloso
O GLOBO
07/07/2013
Decidi aderir à campanha de apoio ao PLS129 porque, engolfado pelo entusiasmo de tantos colegas, percebi que a situação amadurecera muito em muito pouco tempo
Os compositores e cantores que vieram a Brasília para apoiar o PLS 129 estavam muito cheios de vida. De Roberto Carlos a Emicida, de Nando Reis a Gaby Amarantos, de Rogério Flausino a Carlinhos Brown, todos pareciam dotados de uma grande energia, o que para mim era surpreendente. Suponho que é porque eu próprio tenha estado tanto tempo remoendo dúvidas e buscando uma concórdia entre os colegas que sentem a necessidade de questionar o Ecad e os que atuam nas sociedades arrrecadadoras a que ele serve de guarda-chuva. Dias antes, no Rio, Lenine me disse que minha dúvida é que o tinha motivado a agir na direção da aprovação do PLS. Ontem, na sala da presidência do Senado, ele, utilizando a melodia do refrão da irresistível canção de Roberto, liderava o coro: “Esse Ecad sou eu”.Decidi aderir à campanha porque, engolfado pelo entusiasmo de tantos colegas, percebi que a situação amadurecera muito em muito pouco tempo: insatisfações acumuladas chegaram a um ponto que meus chamados ao diálogo se tornaram irrealistas. Cheguei a conseguir ouvir as duas partes discutindo. Mas a essa altura já estava mais dedicado a entender os motivos dos questionamentos do que a deplorar a discórdia entre amigos criadores. Temos no Brasil uma entidade que, tendo sido criada por lei, detém o monopólio da arrecadação e distribuição de direitos. Essa entidade foi criada juntamente com o Conselho Nacional de Direito Autoral, que a fiscalizava. Este foi extinto (sob Collor) e nada veio ocupar o seu lugar.
Ou seja: há um monopólio sem regulação. Daí, zero transparência. O grande pleito dos autores não é receber mais, é poder saber por que recebem o que recebem — e, mais sério, por que tantos colegas seus não recebem nada. Para mim, esse tema ressurgiu quando, ao receber um manifesto intitulado “Vivo de música” — em que compositores eram convidados a assinar um texto em defesa cega do Ecad, contra a condenação, de parte do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, por formação de cartel — senti, sem conversar com ninguém sobre o assunto, que devia esperar, pensar mais, enfim, não assinar automaticamente. Não foi uma intuição sobrenatural. Foi instantânea lembrança de várias conversas mantidas ao longo dos anos. Nesse clima, recebi um e-mail de Fernando Salem com apenas uma pergunta: “Você entende isso?” e a cópia de um artigo de Sérgio Ricardo, dizendo que a suspeita de que a condenação do Ecad pelo Cade fosse do interesse de grandes grupos de mídia não poderia impedi-lo de reafirmar as queixas que ele próprio tinha contra o órgão de arrecadação. E indicava a leitura de um texto de Ivan Lins, em que este dava conta de quanto desaprovava o Ecad em seus modos de operar. Fiquei de orelha em pé.
A ministra Marta pediu ao senador Randolfe (que eu já conhecia da campanha do Freixo e que foi estimulado pelo grupo Fora do Eixo) que contactasse Paula Lavigne. O senador foi a ela com membros do Gap (Leoni, Fernanda Abreu, Tim Rescala, Frejat e outros). Depois recebi Marta no meu camarim em Sampa. Todas as conversas que se seguiram foram muito racionais por parte deles e muito inquietantes para mim: havia colegas nos dois lados. Eu desejava que os dois grupos dialogassem antes de eu me posicionar. E foi isso que escrevi aqui na coluna. O mero fato de eu dizer que não tinha assinado o manifesto e de sugerir tal diálogo fez com que, de um lado, a turma do Gap marcasse encontros para explicar que se tratava de exigir transparência, e, de outro, a turma do Ecad me enviasse e-mails alertando contra o perigo de “estatização” e de “caos”.
Quando fui ao Senado (em cujo plenário ninguém faz silêncio, o que me causou mal-estar) e acompanhei meus amigos num encontro com a presidente Dilma, eu já estava seguro de que não havia risco de “estatização”: os artistas definirão a estrutura do órgão, e a presidente concorda que este tem de ser composto por maioria de autores.
Houve reuniões na casa de Gil e de Paula Lavigne. Chico Buarque, que tinha assinado o manifesto do Ecad, foi a três delas. Pensei que ele fosse ser meu companheiro de dúvidas e exigências intermináveis. Mas ele chegou em casa e pediu que seu nome fosse retirado do manifesto. Daí em diante só vi crescer a vontade de mudança. Djavan mostrou tanto entusiasmo que queria que fôssemos à Cinelândia e fizéssemos um show-protesto. As manifestações de rua ainda não tinham começado. Lenine acha que tem tudo a ver. Há quem tema o contrário. Penso no ritmo das coisas no tempo. Os Racionais MCs tiveram seus créditos retidos pelo Ecad. É hora de mudar.
Eu teria mesmo de vir a Brasília: tenho show marcado aqui hoje. Meu destino eu não traço.
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Os órfãos no mundo político - Marcos Coimbra
Revista Carta Capital -
01/07/2013
POR MARCOS COIMBRA
A CLASSE MÉDIA ANTIPETISTA NÃO SE SENTE REPRESENTADA PELA OPOSIÇÃO.
Sua tentativa de controlar as ruas é prova desse vazio
Enquanto perdem fôlego e amainam as manifestações que afetaram o País nas últimas semanas, está na hora de procurar entender seu significado. Uma das maiores dificulades para compreende-las está no fato de os protestos não terem sentido único, salvo talvez nos primórdios, quando usuários de transportes públicos foram às ruas em São Paulo para reclamar do aumento no preço das passagens, Naquele momento ainda tínhamos o cenário capaz de explicaras mobilizações sociais mais características: causa concreta, indivíduos diretamente afetados, reivindicações claras.As manifestações seguintes, muito se diz, foram novas. Diferentes, por exemplo, daquelas conduzidas pela direita em busca da deposição de João Goulart nos anos 60 do século passado.
Mas será que a "horizontalidade" e a "difusão" das atuais as tornam mesmo originais? Não terá existido, nas manifestações deste mês de junho, um segmento com um papel definidor análogo àquele dos anticomunistas e dos conservadores católicos nas marchas de 1964? Entre os muitos tipos presentes nas ruas, nenhum forneceu personalidade ao "movimento"?
Para identificar o sentido dos protestos de agora, temos o perfil mais típico dos participantes, suas bandeiras mais características e as reações mais comuns suscitadas.
Nada ilustra melhor a mudança do perfil socioeconômicodos manifestantes do que a imagem veiculada pela TV Globo nos primeiros jogos do Brasil na Copa das Confederações: madames vestidas a caráter e cheias de balangandãs com cartazes de apelo ao "fim da corrupção" e com propaganda de um endereço noTwitter. Os jovens tornados astros dos "insatisfeitos" no YouTube parecem seus filhos ou irmãos.
No conteúdo, o elemento central da "ideologia das ruas" foi a crítica à reprerentação políticae às instituições, particularmente os partidos políticos. Os manifestantes gritaram País afora não se sentirem representados por ninguém, foram à rua para denunciar os "políticos" e "fazer política com as próprias mãos". As vagas perorações em favor de "mais verbas para a educação e a saúde" ou contra os "gastos exagerados na Copa do Mundo" não passaram de pretextos para externar sua aversão ao sistema político e ao governo.
Quem monitorou as redes sociais durante esses dias percebeu: os defensores mais entusiastas das passeatas foramos antipetístas radicais. Esses se senti ram em íntima comunhão com os participantes e torceram para as manifestações escalarem a ponto de enfraquecer o governo e prejudicar as chances de reeleição de Dilma Rousseff.
Para dizer o óbvio, quem deu o sentido das manifestações foi a classe média antipetista, predominantemente de direita. Nem sempre, nem todos os participantes, mas em seu núcleo característico. Ou seja: embora tenham participado do movimento desde punks neonazistas até adolescentes apenas curiosos (e mesmo gente genuinamente progressista), seu rosto é nítido.
A classe média antipetista tem motivos reais para estar insatisfeita com a sua representação. Ao contrário do cidadão simpatizante do PT e de outros partidos de esquerda, eque majoritariamente aprova o governo, ela se sente mal representada.Faz tempo Fernando Henrique Cardoso lhe dá razão. Em texto de 2011, em que tentava explicar a vitória de Dilma e definia novos caminhos para a oposição, o ex-presidente propunha ao PSDB deixar o "povão" para o PT e procurar a classe média: "É a essa que as oposições devem dirigir suas mensagens prioritariamente". O partido precisava, segundo FHC, "mergulhar na vida cotidiana" e encontrar "1igações orgânicas com grupos que expressem as dificuldades e anseios do homem comum" (leia-se de classe média).
Lembrava a existência de "toda uma gama de classes médias", empresários jovens, profissionais, "novas classes possuidoras", "ausentes do jogo político-partidário, mas não desconectadas das redes de internet, Facebook, YouTube, Twitter etc." A considerar seu "pragmatismo", o discurso para atraí-las não deveria ser "institucional", mas centrado em temas como a corrupção, o trânsito, os problemas urbanos, os serviços públicos.
FHC queria uma oposição pronta a suscitar o interesse da classe média e que lhe "oferecesse alternativas". Se não conseguisse ser "uma alternativa viável de poder, u m caminho preparado por lideranças nas quais confie", nem sequer adiantaria "se a fagulha da insatisfação produzisse um curto-circuito".
Falou, mas não fez. Nesta, como em outras oportunidades, as oposições brasileiras mostraram-se mais competentes na conversa do que na ação. Perceberam os desafios, mas não lhes deram resposta.
Foram de José Serra, quando precisavam renovar-se. Apresentam Aécio Neves como continuador da "herança de FHC". Nada fizeram para "organizar-se pelos meios eletrônicos, dando vida a debates verdadeiros sobre os temas de interesse dessas camadas", como sugeria o ex-presidente.Presas de seus paradoxos, as oposições criaram a crise de representação dos setores da sociedade a quem pretendiam (e deveriam) expressar. Talvez principalmente tenha sido a impaciência das classes médias antipetístas com a oposição que as levou às ruas.
Depois, é claro, de um ano de ataque da mídia conservadora ao governo. Seus estrategistas acharam ter conseguido, por meio de incursões cirúrgicas, eliminar apenas as lideranças do PT. Terminaram, porém, por ferir valores fundamentais da democracia.
FHC PEDIA AOS SEUS UM MERGULHO "NA VIDA COTIDIANA" E A BUSCA DE "LIGAÇÕES ORGÂNICAS COM GRUPOS QUE EXPRESSEM AS DIFICULDADES E OS ANSEIOS DO HOMEM COMUM". COMO DE COSTUME. NÃO FOI OUVIDO
POR MARCOS COIMBRA
A CLASSE MÉDIA ANTIPETISTA NÃO SE SENTE REPRESENTADA PELA OPOSIÇÃO.
Sua tentativa de controlar as ruas é prova desse vazio
Enquanto perdem fôlego e amainam as manifestações que afetaram o País nas últimas semanas, está na hora de procurar entender seu significado. Uma das maiores dificulades para compreende-las está no fato de os protestos não terem sentido único, salvo talvez nos primórdios, quando usuários de transportes públicos foram às ruas em São Paulo para reclamar do aumento no preço das passagens, Naquele momento ainda tínhamos o cenário capaz de explicaras mobilizações sociais mais características: causa concreta, indivíduos diretamente afetados, reivindicações claras.As manifestações seguintes, muito se diz, foram novas. Diferentes, por exemplo, daquelas conduzidas pela direita em busca da deposição de João Goulart nos anos 60 do século passado.
Mas será que a "horizontalidade" e a "difusão" das atuais as tornam mesmo originais? Não terá existido, nas manifestações deste mês de junho, um segmento com um papel definidor análogo àquele dos anticomunistas e dos conservadores católicos nas marchas de 1964? Entre os muitos tipos presentes nas ruas, nenhum forneceu personalidade ao "movimento"?
Para identificar o sentido dos protestos de agora, temos o perfil mais típico dos participantes, suas bandeiras mais características e as reações mais comuns suscitadas.
Nada ilustra melhor a mudança do perfil socioeconômicodos manifestantes do que a imagem veiculada pela TV Globo nos primeiros jogos do Brasil na Copa das Confederações: madames vestidas a caráter e cheias de balangandãs com cartazes de apelo ao "fim da corrupção" e com propaganda de um endereço noTwitter. Os jovens tornados astros dos "insatisfeitos" no YouTube parecem seus filhos ou irmãos.
No conteúdo, o elemento central da "ideologia das ruas" foi a crítica à reprerentação políticae às instituições, particularmente os partidos políticos. Os manifestantes gritaram País afora não se sentirem representados por ninguém, foram à rua para denunciar os "políticos" e "fazer política com as próprias mãos". As vagas perorações em favor de "mais verbas para a educação e a saúde" ou contra os "gastos exagerados na Copa do Mundo" não passaram de pretextos para externar sua aversão ao sistema político e ao governo.
Quem monitorou as redes sociais durante esses dias percebeu: os defensores mais entusiastas das passeatas foramos antipetístas radicais. Esses se senti ram em íntima comunhão com os participantes e torceram para as manifestações escalarem a ponto de enfraquecer o governo e prejudicar as chances de reeleição de Dilma Rousseff.
Para dizer o óbvio, quem deu o sentido das manifestações foi a classe média antipetista, predominantemente de direita. Nem sempre, nem todos os participantes, mas em seu núcleo característico. Ou seja: embora tenham participado do movimento desde punks neonazistas até adolescentes apenas curiosos (e mesmo gente genuinamente progressista), seu rosto é nítido.
A classe média antipetista tem motivos reais para estar insatisfeita com a sua representação. Ao contrário do cidadão simpatizante do PT e de outros partidos de esquerda, eque majoritariamente aprova o governo, ela se sente mal representada.Faz tempo Fernando Henrique Cardoso lhe dá razão. Em texto de 2011, em que tentava explicar a vitória de Dilma e definia novos caminhos para a oposição, o ex-presidente propunha ao PSDB deixar o "povão" para o PT e procurar a classe média: "É a essa que as oposições devem dirigir suas mensagens prioritariamente". O partido precisava, segundo FHC, "mergulhar na vida cotidiana" e encontrar "1igações orgânicas com grupos que expressem as dificuldades e anseios do homem comum" (leia-se de classe média).
Lembrava a existência de "toda uma gama de classes médias", empresários jovens, profissionais, "novas classes possuidoras", "ausentes do jogo político-partidário, mas não desconectadas das redes de internet, Facebook, YouTube, Twitter etc." A considerar seu "pragmatismo", o discurso para atraí-las não deveria ser "institucional", mas centrado em temas como a corrupção, o trânsito, os problemas urbanos, os serviços públicos.
FHC queria uma oposição pronta a suscitar o interesse da classe média e que lhe "oferecesse alternativas". Se não conseguisse ser "uma alternativa viável de poder, u m caminho preparado por lideranças nas quais confie", nem sequer adiantaria "se a fagulha da insatisfação produzisse um curto-circuito".
Falou, mas não fez. Nesta, como em outras oportunidades, as oposições brasileiras mostraram-se mais competentes na conversa do que na ação. Perceberam os desafios, mas não lhes deram resposta.
Foram de José Serra, quando precisavam renovar-se. Apresentam Aécio Neves como continuador da "herança de FHC". Nada fizeram para "organizar-se pelos meios eletrônicos, dando vida a debates verdadeiros sobre os temas de interesse dessas camadas", como sugeria o ex-presidente.Presas de seus paradoxos, as oposições criaram a crise de representação dos setores da sociedade a quem pretendiam (e deveriam) expressar. Talvez principalmente tenha sido a impaciência das classes médias antipetístas com a oposição que as levou às ruas.
Depois, é claro, de um ano de ataque da mídia conservadora ao governo. Seus estrategistas acharam ter conseguido, por meio de incursões cirúrgicas, eliminar apenas as lideranças do PT. Terminaram, porém, por ferir valores fundamentais da democracia.
FHC PEDIA AOS SEUS UM MERGULHO "NA VIDA COTIDIANA" E A BUSCA DE "LIGAÇÕES ORGÂNICAS COM GRUPOS QUE EXPRESSEM AS DIFICULDADES E OS ANSEIOS DO HOMEM COMUM". COMO DE COSTUME. NÃO FOI OUVIDO
As ruas empurram o poder - CYNARA MENEZES
Revista Carta Capital -
01/07/2013
Dilma Rousseff exerce a Política, o Congresso vota vários projetos e até o Supremo se mobiliza
Sem foco, pobres de conteúdo, “moda”, desvirtuadas pela direita ou infiltradas por vândalos. É possível apresentar todo tipo de crítica às manifestações das úl ti mas semanas, mas é inegável o efeito das ruas nos gabinetes da política. Se o tal gigante acordou, como dizia m os cartazes em inúmeras cidades, foi para dar uma chacoalhada e tirar da letargia principalmente o Congresso Nacional. O recesso do meio do ano foi cancelado e os parlamentares entraram em um frenesi legislativo a ponto de aprovar medidas às pencas sem ma iores reflexões a respeito de seus resultados.
Projetos de Lei e Propostas de Emendas Constitucionais que se arrastavam nas duas casas do Legislativo havia meses, anos até, saíram da gaveta. Para não ficar atrás no esforço cívico, o Supremo Tribunal Federal mandou prender o de putado federal Natan Donadon (PMDB-RO), condenado em 2010 por peculato e formação de quadrilha. A presidenta Dilma Rousseff, após um pronunciamento em cadeia nacional, reuniu-se com líderes dos protestos em São Paulo, sindicalistas, representantes da sociedade civil, governadores, prefeitos de capitais eaté integrantes da oposição. Lançou uma série de medidas e tenta dar forma aos desejos das ruas. Sua principal proposta é um plebiscito para definir as bases de uma reforma do sistema político e eleitoral.
Na terça-feira 25, os senadores mal saíram da reunião da Comissão de Constituição e Justiça e foram obrigados a correr ao plenário, onde o presidente da Casa, Renan Calheiros, lia atropeladamente os 16 itens que pretendia colocar na pauta de votação, "em resposta à sociedade”. No d ia seguinte, um fato inédito: o Senado não parou para assistir à vitória do Brasil sobre o Uruguai na Copa das Confederações. Preferiu votar os projetos Listados por Calheiros nas áreas de Saúde, Educação, Combate à Corrupção. Mobilidade Urbana e Segurança Pública, todos diretamente conectados com os protestos.
A PEC dno Trabalho Escravo, 11 anos de tramitação e sempre barrada pela bancada ruralista, foi aprovada na CC J e vai a plenário. O Senado aprovou ainda o projeto que transforma corrupçãoe homicídio em crimes hediondos, uma inutilidade legal, pois o problema está em levar corruptos e corruptores a julgamento. Os royalties do petróleo serão investidos em educação (75%) e saúde (25%). Na Câmara, a CCJ aprovou o fim das votações secretas durante processos de cassação de parlamentares e a PEC de autoria da deputada Luiza Erundina (PSB-SP) que iguala o transporte público aos direitos sociais na Constituição, ao lado de educação e saúde, abrindo caminho para a gratuidade. A polêmica PEC 37, limitadora do poder de investigação do Ministério Público, sucumbiu.
Outro reflexo das manifestações foi a criação de CPIs do Transporte Público em quatro cidades até agora: São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Maringá. Em Santa Mar ia (RS), manifest antes ocuparam a Câmara de Vereadores ao vir à tona uma gravação em que integrantes da CPI para apurar o incêndio na boate Kiss, que vitimou 242 jovens em janeiro, sugeriam a "blindagem" do prefeito Cezar Schirmer. O protesto pedia a renúncia dos vereadores flagrados na gravação.
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, cancelou a bilionária licitação dos ônibus para discuti r com a população e prometeu abrir as planilhas dos custos do transporte. “ Não podemos assinar contratos de 15 anos sem participação popular. O momento em que estamos exige a participação da sociedade.” O governador Geraldo Alckmin, que se havia unido ao prefeito e voltado atrás no reajuste da tari fia de metrô e trens, cancelou o aumento de 6,5% no valor do pedágio das estradas paulistas previsto para julho,
Na próxima terça-feira 2, Dilma Rousseffvaí enviar ao Congresso uma mensagem com ao menos dois itens fundamentais no plebiscito da reforma política: financiamento público, privado ou misto de campanha e o modelo de voto (distrital, distrital misto ou proporcional). O governo propõe um calendário apertado. O Pla nalto gostaria de realizar plebiscito em 5 de outubro, assim as mudanças valeriam para as eleições de 2014. Antes disso, o Congresso precisa, porém, transformar a mensagem em decreto legislativo e aprovar. Seriam necessárias no mínimo duas semanas de campanha antes do voto popular.
Embora o Planalto tenha anunciado na quinta-feirüa 27 um acordo inicial com a base aliada, a resistência na Câmara dos Deputados ao plebiscito é forte. Os parlamentares mais influentes, aliados inclusive, preferem o referendo: o Congresso primeiro aprovaria a lei e só depois a população opinaria se concorda ou d iscord ade cada item. Para o governo, não funcionaria, pois a reforma política está na pauta faz muitos anos e sofre feroz resistência no Parlamento. O último projeto, de autoria do deputado petista Henrique Fontana, nunca foi debatido em plenário, apesar de sua inegável qualidade. Fontana defende a votação de sua proposta, seguida por um referendo.
Com o anúncio na segunda-feira 24, e posterior desistência, da proposta de uma Assembleia Constituinte exclusiva para cuidar da reforma política, Dilma atraiu a resistência de parte do Congresso, à exceção dos partidos de esquerda. A ideia foi descrita pela oposição como um "golpe", um arroubo chavista. Fernando Hen rique Cardoso mais uma vez esqueceu as próprias ideias e atacou a Constituinte, embora tenha proposto algo muito semelhante em 1999.0 PMDB também não gostou. Resultado: Ca1hei ros deu uma canja ao senador mineiro Aécio Neves, autorizado a discursar por uma hora e meia enquanto o presidente do Senado presidia a sessão. O GloboNews, canal de notícias da Globo, deu outra mão: transmitiu ao vivo boa parte do discurso do tucano, centrado em críticas duras à presidenta.
Ironicamente, a única capital onde os protestos mantêm vigor (40 mil na quarta 26) é a Belo Horizonte do senador mineiro. E a notícia não é boa para a oposição. Uma pesquisa entre os manifestantes realizada pelo instituto Innovare mostrou que os mineiros nas ruas têm rejeição menor à presidenta do que ao governador tucano Antonio Anastasia e ao prefeito de Belo Horizonte. Mareio Lacerda, do PSB. Enquanto Dilma teve sua administração considerada negativa por 47,7% dos entrevistados, Anastasia foi rejeitado por 70,4% e Lacerda por 71,6%.
a quarta-feira 26, do lado de fora do Mineirão, uma manifestação descambou para uma batalha campal após um grupo ter rompido a barreira de proteção que fixava um limile imposto pela PM em torno do estádio. Envoltos pela fumaça do gás lacrimogêneo, manifestantes com o rosto encoberto invadiram uma concessionária e atearam fogo em vários veículos no meio da rua. No centro de BH. correria e con fusão.
A BASE ALIADA NÃO RECEBEU BEM A PROPOSTA DO PLEBISCITO PARA A REFORMA POLÍTICA E AMEAÇA RETALIAR. CONTRA DILMA HÁ QUEM QUEIRA ACABAR COM A REELEIÇÃO EM 2014
A mídia, por seu lado, segue ao sabor das ondas. No início condenou os protestos e chamou seus participantes de “vândalos”. Embarcou depois em uma “onda cívica” com o claro intuito de desestabilizar o governo federal. Diante da impossibilidade de domar o cavalo brabo das ruas conforme seus interesses, passou a emtir sinais de cansaço. Ou talvez tenha recuado por temer a possibilidade de o Palácio do Planalto transformar o limão em limonada. Em editoriais, os principais jornais do País condenaram ora o açodamento das decisões tomadas em Brasília, ora o “populismo” de algumas medidas e a própria reforma política. “Pesquisas feitas entre manifestantes, antes da reunião de segunda, não detectaram o desejo por uma reforma política”, contrapôs O Globo. Para o diário da família Marinho, seria “contorcionismo” aliar a reforma a algum dos itens das man i festações. Aparentemente os editoriais ignoram um fato: segundo especialistas, a reforma política, e em especial o financiamento público de campanha, seria fundamental para coibir a corrupção, tão lembrada nas manifestações.
Quem saiu em defesa da reforma foi o presidente do STF, Joaquim Barbosa. Após encontro com Dilma, Barbosa colocou em dúvida a capacidade do Congresso de aprovar a reforma. “Em um momento de crise grave como o atual, a propositura de reformas via emenda constitucional seria viável? Essas propostas já não tramitam no Congresso Nacional há anos? Houve em algum momento demonstração de vontade política de levar adiante essas reformas?” O presidente do Supremo fez algumas sugestões, entre elas a possibilidade de revogação do mandato (recall) e, curioso de sua parte, de candidaturas avulsas, independentes de partido. Barbosa e o vice-presidente da República, Michel Temer, demoveram Dilma da ideia da Constituinte. A discussão sobre a cons titucionalidade da proposta poderia durar meses, argumentaram. A presidenta recuou, mas vai insistir no plebiscito.
m efeito colateral do sopro das ruas foi desnudar de vez a resistência da base na Câmara a Dilma, não só por parte do PMDB como do próprio PT. As ameaças agora começam a ser feitas à luz do dia. O líder do PP, Arthur Lyra, acenou com a proposta do fim da reeleição em 2014, prejudicando-a, e o líder do PMDB, Eduardo Cunha, foi além e defendeu a inclusão do debate sobre o sistema de governo em uma possível consulta popular. “Se estivéssemos no parlamentarismo, este governo já teria caído.” Uma fonte do Palácio compara a crise atual com o Congresso àquela vivida por Lula quando explodiu a denúncia do chamado “mensalão”, em 2005. Naquela época, a saída encontrada por Lula foi se reaproximar dos movi mentos sociais. Nos últimos dias, Dilma, frequentemente criticada por não receber entidades representativas da sociedade, abriu as portas do Planalto aos jovens do Movimento Passe Livre, organizador dos primeiros protestos contra o aumento da tarifa em São Paulo. Estiveram com ela ainda representantes dos moradores de rua, da Central Única das Favelas, dos Trabalhadores Sem-Teto e da Pastoral Carcerária. Pode ser a hora de reencontrar velhos aliados.
Dilma Rousseff exerce a Política, o Congresso vota vários projetos e até o Supremo se mobiliza
Sem foco, pobres de conteúdo, “moda”, desvirtuadas pela direita ou infiltradas por vândalos. É possível apresentar todo tipo de crítica às manifestações das úl ti mas semanas, mas é inegável o efeito das ruas nos gabinetes da política. Se o tal gigante acordou, como dizia m os cartazes em inúmeras cidades, foi para dar uma chacoalhada e tirar da letargia principalmente o Congresso Nacional. O recesso do meio do ano foi cancelado e os parlamentares entraram em um frenesi legislativo a ponto de aprovar medidas às pencas sem ma iores reflexões a respeito de seus resultados.
Projetos de Lei e Propostas de Emendas Constitucionais que se arrastavam nas duas casas do Legislativo havia meses, anos até, saíram da gaveta. Para não ficar atrás no esforço cívico, o Supremo Tribunal Federal mandou prender o de putado federal Natan Donadon (PMDB-RO), condenado em 2010 por peculato e formação de quadrilha. A presidenta Dilma Rousseff, após um pronunciamento em cadeia nacional, reuniu-se com líderes dos protestos em São Paulo, sindicalistas, representantes da sociedade civil, governadores, prefeitos de capitais eaté integrantes da oposição. Lançou uma série de medidas e tenta dar forma aos desejos das ruas. Sua principal proposta é um plebiscito para definir as bases de uma reforma do sistema político e eleitoral.
Na terça-feira 25, os senadores mal saíram da reunião da Comissão de Constituição e Justiça e foram obrigados a correr ao plenário, onde o presidente da Casa, Renan Calheiros, lia atropeladamente os 16 itens que pretendia colocar na pauta de votação, "em resposta à sociedade”. No d ia seguinte, um fato inédito: o Senado não parou para assistir à vitória do Brasil sobre o Uruguai na Copa das Confederações. Preferiu votar os projetos Listados por Calheiros nas áreas de Saúde, Educação, Combate à Corrupção. Mobilidade Urbana e Segurança Pública, todos diretamente conectados com os protestos.
A PEC dno Trabalho Escravo, 11 anos de tramitação e sempre barrada pela bancada ruralista, foi aprovada na CC J e vai a plenário. O Senado aprovou ainda o projeto que transforma corrupçãoe homicídio em crimes hediondos, uma inutilidade legal, pois o problema está em levar corruptos e corruptores a julgamento. Os royalties do petróleo serão investidos em educação (75%) e saúde (25%). Na Câmara, a CCJ aprovou o fim das votações secretas durante processos de cassação de parlamentares e a PEC de autoria da deputada Luiza Erundina (PSB-SP) que iguala o transporte público aos direitos sociais na Constituição, ao lado de educação e saúde, abrindo caminho para a gratuidade. A polêmica PEC 37, limitadora do poder de investigação do Ministério Público, sucumbiu.
Outro reflexo das manifestações foi a criação de CPIs do Transporte Público em quatro cidades até agora: São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Maringá. Em Santa Mar ia (RS), manifest antes ocuparam a Câmara de Vereadores ao vir à tona uma gravação em que integrantes da CPI para apurar o incêndio na boate Kiss, que vitimou 242 jovens em janeiro, sugeriam a "blindagem" do prefeito Cezar Schirmer. O protesto pedia a renúncia dos vereadores flagrados na gravação.
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, cancelou a bilionária licitação dos ônibus para discuti r com a população e prometeu abrir as planilhas dos custos do transporte. “ Não podemos assinar contratos de 15 anos sem participação popular. O momento em que estamos exige a participação da sociedade.” O governador Geraldo Alckmin, que se havia unido ao prefeito e voltado atrás no reajuste da tari fia de metrô e trens, cancelou o aumento de 6,5% no valor do pedágio das estradas paulistas previsto para julho,
Na próxima terça-feira 2, Dilma Rousseffvaí enviar ao Congresso uma mensagem com ao menos dois itens fundamentais no plebiscito da reforma política: financiamento público, privado ou misto de campanha e o modelo de voto (distrital, distrital misto ou proporcional). O governo propõe um calendário apertado. O Pla nalto gostaria de realizar plebiscito em 5 de outubro, assim as mudanças valeriam para as eleições de 2014. Antes disso, o Congresso precisa, porém, transformar a mensagem em decreto legislativo e aprovar. Seriam necessárias no mínimo duas semanas de campanha antes do voto popular.
Embora o Planalto tenha anunciado na quinta-feirüa 27 um acordo inicial com a base aliada, a resistência na Câmara dos Deputados ao plebiscito é forte. Os parlamentares mais influentes, aliados inclusive, preferem o referendo: o Congresso primeiro aprovaria a lei e só depois a população opinaria se concorda ou d iscord ade cada item. Para o governo, não funcionaria, pois a reforma política está na pauta faz muitos anos e sofre feroz resistência no Parlamento. O último projeto, de autoria do deputado petista Henrique Fontana, nunca foi debatido em plenário, apesar de sua inegável qualidade. Fontana defende a votação de sua proposta, seguida por um referendo.
Com o anúncio na segunda-feira 24, e posterior desistência, da proposta de uma Assembleia Constituinte exclusiva para cuidar da reforma política, Dilma atraiu a resistência de parte do Congresso, à exceção dos partidos de esquerda. A ideia foi descrita pela oposição como um "golpe", um arroubo chavista. Fernando Hen rique Cardoso mais uma vez esqueceu as próprias ideias e atacou a Constituinte, embora tenha proposto algo muito semelhante em 1999.0 PMDB também não gostou. Resultado: Ca1hei ros deu uma canja ao senador mineiro Aécio Neves, autorizado a discursar por uma hora e meia enquanto o presidente do Senado presidia a sessão. O GloboNews, canal de notícias da Globo, deu outra mão: transmitiu ao vivo boa parte do discurso do tucano, centrado em críticas duras à presidenta.
Ironicamente, a única capital onde os protestos mantêm vigor (40 mil na quarta 26) é a Belo Horizonte do senador mineiro. E a notícia não é boa para a oposição. Uma pesquisa entre os manifestantes realizada pelo instituto Innovare mostrou que os mineiros nas ruas têm rejeição menor à presidenta do que ao governador tucano Antonio Anastasia e ao prefeito de Belo Horizonte. Mareio Lacerda, do PSB. Enquanto Dilma teve sua administração considerada negativa por 47,7% dos entrevistados, Anastasia foi rejeitado por 70,4% e Lacerda por 71,6%.
a quarta-feira 26, do lado de fora do Mineirão, uma manifestação descambou para uma batalha campal após um grupo ter rompido a barreira de proteção que fixava um limile imposto pela PM em torno do estádio. Envoltos pela fumaça do gás lacrimogêneo, manifestantes com o rosto encoberto invadiram uma concessionária e atearam fogo em vários veículos no meio da rua. No centro de BH. correria e con fusão.
A BASE ALIADA NÃO RECEBEU BEM A PROPOSTA DO PLEBISCITO PARA A REFORMA POLÍTICA E AMEAÇA RETALIAR. CONTRA DILMA HÁ QUEM QUEIRA ACABAR COM A REELEIÇÃO EM 2014
A mídia, por seu lado, segue ao sabor das ondas. No início condenou os protestos e chamou seus participantes de “vândalos”. Embarcou depois em uma “onda cívica” com o claro intuito de desestabilizar o governo federal. Diante da impossibilidade de domar o cavalo brabo das ruas conforme seus interesses, passou a emtir sinais de cansaço. Ou talvez tenha recuado por temer a possibilidade de o Palácio do Planalto transformar o limão em limonada. Em editoriais, os principais jornais do País condenaram ora o açodamento das decisões tomadas em Brasília, ora o “populismo” de algumas medidas e a própria reforma política. “Pesquisas feitas entre manifestantes, antes da reunião de segunda, não detectaram o desejo por uma reforma política”, contrapôs O Globo. Para o diário da família Marinho, seria “contorcionismo” aliar a reforma a algum dos itens das man i festações. Aparentemente os editoriais ignoram um fato: segundo especialistas, a reforma política, e em especial o financiamento público de campanha, seria fundamental para coibir a corrupção, tão lembrada nas manifestações.
Quem saiu em defesa da reforma foi o presidente do STF, Joaquim Barbosa. Após encontro com Dilma, Barbosa colocou em dúvida a capacidade do Congresso de aprovar a reforma. “Em um momento de crise grave como o atual, a propositura de reformas via emenda constitucional seria viável? Essas propostas já não tramitam no Congresso Nacional há anos? Houve em algum momento demonstração de vontade política de levar adiante essas reformas?” O presidente do Supremo fez algumas sugestões, entre elas a possibilidade de revogação do mandato (recall) e, curioso de sua parte, de candidaturas avulsas, independentes de partido. Barbosa e o vice-presidente da República, Michel Temer, demoveram Dilma da ideia da Constituinte. A discussão sobre a cons titucionalidade da proposta poderia durar meses, argumentaram. A presidenta recuou, mas vai insistir no plebiscito.
m efeito colateral do sopro das ruas foi desnudar de vez a resistência da base na Câmara a Dilma, não só por parte do PMDB como do próprio PT. As ameaças agora começam a ser feitas à luz do dia. O líder do PP, Arthur Lyra, acenou com a proposta do fim da reeleição em 2014, prejudicando-a, e o líder do PMDB, Eduardo Cunha, foi além e defendeu a inclusão do debate sobre o sistema de governo em uma possível consulta popular. “Se estivéssemos no parlamentarismo, este governo já teria caído.” Uma fonte do Palácio compara a crise atual com o Congresso àquela vivida por Lula quando explodiu a denúncia do chamado “mensalão”, em 2005. Naquela época, a saída encontrada por Lula foi se reaproximar dos movi mentos sociais. Nos últimos dias, Dilma, frequentemente criticada por não receber entidades representativas da sociedade, abriu as portas do Planalto aos jovens do Movimento Passe Livre, organizador dos primeiros protestos contra o aumento da tarifa em São Paulo. Estiveram com ela ainda representantes dos moradores de rua, da Central Única das Favelas, dos Trabalhadores Sem-Teto e da Pastoral Carcerária. Pode ser a hora de reencontrar velhos aliados.
O significado ainda obscuro - Mino Carta
Revista Carta Capital -
01/07/2013
Só mesmo a direita reacionária afirma suas certezas
QUEM ENTENDE que as manifestações dos últimos dez ou mais dias mudam o Brasil? Justifica-se ainda a incerteza quanto ao real sign ificado do protesto, mas a direita já proclama a sua verdade. Deste ponto de vista, exemplares são Veja e Epoca da semana passada. Esmeram-se em edições retumbantes, uma histórica, outra especial, e invocam o suporte do "auriverde pendão de minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança", desfraldado em suas capas. E o conluio da retórica, do pieguismo e da h ipocrisia, bem ao contrário dos versos de Castro Alves, extraídos do poema O Navio Negreiro, repto contra acasa-grande e seus desmandos e prepotências.
Não é preciso ser de esquerda para entender que este nosso trópico tanto se inclina facilmente à festa quanto à ilusão. Para não cair no engodo, basta a razão, mercadoria raríssima, no entanto, nas nossas latitudes, como diz
Thomaz Wood na sua magistral coluna, publicada à página 43. A razão, fruto resplandecente do Iluminismo, do qual brotou a Revolução Francesa, aquela capaz de desencadear a Idade Moderna. A revolução que, 224 anos depois, ainda não aconteceu por aqui.
E nem haveria de se dar no país da casa-grande e da senzala, ainda de pé, implacáveis na sua permanência. A burguesia da França de 1789 soube envolver o povo no seu projeto de derrubar a monarquia por direito divi no, e a aristocracia e o alto clero que a cercavam. A turba serviu a suas intenções e, cumprida a tarefa voltou a ser povão. Ainda assim, aprendeu algo novo, e mais tarde tira ria proveito do aprendizado. Não é por este caminho, em todo caso, que o protesto das ruas nativas se move, mesmo porque os alvos são vagos e até insondáveis, a não ser aqueles do começo do movimento, quando a periferia elegeuo aumento das passagens de ônibus como simbolo dos maus-tratos que, em geral, o Estado 1 he impõe. O descaso ignóbil quelhe reserva.
Há uma questão contingente, visível a olho nu. O crescente descolamento das instituições ditas democráticas, dos poderes do Estado, do governo e dos partidos, daqueles que são interesses e necessidades da nação, da maioria dos cidadãos, conscientes ou não da cidadania. A difusa insatisfação, popular e nem tanto, talvez não passe de uma sensação nebulosa, mas se explica pela falta de comando e, portanto, de referência. De sancta sanctorum a quem recorrer. Anunciada a falência dos partidos, clamorosa a do PT. O verdadeiro partido de oposição é a mí-dianativa, Como tal age, àvontade diante da condescendência de um governo incapaz de reagir à altura, por motivos desconhecidos, às agressões diuturnas.
Parece até vocação de mulher de apache na sua mais inspirada exibição na Place Pigalle. Perfeito no papel de ministro do plim-plim, Paulo Bernardo. Nas páginas amarelas da já citada edição histórica da Veja, o ministro aparece, com direito a foto em pose de varão de Plutarco, para anunciar o propósito de acabar de vez com "a obsessão do PT de censurar aimprensa". Quem sabe o nosso herói seja apartidário.
Ora, ora, o ministro endossa a tese da mídia nativa, e ilie oferece o indispensável (decisivo?) apoio, enquanto a Secom. entidade inexistente em países mais democráticos e civilizados, distribui à mídia a publicidade governista com generosidade invulgar, especialmente às Organizações Globo, premiadas anualmente com mais de 900 milhões de reais.
A liberdade reclamada pelo jornalismo pátrio é a liberdade de fazer o que bem entende, inclusive inventa r. omitir e mentir. E o que diz Paulo Bernardo? Que assim seja. interessante observar que na última pági na da mesma edição da nau capitania da frota abri liana leio a seguinte interpretação das passeatas: “O povo (?) está dizendo que este governo de farsa montado por Lula há mais de dez anos rouba, mente, desperdiça, não trabalha, trapaceia, entrega-se aos escroques, cobra cada vez mais imposto e fornece serviços públicos vergonhoso. Suponho que, na opinião de Veja, o governo de Fernando Henrique tenha trafegado por rotas opostas e fornecido ao povo serviços públicos primorosos.
Na opinião de CarlaCapital, a própria democratização, por ora apenas esboçada, e com timidez, traria a solução ao limitar os alcances dos oligopólios midiáticos por meio de leis eficazes, hoje inatingíveis por obra de um Congresso totalmente comprometido, sem falar de ministros como Paulo Bernardo. Há quem diga que a concentração é o destino do poder jornalístico no mundo todo, mesmo assim o Reino Unido não hesitou recentemente em expulsar das terras britânicas Rupert Murdoch, o grande concentrador.
As considerações devem induzir quem concorda com elas a uma reflexão mais racional a respeito da situação que vivemos, de sorte a evitar as costumeiras decepções. Sem esquecer que os problemas contingentes plantam raízes no imanente. Ou seja, são próprios do país da casa-grande e da senzala, são o fruto de trés séculos e meio de escravidão ainda vivos embora enverguem trajes aparentemente contemporâneos. Tal é a questão que inquietava Castro Alves e, até hoje, serpenteia nas vísceras do Brasil. E vem à tona para impedir que a nação se una e compacte, a não ser na hora de aplaudir Neymar. Contra, aliás, as conveniências de uma burguesia sempre pronta a afirmar sua fé no capitalismo, sem saber do que se trata.
Só mesmo a direita reacionária afirma suas certezas
QUEM ENTENDE que as manifestações dos últimos dez ou mais dias mudam o Brasil? Justifica-se ainda a incerteza quanto ao real sign ificado do protesto, mas a direita já proclama a sua verdade. Deste ponto de vista, exemplares são Veja e Epoca da semana passada. Esmeram-se em edições retumbantes, uma histórica, outra especial, e invocam o suporte do "auriverde pendão de minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança", desfraldado em suas capas. E o conluio da retórica, do pieguismo e da h ipocrisia, bem ao contrário dos versos de Castro Alves, extraídos do poema O Navio Negreiro, repto contra acasa-grande e seus desmandos e prepotências.
Não é preciso ser de esquerda para entender que este nosso trópico tanto se inclina facilmente à festa quanto à ilusão. Para não cair no engodo, basta a razão, mercadoria raríssima, no entanto, nas nossas latitudes, como diz
Thomaz Wood na sua magistral coluna, publicada à página 43. A razão, fruto resplandecente do Iluminismo, do qual brotou a Revolução Francesa, aquela capaz de desencadear a Idade Moderna. A revolução que, 224 anos depois, ainda não aconteceu por aqui.
E nem haveria de se dar no país da casa-grande e da senzala, ainda de pé, implacáveis na sua permanência. A burguesia da França de 1789 soube envolver o povo no seu projeto de derrubar a monarquia por direito divi no, e a aristocracia e o alto clero que a cercavam. A turba serviu a suas intenções e, cumprida a tarefa voltou a ser povão. Ainda assim, aprendeu algo novo, e mais tarde tira ria proveito do aprendizado. Não é por este caminho, em todo caso, que o protesto das ruas nativas se move, mesmo porque os alvos são vagos e até insondáveis, a não ser aqueles do começo do movimento, quando a periferia elegeuo aumento das passagens de ônibus como simbolo dos maus-tratos que, em geral, o Estado 1 he impõe. O descaso ignóbil quelhe reserva.
Há uma questão contingente, visível a olho nu. O crescente descolamento das instituições ditas democráticas, dos poderes do Estado, do governo e dos partidos, daqueles que são interesses e necessidades da nação, da maioria dos cidadãos, conscientes ou não da cidadania. A difusa insatisfação, popular e nem tanto, talvez não passe de uma sensação nebulosa, mas se explica pela falta de comando e, portanto, de referência. De sancta sanctorum a quem recorrer. Anunciada a falência dos partidos, clamorosa a do PT. O verdadeiro partido de oposição é a mí-dianativa, Como tal age, àvontade diante da condescendência de um governo incapaz de reagir à altura, por motivos desconhecidos, às agressões diuturnas.
Parece até vocação de mulher de apache na sua mais inspirada exibição na Place Pigalle. Perfeito no papel de ministro do plim-plim, Paulo Bernardo. Nas páginas amarelas da já citada edição histórica da Veja, o ministro aparece, com direito a foto em pose de varão de Plutarco, para anunciar o propósito de acabar de vez com "a obsessão do PT de censurar aimprensa". Quem sabe o nosso herói seja apartidário.
Ora, ora, o ministro endossa a tese da mídia nativa, e ilie oferece o indispensável (decisivo?) apoio, enquanto a Secom. entidade inexistente em países mais democráticos e civilizados, distribui à mídia a publicidade governista com generosidade invulgar, especialmente às Organizações Globo, premiadas anualmente com mais de 900 milhões de reais.
A liberdade reclamada pelo jornalismo pátrio é a liberdade de fazer o que bem entende, inclusive inventa r. omitir e mentir. E o que diz Paulo Bernardo? Que assim seja. interessante observar que na última pági na da mesma edição da nau capitania da frota abri liana leio a seguinte interpretação das passeatas: “O povo (?) está dizendo que este governo de farsa montado por Lula há mais de dez anos rouba, mente, desperdiça, não trabalha, trapaceia, entrega-se aos escroques, cobra cada vez mais imposto e fornece serviços públicos vergonhoso. Suponho que, na opinião de Veja, o governo de Fernando Henrique tenha trafegado por rotas opostas e fornecido ao povo serviços públicos primorosos.
Na opinião de CarlaCapital, a própria democratização, por ora apenas esboçada, e com timidez, traria a solução ao limitar os alcances dos oligopólios midiáticos por meio de leis eficazes, hoje inatingíveis por obra de um Congresso totalmente comprometido, sem falar de ministros como Paulo Bernardo. Há quem diga que a concentração é o destino do poder jornalístico no mundo todo, mesmo assim o Reino Unido não hesitou recentemente em expulsar das terras britânicas Rupert Murdoch, o grande concentrador.
As considerações devem induzir quem concorda com elas a uma reflexão mais racional a respeito da situação que vivemos, de sorte a evitar as costumeiras decepções. Sem esquecer que os problemas contingentes plantam raízes no imanente. Ou seja, são próprios do país da casa-grande e da senzala, são o fruto de trés séculos e meio de escravidão ainda vivos embora enverguem trajes aparentemente contemporâneos. Tal é a questão que inquietava Castro Alves e, até hoje, serpenteia nas vísceras do Brasil. E vem à tona para impedir que a nação se una e compacte, a não ser na hora de aplaudir Neymar. Contra, aliás, as conveniências de uma burguesia sempre pronta a afirmar sua fé no capitalismo, sem saber do que se trata.
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